quarta-feira, 30 de junho de 2010

Hora Santa de Julho

Hora Santa de Julho
Pe. Mateo Crawley-Boevey


Mil vezes felizes os desgraçados que, ao dobrar um caminho estreito, se encontraram a sós com Jesus!... Que bem puderam, esses ditosos afligidos de Jerusalém, de Naim ou Betânia, desafogar a alma nesse celestial instante, com liberdade de súplica e pranto, no coração de Jesus!...

Assim nos encontramos conVosco nesta Hora Santa venturosa, Jesus de Nazaré e do Sacrário, assim!... Olhai-nos: os que aqui estamos somos cabalmente esses ditosos azarados que viemos em busca de Vós, para nos esquecer, por um momento, de nós, aqui a Vossos pés, à Vossa sombra deliciosa. Viemos só por Vós, chegamos em Vossa defesa, porque um clamor de raiva e de blasfêmia nos advertiu que Vossos carrascos não se dão trégua com o propósito de Vos desterrar da sociedade e das almas. E se haveis de sofrer, se haveis de agonizar, se haveis de morrer, Jesus, eis aqui o rebanho que quer ser ferido ao lado e por causa do pastor!

Vós o dissestes com amargura de alma à Vossa serva Margarida...: “Quero compartilhar minha agonia, tenho necessidade de corações vítimas!” Disponde, pois, de todos estes, Senhor: amamo-Vos muito, amamo-Vos todos...

(Breve pausa)

Retrocedei, Jesus, o véu de Vosso peito, o Santo dos Santos, e consenti que Vossos filhos contemplemos, nesta Hora Santa, a paixão e ultraje, a dor da sentença dos mesmos que resgatastes com Vosso sangue... Fazei à luz nesse Tabernáculo e permiti-nos seguir-Vos, passo a passo, nesta incruenta Via Dolorosa, que começa nas sombras do Getsêmani e terminará, unicamente, no derradeiro ocaso da Terra... E ainda que não sejamos dignos, permiti que estes confidentes e consoladores Vossos, participemos do cálice de Vossos opróbrios e agonias... Deixai-nos, oh amável Prisioneiro do altar!, um só e único direito: amar-Vos na ignomínia de Vossa Cruz, nos unir na Hora Santa à Vossa agonia, amar-Vos até à morte e morrer amando com delírio a loucura o Getsêmani incessante de Vosso Coração Sacramentado...

(Peçamos luz e amor para contemplar a Jesus Cristo na misteriosa paixão de Vosso Sacrário).

Jesus.

(Pausa)

Vivo, alma querida, envolto no silêncio e mudo, porque estou, aqui onde me vês, perpetuamente encadeado ante os modernos Herodes da terra... Não ouves como se levanta até ao céu seu insolente interrogatório, a Mim, que sou o poder, a verdade e o único Mestre?... calo por teu amor, pensando em ti, a quem redimo com a condenação ignominiosa dos governantes... juízes dos homens, mas não de minha doutrina... Oh!, eles ambicionam autoridade de tirania para descarregá-la em Mim, e Eu sou sua perpétua vítima... Para eles o trono..., para Mim o trono da vergonha...; para eles o cetro de ouro... e Eu sempre com o cetro da zombaria...; para eles cortejo de aplausos e incensadores...; para Mim a côrte do desprezo e os carrascos...; para eles diadema e homenagens...; para Mim uma coroa de espinhos..., para Mim o esquecimento, sempre o esquecimento!

E, se alguma vez, recordam a este Rei nas alturas fictícias da terra, somente meu Nome atrai a tempestade do ódio, a perseguição e a blasfêmia... Aqui me tens, posto em roupas de réu por um mundo que vive de meu alento... Emudeço porque no Sacrário sou a encarnação da misericórdia e do amor... E esse desacato à minha soberania, o desconhecimento de minha realeza nas leis que regem os povos, é o ultraje direto, blasfemos, à minha pessoa, a Mim, que vivo abatido, sacramentado entre os humanos. Essa injúria é o desafio a este Jesus-Eucaristia, que te fala desde um altar, convertido com freqüência no pretório de Pilatos...

Aqui, alma consoladora, aqui no Tabernáculo, recebo manso as afrontas do escravo e a sentença do vilão...; daqui, deste calabouço, em que vivo perdoando, Me tiram unicamente quando os tribunais da terra decretam Me flagelar, para Me apresentar logo, ensangüentado, às iras populares... Como se sente aliviado meu Divino Coração com vosso desagravo!... Esse escárnio dos poderosos, o compensa nesta Hora Santa o amor ardente dos meus...; o reparais vós, os ricos humildes e os pobres resignados... Desde aqui, desde o altar, Eu vos bendigo amigos fidelíssimos... Por isso, falai, meus filhos, exigi milagres de meu amor, vós, os predestinados de meu Coração... Falai, sou o Rei das misericórdias infinitas.

(Pausa)

A alma. Senhor Jesus, Vossa alma enternecida pela adesão deste rebanho pequenino, nos oferece agora milagres e perdão. Oh!, sobretudo, o mundo dos poderosos, dos governantes e dos ricos, necessita o grande prodígio de Vossa luz, necessita conhecer-Vos, Senhor Sacramentado, conhecer-Vos nessa Hóstia, e aceitar desde aí a imposição de Vossa realeza salvadora.

Pela afronta, pois, que padecestes ante o iníquo Herodes, na mansão dos que se chamam magnatas da terra:

(Todos, em voz alta)

Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

No santuário das leis e nos tribunais tão falíveis da justiça humana...
Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

Na consciência daqueles que influem nos destinos dos povos...
Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

Nos conselhos de tantos governantes, levantados em oposição a Vosso Calvário...
Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

Nas sedições populares explodidas em ultraje a Vossa doutrina redentora...
Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

No jogo de tantos interesses de soberba e de fortuna, dos azarados gozadores da terra...
Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

No satânico complô, estourado com sigilo, em ruína de Vosso sacerdócio e de Vossa Igreja...
Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

Na imprudente segurança de tantos bons, na apatia e indolência dos que quiseram adorar-Vos, mas longes do Calvário...
Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

Na ambição desenfreada de ganhar alturas e dinheiro, à custa de Vosso sangue e da condenação eterna de tantas almas infelizes...
Cumpri Vossas promessas de vitória, oh Divino Coração!

Jesus. Eu sou a santidade, assim m’O dizeis vós, de joelhos ante esta Hóstia, assim m’O canta o céu, que repete neste templo o clamor da Hora Santa... Sim, Eu sou a santidade, e fui trocado, no entanto, pelo assassino Barrabás... Ah, e ainda sou preterido, muitas vezes, por ódio, por desdém e por esquecimento!...
(Pausa)

Que angustia tão cruel a de meu Coração, vexado nesta afronta! Eis-Me aqui, oculto num Sacrário...; sou Jesus, o Deus da humildade... O mundo vão vive de soberba, e não perdoa que Eu seja nazareno escondido, nascido num estábulo... Vede como passam as almas orgulhosas por diante de meu altar, como vão desoladas, sedentas de ostentações, ambicionando estimação e aplausos... Passam... e Me pospõem a uma honra falsa... Nesta penumbra de meu templo, vivo relegado; desde aqui vou pregando estas palavras; “aprendei de Mim, que sou humilde e pobre”.

Ah, sim, sou pobre!, pois entreguei os tesouros da terra para vos abrir a vós a imortalidade do paraíso... Sou pobre, sou mendigo...; por isso vivo desdenhado do grande mundo, que necessita do ouro, e se não o tem, de seu brilho mentiroso... O que valho Eu para ele, entre as palhas de Belém, na obscuridade de Nazaré, nudez e abatimento do Calvário e da Eucaristia?

Que amarga decepção!... Me fiz pobre por amor..., e sou um pobre repudiado, posposto à fortuna miserável deste mundo.

(Breve pausa)

Estou chagado... Minhas mãos, que chamam e bendizem, estão atravessadas...; Meus pés, feridos...; Minha frente, destroçada; lívidos, Meus lábios; sem luz, Meus olhos...; ensangüentado o corpo...; aberto, como larga ferida, o peito apaixonado... Ah, como tremem os mortais ao ver a este Deus perpetuamente ensangüentado!... Eles quiseram as delicias de um Éden antecipado no deserto... Quem me pôs assim?... O amor que vos tenho... Assim estou, assim vivo no Sacrário, oferecendo paz e céu, mas entre espinhos e na Cruz...

E onde estão os amigos, os crentes, os discípulos?... Onde?... Se foram..., Me deixaram, em busca de prazeres; Me legaram ao lodo da culpa... Barrabás, o vilão, vai triunfando pelo mundo, e atrás dele, os soberbos convencidos, os de costumes levianos; atrás de Barrabás, aclamando-o em sua liberdade e em seu delito, os licenciosos, os corruptores da infância, os que mentem aos povos, os que envenenam pela imprensa... Vitorioso Barrabás, lhe dão vitória todos aqueles que me renegam e maldizem nas leis, os políticos que sobem, cuspindo-Me no rosto sua blasfêmia...

Todos estes vão ufanos, livres; o mundo lhes joga flores...; para eles palmas de vitória... E aqui, em Meu solitário Tabernáculo, Eu, Jesus, atado por amor, abandonado pelos bons, negado pelos débeis, esquecido dos demais..., condenando pelos governantes, flagelado pelas multidões desencadeadas contra Mim... Eu amei aos Meus, sobre todas as coisas do céu e da terra..., e os de Meu próprio lar Me pospuseram ao pó..., ai!, ao lodo dos caminhos... Decidi vós, Meus amigos, se há afronta mais ardente que a Minha!... Considerai e vede se há dor semelhante a esta dor!...

(Pausa)

A alma. O discípulo, Jesus divino não há de ser mais que seu Mestre... Vós, que nos deu o exemplo, quereis que, seguindo a Vós, nos neguemos, levando com amor a Cruz que salva... Vo-lo pedimos nesta Hora Santa, com a caridade ardente de Maria Dolorosa, Vo-lo exigimos para Vosso consolo e para a Redenção dos pecadores, com o entusiasmo de Margarida Maria; sim, nos abraçamos à Cruz pelo triunfo de Vosso Coração na Santa Eucaristia... Escutai-nos, Jesus, nesta Hóstia...; vamos oferecer a Vós a prece de Getsêmani, que é a oração de Vosso sacrifício de aniquilamento no altar. Ouvi-nos, benigno e manso.

(Cortado e lento)

Amamo-Vos, Jesus; concedei-nos a glória de sermos preteridos, por Vosso entristecido Coração.

Amamo-Vos, Jesus; outorgai-nos a dita de sermos confundidos, por Vosso amargado Coração.

Amamo-Vos, Jesus; concedei-nos a graça de sermos desatendidos, por causa de Vosso misericordioso Coração.

Amamo-Vos, Jesus; outorgai-nos a honra imerecida de sermos zombados, por Vosso angustiado Coração;

Amamo-Vos, Jesus; concedei-nos a recompensa de sermos desprezados, pela glória de Vosso ferido Coração.

Amamo-Vos, Jesus; outorgai-nos a distinção preciosa de sermos injuriados, pelo triunfo de Vosso Sagrado Coração.

Amamo-Vos, Jesus; concedei-nos a fruição incomparável de ser algum dia perseguidos, pelo amor de Vosso Divino Coração.

Amamo-Vos, Jesus; outorgai-nos a coroa de sermos caluniados, no apostolado de Vosso Sagrado Coração.

Amamo-Vos, Jesus; concedei-nos a amável regalia de sermos traídos, em holocausto a Vvosso Divino Coração.

Amamo-Vos, Jesus; outorgai-nos a honra de sermos aborrecidos, em união com Vosso agonizante Coração.

Amamo-Vos, Jesus; concedei-nos o privilégio de sermos condenados pelo mundo, por vivermos unidos a Vosso Sagrado Coração.

Amamo-Vos, Jesus; outorgai-nos a amargura deliciosa de sermos esquecidos, pelo amor de Vosso Sagrado Coração.

Oh, sim!... Suplicamo-Vos: dai-nos a parte que de direito nos corresponde nos vilipêndios e agonias de Vosso Coração Sacramentado... Consolai-Vos, Mestre... cada um destes, pondo em Vosso Lado aberto uma palavra de humildade e confidência, Vos protesta, que Vós sois a única fortuna e seu único paraíso...

(Breve pausa)

Que tenho eu, oh, Divino Coração!, que Vós não me haveis dado?

Que sei eu, que Vós não me haveis ensinado?

Que valho eu, se não estou a Vosso lado?

Que mereço eu, se a Vós não estou unido?

Perdoai-me os erros que contra Vós cometi.

Pois me criastes sem que o merecesse.

E me redimistes sem que Vo-lo pedisse.

Muito fizestes em me criar.

Muito em me redimir.

E não sereis menos poderoso em me perdoar...

Pois o muito sangue que derramastes,

E a acerba morte que padecestes,

Não foi pelos anjos que Vos louvam,

Senão por mim e demais pecadores que Vos ofendem...

Se Vos neguei, deixai-me reconhecer-Vos,

Se Vos injuriei, deixai-me louvar-Vos,

Se Vos ofendi, deixai-me servir-Vos,

Porque é mais morte que vida a que não está empregada em Vosso santo serviço.

(Pausa)

Jesus. Posto que vós que estais aqui comigo sois meus íntimos, deixai que em vós desafogue Meu Coração, tão amargurado...; ouvi-Me. Há nEle uma pena funda, uma ferida que chega até à divisão de Minha alma.
Israel, o povo de Meus amores, Israel pediu a sentença, exigiu Minha morte e levantou a Cruz... Israel, por quem Eu flagelei o Egito, Me flagelou... Despedacei suas cadeias e as pus nas mãos de seu Salvador...; lhe dei maná no deserto e me teceu uma coroa de espinhos...; tirei a água milagrosa da rocha, para aplacar sua sede, e insultou a febre abrasadora de Minha agonia... Baixei do céu, e na arca misteriosas quis morar com eles nos deserto... Quantas vezes os tive protegidos sob Minhas asas!... E vede-Me, ferido de morte por Israel...

Por que Meu povo ainda segue Me despojando de Minha soberania?... Por que ainda segue tirando a sorte sobre Minhas vestes e atirando ao vento do desprezo Meu Evangelho de caridade e de consolo?

Como se agitam as multidões rugindo contra Minha lei!... Como povos inteiros, seduzido pela soberba, romperam a unidade sacrossanta de Minha doutrina, túnica inconsútil de Minha Igreja!... Meu Coração soluça dentro de Meu peito desgarrado, ao ouvir como no átrio de Pilatos, o clamor de tantas raças, de tantas sociedades, que, apontando a Mim neste pobre altar, exclamam: “Não queremos, não, que esse Nazareno reine sobre nosso povo!”. Eu te perdôo, oh, Israel!

(Breve pausa)

Meu Vigário é perpetuamente vítima dessa multidão enlouquecida...; ele é Meu rosto terreno..., nele sigo sendo esbofeteado pelos insultador de Minha Igreja... Esse agravo me é particularmente doloroso; ai daquele que põe a mão no Pontífice, o ungido de Meu Pai!...

Detende seu braço justiceiro..., interponde esta Hora Santa, em união com Meu ultrajado Coração, pois quero fazer piedade... Sim, pela apostasia cruel de tantos povos, pela apostasia pública em tantas sociedades, pela descarada afronta a Meu Vigário, pelo ódio aberto e legalizado a Meu sacerdócio, pela iníqua tolerância e os favores de que gozam todos os modernos sinedristas, por todo esse acúmulo de pecados, por essa plebe e essa côrte que me ferem... com uma só voz e uma só alma, pedi piedade a Meu Coração, pedi-Lhe misericórdia...

As almas. Prisioneiro de amor, Jesus Sacramentado, passe nossas orações as grades de Vosso cárcere, como um incenso de adoração e desagravo, que Vos oferecemos pelas mãos de Maria Imaculada...

Ladainha

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus, Pai dos céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo,
Deus Espírito Santo,
Santíssima Trindade, que sóis um só Deus,

Coração de Jesus, Filho do Pai Eterno,
Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe,
Coração de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus,
Coração de Jesus, de majestade infinita,
Coração de Jesus, templo santo de Deus,

Coração de Jesus, tabernáculo do Altíssimo,
Coração de Jesus, casa de Deus e porta do céu,
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade,
Coração de Jesus, receptáculo de justiça e de amor,
Coração de Jesus, cheio de amor e bondade,

Coração de Jesus, abismo de todas as virtudes,
Coração de Jesus, digníssimo de todo o louvor,
Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações,
Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência,
Coração de Jesus no qual habita toda a plenitude da divindade,

Coração de Jesus, no qual o Pai põe as suas complacências,
Coração de Jesus, de cuja plenitude nós todos participamos,
Coração de Jesus, desejo das colinas eternas,
Coração de Jesus, paciente e misericordioso,
Coração de Jesus, rico para todos os que vos invocam,

Coração de Jesus, fonte de vida e santidade,
Coração de Jesus, propiciação pelos nossos pecados,
Coração de Jesus, saturado de opróbrios,
Coração de Jesus, atribulado por causa de nossos crimes,
Coração de Jesus, feito obediente até à morte,

Coração de Jesus, atravessado pela lança,
Coração de Jesus, fonte de toda a consolação,
Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição,
Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação,
Coração de Jesus, vítima dos pecadores,

Coração de Jesus, salvação dos que esperam em Vós,
Coração de Jesus, esperança dos que expiram em Vós,
Coração de Jesus, delícia de todos os santos,

Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

V. Jesus, manso e humilde de coração,
R. Fazei nosso coração semelhante ao Vosso.

Oração

Deus onipotente e eterno, olhai para o Coração de Vosso Filho diletíssimo e para os louvores e as satisfações que Ele, em nome dos pecadores Vos tributa; e aos que imploram a Vossa misericórdia concedei benigno o perdão em nome do Vosso mesmo Filho Jesus Cristo, que conVosco vive e reina por todos os séculos dos séculos. Amém.

(Pausa)


Jesus. Tudo, em meu amor pelos humanos, está consumado já pela Santa Eucaristia, tudo. Oh! mas a ingratidão humana consumou também Comigo, neste maravilhoso Sacramento, a obra dar dor suprema...

Meus filhos, onde estáveis vós quando no Calvário se Me envolveu no silêncio de uma solidão, mais cruel que a de Minha tumba?... Amigos de Meu Coração, que era de vós quando Meus olhos, nublados pelo pranto derradeiro da agonia, não contemplavam senão semblantes iracundos de verdugos?... Onde estáveis?...

E quando, pensando em vós, os predestinados, tive sede de que consolassem Minha alma, infinitamente angustiada, por que então, se umedeceram Meus lábios, abrasado com fel de ausência... de esquecimento... de covardia..., de tibieza daqueles mesmo que foram os regalados do banquete de Meu lar?...

Bem o sabeis: essa não é, por desgraça, uma história de séculos atrás; contemplai-Me nesta Hóstia, e decidi se a ingratidão não é pão amargo e cotidiano deste Deus feito Pão pelos mortais... Quanto e em que vos contristei cárcere voluntário, para que seleis suas portas com o abandono em que se deixa um sepulcro destruído e vazio?

Oh!, vinde, rodeia-Me, estreitai-vos a Meus pés; quero sentir-vos perto, muito perto, na mística agonia de Meu Coração Sacramentado...

Hora ansiada, Hora venturosa, a Hora Santa, na qual este Deus recobra Sua herança, o preço do Seu sangue!...

Eu vos bendigo, porque tive fome e, deixando o repouso, viestes partir-Me o pão da caridade...; vos considero Meus porque tive sede e Me destes compaixão e lágrimas; vos abraço sobre Meu peito lastimado, porque estive tristíssimo na solidão desta prisão e viestes fazer-Me deliciosa companhia. Em verdade, em verdade, vos digo que vossos nomes estão escritos para sempre com letras de fogo e sangue no mais recôndito de Meu Coração enamorado...

Descansai sobre Ele, como eu descanso agora entre vós, os filhinhos preferidos de Meu amor.

(Pausa)

A alma. Viemos, não para descansar, Mestre, senão para sofrer conVosco, para compartilhar Vosso cálice e para reparar pedindo o reinado de Vosso Divino Coração... Por isso não nos retiramos de Vosso lado, levando-Vos na alma, sem Vos haver confiado antes um anelo ardoroso, o único anelo de Vossos consoladores e amigos... e é dizer-Vos que venhais, que aproximei-Vos triunfador por Vosso Sagrado Coração..., que Vos reveles a estes Vossos apóstolos humildes, porque sentem ardores inefáveis, que só Vossa posse e Vosso reinado podem mitigar. Acedei, pois, Jesus amabilíssimo, e nas naturais aflições e sombras da vida:

(Todos, em voz alta)

Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nos afetos caducos e enganosos da terra...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nas desilusões da amizade terrena, nas fraquezas do amor humano...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nas seduções brilhantes da vaidade, nos obstáculos incessantes do caminho...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nas castas e legítimas alegrias dos lares que Vos adoram...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nas veleidades da adulação e da fortuna sedutora...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nas horas de paz da consciência, nos momentos de um arrependimento saudável...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nas tribulações dos nossos, ao ver sofrer os que amamos...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nos desfalecimentos do amor terreno, ao sentir a fadiga do desterro...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

Nas contradições incessantes, nos dias de incerteza ou de quebranto amargo...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

No momento da tentação e na hora da suprema despedida da terra e da Hóstia Santa...
Vinde!... sentimos sede de Vosso adorável Coração.

(Pausa)

As almas. Ao ver-Vos de perto e tão benigno, longe de exclamar como Vosso apóstolo: “Apartai-Vos, Senhor; afastai-Vos, porque somos miseráveis pecadores...” queremos, pelo contrário, lançar-nos a Vosso encontro, encurtar as distâncias e estreitar a ditosa intimidade entre Vosso Coração e os nossos...

(Lento e cortado)

Vinde, Jesus, vinde descansar em nosso amor, quando os soberbos governantes da terra maldisserem de Vossa lei e de Vosso nome... lembrai-Vos que somos Vossos..., que estamos consagrados à glória de Vosso Divino Coração... Vinde, Jesus, vinde descansar em nosso amor quando as multidões, agrupadas por Lúcifer e os sectários seus sequazes, assaltem Vosso santuário, e reclamem Vosso sangue... lembrai-Vos que somos Vossos, que estamos consagrados à glória de Vosso Divino Coração...

Vinde, Jesus, vinde descansar em nosso amor...; quando gemerdes pelo vitupérios e pelas cadeias com que ultrajam a Vossa Igreja santa, os poderosos e aquele falsos sábios, cujo orgulho condenastes com dulcíssima firmeza..., lembrai-Vos que somos Vossos..., que estamos consagrados à glória de Vosso Divino Coração...

Vinde, Jesus, vinde descansar em nosso amor, quando milhares de cristãos fizerem pouco caso de Vossa pessoa adorável..., e Vos lastimem cruelmente com uma tranqüila renúncia, que é um punhal de frieza cravado em Vosso peito sacrossanto...., lembrai-Vos que somos Vossos..., que estamos consagrados à glória de Vosso Divino Coração...

Vinde, Jesus, vinde descansar em nosso amor; quando tantos bons e virtuosos Vos meçam com avareza vosso carinho, Vos dêem com mesquinhez aborrecível sua confiança... e Vos neguem consolo em sacrifício e santidade... lembrai-Vos que somos Vossos..., que estamos consagrados à glória de Vosso Divino Coração...

Vinde, Jesus, vinde descansar em nosso amor; quando Vos oprime a deslealdade, quando Vos amargue a tibieza das almas predestinadas, que, por vocação, deveriam ser inteiramente Vossas, sendo santas..., então como nunca, nessa hora de desolação ímpar, lembrai-Vos que somos Vossos..., restitua aqui os olhos entristecidos, suplicantes..., não esqueçais que estes filhos estão consagrados para sempre à glória de Vosso Divino Coração...

(Pai-Nosso e Ave-Maria) pelas intenções particulares dos presentes.

(Pai-Nosso e Ave-Maria ) pelos agonizantes e pecadores.

(Pai-Nosso e Ave-Maria) pedindo o reinado do Sagrado Coração mediante a Comunhão freqüente e diária, a Hora Santa, e a Cruzada da Entronização do Rei Divino em lares, sociedades e nações).

(Cinco vezes)

Coração Divino de Jesus, venha a nós o Vosso Reino!

(Lento)

Vós sois, Jesus, o Deus oculto... Escondei-Vos em minha alma, e convertido eu numa Hóstia, noutra Eucaristia humilde, vamo-nos, Senhor, vamo-nos eternamente unidos, como na Comunhão, como na Hora Santa... Vós em meu pobrezinho coração..., e eu perdido para sempre no abismo de dor, de luz do céu, de Vosso Sagrado Coração: venha a nós o Vosso Reino!


Fórmula de consagração individual ao Sagrado Coração de Jesus, composta por Santa Margarida Maria

Eu N. vos dou e consagro, ó Sagrado Coração de Jesus Cristo, minha pessoa e minha vida, minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte de meu ser senão para Vos honrar, amar e glorificar.

É esta minha vontade irrevogável: ser todo Vosso e tudo fazer por Vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto Vos possa desagradar. Tomo-Vos, pois, ó Sagrado Coração, por único objeto de meu amor, protetor de minha vida, segurança de minha salvação, remédio de minha fragilidade e de minha inconstância, reparador de todas as imperfeições de minha vida e meu asilo seguro na hora da morte.

Sede, ó coração de bondade, minha justificação diante de Deus, Vosso Pai, para que desvie de mim Sua justa cólera. Ó coração de amor! Deposito toda a minha confiança em Vós, pois tudo temo de minha malícia e de minha fraqueza, mas tudo espero de Vossa bondade!

Extingui em mim tudo o que possa desagradar-Vos, ou se oponha à Vossa vontade. Seja o Vosso puro amor tão profundamente impresso em meu coração, que jamais possa eu esquecer-Vos, nem separar-me de Vós. Suplico, por Vosso infinito amor, que meu nome seja escrito em Vosso coração, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer como Vosso escravo. Amém.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Mão firme

Mão firme



É necessário dizer aqui algumas palavras sobre a disciplina e a autoridade. O apóstolo Paulo escrevia:

"Educai os vossos filhos numa severa disciplina".

"Um filho que na juventude foi criado sem disciplina traz a desonra para a sua mãe".

"Se tiveres filhos, educa-os desde os primeiros anos. O coração da criança inclina-se para o mal, mas a disciplina rigorosa leva-os para o bem".

A Igreja reprovou sempre o pensamento naturalista que entrega a criança à sua própria iniciativa e que, em vez de levar à liberdade dos filhos de Deus, leva à escravidão das paixões. É um erro extraordinariamente perigoso pensar que a criança será boa se se lhe permitir crescer de uma maneira natural. Na realidade acaba por ser um autêntico selvagem...

Um bloco de mármore precisa de um duro cinzel para vir a ser uma obra de arte e as mãos da mãe têm de ser enérgicas para cinzelar o espírito do filho.

Christoph Schmid (1768-1854) conta que a mãe tinha habituado os cinco filhos a comer qualquer alimento. "Há pessoas adultas - dizia-lhes ela - que não podem comer desta carne ou daquela verdura apesar de terem boa saúde e é sintoma de que não receberam uma boa educação porque esses costumes devem ser arrancados desde o princípio. Fora das refeições, não nos permitia comer e não nos dava nada para mordiscar de vez em quando".

Depois do sol posto, os filhos nada têm que fazer na rua. A partir dessa hora, as ruas pertencem às forças do mal e nada de bom podem aprender se andarem a divagar por elas. Mesmo nos jogos, a mãe deve estabelecer uma certa ordem e um certo sentido de disciplina. Quando o filho, nas suas corridas pela casa, tropeça com as mesas ou com as cadeiras, a mãe não deve chamar "má" à mesa ou "estúpidas" às cadeiras. A criança deve aprender a saber sofrer um pouco e a ter mais cuidado no futuro. A demasiada compaixão é prejudicial.

(Excertos do livro: A mãe, pelo Cardeal Mindszenty)

PS: Grifos meus.

ORAÇÃO PELO PAPA

ORAÇÃO PELO PAPA



Ó Jesus, cabeça invisível da Santa Igreja, que a fundastes sobre uma firme pedra e prometestes que as portas do inferno não prevalecerão nunca contra Ela, conservai, fortificai e guiai aquele que lhe destes por cabeça visível.

Fazei que ele seja o modelo do Vosso rebanho, assim como é o seu pastor. Seja ele o primeiro por sua santidade, doutrina e paciência, assim como o é por sua alta dignidade. Seja ele o digno vigário de Vossa caridade, assim como o é da Vossa autoridade.

Inspirai-lhe um zelo ardente da Vossa glória, da salvação das almas e da santa Religião. Dai-lhe coragem invencível para opor-se aos estragos do erro e da impiedade. Dai-lhe a plenitude de Vosso espírito, para conduzir a barca agitada de Vossa Santa Igreja através dos escolhos que a cercam.

Consolai seu coração aflito, sustentai sua alma abatida, fazei voltarem suas ovelhas desgarradas.

Ajudai-lhe a levar o peso da sua alta dignidade e de todos os trabalhos que a acompanham.

Dignai-Vos, ó meu Deus, escutar benigno os votos que Vos dirigimos por ele, e concedei-lhe longos anos, para aumentar a Vossa glória e o triunfo da Vossa santa Religião. Amém.

V: Oremos pelo nosso Sumo Pontífice (Bento XVI)
R: O Senhor o conserve, vivifique e beatifique na terra, e não o entregue nas mãos de seus inimigos. Amém.

Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

(Indulgência parcial)

Jesus, Nosso Senhor, cobri com a proteção do Vosso divino Coração o nosso santíssimo Padre (Bento XVI), e sede sua luz, sua força e seu consolo.
(Indulgência parcial)

(Fonte: ADOREMUS: MANUAL DE ORAÇÕES E EXERCÍCIOS PIEDOSOS, de Dom Frei Eduardo José Herberhold, OFM, bispo titular de Hermopolis Magna e prelado coadjutor de Santarém, 15ª edição, 1929, páginas 287-288)
 
PS: recebido por e-mail.

II. TERNURA DO CRISTO

II. TERNURA DO CRISTO



O segundo sentimento que ocupa o Coração do Cristo é o cuidado real de mostrar aos Seus a Sua viva e profunda ternura.

Importa ver, ouvir, gostar as Suas derradeiras e intimas conversações, naquela noite suprema do Cenáculo. Há muito escolheu Ele o lugar.

Ainda nesta escolha se afirma a Sua Divindade.

– Ide, diz a Pedro e a João, encontrareis à porta da cidade um homem que carrega um cântaro d’água (era presumivelmente a porta mais próxima do bairro de Sião e que levava à Fonte da Virgem onde manava a água mais pura de Jerusalém): seguireis esse homem, continua Jesus, ele entrará na casa de um pai de família que tem uma sala alta à minha disposição, está toda mobiliada. É aí...

Assim, Ele viu tudo, a porta, o homem, o cântaro e até a mesa posta e os leitos que a circundam.

Dessa forma, tinha Ele amigos secretos, em cuja casa podia entrar a qualquer hora.
Tem-nos ainda, contra os quais saca quando Lhe apraz. São os Seus bancos particulares onde se mantém em reserva a vida e a subsistência dos Seus pobres e dos eleitos sofredores.

***


Portanto, naquela sala estão todos reunidos, os Doze.

Faz-se primeiro o essencial, o repasto espiritual: estão todos de pé à volta da mesa, empunhando um bordão, com as vestes arregaçadas, os rins cingidos, as sandálias nos pés: o traje dos viajantes. O cordeiro está no prato, no meio. Faz-se pressa em cumprir a cerimônia. Come-se a carne com as alfaces amargas, e isto se faz em silêncio.

Após o que, podem os Apóstolos crer que está tudo acabado. Mais não se fizera nos outros anos. Poderão pois retirar-se depois de tomarem juntos a refeição de costume que seguia a ceia pascal.

Entretanto, Jesus parece preparar outra coisa mais...

Apenas começou Ele a refeição noturna, se levanta, deixa o manto e a veste branca, conservando só a túnica vermelha, toma a toalha, faz como um criado, cinge-a em torno aos rins, derrama água numa bacia e põe-se a querer lavar os pés a cada um dos Apóstolos.

Tudo é surpreendente nessa ação. Nunca o Mestre dera semelhante prova de deferência. Ele pôr-se de joelhos e lavar os pés dos discípulos!...

Compreende-se o movimento de Pedro. Aquilo era contra a dignidade do Mestre e do Deus.
Sim... mas agora é a hora da ternura.

Deixai, mais tarde compreendereis e então fareis como Eu estou fazendo!

Admirável dispensação da luz divina: repito, nós não podemos tudo compreender a um tempo... Se Deus não fizesse algo que nos transcenda e nos admire, agiria como homem e não como Deus. Lava Ele, pois, os pés, enxugando-os... em meio à comoção geral.

Eis porém que se põem novamente à mesa; há leitos para se estenderem. Jesus está no meio. João está no mesmo leito que Ele, de tal sorte que basta inclinar-se para trás para apoiar a cabeça no peito do Mestre. Pedro está no leito do lado. Judas não devia estar muito longe, pois daí a pouco Jesus lhe falará sem que os outros ouçam e poderá estender-lhe um pedaço de pão.

Entrementes, come-se, bebe-se... guarda-se silêncio; os corações estão cheios de aflição, os olhares fixam-se comovidos no semblante de Jesus... Ele baixa os olhos, parece mais triste que de costume; por fim diz com um suspiro:

– Como Eu desejava comer esta Páscoa convosco... antes de padecer!

E pouco depois:

– Em verdade é a última...

Já não comerei convosco, já não beberei até que venha o Reino de Deus... isto é, até que Eu haja chegado à glória eterna.

E isto dizendo, faz circular uma taça cheia de vinho, como era de uso fazer no começo das refeições: cada um molha nela os lábios.

Depois recomeça o silêncio.

Jesus tem um peso no Coração: sente-se, vê-se, Ele olha em torno de si, quer falar, cala-se... oprime-o o doloroso segredo. Afinal perturba-se visivelmente; altera-se-Lhe o semblante, o segredo estala: – Em verdade, diz como acabrunhado, há aqui um que me trairá!

Um! – Ele come comigo, prossegue o Salvador... põe comigo a mão no prato.

Persiste ainda o uso no Oriente de, nas refeições, tomar cada conviva no prato colocado no meio a porção que lhe convém; todos põem pois a mão no mesmo prato.
– Um dos Doze, repete Jesus...

Os Apóstolos ficam consternados... de todo lado vozes ansiosas se elevam:

– Senhor... sou eu?

No meio das interrogações confusas, Judas faz também a mesma pergunta:

– Mestre, serei eu?

– Tu o disseste, responde Jesus em voz baixa... és tu!

Ninguém ouviu esta palavra. Portanto o traidor é conhecido, mas por delicadeza não é revelado.
E é em presença dele que Jesus vai realizar o Seu prodígio de amor... o Seu excesso de ternura: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos – Tendo amado os Seus, amou-os até o fim (Jo 13, 1).

Judas jurou trai-lO... Os trinta dinheiros já lhe estão na bolsa. O ajuste está de pé.

Jesus sabe que dentro de algumas horas O vão entregar... haverá paus, armas, cordas, será de noite, ao clarão dos archotes... haverá sobretudo um traidor que O virá prender por um beijo.

Ora, antes de ser entregue, quer-se Ele próprio entregar... toma a dianteira.

E uma palavra Sua vai lançá-lO de algum modo, de pé e mãos atadas, à humanidade até à consumação dos tempos... e é assim que a Sua ternura triunfará da malícia humana.

A refeição tocava o seu termo. Havia diante de Jesus um pão ázimo intacto. Tomou-o como se o quisesse comer, partiu-o em vários pedaços, em doze provavelmente, e súbito diz:

– Tomai, comei.

Isto é o meu Corpo que vai ser dilacerado, partido, feito em pedaços como este pão, e entregue por Vós.

Tomai, ei-lo, Eu vo-lo dou, Eu vo-lo entrego.

E faz circular o prato onde havia deposto os doze fragmentos. Cada qual tomou um, Judas como os demais.

– Fareis isto em memória de Mim, acrescentou Jesus.

Foi assim que Ele se entregou antes do beijo do traidor.

Quando Jesus se entrega, o faz deveras. Nunca se tornou a tomar depois, e não se tornará a tomar nunca. Este caráter, esta fisionomia de entregue atravessaram os séculos, é ainda assim que Ele está no meio de nós e nós não pomos reparo... não acusemos a indiferença aparente dos discípulos durante aquela noite em que eles fugirão: a nossa é tão grande e menos desculpável.

Entretanto a ceia terminava. Findava na estupefação e no silêncio. Restava uma última cerimônia antes do hino final: passava-se de ordinário uma taça cheia de vinho, como se fizera no começo, e bebia-se dando graças.

Jesus encheu a taça, rendeu graças, mas acrescentou ao mesmo tempo: – Bebei todos, é meu Sangue... o Sangue da nova aliança que Eu contraio com a humanidade... o Sangue que vai ser derramado amanhã pela remissão dos pecados.

E a taça circulou por toda a mesa.

Jesus parece acompanhar o Seu Sangue que passa assim de lábios em lábios... Quando chega ao de Judas... Ele não se pode conter... a tortura íntima é por demais viva: – Eis, diz de repente, a mão do traidor está comigo à mesa. E ajuntou após um silêncio: – Ai daquele que me trai!...


De novo vozes confusas e interrogações misturaram-se na sala; foi nesse momento que João inclinou a cabeça para trás, como para consolar o Senhor, e perguntou-Lhe afetuosamente:
Este doloroso anátema sacudiu o espanto entorpecido dos Apóstolos.

– Mestre, quem é?...

Deus não recusa nada aos desejos da inocência.

– Aquele a quem Eu apresentar um pedaço de pão molhado nesse prato, diz Ele baixinho, ao ouvido do predileto.

E estendeu um bocado de pão umedecido, como sinal de amizade, a Judas.
Judas tomou-o, e o coração tornou-se-lhe definitivamente a presa do demônio.

Levantou-se de chofre da mesa; por uma última delicadeza, Jesus, que o vê sair, diz-lhe em voz mais alta:

– O que tens a fazer, faça-o logo.

Ele sai, era noite já profunda. Jesus seguiu-o com um derradeiro olhar. Que olhar!
E, quando a porta se fechou atrás do traidor, um suspiro se Lhe exalou do peito aliviado; iluminou-se-Lhe o rosto.

– Agora, diz, a glória de Deus vai refulgir sobre o Filho do Homem!

A contar de Judas... a traição pelo ente amado tem sido sempre a tortura mais temível ao coração que ama: não a poupa Deus aos que quer mais semelhantes a Seu Filho.

É esse ainda um dos caracteres reservados da Paixão: quem pode tê-lo está de posse de um penhor bem consolador de predestinação.

+ + +

(“A Subida do Calvário”, do padre Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

AS TORTURAS DO CORAÇÃO

SEGUNDA PARTE


AS TORTURAS DO CORAÇÃO

I.  DOS SENTIMENTOS DO CRISTO
NO MOMENTO DE ENTRAR NA SUA PAIXÃO:
A SUA ALTIVEZ

Parece que Jesus tinha avivado em si dois sentimentos nos dias que precederam a Sua dolorosa Paixão.

Um grande sentimento da Sua dignidade pessoal em primeiro lugar, e a seguir uma profunda e vivíssima ternura com respeito àqueles que vai deixar.

E, na realidade, a primeira coisa com que se preocupa – e já de longa data – é com que os Seus padecimentos não sejam um objeto de escândalo.

Parecia tão estranho que aquele enviado de Deus, aquele Messias, fosse entregue aos gentios, cuspido, espezinhado, coberto de feridas, coroado de Sangue e, afinal, crucificado!

E então Jesus prepara os Seus discípulos para esse terrível destino, e prepara-os por Suas palavras, por Suas alusões, algumas vezes por Suas repreensões.

Absit, Domine, exclama Pedro; não, Senhor, não pode ser assim: Vós flagelado, Vós crucificado!
Em verdade, em verdade, durus est hic sermo, quis potest audire? Esta palavra excede os limites, não pode isto ouvir-se e suportar-se.

– Assim será porém, Pedro... e tu mesmo, mais tarde, quando tiveres envelhecido, quando tiveres compreendido, deixar-te-ás conduzir à mesma Cruz, às mesmas ignomínias.
E esta palavra era oculta para eles – para Pedro como para os outros –, eles não compreendiam.

Nós não podemos compreender por nós mesmos a terrível necessidade dos Calvários íntimos, públicos ou pessoais.

Oportuit Christum pati(: Convinha ao Cristo o padecer). Era preciso.

Deus emprega às vezes toda a nossa vida em nos fazer compreender este doloroso Oportet, mas a ele temos de chegar se quisermos ser salvos.

Até lá, Jesus quer poupar os Seus fiéis amigos. Previne-os então, desenrola previamente as páginas sangrentas do livro.

Sabe que se vai tornar o ente repugnante que fará desviar os olhos e provocar náuseas... o verme que se torce no Sangue e na lama... o homem das dores... mas por trás desse homem, desse verme, daquela Face que mete dó... há, no entanto... o Deus.

Não o esqueçais, meus caros filhinhos...

Por isto que Ele se vai fazer tão miserável, sair da Sua condição e da Sua situação, descer a fundo no opróbrio, não quisera fossem esquecer o que Ele é, de onde vem, com Quem sempre permanece.

– Um momento, e já não me vereis, diz melancolicamente. Mas, ficai sabendo:

De Deus venho, a Ele torno, estou com Ele; vedes que Eu vos falo claro para que compreendais.

– Pois sim, prosseguem os Apóstolos. Falais de fato claramente. Agora cremos que sois de Deus.
– Credes! Responde Jesus... e a hora vem, já veio, em que todos vós ides fugir e me deixareis só.

Dessa forma, é um misto de sentimentos diversos em que se afirma a Sua Divindade, no momento mesmo em que ela se vai eclipsar dolorosamente.

Esta afirmação daquilo que somos, assim pelo sangue como pela condição, em face daqueles que nos vão calcar aos pés, é natural a todo ente superior.

A abdicação da própria dignidade pessoal é a última que a gente se resolve a assinar.

Naquela lúgubre cena histórica que se desenrola em Varennes, no início da paixão da Realeza Francesa, quando a família real é brutalmente acuada pela turba chocarreira a um canto da tenda ordinária de um vendeiro, e quando Luiz XVI entra ridiculamente metido no seu disfarce de criado, Maria Antonieta, que tinha sangue, tem como que um sobressalto de indignação régia: o rubor assoma-lhe ao rosto em vendo o cenário que a rodeia, e aos que falam familiarmente demais ao príncipe, ela diz vivamente: “Mas afinal é o Rei!” Ai! Ela dirá também mais tarde: “Nós bem que queremos um Calvário, contanto que elevado!”

Às vezes não se tem sequer a irrisória consolação de subir no sofrimento. Há que descer aos próprios olhos e aos olhos de todos.

Jesus, que sabe que esta especial humilhação Lhe será reservada, mesmo aceitando-a de antemão, não quisera perder toda consideração aos olhos dos Seus, e nos Seus profundos abaixamentos deseja que a nossa piedade advertida a nós próprios nos repita amiúde: Ecce Rex vester! É sempre o vosso Rei!

Assim, não nos é proibido sofrer ao nos vermos diminuídos. Assim, há uma legítima reivindicação da própria dignidade.

Tudo isto me consola, ó meu Deus, mas como é assustador pensar que a gente poderá às vezes sofrer essa desconsideração e esse desprezo dos nossos, para calcar ainda mais nas Vossas a própria vida e morte: Fiat.

Cumpre, pois, entrar na Paixão baixando a cabeça, depois de a haver erguido um instante para mostrar que podia cingir uma coroa: Fiat.

Breve não terá Jesus outro rasgo senão este; outra palavra senão este termo tão breve e tão cheio.
Terá perdido a Sua altivez, e a Sua força estará por terra.

+ + +

(“A Subida do Calvário”, do padre Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

domingo, 27 de junho de 2010

Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima - NOÇÕES FUNDAMENTAIS

Primeira parte


(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima
segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos
pelo Pe. Julio Maria,
missionário de Nª. Srª. do SS. Sacramento)

Sob este título trataremos, não somente do fim da devoção para com a divina Mãe de Jesus, mas do fim mesmo de toda a religião e de todas as criaturas.

No Apocalipse Deus chamou-se o principium et finis (Apoc. 1.8), o princípio e o fim de tudo: isto é, da devoção, assim como o é de todas as obras humanas.

Ele é então o fim de nosso amor para Maria, como também é o princípio.

O princípio de toda obra sobrenatural é, de fato, a graça. Ora, só Ele é o autor e a fonte da graça. Nele nós a devemos procurar e após tê-la obtido, pela via e pelos meios, que indicaremos mais adiante, é ainda a Ele que ela deve voltar, carregada de méritos.

É o que veremos, estudando sucessivamente Jesus Cristo em si mesmo, em nós e no próximo.

***

Capítulo I

NOÇÕES FUNDAMENTAIS

Antes de tratarmos as questões puramente doutrinais, nós exporemos aqui algumas noções gerais, de um importância capital, das quais nos devemos compenetrar, para melhor comprender a extensão e o fim dessas páginas, onde vão colocar-se sob nosso olhar as questões mais delicadas e mais elevadas sobre nossos mistérios e sobre nosso dogma.

Rogamos ao leitor não passar adiante, sem se compenetrar destas noções que resumiremos nos cinco princípios seguintes:

PRIMEIRO PRINCÍPIO:
Nossos dogmas são a fonte da piedade, pelo conhecimento que conferem de seu objeto e pelos sentimentos que inspiram.

SEGUNDO PRINCÍPIO:
Os mistérios, conquanto que incompreensíveis, nos põem em contato com o objeto que eles encerram, e que é uma iniciação à vida sobrenatural.

TERCEIRO PRINCÍPIO:
A primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria, deve ser, não somente amá-lA, mas antes de tudo estudá-lA.

QUARTO PRINCÍPIO:
A vida de intimidade não é um caminho particular pois ela foi indicada pelo Senhor para todos os homens, mas pode tornar-se uma devoção particular, concentrando ali suas forças e seus esforços.

QUINTO PRINCÍPIO:
A vida de intimidade com Maria abrange todo o dogma da economia da graça, reunindo admiravelmente o fim, o caminho e os meios da salvação, indicados por Nosso Senhor.

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PRIMEIRO PRINCÍPIO

Nossos dogmas são a fonte da piedade,
pelo conhecimento que conferem de seu objeto
e pelos sentimentos que inspiram.

Pensa-se exageradamente que a parte dogmática da religião é fria, sem alma e puramente especulativa.

Há nisto um erro tão sem fundamento quão funesto para a piedade. Esta falsa idéia da "Dogmática" provém da distração, do espírito de dissipação com que se faz a leitura de livros deste gênero.

Nos dogmas há belezas, há sentimentos que se assemelham a estas cores delicadas que um dia nublado desfigura. Não se deve lê-los sem meditar e sem orar, porque, para penetrar as coisas divinas, é preciso ter um senso divino, e é o Espírito Santo quem no-lo dá.

Sem recolhimento e sem oração não se pode compreender as belezas, nem sentir o calor das verdades dogmáticas.

O dogma nos ensina a conhecer a Deus. Ora, que há que possa ser comparável a Deus?... Deus, perfeição infinita, beleza suprema, fonte e alimento de toda vida!

E conhecer a Deus é ver como este Ser de Majestade nos ama, a nós tão pequenos; é saber que Ele nos convida a gozar de Sua beatitude; e que de certo modo fazendo-nos participantes de Sua própria natureza, nos dá direito a que o chamemos: "Meu Pai!"

Bem compreendidas, estas grandes verdades trazem verdadeiros jatos de luz e de calor, nos quais a nossa alma vai haurir os sentimentos da mais terna e mais elevada piedade.

Aqui a imaginação encontra seus carinhos; a esperança, os seus anelos; a generosidade, os impulsos de grandes dedicações e o amor exulta invejando santamente crescer e embelezar-se, para se aproximar do objeto que ama e ao qual  quer agradar.

Como vedes, Deus não é somente a fonte da piedade, porque Ele no-la dá, mas é também porque as verdades dogmáticas, através das quais Ele se nos manifesta, são o verdadeiro alimento desta piedade. Meditar estas verdades é nutrir-se de Deus.

Quando o verão nos apresenta os campos repletos de trigo sazonado, nós dizemos: eis aí a vida do homem; de igual modo, contemplando as verdades da religião, pode dizer-se: eis aqui a vida da alma.

SEGUNDO PRINCÍPIO

Os mistérios, conquanto que incompreensíveis,
nos põem em contato com o objeto que eles encerram,
e que é uma iniciação à vida sobrenatural.

Em matéria de religião, as verdades mais abstratas, os mistérios mais profundos têm o seu lado prático. Alguns poderiam imaginar que ocupar-se de coisas incompreensíveis, como são os mistérios, é agitar-se no vácuo, sem nada apreender.

Esta, é uma objeção feita por certos sábios modernos, mas que está em plena contradição com os seus próprios atos. Se lhes acontece lançar um olhar distraído sobre os nossos dogmas, imediatamente gritam: isto é muito subtil, demais misterioso!

Mas, então, ó sábios inconsequentes, se a subtilidade e a profundeza são defeitos, porque então fazeis vós vossas investigações ao microscópio, para chegar até as mais secretas profundezas das coisas?...

Quantas investigações engenhosas, que de raciocínios subtis, para estabelecer vossas descobertas!...

E tendes razão.

Mas, como é que nós não temos razão, quando empregamos vossos métodos, para um objeto de uma importância muito maior?... Humildemente confessai que é somente a vossa ignorância a respeito dos nossos mistérios que vos faz desdenhá-los.

Quereríeis compreender no ser Infinito o que nem sequer sois capazes de compreender em um átomo.

Logo, distingui bem: os mistérios não são subtilezas: são simplesmente verdades, acima de nossa razão; mas verdades reais, vivas, incompreensíveis quanto ao fundo, mas não quanto às noções que delas Deus mesmo nos dá.

Os mistérios ocultam realidades e realidades compreensíveis. Deus nos revela o mistério, não para que nós o penetremos, o que nos é impossível, mas para nos pôr em contato com o objeto que ele encerra.

E qual é este objeto?
É a iniciação à vida sobrenatural.

Quantas luzes, por exemplo, não brotariam do mistério da Encarnação, da Redenção, da SS. Trindade, da graça,  etc... quantos jatos luminosos, que esclareceriam tudo, que iluminariam tudo, fazendo-nos entrever a divindade e as sublimes relações existentes entre ela e nós.

Estes mistérios esclarecem tudo; entretanto eles mesmos permanecem impenetráveis aos nossos olhos. É o que nos mostra a necessidade de estudar o dogma, de contemplar os mistérios, afim de que a luz e o calor que deles dimanam nos aclarem e aqueçam.

TERCEIRO PRINCÍPIO

A primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria,
deve ser, não somente amá-lA, mas antes de tudo estudá-lA.

Uma lacuna muito comum da piedade em geral, e em particular para com Maria Santíssima, diz muito bem um profundo teólogo e ilustre escritor (Pe. Sauvé. SS.Culto do Coração de Maria C.V) é não ser bastante esclarecida sobre o inefável objeto que ela venera, é contentar-se com afeições que com o tempo podem esgotar-se ou pelo menos enfraquecer-se.

Tendo no espírito uma débil força, apenas esfriadas as primeiras impressões do fervor, o coração e a vida começam a sentir esta pobreza doutrinal.

Eis porque a primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria, deve ser estudá-lA, e estudá-lA com toda a sua alma.

Se é necessário procurar a verdade por todos os meios, é também a verdade que diz ser à Maria que se devem aplicar estas palavras; como ocupar-se de Maria, de seu amor, sem fazê-lo de todo o coração?...

Deste modo nascerá necessariamente o pensamento vivo e habitual de nossa Mãe, e este pensamento que produzirá o amor.

Em Deus o Verbo respira o amor - Verbum spirans amorem.
Em nós o pensamento de Maria deve respirar o amor.

Sem este estudo a devoção para com a Santíssima Virgem é necessariamente incompleta e superficial.

"Nós, diz ainda o Pe. Sauvé - obra citada - fazemos de Maria uma idéia fraca, pálida, incompleta. Maria Santíssima está em um canto da vida, em um altar lateral da alma, quando deveria ocupar aí o altar principal, unida a Jesus como a Mãe é unida ao Filho, no mistério da Encarnação ou de Belém, como a nova Eva ao novo Adão, sobre o Calvário e reinando com Ele em toda a parte".

Tal deve ser pois a primeira prática do nosso culto para com Maria: estudá-lA, para que deixemos de vez esta concepção indigna de Suas grandezas e de Seu amor.

QUARTO PRINCÍPIO

A vida de intimidade não é um caminho particular pois ela foi indicada pelo Senhor para todos os homens, mas pode tornar-se uma devoção particular, concentrando ali suas forças e seus esforços.

Para provar esta asserção, basta compreender bem o ensino de Nosso Senhor, ao nos lembrar continuamente a necessidade de estarmos unidos a Ele, para vermos em seguida o que é uma devoção particular.

Estas duas questões receberão o seu plano de desenvolvimento nos domínios deste estudo. Resumamo-las aqui sucintamente, para que a sua idéia esteja continuamente presente desde esse instante e esclareça as páginas que seguem.

Para provar que a vida de intimidade foi ensinada por Jesus Cristo, basta provar que Ele é o tronco, e nós somos os ramos. (S.João XV. 5)

Do mesmo modo que os ramos não podem produzir frutos, se não estão unidos ao tronco, também nós nada podemos, se não estamos unidos a Ele. (S.João XV. 5)

E orando ao Seu Pai por nós, Ele assim diz: "Meu Pai... que o amor com que amaste esteja neles". (S. João XVII. 26) Já no Antigo Testamento Ele se dizia o esposo de nossas almas: "Eu te desposarei e nossas núpcias serão eternas". (R.P.Coulé S.J)

A vida de intimidade não é pois uma vocação especial, mas sim o próprio fundamento e o fim do cristianismo. (S.Mateus, XI. 18)

O convite de Nosso Senhor não admite exceções: "Vinde a mim todos... (S. Mateus. XI 18) e aqueles que se julgam opressos de trabalhos, afazeres, das penas da vida, ele acrescenta: Vinde a mim todos vós que estais atarefados e afadigados, e encontrareis repouso". (S.Mateus XI. 18)

Sem dúvida, Deus não nos pede um misticismo de eremita, mas sim uma união íntima e constante com Ele, como condição essencial à vida sobrenatural.

Referindo-se a vida de intimidade, isto é verdade, como o é também, referindo-se à união com a SS.Virgem. E a razão é simples: é que Deus tendo desejado que todas as graças passassem pelas mãos imaculadas de Sua Mãe, nós devemos necessariamente, para receber estas graças ser unidos Aquele que no-las comunica.

Entretanto, é por ela que nós devemos ser unidos ao próprio Jesus. Jesus Cristo teria podido traçar-nos outro caminho, mas não o fez. Logo, o caminho único para chegar até Ele é Maria. E tanto isto é verdade, que o Beato Montfort escreveu: "aquele que diz ter Deus por pai, não querendo ter Maria por mãe, é um mentiroso e um enganador". (Vraie Devotion envers la Très S. V)

Sendo Jesus nosso modelo, é necessário que se possa dizer de nós, como se pode dizer d'Ele: "Maria de qua natus est Jesus". É necessário que nasçamos da Virgem, que sejamos educados por Ela, e que por Ela enfim subamos ao céu, como por Ela o Filho de Deus baixou até nós.

Considerada sob outros ponto de vista, esta prática, embora destinada a todos, pode ser o objeto de uma devoção particular.

Chama-se devoção particular a concentração de nossos esforços, reflexões e práticas, sobre um ponto determinado da religião, afim de melhor penetrá-lo e, por meio deste conhecimento mais profundo, dar-lhe todo o nosso coração.

Aqui a alma enamorada de Maria, desejosa de amá-lA cada vez mais, e com todas as suas forças, faz suas investigações sobre o mistério da vida de união com esta terna Mãe, concentra-se esforçadamente sobre este ponto e chega por assim dizer a condensar todas as suas afeições sobre esta prática.

Sem esquecer os outros mistérios, sem rejeitar as outras devoções, ela procura aplicar a esta toda a sua força e todo o seu esplendor. E isto é para ela de uma imensa vantagem, pois especializa-se nesta devoção e superioriza-se nela, do mesmo modo que um sábio, que se dedica a um ramo da ciência, em breve se torna especialista neste mesmo ramo.

Neste sentido a vida de intimidade com a Mãe de Jesus é verdadeiramente uma devoção particular e talvez a que mais agrada ao maternal coração de Maria.

QUINTO PRINCÍPIO

A vida de intimidade com Maria abrange todo o dogma da economia da graça,
reunindo admiravelmente o fim, o caminho e os meios da salvação,
indicados por Nosso Senhor.


Geralmente o dogma da graça não é bastante conhecido pelos cristãos, somente os sacerdotes, em consequência de seus estudos teológicos, conhecem todas as belezas, todas as riquezas ocultas nesta parte do dogma.

Os simples cristãos julgam que estas questões são demasiadamente abstratas, puramente especulativas, fora de prática. É um erro. A graça é a parte viva do cristianismo, é de certo modo o próprio Jesus Cristo.

O dogma da graça, sendo de uma maneira toda especial o fundamento e o fim da vida de intimidade com a Santíssima Virgem, encontrará aqui um desenvolvimento suficiente - o que raramente se encontra em obras populares - para mostrar a todos as riquezas e belezas desta divina economia, fazendo-o em uma linguagem bastante simples, para que seja por todos compreendido.

O fim da vida de intimidade com Maria outro não é senão Jesus Cristo. Ele é a cabeça; a Virgem é o pescoço; nós somos os membros unidos o pescoço e por ele a cabeça.

Tirai a cabeça, e o pescoço não tem mais razão de existir. Do mesmo modo, a união à Santíssima Virgem de nada serviria, se Ela não nos unisse ao Redentor, nossa cabeça.

O caminho a seguir é aquele que Jesus Cristo nos mostrou. Pode dizer-se que é Ele mesmo, pois tudo quanto se encontra em Maria é d'Ele. Digamos mais: Não está Ele mesmo em Maria e não nasceu d'Ela?

Unir-nos à Maria é pois unir-nos a Ele. Passar pelo caminho de Maria é ir diretamente e sem desvios ao encontro de Jesus.

E qual é o meio desta prática?

Este meio é a Encarnação. É Maria, de quem nasceu Jesus, que está encarregada de o produzir espiritualmente em nossas almas.

***

Assim, desde o início aparece claramente o princípio, a divisão, o conjunto e a perfeita concordância das três partes em que se divide esta obra.

Está traçado o nosso plano. Não é uma série de teses que estabeleceremos acerca da devoção à Santíssima Virgem; muito menos ainda é um estudo de Seu poder ou de Suas grandezas, mas simplesmente uma indicação do fim, do caminho e do meio de nossa vida de intimidade com Ela.

Este assunto, embora bem fixo aqui, é extremamente vasto, e não menos profundo. Abrange de certo modo toda a economia da graça em Jesus Cristo, em Maria e em nós.

E com efeito a ordem que seguiremos é a seguinte:

Jesus Cristo: Fonte de graça.
A Virgem Maria: Distribuidora da graça.
Nós: Necessitados e sujeitos da graça.

Jesus Cristo: O fim e a vida.
Maria: o caminho e o modelo.
Nós: os receptores e os imitadores.

Na PRIMEIRA PARTE estudaremos pois Jesus Cristo, como autor da graça. Estudá-lO-emos em si mesmo e considerado nos efeitos de Sua graça.

Na SEGUNDA PARTE  consideraremos Maria no plano divino, Suas plenitudes de graça e as incomparáveis riquezas de dons celestiais com que foi embelezada.

Na TERCEIRA PARTE veremos o papel de Maria junto a Jesus, para nos comunicar a graça - para nos santificar - bem como o seu papel junto a nós, para nos elevar até Seu divino Filho e nos tornar participantes da natureza divina.

Em outros termos poderíamos resumir tudo dizendo que:

Na primeira parte tratar-se-á da graça em Jesus.
Na segunda, da graça em Maria.
Na terceira, da graça de Jesus em nós, por Maria.

A conclusão geral deve ser:

- Ter os olhos fixos continuadamente sobre o fim.
 - Seguir exatamente o caminho que conduz a este fim.
- Empregar os meios, que nos fazem progredir neste caminho até o fim.

(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos pelo Pe. Julio Maria, missionário de Nª. Srª. do SS. Sacramento, continua com o post: Natureza da Vida de intimidade)

PS: Grifos meus.

sábado, 26 de junho de 2010

Jesus e o mundo

143ª Contemplação

Jesus e o mundo


(Contemplações evangélicas, doutrinais e morais sobre a Paixão
de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. Júlio Maria)


Prelúdios

Vejamos o divino Mestre, o olhar flamejante, o braço estendido, lançar as Suas maldições sobre a perversidade do mundo.

Meu Jesus, elevai-me acima deste mundo, e dai-me a graça de odiá-lo, de fugir dele, conforme as Vossas recomendações.

***

Jesus continua (Jo 16,8-11):

8 - E quando vier o Espírito Santo convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao juízo.
9 - Quanto ao pecado, porque não creram em mim;
10 - Quanto à justiça, porque eu vou para o Pai e já não me vereis.
11 - E quando ao juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.

Depois de todas as sublimes virtudes que descobristes a Vossos apóstolos, ó Salvador amado, Vós lançais um último anátema ao mundo e repetis-lhes ainda uma vez que o mundo é Vosso inimigo - Omnes declinaverunt, simul inutiles facti sunt (Sl 13,3), que é perverso - Mundus totus in maligno positus est (I Jo 5,19) e que não pode haver o menor pacto entre o mundo e as Vossas instruções divinas, - Quae autem conventio Christi ad Belial aut quae pars fideli cum infideli (II Cr 6,15), pois que tudo que é do mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida... - Quoniam omne quod est in mundo concupiscentia carnis est, concupiscentia oculorum et superbia vitae. (Jo 2,15)

Vossa doutrina, ao contrário, é pureza, desapego, humildade e mortificação... Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, et tollat crucem suam et sequatur me (Mt 16,24). É portanto impossível servir a dois senhores, é preciso necessariamente amar um e odiar outro.

Os apóstolos compreendiam, sem dúvida, estas sublimes lições, mas a prática deixava ainda o são, eles entrevêem a elevação destas instruções... aspiram a reduzi-las em prática, mas falta-lhes esta convicção profunda que é o motor e o móvel dos atos generosos.

E na Vossa bondade sempre paciente e misericordiosa, ó Jesus, não lhes imputais como crime esta fraqueza, mas encorajai-los, dizendo-lhes que o que agora não compreendem, nem sabem ainda fazer, o Espírito Santo lhes ensinará e dará a força de praticar.

Quanto ao mundo, continuais, não cessais de dizê-lo, é preciso fugir dele, pois quem ama o mundo, não possui a caridade de meu Pai - Si quis diligit mundum, non est charitas Patris in eo (I Jo 2,15) - que é o princípio de salvação. Quando vier o Espírito Santo, Ele vos convencerá que o mundo é pecado, injustiça e perdição. - Arguet mundum de peccato, de justitia et de judicio (Jo 16,8)

Pecado, pois que os mundanos não crêem em mim, apesar das maravilhas que operei... e o obstáculo à sua fé é viverem no pecado e são seus pecados que os afastam de mim. - Iniquitates vestrae diviserunt intra vos et Deum vestrum (Is 59,2).

Injustiça, pois que eu volto a meu Pai, após ter ensinado e praticado a virtude, e no entanto eles me condenam, perseguem-me e dentro em pouco me darão a morte, como a um malfeitor, sabendo muito bem que eu sou inocente, mas não escutando senão o seu orgulho e o seu ciúme.

Perdição, porque Satanás, o príncipe do mundo, já está julgado e condenado. E a sorte dos aderentes e imitadores deve ser igual à do chefe que seguem. Aqueles que me seguem terão a vida eterna... aqueles que seguem a Satanás terão a morte eterna.

Meu Reino não é deste mundo... o reino de Satanás é deste mundo. Cada um é livre de escolher o seu mestre, apegar-se a ele e de esperar dele a sua recompensa.

Se eu não tivesse vindo e não lhe tivesse falado claramente da minha divindade, eles não teriam pecado em não ter acreditado em mim, mas agora eles não têm escusa de seu pecado - Si nom venissem et locutus fuissem eis, peccatum non haberent; nunc autem excusationem non habent de peccato suo (Jo 15,22) - e a incredulidade deles não pode ser senão o efeito de sua aversão por mim e pela minha doutrina.

Ora, aquele que a mim odeia, odeia a meu Pai. - Qui me odit, et Patrem meum odit (Jo 12,23) - Se eu não tivesse feito no meio deles obras que nenhum outro fez, eles não teriam pecado por não me terem reconhecido pelo Filho de Deus; mas agora eles as viram e não me deixaram de odiar a mim e a meu Pai.  Eis por que a sua sentença está pronunciada... como o foi a de seu pai Satanás: Onde está o pai lá estarão os filhos!

***

Ó Salvador adorável, que magistral lição dais a Vossos apóstolos e a mim. Eram-me necessárias estas palavras, estas condenações ao mesmo tempo formidáveis e precisas, para convencer-me da maldade do mundo de suas idéias, de suas máximas e de suas práticas.

Muito facilmente, infelizmente, eu me deixo invadir por essas ilusões de que o mundo não é tão mau como se diz... quereria convencer-me que se poderia muito bem amar-Vos e servir-Vos, e ser ao mesmo tempo deste mundo, procurar sua estima, suas honras e suas amizades... E assim eu não sou nem vosso nem do mundo... quereria conservar-me entre os dois...

E aí está por que Vossa palavra divina corta esta indecisão: Ou sou do mundo e neste caso Vos odeio a Vós mesmo, pois que a aliança entre estes dois amores é impossível.

Ó bom Jesus, confuso e arrependido, eu me prostro a Vossos pés... Compreendi a Vossa lição... dai-me a força de -la em prática. Enviai-me também o Vosso Espírito Santo, para que Ele acabe a Vossa obra, dissipe minhas últimas ilusões e me arranque para sempre ao mundo, a seus prazeres e a suas amizades, afim de que eu possa exclamar com São Francisco de Assis: "Meu Deus e meu tudo! Deus meus et omnia!"

Minha boa Mãe, em que deposito minha inteira confiança, ajudai-me a descobrir o que Jesus deseja de mim, para satisfazer o Seu amor. Quero renunciar a tudo o que é deste mundo... Não haveria em mim qualquer amizade demasiadamente humana?... alguma afeição que perturbe?... alguma procura de minha comodidade?... qualquer desejo de ser estimado, preferido! de ser aplaudido? Meu corpo, meu coração, meus pensamentos e desejos são eles todos unicamente de Deus?...

Respondei, ó Mãe, eu estou disposto a cortar tudo, a queimar tudo o que não é digno de Deus.

(Contemplações evangélicas, doutrinais e morais sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. Júlio Maria)

PS: Mantenho os grifos do autor.
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