terça-feira, 26 de junho de 2012

Linda oração de Santo Tomás de Aquino


"Que eu chegue a Vós, Senhor, por um caminho seguro e reto; caminho que não se desvie nem na prosperidade nem na adversidade, de tal forma que eu Vos dê graças nas horas prósperas e nas adversas conserve a paciência, não me deixando exaltar pelas primeiras nem abater pelas outras. 
Que nada me alegre ou entristeça, exceto o que me conduza a Vós ou que de Vós me separe. 
Que eu não deseje agradar nem receie desagradar senão a Vós. 
Tudo o que passa torne-se desprezível a meus olhos por Vossa causa, Senhor, e tudo o que Vós diz respeito me seja caro, mas  Vós, meu Deus, mais do que o resto. 
Qualquer alegria sem Vós me seja fastidiosa, e nada eu deseje fora de Vós. 
Qualquer trabalho, Senhor, feito por Vós me seja agradável e insuportável aquele de que estiveres ausente. 
Concede-me a graça de erguer continuamente o coração a Vós e que, quando eu caia, me arrependa. 
Torna-me, Senhor meu Deus, obediente, pobre e casto; paciente, sem reclamação; humilde, sem fingimento; alegre, sem dissipação; triste, sem abatimento; reservado, sem rigidez; ativo, sem leviandade; animado pelo temor, sem desânimo; sincero, sem duplicidade; fazendo o bem sem presunção; corrigindo o próximo sem altivez; edificando-o com palavras e exemplos, sem falsidade. 
Dá-me, Senhor Deus, um coração vigilante, que nenhum pensamento curioso arraste para longe de Vós; um coração nobre que nenhuma afeição indigna debilite; um coração reto que nenhuma intenção equívoca desvie; um coração firme, que nenhuma adversidade abale; um coração livre, que nenhuma paixão subjugue. 
Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que Vos conheça, uma vontade que Vos busque, uma sabedoria que Vos encontre, uma vida que Vos agrade, uma perseverança que Vos espere com confiança e uma confiança que Vos possua.
Amém."

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A PERFEITA CASADA III

Tradução: Liliane Raquel Chwat com complementação de Letícia de Paula conforme a edição de 1945 La perfecta casada - Fray Luis de Leon.




Que confiança há de gerar no peito de seu marido, e de como pertence ao ofício da mulher casada a guarda da fazenda, que consiste em não ser gastadora.

Confia nela o coração de seu marido;
não lhe farão falta os despojos.
(Prov., XXXI, 11)

            Depois de haver proposto o sujeito de sua razão e de havermos nos aficionado a ele, louvando-o, começa a especificar as boas partes dele e aquilo de que se compõe e aperfeiçoa, para que, colocando as mulheres os pés nestas pegadas, e seguindo estes passos, cheguem ao que é a perfeita mulher casada. E porque a perfeição do homem, em qualquer estado, consiste principalmente em obrar bem; por isso o Espírito Santo não coloca aqui por partes esta perfeição da qual fala mas somente as obras louváveis às quais está obrigada a mulher casada que pretende ser boa. E a primeira é que deve gerar no coração de seu marido uma grande confiança; mas deve-se saber qual é esta confiança da qual se fala; porque pensarão alguns que é a confiança que deve ter o marido de sua mulher que é honesta e mesmo que seja verdade que com sua bondade a mulher há de alcançar de seu marido esta boa opinião, porém, no meu parecer o Espírito Santo não trata aqui disto, e a razão de não tratar é justíssima.
            Primeiro, porque sua intenção é compor aqui uma mulher casada perfeita e ser uma mulher honesta não conta nem deve contar entre as partes das quais esta perfeição se compõe, e sim, antes, é como o sujeito sobre o qual todo este edifício se apóia; para dizê-la em uma palavra, é como o ser e a substância da mulher casada; porque se não possui isso, não é mulher e sim traiçoeira rameira e o pior lodo, o lixo mais hediondo de todos e a mais desprezada. E como no homem, ser dotado de entendimento e razão não é louvor nenhum, porque tê-la é parte de sua própria natureza, mas se lhe faltasse colocaria nele uma enorme lacuna, assim a mulher não é tão louvável por ser honesta, como é torpe e abominável se não o for. De modo que o Espírito Santo neste lugar não diz à mulher que seja honesta, mas pressupõe que já o seja, e, à que é assim, ensina o que falta e o que deve acrescentar para ser completa e perfeita. Porque, como dissemos acima tudo isso a que nos referimos é como fazer um retrato ou pintura, onde o pintor não faz a tela, e sim na tela que lhe oferecem e dão, coloca ele os perfis e induz depois as cores, elevando nos devidos lugares as luzes, e baixando as sombras onde convém, dando a devida perfeição à sua figura. E do mesmo modo, Deus, na honestidade da mulher, que é como uma tela, a qual pressupõe como feita e direita, acrescenta ricas cores de virtude, todas aquelas que são necessárias para acabar tão belíssima pintura. Isto é o primeiro.
            O segundo, se não fala aqui Deus do que toca esta fé, é porque deseja que esta coisa de honestidade e limpeza a tenham as mulheres tão cravada em seu peito, que nem sequer pensem que possa ser o contrário. E como dizem de Sólon, que foi quem deu leis aos atenienses, que, assinalando para cada malefício suas penas, não impôs castigo para quem matasse o próprio pai, nem fez menção deste delito, porque disse que não convinha que achassem nem possível  os homens, nem como antecedente, um mal semelhante; assim pela mesma razão não trata Deus que a mulher casada seja honesta e fiel porque não deseja que passe pela sua imaginação que é possível ser má. Na verdade é desonestidade para a mulher casta pensar que pode não sê-la, ou que ao sê-la faz algo que deva ser elogiada. Que, como é da natureza das aves voar, assim as mulheres casadas devem ter por dote natural, que não se pode romper, bondade e honestidade, e devem estar persuadidas que o contrário é aborrecível, desventurado e fato monstruoso, ou melhor, não devem imaginar que pode acontecer o contrário como não pode ser o fogo frio e a neve quente. Entendendo que quebrar a mulher a fé de seu marido é perderem as estrelas sua luz, caírem os céus, quebrar suas leis a natureza e retomar tudo àquela confusão antiga e primeira.
            Também não há de ser isso, como algumas pensam que, ao guardar o corpo íntegro para o marido, no que se refere a conversas, outros gestos e coisinhas miúdas, pensem que estão livres; porque não é honesta aquela que não o é, mas parece. E quando está longe do mal, tanto da imagem ou semelhança, deve permanecer afastada; porque, como bem disse um poeta latino, ela somente é casta quando nem a fama mentindo ousa colocar uma má nota. E, assim como, ao que faz o caminho de Santiago, mesmo que lá não chegue, o chamamos de romeiro; assim sem dúvida é iniciada rameira a que se permite tratar destas coisas que são o caminho.
            Se não for isso, de qual confiança Deus fala neste lugar? No que diz a seguir se entende, porque acrescenta: "Não lhe farão falta os despojos". Chama de despojos o que nós chamamos de jóias e adereços da casa, como alguns entendem, ou, como acho mais certo, chama de despojos aos lucros adquiridos por meio de mercadorias. Há de se entender que os homens obtêm ganhos e se sustentam e vivem, ou de lavrar o campo, ou do trato e contratação com outros homens.
            A primeira forma de ganho é lucro inocente e santo lucro, porque é puramente natural, porque com ele o homem come de seu trabalho, sem que prejudique nem injurie, nem despreze ninguém, como também porque, do mesmo modo que para as mães é natural sustentar com leite as crianças que gera, e mesmo a elas, guiadas por sua inclinação, também lhes é natural acudir logo aos peitos; assim nossa natureza nos leva e inclina a retirar da terra, que é mãe e geradora nossa, o que convém para nosso sustento.
            O outro lucro e modo de adquirir, que tira frutos e se enriquece das fazendas alheias, ou com a vontade de seus donos, como fazem os mercadores e os mestres e artífices de outros ofícios, que vendem suas obras, ou por força e sem vontade como acontece na guerra, é lucro pouco natural e que na maioria das vezes intervém alguma parte de injustiça e de força, e ordinariamente dão com desgosto e sem vontade aquilo que dão as pessoas com quem se ganha. Por esse motivo, tudo o que deste modo se ganha é aqui chamado de despojos, por conveniente razão. Porque, aquilo que enche a casa do mercador, deixa vazio e despojado ao outro que o contrata. E mesmo que não seja mediante a guerra, porém como na guerra, nem sempre é muito justo. Pois diz agora o Espírito Santo que a primeira parte e a primeira obra onde a mulher casada se aperfeiçoa é fazendo com que seu marido esteja confiante e seguro que, tendo-a, não tem a necessidade de se fazer ao mar, nem de ir à guerra, nem de dar seu dinheiro, para ter sua casa abastada e rica; nem de se enredar em tratos vis e injustos, mas lavrando ele suas propriedades, colhendo seus frutos e tendo a ela como guardiã e beneficiária do que é colhido, tem bastante riqueza.
            E que pertença ao ofício da mulher casada, e que sejam parte de sua perfeição estas tarefas, além do que o Espírito Santo ensina, também o demonstra a razão. Porque é certo que a natureza ordenou que os homens casassem, não só a fim de perpetuar nos filhos a linhagem e nome deles, mas também para que eles mesmos em si e em suas pessoas se conservassem, o qual não lhes era possível, nem ao homem só, nem à mulher sem o homem; porque para viver não é suficiente ganhar fazendo, se o que se ganha não se guarda; se o que se adquire se perde, é como se não se adquirisse.
            O homem que tem forças para trabalhar a terra e o campo, para sair pelo mundo e contratar com os homens, negociando seus bens, não pode cuidar de sua casa nem tem condições; em compensação, a mulher que, por ser de natureza fraca e fria, é inclinada ao sossego e à escassez, sendo boa para guardar pelo mesmo motivo que não é boa para o esforço e o trabalho de adquirir. E assim, a natureza, em tudo precavida, os juntou, para que prestando cada um deles ao outro sua condição, se conservassem juntos os que não pudessem ficar afastados. E, de inclinações tão diferentes, com arte maravilhosa, e como se faz na música com diversas cordas, fez uma proveitosa e doce harmonia, para que quando o marido estivesse no campo a mulher cuidasse da casa e conservasse um o que o outro colhesse.
            Por esse motivo diz bem um poeta que os fundamentos da casa são a mulher e o boi; o boi para arar, e a mulher para guardar. A sua própria natureza faz com que seja da mulher este ofício, e a obriga a esta virtude e parte de sua perfeição, como a parte principal e de importância. Isso se conhece pelos bons e muitos efeitos que produz; dos quais, um é o que coloca aqui Salomão, quando diz que confia nela o coração de seu marido, e não lhe farão falta os despojos. Quer dizer, que com ela se contenta com a terra que herdou de seus pais, com a plantação e os frutos dela, e que nem se endivida, nem se envolve com o perigo e desassossego de outras paragens e, para onde quer que olhe, é muito grande seu bem. Se falamos de consciência, viver alguém de seu patrimônio é vida inocente e sem pecado e os demais tratos maravilhosamente carecem dele. Se no sossego, um descansa em sua casa, o outro passa a maior parte da vida em tabernas e nos caminhos. A riqueza do primeiro não ofende ninguém, a do outro é murmurada e desprezada por todos.
            Um come da terra, que jamais se cansa nem deixa de comunicar-nos seus bens; o outro é detestado pelos mesmos que o enriquecem. Se olharmos para a honra, certamente não há coisa mais vil nem mais indigna no homem que enganar e mentir, e dificilmente o trato destes carece de enganos. O que dizer da instituição dos filhos, da ordem da família e da boa disposição do corpo e do ânimo, senão que vai tudo pelo mesmo caminho? E sabido que quem anda ausente de sua casa encontra nela muitos desconcertos, que nascem e crescem e criam forças com a ausência do dono; forçoso é que quem trata desenganar, seja enganado, e quem contrata e se comunica com pessoas imaginosas e de costumes diversos, adquire muitos maus costumes. Mas, pelo contrário, a vida no campo, cuidar de suas terras é como uma escola de inocência e verdade; porque cada um aprende daqueles com quem negocia e conversa. Como a terra, naquilo que se lhe pede é fiel, como não muda sendo estável e clara, e aberta para brotar e tirar luz de suas riquezas, parece que gera e imprime no peito de quem a lavra uma bondade particular e uma condição simples e um trato verdadeiro e fiel, pleno de integridade, de bons e antigos costumes dificilmente encontrados em outro tipo de homens. Além de criá-los saudáveis, valentes, alegres e dispostos para qualquer linhagem do bem. E a raiz de todos estes proveitos, onde nascem e se sustentam, é o cuidado e empenho da mulher da qual falamos.
            Mas este cuidado consiste em duas coisas: em que não seja custoso e que seja ativo.
            Especificamos cada uma. Não deve desperdiçar nem ser gastadora a perfeita mulher casada, porque não tem motivo para sê-la; já que todas as despesas que fazemos são para prover ou as necessidades ou o deleite; para remediar as faltas naturais com as quais nascemos: de fome, nudez ou para abastecer os particulares desejos e sabores que fazemos por vício. Nas mulheres, por um lado a natureza colocou uma grande taxa e por outro as obrigou a que elas mesmas se a pusessem. Em verdade; se olharmos naturalmente para as faltas e necessidades das mulheres, veremos que são muito menores que as dos homens; porque é pouco o que precisam por ter menos calor natural, sendo muito feio que comam muito e sejam gulosas. E nem mais nem menos quanto toca ao vestir, a natureza as fez por uma parte ociosas para que estragassem pouco [as vestimentas], e por outra parte asseadas, para que o pouco realçasse muito.E as que pensam que a postura e os vestidos as tornarão belas, vivem muito enganadas porque quem é, é e quem não é, de nenhuma maneira será nem parecerá e quanto mais se enfeita mais feia fica. De modo que a boa mulher casada, de quem estamos tratando, seja ela feia ou belíssima, não há de querer parecer outra coisa do que é. Assim, quanto ao necessário, a natureza livrou a mulher de muitos custos e, com relação aos deleites e desejos, estão amarradas a estreitas obrigações, para que não sejam dispendiosas. E uma delas é o recolhimento, modéstia e índole que devem à sua natureza; apesar da desordem e o deixar correr solto o desejo vão e não necessário, ser vituperável em todo tipo de pessoa, nas mulheres, que nasceram para sujeição e humildade, é muito mais vicioso e vituperável. Sendo assim, não sei como acontece que, quanto são mais obrigadas a ter esse freio, tanto quando o quebram, se desenfreiam mais que os homens e passam muito mais da medida e não tem fim seu apetite.
            E assim, seja esta a segunda causa que as obriga a ser muito contidas nas despesas de seus desejos, porque, se começam a se desatinar, se desatinam sem limite e são como um poço sem fundo; nada é suficiente e são como uma chama encoberta que se alastra sem sentir pela casa e pela propriedade, até consumir tudo. Porque não é despesa de um dia, mas de cada dia; nem gasto que se faz uma vez na vida, mas que dura por toda ela; nem são, como se costuma dizer uns poucos, e sim muitos e muitos. Porque se for gulosa, a vida é o almoço e a merenda, a horta e a comadre, o dia bom; e se pensam em galas, a coisa passa de paixão e chega a incrível desatino e loucura, porque hoje é um vestido, amanhã outro e cada festa um diferente; e o que hoje fazem, amanhã desfazem, e tudo o que vêem, desejam.
            E vai mais além o furor, porque se tomam mestras e inventoras de novas invenções e trajes, fazem questão de mostrar o que nunca foi visto. Como todos os mestres gostam de ter discípulos que os imitem, elas são tão perdidas que, vendo em outras suas invenções, as detestam e estudam e perdem o sono para fazer outras. E cresce mais seu frenesi, já não lhe agradando o belo, mas o caro; os panos devem ser não sei de onde, e os melhores brocados, o âmbar que banhe as luvas, até os sapatos devem reluzir em ouro também, assim como o toucado e as mantilhas que devem estar muito bordadas; e tudo novo e recente, feito ontem para ser usado hoje e desprezado amanhã. E como cavalos desbocados, quando tomam o freio, quanto mais correm, mais querem correr; como a pedra que cai do alto que quanto mais desce mais se apressa, assim a sede delas cresce; um grande desatino e excesso que fazem é princípio de outro maior, e, quanto mais gastam, mais querem gastar.
            Há ainda nisso outro dano muito grande, que os homens, se forem gastadores, a maioria das vezes o são em coisas, que mesmo não necessárias, são porém duradouras ou honrosas, ou têm alguma parte de utilidade e proveito, como os que edificam suntuosamente e os que sustentam grande família ou como os que gostam de ter muitos cavalos; mas a despesa da mulher e toda fútil; a despesa é muito grande e aquilo no qual gasta, nem se nem aparece. Em babados e luvas, calçolas, pedras, vidros e outras coisinhas da loja, que nem podem ser olhadas sem nojo ou movidas sem fedor. E muitas vezes não gasta tanto um letrado com seus livros, como uma ama para clarear seus cabelos. Deus nos livre de tão grande perdição. E não quero colocar nelas toda a culpa, já que não sou tão injusto; parte grande disto nasce da pouca paciência de seus maridos. Não vamos falar deles por compaixão; porque, se são culpados, pagam muito caro por isso. Que não seja a perfeita mulher casada custosa, nem se empenhe gastar mais que a vizinha, mas que tenha a sua casa mais abastada que ela e mais reparada, e faça com seu asseio e cuidado que o vestido antigo fique como se fosse novo; com a limpeza, qualquer coisa que vestir fique bem. Porque gastar é contrário ao ofício da mulher, e demais para sua necessidade; para os desejos, vicioso e muito torpe e problema infinito que assola as casas e empobrece os moradores; prendendo-os em mil arapucas os abate e os degrada de diferentes maneiras. Com esse mesmo propósito é e pertence o seguinte:

Pague-lhe com bem e não com mal,
todos os dias de sua vida.
(Prov., XXI, 31-12)
 P.S: Continuará...

sexta-feira, 22 de junho de 2012

História maravilhosa de um fidalgo que morreu de amor no monte Olívete

São Francisco de Sales
Tratado do amor de Deus



            Além do que foi dito, achei uma história que, por ser extremamente admirável, nem por isto é senão mais crível aos amantes sagrados, visto que, como diz o santo apóstolo, a caridade crê de muito bom grado todas as coisas (1 Cor 13, 4-7), isto é, não pensa facilmente que se minta; e, se não há sinais aparentes de falsidade naquilo que lhe representam, ela não faz dificuldade em crê-las, mas sobretudo quando são coisas que exaltam e magnificam o amor de Deus para com os homens, ou o amor dos homens para com Deus; uma vez que a caridade, que é rainha soberana das virtudes à feição dos príncipes se compraz nas coisas que  servem à glória do seu império e dominação. E, se bem que o relato que quero fazer não esteja nem tão publicado nem tão bem testemunhado como o requereria a grandeza da maravilha que ele contém, nem por isso perde a sua verdade; pois, como diz excelentemente Santo Agostinho, a custo se sabem os milagres, por mais magníficos que sejam, no próprio lugar onde eles se fazem; e, ainda que os contem aqueles que os viram, custa-se a crê-los; mas nem por isso deixam eles de ser verdadeiros; e, em matéria de religião, as almas bem formadas têm mais suavidade em crer as coisas em que há mais dificuldade e admiração.

            Um cavaleiro muito ilustre e virtuoso foi, pois, um dia além-mar à Palestina, para visitar os santos lugares onde Nosso Senhor fizera as obras da nossa redenção; e, para começar dignamente esse santo exercício, antes de tudo ele se confessou e comungou devotamente; depois foi em primeiro lugar à cidade de Nazaré onde o anjo anunciou à Virgem santíssima a sacratíssima encarnação, e onde se operou a adorabilíssima Conceição do Verbo eterno; e lá esse digno peregrino pôs-se a contemplar o abismo da bondade celeste que se dignara de tomar carne humana para retirar o homem da perdição. Dali passou a Belém, ao lugar da natividade, onde não se poderia dizer quantas lágrimas ele derramou; contemplando as lágrimas com que o Filho de Deus, filhinho da Virgem, regara aquele santo estábulo, beijando e tornando a beijar cem vezes aquela terra sagrada, e lambendo o pó sobre o qual a primeira infância do divino menino fôra recebida. De Belém foi a Betabara1 “e passou até o lugarejo de Betânia, onde, lembrando-se de que Nosso Senhor Se despira para ser batizado, despiu-se também, e, entrando no Jordão, lavando-se e bebendo das suas águas, lhe parecera ver ali seu Salvador recebendo o batismo pela mão do Seu precursor, e o Espírito Santo descendo visivelmente sobre Ele sob a forma de pomba, com os céus ainda abertos, de onde lhe parecia que descia a voz de Padre eterno dizendo: Este é meu Filho bem-amado, no qual pus as minhas complacências (Mt 17, 5). De Betânia vai ele ao deserto, e aí vê, com os olhos do espírito, o Salvador jejuando, combatendo e vencendo o inimigo, e depois os anjos que Lhe servem comidas admiráveis. Dali vai à montanha do Tabor, onde vê o Salvador transfigurado; depois à montanha de Sião, onde, parece-lhe ainda, vê Nosso Senhor ajoelhado no cenáculo, lavando os pés aos discípulos, e distribuindo-lhes o Seu divino corpo na sagrada Eucaristia. Passa a torrente do Cedron, e vai ao horto de Getsêmani, onde seu coração se liquefaz nas lágrimas de uma amabilíssima dor quando ele ali se representa seu caro Salvador suando sangue naquela extrema agonia que ali sofria, e depois, logo depois, atado, garroteado e levado a Jerusalém, para onde ele se encaminha também, seguindo por toda parte os vestígios do seu bem-amado; e vê-O em imaginação arrastado para cá e para lá, à casa de Anãs, à casa de Caifás, à casa de Pilatos, à casa de Herodes, açoitado, escarnecido, cuspido, coroado de espinhos, apresentado ao povo, condenado à morte, sobrecarregado com a Sua cruz, que Ele carrega, e, carregando-a, faz o lastimoso encontro de Sua Mãe toda imersa em dor, e das mulheres de Jerusalém que choravam sobre Ele. Sobe enfim esse devoto peregrino ao monte Calvário, onde vê em espírito a cruz estendida no chão, e Nosso Senhor a quem derrubam, a quem pregam de pés e mãos sobre ela crudelissimamente. Contempla em seguida como levantam no ar a cruz e o crucificado, e o sangue que escorre de todos os pontos do Seu divino corpo. Olha a pobre Virgem sagrada traspassada pela espada de dor (Lc 2, 35); depois volve os olhos para o Salvador crucificado, cujas sete palavras escuta com amor sem par; e enfim O vê moribundo, depois morto, depois recebendo a lançada e mostrando pela abertura da chaga o Seu coração divino; depois tirado da cruz e levado ao sepulcro, onde ele O vai seguindo, deitando um mar de lágrimas sobre os lugares embebidos do sangue do seu Redentor: de tal sorte que ele entra no sepulcro, e sepulta seu coração junto ao corpo de seu Mestre; depois, ressuscitando com Ele, vai a Emaús, e vê tudo o que se passa entre o Senhor e os dois discípulos; e finalmente, voltando ao monte Olivete, onde se operou o mistério da Ascensão, e vendo ali as últimas marcas e vestígios dos pés do divino Salvador, prostrado sobre elas e beijando-as mil e mil vezes com suspiros de amor infinito, começa a retrair a si todas as forças dos seus afetos, como um arqueiro retrai a corda de seu arco quando quer desferir a seta; depois, levantando-se, com os olhos e as mãos tendidos para o céu, disse: Ó Jesus, meu doce Jesus, não sei mais aonde vos buscar e seguir na terra. Oh! Jesus, Jesus, meu amor, concedei pois a este coração seguir-Vos e ir para junto de Vós lá em cima; e, com estas ardentes palavras, lançou ao mesmo tempo a sua alma ao céu, qual sagrada seta que como divino arqueiro ele atirou no alvo do seu felicíssimo objeto.

            Mas os seus companheiros e servos que viram assim subitamente cair como morto aquele pobre amante, admirados com esse acidente, correram por força ao médico, que, vindo, achou que ele efetivamente falecera; e, para fazer juízo seguro das causas de uma morte tão inopinada, indagou de que compleição, de que costumes e de que temperamento era o defunto, e soube que ele era de natural mui doce, amável, maravilhosamente devoto, e grandemente ardente no amor de Deus. Ao que, disse o médico que sem dúvida o coração se lhe rebentara de excesso e de fervor de amor. E, a fim de consolidar melhor o seu juízo, quis abri-lo, e achou aquele bravo coração aberto com esta sagrada palavra gravada dentro: Jesus, meu amor! O amor, pois, fez nesse coração o ofício da morte, separando a alma do corpo sem concorrência de nenhuma outra causa. E é São Bernardino de Sena, autor mui douto e mui santo, quem faz esta narração no primeiro dos seus sermões da Ascensão.

            Certamente, outro autor quase da mesma época, que ocultou o nome por humildade, mas que sem embargo seria digno de ser nomeado, num livro que intitulou Espelho dos espirituais conta outra história ainda mais admirável; pois diz que na região de Provença havia um senhor grandemente dado ao amor de Deus e à devoção do santíssimo Sacramento do altar. Ora, um dia, estando ele extremamente afligido por uma doença que lhe causava vômitos contínuos, trouxeram-lhe a divina comunhão, e, não ousando recebê-la por causa do perigo que havia de vomitá-la, ele suplicou ao seu cura colocar-lha sobre o peito, e persigná-lo com ela pelo sinal da cruz, o que foi feito, e num momento aquele peito inflamado do santo amor fendeu-se, e puxou para dentro de si o celeste alimento no qual estava o bem-amado, e ao mesmo tempo expirou. Bem vejo, em verdade, que esta história é grandemente extraordinária, e que mereceria um testemunho do maior peso; mas, depois da veracíssima história do coração fendido de Santa Clara de Montefalcone, que toda gente pode ver ainda agora, e da dos estigmas de São Francisco, que é seguríssíma, minha alma não acha coisa alguma difícil de crer entre os efeitos do divino amor.

1) Betabara, cidade da tribo de Benjamim para onde veio Josué.

Oración por la mañana y por la noche de Santa Matilde.

Fonte: En Gloria y Majestad

Nota del blog: las siguientes oraciones están tomadas del Manuale Christianum del Padre A. Fleury.



Orátio mane faciénda.

Amantíssime Jesu, hoc primum hujus díei suspírium de fundo cordis mei háustum mitto ad Te, ex ómnibus víribus meis rogans, ut hac die omnes córporis et ánimae actiónes per Temetípsum in me operári, easdémque in corde tuo dulcíssimo emendátas, una cum perfectíssimis opéribus tuis, Deo Patri  in laudem aetérnam offérre dignéris. Amen

Oración por la mañana.

Amantísimo Jesús, te entrego este primer suspiro del día desde el fondo de mi corazón, pidiéndote con todas mis fuerzas que en este día todas mis acciones del cuerpo y del alma, sean enmendadas por Ti mismo en Tu dulcísimo corazón y junto con Tus perfectísimas obras, Te dignes ofrecerlas a Dios Padre en alabanza eterna. Amén.

Orátio véspere faciénda.

O Cor Jesu dulcíssimum, Tibi comméndo hac nocte cor et corpus meum, ut in Te dúlciter requiéscant. Et quóniam ego jam obdormitúrus Deum laudáre nequeo, Tu illud pro me supplére dignéris: ita ut quot pulsus cor meum hac nocte déderit, tot laudes Sanctíssimae Trinitáti pro me persólvat; omnémque álitum, quem spirávero, in Te suscéptum, eidem támquam vivas amóris scintíllas offérre velis. Amen.

Oración por la noche.

Oh dulcísimo Corazón de Jesús, a Ti te encomiendo en esta noche mi corazón y mi cuerpo, a fin de que descansen dulcemente en Ti. Y puesto que yo al dormir ya no podré alabarte, dígnate suplirlo por mí, de forma tal que tantas sean las alabanzas que dé a la Santísima Trinidad cuantos sean los latidos de mi corazón; y que todo hálito que dé, recibido por Ti, quieras ofrecerlo como una centella de amor. Amén 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

NA FONTE

Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus


            Ouvir dizer ou ler o que outros afirmam sobre a união da alma com Deus eleva sem dúvida o espírito, mas pode deixar-nos muito longe da realização. Acontece também que muitas almas dispostas a prosseguirem este fim, perdem a coragem depois de uma série de derrotas e renunciam a avançar pelo reino das promessas divinas. Algumas delas resignam-se então à mediocridade de vida interior: visto que a perfeição parece estar decididamente fora do nosso alcance, para quê continuar a forcejar em vão? Consolam-se com a idéia de que outros, depois de algumas tentativas, desmedidas para as suas forças, conheceram a amargura da decepção.
            Pode até acontecer que estas reflexões nos dêem a sensação de sermos avisados e prudentes e nos façam lastimar o sacrifício inútil das almas presunçosas. Não abandonamos de todo a piedade, mas limitamos o nosso horizonte; e a voz da consciência, que não pode satisfazer-se com esta limitação, é asfixiada pelas distrações. Na verdade, não podemos pensar que uma oferenda incompleta seja digna da majestade divina, da Sua pureza e da Sua simplicidade, e que o Amor absoluto aceite a oferta de uma alma dividida a nós que se dirigem estas queixas: «Ouvireis com os ouvidos e não entendereis: e vereis com os olhos e não ver eis. Porque o coração deste povo tomou-se insensível, e os seus ouvidos tornaram-se duros e fecharam os olhos, para não suceder que vejam com os olhos e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração e se convertam» (Mat., XIII, 14-15).
            Estas palavras parecem duras na boca de um Deus: mas é precisamente por causa da Sua misericórdia infinita, porque quer partilhar conosco a caridade ardente que transborda do Seu coração, que nos repreende pela nossa tibieza, e ainda mais pela nossa resignação. Por mais severamente que nos fale, nunca nos abandona mais do que nós o abandonamos a Ele. Deus está sempre próximo de nós como uma nascente interior de onde brota a graça e lá se encontra à nossa espera no mais íntimo de nós. Apesar dos nossos precários compromissos entre o amor divino e o amor próprio, não deixa nunca de nos atrair a Ele para nos oferecer a totalidade das Suas riquezas. Assim como a unidade divina é a mãe dos seres, assim também toda a vida aspira à unidade e todo o amor à totalidade.
            Se, a partir deste momento, quiséssemos ouvir a palavra divina e deixar o nosso coração responder ao seu apelo, teríamos aberto na nossa frente o caminho que conduz sem desvios até ao alto. É o próprio Deus que nos incita a percorrê-lo e é por isso que nos desvenda os seus segredos. Pudéssemos nós ouvi-la, de fato, no silêncio de uma submissão humilde e de uma filial atenção!
            A Sua linguagem é mais clara que toda a luz criada; o Seu único fim é fazer saltar em nós a faísca de uma resposta ardente. Se se apresenta por vezes com a dureza de um diamante, é para penetrar até ao fundo do nosso coração, objeto do desejo eterno. Mas é a paciência divina que mais devemos admirar, a condescendência do Verbo que toma a forma do escravo para conquistar o nosso amor: «Eis o meu servo, que eu escolhi, o meu amado, em quem a minha alma pôs as suas complacências; não quebrará a cana rachada nem apagará a torcida que fumega» (Mat., XII, 18-20).
            Que nenhum obstáculo venha, da nossa parte, enfraquecer a palavra de Deus: deixemo-la ressoar até ao fundo da nossa consciência: também em nós ela fará desabrochar as Suas divinas maravilhas. «Vede! Deus é a nossa libertação: bebei com alegria nas fontes do Salvador!» (Is., XII, 2-3). É do Filho que nos devemos aproximar, se quisermos acalmar a sede que atormenta a nossa alma. Ele vem ao nosso encontro e é Ele próprio que nos pede de beber, tanto na sombra do recolhimento como ao sol ardente dos nossos dias. E assim que a alma começa a satisfazer o desejo divino, ouve estas palavras: «Se tu conheceras o dom de Deus e quem é que te diz: Dá-me de beber, tu certamente lhe pediras e Ele te daria uma água viva» (João, IV, 10).
            Oferta divina, na verdade! Basta confessarmos a nossa indigência para recebermos a dádiva da misericórdia. O coração divino conhece todas as nossas necessidades e faz chegar até nós a onda da sua caridade: convida-nos a beber sem reservas para refrescar e curar a nossa alma. Esta água que brota das profundezas divinas torna-nos cada vez mais permeáveis à sua pureza e mais aptos para receber a sua abundância, à medida que vamos matando a nossa sede. «Se alguém tem sede, venha a mim e beba. O que crê em mim, do seu coração correrão rios de água viva» (João, VII, 37-38).
            Libertarmo-nos dos laços egoístas e parciais que nos prendem às criaturas, desprendermos o nosso coração do que é temporal e efêmero, eis as condições para o nosso despertar espiritual. O conhecimento angustiante da nossa miséria arranca-nos às satisfações de uma hora para nos fazer desejar ardentemente a verdade eterna, a plenitude divina. «Aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede, mas a água que eu lhe der virá a ser nele uma nascente de água a jorrar para a vida eterna» (João, IV, 14).
            Se bebermos, pois, na fonte do paraíso interior, nunca mais procuraremos matar a sede nos regatos da terra, para que o Salvador não se queixe de nós: «Eles abandonaram-me, a mim que sou a fonte viva, para cavarem cisternas - cisternas cheias de fendas que não conservam a água (cisternas dissipadas) » (Jer., II, 13).
            Estejamos atentos a esta hora da graça, que, quem sabe, pode soar pela última vez. «Se ouvirdes hoje a sua voz, não endureçais o vosso coração» (Hebr., IV, 7).
            Que o Espírito Santo não nos ache lentos e surdos à Sua chamada! Não deixemos adormecer em nós a idéia desta glória que nos convida, desta Boa-Nova que Deus nos anuncia a todo o momento, deste Verbo de amor que procura com divina violência revelar-se ao nosso coração. «A palavra de Deus é eficaz, é mais aguda que uma espada de dois gumes: ela separa a alma do espírito, as articulações da medula, ela julga os sentimentos e os pensamentos do coração» (Hebr., IV, 12). Deixemos Deus agir, que Ele seja o nosso quinhão e a nossa sorte!
            A verdade que o Seu amor nos impõe desenvolver-se-á nos nossos corações quando a nossa fé receber a semente eterna. «Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a seguem» (Luc., XII, 28). «Santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade!» (João, XVII, 17).

terça-feira, 19 de junho de 2012

Livramento das almas do Purgatório

Nota do blogue: Recebido por e-mail. Agradeço a alma generosa que me enviou. Deus lhe pague

O quarto desejo do Coração de Jesus 
é o livramento das almas do Purgatório


Almas queridas de Jesus, almas muito amadas que Ele vê sofrer, e que, em respeito a Sua justiça, ainda não pode livrar!
Estas almas chamam-nO, desejam-nO, dizem-Lhe a cada instante: “Quando Vos veremos, Senhor?… E choram menos pe­las dores que experimentam que por se verem separadas de Jesus! Parece-me, dizia uma Santa, estar vendo Jesus que estende para mim uma das Suas mãos, dizendo-me: “Es­tas pobres almas devem-me orações, missas mal ouvidas, mortificações, esmolas que de­veriam ter feito… Satisfazei por elas”.
Sim, Jesus, quero começar hoje mesmo.
“Darei, de tempos a tempos, uma es­mola pelas almas do Purgatório”.
EXEMPLO
Santa Margarida Maria recomendou, vivamente, em suas instruções, o seguinte: “À noite, dareis uma voltinha pelo Purgatório, em companhia do Sagrado Co­ração, consagrando-Lhe tudo o que houverdes feito, e pedindo que Se digne aplicar os Seus merecimentos às santas almas que padecem. E ao mesmo tempo lhes pedireis também, queiram interpor o seu poder para vos alcançarem a graça de “viver e de morrer no amor e fidelidade ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, correspondendo aos Seus desejos de [amor]”. Noutro escrito que deixou, lê-se: “Numa noite de Quin­ta-feira Santa, tendo eu alcançado licença para passá-la diante do SS. Sacramento, estive uma parte do tempo como cercada destas almas pobres: e Nosso Senhor disse-me que me dava a elas todo este ano, para lhes fazer todo o bem que pudesse. 
Desde então, vem elas ter muitas vezes comigo; e não lhes dou outro nome senão o de minhas “amigas penadas”. Eu pedia em fa­vor delas sufrágios e aplicações de Missa dizendo: “Muito mais obrigada vos fico pelo bem que lhes pro­curais do que se a mim mesma o fizésseis”. Outras vezes, regozijava de terem saído livres pelas orações e penitências que por elas fizera: “Esta manhã, domingo do Bom Pastor, duas das minhas boas amigas que so­frem, vieram dar-me um adeus; porque hoje o sobe­rano Pastor as recebia no Seu redil da eternidade, com outras que iam entoando cânticos de alegria que se não podem explicar”. Estes piedosos sentimentos de Sta. Mar­garida Maria se manifestavam também na mesma época numa Religiosa de alta virtude. Maria Vitória da Encarnação, do Convento das Clarissas da Bahia, cuja vida foi escrita pelo arcebispo D. Sebastião Monteiro. 
Era a santa freira fervorosíssima devota dos mistérios da Paixão de Nosso Senhor e, às sextas-feiras, fazia a via sacra, carregando uma pesada cruz e levando à cabeça uma coroa de espinhos a disciplinar-se de modo que o sangue esguichava sobre as paredes ou corria pelo pavimento; assim, às vezes, a se arrastar de joelhos, ia até o lugar das sepulturas e se prostrava sobre elas orando. 
Tinha ainda uma particular devoção ao arcanjo São Miguel como o defensor das almas do Purgatório, para cujo alívio fazia muitos sufrágios e oferecia todas as obras de humildade que praticava. Por isso, escreve o seu ilustre biógrafo, elas a procuravam com toda a confiança: indo, uma vez, altas horas da noite, ao coro fazer oração, ouviu lastimoso gemido de um defunto que, por chegar tarde à igreja, ficara por enterrar: co­brando ânimo, perguntou o que queria, e ele respondeu, pedindo mandasse fazer sufrágios de que muito preci­sava; satisfez o pedido no dia imediato, e o defunto, mais tarde, veio agradecer-lhe. Uma noite, viu a alma de uma sua serva que lhe falava, quando a companheira que dormia perto, despertando e vendo um clarão em sua cela, ao tempo em que lhe ouvia a voz, gritou assustada, fazendo acordar toda a comunidade. 
Viu, de outra vez, a alma da religiosa Madre Luzia, que subia ao céu. De uma feita, acabada a sua oração no coro, retirava-se, mas a cercaram de tal sorte as almas, que ficou a orar até romper a aurora. Como para mostrar que não era isso feito de pura imaginação, permitiu Deus que as almas lhe imprimissem como três dedos de fogo num ombro, e viram-nos várias Religiosas, a quem disse por graça: “As minhas amigas me cauterizaram; não quero mais brinquedos”. 
Por outro lado, elas lhe faziam carinhos e a serviam: em noite de excessivo calor, uma freira que falava à porta da cela, sentiu uma suavíssima viração e, não podendo explicar, perguntou donde vinha. Madre Vitória respondeu: “São as minhas amigas que me estão abanando”. — “Oh! que consolação é a de ver uma alma em salvação. Veio aqui, nestes dias, uma tão linda e resplandecente, que excedia a luz do sol”. E, valendo-se delas, conseguiu a muitas pessoas acharem o perdido, saberem de pessoas ausentes muito longe ou de coisas futuras que se não poderiam conhecer naturalmente, e curarem-se prestes de moléstias antigas e graves. Madre Vitória morreu em 1715, numa sexta-feira, às 3 horas da tarde, dando-se, nesta ocasião e depois, por muitas vezes, fatos extraordinários que confirmaram a reputação de santidade que já gozava em sua vida, e que tem uma longa e detida comemoração na Crônica da Ordem Seráfica.
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(Excertos do livro: Mês do Sagrado Coração de Jesus - Padre José Basílio Pereira - 2a. edição, 1913)

Créditos ao blogue:  Almas Devotas

A PERFEITA CASADA II

Tradução: Liliane Raquel Chwat com complementação de Letícia de Paula conforme a edição de 1945 La perfecta casada - Fray Luis de Leon



Algumas advertências do autor para começar a tratar da matéria

            Mulher de valor, quem a encontrará?
            Raro e extremado é seu preço
(Prov., XXXI, 10)

            Antes de começar, nos convém pressupor que, neste capítulo, o Espírito Santo em verdade pinta uma boa mulher casada, declarando as obrigações que tem; também diz e significa, como encobre, debaixo desta pintura, coisas maiores e do mais alto sentido, que pertencem a toda a Igreja. Porque se há de entender que a Sagrada Escritura, que é a voz de Deus, é como uma imagem da condição e natureza de Deus; e assim como a divindade é juntamente uma única perfeição e muitas perfeições diversas, uma em simplicidade e muitas em valor e eminência, assim a Santa Escritura com as mesmas palavras diz muitas e diferentes coisas, e, como ensinam os santos, na simplicidade de uma mesma sentença se encerra uma grande gestação de sentidos.
            E como em Deus tudo o que há é bom, assim em Sua Escritura todos os sentidos que colocou nela o Espírito Santo são verdadeiros. De modo que seguir um sentido não é desprezar o outro, e menos ainda aquele que nestas Sagradas Letras, entre muitos e verdadeiros entendimentos que contém, descobre um entre eles e o declara e nem por isso deve se pensar que despreza os outros entendimentos. Pois digo que neste capítulo, Deus, pela boca de Salomão, com as mesmas palavras faz duas coisas: a primeira, instrui e ordena os costumes; a outra, profetiza mistérios secretos. Os costumes que ordena são da mulher casada; os mistérios que profetiza são inteligência, e as condições que haveria de colocar em Sua Igreja, de quem fala como se fosse a figura de uma mulher de Sua casa. Neste último, dá luz no que se há de crer; no primeiro, ensina como se há de obrar. E porque somente este é o nosso propósito, falaremos somente dele aqui e procuraremos, dentro do possível, extrair e colocar diante dos olhos tudo o que há nesta imagem de virtude que pinta Deus aqui. Diz, pois:

            Mulher de valor, quem a encontrará?
            Raro e extremado é seu preço.

O que é necessário para que uma mulher seja perfeita, e o quanto deve procurá-lo ser a que é casada.

            Propõe logo no início aquilo que há de dizer, que é a doutrina de uma mulher de valor, ou seja, de uma perfeita mulher casada e louva o que propõe, ou para dizer melhor, propõe louvando para despertar e acender nelas este desejo honesto e virtuoso. E para ter maior força o encarecimento, coloca-o por meio da pergunta, dizendo: “Mulher de valor, quem a encontrará?” Perguntando e afirmando isso, diz que é difícil encontrá-la e são poucas essas mulheres. Assim, o primeiro louvor para a boa mulher é dizer que ela é coisa rara, ou seja, dizer que é preciosa e excelente, digna de ser muito estimada, porque tudo aquilo que é raro é precioso. Que seja esta sua intenção, parece não haver dúvida, porquanto logo acrescenta: “Inatingível e extremado é seu preço”. Ou como diz o original no mesmo sentido: “Muito além, muito distante do preço das pedras preciosas é seu preço”.
            Desse modo, portanto, um homem que encontra uma mulher de valor pode desde já se sentir rico e venturoso, entendendo que encontrou uma pérola oriental ou um diamante finíssimo ou uma esmeralda ou alguma outra pedra preciosa de inestimável valor.
            É este o primeiro elogio à boa mulher, dizer que é difícil de encontrar. O que é um elogio para as boas, mas é aviso para conhecer geralmente a fraqueza de todas. Não seria grande coisa ser boa se houvesse muitas, ou se em geral não fossem muitos seus males sinistros, os quais são tantos, em verdade, tão extraordinários e diferentes entre si, que, mesmo sendo uma linhagem ou espécie, parecem de diversas espécies. Como zombando neste assunto, foi Focílides ou foi Simônides quem costumava dizer (Apud Stobaeum, serm. 73.) que somente nelas vemos a criatividade e as manhas de todo tipo, como se fossem de sua linhagem: há algumas toscas e livres como cavalos, e outras espertas como raposas, outras agressivas, outras volúveis, outras pesadas, como se fossem feitas de terra e por isso aquela que entre tantos diferentes males acaba sendo boa, merece ser muito elogiada.
            Mas vejamos porque o Espírito Santo chama a boa mulher de mulher de valor, e depois veremos com quanta propriedade a compara e antepõe às pedras preciosas. O que aqui chamamos de mulher de valor, que poderíamos chamar de mulher varonil, como Sócrates, referindo-se a Jenofón (De administratione domestica, lib. V.), chama as mulheres casadas de perfeitas; por esse motivo ao dizer varonil ou valor, na origem é uma palavra de grande significado e força, de modo tal que somente com muitas palavras se alcança tudo o que significa. Quer dizer virtude de ânimo e fortaleza de coração, indústria e riquezas, poder e vantagem, e finalmente, um ser perfeito, pleno daquelas coisas a quem esta palavra se aplica; tudo isto guarda em si quem é uma boa mulher, e não o é se não o guarda.
            Para que entendamos que isso é verdade, chamou-a o Espírito Santo com este nome, que encerra em si tão variado tesouro. Porque, mesmo sendo a mulher naturalmente delgada e frágil mais que qualquer outro animal, como se fosse uma coisa quebradiça e melindrosa, e como na vida de casada está sujeita a muitos perigos e se oferecem a cada dia trabalhos e dificuldades muito grandes, exposta a contínuos dissabores e zangas, e, como diz São Paulo (I. Cor., VII, 34), vida onde o ânimo e o coração estão divididos como alheios entre si, acudindo ora os filhos, ora o marido, ora a família; para que tanta fraqueza saia vitoriosa da contenda tão difícil e longa, é necessário que para ser uma boa mulher casada esteja cercada de um nobre esquadrão de virtudes, como são as virtudes que já dissemos e aquelas que em si abraça a propriedade deste nome. Porque o que é bastante para que um homem se saia bem com o negócio que empreende, não é suficiente para que uma mulher responda como deve a seu ofício; quanto mais o sujeito é fraco, maior é a necessidade de ajuda e favor para chegar com uma carga pesada. E como, quando em um material duro que não se rende ao ferro nem à arte, vemos uma figura perfeitamente esculpida, dizemos e reconhecemos que era perfeito e extremado em seu ofício o artífice que a esculpiu, que com a vantagem de seu artifício venceu a dureza indomável do sujeito duro; assim do mesmo modo, mostrar-se uma mulher como deve entre tantas ocasiões e dificuldades de vida, sendo tão fraca, é claro sinal de um caudal de raríssima e quase heróica virtude.
            É argumento evidente que quanto mais à natureza é fraca, mais se adianta e avantaja no valor do ânimo. E esta mesma é a causa também por onde, como vemos pela experiência e como nos ensina a história em não poucos exemplos, quando uma mulher se decide a realizar alguma coisa de louvor, vence nisso muitos homens que tentam a mesma coisa. Porque coisa de tão pouco ser como é isso que chamamos de mulher, nunca empreende nem alcança coisa de valor nem de ser, se não for porque a inclina a isso, e a desperta e alenta, alguma força de incrível virtude que, ou o céu colocou em sua alma ou algum dom singular de Deus. Já que vence seu natural e se avoluma como rio, de mãe, devemos entender necessariamente que possui em si grandes bens. De modo que, com grande verdade e significado de louvor, o Espírito Santo não chamou a mulher boa de boa, nem disse ou perguntou: Quem achará uma boa mulher?, mas chamou-a de mulher de valor; usou para isso uma palavra tão rica e significativa como é a original que dissemos, para nos dizer que a mulher boa é mais que boa e isso que chamamos bom é um modo de dizer que não chega àquilo de excelente que deve ter e tem em si a boa mulher. E, para que um homem seja bom, é suficiente um bem médio, mas na mulher deve ser coisa de muitos e altos quilates, porque não é obra de qualquer oficial, nem lance ordinário, nem bem que se encontra em qualquer lugar, e sim artifício primo e bem incomparável, ou, para dizer melhor, um acúmulo de riquíssimos bens.
            Este é o primeiro louvor que lhe dá o Espírito Santo, e deste deriva o segundo, que é compará-la com as pedras preciosas. Neste, em uma palavra, acaba de dizer cabalmente que se encerra tudo o que estamos falando. Porque, assim como a pedra preciosa é de alto e extraordinário valor, assim o bem de uma boa mulher tem altos quilates de virtude; e como a pedra preciosa em si mesma é pouca coisa, e, pela grandeza da virtude secreta, cobra um preço, assim o que na fraqueza da mulher estima como bem, é grande e raro bem; e como nas pedras preciosas a que não é muito fina não é boa, assim nas mulheres não há meio termo, nem é boa a que não é muito boa. Do mesmo modo que é rico um homem que possui uma preciosa esmeralda ou um diamante, mesmo que não tenha outra coisa; possuir estas pedras não é possuir uma pedra, e sim possuir nela um tesouro abreviado; assim uma boa mulher não é uma mulher e sim um acumulo de riquezas, e quem a possui é rico só com ela e somente ela pode fazê-lo venturoso e afortunado; do mesmo modo que a pedra é levada nos dedos e colocada diante dos olhos, e assenta-se sobre a cabeça para beleza e honra dela, o dono tem ali juntamente apoio na alegria e socorro na necessidade, nem mais nem menos o marido deve gostar mais da mulher que de seus próprios olhos, e há de levá-la sobre sua cabeça, e o melhor lugar no coração do homem deve ser para ela, ou, para dizer melhor, todo seu coração e sua alma; e há de entender que ao tê-la, tem um tesouro geral para todas as diferenças de tempos que é a varinha de virtudes, como dizem, que em qualquer tempo e conjuntura responderá com seu gosto e preencherá seu desejo; que na alegria tem nela doce companhia com quem acrescentará seu prazer, comunicando-o; e na tristeza, amoroso consolo; nas dúvidas, conselho fiel; nos trabalhos, repouso; nas faltas, socorro; e medicina nas doenças, aumento de seus bens, vigia de sua casa, mestra de seus filhos, provedora de seus excessos; e finalmente, nas boas e más situações na prosperidade e adversidade, na idade florida e na velhice cansada, e, durante toda a vida, doce amor, paz e descanso.
            Até aqui chegam os elogios de Deus a esta mulher; vejamos agora o que segue depois disso:

            Confia nela o coração de seu marido;
            não lhe farão falta os despojos.
            Prov., XXXI,11
 P.S: Continuará...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pensamento da noite de 18/06/2012

Gemma Galgani - Belíssima e santa

"Da visão ao amor há apenas um passo, e o amor dirigido para o ideal divino, para a beleza moral, é o começo da regeneração e da santidade. O ideal da beleza absoluta só existe em Deus, pois só nEle se encontram, em todo o Seu esplendor, o "Verdadeiro" e "Bom", que, sem ser a essência do "Belo", são, entretanto, duas partes constitutivas, de tal modo que sem "Verdade" e sem "Bondade" a beleza não pode existir."
(Padre Julio Maria de Lombaerde)

O MELHOR CAMINHO



Por um cartuxo anônimo
Intimidade com Deus


            A fidelidade a certas práticas religiosas não basta para tornar o homem interior. Aquele que merece verdadeiramente este nome não pára de rezar quando a sua boca emudece, nem de louvar a Deus quando tem de falar de coisas indiferentes. O perigo duma regularidade demasiado exterior é pôr limites à vida do espírito e tornar puramente mecânica a expressão da piedade. Quase que não é necessário insistir nisto, visto que o Evangelho nos adverte várias vezes do perigo: «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim» (Mat., XV, 8).

            O que importa na vida espiritual não é o número das orações nem a acumulação das práticas, mas a continuidade de uma fé viva, o abandono generoso de si próprio e a união íntima com Nosso Senhor. O valor das virtudes mede-se pela sua fonte: os nossos atos valem pelas nossas intenções, e desde que estas se elevem constantemente para Deus pela fé, pela esperança e pela caridade, não há nada na nossa existência que não possa ser uma ação de graças, que não dê glória eterna ao Pai. «Nem todo o que diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade do meu Pai, que está
nos céus, esse entrará no reino dos céus» (Mat., VII, 21).

            Enquanto não tivermos ouvido o chamamento a uma vida interior, não teremos compreendido bem as palavras de Cristo. E enquanto o nosso coração se contentar com palavras de rotina, quase automáticas, estaremos com certeza muito longe de cumprir o preceito: Amai com todo o vosso entendimento e de todo o vosso coração! É necessário que a nossa vida seja tocada por Ele, e até que a nossa pessoa deixe de nos pertencer para se entregar toda ao amor: a intimação de Deus não pode ter outro sentido. À medida que nos aproximamos de Deus, opera-se uma transformação no nosso ser, que se espiritualiza e se adapta àquilo que ama. Seria um grande perigo para a nossa alma se ela se limitasse a fórmula e gestos convencionais e não explorasse essa parte mais profunda onde Deus a espera. «Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Porque é destes adoradores que o Pai procura. Deus é espírito; e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram (João, IV, 23-24).

            Mais de um caminho se apresenta ao homem que quer caminhar na luz seguindo os conselhos do Mestre. Uns entregam-se a uma vida de penitência, outros procuram o retiro e a solidão, outros ainda sentem-se chamados para a pobreza evangélica: cada um destes meios é adotado e valorizado de maneira especial por certas famílias religiosas. Mas que seria da pobreza, da solidão e até da penitência, se não fossem animadas de uma intenção pura e verdadeiramente divina? Na verdade, podemos abandonar o mundo e os seus prazeres, aprender a renunciarmos a nós próprios e a dominarmo-nos com uma intenção egoísta; não é necessário ser-se cristão para ter qualquer destes ideais: a Grécia e a Índia tiveram heróis do ascetismo filosófico que não se aproximaram sequer da santidade. Nenhuma virtude deve ser despregada, porque o que ocupa o lugar que ficou livre por essa falta de vigilância é sempre uma forma de amor-próprio: o que importa precisamente é não descurar um dever, enquanto estamos cumprindo outro.

            E como o perigo desta parcialidade está espreitando constantemente a nossa vontade imperfeita, precisamos de apoiar a nossa ação, a nossa própria visão dos valores, no ponto mais alto - o mais seguro. É Deus que no-lo indica, felizmente, e nos convida a ele pela boca do Apóstolo: «Aspirai, pois, aos dons melhores. E eu vou mostrar-vos um caminho ainda mais excelente. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine. E ainda que eu distribuísse todos os meus bens no sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, nada me aproveita» (I Cor., XII, 31- XIII, 1-3).

            Por mais medíocre que a nossa vida tenha sido até agora e por mais desanimadora que nos pareça a sua recordação, não temos nenhum motivo para pôr de parte este recurso: pelo contrário, é nosso dever pedir à fonte suprema que nos dê as forças que nos faltam, que nos faça voltar o amor eterno. As faltas cometidas nunca devem servir de pretexto para uma timidez da alma, como se o amor de que ela precisa estivesse reservado para almas escolhidas. Na verdade, não é assim que fala o divino Mestre: quando uma pecadora pública ousa banhar-Lhe os pés com as suas lágrimas e enxugá-los depois com os cabelos, toma a sua defesa contra as críticas do Fariseu, homem justo, contudo, e de conduta irrepreensível: «Não me deste o ósculo da paz, e esta, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não ungiste a minha cabeça com bálsamo; e esta ungiu com bálsamo os meus pés. Pelo que te digo: são-lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou» (Luc., VII, 45-46).

            A caridade deve fecundar toda a nossa vida, é ela que devemos procurar em todas as coisas e deve ser a razão constante das nossas ações. É preciso deixarmo-nos guiar pelo amor para que ele cresça na nossa alma. Ninguém falou de caridade com mais entusiasmo do que o convertido de Damasco, e ninguém se deixou levar mais por ela do que ele próprio, que tão ardentemente desejava a morte libertadora para estar com Cristo. «Porque o amor de Cristo nos constrange, diz ele, pois sabemos que Cristo morreu por todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles» (lI Cor., V, 14-15).

            Deus obrigar-nos-ia quase, pelo poder do Seu amor, a entregarmo-nos a Ele: no entanto, rigorosamente, Ele não exerce pressão sobre a alma, pois criou-nos livres e o amor vive de liberdade.

            A caridade é o laço vivo entre o Pai e o Filho: ela deve ser também o laço que liga as vontades e as inteligências para uni-las a Deus. É um dom inestimável que recebemos no batismo: mal chegamos a este mundo, Deus confere-nos o direito de cidadania no Céu. O Seu Espírito, como uma porta interior, derrama em nós a caridade divina: «O amor de Deus está derramado em nós, diz São Paulo, pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (Rom., V, 5).

            Nós, a quem Deus escolheu para combatermos em Seu nome, não podemos, de maneira nenhuma, contentar-nos em cultivar esta ou aquela virtude: não há nenhuma, seja dito mais uma vez, que não seja necessária. Elas crescem e frutificam à medida que cresce o amor; da mesma maneira perdem o brilho e o valor à medida que a caridade enfraquece. E é isso que o Apóstolo nos faz ver: «Acima de tudo isto, tende caridade, que é o vínculo da perfeição» (Col., III, 14). «Que todas as vossas obras sejam feitas em caridade» (Cor., XVI, 14). O amor não descansa senão quando alcança uma vitória total: como não há-de isto ser verdade, antes de tudo, para o amor infinito que deu tudo e não pode satifazer-se com fragmentos ou restos da nossa capacidade de amar?

            O amor sabe aproveitar todas as ocasiões para tocar o coração do amado: nas horas de alegria, dá graças; nas horas de dor prova a sua fidelidade. A aceitação filial de tudo o que nos cabe, a calma certeza de que nada acontece sem uma intenção da caridade divina para conosco - por mais doloroso que o acontecimento nos pareça -, este consentimento e esta confiança são uma oração constante, graças à qual tudo se vive por amor de Deus. Deste modo, a nossa conduta está de harmonia com o eterno desígnio, «vivemos de acordo com o fundo das coisas».

            Uma intenção recolhida e renovada durante o dia tantas vezes quantas as nossas ocupações materiais no-lo permitam, mantém o nosso coração elevado para Deus: é uma oferta que o mais pobre dos pecadores está à altura de fazer, quando considera a sua miséria. Aos pés da cruz, diante do tabernáculo, nos momentos sagrados que se seguem à santa comunhão, unimo-nos a Jesus nosso amigo, e qualquer que seja a razão que nos afasta dEle, podemos voltar sem demora para Cristo num novo impulso de amor. Percorrendo assim com Ele o caminho da nossa vida, somos levados a compreender melhor a Sua palavra que se resume neste preceito e nesta promessa de amor - como reconheciam, depois de terem caminhado na Sua divina companhia, os discípulos de Emaús: «Não é verdade que sentíamos abrasar-se-nos o coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Luc., XXIV, 32). 

sábado, 16 de junho de 2012

A Perfeita Casada por Frei Luís de Leon - Introdução

Tradução feita por Liliana Raquel Chwat
adaptada e complementada por Letícia de Paula
que teve como base edição espanhola de 1945 - La perfecta casada, 
colección "CHRISTUS" N.º 31, Editorial Difusion. S.A



A dona Maria Varela Osório

Introdução

Em que se fala sobre as leis e condições do estado do matrimônio e da estrita obrigação que tem as casadas de conhecê-las e cumpri-las.

            Este novo estado em que Deus a colocou, sujeitando-a as leis do santo matrimônio, apesar de se apresentar como caminho real, mais aberto e menos trabalhoso que outros, não carece contudo de dificuldades e maus passos e é o caminho onde também se tropeça, corre-se perigo, erra-se e que tem necessidade de guia como os demais; porque servir ao marido, governar a família, a criação dos filhos, a conta que junto com isso se deve ao temor de Deus, e a guarda e limpeza da consciência, tudo o que pertence ao estado e ao ofício da mulher que se casa, são obras que requerem cada uma por si mesma muito cuidado e que, todas juntas, sem particular favor do céu, não podem ser cumpridas. Nisso se enganam muitas mulheres que pensam que casar-se não é mais que deixar a casa do pai, passando para a do marido e sair da servidão para a liberdade e a felicidade; e pensam que, tendo um filho de tanto em tanto e jogando-o nos braços de uma ama, são saudáveis e plenas mulheres.
            Já que o seu bom senso e a inclinação a toda virtude, com a qual Deus a dotou, me garante para que não tema que será como algumas dessas que menciono, entretanto, o profundo amor que lhe tenho e o desejo de seu bem que arde em mim, me impelem a lhe fornecer algum aviso, para que busque e acenda alguma luz que, sem engano nem erro, ilumine e endireite seus passos por todos os maus passos desse caminho, por todas as voltas e rodeios que ele há.
            E como costumam os que fizeram uma longa navegação ou os que peregrinaram por lugares estranhos, que a seus amigos, os que querem empreender a mesma navegação e caminho, antes de começá-lo, antes de partir de suas casas, com diligência e cuidado, dizem-lhes detalhadamente os lugares por onde devem passar, das coisas que devem se precaver, informam-nos de tudo aquilo que acreditam que seja necessário, assim eu, nesta jornada que vossa mercê (você) começou, lhe ensinarei, não o que me ensinou a própria experiência passada, porque é alheia a minha profissão, e sim o que aprendi nas Sagradas Letras, que é o ensinamento do Espírito Santo. Nelas como em uma loja comum e como em um mercado público e geral, para o uso e proveito de todos os homens, põe a piedade e sabedoria divina copiosamente tudo aquilo que é necessário e convém a cada estado; e marcadamente neste das casadas se revê e desce tanto ao particular que chega até, entrando por suas casas, a colocar a agulha em suas mãos, preparar a roca e mover o fuso entre os dedos. Por que na verdade, mesmo que o estado do matrimônio em grau e perfeição seja menor que o dos castos ou virgens, porém, pela necessidade que há dele no mundo para que se conservem os homens, para que saiam deles os que nascem para ser filhos de Deus e para honrar a terra e alegrar o céu com glória, foi sempre muito honrado e privilegiado pelo Espírito Santo nas Letras Sagradas; porque delas sabemos que este estado é o primeiro e mais antigo de todos os estados, e sabemos que é o lar, não inventada depois que nossa natureza se corrompeu pelo pecado e foi condenada à morte, e sim ordenada logo no início, quando os homens eram íntegros e bem-aventuradamente perfeitos no paraíso.
            Elas mesmas nos ensinam que Deus por Si mesmo promoveu o primeiro casamento que existiu, e que lhes juntou as mãos aos primeiros casados, os abençoou e foi justamente, por assim dizer, o casamenteiro e o sacerdote. Ali vemos que a primeira verdade que nelas se escreve é que Deus disse para nos ensinar e a primeira doutrina que saiu de Sua boca foi a aprovação, dizendo:

            "Não é bom que o homem esteja só" (Gênesis, 2).

            E não só nos livros do Antigo Testamento, onde ser estéril era maldição, mas também nos do Novo, nos quais se aconselha e apregoa geralmente como ao som de trombetas, a continência e a virgindade; ao matrimônio são feitos novos favores. Cristo, nosso Senhor, sendo Ele a flor da virgindade e máximo amante da virgindade e limpeza, é convidado para algumas bodas, se encontra presente nelas, come nelas e as santifica, não somente com a majestade de Sua presença, mas também com um de Seus primeiros e marcantes milagres (Joan., II, 11). Ele mesmo, tendo-se enfraquecido a lei conjugal e se afrouxado de certo modo o estreito nó do matrimônio, havendo os homens deixado entrar muitas coisas alheias à limpeza, firmeza e unidade que se lhe deve; assim pois, acontecendo que um homem tomara uma mulher quase que só para receber uma moça de serviço, paga pelo tempo que quisesse, o próprio Cristo, entre as principais partes de Sua doutrina e entre as coisas para cuja solução havia sido enviado por Seu Pai, reparou também este vínculo santo, restituindo-lhe assim o primeiro grau (Math., XIX, 3-9).
            E, sobretudo, fez do casamento que tratam os homens entre si, significado e sacramento santíssimo do laço de amor com que Ele se une às almas e quis que a lei matrimonial do homem com a mulher fosse como retrato e imagem viva da unidade dulcíssima e tão estreita que há entre Ele e Sua Igreja (Efés. V, 24); e assim enobreceu o matrimônio com riquíssimos dons de Sua graça e de outros bens do céu. Do mesmo modo que o estado dos casados é estado nobre e santo, muito apreciado por Deus; eles são avisados muito em particular e detalhadamente o que lhes convém, nas Sagradas Letras pelo Espírito Santo; o qual, por Sua infinita bondade, não deixa de colocar os olhos em nossas baixezas, nem tem por vil ou pequena nenhuma das coisas que nos fazem bem.
            Pois, entre os muitos lugares dos divinos Livros que tratam disso, o lugar mais próprio e onde está recapitulado tudo ou a maior parte que se refere a isto em particular, é o último capítulo dos Provérbios, onde Deus, pela boca de Salomão, rei e Seu profeta, e como a pessoa de uma mulher, mãe do mesmo Salomão, cujas palavras ele põe e refere com grande beleza de razões pintando uma virtuosa mulher casada, com todas as suas cores e partes; para que, as que pretendem sê-lo, e devem pretendê-lo todas as que se casam, se espelhem nela, como em um espelho claríssimo, e saibam, olhando-se ali, tudo que lhes convém para fazer o que devem.
            Assim, conforme costumam fazer os que entendem de pintura e mostram algumas imagens de excelente qualidade aos que não entendem tanto de arte, mostrando o que está longe e o que está pintado como próximo, realçam as luzes e as sombras, a força da perspectiva, e com a destreza das palavras fazem com que o que na tela parecia estar morto, viva e quase se mova frente aos olhos dos que a contemplam; nem mais nem menos, meu ofício, nisto que escrevo, será apresentar a vossa mercê esta imagem que já disse, lavrada por Deus, colocá-la diante de sua vista, lhe assinalar com as palavras, como com o dedo, suas belíssimas figuras com todas suas perfeições; fazer com que veja claramente o que com grande artifício o saber e a mão de Deus colocou nela encoberto.
            Porém, antes disso, que é declarar as leis e condições que tem sobre si a casada, será bom que vossa mercê entenda a estreita obrigação que tem em empregar no cumprimento delas, aplicando-se em todas elas com ardente desejo. Porque como em qualquer outro negócio ou ofício que se pretende, para se sair bem, são necessárias duas coisas: uma, saber o que é e as condições que tem e aquilo em que principalmente consiste; e a outra, ter verdadeira afeição; assim, nisso que vamos tratando, primeiro falemos do entendimento e descubramos o que este ofício é com todas suas qualidades e partes; convém que inclinemos a vontade para saber amá-las e, depois de sabidas, se deseje aplicá-las. Em qual não penso gastar muitas palavras nisso, nem com vossa mercê, já que é naturalmente inclinada ao bem, porque ao que teme a Deus, para que deseje e procure satisfazer seu estado, basta-lhe saber que Deus o manda, e que o próprio e particular que pede a cada um é que responda as obrigações de seu ofício, cumprindo com a sorte que lhe coube e que se nisto falta, mesmo que em outros pontos avance e cumpra, O ofende, porque como na guerra o soldado que abandona seu posto não cumpre com seu capitão, mesmo que em outras coisas lhe sirva, como na comédia vaiam os espectadores o mau ator, mesmo que na vida real seja bom, assim os homens que se descuidam de seus ofícios, mesmo que tenham outras virtudes, não agradam a Deus.
            Teria vossa mercê um cozinheiro e pagaria o seu salário, se ele não soubesse usar uma panela, mas tocasse bem discante? (espécie de instrumento de corda pequeno). Assim também Deus não quer em Sua casa aquele que não exerce o ofício em que Ele o coloca. Cristo diz no Evangelho que “cada um pegue a sua cruz” (Luc., XIV, 27); não diz que pegue a alheia, mas manda que cada um carregue a sua própria. Não quer que a religiosa se esqueça do que é ser religiosa e carregue os cuidados da mulher casada; nem que a mulher casada se esqueça do ofício de sua casa e se torne freira.
            O homem casado agrada a Deus sendo um bom homem casado e sendo um bom religioso o frei, o comerciante fazendo devidamente seu trabalho, e mesmo o soldado serve a Deus mostrando em tempos devidos, seu esforço e contentando-se com seu soldo, como diz São João (Luc., III, 14). E a cruz que cada um há de levar e por onde há de chegar para se juntar a Cristo, propriamente é a obrigação e a carga que cada um tem em razão do estado em que vive; e quem cumpre com ele, cumpre com Deus e com sua tentativa, fica honrado e ilustre, e pelo trabalho da cruz, alcança o descanso que merece. Mas pelo contrário, quem não cumpre com isso, mesmo que trabalhe muito cumprindo os ofícios que toma por sua vontade, perde o trabalho e as graças.
            Mas a cegueira dos homens é tão miserável e tão grande, que, não havendo dúvida desta verdade, como se fosse ao contrário, e como se nos fosse vedado satisfazer nossos ofícios e ser aqueles que professamos ser; assim temos inimizade com eles e fugimos deles, e colocamos todos os esforços de nossa indústria e cuidado ao fazer o alheio. Porque verá vossa mercê algumas pessoas religiosas de profissão que, como se fossem casadas, governam a casa de seus parentes ou de outras pessoas que por sua vontade tomaram a seu cargo e que se recebe ou se despede o criado, há de ser por suas mãos; e pelo contrário, entre as casadas há outras que, como se suas casas fossem das vizinhas, não cuidam delas e dedicam a vida ao oratório e ao devocionário, e a esquentar o chão da igreja de manhã e de tarde, e se perde, entretanto a moça e cobra mal as reivindicações à filha, e a fazenda se afunda, tornando-se um demônio o marido.
            E se o seguir o que não custasse menos trabalho do que cumprir com aquilo que devem ser, teriam alguma desculpa, ou se, havendo se esforçado muito naquilo que escolheram por vontade própria, o fizessem perfeitamente, seria um consolo de alguma maneira; porém é ao contrário, que nem o religioso, mesmo que trabalhe muito governará como se deve a vida do homem casado, nem jamais o casado chegará àquilo que é ser religioso; porque assim como a vida do monastério e as leis e observâncias e todo o tratamento e assento da vida monástica favorecem a vida do religioso, para cujo fim tudo isso se ordena, assim ao que, sendo frade, se esquece do frade e se ocupa do que é ser casado, isso se toma um estorvo e embaraço muito grave. E como suas tentativas e pensamentos e seu alvo, não são o monastério, assim tropeça e ofende em tudo o que é monastério, na portaria, no claustro, no coro e silêncio, na aspereza e humildade da vida; pelo que lhe convém ou desistir de sua louca persistência ou romper por meio de uma porção de duras dificuldades e subir, como dizem, a água por uma torre. Da mesma maneira, o estilo de viver da mulher casada, como a convida e alenta a se ocupar de sua casa, assim por mil partes a retrai do que é ser freira ou religiosa; e assim uns e outros, por não querer fazer o que propriamente lhes toca e por querer fazer aquilo que não lhes convém, faltam ao que devem e não alcançam o que pretendem, e trabalham incomparavelmente mais do que o fariam trabalhando perfeitamente cada um em seu ofício, ficando seu trabalho sem fruto e sem luz. E como na natureza os monstros que nascem com partes e membros de animais diferentes não se conservam nem vivem, assim esta monstruosidade de diferentes estados em um composto, um na profissão, e outro nas obras, os que a seguem não têm sucesso em suas tentativas; e como a natureza tem aversão aos monstros, assim Deus foge deles e os abomina. E por isso dizia a Lei antiga, que nem no campo se pusessem sementes diferentes, nem na tela fosse a trama de um e estame do outro (Lev., XIX, 19), ou menos se oferecesse em sacrifício o animal que habitasse a água e a terra (Deut., XIV, 19).
            Pois assente vossa mercê em seu coração, com íntegra firmeza, que ser amiga de Deus é ser uma boa (mulher) casada e que o bem de sua alma está em ser perfeita em seu estado e que o trabalhar nele e o desvelar é oferecer a Deus um sacrifício aceitíssimo de si mesma. E não digo eu, nem me passa pelo pensamento, que o casado, ou alguém, devem carecer de oração, e sim falo da diferença que deve haver entre a boa religiosa e a mulher casada; porque naquela o orar é todo seu ofício; nesta há de ser meio para que melhor cumpra seu ofício. Aquela não quis marido, negou o mundo e despediu-se de todos, para conversar sempre e desembaraçadamente com Cristo; esta há de tratar com Cristo para alcançar dEle graça e favor para que acerte criar o filho,  governar bem a casa e servir como se deve ao marido. Aquela há de viver para orar continuamente; esta há de orar para viver como deve. Aquela agrada a Deus entregando-se a Ele; esta Lhe há de servir trabalhando no governo de sua casa por Ele.
            Mas considere vossa mercê como reluz aqui a grandeza da divina bondade, que se tem por servido de nós com aquilo mesmo que é para nosso proveito. Porque em verdade, quando não houvesse outra coisa que inclinasse a mulher casada a cumprir com seu dever, a paz e o sossego e o grande bem que desta vida tiram e o interesse de ser boa, somente isso já bastava; porque é sabido que, quando a mulher assiste a seu ofício, o marido a ama, e a família está em harmonia, os filhos aprendem a virtude, a paz reina e a fazenda cresce. E como a lua cheia, nas noites serenas, se regozija rodeada e como que acompanhada de claríssimas luzes, as quais todas parece que avivam suas luzes nela e admiram-na e reverenciam-na; assim a boa mulher casada em sua casa reina e resplandece, e converte para si os olhos e os corações de todos.
            O descanso e a segurança acompanham-na aonde quer que vá seus passos, e para qualquer coisa que olhe encontra a alegria e a satisfação porque, se colocar os olhos no marido, descansa em seu amor; se os voltar para os filhos, regozija-se com suas virtudes; encontra nos criados bom e fiel serviço, e na fazenda proveito e crescimento, tudo lhe é alegre e prazeroso, como ao contrário, a que é má caseira (dona de casa) tudo se converte em amarguras, como se pode ver com infinitos exemplos. Porém não quero me deter em coisa, por nossos pecados, tão clara, nem quero tirar vossa mercê de seu próprio lugar.
            Volva os olhos por seus vizinhos e conhecidos e revire em sua memória o que ouviu em outras casas. De quantas mulheres sabe que, por não levar em conta seu estado e levá-lo pelos seus desejos próprios, estão com os maridos em perpétua luta e desgraça? Quantas já se viram lastimadas e enfeadas com os desconcertos de seus filhos e filhas, a quem não quiseram levar em conta? Quantas padecem em extrema pobreza porque não atenderam a guarda de suas fazendas ou, melhor dizendo, porque foram a perdição e a ruína delas. Assim, pois, não há coisa mais rica nem mais feliz que a boa mulher, nem pior nem mais desastrada que a mulher casada que não o é. Uma e outra coisa nos ensina a Sagrada Escritura, da boa, diz assim: "O marido da mulher boa é ditoso e viverá o dobro de dias, e a mulher de valor põe em seu marido descanso e cessará os anos de sua vida com paz. A mulher boa representa boa sorte, e como prêmio dos que temem a Deus, dar-lhe-á Deus ao homem pelas suas boas obras” (Ecli., 26). O bem da mulher diligente deleitará seu marido e encherá de gordura seus ossos. Grande dom de Deus é o seu bom trato bem sobre bem e beleza sobre beleza é uma mulher que é santa e honesta. Como o sol que nasce parece nas alturas do céu, assim o rosto da boa mulher adorna e embeleza sua casa.
            E da má diz o contrário: "A ciumenta é dor no coração e pranto contínuo” (Ibid., 8), “e tratar com a má é tratar com escorpiões” (Ibid., 10). “A mulher que promove a discórdia é como uma casa com goteiras” (Provérbios XIX, 13) “e o que perturba a vida é se casar com uma mulher repugnante” (Ibid., XXX, 23). “A tristeza do coração é a maior ferida, e a maldade da mulher representa todas as maldades. Toda chaga, e não chaga do coração; todo mal e não mal de mulher” (Eccli., XXV, 17,18,19). “Não há cabeça pior que a cabeça da víbora, nem ira que iguale à da mulher enraivada. Viver com leões e com dragões é mais fácil que conviver com uma mulher malvada” (Ibid., 22,23). “Todo mal é pequeno em comparação com a mulher má; que aos pecadores caiba tal sorte. Tal como a subida arenosa para os pés anciãos, assim é para o modesto a mulher tagarela” (Ibid., 26,27). Tristeza de coração e chaga mortal é a mulher má. A mulher que não dá felicidade ao marido é como o corte das pernas e decaimento das mãos. A mulher deu início ao pecado, e por sua causa morremos todos (Ibid., 31, 32,33), e da mesma forma muitas outras razões.
            E acontece nisto uma coisa maravilhosa, que, sendo de sua colheita as mulheres pessoas de grande dignidade e desejosas de ser apreciadas e honradas, como o são todos os de ânimo fraco, e gostando de vencer em si umas as outras, mesmo em coisas pequenas e ninharias, não prezam, antes se descuidam e se esquecem, do que é sua própria virtude e louvor. Uma mulher gosta de parecer mais formosa que a outra, e se sua vizinha tem uma saia melhor ou se por ventura tem um melhor penteado, coloca-se sem paciência; e em ser dona de casa a põe em vantagem, não se aflige nem se dói, antes faz questão da honra sobre qualquer miudeza e só a isto estima.
            Tanto é assim que ser vencida naquilo não a magoa, e não vencer nisto a destrói, uma vez que aquilo não é culpa, e isto destrói todo o seu bem e de sua casa; sendo assim, o louvor que por aquilo se alcança é ligeiro e vão louvor, e louvor que antes de nascer já perece, e tal, que se falamos com verdade, nem merece ser chamado de louvor; pelo contrário, o elogio que tem verdadeiras raízes e que floresce pela boca dos bons juízos, que não se acaba com a idade, nem se gasta com o tempo, antes cresce com os anos e a velhice o renova, e o tempo o reforça, a eternidade se espelha nele, tornando-o sempre mais viva e mais fresca por mil viradas de séculos. Porque a boa mulher é reverenciada pela sua família, amada por seus filhos e adorada pelo marido; os vizinhos a bendizem, e os presentes e os vindouros a elogiam e exaltam.
            Na verdade, se há debaixo da lua uma coisa que mereça ser estimada e prezada, é a boa mulher e, em comparação com ela o próprio sol não brilha e são escuras as estrelas; eu não conheço jóia de valor nem de louvor que assim levante e embeleze com claridade e esplendor aos homens, como é aquele tesouro de imortais bens de honestidade, de doçura, de fé, de verdade, de amor, de piedade e entrega, de regozijo e de paz, que encerra e contém em si uma boa mulher quando lhe é dada como companheira para sua boa sorte.
            Se Eurípides (Em Hécuba), escritor sábio, parece que em geral fala mal de todas, diz que se alguém do passado falou mal delas (boas mulheres), e dos presentes o diz, ou se o disserem os que vierem depois, tudo o que disseram, dizem e dirão, ele só quer dizer e diz; assim pois, se isso diz, não o diz em sua pessoa, e quem o diz tem a justa desculpa de haver sido Medeia* o motivo para que o dissesse, mas, já que chegamos aqui, é razoável que calem minhas palavras, e comecem a soar as do Espírito Santo, o qual, na doutrina das boas mulheres que traz no livro dos Provérbios (Provérbios XXXI) e eu ofereço agora aqui à vossa mercê, começa com os mesmos louvores que acabei de dizer e diz em poucas razões o que nenhuma língua poderia dizer em muitas; e diz desta maneira:

Mulher de valor quem a encontrará? Raro e extremado é seu preço
(Prov., 31-10)

[N.T. Na mitologia grega, Medeia (em grego Μήδεια) era filha do rei Eetes, da Cólquida (atualmente, a Geórgia), sobrinha de Circe -- aparecendo, ainda, como filha de Circe e Hermes ou como irmã de Circe e filha de Hécata -- e que foi, por algum tempo, esposa de Jasão. É uma das personagens mais terrivelmente fascinantes desta mitologia, ao envolver sentimentos contraditórios e profundamente cruéis, que inspiraram muitos artistas ao longo da história]

P.S: Continuará...