sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Primeira Dor: A Profecia de Simeão

Nota do blogue: Segue o 2.º Capítulo do livro Ao pé da Cruz ou As Dores de Maria escrito pelo piedoso Padre Frederick William Faber, acompanhe o ESPECIAL AQUI. O texto é bem longo, mas riquíssimo em conteúdo, aconselho que a leitura seja feita em espírito de meditação, reservando um tempo só para ela, com certeza sua alma ganhará muito com essa "doação de tempo". Os próximos capítulos por serem longos serão publicados em intervalos mais longos, mas serão publicados. Proponho-me todas as sextas-feiras colocar algum texto que aborde as Dores de Nossa Senhora ou da Paixão de Nosso Senhor, leituras importantíssimas principalmente nos tempos em que vivemos.

Que Nossa Senhora das Dores nos ensine a suportar com alegria, amor e resignação os sofrimentos neste Vale de Lágrimas.

Saudações,
A grande guerra.

PS.: Agradeço a generosidade de uma alma devota à Nossa Senhora das Dores o envio das traduções, Ela não se esquecerá disso.

***

Capítulo II 
A Primeira Dor: 
A Profecia de Simeão



Parece que em nenhuma parte do Antigo Testamento, nos encontramos tão perto de Deus quanto no livro de Jó. Em nenhuma parte duma forma mais terrível e envolvida de mistérios; em nenhuma parte Ele é mais temível em Seus desígnios sobre os filhos dos homens; e, no entanto, em nenhuma parte Ele é tão clara e ternamente nosso Pai. E porque o livro descreve o mistério do sofrimento é que é tão humano que parece nos conduzir longe das coisas divinas. É porque o sofrimento é a provação extrema da criatura, que pode então repousar mais completamente nos braços do Criador. As calamidades de Jó são, no Antigo Testamento, o que a Paixão de Nosso Senhor é no Novo, e aquelas hão sido a prefiguração desta. Para falarmos das dores da Santa Virgem, invocaremos a tocante pintura dos amigos de Jó, quando descobrem suas aflições e o vêm visitar. “Mas, erguendo seus olhos, não o reconheceram, e, dando um grande brado, eles choraram; rasgaram as próprias vestes e lançaram pó sobre a cabeça; e sentaram-se na terra, junto dele, por sete dias e sete noites; e nenhum deles lhe dizia palavra alguma, pois viam que a sua dor era extrema”. Eles sabiam que o silêncio é a melhor consolação. Não havia nada que pudesse tocar tanto o coração do afligido quanto ver seus amigos condoendo-se do excesso de sua desgraça. Quando eles, enfim, falaram, irritaram-lhe, e o encanto da doce e silenciosa presença deles desapareceu. A simpatia degenera então em discussão, uma discussão inútil e que só podia acabar em briga. Discutem entre si ainda mais do que com o próprio Jó. Todavia, o silêncio anterior dos amigos de Jesus era ainda menos maravilhoso que o silêncio de Jesus sobre a Cruz; pois o profundo sofrimento interior de Jesus era um martírio interior e singular, motivado pelas dores de Sua Mãe; e Ele não Lhe diz nenhuma palavra, a não ser aquela pela qual a confia a São João. Além dessa palavra de celestial sabedoria, além dessa expressão de ternura filial, nada que testemunhasse que Jesus via e sentia os sofrimentos de Sua Mãe, nenhuma benção plena de graça e amor que viesse tocar o ouvido de Maria enquanto o Salvador estava suspenso na Cruz. Em verdade, isso não Lhe era necessário; Ela via o Coração de Jesus; Ela compreendia Seu Filho; Ela já estava nesse tempo maravilhosamente acostumada às vias de Deus. O silêncio de Jesus era a manifestação de Seu respeito para com as dores de Sua Mãe, assim como o silêncio de Maria era a magnificência dos sofrimentos que Ela suportava. O silêncio era, com efeito, uma coisa maravilhosa em Jesus e Maria. Esse foi quase o único convívio que eles tiveram durante trinta e três anos. [Ce fut presque le seul entretien qu’ils eurent ensemble pendant trente-trois ans.] O silêncio de Jesus era o silêncio dum Coração cheio; e devemos pedir-Lhe uma parte dessa plenitude ao meditarmos sobre as dores de Maria. Não sabemos meditar convenientemente, a menos que Ele se digne nos ajudar a considerar a verdade. Tudo o que precisamos é de uma faísca do fogo que ardia em Jesus nessas horas silenciosas; uma faísca seria suficiente para incendiar nossos corações e nos consumir do mais vivo amor pelo resto de nossos dias mortais. Ele, que deve ser nosso modelo em tudo, o deve ser também na simpatia para com Sua Mãe. Como em todo o resto da santidade, é Jesus mesmo que nos ensina a devoção à Santa Virgem, através de Suas palavras e exemplos.

Quarenta dias haviam se passado desde a noite em que os anjos fizeram ouvir seus cânticos. Durante esse tempo Maria e José haviam entrado profundamente nos mistérios divinos; os pastores haviam adorado o Menino recém-nascido; três reis haviam depositado suas misteriosas oferendas aos Seus pés e a estrela-nova já havia se apagado no esplendor noturno do céu. O mundo seguia seu caminho como de costume. Cada manhã, novas políticas em Roma; cada manhã, mais discussões filosóficas nas escolas de Atenas. Caravanas saíam e entravam pelas portas da branca cidade de Damasco, e o sol brilhava sobre as sinuosidades de Antioquia. Os oficiais do Império preparam seus registros e listas dos recenseados em Belém, e José e Maria não aparecem mais do que como duas unidades na conta dos súditos provinciais. Seguindo o curso ordinário das coisas e conformando-se à Lei, em primeiro de janeiro, Jesus, pela primeira vez, derrama Seu Sangue. Quantas coisas já haviam se passado desde o vinte e cinco de dezembro! Desde aquele dia o Criador estava visível entre Sua própria criação, quase sob a terra na verdade, numa espécie de gruta ou estábulo natural. O segundo dia de fevereiro chega. José e Maria, com o Menino, deixam o lugar onde esses quarenta dias hão passado tão rapidamente como uma visão celeste; retornam pelos arredores da estreita colina sobre a qual a cidade estava assentada. As vinhas cortados que cobrem os lados escarpados já começaram a derramar suas lágrimas primaveris pela ferida a elas feita pelo viticultor. Mas campos de trigo onde Rute trabalhou estão verdes, e o sol brilhante duma primavera precoce ilumina as rochas cinza que cercam o túmulo de Raquel. Já se percebem os tetos da Cidade Santa, com o glorioso Templo, que brilha mais que tudo ao seu redor. É para esse Templo, Seu próprio Templo, que se dirige o Menino Deus, tornado visível aos homens.

Maria tinha passado doze anos de Sua inocente vida nas dependências do Templo. [Marie avait passé douze années de son innocente vie dans les dépendances du temple.] Lá Ela havia formalmente consagrado a Deus a Sua virgindade, já Lhe votada por Ela, na verdade, desde o primeiro momento de Sua Imaculada Conceição. Lá Ela havia meditado sobre as santas Escrituras, e compreendido os segredos do Messias. Agora Ela voltava ao Templo virgem ainda, e, todavia – ó mistério da graça! – com Seu Filho nos braços. Vinha para ser purificada, Ela que era mais pura que a neve do Líbano, jamais tocada pelo pé dalgum vivente. Vinha oferecer Seu Menino a Deus, e fazer ao Criador um dom de que criatura alguma seria capaz, um dom perfeitamente igual a Ele mesmo. Quando o segundo Templo fôra construído, os anciãos do povo elevaram a voz e choraram, porque seu esplendor não pôde ser igual ao do primeiro; mas o primeiro Templo, todavia, jamais viu um dia como aquele que então começava. A glória do Santo dos Santos não fôra mais do que um símbolo da glória real que Maria traz agora ao Templo em Seus braços. Ela trazia duas oferendas consigo; uma portava-a Ela, e a outra a trazia José. Maria portava Seu Filho, e José trazia um par de rolas ou pombinhas para a purificação. Muitos os viram passar. Mas não havia nada de singular neles, nada que pudesse atrair a atenção daqueles que os viam. Onde Deus se encontra é sempre assim. Mesmo visível Ele permanece, em verdade, mais invisível do que nunca, exceto para a fé e o amor.

Outras pessoas se aproximam do Templo para os sacrifícios da manhã; entre elas se encontra o velho Simeão, do qual as cãs coroavam a venerável testa. Havia sobrevivido aos seus próprios dias, assim como aos homens, às coisas, às simpatias, às excitações de seu tempo. Não tinha nada em comum com o espírito de sua época; era superior à vã política de seu tempo; não tinha parte alguma nas lutas e disputas entre fariseus e saduceus. O mundo lhe parecia a cada dia mais perverso e mais insuportável, um lugar cada vez menos hospitaleiro para ele, cada vez menos tolerável para sua alma fatigada. Mas havia uma coisa que ele desejava ver desde muito tempo. O desejo do Céu foi diferente para ele, consistindo na expectativa de poder vê-lo um dia já sobre a terra, chegando a ver o Cristo. Deus lhe havia prometido que seria assim: “Ele recebera do Espírito Santo a promessa de que não morreria antes de contemplar o Cristo do Senhor”. Ele vinha nesse dia, pois, ao sacrifício da manhã. Vinha, talvez, com uma previsão clara do que sucederia, com pressentimentos espirituais, ou com um fogo extraordinário no coração? Quem o poderá dizer? Havia ainda, nessa manhã, no Templo, uma outra personagem. Uma viúva de oitenta e quatro anos, filha de Fanuel, da tribo de Asser. Ela havia deixado antigamente as oliveiras da planície de Acre e as bordas do mar ocidental. O espírito de profecia morava nela. Ela não tinha necessidade de vir ao Templo, pois não o deixava jamais, “servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações”. Maria e José acabavam de entrar com o Menino. Quantos preparativos Deus se dignara fazer para esta solenidade no Templo, em dois de fevereiro! Quantas graças concedidas ao velho Simeão para o santificar! Quantos longos anos de austeridades Ana teve de vencer, e a que altura suas preces tiveram de se elevar! Na alma de José, Deus trabalhou mais do que na criação do mundo. E Maria é simplesmente o troféu de elite da magnificência divina. Volumes de comentários já foram escritos sobre Seus dons, Suas graças e Sua beleza interior e, no entanto, quão pouco o sabemos nós! Depois, eis aí o Verbo Encarnado, que os anjos silenciosos do Templo adoram com reverência e tremendo, quando Ele transpõe o limiar de Sua casa terrena. Poderíamos imaginar o olhar do Menino ao tomar posse de Seu Templo? As luzes brilhavam no Santo dos Santos, ao passo que o Santo por excelência estava coberto por um véu, majestosamente, como por sobre um trono, nos braços de uma Mãe mortal.

Maria fez Suas oferendas “e cumpriu tudo o que estava ordenado na Lei do Senhor”. Pois o espírito de Jesus é um espírito de obediência; e, embora o próprio clarão da inocência angélica parecesse sombra diante da brancura da pureza de Maria, Ela obedece à Lei de Deus na cerimônia da purificação, e com tanta mais solicitude quanto essa cerimônia servia para ocultar as graças que Ela havia recebido. Mas Ela traz em Seus braços também a verdadeira tortura, a fim de agir para com Jesus “segundo o costume da Lei”. Ela entrega Jesus nos braços do velho Simeão, como Ela o fará depois, em visão, a tantos santos, e uma luz extraordinária brilha na alma de Simeão. Afável pela idade, ele segura seu Deus em seus braços; carrega todo o peso de Seu Criador, que, no entanto, nunca pesou menos. A vista da face deste Menino é nada menos que a glória do Céu. O Espírito Santo tinha cumprido Sua promessa. Simeão via e tinha mesmo em seus braços o “Cristo do Senhor”. Ó bem-aventurado ancião! Afável, esgotado pela idade, fatigado por teus longos anos, durante os quais esperastes a “consolação de Israel”, prolongou-se a tua vida como, após ti, se prolongaria a de São João Evangelista; seguramente, Aquele que te criou, Aquele que um dia te julgará, Aquele que seguras tão ternamente nos braços, deve Ele mesmo ter envolvido com Sua força onipotente o teu coração; doutra forma não suportarias o dilúvio de alegria que nesse momento inunda o teu espírito. Observa-o um pouco mais ainda. Olha esses lábios vermelhos, que daqui há pouco tempo pronunciarão a tua sentença de vida eterna. Aquece o teu coração ao fogo destes pequeninos olhos. É o Cristo! Quantas profecias se cumprem nesse momento! É então que a história do mundo encontra seu ápice. A coroa é colocada sobre a criação. Quantos patriarcas, reis e profetas hão desejado ver, mais que tudo, a beleza da face deste Menino. E tu hás visto o Cristo. Tudo se resume nessa palavra. Essa visão é o Céu. A terra não tem mais nada contigo. Ela fará bem em se abrir sob os teus pés, e te deixar cair no seio do Deus infinito e de Seu Filho único, do qual a beleza pode enfim te fazer morrer da mais doce e mais bela das mortes.

É penoso para Simeão se separar do doce fardo que segura. Em sua extrema velhice, os sopros da inspiração enchem sua alma e, em meio ao silêncio do Templo, ele canta o seu Nunc Dimittis, como Zacarias cantara o seu Benedictus e Maria o Seu Magnificat. Todos os séculos repetirão esse cântico, que resume toda a poesia cristã da alma fatigada da vida. Será uma voz para o desejo do Céu e para a santidade de inumeráveis eleitos. Para o coração de milhares de almas [sacerdotais e religiosas] ele será a luz da noite após as horas laboriosas do dia. As últimas Completas que a Igreja deverá cantar na noite que verá o julgamento começar e aparecer o Senhor no lado dos raios do Oriente, serão cheias da suavidade melodiosa do terno cântico de Simeão. [Les dernières complies que l’Église doit chanter avant la nuit qui verra le jugement commencer et apparaître le Seigneur du côté des feux de l’Orient, seront remplies de la suavité mélodieuse du tendre cantique de Siméon.] José mesmo é então tomado de um êxtase de santa admiração. Maria se maravilha das palavras tão profundas, tão belas, tão verdadeiras de Simeão; pois Ela sabia, melhor que ninguém, que Seu Filho era realmente a luz do mundo. E quando Ela se ajoelha, em Sua humildade, para receber a benção do velho sacerdote, terá este o Menino ainda em seus braços, e com Ele fará sobre Ela o sinal da benção, ou Maria já terá retomado o Menino, o qual, nesse caso, se abaixaria também com Ela diante de uma criatura para receber a benção? Como quer que tenha sido, que maravilhoso mistério! Mas que estranha benção para Ti, veneranda Mãe imaculada! Pois eis aí uma poesia de Simeão bem diferente das torrentes de luz que ele derramara até então! Eis outros sons para o ouvido de Maria, os sons terríveis da sombria profecia que o Espírito Santo inspira ao velho sacerdote; e nós preferimos pensar que Simeão ainda estava com Jesus nos braços, em razão da maneira mesma pela qual ele começa: “Este Menino há nascido para a ruína e para a ressurreição de muitos em Israel, e para ser uma causa de contradição. E uma espada transpassará a Tua alma, a fim de que os pensamentos de muitos sejam revelados”.

Simeão volta ao silêncio; mas na alma de Maria uma mudança inexprimível se dá. Pode ser que então Ela tenha compreendido algo que inicialmente Lhe escapara. Mas o mais provável é que esse conhecimento então Lhe viesse apenas duma outra maneira. Todavia, trata-se duma mudança, uma operação da graça, uma nova santificação, uma obra imensa de Deus. Uma visão clara e detalhada de todas as Suas dores, especialmente da Paixão toda inteira, em suas menores circunstâncias, se grava instantaneamente em Sua alma, e Seu Coração imaculado é como que inundado dum mar de aflições sobrenaturais tanto por sua natureza quanto por sua intensidade. Parece que essa visão vem da face mesma de Jesus, cujo olhar penetrante grava na alma de Maria a terrível aparição. Ela vê o próprio Coração de Jesus sem véus, com todas as Suas disposições interiores. Era como se o mistério da Encarnação se operasse ainda nEla, mas duma maneira diferente. [C’était comme si le mystère de l’Incarnation s’opérait encore en elle, mais d’une manière différente.] Ela se eleva a novas alturas de santidade, e entra numa outra vasta região de Seu apanágio (Nota do blogue: apanágio = privilégio, atributo, qualidade inerente), como Mãe de Deus. Era a mesma Maria e, no entanto, diferente dAquela que há pouco havia entrado no Templo. Mas, nenhuma surpresa nessa mudança: nada de desânimo, nada de medo, nada de agitação de espírito. Sua paz inquebrantável torna-se mais calma até, por causa mesmo do mundo de amargura que A penetra. A luz do mundo havia brilhado nos braços de Simeão, no canto de Simeão, e depois vieram as trevas mais profundas, mais espessas, mais palpáveis que aquelas do Egito. Da claridade do sol de Belém, Maria se encontra transportada, num momento, em meio às sombras do eclipse do Calvário, e Ela permanece tão calma quanto inicialmente, com uma dignidade sem espantamento, com a tranqüilidade dum amor inexprimível, com a força da mais divina união, apesar da espada que atravessa o Seu Coração amargurado, e que, após ser suportada por quarenta e oito anos*, A faria morrer de amor, quando Jesus deixasse a ferida se consumar. [*Quarenta e oito anos: quer dizer, os 33 da vida de Nosso Senhor, mais os 15 que se acredita ter a Virgem Santíssima vivido após a Ascensão.] Ela ouvia Ana falar no Templo e reconhecer Jesus como Seu Deus. Ela ouvia as palavras que a velha profetiza dizia sobre Ele àqueles que “esperavam a redenção de Israel”. Maria estava atenta a que as menores coisas ordenadas na Lei fossem fielmente cumpridas; e só então, com José e o Menino, Ela volta sobre seus passos através dos verdes vales da Galiléia e das ruas em ladeiras rápidas da vila solitária de Nazaré; Ela volta com a espada, a espada dilacerante do Espírito Santo em Seu Coração. Desde que Ela saíra no mês de dezembro, quantas coisas se haviam passado! Mas o sol quente brilha sobre Nazaré e doura seus brancos telhados como se nada houvesse se passado. Oh! Como a natureza invariável parece cruel a um coração que o destino acaba de ferir!

Tal é o mistério da primeira dor da Santa Virgem. Passemos agora à consideração de Suas particularidades. O tempo em que essa dor se deu e a ação que ocupava então a Maria, são também notáveis. Ela acaba de fazer a Deus um dom igual a Ele mesmo. Jamais uma oferenda como essa havia sido feita, desde a criação do mundo, e nem poderia mesmo ser feita. Por ela, Maria havia ultrapassado todas as adorações dos Anjos, e sabia bem que, ofertando Jesus a Seu Pai, Ela se separava [por assim dizer] de Seu Filho. Sua recompensa foi imediata: uma inexprimível dor por toda a Sua vida. Tais são os caminhos de Deus. A primeira dor nos revela um dos princípios mais universais e mais sobrenaturais que caracterizam os desígnios de Deus sobre os Santos. As aflições terrestres são as raízes das alegrias celestes. Uma cruz é uma coroa começada. O sofrimento é mais caro aos Santos do que a felicidade, por causa da similitude que ele lhes dá com Cristo. Seus gostos, suas inclinações, são alterados através do sofrimento, porque neste se encontra qualquer coisa de favorável à união com Deus. A dor obscurece as luzes estonteantes do mundo, e nessa obscuridade está a luz pela qual nós podemos melhor discernir Deus espiritualmente. Em outras palavras, a imensidão da dor, bem como a maneira instantânea com a qual esta se seguiu à oblação de Maria, fazem ver a eminente santidade de nossa Mãe querida. Deus proporciona a cruz de Maria às forças que Ela tinha para carregá-la. Todavia, Ela não tinha necessidade de ser preparada por uma série gradual de graças inferiores, nem por série ascendente de cruzes. Todo um mundo de dores podia ser vertido sobre Maria de uma só vez. Ela estava pronta para recebê-las, mais firme do que as colinas que cercam Jerusalém. Oh! Que jamais a coragem humana pôde se parecer tanto com a Onipotência divina!

A contar desse momento, cada ação de Maria iria se tornar para Ela um sofrimento; cada fonte de alegria, uma fonte de amargura. Não haverá em Sua alma nenhum lugar onde a amargura não esteja. Cada um de Seus olhares sobre Jesus, cada movimento do divino Infante, cada palavra que Ele pronuncia, tudo renovava e aumentava a amargura que estava nEla. A passagem do tempo mesmo se Lhe tornava amargura, pois Ela via o Getsêmani e o Calvário como um rio que se aproximava cada vez mais. Por mais naturais ou acidentais que fossem as posturas e as atitudes nas quais Maria via Jesus, Ela sempre encontrava aí alguma semelhança com as coisas que iriam acontecer na Paixão. Era para Ela como um estudo constante da Paixão, um modelo que Ela tinha sempre ante Seus olhos. Quando uma ferramenta da carpintaria apertava a palma da mão de Jesus, Maria entrevia a ferida do cravo. Ao olhar para a branca testa de Seu Filho, parecia-Lhe ver uma coroa de feridas purpúreas, lá onde os espinhos seriam postos mais tarde. As plantas com espinhos dos jardins de Nazaré, Lhe lembravam sempre a coroa de espinhos. Ela não podia desviar os olhos, Ela não podia olhar, nem à direita, nem à esquerda, sem que a aparição desse sol poente, banhado duma púrpura sangrenta, viesse encher toda a extensão de Seu horizonte. Jamais houve uma transformação tão estranha de uma vida. Cada coisa era-Lhe transformada em amargura. [Il n’y eut jamais une transformation si étrange de la vie. Chaque chose y était transformée en amertume.] As alegrias mais vivas tornavam-se as feridas mais doloridas, e essa transformação se operava justamente na hora em que o sol [do Verbo Encarnado] brilhava com sua maior claridade, banhando o Coração da Mãe com Seu calor vivificante. Não suportaríamos por cinco minutos os sofrimentos que Maria suportava então; e os dEla duraram por toda a vida. Ela pertencia à dor, e esta havia como que entranhado a vida de Maria com suas sombras. A vida de Maria estava oculta no Coração de Jesus, no meio de formas obscuras, de sombras assustadoras. Seus olhares penetravam nos horríveis precipícios do pecado, descobrindo os trovões e os raios da cólera divina, o furor dos demônios rebeldes, os excessos da crueldade humana, e uma viva imagem dos instrumentos da Paixão.

Mas a vida ordinária deviam sempre continuar o seu curso; os deveres ordinários tinham sempre de ser cumpridos. Nem trégua, nem dispensa alguma foram concedidas à Maria. É raro que a extrema pobreza seja um abrigo, mesmo contra a mais extrema mágoa. [Il est rare que l’extrême pauvreté soit un abri, même contre le plus extreme chagrin.] E, em Sua vida, as dificuldades da pobreza foram levadas ao seu último grau. Tudo o que Ela pudesse economizar ia diretamente aos pobres. Maria e José se viam obrigados a ganhar a vida. Foi preciso também que Jesus os ajudasse com Seu trabalho, na medida em que avançava em idade. Agora, reflitamos: quando a dor nos chega, pesando sobre nossos ombros com seu fardo; quando um defunto querido se vai desfigurando no silêncio da câmara mortuária, nós procuramos nos manter como de costume, cumprindo nossos deveres, e pelo menos tentando parecer calmos? Oh, pelo contrário! Preferimos ficar em repouso; quereríamos que o globo parasse de girar e que nos fosse concedida uma trégua completa de todos os deveres, até que nos recuperássemos de nossas lágrimas. Entretanto, Deus não nos há tocado mais do que com a ponta do Seu dedo; sobre Maria, porém, Ele pousou as duas mãos inteiras, mais pesadas do que mil mundos. Mesmo assim, Ela não se isenta de nenhum dos Seus deveres; continua a dar às coisas ordinárias o mesmo grau de zelo e de atenção que poderiam reclamar as coisas mais importantes. Parecia ocupada em toda parte, atenta a tudo, com um espírito livre e desimpedido. Tinha de buscar água no poço, arrumar a casa, preparar os alimentos, costurar as roupas. Cada coisa era feita a seu tempo e em seu lugar. Mas a espada estava lá, cravada na parte mais sensível do Coração. A cada passo a espada como que se movia, e então os nervos de Maria se contraiam e todo o Seu ser tremia de agonia. E isso não duraria uma semana apenas, até que o morto fosse enterrado e que o tempo, em seu curso, fizesse cair de suas asas a cura sobre a alma que a dor tinha queimado e ressequido. Oh, não! Aquele que Maria acaba de perder não foi ainda nunca sepultado. Ele está vivo diante dEla, e Ele precisamente é a Sua vida, e por Ele é que, ao mesmo tempo, Ela padece uma morte contínua. Que vida! Trabalhar, ser ativa, recolher-Se, dedicar-Se sob um fardo tão esmagador! Sua ferida era toda interior. Ela estava obrigada a renunciar ao alívio de expandi-la para o exterior. Ela teria parecido haver perdido a razão, e seria tratada como louca, se tivesse permitido à Sua dor que se mostrasse. [Elle aurait paru avoir perdu la raison, et aurait été traitée de folle, si elle eût permis à son chagrin de se montrer.] Seus pensamentos mesmo tinham o amargume do absinto; e, todavia, Ela não podia falar nada. Quem a teria compreendido se Ela pudesse falar? Nem chorar Ela podia, a não ser em segredo e no meio da noite; pois por que poderia Ela chorar sem causa aparente? Tinha de cuidar da cozinha e do vestuário; tinha José como esposo e Jesus como filho, para cuidar. O verão chegava, enchendo a pobre vila de verdura e abundância. Situada longe das grandes rotas, Nazaré ficava envolvida de paz e tranqüilidade. O que poderia justificar que Maria se entristecesse? A terra não poderia compreender uma ferida como a de Maria, uma ferida assim tão grande, uma ferida de tal natureza.

O tempo não podia trazer alívio algum à Maria; a visão estava sempre presente aos Seus olhos com uma terrível fidelidade. Era sempre a mesma visão. Não havia nessa dor nem mesmo a triste consolação que resulta da variedade. Essa alma excepcional podia evocar a cada instante todas as impressões que por Ela um dia haviam passado, e sem as distrações que comporta a imperfeição dum espírito criado. Assim, para Maria o passado era presente, o futuro era um segundo presente, e o presente mesmo era um terceiro presente. [Ainsi pour Marie le passé était le présent, l’avenir était un second présent, et le présent était un troisième present.] A grandeza de Sua ciência se convertia em um poder incalculável de sofrer. A clareza de Suas percepções era como uma lâmina afiada em Sua carne e em Sua alma. Havia algo de especialmente terrível na imutabilidade e, em certo sentido, na infinitude da visão. Pois o hábito não a tornava mais familiar; pelo contrário, a visão tornava-se mais viva, seu corte tornava-se mais afiado e mais penetrante; havia uma perpétua novidade nessa uniformidade de imagens. Os abismos se abriam sem cessar ao olho clarividente [clairvoyant] de Sua alma, como os clarões que se formam numa grossa nuvem de tempestade; e cada um desses abismos estendia ainda mais os limites de Sua capacidade de sofrer. Como pensar que Maria pudesse encontrar algum alívio? A imaginação poderia sugerir algum? Um ao menos? A beleza de Jesus, já o sabemos, era ela mesma que cravava sem cessar a espada de Simeão na alma da Santa Virgem. Era como um martelo que se elevava e que tombava quase a cada pulsação das artérias do santo Infante. [C’était un marteau qui s’élevait et qui retombait presque à chaque pulsation des artères du Saint Enfant.] A luz do mundo estava continuamente ali, na mesma casa, mas, coisa estranha, era ela mesma que projetava sobre Maria as mais terríveis sombras, ela que é a própria claridade; e mais Maria se alegrava, mais Seus sofrimentos se tornavam intoleráveis. Assim se passaram Seus dias em Nazaré e em meio aos esplêndidos bazares de Heliópolis [quando no Egito].

Pensar em Suas dores já era uma ocupação suficiente para Maria. Ter de cumprir Suas ações ordinárias e Seus deveres domésticos era uma cruel distração. Não sabemos por experiência que, em tais circunstâncias, quase todas as distrações são cruéis, ainda quando a intenção daqueles que no-las procuram é boa? Gostaríamos mais de chorar do que de ser distraídos. Seriamos mais bem consolados se aqueles que nos amam procurassem somente nos fazer meditar sobre nossa aflição durante algum tempo. Mas Maria tinha de se ocupar de outras dores que não as Suas, de dores que não somente causavam as Suas, como também as assoberbavam e as tornavam inomináveis: as dores de Jesus. Estas, porém, não eram aliviadas por aquelas. Pelo contrário, eram agravadas. Cada dor num dEles se tornava como um duplo aguilhão, se dobrava por assim dizer, e se repercutia como um eco nos dois Corações, fazendo-os sofrer ao mesmo tempo. O reflexo do sofrimento de Maria no Coração de Jesus ainda superava muito o que Ela sofria propriamente no Seu. E toda essa misteriosa operação permaneceu secreta e escondida durante longos anos. Maria não buscava consolação, nem se queixava jamais. Ela permanecia tão tranqüila quanto o Céu, quando os cânticos dos Anjos deixam de se fazer ouvir.

Que vida esta, que começa já por um esmagamento do Coração! Tal devia ser a vida da Mãe de Deus, e a causa residia na estreita união com Jesus. Um Coração amargurado por toda a vida! E que vida! O que se compreende nessa palavra? Que extensão de experiências variadas, que multidão de pensamentos, que turba de ações complicadas, que esmagadora continuidade, que círculo fatigante de quatro estações, que rápida lentidão do tempo, cada coisa tão comprida para vir, e vindo a seu tempo! E para Maria, a vida tinha uma força interior, uma largura, uma profundeza, uma energia tão incomparáveis! O Coração amargurado por toda a vida...! E que é um coração amargurado? Aquela não era uma amargura comum, mas nós podemos dizer o que é um coração sofredor ou machucado. Nosso coração mesmo talvez já tenha sido esmagado alguma vez, embora continuássemos a viver. Isso não foi, porém, mais do que um sofrimento momentâneo: a roda da vida o faz esquecer, e tudo está acabado. Entretanto, sobreviver àquela dor nos parecia um verdadeiro milagre. Mas, e o que será um coração amargurado? E uma vida com um coração amargurado durante toda a sua duração, quase desde o início? Ó Maria! Vós sois a Mãe de Deus, e, por isso mesmo, é que Vós o sabeis.

Mas, se consideramos atentamente a primeira dor, veremos que ela continha em si cinco dores distintas, cinco feridas singulares. Em conseqüência da oferenda que Maria havia feito a Deus, Ela havia ofertado Jesus à morte, de livre e espontânea vontade. Estranho efeito da grandeza do amor duma Mãe! Todavia, era por amor que Ela havia feito essa oferenda; por amor a Deus, pelo amor mais santo, mais puro, mais desinteressado. Pois Aquele que era Seu Filho, era também o Seu Deus; e Aquele que era Deus, era também a Vítima. Mas, podia Ela prever tudo o que essa oferenda significava? Sim, seguramente, Ela tinha previsto tudo. Nada Lhe escapara. Nenhum ato poderia ser mais inteligente ou maduro do que aquela oferenda de Maria. E quando os longos anos duma dor acabrunhante vierem colocar o seu peso sobre o Seu Coração amargurado, só o pensamento de renunciar a Seu sacrifício poderá parecer a Maria pior do que o Calvário; pois isso seria uma infidelidade para com Aquele que Ela amava ternissimamente. Mas Ela havia dado o Seu Filho; havia entregado-O à morte. Ela O tinha possuído durante nove meses. Jamais houve uma criatura assim tão rica e tão cumulada de bênçãos. E então um de Seus primeiros pensamentos fôra levar o Seu Filho até Isabel e João, além das montanhas da Judéia. Durante esse tempo, Ela desejava ver a face de Seu Menino, contemplar o brilho de Seus olhos, escutar o som de Sua voz infantil, tomá-lO nos braços e apertar Seu tesouro, o tesouro do mundo, o tesouro do Pai, sobre Seu seio. Ela era a Sua Mãe humana, e Seu Coração era de uma humanidade singular. Depois, Ela delicia-se em Seu êxtase, e Jesus aparece, estendido sobre o solo, na noite de Natal, e estende Suas pequeninas mãos para Ela como se pedissem o seu abraço, e pediam-no com efeito. Ao levá-lO ao Templo, Seu amor maternal nem começara ainda a se saciar, embora por todo esse tempo Ela se alimentasse das perfeições de Jesus. Quarenta dias, não mais que mil horas, se haviam passado; e eis que Ela O doa, O entrega à morte, e a espada de Simeão é fincada em Seu Coração, profundamente, para mostrar-Lhe qual abismo se formara entre Ela e Jesus. Não poderia mais O possuir tranquilamente. Não poderia impedir a Paixão. Jesus pertencia aos pecadores; pertencia à cólera de Seu Pai; era agora apenas uma Vítima que Ela devia guardar até que a hora do sacrifício chegasse. Que ofício para uma Mãe! Eis aí o que resultou para Maria de Sua qualidade de Mãe de Deus.

Além de abandonar assim Jesus à crueldade de Sua divina missão, Ela ainda teria de suportar as contradições dos outros à honra de Seu Filho, à Sua bondade e à Sua doutrina. Como?! O mundo inteiro não estará aos pés dEle? Se Ele deve morrer, porque Deus decretou que sem a efusão de Seu Sangue não haverá redenção dos pecados, pelo menos até a hora de Sua morte os homens estarão suspensos de Seus lábios, seguindo-O por toda a parte para se nutrirem de Suas divinas palavras. Os pecadores se converterão em toda parte. Os dias dos santos e a terra prometida finalmente chegarão para o povo eleito. E quando Ele expirar na Cruz, o mundo inteiro confessará Sua realeza e virá em multidão para a Igreja por Ele fundada... Não! Não será assim; e Ela o sabe. Mas quem poderia contradizer a Jesus? Ele era a beleza, a verdade, o amor, a doçura mesma. Quem viria a ser desrespeitoso para com Ele? Quem poderia contradizer a verdade, a verdade eterna? Ora, Maria via tudo aquilo que iria ocorrer. Jesus Lho mostrara nEle mesmo, quando Lhe abrira os segredos de Suas almas. Desde essa hora até o dia em que o destino se cumpriria, já não podia haver um olhar sombrio lançado contra a face adorável de Jesus, nem uma palavra de indiferença para com Ele, nem um mal entendido voluntário, nem uma busca réplica, nem uma familiaridade inconveniente, nem uma brincadeira desrespeitosa, e menos ainda alguma imprecação cruel ou afrontosa blasfêmia contra Ele, sem que isso penetrasse no Coração de Maria e A fizesse experimentar a mais veemente dor. Os gritos e uivos que um dia a multidão faria ouvir em Jerusalém, exigindo o Sangue de Jesus, retiniam já noite e dia no Coração maternal de Maria. Eram estas as primícias da magnífica oblação que teria por efeito elevar Maria a alturas quase divinas. Os homens não poderão apreciar essa oblação. Não a poderão compreender. Eles a desdenharão, a zombarão, a contradirão e a tratarão com crueldade. Pessoa alguma compreenderá, seja na terra, seja no Céu, exceto o Pai Eterno, o que Maria fez. Somente Ele compreende o preço da oferenda feita por Ela, o preço de Jesus, o Verbo Encarnado. Conhecemo-lo nós? Isso é impossível, pois se o conhecêssemos nossa vida não seria como é. Há uma ciência que a prática segue sempre; é a ciência que conhece pela santidade, e não simplesmente pelo emprego da inteligência.

Pobre Maria! Seu Coração está cheio de feridas, umas se abrindo sobre as outras, feridas que devem durar por toda a vida, e que, assim como os estigmas dos Santos, sangram sempre sem se inflamar. Aqueles que contradizem a Jesus aprenderão, sem dúvida, no fim, a reconhecer a grandeza de seu erro. Eles voltarão a Ele, como ovelhas desgarradas que retornam ao redil. Eles mesmos serão, um dia, o triunfo de Sua graça redentora. De Jesus emanam a graça, a doçura, os atrativos e a cura. Sua beleza, enfim reconhecida, encantará aqueles mesmos que O contradizem. Assim o sofrimento causado por toda essa contradição podia ser suportável. Mas não! A espada de Simeão, assim como a espada do querubim que guarda a entrada do paraíso terrestre, lança chamas ao seu redor, para ambos os lados. Positus in ruinam multorum, posto para ser uma ocasião de queda para muitos, para a ruína completa destes, para sua perda irreparável! Jesus deve causar [indiretamente] a perda eterna de alguma de Suas próprias criaturas? Deve afastá-las de Si pelo clarão mesmo de Sua luz, pela divindade mesma de Sua beleza? Devem existir almas para as quais teria sido melhor que Ele nunca tivesse vindo? Ó pensamento cruel, o mais cruel de todos! Quanto mais Maria meditava sobre a Paixão, quanto mais longamente Ela considerava tudo isso, tanto mais Ela cobiçava as almas com uma santa avareza, mais Ela tinha fome e sede da ceifa da Paixão, e se Ela devia tornar-se a Mãe dos pecadores era porque Ela era a Mãe do Salvador, a Mãe que O entrega voluntariamente à morte após O haver possuído por apenas quarenta dias em Belém. O pensamento da multidão dos que devem ser salvos é a única coisa que mais parece poder dar um alívio a Maria. Mas nem isso podia dar-Lhe consolo. Oh! Era terrível para Maria o pensamento de que Seu Menino tão belo devia, um dia, em certo sentido, tornar-se um exterminador; o pensamento de que Ele não devia ser somente um Salvador, mas uma lei de vida, que seria uma sentença de morte para alguns, e mesmo para um grande número. Entre Deus e o mundo por Ele criado havia uma grave controvérsia. Jesus passaria a ser a pedra de toque. Os homens poderiam assim optar por um ou outro partido duma maneira mais distinta, mais consciente. Deus estava fatigado dos pecados dos homens, fatigado de buscar que estes voltassem para Ele. A grandeza mesma dessa última misericórdia, anunciada há muito tempo pelos Profetas, tornava a indiferença dos homens mais fatal e mais irreparável. A situação dos homens tornava-se, assim, em certo sentido, semelhante àquela dos anjos. A prova tornava-se mais divina e, em conseqüência, mais decisiva. Rejeitar Jesus seria perder-se eternamente e, no entanto, “rejeitado dos homens” é um dos nomes mesmos que a Escritura Lhe dava. Se alguma coisa pudesse ser difícil para a fé de Maria, teria sido o fato de que Jesus deveria ser a ruína de tantas almas; Sua fé, aceitando heroicamente essa verdade adorável, mostrava-Lhe o seu corte mais afiado, sua ponta mais acerada, e que penetrava mais profundamente em Seu Coração.

Em razão de nossa natureza imperfeita, uma impressão que recebemos em nosso espírito atenua outra. Não podemos nos ocupar de muitas coisas ao mesmo tempo. As dores mesmas, quando se multiplicam muito, neutralizam-se mutuamente até certo ponto. As grandes aflições nos assoberbam, e se então pequenas aflições chegam, elas não se fazem sentir mais do que como gotas em meio a uma tempestade. Temos consciência de sua presença, mas o sofrimento que elas nos causam é pouco notado. Mas, com Maria não era assim. Em virtude das perfeições de Sua natureza imaculada, Ela possuía completamente a si mesma, abrangendo tudo de uma só vez. Não havia em Seu espírito confusão alguma, porque aí também não havia nenhuma falta de equilíbrio. Seu espírito recebia, apreciava e transmitia distintamente à Sua sensibilidade mesmo as nuances mais delicadas e variadas de cada dor.  Foi assim quando da profecia de Simeão. A maldição que virá sobre a terra natal de Maria por rejeitar a Jesus, é, para Ela, desde já, uma ferida distinta e amarga. Todas as glórias da história passada da Judéia, desde o Êxodo até os Macabeus, apresentavam-se ao espírito de Maria. Seu Coração se dilatava ao pensamento das vicissitudes ora tristes, ora gloriosas de Seu povo. Ela sonhava com os túmulos dos Santos e dos Profetas plantados sobre as colinas. Seu olhar atravessa os campos de batalhas onde a espada do homem tinha vingado valentemente a honra de Deus. Era a terra prometida, cheia de variedade e beleza, sobre a qual brilhava, com exclusão de todas as outras terras, a brilhante luz da escolha misteriosa de Deus. Era o Oriente avançando até a beira do mar, pondo-se em face desse grande Ocidente que ele deveria um dia converter, depois civilizar e, enfim, glorificar. Todavia, não se tratava dum simples sentimento de patriotismo a agitar o Coração de Maria. Esse país era o refúgio terrestre da verdade celestial, enquanto que o resto do mundo jazia na sombra glacial das trevas espirituais. Parecia antes um santuário do que uma região da geografia da terra. Aí quase não havia uma montanha que não houvesse sido testemunha de algum milagre, quase não se achava uma colina à qual uma promessa não estivesse ligada. As margens de seu rio, as margens de seu mar interior, tinham suspensas sobre si nuvens de poesia sagrada. Uma verdadeira rede de profetas se estendia por todo o país, por todas as localidades de suas diversas tribos, das quais as virtudes a as faltas não eram mais estranhas à geografia das regiões pelas quais haviam sido repartidas. O aspecto particular do país era a fonte das imagens da Sagrada Escritura, e devia mesmo tornar-se algo maior ainda, por causa dos ensinamentos de Jesus. E, ademais, ali estava Jerusalém. O grande Deus, Ele mesmo, amava essa cidade. Amava-a quase como se Ele fosse um homem, quase com uma afeição humana. Ele a tinha como tão querida em Seu coração, com tanto ardor e ternura, que nenhum hebreu, meditando sobre ela lá nas margens do rio de Babilônia, a podia amar mais. No cume do Monte das Oliveiras Jesus chorará sobre Jerusalém, como se Seu Coração ali se rompesse. Maravilhosa cidade! Belíssima cidade! Ela era o troféu de tantas misericórdias, de tantas ternuras divinas, de tantas vitórias do amor divino! Nela estava o Tabernáculo da glória visível do Altíssimo. Os doces perfumes dos sacrifícios ali se elevavam sem cessar. Entretanto, o Sangue de Jesus cairia e traria a desolação; e as chamas dos romanos e as depredações do tempo fariam desaparecer quase todos os vestígios daqueles lugares santos. Isso que levava Jesus a chorar, fazendo-O experimentar os sentimentos duma mãe que tenta abrigar os pintinhos debaixo das asas, devia ser para Maria uma fonte de extrema aflição. A espada de Simeão não havia esquecido nem mesmo essas circunstâncias! Ó doce Mãe! Vosso Filho e Vós mesma, haveis causar a perda de Judá, a cidade escolhida, já tão longamente provada, a delícia do mundo! Vós, que não deveis ser senão um canal do amor de Deus pela terra, tendes aqui de Vos resignar a serdes igualmente um instrumento de Sua cólera. Vós mesma, ó Mãe de misericórdia, não sois também, a partir desse dia, estabelecida para a ruína de muitos, tanto do antigo quanto do novo Israel? Ah! A Vontade de Deus é doce, mesmo quando ela é terrível em Seus desígnios sobre os filhos dos homens!

Esse retrato de Jesus, e das conseqüências de Sua vinda, era bem o contrário do que uma mãe desejaria, se a natureza fosse a encarregada de pintá-lo. O sol estaria então sem nuvens. As sombras da paisagem precisariam ser tão densas e tão múltiplas? Em torno ao Menino Jesus não deveria haver apenas luz e alegria, uma misericórdia mescla de rigor, uma paz contínua, e as derradeiras sombras da noite dissipadas e gloriosamente mudadas em nuances douradas pelo sol nascente? E, todavia, Ele vem motivado pelo amor, e eis que a conseqüência imediata de Sua vinda é a contradição que termina na perda eterna de muitas almas, a devastação de Sua pátria terrestre, a dispersão do povo escolhido. Se Maria tivesse necessidade de ensinamento, o sangue dos Santos Inocentes Lhe teria servido de lição para compreender o que devem esperar aqueles que se aproximam de Jesus, e que leis obscuras e misteriosas os envolvem. Agora, pelo menos, se a vinda de Jesus não deve acumular o louvor e a glória apenas para a clemência divina, a justiça de Deus encontrará também a sua glória. Em todo caso, essas coisas todas concorrerão para a grande, a mais grande, a grandíssima glória de Deus. Sim! Seguramente, mas não da maneira que se poderia esperar. A missão de Jesus é uma possibilidade infinita de glória para Deus; mas o que ela tinha de infinito detinha-se no que ela tinha de possibilidade. Deus não obterá mais do que uma sombra da glória que Ele poderia obter enviando Seu Filho. A vontade dos homens frustrá-la-á de todas as maneiras. A malícia destes deverá ter um tal efeito, que dará mesmo uma aparência de insucesso à toda a obra da Redenção. Tempo viria em que os teólogos poderiam dizer que a redenção de Maria, isto é, a Imaculada Conceição, foi a única obra plenamente frutuosa da graça da Redenção. A doçura mesma, a humildade e a facilidade de Jesus para perdoar, seriam como pedras de tropeço no caminho da glória do Pai. Pior ainda, as coisas mesmas que, por serem mais divinas, deveriam produzir mais frutos de glória para Deus, tornar-se-ão, na verdade, ocasião de mais ultrajes à divina Majestade, do que os pecados que se teriam cometido se a Encarnação não ocorresse. Ai! Como as trevas se espalham ao redor do berço desta Criança! Por uma estranha combinação, que parece contra a natureza, o Natal está já repleto da Paixão. Ó Mãe desafortunada! Eis aqui cinco chagas em uma só. Vós tendes de oferecer Vosso Filho à morte; Sua aparição será o sinal de contradições sem número que se elevarão contra Ele; Ele está estabelecido para a ruína total de muitos; por causa dEle, a cidade e o povo serão malditos; e Ele tornará os homens capazes de profanar a glória de Deus mais do que todas as gerações anteriores o haviam feito. Infeliz Mãe! Para qual lado voltareis o olhar? [O Mère infortunée! Voici cinq plaies en une seule. Vous avez offert votre Fils à la mort; son apparition sera le signal de contradictions sans nombre qui s’élèveront contre lui; il est établi pour la ruine totale de plusieurs; à cause de lui, la contrée et le peuple seront maudits; il rendra les hommes capables de profaner la gloire de Dieu plus que toutes les générations ne l’ont fait auparavant. Malheureuse Mère! De quel côté tournerez-vous vos regards?] Em Jesus mesmo, Menino, ao redor de Seu Coração já está a coroa de espinhos que, mais tarde, Lhe porão sobre a testa; mas será ela menos cruel no Coração do que o será por sobre a testa? Quanto aos pecadores, a salvação deles não será tão universal que chegue a compensar tantas dores. Quanto a Deus, o muito que conseguirá será uma glória retorcida; Ele obterá uma grande glória, sem dúvida, mas aparecerá também uma impiedade inaudita, que encontrará seus caminhos e seus meios justamente no excesso mesmo do amor paternal do Criador.

Tais foram as particularidades da primeira dor. Não é necessário falar longamente das disposições com as quais Maria as suportou. Por um lado, pode-se fazer uma idéia por tudo o que já falamos; por outro, muitas dentre elas estão a tal ponto longe da nossa compreensão, e tão difíceis de distinguir em meio ao clarão ofuscante da Filha do Rei, que não sabemos o que dizer. Poder-se-ia escrever um livro sobre a beleza interior de Maria, e, nos dias presentes, seria muito necessário que ele fosse escrito. [Nota do blogue: Existe um livro do Padre Júlio Maria de Lombaerde - Porque Amo Maria - que aborda esse tema em um de seus capítulos, ver AQUI] Entretanto, deter-nos-emos apenas em três graças às quais Santa Virgem correspondeu de modo heróico nessa primeira dor. A primeira delas consistiu em que Maria reconhecesse, duma maneira prática, a soberania de Deus. Não se pode duvidar de que seja essa a idéia fundamental de todo o culto divino. Não se pode proceder para com Deus sob condições; as obrigações têm de ser todas cumpridas. Somente quando nossa submissão é completa, a nossa liberdade se torna perfeita. Deus é o mestre. Quando Ele age, não podemos duvidar de Sua justiça, nem de Sua bondade. A essência da santidade consiste em reconhecer com entusiasmo essa soberania. Nossa prerrogativa está nessa responsabilidade. É através dela que nossos corações se encherão dum amor sublime para com Deus. Quando o sol brilha, é fácil falar da sorte. Mas, quando as trevas se acumulam; quando as chagas se nos abrem repetidamente; quando as portas do Céu parecem firmemente fechadas às nossas preces; quando a injustiça humana nos vitima; quando a maldade humana aproveita para pisar-nos ao nos ver caídos; quando o amor humano nos trai, e, por fim, a face de Deus como que se desvia de nós, então é difícil reconhecer a soberania absoluta de Deus, ou ao menos é difícil fazê-lo de coração, com uma nobre constância, sem desejo de rasgar o véu que cobre Suas razões misteriosas, sem sombra de desejo de afastar algum pouco aquela mão que parece pesar tão cruelmente sobre nós. Recebemos tudo de Deus, quem não o sabe? Tudo vem dEle; tudo deve voltar para Ele. Sua glória é a única indicação do que é bom; Sua Vontade é a lei, a única lei. As leis que são eternas, o são porque Aquele de quem elas emanam é eterno; e elas O manifestam sem O obrigar. A natureza mesma das coisas, que é ela senão um fruto do querer divino? Bem-aventurados aqueles sobre os quais, durante toda a vida, brilha essa grande verdade da soberania de Deus! Escutai, porém, os gritos de agonia de Jó, esses gritos que fazem retinir as rochas do Edom, esses gritos que o mundo inteiro entende. Ao lado dessa paciência sublime e desses gritos de dor resignada desse homem que Deus nos dá como um tipo de santidade, colocai a silenciosa paciência da Mãe de Deus, Seu Coração padecente, se enriquecendo, todavia, de glória e de beleza, quase beatificado por um sentimento extático da soberania suprema de Deus. Entre as criaturas, nada pode haver de magnificência igual à da perfeição da obediência. O Homem-Deus se encantou tanto da beleza da obediência que a ela quis se prender inteiramente durante trinta anos, reservando apenas três para salvar o mundo, e mesmo para cumprir essa obra Ele não fez mais do que mudar a forma de Sua obediência. Este velho mundo perverso, cambaleante e como que cansado de si mesmo, não estará assim devido à falta desse espírito de submissão, no qual, unicamente, consiste a felicidade terrestre?

Por essa dor, a Santa Virgem entra perfeitamente em todos os desígnios de Deus sobre Jesus, sobre Ela e sobre nós. Nos livros de espiritualidade sempre encontramos que devemos entrar nos desígnios de Deus sobre nós, ou, em outras palavras, nos conformar com as disposições interiores de Jesus. Desde o século XVII essa é a linguagem universal dos escritores espirituais, que exprimem assim uma verdade antiga sob uma forma nova, uma forma adaptada à mudança que se há operado no espírito moderno. [Depuis le dix-septième siècle, ce langage est devenu universel chez les écrivains spirituels, qui experiment ainsi une verité ancienne sous une forme nouvelle, une forme adaptée au changement qui s’este opere dans l’esprit moderne.] Tratemos de fixar um sentido preciso a essa linguagem. Cada um tem uma certa maneira de considerar as coisas, sobretudo as que lhe concernem. Cada um tem um ponto de vista particular. Essa é a razão pela qual os homens tão raramente se põem perfeitamente de acordo sobre as coisas mais ordinárias; a duras penas concordam sobre os fatos mesmos. Isso mostra quanto o ponto de vista particular é íntimo e pessoal a cada indivíduo, e como ele serve para fixar e, por assim dizer, estereotipar o seu caráter. [Chacun a une certaine manière de considérer les choses, surtout celles qui le concernent. Chacun a um point de vue particulier. C’est là raison pour laquelle les hommes peuvent si rarement s’accorder parfaitement sur les choses les plus ordinaries; à peine le peuvent-ils sur les faits memes; cela montre combien ce point de vue particulier est intime et personnel à chaque individu, et combien sert à fixer, et, pour ainsi dire, à stéréotyper son caractère.] Ora, esse ponto de vista nasce duma série de causas, de disposições pessoais, daquelas também dos parentes, das impressões da infância, das circunstâncias locais, das lembranças da juventude e, sobretudo, da educação. Quase cada família, cada casa, tem um caráter que lhe é próprio, e que nunca será mais bem reconhecido e apreciado do que pelos de fora. A mesma coisa vale para as comunidades religiosas, as grandes cidades, e, enfim, as nações mesmas. É preciso reconhecermos que, na maior parte do tempo, as fraquezas e as indignidades de nosso caráter se fortificam com essa particularidade. Há necessariamente estreiteza [petitesse/pequenez] num espírito particular, quer seja um espírito de família, um espírito de partido, um espírito de comunidade ou um espírito de nação. Ao mover o indivíduo, esse espírito necessariamente se torna egoísmo. É por nosso ponto de vista que somos capazes de formar uma idéia exagerada sobre nós mesmos; é ele que atiça nossa vaidade e nos faz olhá-la como razoável e justa; é ele que se intromete na medida com a qual julgamos os outros; é dele, enfim, que provêm todos os mal-entendidos. É evidente, portanto, que, na obra da vida espiritual, essa fortaleza deve, senão ser destruída – destruição essa que é rara mesmo na santidade –, pelo menos ser tomada, saqueada, e munida duma nova guarnição. Como fazê-lo, porém?

Voltemos nosso olhar a nós mesmos, para depois voltá-los a Deus. Deus tem também o Seu ponto de vista, o qual, nEle, é essencialmente verdadeiro. Ele tem a Sua visão do mundo, das vicissitudes da Igreja, de certas máximas da vida, das vocações, dos deveres, dos pecados. Ele destina cada um de nós a certa obra particular, nos doando o número e o gênero de graças necessárias para sermos capazes de a realizar. No entanto, Ele nos ilumina só até certo ponto, e não além deste; nos dá a graça em uma certa medida, e não além desta; e no-la dá duma certa maneira, e não de outra. Ele tem sobre nós Seus desígnios, que se referem tanto ao nosso caráter natural quanto à nossa correspondência sobrenatural à graça divina. Seus desígnios dizem respeito à nossa santificação. Esse é o fundamento sobre o qual repousa toda a direção espiritual. É para nós de uma imensa importância saber quais são os desígnios particulares de Deus sobre nós, visíveis, sobretudo nas operações da graça sobre nossas almas. Mas não podemos ver nós mesmos essas operações, nem fazer delas um julgamento seguro ou, pelo menos, definitivo, por causa da confusão causada por nosso amor próprio. É por isso que nos colocamos sob a direção de homens que, devido ao seu caráter sacerdotal, têm um dom particular para tanto, e que, além disso, para obterem a luz, dirigem a Deus preces às quais Ele responde duma maneira especial, a fim de os ajudar em sua responsabilidade e de recompensar nossa obediência.

Todavia, podemos reconhecer de imediato vários dos desígnios de Deus sobre nós, os mais importantes inclusive, porque são os gerais e que resultam do próprio fato de Ele ser Deus. Quando somos convidados a conhecê-los, o primeiro passo a dar é entrar neles, quer dizer, banir de nosso espírito as disposições que ele traz, para substituí-las por aquelas que vêm de Deus. Isso não se faz de um só golpe, mas por degraus, abordando uma coisa, depois outra, até chegarmos a ver as coisas sob o ponto de vista de Deus. Adotaremos então o Seu ponto de vista, esquecendo ou desdenhando o nosso. São os interesses de Deus, ou os princípios sobrenaturais que nos são inculcados, ou as revelações que Ele nos faz de Sua Vontade, que regerão esse ponto de vista, e não as nossas afeições ou repugnâncias, nem nossos gostos naturais ou nosso caráter adquirido. Isso nos emancipará das estreitezas [petitesses/pequenezas] de família, das estreitezas de comunidade, das estreitezas nacionais e, sobretudo, das estreitezas pessoais. Tal obra não implica em nada menos do que uma revolução interior. Ela cria o novo homem; ela é a semelhança com Jesus; é a morte mística de nós mesmos. Mas teremos de passar por tempos de luta terrível antes de atingir nossa meta. É uma transformação longa e difícil, que se faz em meio a intervalos, retrocessos, momentos de torpor e de fraqueza. É preciso passar por sofrimentos agudos e excessivos, pois é uma operação feita em nossa natureza ainda viva.

Em Maria, essa operação deificante [déifiante] foi completa. Isso foi devido às Suas graças imensas, bem como à proximidade perpétua de Jesus. A profecia de São Simeão, embora sem apresentar pela primeira vez à santa Mãe a compreensão dos desígnios de Deus a respeito de Jesus, todavia lha apresenta duma maneira formal à Sua aceitação. Assim como Ela havia sido convidada formalmente a dar Seu consentimento à Encarnação, agora Ela é convidada duma maneira positiva a entrar nos desígnios de Deus, a fazê-los Seus próprios, a se lhes adaptar por uma santidade heróica. Já temos visto que esses desígnios não eram tais que o coração duma mãe os devesse naturalmente desejar. Eles entranhavam terríveis sacrifícios; elevavam-se a alturas onde a simples humanidade mal podia respirar; mergulhavam em oceanos de dor sobrenatural; haveria mesmo, nessa primeira dor, alguma coisa que ousaríamos chamar de contrária à natureza, não somente por causa da posição em que ela estabelece a Mãe a respeito do Filho, mas ainda por causa da parte concedida à livre vontade da Mãe. Maria entra heroicamente, nesses desígnios de Deus, com a mais perfeita inteligência que uma criatura podia ter. Um navio não pode entrar, a plenas velas, no porto, com mais de dignidade calma nem mais de graça irresistível, do que Maria ao passar da natureza, da terra, e dEla mesma, ao seio profundo de Seu Pai celeste.
A terceira disposição que sublinharemos na generosidade de Maria é a aceitação dessa dor. Quando se trata de nós, a generosidade nas coisas espirituais deve sempre ser mensurada pelo grau de repugnância e de luta através das quais a virtude teve de abrir passagem. Mas com a Santa Virgem não era assim. Como em nós há uma generosidade natural, nEla havia uma generosidade sobrenatural, tanto mais graciosa quanto nascia sem esforço, sem dor de parto, da simples abundância de Seu Coração. Tudo vinha espontaneamente, sem demora nem cálculo. Nem havia necessidade de combate para a sustentar: pois onde estaria o combate numa natureza assim submetida à graça mesmo em seus recantos mais secretos, tal como era a de Maria? Em conseqüência da grandeza de Sua graça, o que é sobrenatural Lhe vinha tão facilmente quanto o que a nós é natural. Ora, é nessa prontidão instantânea, [tão rápida] que mal se deixa perceber, que consiste o encanto da generosidade entre nós. O sofrimento e a repugnância são duas coisas diferentes. Maria sofria extremamente, mas sem rebelião em Sua natureza inferior. Uma tal rebelião seria incompatível com a grandeza de Sua união com Deus. O que teve lugar em Nosso Senhor no jardim de Getsêmani não pode ser comparado com o caso de Sua Mãe. Ela não teve de beber o cálice do pecado nem o cálice da cólera do Pai, mas somente um gole da amargura que Jesus Lhe apresentava aos lábios para sempre. [Elle n’avait pas à boire le calice du péché ne le calice de la colere du Père, mais seulement une coupe d’amertume que Jésus lui apresentait aux lèvres pour toujours.] Poderia Ela lutar com Ele, ainda que só por um instante? Poderia haver a menor falha na conformidade de Maria com a vontade de Jesus, quando era Ele mesmo que Lhe servia o cálice? Na agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras devemos supor uma espécie de seqüestração da natureza divina, ao menos no que concerne aos seus principais efeitos sobre a natureza humana que lhe estava unida. [Dans son agonie au jardin des Oliviers, nous devons supposer une sorte de séquestration de la nature divine, du moins en ce qui concerne ses principaux effets sur la nature humaine qui lui était unie.] Melhor, devemos supor uma como deserção miraculosa da porção inferior da natureza humana de Jesus, contra Suas faculdades humanas mais elevadas, a fim de que se pudesse chegar a esse conflito prodigioso que teve lugar em Sua santa alma, a esta rebelião aparente e momentânea e, entretanto, extremamente misteriosa, de Sua vontade inferior contra Sua vontade superior. Mas, seguramente, esse foi um caráter particular de Jesus. Foi uma parte da salvação do mundo. É, em Jesus, uma sublimidade que não se ajustaria a Maria sem humilhação. Essa particularidade se reporta ao pecado e à justiça irritada do Pai. Era a revolta da pureza de Jesus contra tudo o que havia de repugnante nas iniqüidades sem número das quais Ele devia se revestir. Era o ponto culminante da magnificência de Seu sacrifício. Em Maria, porém, isso teria sido simplesmente uma decadência passageira da santidade consumada, sem a santidade nem a dignidade da Redenção. Não podemos admiti-la, portanto, nem por um só instante. A tranqüilidade de Maria teria podido assim ser quebrada; a integridade de Sua natureza perfeita teria podido, dessa forma, por assim dizer, ser desunida; e, ao mesmo tempo em que Ela era a Mãe sublime de Deus, estaria descendo a um nível menos elevado que o de algum santo e posta em desvantagem com ele. Na realidade, porém, a vontade de Maria, que havia aparecido por um instante no mistério da Encarnação, se abisma em seguida nas profundezas da Vontade de Deus e não reaparece jamais. Em meio ao mar, no seio de uma calma profunda, uma vaga se eleva na superfície das ondas que se agitam, se coroa duma nuance dourada, é aclarada pela luz, depois retomba silenciosamente no abismo, sem deixar nenhum sinal, nenhum vestígio. Assim a vontade da Santa Virgem. Na Anunciação, Deus mesmo havia convocado essa vontade a se fazer presente, e ela, após haver brilhado por um momento, se retira de novo e já não reaparece mais. Para Aquela que via Deus sempre, que estava mais unida a Ele do que qualquer santo ou anjo o esteve jamais, que tinha mais graça do que todo o resto do mundo, que era mais gloriosa que os bem-aventurados no Céu, poderia ser diferente? Não! A generosidade de nossa santa Mãe consistia na prontidão espontânea e na calma perfeita de Sua conformidade com a doce Vontade de Deus. Ela que, na Encarnação, havia dado sem esforço o que Deus pedia dEla, doa também sem esforço tudo o que resultava desse primeiro consentimento.

Mas consideremos agora as lições que essa primeira dor nos ensina. Ela faz de toda a vida de Maria uma infelicidade. Mesmo no mundo decaído, a infelicidade não está isenta de mistério. Mesmo nele não deveria, verdadeiramente, haver infelicidade: pois o mundo inteiro não está cheio de Deus por toda a parte? E como a infelicidade pode existir perto de Deus? Se considerarmos benignamente aqueles que nos cercam, quanta bondade reconheceremos neles! O pecado é facilmente perdoado àqueles que se arrependem sinceramente. A graça é dada com prodigalidade. Existe também uma soma quase inacreditável de verdadeira alegria, e a pena, o sofrimento, pronto se mudam em santidade. Mas, apesar de tudo isso, a infelicidade do mundo é real. Sobre a terra, quase cada alma é um santuário de secreta aflição. Em alguns, a ferida é recente; noutros, é já antiga; para um número imenso de homens, a infelicidade dura literalmente por toda a vida, e não há contra ela um refúgio seguro a não ser passando pela porta da morte. Para alguns, ela provem de terem abraçado uma carreira que não lhes convinha. Para outros, é por causa da maldade, da má conduta daqueles que se ama, ou devido à falta de correspondência do amor que se tem a eles. Em outros casos, os homens têm de suportar sofrimentos por sua religião, os quais, devido à crueldade alheia, podem durar até o fim da vida. [Dans d’autres cas, les hommes ont à supporter pour leur religion des soffrances qui, par suite de la cruauté d’autrui, durent jusqu’à la fin de leur vie.] E não é raro que a infelicidade tenha sua causa nos caracteres dos homens, em seus pecados, ou em conseqüências destes. Às vezes, o fardo de um coração amargurado, de um coração que fôra carregado dum peso muito grande, se rompe, perdendo sua elasticidade e o poder de recuperar-se de sua ferida. O tempo não traz remédio a semelhante sofrimento. O coração amargurado sangra na mão do Pai celeste. Ele o consolará; nenhum outro o poderá fazer. É desconcertante ver quanto as consolações humanas são superficiais. Assim algumas águas brilham somente ao sol, escondendo o seu fundo barrento que se eleva quase até à superfície. Cremo-las profundas até ensaiarmos lhes tirar água, e então aprendemos o que elas são, ao retirarmos mais areia que água.

Agora, como agiremos em face dessa aflição de toda a vida? Dos abismos de Sua primeira dor é que Maria nos ensina. Suas aflições duraram-Lhe por toda a vida. Esse foi o caráter particular de Sua primeira dor. Mas Maria sofre sem buscar consolação; sofre sem necessidade de se apoiar na simpatia humana; sofre em silêncio; sofre com alegria. Queremos mostrá-lA não como inimitável, mesmo porque tempo virá em que seremos capazes de imitá-lA nessas coisas; mas queremos mostrar agora o que nEla já está ao nosso alcance. Maria não prova nenhum sofrimento sem se unir à Paixão de Jesus. Nós podemos, em certa medida, tornar nossas aflições semelhantes às dEla nessa união com as dores de Nosso Senhor. Se nossa dor vem do pecado, seguramente ela não pode se assemelha àquela de Maria; mas, mesmo assim, ela pode ser facilmente, e duma maneira muito agradável a Deus, unida à Paixão de Nosso Senhor. Ele não rejeitará a oferenda. A medida de nossas dores não deve mesmo senão aumentar devido ao fato de serem conseqüência do pecado. Felizes aqueles que o Pai pune nesta vida e trata como Suas fiéis crianças! Também como Maria é preciso que sejamos amantes, doces e pacientes para com aqueles que nos causam alguma dor, e, vertendo lágrimas sem as reter e sem se envergonhar por elas, é preciso que recostemos nossa cabeça no peito de Nosso Senhor, para pensar com calma em Deus e no Céu. Há também uma ligeira consolação para aqueles que gemem durante toda a vida, em saber que a Santa Virgem também há gemido por toda a vida. Dá-nos coragem. Colocamo-nos, então, em face de nossa dor, e lhe dizemos: “Vós tendes resolvido não vos separar de mim antes de minha descida ao túmulo; sede, portanto, para mim, um segundo anjo guardião; sede uma sombra de Deus, que impeça os raios aquecidos do mundo de ressecarem em meu coração as fontes da oração”. Cada um de nós, mesmo quando não sofre uma aflição que dura toda a vida, tem um anjo guardião desta sorte. Podemos não ter uma só aflição assim, mas temos várias outras. Elas podem vir como sentinelas para montar guarda, uma após a outra, à medida que passa cada vigília desta noite terrestre. A infelicidade [alheia] assemelha-se a um mundo escondido e subterrâneo. Marchamos acima dele, sem o conhecer, e parecemos desobrigados e indiferentes uns para com os outros, embora em nosso coração não o sejamos. Que consolação, porém, saber que a vida de Jesus, assim como a de Maria, foi também uma vida de infelicidade oculta e incessante! É porque assim nós podemos buscar com confiança a Mãe das dores, e Lhe pedir que seja também a Mãe de nossa dor. Jesus tem um amor especial pelos infelizes. O dia mais longo tem uma noite, o trabalho mais rude chega a um fim, e a pena mais viva terá seu repouso eterno, pleno de contentamento.

Tiramos ainda uma outra lição da primeira, e é de que o aproveitamento mais elevado que se pode fazer dos dons de Deus é fazê-los render frutos. Nada nos pertence realmente como próprio, a não ser o pecado. Deus é ciumento [jaloux] de tudo o que, em nós, se pareça com um sentimento de dono e de proprietário, mesmo no tocante aos dons da natureza; mas, no que se refere aos dons da graça, esse ciúme é mil vezes maior. É preciso que façamos dEle o depositário desses dons, visto que não sabemos deles fazer um uso conveniente. É preciso que sejamos como as crianças que pedem a seu pai que guarde os pequenos tesouros que ele mesmo lhes há dado. Ajamos assim para com os dons de Deus. Eles estão mais sob a guarda dEle do que da nossa. Tudo o que aumenta nosso sentimento de dependência para com Deus é doce, seguro, verdadeiro, justo, e o que há de melhor em nós. Em outras palavras, Deus é o fim pelo qual todas as coisas nos são dadas. Nada de bom nos é dado para ficar conosco, sob pena de perder sua qualidade e se estragar. Cada criatura [humana] é um canal pelo qual as coisas reencontram seu caminho para Deus, tão seguramente quanto o sangue reencontra seu caminho para o coração por meandros sem fim, e cumpre suas funções sem desviar-se para nenhuma parte, o que tornaria o corpo doente, continuando sempre a correr, a correr rapidamente, para lhe animar e lhe dar vida. Nossa humildade está sempre em perigo se nos retemos ainda que um só dom divino, não fosse mesmo que, durante o tempo necessário para observá-lo, amá-lo e pensar nele com prazer, ele já não desaparecesse. É preciso que reportemos (refiramos) tudo a Deus. Eis o segredo para ser santo. [Voilà le secret pour être saint.] Então a graça vem, as tentações cessam, grandes coisas se fazem, e o amor se enche de alegria. O amor próprio quereria cantar sua parte, mas sua voz é sufocada pelo som dos louvores divinos: que ele se irrite e se revolte, nós não lhe prestaremos atenção. Mas, poderemos sempre continuar nosso ditoso concerto? Sim, seguramente, pois as graças nos chegam sem cessar; elas são sem fim, como as multidões nas ruas, que se tornam menos espessas às vezes, mas não desaparecem nunca. Assim também nós podemos louvar a Deus e referir sempre a Ele, após os haver beijado com humildade, os dons e as graças que Ele nos envia. Deus e os Seus dons são duas coisas totalmente diferentes. Ele simula algumas vezes querer nos surpreender, a fim de provar o nosso amor. Nos envia algum dom celeste e nos espia, para ver se fazemos deste o nosso bem supremo, se nos comportamos não como se este pertencesse a nós ou como se pertencesse a Deus, mas antes como se fosse um deus mesmo. Mas a alma que ama verdadeiramente não pode jamais cair numa tal armadilha. Ela não sonha em descansar sobre os dons de Deus, nem mesmo sobre os mais preciosos, assim como não sonha em deitar-se e dormir sobre uma vaga movente do mar. É preciso que uma tal alma prenda-se a Deus, não O deixando por nada. Não cesse ela de Lhe referir os Seus dons, como se protestasse continuamente que, apesar de toda a necessidade destes, eles não são Deus, e não O podem substituir.

E há ainda outra lição para tirar dessa primeira dor, e é a de que neste mundo a aflição é a recompensa da santidade. Ela é para os eleitos sobre a terra, o que a visão beatífica é para os Santos no Céu, quer dizer, a presença mesma de Deus, Sua manifestação, Sua recompensa infalível. É preciso não nos espantarmos, portanto, se, após novos esforços por servir a Deus, se nos seguirem, em conseqüência, novas aflições. Segundo os princípios sobrenaturais da vida espiritual, é assim que deve ser. Se formos capazes de suportá-las, essas aflições virão certamente. Se elas tardam, é sinal de que Deus considera-nos fracos. Quando vierem, porém, não devemos pensar que sejam desproporcionais às nossas forças. Deus não desfere Seus golpes ao acaso. Nossas cruzes são pesadas escrupulosamente pela sabedoria divina. [Nos croix sont pesées scrupuleusement par le sagesse divine.] O amor divino as trabalha, a fim de as tornar menos rudes e mais ligeiras. Não podemos ter uma felicidade real na devoção, se não somos provados. Não temos, então, garantia de que Deus nos aceita: garantia contra as ilusões. Sabe-se que as estrelas estão sempre no mesmo lugar do céu, mas, segundo os estados diferentes da atmosfera, elas podem parecer muito mais distanciadas que em outros momentos, ou então muito mais aproximadas, e semelhantes a lágrimas de luz prestes a cair na terra. Assim é com Deus. A alegria O faz parecer afastado, ao passo que a aflição O aproxima e o faz como habitar em nós. Quando as aflições chegam, sentimos instintivamente sua ligação com as graças que as precederam, assim como as tentações trazem em si alguma coisa que nos recorda as vitórias passadas. Elas chegam uma após a outra, desferindo seus repetidos golpes sobre nossos pobres corações com um ar tão modesto e tão celeste ao mesmo tempo, que, sob esse disfarce transparente, é quase possível reconhecer anjos. Quando elas nos tocam, e mesmo quando suas pontas aceradas nos penetram, nós sentimos ter quase nas mãos a perseverança final, tanto que elas são testemunhas sólidas de nossa adoção, tanto elas nos trazem graças importantes já com sua presença, e tanto é grande a herança de graças que elas nos deixam ao partirem. Um coração sem aflições é como um mundo sem a Revelação: não vê a Deus mais do que sob a fraca luz do crepúsculo.

Ademais, é preciso também que nossa aflição seja apenas nossa. Não devemos esperar que outros a compreendam. Uma condição da verdadeira aflição é ser mal compreendida. A aflição é a coisa mais individual do mundo. Nunca devemos esperar encontrar uma simpatia igual ao que sofremos. Já será muito se esta for conveniente, embora imperfeita. É uma coisa bem triste querer se apoiar sobre a simpatia alheia e verificar, afinal, que somos muito pesados para ela, apesar das tantas dores que padecemos. Já nos revelar é bem difícil. O coração machucado fecha-se sobre si mesmo. E se ele emprega o que lhe resta de forças em buscar um lugar de repouso, o que lhe resta, então, a não ser um esgotamento que reabre todas as suas feridas, e a aflitiva convicção de que seu mal está pior ainda do que antes? Vale mais, portanto, guardar nossas aflições no maior segredo que pudermos. Uma simpatia inoportuna nos irrita e nos faz pecar. Uma simpatia insuficiente deixa o doente cair rudemente na terra. A falta de simpatia deixa em nós uma espécie de desespero que desemboca em prantos. Deus sabe de tudo; nesse pensamento, sim, há volumes de consolação. Deus dispôs tudo; dessa simples verdade emana luz suficiente para afastar todas as trevas. Nossos corações estão cheios de anjos quando estão plenos de aflições. [Nos coeurs sont remplis d’anges lorsqu’ils sont pleins d’afflictions.] Que eles sejam, portanto, nossos companheiros, e prosseguiremos nosso caminho, sorrindo todo o dia, e resplandecendo ao redor de nós uma doçura tal que não seria cabível num afligido, e Deus nos compreenderá quando formos a Ele. E quem saberá melhor consolar do que estes que são também afligidos?

Devemos igualmente esperar que se passe conosco, em certa medida, o que aconteceu com Maria. Nossas aflições serão alimentadas por nossas alegrias mesmas. Deus nos envia alegrias antes das aflições, para preparar os nossos corações. As alegrias funcionam como profecias da aflição que virá. Esses terrores santos, esses pressentimentos estranhos, essa vaga espera dum mal que se aproxima, donde vem que essas coisas acompanhem as alegrias, senão do fato de que são mesmo a sua sombra? E, com efeito, é ordinariamente o ponto luminoso da vida que determina a parte obscura. Através de toda espécie de maneiras estranhas as alegrias se mudam em dores, ora repentinamente, ora gradualmente. Às vezes, o que esperávamos como uma alegria, chega sob a forma duma ferida. Às vezes, a posse duma alegria muda-a em tristeza, como que se tivesse sido tocada pela varinha dum mágico. Outras vezes, uma alegria que permanecera intacta até o fim, deixa-nos, ao partir, uma mágoa após si; a ferida já estava ali, sempre oculta, sob o seu manto, e nós nem havíamos suspeitado. Ou então, quando uma dor torna-se mais calma, quando a novidade de seu aguilhão parece já amenizada pelo tempo, pela paciência e pela distração que nos trazem nossos deveres, uma alegria nos vem e nos faz sorrir à sua chegada em nossa alma, mas, uma vez lá, ela se torna também um princípio de dores: revela as águas que dormem, abre a fonte mais adiante e levanta a terra nas imediações para fazer correr mais abundantemente as águas amargas. Há poucas pessoas que não sentem a pena renascer e se reavivar com a chegada da alegria. Mas, para dizer a verdade, num mundo onde podemos pecar, numa luta onde tão facilmente perdemos Deus de vista, num lugar que é antes um exílio do que um lar, todas as alegrias estão juntas a aflições; são, por assim dizer, aflições em traje de festa. A alegria é a vida sob uma forma que não lhe pertence. A dor é a vida sem disfarce, a vida sob sua forma verídica. Ao menos, entretanto, a dor é a mais verdadeira, a mais celeste de todas as alegrias, porque ela nos separa do mundo e nos atira para Deus com uma autoridade calma, persuasiva e irresistível. A elevação do sol da graça numa alma é cheia de nuvens, de dúvidas e de presságios incertos, apesar dos clarões da magnífica luz que brilha de todas as partes desse céu ainda em desordem. Mas quando o astro chega ao cimo de seu curso ao meio dia, todas as nuvens são fundidas em azul celeste, sem que se saiba como. Pois mudar as alegrias em aflições, é a tarefa doce e segura da terra, mas mudar as aflições em alegrias é a obra verdadeira do Céu e deste Autor da graça que pôs o céu sobre a terra.

Mais uma lição nessa primeira dor. Duma maneira ou de outra, é preciso que entremos todos nessa dor durante a vida. O caráter particular da dor de Maria é que Jesus foi a sua causa. Mas isso não é assim apenas com a dor de Maria. Jesus será para cada um de nós uma causa de santa dor. Há sobre a terra uma série de coisas alegres que precisamos sacrificar por Jesus, ou, se não temos a coragem de o fazer, Ele mesmo terá a cruel benevolência de no-las tirar. Perseguição é uma palavra com muitos significados, e ela deve infalivelmente chegar para cada um dos que amam a Nosso Senhor. Ela pode vir da língua mentirosa dos mundanos, ou das suspeitas, da zombaria e dos julgamentos daqueles que amamos. No círculo das afeições de família e sob o mesmo teto, ela vem sempre de mãos que no-las tornam mais difíceis de suportar; quanta miséria lá onde um visitante acidental não vê outra coisa além da edificação dum amor mútuo. Mas será que ninguém poderá servir a Jesus confortavelmente? Seria vão esperá-lo. Para a mulher, o amor do marido se opõe. A mãe arranca seus filhos dos braços do Salvador. O pai olha com suspeita os direitos de Deus e, ciumento do Criador, trata com dureza um filho que, aliás, jamais lhe há dado uma hora de desgosto na vida e com o qual, até então, ele nunca usara de severidade. O irmão deixa de sentir a força da afeição fraternal, e vê os julgamentos do mundo apertando-o no círculo sagrado da família, se Jesus ousa se insinuar em seu coração. Ó miserável, miserável mundo! E são sempre os bons que se vêem mais apertados em semelhante caso. Marquemos bem esses pensamentos em nosso espírito e em nosso coração. Fora de nós, outra inevitável perseguição. Nosso Senhor nos cercará de provas e de cruzes, para conservar nossa graça e a aumentar. Mais O amaremos, mais elas virão em multidão. Nosso amor por Jesus nos envolve sempre de aflições, sem que saibamos como. Ele permite que caiamos em faltas e imprudências. De repente, sobretudo quando somos fervorosos, o solo se abre sob nossos pés, caímos numa fossa, e se olhamos então o passado, nossa queda nos parece culpa deste, mas, no entanto, como isso podia acontecer agora? Que se passa então na alma? Vê-se como o amor está cheio de penas? Essas penas não lhe serão mesmo mais comuns que as alegrias? E depois, há ainda a grande pena de não sentir que O amamos, de parecer-nos que O perdemos, de sentir que Ele nos escapara para sempre. Há as provas interiores, que infringem uma morte cruel ao nosso amor próprio, e uma purificação pelo fogo que se opera sobre a parte mais íntima de nossa alma, fazendo-a sofrer a mais dolorosa agonia. Há ainda as aflições nas quais o amor de Jesus nos faz cair ao nos persuadir a renunciarmos ao mundo, a rejeitarmos todas as luzes pelas quais a terra havia rejubilado nosso coração, a rompermos os liames, a fugirmos das afeições, a nos entregarmos a uma vida triste e penosa, e, após nos haver levado até aí, Ele nos deixa. Deus nos nega Sua face. Toda a visão do outro mundo nos é cerceada. Tal como um pôr do sol no outono, logo que a borda extrema desse astro desaparece sob o horizonte, se vê, em torno aos rios, nos vales cheios de árvores, nos campos onde se apascentam os rebanhos, nas campinas que os ceifadores acabam de deixar, se elevar como por encantamento uma espessa neblina branca que cega; assim também, logo que a face de Deus há desaparecido, os pecados passados, lúgubres fantasmas, se levantam dos sepulcros onde a absolvição os havia encerrado; as imperfeições presentes, tentações desconhecidas, a dificuldade na perseverança, tudo isso se levanta ao mesmo tempo, envolvendo a alma numa desolação tão sombria e glacial que estrela alguma pode dissipar, e já é muito então se um fraco luar branco nos disser que a lua brilha em alguma parte. Quem não conhece tudo isso? Se não o conhece, conhecê-lo-á ainda. Essas coisas podem não ser assim para nós ainda, mas a seu tempo elas ocorrerão, certamente. Assim, Jesus é, em nós, uma causa de aflição; Ele é, em nós, um sinal que deve ser contradito; em nós mesmos, Ele está posto para a elevação e para a ruína de muitos.

Tais são as lições que nos dá a primeira dor e, tal como a aflição que ela encerra, assim são as lições de toda a vida. Retornemos agora com Maria para Nazaré. Anjos cheios de espanto e de respeito para com Sua dor acompanham Seus passos. Foi a primeira lição deles na profunda ciência da Paixão. Assim a Mãe, portando Seu Menino, continua Seu caminho pelas ruas de Sião, para além das colinas, através dos vales próximos a riachos, até chegar à verdejante planície de Nazaré. Eram um inteiramente para o outro. Poder-se-ia dizer qual linguagem silenciosa eles falavam, quando o Coração do Menino batia contra o Coração da Mãe, de dor e de amor? E cada um era ainda mais caro ao outro do que antes; pois a sombra do Calvário tombara já sobre a Mãe e sobre o Filho, e eles amavam essa sombra, e éramos nós que a causávamos.

***

Próximo capítulo a ser traduzido: “A fuga para o Egito”
PS.: Grifos meus.
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