quarta-feira, 24 de abril de 2013

Doutrina Cristã - Parte 39

Nota do blogue: Acompanhar esse Especial AQUI.

Monsenhor Francisco Pascucci, 1935, Doutrina Cristã, 
tradução por Padre Armando Guerrazzi, 2.ª Edição, biblioteca Anchieta.

I.                   — LUGARES DO CULTO

Disciplina primitiva

            8. - Embora possamos prestar a Deus culto em qualquer lugar, houve, em todos os tempos, lugares determinados, onde os homens honraram juntos a divindade. Assim, no Velho Testamento, o próprio Deus ordenara a Moisés a ereção do Tabernáculo, em que era guardada a Arca Santa, e, logo a seguir, Salomão edificou o Templo de Jerusalém.
            Como os Apóstolos se haviam reunido no cená­culo, isto é, na sala de uma casa para rezar e espe­rar serem revestidos da virtude do alto com a des­cida do Espírito Santo, também os primeiros fiéis, para celebrarem sua liturgia, se reuniam pelas casas privadas, onde uma sala a tal fim destinada oferecia o que reclamava a comodidade do culto. As­sim a casa de Marcos em Jerusalém (Atos, XII, 12), a casa do Senador Pudente e outras em Roma, etc.
            Durante as perseguições dos primeiros séculos os cristãos procuraram um lugar mais seguro de se reunir — nas catacumbas ou cemitérios subterrâneos, onde celebravam os santos mistérios sobre o túmulo dos mártires.

Basílicas. — Igrejas. — Oratórios

            9. - Concedida pelo imperador Constantino, com o edito de Milão de 313, paz religiosa à Igreja, começaram a levantar-se edifícios particulares para o culto. Constantino cedeu à Igreja algumas grandes salas, e, por primeira, a do palácio do Latrão. Des­tinadas ao culto, conservaram o nome de basílicas.
            As basílicas romanas (do grego — casa real) eram grandes salas de forma retangular, divididas ao longo por dois renques de colunas e termina­das às vezes em forma circular (abside); nelas se administrava a justiça e se organizavam os merca­dos. O nome de basílica foi dado posteriormente a alguns edifícios de culto, maiores e mais importan­tes aos outros edifícios deu-se o nome de igrejas (do grego ecclesia [assembléia]), porque nelas se reúne a assembléia dos fiéis para a Deus renderem culto.
            Igreja é, portanto, o lugar dedicado ao Senhor, a fim de servir especialmente aos fiéis para exerce­rem ali publicamente o culto divino (Can 1161).
            Diz-se igreja paroquial — o lugar onde se reúnem os fiéis de uma determinada paróquia, para as­sistirem aos sacros ritos, receberem os santos sacra­mentos e cumprirem os deveres de cristãos sob a direção do pároco.
            Os fiéis devem frequentar a igreja paroquial, pois é o lugar onde se lhes desenvolve a vida espiri­tual desde o batismo, com que nascem à vida da graça, até às honras exéquias que a igreja tributa aos mortais despojos deles, quando passarem para a eternidade.
            Diferem das igrejas os oratórios, pois, embora destinados ao culto divino, não são principalmente para o uso de todos os fiéis (Can. 118).
            Há três espécies de oratórios:
a)      públicos, se eretos principalmente para uso de alguma comunidade ou de particulares, de modo que, ao menos no tempo dos ofícios divinos, todos os fiéis tenham legítimo direito de ali entrar;
b)      semi-públicos, se eretos em proveito de algu­ma associação ou comunidade, sem que possa qual­quer um ter acesso ali;
c)      privados ou domésticos, se eretos em casa particular para a comodidade de uma família ou indivíduo (Can. 1189).

Forma da igreja

            10. - As primeiras igrejas ou basílicas assumi­ram a forma das casas romanas e das basílicas ci­vis: as primeiras tomaram o átrio ou vestíbulo e as segundas, a forma interna.
            As basílicas cristãs tinham três partes: o vestíbulo, a nave, o presbitério.

a)      Vestíbulo ou átrio ou pórtico. Era um pátio contornado de pórticos, tendo ao centro um pequeno tanque cheio de água, onde os fiéis lavavam as mãos e o rosto antes de entrar no templo, uso em vigor entre os Hebreus.
            O pórtico era destinado à primeira classe de pe­nitentes[1] chamados lugentes ou chorosos, que não tinham o direito de entrar na igreja.
b)      Nave. Do vestíbulo, ordinariamente por três portas, havia acesso ao interior da igreja, chama­do nave, porque geralmente tinha a forma de nau voltada para baixo, com a proa figurada pela abside e a popa pela fachada, a recordar a Arca de Noé ou nau de São Pedro, navegando entre os escolhos do mundo para o porto da eternidade. Ao centro da nave do meio, estava o lugar des­tinado aos cantores (schola cantorum), fechado por um gradil de mármore, com as estantes ou púlpitos para a leitura da Epístola e Evangelho.
c)      Presbitério era a parte mais alta, destinada ao clero, terminada em abside, com a cátedra do Bispo e em torno os assentos para os ministros sa­grados. Ao centro do presbitério jazia o altar, co­berto do cibório ou docel, sustido por quatro colunas.
           
            Essa forma antiga das basílicas sofreu modifi­cações com o andar do tempo. O vestíbulo desapareceu e as igrejas diretamente se abriram para as praças e vias públicas. A nave, considerada como um braço da cruz, foi talhada na extremidade por outro braço transversal ou transepto. Assim a igreja tomou a forma de cruz: — diz-se cruz grega, quando iguais. Finalmente, em muitas igrejas o altar foi colocado ao fundo da abside, em lugar do sólio episcopal.

Consagração e bênção da igreja

            11. - Na lei antiga, Deus quisera que o templo fosse dedicado com cerimônias especiais e de tal dedicação se fizesse cada ano a comemoração. Mal os cristãos puderam ter lugares especiais dedica­dos ao culto, consagraram-nos a Deus com cerimônias especiais. Encontramos, assim, na atual disci­plina da igreja, que, antes de se edificar novo tem­plo, é benta a pedra fundamental: o sacro edifício, antes de ser entregue ao culto público, é consagrado ou simplesmente bento. A sagração difere da bênção:
            a) porque a sagração somente pode fazê-la o Bispo, enquanto a bênção pode ser dada por um simples sacerdote;
            b) porque na primeira se emprega o sagrado crisma, o óleo dos catecúmenos e o rito é muito mais solene, constituído por grandes cerimônias, que encerram um significado simbólico. Da sagração das igrejas fica memória nas doze cruzes afixas ao lon­go das paredes e diante das quais, no aniversário da sagração, se faz arder uma vela.
            A sagração ou bênção das igrejas é um sacra­mental e atrai as mais copiosas graças do Senhor sobre os que rezam na igreja.
            A igreja pode ser dessagrada ou profana.
            É dessagrada, quando for destruída totalmente ou estão em ruína a maior parte dos muros. A dessagração faz perder à igreja a consagração ou bênção. Fica profanada, quando nela se perpetra um dos delitos previstos pelo Código de direito canônico (Can. 117); por ex. quando ali se praticou um homicídio ou foi sepulto um infiel ou excomungado. A profanação não tira a consagração ou bênção, mas impede que possam ali celebrar a Missa; por isso, a igreja profanada deve ser reconciliada com uma cerimônia especial.

Edifícios anexos à igreja

            12. - São edifícios anexos à igreja: — o batistério, o campanário, o cemitério, a sacristia.
            Batistério. — No princípio não havia batistérios, porque, para batizar, se empregava a água dos rios, das fontes e das nascentes naturais. Depois das perseguições, começaram a construir edifícios separados das igrejas, onde o batismo se adminis­trava solenemente por imersão no Sábado San­to e na Vigília de Pentecostes. Tal uso durou até o século VIII, quando, tornado geral o de batizar as crianças, o batistério foi colocado primeiro no pórtico e mais tarde no interior da igreja.
            Campanário. — Os primeiros cristãos em cada reunião fixavam o dia e a hora da reunião seguinte. Para depois convocar os fiéis, empregavam vários instrumentos, como os que ainda usam na semana santa — as matracas. Começaram a usar sinos por volta do fim do século VI. Sentiu-se a necessidade de colocá-los ao alto, para que o som se espalhasse ao longe, construíram por isso os campanários diferentes na forma e na grandeza.
            Os sinos destinados ao culto devem ser bentos pelo Bispo ou por um delegado seu. A cerimônia, dita comumente batismo dos sinos, compreende várias abluções e unções com o óleo dos enfermos e o sacro crisma; dá-se ao sino o nome de um san­to; há padrinho e madrinha.
            Aquela bênção é um sacramental e atrai os favores celestes sobre os fiéis que, dóceis ao som do sino, se recolhem à igreja.
            Cemitério. — O lugar escolhido para a sepultu­ra dos cristãos chama-se cemitério ou dormitório, pois a morte é dormir ou um sono à espera da ressurreição. Os primeiros cristãos sepultavam-se nas catacumbas: depois começaram a sepultá-los nas basílicas junto ao sepulcro dos mártires e, em geral, em todas as igrejas.
            Pelágio II, no sexto século, promulgou a proibição de sepultarem nas igrejas. Hoje, segundo o Código (Can., 1205), ordinariamente é concedida sepul­tura nas igrejas só aos Sumos Pontífices, Cardeais, Bispos ou pessoas de sangue real. O Cemitério deve ser bento e, quando profanado, não se permite sepultar ali a ninguém, se não for reconciliado.
            Sacristia. — É o lugar onde se conservam os vasos sacros, os paramentos da igreja, e os eclesiásticos se vestem para o exercício das sacras funções.

O altar

            13. - O primeiro e mais importante ornamento a igreja é o altar, isto é, a mesa sobre que é celebrado o santo sacrifício da Missa. No princípio, celebrava-se em cima de qualquer mesa: nas catacumbas, sobre o túmulo de um mártir. Construíram, de­pois, mesas de madeira sustidas por quatro colunas ou em forma de área, vazias interiormente. Mais tarde, construíram altares de tijolos ou pedra. Um só altar fixo havia nas igrejas, mas, introduzido no século VII o uso das missas privadas quotidianas, multiplicaram-se os altares.
            Há altares fixos ou móveis. São fixos, quando a mesa é formada de um só bloco de pedra, fixa pela base ou às colunas que a sustentam.
            Altar móvel diz-se uma pedra quadrada ou re­tangular, munida de relíquias e consagrada pelo Bispo. Pode ser encaixada na mesa do altar não con­sagrado. Deve ser de tal maneira grande que ao me­nos contenha sobre si o cálice e a patena.
            O altar fixo, para nele se poder celebrar, deve ser consagrado por um Bispo e conter as relíquias dos mártires, às quais é permitido acrescentar relíquias de outros santos, em número menor.
            O altar lembra o Calvário e simboliza o altar es­piritual, isto é, o coração dos fiéis, onde oferecem a Deus orações, boas obras, etc. A pedra do altar simboliza a Jesus, pedra fundamental da religião.

Ornamentos do altar

            14. - Antigamente o altar era coberto apenas de límpidas toalhas; depois, puseram-lhe por cima a cruz e as velas; ajuntaram-lhe o tabernáculo, os degraus, as imagens, as relíquias, as flores.
            No tabernáculo, conserva-se a santíssima Eucaristia para a comunhão, a adoração dos fiéis e a bênção. Antigamente os sacerdotes e os fiéis tam­bém guardavam consigo a santa Eucaristia; depois, as sagradas espécies foram colocadas em armários junto ao altar e, mais tarde, numa pomba de metal, suspensa. No século XVI, principiou o uso do taberná­culo ou cibório, pequena câmara de madeira, de me­tal ou mármore, com as paredes internas revestidas de metal dourado ou seda branca, portinhola fecha­da à chave. O exterior coberto do conopeu ou cober­tura de cor branca ou da cor do ofício do dia.
            O Crucifixo coloca-se no lugar de honra, para lembrar que o altar, embora dedicado a um santo, é consagrado só a Deus e sobre ele se oferece o sacrifício eucarístico, renovação incruenta do sacri­fício da Cruz.
            Aos lados do crucifixo colocam-se os candela­bros munidos de velas, para exprimirem a fé do povo cristão. Simbolizam a Jesus Cristo, luz verdadei­ra que ilumina a todo homem vindo ao mundo.
            Sobre o altar se expõem as imagens sacras (qua­dros e estátuas) e as relíquias, a fim de promover a devoção dos fiéis aos santos e indicar que Jesus Cristo, oferecendo-Se a Si mesmo em sacrifício ao Padre, associa aos seus também os votos deles.
            As flores são recomendadas e admitidas como ornamento e sinal de exultação; recordam a Jesus, flor dos campos e lírio dos vales, e figuram a oferta e o sacrifício dos fiéis ao Senhor. São preferidas as flores naturais; as artificiais, toleradas.
            Diante do altar do S. S. Sacramento deve arder continuamente uma lâmpada de azeite, para simbolizar o amor ardente de Jesus para conosco e nosso amor para com Ele.

Outros móveis da igreja

            15. - Além do altar, encontram-se nas igrejas: — o confessionário, em que se assenta o sacerdote para ouvir confissões; o púlpito, lugar elevado, de madeira ou pedra, donde se anuncia ao povo a pa­lavra de Deus; o órgão, instrumento musical para acompanhar o canto sacro e dar maior esplendor às funções sagradas; a pia de água benta, no ingresso da igreja, onde se guarda a água benta, para que os fiéis, ao entrarem na igreja, devotamente se persi­gnem e benzam, como a indicar que as almas de­vem purificar-se antes de se aproximaram do Se­nhor.



[1] - Os pecadores sujeitos à penitência pública, na igreja primitiva, se dividiam em quatro classes: a) os cho­rosos, que não tinham o direito de entrar na igreja; b) os ouvintes, que podiam entrar na igreja para ouvir as instruções; c) os prostrados, que ficavam prostrados ou ajoelhados até ao ofertório e deviam sair com os catecúmenos; d) os consistentes, que assistiam aos santos mistérios, sem participar da Comunhão.
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