quarta-feira, 17 de abril de 2013

§A avareza/Conclusão

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.
A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


            A avareza está em conexão com a concupiscência dos olhos, de que já falamos (n.° 199).
            Exporemos:
            1. ° a sua natureza;
            2. ° a sua malícia,
            3. ° os seus remédios.

1. ° Natureza. A avareza é o amor desordenado dos bens da terra. Para mostrar onde se encontra a desordem da avareza, importa recordar, primeiro, o fim para que Deus deu ao homem os bens temporais.
A) O fim, que Deus se propôs, é duplo: a nossa utilidade pessoal e a dos nossos irmãos.
            a) Os bens da terra são nos concedidos para ocorrerem às necessi­dades temporais do homem, tanto da alma como do corpo, para conser­varem a nossa vida e a dos que dependem de nós, e para nos darem meios de cultivarmos a inteligência e demais faculdades.
            Entre esses bens:

           1) uns são necessários para o presente ou para o futuro: é um dever adquiri-los por meio do trabalho honesto;
            2) os outros são úteis para aumentar gradualmente os nossos re­cursos, assegurar o nosso bem-estar ou o dos outros, contribuir para o bem público, favorecendo as ciências ou as artes. Não é proibido desejá-los para um fim honesto, contanto que se reserve uma parte para os pobres e para as boas obras.
            b) São-nos também dados estes bens para socorrermos os nossos ir­mãos que estão na indigência. Somos, pois, em certa medida, tesoureiros da Providência, e devemos dispor do supérfluo para assistir aos pobres.

B) Agora já nos é mais fácil mostrar onde se encontra a desordem no amor dos bens da terra.


a)  Está muitas vezes na intenção: desejam-se as riquezas, por si mes­mas, como fim, ou por fins intermédios que se erigem em fim último, por exemplo, para alcançar prazeres ou honras. Parar ali, não encarar a rique­za como meio de agenciar bens superiores, é uma espécie de idolatria, o culto do bezerro de ouro; não se vive mais que para o dinheiro.
b)    Manifesta-se ainda na maneira de as adquirir: procuram-se com avidez, por toda a espécie de meios, com prejuízo dos direitos doutrem, com dano da saúde própria ou dos empregados, por meio de especula­ções temerárias, com risco de perder o fruto das próprias economias.
c)      Aparece também na maneira de usar deles:

1)    Só se despendem de má vontade, com mesquinhez; o que se quer é acumular, para maior segurança, ou para gozar da influência que dá a riqueza;
2)    não se dá nada ou quase nada aos pobres e às boas obras: capita­lizar, eis o fim supremo que se procura a todo o transe.
3)    Alguns chegam deste modo a amar o dinheiro como um ídolo, a aferrolhá-lo no cofre, a apalpá-lo com amor: é o tipo clássico do avarento.

C) Este defeito não é geralmente o dos jovens, que, ainda levi­anos e imprevidentes, não pensam em capitalizar; há contudo exceções entre os caracteres sombrios, inquietos, calculadores. Na idade madura ou na velhice é que ele se manifesta: então é que se desenvolve o temor de vir a passar míngua, fundado por vezes no receio das doenças ou dos acidentes que podem produzir a impotência ou a incapacidade de traba­lhar. Os solteirões e solteironas estão particularmente expostos a este vício, por não terem filhos que os socorram na velhice.

D) A civilização moderna desenvolveu outra forma do amor insa­ciável das riquezas, a plutocracia, a sede de chegar a ser milionário ou até bilionário, não para assegurar o seu futuro ou o de seus filhos, senão para adquirir esse poder dominador que o dinheiro conquista. Quem tem à sua disposição somas enormes, goza de grandíssima influência, exerce um po­der muitas vezes mais eficaz que os governantes, é o rei do ferro, do aço, do petróleo, da finança e manda aos soberanos como aos povos. Esta domina­ção do ouro degenera muitas vezes em tirania intolerável.

2. ° Sua malícia. A) A avareza é um sinal de desconfiança de Deus, que prometeu velar sobre nós com paternal solicitude, não nos deixando jamais passar falta do necessário, contando que tenhamos con­fiança n’Ele. Convida-nos a olhar para as aves do céu, que não trabalham nem fiam, não certamente para nos incitar à preguiça, senão para acal­mar as nossas preocupações e nos estimular à confiança em nosso Pai celestial. Ora o avarento, em lugar de pôr a sua confiança em Deus, coloca-a na multidão das suas riquezas e faz injúrias a Deus, desconfian­do d”Ele: «Ecce homo qui non posuit Deum adiutorem suum, sed speravit in multitudine divitiarum suarum et praevaluit in vanitate sua[1] Esta desconfiança é acompanhada de excessiva confiança em si mesmo, na sua atividade pessoal: quer o homem ser a sua providência, e assim cai numa espécie de idolatria, fazendo do dinheiro o seu Deus. Ora, nin­guém pode servir ao mesmo tempo a dois senhores, a Deus e à riqueza: non potestis Deo servire et mammonae[2]».
            É, pois, grave de sua natureza este pecado, pelas razões que acaba­mos de indicar, é o também, sempre que leva a faltar aos deveres graves da justiça, pelos meios fraudulentos que porventura se empreguem, para adquirir e reter a riqueza; da caridade, quando se não dão as esmolas necessárias; da religião, quando alguém se deixa de tal modo absorver pelos negócios que menospreza os deveres religiosos. - Não passa, porém, de pecado venial, quando nos não leva a faltar a qualquer das gran­des virtudes cristãs, nem muito menos aos deveres para com Deus.

B) Sob o aspecto da perfeição, é gravíssimo obstáculo o amor desordenado das riquezas.
            a) E paixão que tende a suplantar a Deus em nosso coração: este coração, que é templo de Deus, é invadido por toda a sorte de desejos inflamados das coisas da terra, de inquietações, de preocupações absor­ventes. Ora, para nos unirmos a Deus, é mister desprender o coração de qualquer criatura ou preocupação terrena; porque Deus que «todo o espírito, todo o coração, todo o tempo e todas as forças de suas pobres criaturas». - É sobretudo necessário esvaziá-lo do orgulho; ora o apego às riquezas desenvolve esse orgulho, porque o homem tem mais confi­ança nos bens terrenos que em Deus.
            Deixar prender o coração ao dinheiro é, pois, levantar um obstácu­lo ao amor de Deus; porque onde está o nosso tesouro lá está também o nosso coração: «ubi thesaurus vester, ibi et cor vestrum erit». Despren­dê-lo é abrir a Deus a porta do coração: uma alma despojada dos bens da terra é rica do próprio Deus: toto Deo dives est.
            b) A avareza conduz igualmente à imortificação e à sensualidade: quem tem dinheiro e o ama, quer gozar dele e comprar com ele muitos prazeres; ou então, se se priva desses prazeres, é para apegar o coração ao dinheiro. Em ambos os casos, é sempre um ídolo que nos afasta de Deus. Importa, pois, combater esta triste inclinação.

3. ° Remédios. A) O melhor remédio é a convicção profunda, fundada na razão e na fé, que as riquezas não são fim, senão meios que nos dá a Providência, para acudirmos às nossas necessidades e às de nossos irmãos; que Deus nunca deixa de ser o soberano Senhor delas; que nós, a bem dizer, não passamos de meros administradores, e que um dia havemos de dar conta delas ao Juiz Supremo. - E depois, são bens que passam, que não levaremos conosco para a outra vida, onde não corre essa moeda; se somos prudentes, para o céu e não para a terra é que trataremos de capita­lizar: «Não queirais entesourar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem nem a traça os destroem e os ladrões os desenterram e furtam. Entesourai antes para vós tesouros no céu, onde nem a ferrugem nem a traça os destroem e onde os ladrões não os desenterram, nem furtam».

B) Para melhor desapegar o coração, não há meio mais eficaz que deposi­tar os seus bens no banco do céu, consagrando uma parte generosa aos pobres e às obras. Dar aos pobres é emprestar a Deus, é receber o cêntuplo, ainda mesmo neste mundo, tendo a consolação de fazer ditosos à roda de si, mas sobretudo no céu, onde Jesus, que considera como dado a Si mesmo o que foi dado ao menor dos seus, se encarregará de restituir em riquezas imperecedouras os bens temporais que houvermos sacrificado por Ele. Pendentes são, pois, aqueles que cambiam os tesouros da terra pelos do céu. Procurar a Deus, ten­der à santidade, eis aqui em que consiste a prudência cristã: «Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo isto vos será dado por acréscimo: Quaerite primum regnum Dei et iustitiam eius; et haec omnia adiicientur vobis[3]»

C) Os perfeitos vão mais longe: vendem tudo, para darem aos pobres, ou para o porem em comum, entrando numa congregação. - Pode também algum, sem abdicar o domínio, despojar-se dos rendimen­tos não fazendo uso deles senão conforme o parecer dum prudente di­retor Desse modo, sem sairmos do estado em que a Providência nos colocou, podemos praticar o desprendimento de espírito e do coração.

            Conclusão
            E assim, a luta contra os sete pecados capitais acaba de desarrai­gar em nós as tendências más que resultam da concupiscência. Ficarão sempre em nós, sem dúvida, algumas dessas tendências, para nos exercita­rem na paciência e despertarem o sentimento da desconfiança em nós mes­mos; serão, porém, muito menos perigosas e apoiados na graça de Deus, mais facilmente delas triunfaremos. Apesar de todos os nossos esforços, elevar-se-ão ainda com certeza tentações em nossa alma, que a Providência divina permitirá, para nos dar ocasião de novas vitórias.



[1] Sl 51,9.
[2] Mt 6,24.
[3] Mt 33.
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