domingo, 31 de outubro de 2010

Oração - A Sagrada Família

A SAGRADA FAMÍLIA


Família, cuja glória
Brilha com puro fulgor;
Sê-me sempre na memória,
Sempre invoque o vosso favor!

Quando um Deus Se manifesta
Como é últil a lição!
Ver Jesus como obedece
Por amor, com sujeição.

Diante desta Família,
Cheios de doce emoção,
Imploremos de joelhos
Seu poder e proteção.

Salve, Trindade terrestre,
Jesus, Maria, José,
Reflexo do Deus celeste
Nossa esperança, amor e fé!

Humildes vimos pedir-vos
Que no momento final
Vamos, por vós protegidos,
A mansão celestial!

(A Sagrada Família, por um padre redentorista,
edição de 1910)

Educação sobrenatural - IX - A formação da consciência

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL


IX - A FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA


"Deus está no meio da alma;
tem o Seu trono, na consciência dos bons"
(Santo Agostinho)

Que é a consciência?
É na alma das crianças a morada que Deus escolheu e onde quer reinar, quer dizer: "falar, agir, promulgar a lei, insinuar os Seus conselhos, pronunciar sentenças, punir e recompensar".
(M. O abade Cláudio Bouvier, A educação religiosa, p. 145).

Como pode a mãe contribuir para a formação da consciência?
Suprindo-a; esclarendo-a; tornando-a simples; dirigindo-a; preservando-a; exercitando-a.

É preciso supri-la.

"A mãe deve ser a primeira consciência da criança que não tem consciência".
(M. O abade Cláudio Bouvier, A educação religiosa, p. 145)

Quando se deve a mãe suprir a consciência da criança?
Quando a criança é muito nova, quando a sua consciência está ainda adormecida; quando a sua natureza de desenvolve na irresponsabilidade.

Se a mãe é tentada a abandonar todo o cuidado, dizendo que a criança se educará bem sozinha, não terá mais que recordar-se do pecado original, com as suas deploráveis conseqüências, para compreender que é a ela que pertence notar o mal, e afastar o filho desse mal, que a criança não saberia nem ver, nem repelir por si mesma; como é a ela que pertence saudar e manter as tendências boas, cujo mérito não cabe à criança, mas que desabrocharão em frutos de graça e de santidade.

É preciso esclarecê-la.

"Há na consciência Deus e tu"
(Santo Agostinho)

Como pode a mãe esclarecer a consciência da criança?
Explorando a maravilhosa facilidade de adaptação ao bem com que a natureza, e mais ainda a graça do batismo, enriqueceram a criança.

A natureza. - Desde a mais tenra idade, a criança faz uma escolha entre os seus brinquedos; manifesta preferência por uma pessoa e repugnância por uma outra; desvia-se com horror de certos espetáculos, e contempla outros complacentemente. É uma primeira distinção entre o bem e o mal; está longe de ser sempre moralmente exata; mas pode e deve servir para tirar das profundidades da consciência a noção fundamental daquilo que é permitido e proibido.

A graça do batismo. - Quando a mãe, para a instruir da maldade e da bondade moral das coisas, diz à criança: "Isto é bonito!... Isto é feio!..." além da vantagem apreciável de unir o bem e o belo e projetar sobre a lei de Deus qualquer coisa do esplendor que a envolve, pode acrescentar: "aquilo que é feio faz chorar o Menino Jesus, e aquilo que é belo fá-lO sorrir".

Por esse meio atinge a fibra sobrenatural, tão delicada e tão sensível, que nenhum choque exterior veio ainda falsear, e que vibra ao primeiro contato com o nome e as coisas de Deus; por essa forma liga a um princípio superior e divino a alegria ou a tristeza que ela mesma experimenta pelo comportamento do filho; dessa maneira dá à consciência, em via de formação, uma orientação simples e reta.

É preciso torná-la simples.

Que se deve entender por esta expressão: tornar simples a consciência?
Quer dizer:

Que os pais não devem comprometer a autoridade santa de que gozam com intervenções muito frequentes ou inspiradas pelo capricho e pela vaidade.

É preciso dirigi-la.

Como pode a mãe dirigir a consciência da criança?
Por esta fórmula: Deus vê-te.

Se a criança estiver bem convencida disto:

1º- Evitará, geralmente, o mal. Com efeito, como deixar-se arrastar pelo pecado sob o olhar dum Deus, que se julga todo-poderoso e eterno?

2º- Reparará o mal depois de o haver praticado. O remorso, na verdade, far-lhe-á ouvir a voz de Deus, aquela voz que perseguia Adão após a desobediência: Adão, onde estás tu?

Por outro lado, o Jesus do Presépio, o Jesus do Calvário, Jesus chorando sobre Jerusalém, Jesus perdoando à Madalena, erguerão na criança a confiança ao nível do temor; e, não podendo já resistir, solicitará e obterá um perdão que repare a falta cometida.

- Lançar-se-á repentinamente na generosidade, no amor de Deus e da virtude.

Há alguma coisa de que não seja capaz uma criança que não tenha compreendido e sentido a suavidade do jugo divino?

É preciso preservá-la.

Qual é o grande meio de preservar a consciência das crianças?
É infundir-lhes na alma princípios.

"O grande perigo que corre a consciência das crianças é deixar alterar em volta delas os princípios, os princípios que valem mais do que os atos... Corrigem-se duma fraqueza, corrigem-se mais raramente duma idéia falsa, mas raramente ainda duma disposição geral do espírito que põe em dúvida ou diminui as verdades morais".
(Bouvier)

(Veja-se o que dissemos do apego aos princípios, na formação da vontade; e do amor do dever, na formação do coração).

De que é preciso preservar a consciência da criança?
- Do pecado;
- Do escrúpulo;
- Das ilusões.

Quais são os meios a empregar para preservar do pecado a consciência da criança?
É preciso:

1º- Dar-lhe uma idéia justa do pecado;
- Inspirar-lhe um profundo horror por ele.

Que é preciso para que a criança tenha uma idéia justa do pecado?
É preciso:

1º- Que nunca seja induzido em erro;
- Que conheça a grande diferença que existe entre o pecado mortal e o pecado venial;
- Que aprecie no seu verdadeiro valor o pecado venial.

Há crianças que são induzidas em erro?
"Há mães, proceptoras e até criadas, talvez piedosas, mas certamente duma piedade mal esclarecida, que julgam ter descoberto um meio mais engenhoso de governar o seu pequeno mundo. Declaram solenemente às crianças que, se elas cometem tal ou tal fraqueza, se são desobedientes, se fazem barulho, se batem nos outros, etc., cometerão um pecado mortal, e que o demônio as levará para o inferno. Aplaudem-se da sua habilidade, porque, pensam elas, conseguem assim, algumas vezes, ser ouvidas, além disso, em caso de desobediência, como a culpa é nula ou muito leve, não há a temer pecado grave".
(Charruau, Às mães, p. 20-21)

Que se deve pensar deste método?
"Este procedimento é muito censurável. Primeiramente nunca se deve dizer o que não é verdade. E depois, como não querem os pais expor a criança a pecar, se ele obra contra a sua consciência? O caso não é absolutamente quimérico, para aqueles que atingiram a idade da razão. Se a criança está convencida de que vai pecar mortalmente, de que vai desagradar a Deus, fazendo aquilo que lhe proibiram, e se procede doutro modo, apesar do aviso da sua consciência, comete uma falta, porque consente em ofender a Deus e, em certas circunstâncias, esta falta pode ser mortal."
(Charruau, Às mães, p. 20-21)

Como se pode ensinar a criança a distinguir o pecado mortal do pecado venial?
Não se trata ainda de lhe dar pormenorizadamente as noções teológicas que esclareçam a questão; mas é preciso dizer-lhe que há pecados mortais; dar-lhe exemplos: que, se se cometer um só, perde a amizade de Deus e merece ir para o inferno por toda a eternidade, o que é a maior das desgraças.

É preciso dizer-lhe também que há pecados veniais, que não merecem o inferno... mas que são o maior mal depois do pecado mortal.

É preciso dizer ainda que Deus detesta o pecado venial, que o pune ao purgatório, e que Nosso Senhor sofreu na Cruz por causa das faltas veniais.

Qual o perigo a evitar quando se quer estabelecer esta distinção?
É preciso evitar tudo o que dê a perceber que se não faz caso do pecado venial.

"Nunca se deve dizer às crianças: Isto não é nada, não passa dum pecado venial. Não se comete pecado mortal em proceder assim; por conseguinte, não vale a pena atormentar-nos com isso". Dariéis bem depressa às crianças a convicção de que o pecado venial nada ou quase nada é; que é um pecado que se pode cometer sem inquietações; que tudo o que não for pecado mortal é permitido".
(Charruau, Às mães, p. 21)

É por não haverem sido instruídas com precisão e delicadeza que certas pessoas dizem:

Pode-se faltar ao princípio da missa no domingo; podem-se ter distrações voluntárias nas orações; pode-se trabalhar aos domingos, contanto que não seja mais de duas horas, etc.

A consciência, assim formada, perderá muito em breve toda a delicadeza, o pecado venial não será evitado, a criança aproximar-se-á então insensivelmente do pecado mortal. Há aqui um verdadeiro perigo.

Bossuet, na oração fúnebre de Maria Teresa de Áustria, fala-nos do horror que ela tinha por todos os pecados:

"Ela dizia muitas vezes, com essa ditosa simplicidade que lhe era comum com todos os santos, que não compreendia como se podia cometer voluntariamente um só pecado, por pequeno que fosse. Por isso, nunca dizia: É venial; mas dizia: É pecado, e o seu inocente coração sublimava-se."

O que se pode fazer para inspirar à criança horror pelo pecado?
1º- É preciso primeiramente que o próprio educador esteja bem compenetrado disso; não se pode dar o que se não tem; é impossível arrastar à convicção daquilo de que se não está convencido.

- É preciso que o educador traduza nas palavras, nos gestos, na atitude, e até no jogo fisionômico, uma sincera e profunda aversão por tudo o que ofensa a Deus.

- É preciso multiplicar os exemplos, lições vivas que impressionam a criança e lhe formam a mentalidade.

(Catecismo da educação, pelo abade René de Bethléem, continua com o post: A educação da consciência, parte II)

PS: Grifos meus

sábado, 30 de outubro de 2010

Belíssima gravura da Oração Dominical

Belíssima gravura da Oração Dominical
(clique nelas para ampliá-las)


Explicação da gravura

Belíssima gravura da Saudação Angélica

Belíssima gravura da Saudação Angélica
(clique nas gravuras para ampliá-las)


Explicação da gravura



ORAÇÃO PELOS SACERDOTES

ORAÇÃO PELOS SACERDOTES



Por amor do Imaculado Coração de Maria, dai-nos santos sacerdotes, ó JESUS.

É, por meio deles, que o recém-nascido se torna filho de DEUS, o pecador recupera a paz, os fiéis têm o benefício dos Santos Sacramentos, os desamparados se refugiam junto do Sacrário de onde recebem o divino Pão dos Anjos e o moribundo vê fechar-se-lhe a porta do inferno e abrir-se- lhe a porta do Céu.

Por amor do Coração Imaculado de Maria, dai-nos santos sacerdotes, ó JESUS.

Sacerdotes de mãos puras e sem mancha, que levantem ao Céu o cálice e a Hóstia Imaculada, interpondo-se poderosos pela paz dos povos e prosperidade das nações, sacerdotes que devorados pela caridade, se rodeiem de almas inocentes, para guiá-las ao Céu; de mocidade, conservando-a para DEUS, e se consumam pelo tesouro da Fé e da Religião.

Por amor do Coração Imaculado de Maria, dai-nos santos sacerdotes, ó JESUS.

Sacerdotes que, famintos de Vosso amor, abandonem a Pátria, parentes e amigos pela salvação do próximo; que perseguidos pelo Mundo, por satanás pelas paixões, progridam sempre na santidade, apregoando a Fé e a Vossa doutrina. Amém.

(Oração extraída do livro: As exelecências da Santa Missa, Leonardo de Porto Maurício)

A Santa Missa é de grande auxílio para as almas do Purgatório

A SANTA MISSA É DE GRANDE AUXÍLIO
PARA AS ALMAS DO PURGATÓRIO


Para concluir esta instrução, refleti que não foi premeditado desígnio que disse anteriormente que uma única Santa Missa, tomada em si e em relação ao seu valor intrínseco, basta para esvaziar inteiramente o Purgatório e abrir a todas as almas, que lá se acham, as portas do Paraíso. Com efeito, este Divino Sacrifício vai em auxílio das almas dos falecidos, não só satisfazendo por suas dívidas como propiciatório, mas ainda obtendo-lhes a libertação, como impetratório. Isto decorrente claramente da conduta da Igreja, que não somente oferece a Santa Missa pelas almas sofredoras, como também insere orações para libertá-las.

Ora, a fim de excitar vossa compaixão por essas santas almas, sabei que o fogo em que estão mergulhados é tão devorador quanto o do próprio Inferno. Tal é a opinião de São Gregório. Instrumento da Justiça Divina, ele age sobre as almas com tão grande ardor, que lhes causa dores intoleráveis e superiores a todos os suplícios que jamais se pode ver, experimentar ou sequer imaginar aqui na Terra.

Muito mais, porém, sofrem elas pela pena de dano, e é, a privação da bem-aventurada visão de DEUS. Elas experimentam, diz São Tomás, uma insuportável angústia, causada pelo desejo que têm de ver o Soberano Bem, desejo que não pode ser satisfeito.

Pois bem, consulta-vos intimamente e respondei à pergunta: Se vísseis vosso pai e vossa mãe a ponto de afogar-se num lago e que para salvá-los vos bastasse estender a mão, não seríeis levados, pela caridade e pela Justiça, a socorrê-los!?

E então! vedes com os olhos da Fé tantas pobres almas de vossos parentes próximos, queimando vivas num lago de fogo, e não quereis impor-vos um pequeno incômodo para assistir devotamente à uma Santa Missa em seu sufrágio. De que é feito o vosso coração? Pois quem pode duvidar que a Santa Missa leve um grande auxílio a essas pobres almas? Quanto a isto, ouvi São Jerônimo. Ele vos dirá claramente que, ao celebrar-se a Santa Missa por uma alma do Purgatório, o fogo tão devorante que ordinariamente a consome, suspende sua ação e ela não sofre pena alguma enquanto dura o Sacrifício. Animae quae sunt in Purgatorio pro quibus solet sacerdos in Missa orare, ínterim nullum tormentum sentiunt dum Missa celebratur.

Além disso, afirma que, a cada Santa Missa, muitas almas ficam livres do Purgatório e voam para o Paraíso. Missa celebrata, plures animae exeunt de Purgatório. Acresce que esta caridade, exercida em favor das pobres almas, redundará inteiramente em vosso proveito.

Infinidade de exemplos poderia eu apresentar-vos em apoio desta afirmação. Contentar-me-ei com um fato perfeitamente autêntico, acontecido com São Pedro Damião. Criança ainda, ele perdeu o pai e foi recolhido na casa de um dos irmãos, que o tratava com muita desumanidade a ponto de deixá-lo andar descalço, em andrajos e lhe faltando tudo.

Sucedeu que um dia o menino achou, na rua, uma moeda qualquer. Imaginai a sua alegria e como lhe pareceu ter achado um tesouro. Mas em que empregá-lo! A pobreza sugeria-lhe mil projetos. Por fim, depois de refletir longamente, decidiu dar o dinheiro a um sacerdote para que celebrasse uma Santa Missa pelas santas almas do Purgatório. Podeis acreditar: desde então a fortuna mudou para ele. Recolheu-o outro dos irmãos, mais compassivo, que o amou como um filho deu-lhe roupas convenientes, enviou-o à escola, contribuindo assim para que ele se tornasse esse grande homem e grande Santo, ornamento púrpuro e forte sustentáculo da Igreja.

Vede como uma única Santa Missa, encomendada com ligeiro sacrifício, se tornou para ele a origem de tão grande bem.

Ó bem-aventurada Santa Missa! Que ajuda ao mesmo tempo os mortos e os vivos, que alcança graças para o tempo presente e para a eternidade. Essas santas almas são tão gratas a seus benfeitores, que chegando ao Céu, elas se constituem seus advogados e jamais os abandonam até que os vejam de posse da glória.

Foi o que verificou uma mulher de má vida em Roma. Inteiramente esquecida de sua salvação, não pensava senão em satisfazer suas paixões, e servia de agente de satanás para corromper a mocidade.

Já não fazia nenhuma boa ação, a não se encomendar quase todos os dias uma Santa Missa pelas almas do Purgatório.

Oh! Essas almas, como se pode crer piedosamente, oraram tão bem por sua benfeitora, que um belo dia, tomada de profunda contrição de suas faltas, ela abandonou sua casa infame, foi prostrar-se aos pés de um zeloso confessor, fez sua confissão geral e pouco tempo depois morreu em consoladoras disposições que todos ficaram persuadidos de sua salvação eterna. Esta graça tão admirável foi atribuída à eficácia das Santas Missas que ela encomendava pelas lamas do Purgatório.

Despertemos também nós, e não deixemos que os publicanos e as mulheres da má vida nos precedam no Reino de DEUS (Mt 21,31).

Se fôsseis dessa raça de ingratos que não só faltam à caridade, que se esquecem de rezar por seus falecidos, e não participam nunca de uma Santa Missa por esses pobres afligidos, mas ainda, violando toda justiça, recusam aplicar os legados piedosos de Missas, indicados no testamento de seus parentes.

Oh! Então eu me inflamaria a vos diria em face: “Retira-vos, sois piores que um demônio, pois, realmente, os demônios só torturam as almas dos réprobos, mas vós, vós atormentais as almas dos eleitos; os demônios exercem sua raiva sobre os condenados, mas vós sois cruéis com os predestinados, os amigos de DEUS. Não, não há para vós, nem confissão que valha, nem padre que vos possa absolver se não fizerdes penitência de tão grande pecado e não solverdes inteiramente as dívidas que tendes com os mortos.”

- Mas, direis, não tenho meios de encomendar essas missas, não é possível.

- Não tendes meios? Não é possível? E para manter essa casa confortável, para andar suntuosamente vestido, para gastar loucamente em festins, em recepções de prazer, e, às vezes, em, divertimentos criminosos, tendes meios. Depois quando se trata de pagar vossas dívidas, aos pobres defuntos; não possuís nada! Não é possível?! Ah! compreendo: não há ninguém na Terra para cobrar essas contas. Mas tereis que prestá-las a DEUS.  Continuai, portanto, a comer os bens dos mortos, os legados piedosos, os sacrifícios, mas sabei que é para vós que está escrito nos Profetas uma ameaça de desgraças, de calamidades, de tribulações, de ruína irreparável para vossos bens, vossa honra e vossa vida. Eis a palavra de DEUS que não poderá ficar sem efeito: Comederunt sacrificia mortuorum et multiplicata est in eis ruína – “Comeram os sacrifícios dosmortos e multiplicou-se neles a ruína” (Sl 102, 28-29).

Sim, ruínas, infortúnios, perdas irreparáveis às casas que não se desobrigaram de seus deveres para com os mortos. Vede quantas famílias extintas, quantas casas arruinadas, lojas fechadas, comércio em apuros, falências, quantos males, quantos lamentos! Mas qual é a causa? Um exame atento revelaria que uma das causas principais é a crueldade para com os pobres mortos, recusando-lhes os sufrágios devidos, negligenciando o cumprimento dos legados piedosos. Comederunt sacrificia mortuorum et multiplicata est in eis ruín.

Entretanto, não consiste ainda nisto todo o castigo de DEUS àqueles sem amor a seus falecidos: outro maior lhes está reservado na outra vida. São Tiago assegura que eles serão julgados por DEUS com todo o rigor da justiça, sem misericórdia, pois que eles mesmos foram impiedosos com os pobres mortos. Judicium sine misericordia illi qui non fecit misericordiam. (Tg 2, 13).

Permitirá DEUS que seus herdeiros lhes paguem na mesma moeda, e é, que suas últimas disposições não sejam cumpridas, as Missas deixadas em testamento não sejam realizadas: e, se forem celebradas, DEUS não as aplicará a eles, mas a outras almas que nesta vida tiveram compaixão dos mortos.

Isto nos ensinam, outrossim, nossas crônicas, a respeito de um irmão que, após a morte, apareceu a um de seus companheiros, revelando-lhe que no Purgatório sofria dores extremas, especialmente por ter sido muito negligente em rezar por seus irmãos falecidos. Até aquele momento ele não recebera nenhum alívio dos sufrágios e Missas oferecidos em seu favor. Como punição por sua negligência, DEUS os aplicava a outras almas que em vida tinham sido devotas das almas sofredoras.

Ante de terminar esta instrução, permiti-me caro leitor, suplicar-vos de joelhos e mãos postas de não fechar este livro sem tomar a firme resolução de fazer, no futuro, todo o esforço para assistir ou encomendar todas as Santas Missas que vossas ocupações e vossa condição vos permitirem, não só pelas almas dos falecidos, mas também pela vossa, e isto por dois motivos. Em primeiro lugar, para alcançardes uma boa e santa morte, pois é opinião constante dos teólogos que não há meio mais eficaz para se chegar a um bom fim, do que a Santa Missa. Ainda mais, Nosso Senhor JESUS CRISTO revelou a Santa Mectilde que aquele que, durante a vida, tiver tido o hábito de assistir devotamente à Santa Missa, será consolado na morte pela presença dos Anjos e dos Santos protetores, que o defenderão poderosamente contra todos os ataques dos demônios.

Ah! De que bela morte será coroada a vossa vida, se a tiverdes empregado em assistir a todas as Santas Missas que puderdes. Em segundo lugar, par sair prontamente do Purgatório e voar à glória eterna. Já provamos suficientemente a eficácia da Santa Missa para apressar a remissão das penas do Purgatório. Contentai-vos aqui com o exemplo e autoridade do grande servo de DEUS, João d´Ávila, oráculo da Espanha. Encontra-se em artigo de morte e alguém lhe perguntou o que mais queria depois da morte, e ele respondeu: Missas, Missas, - Missas!

As excelências da Santa Missa - Leonardo de Porto Maurício, da Ordem dos Frades Menores, conforme a edição romana de 1737 dedicada a S.S.Papa Clemente XII (Em PDF)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fatos da vida de São Domingos Sávio

Fatos da vida de São Domingos Sávio
narrados por São João Bosco
 
 
Devoção à Mãe de Deus

Entre os dons que Nosso Senhor lhe outorgou distinguia-se o seu fervor na oração. O seu espírito estava tão habituado a conversar com Deus que, em qualquer lugar, mesmo no meio da maior confusão, Domingos concentrava os seus pensamentos e, com piedoso afeto, elevava o coração a Deus.

Quando orava em comum, parecia um anjo; de joelhos, imóvel, em atitude devota, com o rosto sorridente, a cabeça um pouco inclinada e os olhos baixos, parecia outro São Luís.

Bastava vê-lo para se ficar enternecido. Em 1854 o Conde Cays foi eleito presidente da Companhia de São Luís, fundada no Oratório. Da primeira vez que tomou parte nas nossas cerimônias, viu um menino numa atitude devota que lhe causou grande admiração. Terminada a função, quis saber quem era aquele rapaz que tanto o impressionara: - era Domingos Sávio.

Sacrificava quase sempre uma parte do recreio para ir à Igreja e ali rezar a coroa das Sete Dores de Maria, ou, pelo menos, a ladainha de Nossa Senhora das Dores.

Não se contentava em ser devoto de Maria Virgem Imaculada. Em honra da celeste Senhora fazia todos os dias alguma mortificação. Nunca fitava pessoas de sexo diferente. Indo às aulas, raramente levantava os olhos do chão. Passando às vezes perto de espetáculos públicos, que para os companheiros era objeto de curiosidade e de satisfação, ao perguntarem-lhe se tinha gostado, Domingos respondia que não tinha visto nada.

Um dia, um companheiro encolerizado reprovou esse seu modo de proceder, dizendo-lhe:

- Para que tens esses olhos, meu parvo, se não vês tais coisas?

- Os meus olhos, respondeu Domingos, quero-os para ver o rosto da nossa Mãe Celeste, a Virgem Maria, quando, se for digno disso, me receber Deus no Paraíso.

Cultivava uma devoção especial ao Imaculado Coração de Maria. Todas as vezes que entrava numa igreja, ia direto ao Seu altar para Lhe pedir que conservasse o seu coração bem longe de qualquer impureza.

- Maria,- dizia ele – quero ser sempre Vosso filho. Fazei que morra antes que me suceda à desgraça de cometer um pecado contra a modéstia.

Todas as sextas-feiras destinava uma parte do tempo para ler um bom livro ou ir à igreja com alguns companheiros, orar pelas almas do Purgatório ou em homenagem a Maria Santíssima. Muito grande era a devoção de Domingos a Nossa Senhora.

Viam-no radiante de alegria todas as vezes que podia levar alguém para rezar diante do altar da Mãe de Deus. Certo sábado convidou um amigo a ir com ele a igreja rezas as Vésperas da Bem-Aventurada Virgem Maria. Este tentou: esquivar-se alegando estar com as mãos frias. Domingos tirou imediatamente as luvas, ofereceu-as ao companheiro e entraram ambos na igreja. Noutra ocasião emprestou o capote a um companheiro friorento para o mesmo fim. Quem não ficará tomado de admiração perante tais atos de generosidade?

Maio, o mês consagrado a Nossa Senhora, era para Domingos o mês do seu maior fervor. Combinava com os outros para, em cada dia do mês, fazerem uma cerimônia particular, além das que se faziam na igreja. Preparava uma série de exemplos edificantes, que narrava aos companheiros para animá-los a serem devotos de Maria Santíssima. Falava nisso durante os recreios e incitava-os a comungarem, especialmente no mês das flores, como preito a Maria: Era o primeiro a dar o exemplo, aproximando-se todos os dias da Sagrada Mesa com seráfico recolhimento.

Um episódio curioso revela-nos a ternura que ele consagrava à Mãe de Deus. Os alunos do seu dormitório deliberaram fazer, as expensas suas, um elegante altarzinho para solenizarem com mais brilho o encerramento do mês de Maria. Domingos era uma doba doura nesse trabalho; mas chegando-se à altura do pagamento da cota, que cada qual devia dar, começaram as dificuldades. Domingos declarou:

- Até aqui vamos bem, mas para estas coisas precisa-se de dinheiro e é o que eu não tenho. No entanto, quero contribuir de qualquer modo, custe o que custar.

E, dizendo isto, foi buscar um livro que lhe tinha sido dado de prêmio, e pedindo licença aos superiores, voltou radiante de alegria dizendo:

- Meus amigos, estou em condições de concorrer com alguma coisa para honrar a Virgem Santíssima; pegai neste livro, tirai dele a utilidade que puderdes; é a minha oferta.

Á vista daquele ato espontâneo de generosidade, os companheiros enterneceram-se e também quiseram oferecer livros e objetos. Com esse material fizeram uma rifa, e conseguiram arranjar mais do que o necessário para as despesas.

Concluído o altar, os alunos queriam celebrar a festa com a maior solenidade. Todos trabalhavam o mais que podiam, mas não conseguindo acabar a ornamentação, foi preciso trabalhar de noite.

- Eu passarei a noite a trabalhar – disse Domingos.

- Ao menos, vinde acordar-me assim que tudo estiver pronto, para eu ser um dos primeiros a admirar o altar ornamentado em homenagem à nossa querida Mãe.

Os companheiros obrigaram-no, porém, a ir-se deitar, visto estar convalescente de uma doença que tivera. Domingos não queria e foi necessário insistir muito para que obedecesse.

Freqüência dos Sacramentos

Está comprovada pela experiência que os melhores sustentáculos da mocidade são o Sacramento da Confissão e da Comunhão. Dai-me um rapaz que freqüente estes sacramentos: tal rapaz crescerá, passará pela puberdade, chegará à virilidade e, se Deus for servido, à mais avançada velhice, com um procedimento que servirá de exemplo a todos os que o conheceram.

Praza a Deus que todos os rapazes compreendam isto, para o praticarem, e bem assim todos os que se ocupam da educação da juventude para o ensinarem.

Antes de vir para o Oratório, Domingos aproximava-se destes dois Sacramentos uma vez por mês, segundo o uso das Escolas. Depois os freqüentou com mais assiduidade. Um dia, ouviu do púlpito esta máxima:

Jovens, se quiserdes perseverar no caminho do Céu, recomendo-vos estas três coisas: aproximai-vos muitas vezes do Sacramento da Confissão, freqüentai a santa Comunhão, e escolhei um confessor a quem possais abrir o vosso coração, mas não o troqueis sem necessidade”.

Domingos compreendeu a importância destes três conselhos. Começou por escolher um confessor e conservou-o durante todo o tempo que esteve no Oratório. Para que este pudesse formar um juízo exato da sua consciência, quis como era natural, fazer uma Confissão geral de toda a sua vida.

Confessava-se, a princípio todos os quinze dias, mas tarde todos os oito dias, comungando com a mesma freqüência. O confessor, notando o grande progresso que fazia nas coisas do espírito, aconselhou-o a comungar três vezes por semana, e, ao cabo de um não, permitiu-lhe a comunhão diária.

Foi durante algum tempo dominado pelos escrúpulos; por isso, queria confessar-se de quatro em quatro dias e ainda mais amiúde; mas o seu diretor espiritual não concordou com esse desejo e obrigou-o à disciplina da confissão semanal.

Tinha uma confiança ilimitada no confessor. Falava com ele das coisas da consciência, mesmo fora do confessionário, e com toda a simplicidade. Alguém o aconselhou a mudar de confessor, de vez em quando, ao que ele anuiu:

O confessor – dizia ele – é o médico da alma; não é costume trocá-lo a não ser por falta de confiança, ou porque o mal está muito adiantado. Não estou nestes casos. Tenho plena confiança no meu confessor que, com bondade e solicitude paternal, se empenha no aperfeiçoamento da minha alma; além disso, não vejo em mim chaga que ele não possa curar”.

No entanto, o diretor ordinário aconselhou-o a mudar, uma ou outra vez, de confessor, especialmente por ocasião dos Exercícios espirituais; sem opor a mínima dificuldade, obedeceu prontamente.

Domingos vivia alegre porque estava sempre em paz com a sua consciência.

"Se tenho qualquer mágoa no coração – dizia ele – vou ao meu confessor que me aconselhe o que Deus quer que eu faça, pois, Jesus Cristo disse que a voz do confessor é a voz de Deus. Se desejo alcançar alguma coisa importante, então vou receber a Hóstia Sagrada na qual está: o mesmo corpo, sangue, alma e divindade que Jesus Cristo ofereceu a Seu Pai Eterno Pai por nós na Cruz. Que mais me falta para ser feliz? Neste mundo, nada. Só me resta poder gozar no Céu d’Aquele que hoje adoro e contemplo, sobre os altares, com os olhos da fé”.

Com estes pensamentos, Domingos passava dias verdadeiramente felizes. Daqui nascia aquele contemplamento, aquela alegria celestial que transparecia em todas as suas ações. Compreendia muito bem tudo o que fazia, e tinha um teor de vida cristã, como convém que o tenha quem deseja fazer a Comunhão diária. Por isso, o seu comportamento era, sob todos os pontos de vista, irrepreensível. Convidei os seus condiscípulos a dizerem-me, durante os três anos que ele viveu conosco, lhe notaram algum defeito a corrigir ou alguma virtude a adquirir.

Todos, a uma, responderam que nunca encontraram nele coisa alguma que merecesse correção, nem virtude que se lhe devesse acrescentar às que já praticava.
A sua preparação para receber o Pão dos Anjos era piedosa e edificante. À noite, antes de se deitar, recomendava-se sempre assim:

Graças e louvores se dêem a todo o momento, ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento!”

De manhã, era esse grande ato precedido de uma preparação suficiente; mas a ação de graças, essa não tinha fim. Muitas vezes, se ninguém chamava, esquecia-se da refeição, do recreio e algumas vezes do estudo, permanecendo em oração, ou melhor, na contemplação da divina Bondade, que de um modo inefável comunica aos homens os tesouros da Sua infinita misericórdia.

Era para ele uma verdadeira delícia o poder passar algumas horas diante de Jesus Sacramentado. Invariavelmente, ao menos uma vez por dia, costumava fazer-Lhe uma visita, convidando outros a ir em sua companhia. A sua oração predileta era a coroinha do Sagrado Coração de Jesus para reparação das injúrias que recebe dos hereges, dos infiéis e dos maus cristãos.

Para que as suas Comunhões produzissem maior fruto, e, ao mesmo tempo, o estimulassem a fazê-las cada vez com mais fervor, tinha-lhes fixado para cada dia um fim especial.

Eis como distribuía as intenções durante a semana:

Domingo:- Em honra da Santíssima Trindade.
Segunda: - Pelos benfeitores espirituais e temporais.
Terça: - Em honra de São Domingos e do Anjo da Guarda.
Quarta: - A Nossa Senhora das Dores, pela conversão dos pecadores.
Quinta: - Em sufrágio das almas do Purgatório.
Sexta: - Em honra da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Sábado: - Em honra de Maria Santíssima, para obter a Sua proteção durante toda a vida e à hora da morte.

Tomava parte, com arroubos de alegria, em todas as cerimônias que tivessem por fim honrar o Santíssimo Sacramento. Se acontecia encontrar o Viático, ao ser levado a algum doente, ajoelhava-se logo, onde quer que fosse, e, se tinha tempo, acompanhava-O até terminar a cerimônia.

Um dia passou o Viático perto dele. Chovia e os caminhos estavam enlameados. Não tendo outro sítio para se ajoelhar, ajoelhou-se mesmo sobre a lama. Um dos seus amigos repreendeu-o depois, observando-lhe que, em tais circunstâncias, Nosso Senhor não exigia. Domingos respondeu-lhe:

Joelhos e calças tudo é de Deus: por isso tudo deve servir para Lhe dar honra e glória. Quando passo perto d’Ele, não só me atiraria ao chão para honrá-lO, mas até a uma fornalha, porque assim participaria do fogo da caridade infinita que O impeliu a instituir este grande Sacramento”.

Em circunstâncias análogas, viu um dia um militar que se deixava ficar de pé no momento em que passava bem perto o Santíssimo Sacramento. Não se atrevendo a convidá-lo para que se ajoelhasse, tirou do bolso um lencinho, estendeu-o sobre o terreno sujo, e fez-lhe sinal para que se servisse dele. O soldado, a princípio, acanhou-se; mas, por fim, deixando de lado o lenço, acabou por se ajoelhar no meio do caminho.

Na festa do corpo de Deus foi com outros companheiros, vestidos de batida, à procissão da paróquia. Não cabia em si de alegria; e julgou aquilo prova de uma preferência e distinção assinalada, a maior lhe não poderiam dar.

Domínio de si mesmo

Quem reparasse na compostura exterior de Domingos Sávio, achava-lhe tanta naturalidade, que pensava tê-lo Nosso Senhor criado assim mesmo. Mas os que o conheceram de perto, ou tiveram a responsabilidade da sua educação, podem asseverar que havia nisso grande esforço humano coadjuvado pela graça de Deus.

A vivacidade do seu olhar obrigava-o a não pequeno esforço, dada a sua firme resolução de dominá-la. Um dia, confiou a um amigo:

A princípio, quando me decidi a dominar completamente os meus olhares, tive de suportar não pequena fadiga, e até, por isso, sofri fortes dores de cabeça”. Com efeito, era tão reservado, que ninguém, dos que o conheceram, se lembra de tê-lo visto olhar para qualquer coisa que excedesse os limites da rigorosa modéstia – “Os olhos – dizia ele – são duas janelas. Pelas janelas, passa tudo o que se deixa passar. Por estas janelas, tanto podemos deixar passar um anjo como um demônio, e permitir tanto a um como a outro que se aposse do nosso coração”.

Certo dia, um dos seus companheiros trouxe inadvertidamente para a escola uma revista e que havia algumas figuras pouco sérias e irreligiosas, Um grupo de rapazes rodeou-o para ver aquelas gravuras que causariam asco, mesmo aos infiéis e pagãos. Domingos também se aproximou. Quando viu, porém, do que se tratava, foi surpreendido. Em seguida, com um sorriso de ironia, deitou-lhe a mão e rasgou-a em mil bocados. Os outros rapazes, atônitos, entreolharam-se mortificados, sem pestanejar. Domingos, então, disse-lhes:

-Pobres de nós! Nosso Senhor deu-nos os olhos para contemplar as belezas de tudo o que Ele criou, e vós servir-vos deles para olhar tais indecências, inventadas pela malícia dos homens para corromper as almas? Esquecestes o que tantas vezes vos foi ensinado? O Salvador diz-nos que com um olhar inconveniente manchamos as nossas almas, e vós a deliciar-vos com os olhos postos em coisas tão vergonhosas?!...

- Nós, respondeu um deles, fazíamos por distração.

- Sim, sim, por distração; no entanto, por distração, ide-vos preparando para o inferno. Riríeis no inferno se lá caísseis?

- Mas nós- retorquiu outro – não víamos grande malícia naquelas gravuras.

- Pior ainda. Não ver a maldade em semelhantes indecências é sinal de que já estais habituados a contemplá-las. Mas o hábito não desculpa, antes, pelo contrário, torna-vos mais culpados. Ó Job! Ó Job! Tu velho, mas eras um santo; sofrias de uma doença, que te obrigava a viver deitado sobre um monturo de imundície; e, contudo, fizeste um pacto com os teus olhos para que não olhassem, nem de leve, coisas inconvenientes!

A estas palavras, todos se calaram e ninguém se atreveu a censurá-lo nem lhe fazer qualquer observação.

Á modéstia nos olhos aliava Domingos uma grande reserva no falar.

Quando alguém falava, ele calava-se; por várias vezes truncou uma expressão para dar aos outros liberdade de se expandirem. Os seus mestres foram unânimes em asseverar que nunca tiveram motivo para repreendê-lo, tão modelar foi sempre o seu procedimento no estudo, na aula, na igreja e em toda a parte. Até nas próprias ocasiões em que lhe fizessem qualquer injúria, sabia moderar, mais do que nunca, a língua e o seu temperamento.

Um dia, preveniu um companheiro de um mau hábito. Este, em vez de receber de bom grado a observação, zangou-se. Cobriu-o de vitupérios, e depois investiu contra ele a socos e a pontapés. Domingos teria podido fazer valer as suas razões com os fatos, pois, era mais velho e tinha mais força. Mas não quis senão a vingança dos cristãos. Ficou com o rosto ruborizado, mas refreou o ímpeto de ira e limitou-se a dizer a seguintes palavras:

Perdôo-te esta ofensa. Não trates os outros desta maneira”.

(Extraído do jornal: “O Desbravador” – Maio de 2001)

PS: Grifos meus.

É mais fácil seguir o mundo do que subir o Calvário

É mais fácil seguir o mundo do que subir o Calvário


As pessoas de nosso tempo, em sua grande maioria, buscam a facilidade e a comodidade.

Propor a elas enfrentar obstáculos, escalar montanhas, é correr o risco de ganhar inimigos. Por outro lado a sugestão para diversões, coisas agradáveis é algo que facilmente se aceita. Quase todos querem vantagens. Quase todos fogem da luta, da dificuldade, do obstáculo.

Não foi esse porém o ensinamento de Nosso Senhor. Entre a porta larga e a estreita, Ele mandou que entrássemos pela estreita, pois o largo é o caminho que conduz a perdição.

Ademais disso colocou como condição para ser Seu discípulo, renunciar a si mesmo e tomar sua Cruz, e segui-lO, ou seja, a lógica do Evangelho de Nosso Senhor e diametralmente oposta a lógica do mundo.

Este busca decair nas facilidades, Nosso Senhor nos convida a subir o Calvário, carregando nossa Cruz. O mundo propõe aplausos para a fama, os prazeres, as riquezas; Nosso Senhor foi a frente e carregou a Cruz para mostrar que esse é o caminho para a salvação e a santidade. Quem, pois, coloca seu objetivo no sucesso, no aplauso do mundo, nos holofotes da fama, não está nos caminhos de Nosso Senhor.

O caminho de Nosso Senhor foi e é a subida do Calvário. Subida difícil, subida árdua e penosa, mas também gloriosa e bela. Subida que é para os heróis da Fé e que foi percorrida, nesses dois mil anos de catolicismo, pelos santos, fossem eles mártires jogados aos leões, cruzados enfrentando os inimigos da Fé, missionários expostos a serem devorados pelos canibais, virgens resistindo a perfídia de degenerados, Papas, como São Gregório VII morrendo no exílio, por praticar a justiça combater a iniquidade.

E, ai voltamos mais uma vez a Nosso Senhor que disse que devemos nos alegrar quando formos caluniados por causa d'Ele.

Sim, o verdadeiro cristão é atacado, perseguido, injuriado, incompreendido, mas ele e um predileto de Deus e sempre tem e terá a proteção da Mãe das Dores e das lágrimas, Nossa Senhora.

(Extraído do jornal "O Desbravador", Maio de 2001)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

1ª PALAVRA

1ª PALAVRA


Pater, dimitte illis, non enim sciunt quid faciunt.
"Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem".
 (Luc. XXIII,34)

Faz dezenove séculos que, no cimo de um montículo da Judéia, expirava um condenado à morte, e morte de cruz... Faz dezenove séculos que, no alto do Calvário, nas vizinhanças da cidade santa de Jerusalém, entre tormentos indiziveis, entregava sua alma a Deus Jesus de Nazaré, o Messias prometido ao povo de Israel.

Suspenso do infamante madeiro da Cruz, supliciado entre dois reconhecidos malfeitores, que a justiça mandara a morte, expirou Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus.

No decurso dos séculos posteriores a esses acontecimentos lutuosos e terríveis, a humanidade tem experimentado toda espécie de transformações e o mundo tem sofrido toda sorte de abalos. Impérios sucederam a impérios; nações tomaram lugar de outras nações; ergueram-se poderosos condutores de povos, que jogaram, nos campos de batalha, a sorte de milhões e milhões de homens.

A própria face de nosso planeta não escapou às transformações oriundas, parte da ação do tempo, parte da obra do próprio homem.

O quadro político do universo não oferece menores alterações. Várias vezes as raças se confundiram e, no rolar incessante dos séculos, pereceram algumas nacionalidades, perdeu-se a memória de alguns povos.

Dos super-homens, que a humanidade tem produzido, mui pouco conseguiram escapar à ação destruidora do tempo, supremo nivelador das grandezas terrenas.

Em meio desse quadro de renovação constante da nossa espécie, a figura de Jesus Cristo aparece revestida de uma auréola imarcescível, que os tempos apenas tornam mais fulgurante e mais bela.

Quando se perde a memória dos grandes homens de todos os povos e apenas raros conseguem transmitir o próprio nome às gerações modernas, Jesus Cristo, após dezenove séculos de Sua morte de Cruz, Se mostra em pleno fastígio de Seu poder e recebe as adorações mais fervorosas e mais sinceras de todos os povos...

Não será preciso procurar maiores provas e mais poderosos argumentos em favor da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A piedade, que consagramos aos nossos semelhantes, nos faz guardar em nossa alma, as últimas palavras pelos entes queridos, que se partem desta vida terrena... Isso é tão natural e tão espontâneo que, às vezes, até parece que o homem sente um pouco de alívio e de conforto, em transmitindo a outrem as palavras e narrando as circunstâncias da morte de alguém que era objeto de seu mais terno afeto. É a necessidade que sentimos de confiar aos nossos semelhantes os sentimentos que dominam em nosso íntimo, desabafando o que nos vai na alma.

A essa lei geral da nossa vida e da nossa natureza não podia escapar o drama sanguinolento do Gólgota, em que Jesus Cristo deu a vida a troco do resgate espiritual da humanidade.

O Evangelho, por nossa felicidade, guardou as principais circunstâncias dessa morte e registrou as derradeiras palavras do Divino Mestre. A cultura cristã, no decurso dos tempos, tem estudado e meditado, profundamente, o sentido e os ensinamentos do quanto Jesus proferiu do alto da Cruz.

As palavras de Nosso Senhor são espírito e vida e encerram preciosas lições morais e doutrinais (Joan. VI, 64) São verdades, que iluminam nossa inteligência; são normas de conduta, que nos orientam na vida prática.

Conta-nos que Manlio, quando era levado ao patíbulo, o passar próximo do Capitolio, exclamou para os romanos:

"Eis aqui o lugar de onde expulsei o exército gaulês, expondo-me ao perigo de perder a vida para defender a minha pátria: eu, sozinho, defendi a todos e agora não há um só que tome a minha defesa!"

E essas palavras despertaram a gratidão dos romanos e Manlio foi restituído à liberdade.

Assim falou um pagão.

Mui diferente foi a linguagem de Cristo. Foi a palavra de um Deus.

Insultado pela multidão; serviciado pelos soldados e executores da sentença; traído pelos Seus amigos e companheiros; renegado pelos Seus compatriotas, Jesus calava-Se e envolvia em um olhar de compaixão aqueles mesmos que O vilipendiavam na derradeira hora...

Temendo talvez que os céus não pudessem mais suportar a impunidade de um deicidio, o Redentor apressa-Se a implorar o perdão de Seus algozes e dos Seus inimigos.

"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". Foram essas as primeiras palavras, que Jesus proferiu na Cruz, suplicando misericórdia para aqueles que O tratavam com tamanha crueldade.

Dirigiu-Se ao Pai, ao Seu Eterno Pai, cuja vontade viera cumprir, a risca, aqui na terra. Pediu perdão para os juízes, que O condenaram injustamente; para os esbirros, que O imolavam; para os blasfemos, que escarneciam de Seus tormentos... E o pensamento de Jesus ia muito mais longe...

"É que nem todos os deicidas estavam no Calvário... a Paixão de Jesus Cristo não terminou com o Seu último suspiro. Vemo-la perpetuar-se a nossos olhos, com as suas diferentes cenas de hipócritas traições, odiosas mentiras, revoltantes perfídias, ódios infernais, crueldades selvagens!..."
(Weber - De Gethsemane ao Golgotha. pág. 165)

Em breves palavras Jesus encerrou três atos e três lições:

a) Perdoa aos Seus inimigos;
b) Pede perdão para eles;
c) Desculpa  e escusa, de algum modo, o procedimento dos Seus algozes.

Na derradeira hora de Sua existência mortal, Jesus não podia deixar de ser coerente consigo mesmo e de praticar aquilo que Ele próprio havia ensinado e imposto aos Seus discípulos. Entre as novidades contidas nos ensinos do Divino Mestre existia uma que era motivo de escândalo para os espíritos fracos daquela época: o perdão dos inimigos.

Efetivamente, nada há mais contrário à natureza humana, nada há mais oposto aos nossos sentimentos do que suportar, sem protesto, uma injustiça manifesta, perdoar uma ofensa gratuita. Por causa das injustiças, que se praticam em público e em particular, entre indivíduos e entre sociedades, no recesso das famílias ou nas sentenças dos tribunais, é que se executam horríveis vinganças, se ateiam guerras exterminadoras e povos inteiros são entregues à ruína e á desolação.

"Dente por dente; olho por olho". (Ex. CXXI. V.24)

Foi essa a lei universal e a praxe usual da humanidade. Jesus Cristo foi quem primeiro Se insurgiu contra esses princípios e impôs aos Seus asseclas outro procedimento e outra lei. Ensinava ele coisas muito diferentes:

"Amai-vos uns aos outros"; "Fazei bem aos que vos fazem mal"; "Quando vos ferirem numa face oferecei a outra"; "Amai..."; "Fazei o bem"; "Orai pelos vossos perseguidores...", "para que sejais verdadeiros filhos do Vosso Pai Celeste". (Rom. C.XII, V.10; Math. C.V, V.44; Luc. C. VI, V.29; Math. C. VI. V.12 e Math. C.V.V.45)

Quem tais ensinamentos havia dado, era natural, em tempo oportuno, soubesse perdoar aos Seus inimigos e algozes. Mas Jesus foi muito além... depois de haver perdoado, pediu ao Pai que perdoasse também e, não satisfeito, ergueu a voz e tomou a palavra para defender e escusar a ingratidão humana.

Observa Santo Agostinho que jamais houve um advogado tão engenhoso para livrar um réu da morte temporal, como Jesus, na prece ao Pai, para arrancar os pecadores á morte eterna. Em duas palavras, fez sobressair, simultâneamente, a dignidade do Supliciado - o Filho de Deus -; a bondade d'Aquele a quem Se dirigia a Sua prece - Um Deus que é Pai -; o muito do Seu pedido - um pedido que Lhe sai dos lábios, ao mesmo tempo que o sangue jorra de todas as Suas veias -; a desculpa daqueles que Ele defende - a ignorância, a cegueira e a loucura.

O mundo contemporâneo abisma-se em uma série interminável de competições tremendas, de ódios inextinguiveis, de rivalidades perenes...

Os indivíduos se espreitam mutuamente, desconfiados; as famílias nutrem divergências constantes; as classes sociais se entreolham como rivais; as nações buscam o aniquilamento uma das outras... Para tanta desordem, para tantos males, que ameaçam os povos, só existe o remédio de Jesus: o perdão das ofensas e a fraternidade entre homens, segundo os preceitos evangélicos. E só.

E para mais fácil reconciliação da grande família humana, para que a paz reine entre os povos, comecem os católicos a pôr em prática o primeiro artigo do testamento de Jesus e, na hora extrema, experimentarão os efeitos salvíficos da palavra do Redentor:

"Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!"

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral)

PS: Grifos meus.

FUNDAMENTOS DA FAMÍLIA CRISTÃ

FUNDAMENTOS DA FAMÍLIA CRISTÃ


Depois da Igreja, a esposa santa e amada de Deus e a Deus estreitamente unida pelo vínculo de um amor único e indissolúvel, nada há, neste mundo, que tanto agrade ao Soberano Senhor, como a Sua criação privilegiada a Família Cristã.

"É ela, diz o Padre Félix, a mais formosa criação de quantas contemplamos nesta terra, quando, sob o céu pátrio, se nos ostenta ornada daquela auréola divina de beleza e fecundidade... Há ali um Pai firme e afetuosa majestade, que manda, com o duplo ascendente da autoridade e do amor, o qual, obedecendo a Deus, é, por sua vez, obedecido, sem que para isso lhe seja preciso dar ordens; uma Mãe formosa e delicada visão do céu, a qual, como o sacerdote no templo exercendo o seu augusto ministério, transforma o lar em santuário, conservando viva a chama do sacrifício perpétuo, e, como a força do seu Cristo e de seu coração, tira do devotamento a honra de uma estirpe generosa, de uma posteridade abençoada; ali vivem Filhos de família que, do temor e do amor de Deus, vão auferindo o culto, duplamente sagrado, da paternidade e da maternidade e, em cujas almas penetradas da unção do Cristo, entrelaçam-se graciosamente estes três sublimes penhores, que são o sinal autêntico de uma primorosa educação: amor, respeito, obediência; ali crescem Irmãos, unidos pelos laços de um amor respeitoso e, entre as mais francas comunicações, trocam entre si aquelas encantadoras finezas e, sobretudo, aqueles protestos que constitui a força dos irmãos e a alegria da paternidade"

Tal é a família cristã, qual Deu a concebeu e instituiu.

Da simples leitura dos dois primeiros capítulos do Gênesis, ressalta, a primeira vista, o lugar de honra que o homem estava destinado a ocupar entre as criaturas, segundo os planos divinos.

Enquanto os demais seres iam sendo chamados à existência com um simples fiat, a Santíssima Trindade parece entrar em deliberação, quando se trata de dar um rei ao universo: "Façamos o homem a nossa imagem e semelhança, o qual presida aos peixes do mar, as aves do céu, as bestas e a todos os répteis... e domine a terra. E criou Deus o homem a Sua imagem".

Ali está pois o rei do universo, de pé, em toda a sua majestade, em toda a grandeza de que o dotou o Criador.

Mas, Adão estava só e, por mais que se lhe procurasse um semelhante entre todas as criaturas, não se encontrava; apesar da magnificência divina, alguma coisa faltava a sua felicidade. Assim o reconheceu a Trindade Augusta, quando sentenciou:

"Non est bonum esse hominem solum; faciamus ei adjutorium simile sibiNão é bom que o homem esteja só; façamos-lhe um adjutório semelhante a ele".

E como se vai haver o Criador, na execução do Seu projeto? Ouvi o Padre Lacordaire:

"A fronte do homem, onde, a par de uma inteligência lúcida, resplandece a sua dignidade, ali estava como que oferecendo-se muito naturalmente a mão criadora e parecia chamar sobre si as bênçãos com que Deus ia enriquecer a nossa espécie. Pois não escolheu Deus a fronte. Por preciosa que seja a inteligência humana, ela não é o termo da nossa perfeição; serena como a luz, mas fria como a mesma, não havia se ser o lugar que lhe corresponde na arquitetura exterior do homem, que Deus iria escolher para suscitar o milagre da nossa pluralidade substancial.

Outro melhor se lhe oferecia e para lá se dirigiu a mão do Criador; pô-la sobre o peito do homem onde o coração, em seu interrupto palpitar, vai marcando o curso da vida, onde fielmente repercutem todos os afetos da alma. Pôs-se Deus a auscultar aquele coração puro que acabara de criar e, arracando-lhe uma parte da defesa natural que o cobre, formou a mulher da carne do homem e deu-lhe uma alma do mesmo sopro divino que animara a Adão".

Quando Adão acordou do sono profundo em que Deus o prostrara, não pode conte o sue entusiasmo e, interpretando a mente divina, inspirado, proclamou e promulgou, em nome do Supremo Legislador, a lei fundamental da família:

"Eis aqui agora o osso dos meus ossos e a carne da minha carne... por isso deixará o homem pai e mãe e viverá unido a sua mulher (e não a suas mulheres) e serão dois em uma só carne".
(Gen. 11,24).

Os judeus nem sempre observaram este preceito: Moisés, o Legislador de Israel e seu representante junto a Deus, havia permitido, "pela dureza de seus corações", darem às esposas o libelo do repúdio, o que importava na liberdade de passar a novas núpcias.

Nosso Senhor Jesus Cristo, lembrando aquele ato de tolerância, teve o cuidado de acrescentar: Sed ab initio non fuit sic; mas no principio não era assim.

O Divino Mestre não quis tocar na legislação matrimonial do Gênesis, senão para dar ao contrato um valor sobrenatural, assegurando-lhe, através dos séculos, e de modo a não deixar dúvida a sua primitiva unidade e indissolubilidade. Elevado pois a altura do sacramento, a que o Apóstolo chama "grande sacramento", o matrimônio confere aos esposos as graças necessárias para que possam guardar inviolável o vínculo que contraíram, perante os altares do Senhor. Eis o que nos legou a Verdade e a Santidade infinita. Nosso Senhor Jesus Cristo, a luz do mundo, com respeito ao matrimônio:

"Por isso deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua esposa e serão dois em uma só carne!". E conclui Nosso Senhor com estas palavras, que valem por um decreto divino e irrevogável: Quod Deus conjunxit homo non separet - o que Deus uniu, o homem não se atreva a separar".

É a condenação expressa do casamento civil e do divórcio, sob qualquer que se queira disfarçar.

Poucas linhas abaixo, lê-se ainda:

"Aquele que repudiar sua mulher para casar-se com outra, tornar-se-á réu de adultério; e quem desposar a repudiada cometerá igual crime. Se a esposa deixar o marido para se unir a outro, será tida como adultera".

Está, pois, claramente expresso e não há tergiversar: quem repudia como quem é repudiado, não pode contrair novas núpcias, enquanto viver o outro cônjuge.

Em abanono desta divina sentença, o Apóstolo São Paulo acrescenta, em sua primeira epístola aos Coríntios:

"A mulher está ligada à lei (da indissolubilidade), enquanto o marido viver; mas, se o marido dormir (o sono da morte), ficará ela em liberdade; que se case novamente, se quiser, contanto que o faça no Senhor, (pois vai receber um sacramento do qual só Deus é o autor e a Igreja a única depositaria e dispensadora). Aqueles que estão unidos em matrimônio, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não separe do marido; e se ela se separar, que não se case ou que faça as pazes. E o marido tão pouco deixe a mulher".

A doutrina da Igreja é bem conhecida e constante neste particular. Os Santos Padres, os Doutores e Concílios sustentam e sustentam sempre unânimes a unidade e indissolubilidade do matrimônio cristão.

A história fala bem alto e eloquentemente das cruéis perseguições e sofrimentos que a Santa Igreja de Deus, a Esposa Imaculada de Jesus Cristo, teve de suportar para defender a lei do Divino Mestre entregara a sua guarda, contra as heresias e prepotências da corrupção.

O non possumus, não podemos, iria provocar cismas terrivelmente dolorosos, cujas tristíssimas consequências se fariam sentir séculos em fora, arrastando milhares de almas ao inferno; mas, o decreto divino é irrevogável e a Igreja recebeu o sagrado encargo de defendê-lo e conservá-lo intacto, contra a fúria das paixões irresistíveis. As heresias aparecem e desaparecem, mas, nesse vai e vem contínuo, só a Igreja de Cristo, firme e incorruptível guarda zelosa a verdade.

Negar a unidade e indissolubilidade do matrimônio é negar a palavra de Jesus Cristo, a doutrina infalível da Igreja, punica depositária da revelação; é separar-se, excluir-se do número de seus filhos, sempre unidos pela mesma fé, pela mesma obediência submissa e respeitosa; é desertar do campo dos soldados fiéis a Religião Católica, para as fileiras do inimigo, tentando destruir-lhe a benéfica e santificadora influência na família e na sociedade.

Anathema sit; seja anátema quem assim proceder, diz o Concílio de Trento, recolhendo o eixo dos séculos cristãos. Contra a Igreja Católica intransigente na defesa do matrimônio cristão, formam e cerram fileiras os liberais, os maçons, os livre-pensadores, todos eles filhos naturais da Reforma protestante, instigados por um espírito de insubordinação e impelidos por inconfessáveis paixões. Com uma intrepidez bem digna de melhor causa, saem em campo, sobraçando um verdadeiro arsenal de sofismas contra a estabilidade do matrimônio, que a Igreja defende a todo transe.

Uns, fingindo mal um respeito que não têm para com o casamento religioso, proclamam-se partidários do divórcio; outros, querem apenas a ingerência da lei civil e outros ainda, deitando máscaras abaixo, defendem a igualdade e liberdade... dos irracionais, ou seja, o amor livre e sem peias civis ou eclesiásticas.

A Igreja Católica é inimiga declarada de todas essas aberrações, de todas essas falsidades antinaturais e antisociais. Diante da prepotência das leis iníquas e da corrupção avassaladoras, ela impõe intrépida e heróica, até o martírio, aquele protesto que ninguém lhe conseguirá abalar: Non licet; não é permitido!

Não admite tão pouco a separação de corpos e habitação, a não ser em circunstâncias muito especiais, por ela determinadas, ficando, porém, sempre o vínculo indissolúvel, porque: quod Deus conjunxit homo nom separet!

Mas, dirá alguém, a Igreja Católica não tem, às vezes, anulado o matrimônio?

Assim o pretendem os inimigos da Religião, propalando que a Igreja tem anulado já casamentos. Puro engano e miserável sofisma; não distinguem porque não querem, o casamento real do aparente.

Acontece ou pode acontecer, que duas pessoas, por ignorância ou má fé, atentem matrimônio, com um ou mais impedimentos dirimentes, impedimentos que não manifestaram durante o processo canônico  dos quais não obtiveram a devida e necessária dispensa. (1) Todos sabem, ou deviam saber, que tais casamentos são, de pleno direito, nulos, perante Deus e a consciência. Mais tarde, os interessados, sobrevindo desavenças entre eles, manifestam a sua verdadeira situação e introduzem, perante os tribunais de Roma, uma causa de divórcio.

Esses tribunais, estritamente falando, nada têm de anular, porquanto não existe casamento; limitam-se apenas a declarar que não houve matrimônio e que os pretendidos esposos estão livres de qualquer vínculo e podem, se assim lhes convier, contrair novas nupcias, perante a Igreja. Aliás, o processo não é tão simples como poderia parecer. A existência de um impedimento dirimente, no ato do casamento, é uma questão de fato, sobre o qual os tribunais romanos não se pronunciam senão em presença de muitas provas e de testemunhas insuspeitas.

Mas, como qualquer outro tribunal, podem ser induzidos em erro, por pessoas sem escrúpulo e sem consciência. Se os requerentes alegaram algum impedimento fictício e conseguiram fraudulentamente enganar os juízes, cometeram um crime pelo qual são responsáveis; isso, porém, em nada afeta a doutrina da Igreja e, se o matrimônio tiver sido válido e consumido, permanece válido antes como depois da sentença, e nenhum poder humano poderá rompê-lo: "O que Deus uniu, não se atrevam os homens a separar", ainda que esses homens sejam dignitários da Igreja.

***

(1 - Nota de rodapé) - A Pastotal Coletiva dos Senhores Arcebispos e Bispos das Províncias Eclesiásticas Meridionais do Brasil, em seu número 371, prescreve, muito prudentemente, o seguinte: "Para evitar abusos e remover pretextos e quaisquer dificuldades, é de toda necessidade que os Revmos. Párocos se encarreguem por si de preparar todos os papéis relativos aos casamentos que se celebrarem em suas paróquias, ou, ao menos, fiscalizem imediatamente a preparação desses papéis, de que encarregarão pessoa de sua íntima confiança, e não a deixem ao cuidado dos preparadores interessados".

Isto aliás entender-se-á sem prejuízo do número 368 da mesma Pastoral Coletiva, que impõe aos nubentes ou a seus pais e tutores a obrigação de procurarem pessoalmente o Pároco de sua freguesia, afim de que este os examine e providencie sobre os papéis necessários. Todas estas precauções têm por fim acautelar os interesses da família e evitar os casamentos nulos. Estas providências devem ser tomadas com bastante antecedência, três ou quatro semanas antes do dia designado para o matrimônio; evitam-se assim muitas despesas e contra-tempos.

(As desavenças no lar, causas e remédios, por J. Nysten, edição de 1927)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A MÃE CRISTÃ!

A MÃE CRISTÃ!


Vede-a! Em brando murmurinho
Contempla o infante no leito;
Já nos estos do carinho
Toma ao colo o terno anjinho
Para nutri-lo a seu peito.

Borboleta em grato adejo,
Gira em torno da criança,
E com sôfrego desejo
Dá-lhe um beijo e outro beijo
E de beijá-lo não cansa.

Do mundo vão desprendida,
Só presa aos deveres seus,
No seu lar tem sua vida:
Considera-se nascida
Pr'a seu esposo e seu Deus.

Jovem, rica, airosa e bela,
Não pede ao luxo seus brilhos.
Foge aos salões e a janela;
Nem há mais mundo pr'a ela
Que sua casa e seus filhos.

Não entra do "sport" em listas;
E ri-se das vãs pelejas,
Das que, armadas por modistas,
Brigam lôas de conquistas,
Folgam de pisar invejas.

Dever, piedade e ternura
Dão-lhe ao lar virtude e calma,
E ao seu ânimo a ventura.
Nem há paz tão bela e pura
Como a paz que lhe vai n'alma.

Unindo o humano e o divino,
Deixa em baixo a esfera vã;
Segue em vôo peregrino,
E cumpre excelso destino,
Mulher forte e Mãe Cristã!

(J. Campo Santo, S.J, extraído do livro: As desavenças no lar, causas e remédios, J. Nysten, edição de 1927)
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