quarta-feira, 17 de abril de 2013

§III. A preguiça

 Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.
A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


            A preguiça é um vício anexo à sensualidade, porque vem, afinal, do amor do prazer, enquanto este nos leva a evitar o esforço o incômodo. Há, efetivamente, em todos nós uma atividade ao menor esforço, que nos paralisa ou diminui a atividade.   Exponhamos:

            1.º a sua natureza;
            2.º a sua malícia;
            3.º os seus remédios.

1. ° Natureza. A) A preguiça é uma tendência à ociosidade ou ao menos à negligência, ao topor na ação. Às vezes é uma disposição mórbida que vem do mau estado da saúde. As mais das vezes, porém é uma doença da vontade, que teme e recusa o esforço. O preguiçoso quer evitar qualquer trabalho, tudo quanto lhe pode perturbar o sossego e arrastar consigo fadigas. Verdadeiro parasita, vive, quanto pode, a ex­pensas dos outros. Manso e resignado, enquanto o não inquietam, impa­cienta-se e irrita-se, se o querem tirar da sua inércia.
            B) Há graus diversos na preguiça.

            a) O desleixado ou indolente não se move para cumprir o seu dever senão com lentidão, moleza e indiferença; tudo o que faz, fica sempre mal feito.
            b) O ocioso não recusa absolutamente o trabalho, mas anda sempre atrasado, vagueia por toda a parte sem fazer nada, adia indefinidamente a tarefa de que se encarregara.
           c) O verdadeiro preguiçoso, esse não quer fazer nada que fatigue, e mostra aversão pronunciada para qualquer trabalho sério do corpo ou do espírito.
            d) A preguiça nos exercícios de piedade chama-se acédia: é um certo fastio das coisas espirituais que leva a fazê-las desleixadamente, a encurtá-las, e até às vezes a omiti-las por vãos pretextos. É a mãe da tibieza, de que falaremos a propósito da via iluminativa.

2. ° Malícia. A) Para compreendermos a malícia da preguiça, cumpre-nos recordar que o homem foi feito para o trabalho. Quando Deus criou o nosso primeiro pai, pô-lo num paraíso de delícias, para que nele trabalhasse: «ut operaretur et custodiret illum[1]». É que, efetiva­mente, o homem não é como Deus, um ser perfeito; tem numerosas faculdades que, para se aperfeiçoarem, necessitam de operar: é pois, uma exigência da sua natureza trabalhar para cultivar as potências, pro­ver às necessidades do corpo e alma, e tender assim para o seu fim. A lei do trabalho precede, pois, a culpa original. Mas, depois que o homem pecou, tornou-se para ele o trabalho não somente uma lei da natureza, senão também um castigo, isto é, tornou-se penoso, como meio que é de reparar a sua falta. Com o suor do rosto havemos de comer o nosso pão, tanto o pão da inteligência como o pão que nos alimenta o corpo: «in sudore vultus tui vesceri pane[2]».
            Ora, a esta dupla lei, natural e positiva, é que o preguiçoso falta; comete, pois, um pecado, cuja gravidade se mede pela gravidade dos deveres que descura.
a)    Quando chega a omitir os deveres religiosos necessários à pró­pria salvação, há falta grave. O mesmo se diga, quando despreza volun­tariamente, em matéria importante, algum dos seus deveres de estado.
b)   Quando este torpor o não leva a descurar senão deveres religio­sos ou civis, de menor importância, não passa de venial o pecado. Mas a ladeira é resvaladia; se não se luta contra a negligência, não tarda esta em se agravar, tornando-se mais funesta e culpável.

B) Quanto à perfeição, é a preguiça espiritual um dos obstácu­los mais sérios, por causa dos seus funestos resultados.
            a) Torna-os a vida mais ou menos estéril. Pode-se efetivamente, aplicar à alma o que a Sagrada Escritura diz do campo do preguiçoso:
            «Passei perto do campo dum preguiçoso, e perto da vinha dum insensato. E eis que os espinhos ali cresciam por toda a parte, as silvas cobriam-lhe a superfície, e o muro de pedra estava por terra... Um pou­co de sono, um pouco de sonolência, um pouco cruzar as mãos para dormir, e a tua pobreza virá como um vagabundo e a tua indigência como um homem armado[3]»
            E exatamente o que se encontra na alma do preguiçoso: em lugar das virtudes, são os vícios que lá crescem, e os muros, que a mortifica­ção tinha elevado para proteger a virtude, caem pouco e pouco, prepa­rando o caminho à invasão do inimigo, isto é, do pecado.
            b) Dentro em breve, efetivamente, se tornam mais veemente e importunas as tentações: «porque a ociosidade ensinou muito mal, mul­tam malitiam docuit otiositas[4]». Foi ela que, com o orgulho, perdeu Sodoma: «Eis qual foi o crime de Sodoma: o orgulho, a abundância e o repouso sem cuidados em que vivia com sua filhas[5]». É que, na verdade, o espírito e o coração do homem não podem estar inativos: se não se absorvem no estudo ou me qualquer outro trabalho, são logo invadidos por um sem-número de imagens, pensamentos desejos e afetos; ora, no estado de natureza decaída, o que domina em nós, quando não reagimos contra ela , é a tríplice concupiscência; serão, pois, pensamentos sensu­ais, ambiciosos, orgulhosos, egoístas, interesseiros, que tomarão o pre­domínio em nossa alma, expondo-a ao pecado.

C) Não é, pois, somente a perfeição da nossa alma que está aqui em jogo, mas até a sua eterna salvação. Porque, além das faltas positivas em que nos faz cair a ociosidade, só o fato de não cumprirmos os nossos deveres importantes é causa suficiente de reprovação. Fomos criados para servir a Deus e cumprir os nossos deveres de estado, somos operários enviados por Deus para trabalhar na Sua vinha. Ora o Senhor não exige somente aos obreiros que se abstenham de fazer mal; quer que trabalhem. Por conseguinte, se, sem cometermos atos positivos contra as leis divinas, cruzamos os braços, em vez de trabalharmos, não nos há de o Senhor exprobrar, como aos obreiros, a nossa ociosidade: «quid statis tota die otiosi?». A árvore estéril, só pelo fato de não produzir fruto, merece ser cortada e lançada ao fogo: «omnis arbor, quae non facit fructum bonum, excidetur et in ignem mittetur[6]»

3. ° Remédios. A) Para curar o preguiçoso, é necessário antes de tudo inculcar-lhe convicções profundas sobre a necessidade do trabalho, fazer-lhe compreender que ricos e pobres estão sujeitos a esta lei e que basta faltar a ela para incorrer na eterna condenação. E esta a lição que nos dá Nosso Senhor Jesus Cristo na parábola da figueira estéril. Três anos a fio vem o dono buscar os frutos; não os encontramos, dá ordem ao pomareiro que corte a árvore: «succide illam, ut quid etiam terram occupat?[7]»
            E ninguém diga: eu sou rico, não tenho necessidade de trabalhar. - Se não precisais de trabalhar para vós mesmos, deveis fazê-lo para os outros. É Deus, vosso Senhor, que vo-lo manda: se vos deu braços, cére­bro, inteligência, recursos, foi para que os utilizásseis para Sua glória e para bem de vossos irmãos. E certo que não são as obras de caridade ou zelo que faltam: quantos pobres para socorrer, quantos ignorantes para instruir, quantos corações aflitos para consolar, quantas empresas para fundar, a fim de dar trabalho e pão aos que o não têm! E quem pretende fundar uma família numerosa, não tem que sofrer e trabalhar para asse­gurar o futuro dos filhos? - Ninguém esqueça, pois, a grande lei da soli­dariedade cristã, em virtude da qual o trabalho de cada um é útil para todos, enquanto a preguiça danifica o bem geral, como o particular.

B) Às convicções cumpre juntar o esforço consequente e metódico, aplicando as regras traçadas acerca da educação da vontade (n. 812). E, como o preguiçoso recua instintivamente perante o esforço, importa mostrar-lhe que não há, afinal, ninguém mais infeliz que o ocioso: não sabendo como empregar ou, segundo a sua expressão, matar
enfada-se, desgosta-se de tudo, e acaba por ter horror à vida. Não vale mais fazer um esforço para se tornar útil e conquistar um pou­co de felicidade, ocupando-se em fazer felizes à volta de si mesmo?
            Entre os preguiçosos, há alguns que desenvolvem uma certa ativi­dade mas unicamente em jogos, desportos, reuniões mundanas. A estes, necessário lembrar-lhes a seriedade da vida e o dever de se tornarem úteis para que dirijam a atividade para um campo mais nobre e tenham horror de ser parasitas. O matrimônio cristão, com as obrigações de família que traz consigo, é muitas vezes excelente remédio: um pai de família sente a necessidade de trabalhar para os filhos e de não confiar a estranhos a administração dos seus bens.
            Mas o que nunca se deve cessar de lhes recordar é o fim da vida: estamos aqui, na terra, não para vivermos como parasitas, senão para con­quistarmos, pelo trabalho e pela virtude, um lugar no céu. E Deus não cessa de nos dizer: Que fazeis aqui preguiçosos? Ide também trabalhar na minha vinha. «Quid hic statis tota die otiosi?... Ite et vos in vineam meam[8]». 



[1] Gn 2, 15.
[2] Gn 3, 19.
[3] Pr 24, 30-31.
[4] Eclo 33, 29.
[5] Ez 16, 49.
[6] Mt 3, 10.
[7] Lc 13, 7.
[8] Mt 20, 6-8.
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