sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Pensamento da noite de 30/12/2011


"Senhor, é para mim um grande bem que me tenhais humilhado, 
para que eu aprenda Vossas justificações 
e desterre de meu coração toda a soberba e presunção." 
(Sl.118,17)

Acerca da oração e da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras


I. Considera o Meu divino Filho, Jesus, no Jardim das Oliveiras. Dirigindo a Seu Pai uma oração muito fervorosa, entra numa agonia mortal. Cai de face contra a terra. De todas as partes do Seu sagrado corpo corre um suor de sangue tão abundante que banha todo o solo em torno dEle. Prodígio estranho e inaudito até então.

Qual foi a causa ó Minha filha? A cruel catástrofe da Sua Paixão, que neste momento se Lhe apresentou completa ao Seu espírito; as bofetadas, os desprezos, as injúrias, que os ímpios Lhe deviam fazer sofrer; os açoites, os espinhos, os pregos e a cruz que se Lhe preparava, a lança que devia abrir-Lhe o lado, a traição de Judas, a renegação de Pedro, o abandono dos discípulos e dos apóstolos, o assassino que se Lhe devia preferir, o ódio e o furor que iam desenvolver contra Ele os homens a quem esperava salvar e remir: tudo concorria a assaltá-lO com tanta força, que O teve reduzido a uma agonia mortal.

Deixando a Sua humanidade gozar as consolações que manava para ela da sua união pessoal com a divindade, teria podido impedir para Si todo sofrimento. Mas então a maldade dos homens e a raiva do inferno não mais teriam sobre ela poder algum. Ora, o sacrifício deste Cordeiro sem mancha era necessário para abrandar a justiça de Deus irritado contra o homem pecador. Deixando a Sua humanidade sentir todas dores, esta Vítima divina foi tão aterrada por um acervo de males tão espantoso, que desfaleceu dele. Teria querido distanciar dos Seus lábios um cálice tão amargo. Mas a vontade de Seu Pai e o amor do homem que devia remir, triunfaram nEle toda a repugnância e submeteu-Se dirigindo a Seu Pai estas humildes palavras “Que a Vossa vontade seja feita e não a Minha”. Assim, Aquele que devia pelo tempo adiante conceder aos mártires tão prodigiosas consolações para aliviar seus sofrimentos, obrou prodígios para aumentar os Seus.

Que dizes tu agora, Minha filha, imitas esta resignação, tu que não podes sofrer a menor dor? Confunda-te a tua extrema repugnância em sofrer enquanto tanto o mereces por causa dos teus pecados.

II. Mas esta agonia, ó Minha filha, nada era a par da angústia opressiva em que O lançaram os teus pecados. Neste momento todas as iniqüidades passadas e futuras, que a Sua presciência divina Lhe tornava presentes, pesaram sobre Ele com tanto peso e força que, oprimido sob esse peso, suou um suor de sangue e água, e a Sua alma foi contristada até se sentir morrer. Pensa, ó Minha filha, na confusão que sentirias se te visses de súbito coberta em público das manchas e infâmias de outrem, e compreenderás qual foi a confusão do Meu divino Filho. Ele que conhecia perfeitamente toda a torpeza do pecado, que, como Deus de santidade, como santidade por essência, tinha por eles um horror-infinito, comparecer coberto de pecados em presença dos anjos e do Seu divino Pai! Quem pode conceber o horror e a vergonha que o Seu coração devia sentir!

Mas demais conhecia Ele a maldade infinita do pecado e concebeu dela uma dor proporcionada para compensar a ofensa feita à majestade infinita de Deus.

A dor dos pecados compreendida no momento por Meu divino Filho, excede, pois muito o arrependimento que têm se tido todos os penitentes, e os Seus sofrimentos ultrapassaram dum modo indizível todos os sofrimentos padecidos pelos mártires nos seus suplícios. Calcula agora Minha filha, se podes, o imenso peso de dores, tormentos e angústias que Ele suportou. Oh! que grande parte têm tido as tuas impiedades nesta dolorosa agonia. Enquanto uma compaixão natural leva a aliviar as dores dos que sofrem, tu não te tens aplicado até ao presente senão aumentar as de Jesus por teus contínuos pecados. Sejam-te eles confusão e vergonha, ó Minha filha, e chora a Seus pés tua crueldade.

III. Estes amargos sofrimentos teriam sido mitigados pela previsão da sua utilidade para homens reconhecidos. Mas Ele previa, sabia claramente que o Seu sangue correria sem fruto para uma infinidade de pessoas, que não serviria mais que selar a sua eterna condenação, que a sua maldade transformaria em remédio divino em veneno mortal. Quem pode exprimir, ó Minha filha, quem pode imaginar a dor que este conhecimento Lhe ajuntou a todos os outros sofrimentos?

Ingratidão humana, como tu és monstruosa! Um Deus feito homem, que morre pelos homens Seus inimigos, a fim de conciliá-los com Deus; que paga pelo derramamento do Seu sangue um preço infinito, capaz de remi-los completamente, e que se vê desprezado, calcado aos pés por homens que persistem em serem Seus inimigos para sempre, ah! Eis aí, sobretudo, Minha filha, o que Lhe deu a beber a amargura: eis aí o que Lhe roubou toda a força e vigor, e que o faz cair por terra nessa inexprimível agonia, o que O fez lamentar-se assim: a Minha alma está triste até á morte. Teve necessidade da Sua onipotência para não expirar. Uma mãe que, depois de cruéis dores, dá ao mundo um belo menino cheio de vida anima-se e olvida todos os seus sofrimentos passados com a consolação que lhe faz sentir o nascimento desse filho. Mas que horrível dor, se, depois de ter sofrido tanto, apenas dá á luz uma criança morta!

Esta comparação não pode dar-te uma fraca idéia das angústias experimentadas pelo Meu divino Filho, que previa a morte, não duma alma, mas de milhões delas, que fazem por morrer eternamente. Minha filha, que previu Ele a teu respeito? Tens mitigado os Seus sofrimentos? Tens diminuído as suas penas fazendo-Lhe prever o teu arrependimento e a tua salvação eterna, ou tens-los aumentado sem medida, fazendo-Lhe prever a tua obstinação e condenação eterna?

Afetos. Ó Mãe compassiva, o meu coração comove-se de piedade quando penso acerca dos sofrimentos de meu Redentor agonizante no Jardim das Oliveiras. Mas estorce-se de dor quando medito que os meus pecados foram a causa disso.

Não posso deixar de me voltar para Ele e dizer-Lhe: - Ó meu Salvador agonizante, eis diante de Vós a mais indigna criatura, que até ao presente não tem feito mais que derramar o mais amargo fel no cálice da Vossa dolorosa Paixão. Por minha resistência às Vossas graças, por minhas traições e ingratidões, cujas Vós bem tínheis previsto, quanto não tenho aumentado o peso cruel dos Vossos sofrimentos?

Ó Salvador amorosíssimo, já que tanto tendes feito por uma ingrata que Vos não orava, e aumentava a Vossa cólera fazendo-Vos antever os crimes que devia cometer, escutai agora as súplicas que Vos dirige com um coração traspassado pela dor, e os olhos banhados pelas amargas lágrimas do arrependimento.

Perdoai-me todas as iniqüidades pelos merecimentos da Vossa agonia e desse sangue que derramastes para a minha redenção. Senhor, até ao presente não tenho sido senão muito cega e insensata. Mudarei de vida e de proceder para não mais afligir o Vosso amor, farei penitência dos meus erros passados.

Ó boa e terna Mãe que me assistis e instruis com tanta caridade, juntai às minhas lágrimas a Vossa intercessão e serei seguramente atendida.

(Maria falando ao coração das donzelas pelo Abade A.Bayle, 1917)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pensamento da noite de 29/12/2011


"Os trabalhos do corpo convém às mulheres: todas as obras de agulha e bordado, todos os diversos cuidados, que delas reclama o bem estar interior da família, de que são as protetoras naturais e obrigadas. Cumpre-lhes velar pelos objetos de que há necessidade seus maridos, e de lhos darem elas próprias; conservar e entreter em bom estado os vestidos às suas famílias; arranjar por suas próprias mãos, em caso de necessidade, o beber e o comer, e apresentá-los a seus maridos com a graça de uma afetuosa amenidade... Atuando assim, a saúde fortifica-se em um sábio equilíbrio, e Nosso Senhor ama as mulheres deste caráter; gosta de vê-las sempre preocupadas com trabalhos úteis, tomando o fuso e agulha... e não corando por darem, como Sara, aos viandantes fatigados, todos os cuidados de uma benévola hospitalidade." 

(São Clemente de Alexandria em Pedag. 1.3, c.10)

Discurso do Papa Pio XII aos cirurgiões

OS DEVERES DO CIRURGIÃO


Entre os múltiplos problemas que dizem respeito à cirurgia, talvez dominando toda esta matéria, está o fato que no exercício desta profissão tem-se entre as mãos, sob os instrumentos, pessoas humanas, o corpo vivente que é digno de todo respeito e tem o direito a todo cuidado. Também quando não está em jogo a própria vida; o cirurgião dispõe - e disto está plenamente consciente de duas grandes coisas: a integridade do corpo humano, a misteriosa realidade do sofrimento humano.

Em virtude desta íntima convicção o cirurgião submete-se a um estudo sério e constante, a fim de estar acuradamente informado dos progressos das ciências anatômicas e biológicas, dos métodos cirúrgicos que incessantemente se renovam e se aperfeiçoam com suas vantagens, mas por vezes
também com seus riscos. A isto servem a leitura dos livros e das revistas, as conferências, os congressos, tudo, juntamente com a assiduidade à prática cirúrgica, na qual se faz tesouro dos resultados da própria experiência, enriquecida pelas observações trocadas com os colegas.

Mas o simples estudo teórico, por quanto possa ser intenso, não é suficiente, se a ele não se adiciona outro trabalho, também este perseverante e contínuo, trabalho mais interior e profundo de formação e adestramento verdadeiramente pessoal, no exercício das faculdades intelectuais, das qualidades morais e psicológicas, das atitudes físicas, dos sentidos, dos dedos. De tudo isto ele mesmo sente viva necessidade, antes e durante a intervenção operatória.

a) Antes da intervenção. - Grave é a responsabilidade das determinações a serem tomadas. Os recursos da medicina todos foram usados, até o ponto em que poderiam parecer por si só eficazes? a operação parece necessária? quais os perigos que ela apresenta, mas de outra parte, a qual desventura exporia a abstenção da mesma? E ainda: o momento é oportuno? Convém diferir, ou pelo contrário é preciso apressar e agir rapidamente? Corre os riscos da urgência, ou os da indulgência? Qual atitude a ter na consulta com os médicos que curam? Cada qual, realmente, tem sua palavra a dizer; sobretudo em casos de problemas complexos; os pareceres podem ser discordes; e então, cada qual, embora sustentando a própria opinião, pode perceber a probabilidade das razões do outro. Quando porém tudo considerou, (compreendido o caráter moral do ato), o cirurgião não deve mais hesitar. Mas também depois de ter formado conscienciosamente e devidamente o seu juízo, permanece-lhe ainda um ofício bastante delicado a ser cumprido. Sem dúvida é sua obrigação fazer saber a utilidade ou a necessidade da operação, como também de indicar as incertezas que muitas vezes permanecem; mas até que ponto deve ele simplesmente sugerir, ou aconselhar, ou insistir junto do doente e da família? Como iluminá-los lealmente, embora usando os devidos resguardos e respeitando-lhes a liberdade?

Outros casos se apresentam, não queremos dizer mais embaraçantes, porque aqui o dever é claro, mas mais dolorosos, por causa das trágicas conseqüências, que por vezes derivam da observância daquele dever. São os casos nos quais a lei moral impõe o seu veto. Se se tratasse somente do cirurgião não seria talvez difícil fechar os ouvidos às sugestões de uma piedade mal-entendida e de dar lugar à razão contra a sensibilidade. Mas quantas vezes convirá reagir não somente contra as pretensões de um vulgar e torpe interesse, de uma inescusável paixão, bem como contra as angústias compreensíveis do amor conjugal ou paterno! E o princípio é inviolável. Deus somente é Senhor da vida e da integridade do homem, de seus membros, de seus órgãos, de suas potências, daquelas particularmente que o associam à obra criadora. Nem os genitores, nem os cônjuges, nem o interessado mesmo podem dispor livremente. Se é reprovável mutilar um homem, ainda que por seu insistente pedido, a fim de subtraí-lo do dever de combater pela defesa da pátria, ou matar um inocente para salvar outro, não é menos ilícito, seja até para salvar a mãe, causar diretamente a morte de um pequeno ser chamado, senão para a vida daqui debaixo, ao menos para a futura, a um alto e sublime destino, ou tornar árido e estéril, mediante uma operação que nenhum outro motivo justifica, as fontes da vida. Não é lícito colocar em risco a vida - suprimi-la, jamais - senão na esperança de tutelar um bem mais precioso, ou de salvar ou prolongá-la.

b) Durante a intervenção. - A sala operatória, linda, bem arrumada, fornecida de lâmpadas em profusão, está pronta; o preventivo exame do operando, acuradamente feito: a esterilização dos instrumentos e das mãos do operador e dos assistentes, perfeita; a anestesia ou analgesia, a preparação da pele do paciente, efetuada. Eis portanto agora inclinado sobre a mesa operatória, onde está o doente, o cirurgião. Ele está consciente de não ser mais, como em outros momentos, o anatomista da sala de dissecação, o perito do escalpelo ou do trépano, mas homem perante outro homem, que lhe foi inteiramente confiado.

Este drama íntimo, no fundo da alma, renova-se cada dia, em certas ocasiões, mais vezes por dia, com maior ou menor intensidade; drama que depois de muito tempo alquebra um homem de consciência e de coração, mas que dá à profissão o seu caráter sagrado.

E enquanto Nós oramos para que as mais abundantes graças celestes desçam sobre vós e vos assistam em todas as vossas intervenções, com efusão de coração damos-vos a vós, e às vossas famílias, e a quantos vos são caros, a Nossa Bênção Apostólica (1).

(I) Discurso aos cirurgiões, 21 de maio, 1948. 

Fonte: Livro Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Martins, 1959.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pensamento da noite do dia 28/12/2011


"Luta, isto é, não esqueças que, se 'a vida do homem é um combate', 
como diz a Escritura, a vida de uma jovem cristã deve ser
cheia de lutas também, e tanto mais numerosas quanto mais
profundamente apegada à sua fé e ao seu dever quiser ela ser. 
Lutas exteriores, lutas íntimas (as mais duras!). 
Seu coração será um verdadeiro campo de batalha, 
mas é isso que faz bem e que forja as almas!" 
(Padre J.Baeteman)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Admirável exortação de São Paulo à vida extática e sobre-humana


Mas enfim São Paulo formula o mais forte, o mais premente e o mais admirável argumento que, ao que me parece, foi jamais feito para nos levar todos ao êxtase e arroubo da vida e operação. Ouvi, rogo-vos, Teótimo, prestai atenção e pesai a força e eficácia das ardentes e célebres palavras desse apóstolo todo arroubado e transportado do amor de seu mestre. Falando, pois, de si mesmo (e outro tanto se deve dizer de cada um de nós), diz ele: A caridade de Jesus Cristo nos força (2 Cor 5, 14).

Sim, Teótimo, nada força tanto o coração do homem como o amor. Se um homem sabe que é amado por quem quer que seja, é forçado a amar reciprocamente; mas, se é um homem vulgar que é amado por um grande senhor, certamente é muito mais forçado; mas, se é por um grande monarca, quanto mais ainda não é ele forçado! E agora, pergunto-vos, sabendo que Jesus Cristo, verdadeiro Deus eterno, onipotente, nos amou até querer sofrer por nós a morte, e morte de cruz, ó meu caro Teótimo! isto não é ter os nossos corações sob o lagar, e senti-los premer à força e espremer deles amor por uma violência e coação que é tanto mais violenta quanto é toda amável e doce?

Mas como é que esse divino amante nos força? A caridade de Jesus Cristo nos força, diz o Seu apóstolo, considerando isto. Que quer dizer considerando isto? Quer dizer que a caridade do Salvador nos força principalmente quando nós avaliamos, consideramos, pesamos, meditamos e somos atentos a essa resolução da fé. Mas que resolução? Vede, rogo-vos, Teótimo, como ele vai gravemente fincando e empurrando sua concepção nos nossos corações: considerando isto, diz ele. E quê? Que, se um morreu por todos, logo todos morreram, e Jesus Cristo morreu por todos (2 Cor 5, 14). É verdade, por certo: se um Jesus Cristo morreu por todos, logo todos morreram na pessoa desse único Salvador que morreu por eles, e a morte desse Salvador lhes deve ser imputada, visto que foi aturada por eles e em consideração deles.

Mas que é que se segue disso? Parece-me que ouço aquela boca apostólica como um trovão que exclama aos ouvidos dos nossos corações; segue-se, pois, ó cristãos! aquilo que Jesus Cristo desejou de nós morrendo por nós. Mas que foi que ele desejou de nós, senão que nos conformássemos a Ele: a fim, diz o Apóstolo, de que os que vivem não mais vivam doravante para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou (Ib. 15).

Verdadeiro Deus! Teótimo, como essa conseqüência é forte em matéria de amor! Jesus Cristo morreu por nós, deu-nos a vida por Sua morte, nós só vivemos porque Ele morreu; Ele morreu por nós, para nós e em nós. Nossa vida já não é, pois, nossa, porém dAquele que no-la adquiriu por Sua morte: nós já não devemos, pois, viver para nós, mas para Ele; não em nós, mas nEle; não por nós, mas por Ele.

Uma menina da ilha de Sestos (Provavelmente Sestos, cidade da Trácia, sobre o Helesponto, defronte de Abidos. Geogr. Ant.) criara uma aguiazinha com os desvelos que as crianças costumam empregar em tais ocupações; ficando grande, a águia começou pouco a pouco a voar e a caçar os pássaros segundo o seu instinto natural; depois, tendo-se tornado mais forte, atirou-se sobre os animais selvagens, sem nunca deixar de trazer fielmente a sua presa à sua cara dona, como que em reconhecimento da criação que dela recebera. Ora, sucedeu que essa menina morreu um dia, enquanto a pobre águia estava na caça, e, segundo o costume daquele tempo e daquela terra, seu corpo foi colocado numa fogueira em público para ser queimado; mas, assim que a chama do fogo começava a envolvê-la, a águia sobreveio a grandes remígios, e, vendo aquele inopinado e triste espetáculo, transida de dor, abriu as garras e, abandonando a presa, veio lançar-se sobre a sua pobre e cara dona, e, cobrindo-a com suas asas, como para defendê-la do fogo, ou para abraçá-la por compaixão, ficou firme e imóvel, morrendo e ardendo corajosamente com ela; por não poder o ardor do seu afeto ceder o lugar às chamas e ardores do fogo, para se tornar vítima e holocausto do seu bravo e prodigioso amor, como sua dona o era da morte e das chamas.

Ah! Teótimo, que vôo nos faz alçar essa águia! O Salvador criou-nos desde a nossa tenra juventude, assim nos formou e recebeu, como uma amável ama, nos braços da Sua divina providência, desde o instante da nossa concepção. Tornou-nos Seus pelo batismo, e criou-nos ternamente, segundo o coração e segundo o corpo, por um amor incompreensível; e, para nos adquirir a vida, suportou a morte, e alimentou-nos da Sua própria carne e do Seu próprio sangue. Oh! que resta então? que conclusão temos nós mais a tirar, meu caro Teótimo, senão que os que vivem não vivam mais para si mesmos, senão para Aquele que morreu por eles (2 Cor 5, 15)? isto é, que consagremos ao divino amor da morte de nosso Salvador todos os momentos da nossa vida, trazendo à Sua glória todas as nossas presas, todas as nossas conquistas, todas as nossas obras, todas as nossas ações, todos o nossos pensamentos e todos os nossos afetos.

Vejamo-lO, Teótimo, esse divino Redentor estendido na cruz como na Sua fogueira de honra, onde morre de amor por nós, porém de um amor mais doloroso do que a própria morte, ou de uma morte mais amorosa do que o próprio amor. Oh! por que não nos lançamos em espírito sobre Ele, para morrermos na cruz com Ele, que por amor de nós se dignou de morrer? Segurá-lO-ei, deveríamos nós dizer se tivéssemos a generosidade da águia, e nunca O deixarei; morrerei com Ele e arderei dentro das chamas do Seu amor: um mesmo fogo consumirá esse divino Criador e a Sua mesquinha criatura.

Meu Jesus é todo meu, e eu sou toda dEle (Cânt 3, 16), viverei e morrerei sobre Seu peito, nem a morte nem a vida me separará jamais dEle (Rom 8, 38-39). Assim, pois, se faz o santo êxtase do verdadeiro amor quando já não vivemos segundo as razões e inclinações humanas, porém acima delas, segundo as inspirações e instintos do divino Salvador de nossas almas.

(Tratado do amor de Deus, São Francisco de Sales, páginas 368ª 371)
PS.: Grifos meus.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Pensamento dia 26/12/2011

Seguir a Cristo pelo caminho certo


Santo Atanásio (295-373), 
bispo de Alexandria, doutor da Igreja 
Vida de Santo Antão, 19-20

Um dia, os monges vieram ter com Antão e pediram-lhe que lhes dirigisse a palavra. Ele respondeu-lhes:

"Eis que começamos a avançar pela estrada da virtude; continuemos agora em frente, a fim de atingirmos a meta (Fil 3, 14). Que ninguém olhe para trás como a mulher de Lot (Gn 19, 26), porque o Senhor disse: 

“Quem mete a mão ao arado e olha para trás não é apto para o Reino dos Céus.” Olhar para trás não mais é do que alterar o próprio objetivo e retomar o gosto pelas coisas deste mundo. Nada receeis quando ouvirdes falar da virtude, nem vos espanteis com esta palavra. Porque a virtude não está longe de nós, nem nasce fora de nós; é coisa que nos diz respeito, e é simples, desde que o queiramos.

Os pagãos deixam o seu país e atravessam os mares para irem estudar letras. Nós não temos necessidade de abandonar o nosso país para ir para o Reino dos Céus, nem de atravessar o mar para adquirir a virtude. Porque o Senhor disse: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17, 21). A virtude apenas precisa, pois, do nosso querer, dado que está em nós e nasce de nós. Se a alma conserva a parte inteligente que é conforme à sua natureza, a virtude pode nascer. A alma encontra-se no seu estado natural quando permanece tal como foi feita; e foi feita muito bela e muito reta. Era por isso que Josué, filho de Nun, dizia:

“Inclinai os vossos corações para o Senhor, Deus de Israel” (Jos 24, 23). E João Baptista: “Endireitai as suas veredas” (Mt 3, 3). Para a alma ser reta consiste em manter a sua inteligência tal como foi criada. Quando, pelo contrário, se desvia do seu estado natural, nessa altura fala-se do vício da alma. Não se trata, pois, de uma coisa difícil… Se tivéssemos de procurá-la fora de nós, seria realmente difícil; mas, visto que está em nós, evitemos os pensamentos impuros e guardemos a alma para o Senhor, como se tivéssemos recebido um depósito, a fim de que Ele reconheça a nossa obra, encontrando a nossa alma tal como a fez."

O zelo na Provação


Para a Véspera- À medida que na provação se desenrolam os desígnios de Deus, vemo-los crescerem e elevarem-se. Teremos que meditar sobre este assombroso privilégio: com as nossas provações bem suportadas, poderemos socorrer eficazmente as almas. Este poder será reservado às grandes virtudes? Pertence também, em certa medida, às almas imperfeitas?

Os planos de Deus são vastos; sabem harmonizar tudo. Ora, como as almas em estado de graça, mesmo as mais imperfeitas, vivem realmente da sua vida, será para admirar que Ele estabeleça entre elas influências de mútuo socorro? Irem em auxílio dos outros é um nobre motivo, um estímulo para todos.

Ó Maria, que pelo Vosso abandono merecestes para nós tantas graças, tantos socorros, permiti ao Vosso indigno filho que se associe conVosco nesse belo ministério.

Meditação

Jesus - Alma experimentada, alma fiel, alma querida, do Meu coração, põe ponto nas tuas queixas, vou anunciar-te uma grande alegria.

Os sentimentos que motivam os teus desgostos, fica-o sabendo, entram nos Meus desígnios redentores. Não é só em atenção ao teu bem que te envio a provação, é também com a mira no bem das almas. Os teus sofrimentos são expiações pelos pecadores, socorro aos fracos, fontes de resignação para as almas que a aflição faz desfalecer. A provação de Minha mãe, como sabes, teve esse nobre fim, em teu favor. O que Ela fez por ti, procura tu fazê-lo pelos outros. Se Minha mãe só depois conheceu tão elevado desígnio, não te admires; gosto de ocultar à alma o que poderia atenuar o rigor da provação. Tomo então o seu lugar, oferecendo Eu mesmo o que ela não pode oferecer.

Quando uma alma está Comigo, tudo que é dela Me pertence; quando ela pôs todas as suas intenções nas Minhas, essas intenções pertencem-Me também; e, sem lho dizer, aplico-as à Minha vontade; foi assim que, por Meu intermédio, Minha Mãe ofereceu então os Seus méritos por ti.

Mais tarde, e espontaneamente, Ela ratificou essa oferenda. Faze como Ela. Tão grande o edifício que construíram já as tuas penas, que, se o visses, não sofrerias mais. No Céu te revelarei tudo.

A alma- Estou maravilhada, ó meu Jesus adorável! Enquanto eu vivo fria, insensível, impotente, Vós sabeis tirar desta nulidade, desta miséria, riqueza para outras almas, e dignai-Vos tomar Vós mesmo o que eu não saberia, o que nunca me atreveria a oferecer-Vos... Oh! sim, pegai nesses pobres méritos, de mãos abertas, e sem contar. Antes de dispordes deles, guardai-os algum tempo em Vosso coração ardente para os tornardes fecundos.

Poderei acreditar em semelhante privilégio?

Nada me pode admirar, vindo dum coração como o Vosso. O meu pertence-Vos por completo. Estou imensamente grata por haverdes contado com ele. Oh! fazei com que possa haurir no pensamento desse sublime papel, não a consolação, mas a coragem; deixai-me as obscuridades das minhas dúvidas, dos meus tormentos; multiplicai-os mesmo na medida dos auxílios que me destinais; não aspiro a outras luzes, a outras alegrias, que não sejam as que me preparais no Céu. Cá na terra, não quero ver, quero crer; não quero gozar, prefiro sofrer conVosco, por Vós e pelas almas que amais.

No entanto, se Vos aprouver fazer sentir ao meu coração a Vossa doce presença, não buscarei nela avidamente o repouso e a alegria, mas sim o meio de Vos dar mais ainda. O coração dilatado é mais rico, mais expansivo, mais forte; o coração saturado de consolações sente mais dolorosamente a angústia das almas. Se a amargura é mais fecunda que a alegria... escolho-a.

Outra alma- Não sou, infelizmente, uma dessas almas fiéis, às quais, ó Jesus, se aplicam essas promessas. A frieza é em mim um estado normal e não uma provação. Importam-me pouco as faltas ligeiras, abandono os meus exercícios de piedade, prefiro as minhas comodidades.

Numa palavra, sou tíbia... No entanto, desejaria ser amada por Vós, ó Jesus! É certo que, nesse amor, o que eu procuro é o gozo que nele se encontra e que já me fizestes sentir algumas vezes; só penso em mim! Que poderei fazer pelas outras almas? As minhas penas, que são castigos, e não acharão lugar em Vossos desígnios redentores?

Jesus- Pobre filha, tu não conheces o valor e o poder da graça. Concordo em que foste imperfeita e culpada. As tuas perturbações interiores, as tuas obscuridades e friezas são a tua punição; mas suporta-a sem queixume. Ela apagará os teus agravos, purificar-te-á e, já sabes, aumentará igualmente os teus méritos. E, fica-o sabendo hoje: tem um alcance mais vasto ainda.

Como a das almas belas, pode ser útil aos pecadores, aos imperfeitos, aos fracos... Vejo-te levantar a cabeça e interrogar-Me com o olhar. Duvidas da Minha afirmação? Escuta: tu não conheces, não podes conhecer o valor e o poder da graça. A oferta das tuas penas é um ato inspirado por ela, preenchido por ela: é sobrenatural. O Espírito Santo envolve-o dum perfume divino: é Ele que o provoca, Ele que o fomenta e remata... Para produzi-lo, faz passar para ti um pouco da Minha seiva; é nos Meus méritos que Ele colhe, é a Meu pedido que procede... Compreendes agora o valor, o poder das tuas penas bem suportadas?

Comigo, salvas as almas!... Que este favor imprevisto possa levantar-te aos teus próprios olhos!

Que ele te inspire resoluções generosas! Que ele espalhe também sobre os teus desgostos um raio benéfico de alegrias elevadas e puras!

Afetos- Vivo reconhecimento; admiração, louvor e confusão: eu a salvar as almas por meio duma punição merecida! - corroborar as almas eu que sou tão fraco! - ajudar as almas a elevarem-se, eu que permaneço na minha baixeza!
Vivos desejos. - Orações. - Resoluções.

(Meditações Afetivas e Práticas sobre o Evangelho, Tomo I, pelo cônego Beaudenom)

PS.: Grifos meus. 

domingo, 25 de dezembro de 2011

Discurso do Papa Pio XII sobre o Rosário

Rosário

São Domingos de Gusmão
O rosário, segundo a etimologia própria da palavra, é uma coroa de rosas; encantadora coisa, que em todos os povos representa uma oferta de amor e um sinal de alegria. Mas estas rosas não são aquelas das quais se adornam apressadamente os ímpios, dos quais fala a Sagrada Escritura "Coroemo-nos de rosas - exclamam eles -, antes que murchem". As flores do rosário não se envilecem; o seu frescor é incessantemente renovado pelas mãos dos devotos de Maria, e a diversidade das idades, dos países e das línguas dá àquelas rosas a variedade de suas cores e de seus perfumes.

Queremos que aumente a devoção ao Santo Rosário de Maria, devoção a que a piedade ligou-se por tantas recordações e que se harmoniza tão bem com todas as circunstâncias da vida doméstica, com todas as necessidades e disposições de cada membro da família.

Rosário dos novos esposos, que um ao lado do outro recita na aurora da nova família, diante da vida que se abre com as suas alegres previsões mas também com os seus mistérios e com as suas responsabilidades. É tão doce na alegria destes primeiros dias de intimidade total colocar em tal modo esperanças e propósitos do futuro sob a proteção de Virgem toda pura e potente, da Mãe amante e misericordiosa, cujas alegrias, dores e glórias passam diante dos olhos da alva devota, enquanto se seguem as dezenas de ave-marias, rememorando os exemplos da mais santa das famílias!

Rosários das crianças; rosário dos pequenos, que tendo entre os seus minúsculos dedos ainda inexperientes os grãos da coroa, repetem lentamente, com aplicação e esforço, mas também com amor, os pai-nossos e ave-marias, que a mãe pacientemente lhes ensinou, errando, é verdade por vezes hesitem, confundem-se; mas é tão confiante o candor de seus olhares que fixam sobre a Imagem de Maria, daquela na qual já sabem reconhecer a sua grande Mãe do céu! Pois será o rosário da primeira comunhão, que tem um lugar a parte entre as recordações daquele grande dia; belo, mas não tanto quanto, por vezes devem ser. Belo rosário, mas não apenas um vão objeto de luxo, mas pelo contrário o instrumento que ajuda a orar e lembra, tornando presente ao pensamento: Maria.

Rosário da jovem, já grande, alegre e serena, mas, ao mesmo tempo, séria e pensativa do seu futuro; que confia a Maria, Virgem Imaculada, prudente e benigna, os desejos de dedicação e o dom de si, que ela sente desabrochar no coração; ora por aquele jovem, ainda desconhecido para ela mas conhecido por Deus, que a Providência lhe destina, e ela queria semelhante a si cristão fervoroso e generoso.

Este rosário, que ama recitar aos domingos, juntamente com as suas companheiras, devera durante a semana recitá-lo talvez entre os cuidados da casa, ao lado da mãe, ou entre as horas de trabalho no escritório ou no campo; quando tiver um momento para ir à humilde igreja mais próxima.

Rosário do jovem, aprendiz, estudante, agricultor, que se prepara, trabalhando corajosamente, para ganhar um dia o pão para si e para os seus, coroa que ele conserva preciosamente, como uma proteção daquela pureza que quer levar intata ao altar no dia das núpcias; rosário que recita sem respeito humano nos momentos livres para o recolhimento e a oração; que o acompanha sob o uniforme militar, em meio das fadigas e das lutas da guerra, que aperta uma última vez, no dia em que a pátria talvez lhe peça o supremo sacrifício, e que os seus companheiros de armas encontrarão comovidos entre os seus dedos frios e sangrando.

Rosário da mãe de família, da operária ou da camponesa; simples, sólido usado já desde muito tempo, que ela não poderá talvez pegar senão à tarde quando, bem cansada de sua jornada, encontrará ainda em sua fé e no seu amor a força de recitá-lo, lutando com o sono, para todos os seus caros, por aqueles especialmente que sabe mais expostos a perigos da alma ou do corpo que teme tentados ou aflitos, que vê com tanta tristeza se afastarem de Deus. Rosário da mulher do mundo, talvez mais rica, mas muitas vezes carregada de preocupações e de angústias ainda mais pesadas.

Rosário do pai de família, do homem trabalhador e enérgico, que jamais esquece de trazer consigo a sua coroa, juntamente com a caneta-tinteiro e o caderninho de notas; que, grande professor, renomado engenheiro, célebre clínico, advogado eloqüente, genial artista, agrônomo experiente, não se envergonha de recitá-lo com devota simplicidade nos breves momentos arrancados à tirania do trabalho profissional, para ir retemperar a alma de cristão na paz de uma igreja, aos pés do tabernáculo.

Rosário dos velhos; velha vovó, que faz incansavelmente correr as contas entre os dedos enrugados, no fundo da igreja, até quando ela para ali puder arrastar-se com suas pernas enrijecidas, ou durante as longas horas de forçada imobilidade sobre a cadeira, ao lado do fogão. Velha tia, que todas as suas forças consagrou ao bem da família, e agora, aproximando-se o término de sua vida, toda empregada em boas obras, alterna, inexaurivelmente, em sua dedicação, os pequenos serviços que ainda pode prestar, com as numerosas dezenas de ave-marias, que diz sem cessar, com o seu terço.

Rosário do moribundo, nas horas extremas, como um último apoio apertado em suas mãos trementes, enquanto ao lado os seus caros o recitam em voz baixa; rosário que permanecerá sobre o peito dele, juntamente com o crucifixo, para atestar a sua confiança nas misericórdias divinas e na intercessão da Virgem, da qual estava pleno aquele coração que cessou de bater.

Rosário, finalmente, da família inteira, recitado em comum por todos, pequenos e grandes; que reúne à tarde, aos pés de Maria, aqueles que o trabalho do dia tinha separado e disperso; que os reúne com os ausentes e os desaparecidos; a recordação se reaviva em uma oração fervorosa, que consagra deste modo a ligação que os reúne todos sob o cuidado materno da Imaculada Rainha do Santíssimo Rosário.

Em Lourdes, como em Pompéia, Maria quis mostrar, com inumeráveis graças, quanto Lhe é agradável esta oração, à qual Ela convida Sua confidente Santa Bernadette, acompanhando as ave-marias da criança, com o lento correr de seu belo rosário, reluzente como as rosas de ouro que brilhavam sobre seus pés (1).

(1) Discurso aos esposos, 24 de novembro e 8 de outubro, 1941.

Fonte: Livro Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Martins, 1959. 

PS.: Grifos meus.

Pensamento do dia 25/12/2011

Olhar do divino Infante 


"Ó Jesus, preciso de que me anime, 
o sorriso dos Vossos lábios; a Vossa confiança será a minha força, 
o Vosso contentamento será a minha alegria. 
Nada custa quando se é amado e quando se ama... 
Dizei-mo por meio dum desses olhares que tão fundo penetram na alma. 
Ó minha alma prolonga a tua contemplação... 
O olhar do divino Infante será sempre muito vago 
para aqueles que O fitam apenas de passagem..." 

(Cônego Beaudenom)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Discurso do Papa Pio XII para os médicos

Nota  do blogue: Segue um discurso do Papa Pio XII sobre os deveres dos médicos.



OS DEVERES DOS MÉDICOS

Diverso de seus colegas, em elegantes cabeleiras, que na famosa "Lição de Anatomia", de Rembrandt, parecem estar solícitos sobretudo por transmitir seus lineamentos à posteridade, um daqueles personagens atrai a atenção de quem o contempla pela viveza e profundidade de sua expressão.

Hirto o vulto, retendo a respiração, ele imerge o olhar no corte aberto, ansioso por ler o segredo daquelas vísceras, ávido de arrancar à morte os mistérios da vida. Ciência admirável já em seu próprio campo, por tudo aquilo que revela, a anatomia possui a virtude de introduzir a mente em regiões ainda mais vastas e elevadas. Bem o sabia, bem o sentia, o grande Morgagni, quando durante uma dissecção, deixando cair de suas mãos o bisturi, exclamou: "Ah, se eu pudesse amar a Deus, como o conheço!" Se a Anatomia manifesta a potência do Criador no estudo da matéria, a Fisiologia penetra nas funções do maravilhoso organismo, a Biologia aí descobre as leis da vida, suas condições, exigências e suas generosas liberalidades.

Artes providenciais, a Medicina e a Cirurgia aplicam todas estas ciências para defender o corpo humano, tão frágil quanto perfeito, para reparar suas perdas, para curar suas enfermidades. Ademais, o médico, mais que outros, em toda parte intervém não menos com seu coração do que com sua inteligência; não trata uma matéria inerte, se bem que preciosa: um homem como ele, seu semelhante, um seu irmão sofre entre suas mãos. Ainda mais, este paciente não é uma criatura isolada; é uma pessoa que tem seu posto e seu encargo na família, sua missão, seja embora humilde, na sociedade.

E ainda, o médico cristão não perde jamais de vista que o seu doente, o seu ferido, que, graças aos seus cuidados, continuará a viver por um tempo mais ou menos longo ou, não obstante suas dedicações sucumbirá, está a caminho de uma vida imortal e, portanto, também dele, médico, depende a infelicidade ou a bem-aventurança eterna deste enfermo.

***

Composto de matéria e de espírito, ele próprio elemento da ordem universal dos seres, o homem é realmente orientado em sua corrida daqui debaixo, para uma meta acima da natureza. Desta compenetração da matéria e do espírito na perfeita unidade do composto humano, desta participação ao movimento de toda a criação visível, segue-se que o médico é muitas vezes chamado para dar conselhos, para tomar determinações, para formular princípios, que, mirando embora diretamente a cura do corpo, de seus membros e órgãos, interessam, entretanto, a alma e suas faculdades, os destinos sobrenaturais do homem e sua missão social.

Ora, sem ter sempre presente no pensamento esta composição do homem, seu lugar e encargo na ordem universal dos seres, seu destino espiritual e sobrenatural, o médico facilmente correrá o risco de implicar-se nos prejuízos mais ou menos materialistas, de seguir as conseqüências fatais do utilitarismo, do hedonismo, de autonomia absoluta da lei moral.

Um capitão pode saber muito bem dar instruções precisas sobre como manobrar a máquina ou dispor para a navegação a vela; se porém não conhece a meta, ou não sabe pedir aos seus instrumentos ou às estrelas, que brilham sobre sua cabeça, a posição e a rota de seu navio, aonde irá conduzi-lo a sua doida corrida?

Mas este conceito de ser e de fim abre o caminho às mais elevadas considerações.

A complexidade daquele composto de matéria e de espírito, como igualmente daquela ordem universal, é tal que o homem se não pode dirigir para o fim total e único de seu ser e de sua personalidade, senão com a ação harmoniosa de suas múltiplas faculdades corporais e espirituais, e não pode manter seu lugar nem isolando-se do resto do mundo, nem tornando-se anônimo, como em uma aglomeração amorfa milhares de moléculas idênticas se perdem. Ora esta complexidade real, esta harmonia necessária oferecem suas dificuldades, ditam ao médico seu dever.

Formando o homem, Deus regulou cada uma de suas funções; distribuiu-as entre os diversos órgãos; determinou com isto mesmo a distinção entre aqueles que são essenciais à vida e aqueles que não interessam a não ser à integridade do corpo, conquanto preciosa sua atividade, seu bem-estar, sua beleza; fixou ao mesmo tempo, prescreveu e limitou o uso de cada um; não pode portanto permitir ao homem ordenar sua vida e as funções de seus órgãos a seu talante, de modo contrário aos escopos internos e imanentes a eles assinalados. O homem realmente não é o proprietário, o senhor absoluto de seu corpo, mas somente possui o usufruto do mesmo. Disto deriva uma série de princípios, de normas, que regulam o uso e o direito de dispor dos órgãos e dos membros do corpo e que se impõem igualmente ao interessado e ao médico chamado a aconselhá-lo.

***

As mesmas regras devem, ademais, dirigir a solução dos conflitos entre interesses divergentes, segundo a escala dos valores, salvos sempre os mandamentos de Deus. Portanto jamais será permitido sacrificar os interesses eternos aos bens temporais, ainda entre os mais dotados, como também não será lícito pospor estes últimos aos vulgares caprichos e às exigências das paixões. Em tais crises, por vezes trágicas, o médico se encontra, muitas vezes, na urgência de ser o conselheiro e quase o árbitro qualificado.

Também circunscritos e restritos à própria pessoa, tão complexa em sua unidade, os conflitos inevitáveis entre interesses divergentes fazem surgir problemas bastante delicados.

Quão árduos são ainda aqueles que a sociedade levanta, quando faz valer os direitos sobre o corpo, sobre sua integridade, sobre a própria vida do homem! Ora, é por vezes difícil determinar em teoria os limites; na prática, o médico, não menos do que cada indivíduo interessado diretamente, pode encontrar-se na necessidade de examinar e analisar tais exigências e pretensões, de medir e avaliar a moralidade delas, e a força ética obrigante das mesmas.

***

Aqui, razão e fé traçam os limites entre os direitos respectivos da sociedade e do indivíduo. Sem dúvida, o homem é, por sua própria natureza, destinado a viver em sociedade; mas como também ensina sua razão, em linha de máxima, a sociedade é feita para o homem, e não o homem para a sociedade. Não dela, mas do próprio Criador, ele tem o direito sobre o próprio corpo e sobre sua vida, e ao Criador responde pelo uso que disto fizer. Disto se deduz que a sociedade não pode privá-lo diretamente daquele direito, até que se não tenha tornado punível de uma tal privação, por um grave e proporcionado delito.

Em que diz respeito ao corpo, à vida e à integridade corporal dos indivíduos, a posição jurídica da sociedade é essencialmente diversa da dos indivíduos. Embora limitado, o poder do homem sobre seus membros e órgãos é um poder direto, porque estes são partes constitutivas do seu ser físico.

Está claro que não tendo suas diferenças em uma perfeita unidade, outro escopo senão o bem do organismo físico total, cada um destes órgãos e destes membros pode ser sacrificado, se coloca o conjunto em perigo que não poderia ser esconjurado de outro modo. Diverso é o caso da sociedade, que não é um ser físico, cujas partes seriam os indivíduos racionais, mas uma simples comunhão de fins e de ações; por qual título poderá ela exigir daqueles que a compõem, e são chamados seus membros, todos os serviços necessariamente requeridos pelo verdadeiro bem comum?

Tais são as bases sobre as quais se deve fundar todo e qualquer juízo acerca do valor moral dos atos e das intervenções permitidas ou impostas pelos poderes públicos, sobre o corpo humano, a vida e a integridade da pessoa.

***

As verdades até agora expostas podem ser conhecidas apenas com a luz da razão. Existe porém uma lei fundamental, que se apresenta ao olhar do médico, mais do que aos dos outros, e cujo íntegro sentido e fim, somente pela luz da Revelação pode ser iluminada e manifestada; queremos aludir à dor e à morte.

Sem dúvida a dor física tem também uma natural e salutar função; é um sinal de alarma, que demonstra o nascimento e o desenvolver-se, por vezes insidioso, do mal oculto, e induz e leva a procurar o remédio. Mas o médico inevitavelmente encontra a dor e a morte no curso de seus estudos científicos, como um problema, do qual seu espírito não possui a chave, e no exercício de sua profissão, como uma lei iniludível e misteriosa, diante da qual muitas vezes sua arte permanece impotente e estéril sua compaixão.

Pode, é verdade, estabelecer seu diagnóstico, segundo todos os elementos do laboratório e da clínica, formular seu prognóstico segundo todas as exigências da ciência; mas no fundo de sua consciência, de seu coração de homem e de cientista, sente que sua explicação daquele enigma se obstina em fugir-lhe. Sofre; a angústia o atormenta inexoravelmente, enquanto não pede à fé uma resposta, que, embora não completa, qual é no mistério dos desígnios de Deus, que se tornará clara na eternidade, é suficiente entretanto para tranqüilizar seu espírito.

Eis tal resposta. Deus, criando o homem, tinha-o, por dom de sua graça, isentado daquela lei natural de todo vivente corpóreo e sensível, não querendo colocar em seu destino a dor e a morte; o pecado os introduziu. Mas Ele, o Pai das misericórdias, tomou-as em suas mãos, fê-las passar pelo corpo, pelas veias, pelo coração de seu Filho dileto, Deus como Ele, feito homem para ser o Salvador do mundo. Assim a dor e a morte tornaram-se para cada homem, que não renega Cristo, meios de redenção e de santificação. Assim o caminho do gênero humano, que se desenvolve em toda sua amplidão sob o sinal da Cruz e sob a lei da dor e da morte, enquanto matura e purifica a alma aqui embaixo, a conduz à felicidade sem limites de uma vida que não tem fim.

Sofrer, morrer: é realmente, para usar a audaz expressão do Apóstolo das gentes, a "estultice de Deus", estultice mais sábia do que toda a sabedoria dos homens. Ao pálido clarão de sua débil fé o pobre poeta pode cantar: "L'homme est un apprenti, la douleur est son maitre, - Et nul ne se connait tant quil n’a pas souffert". A luz da revelação o pio autor da Imitação de Cristo pode escrever o sublime capítulo décimo segundo de seu segundo livro "De regia via sanctae Crucis", todo refulgente da mais admirável compreensão e da mais alta sabedoria cristã da vida. Diante, pois, do imperioso problema da dor, qual resposta o médico poderá dar a si mesmo? qual ao infeliz, que a enfermidade abate em seu fechado torpor, ou que insurge em vã rebelião contra o sofrimento e a morte? Somente um coração penetrado de uma viva e profunda fé saberá encontrar acentos de íntima sinceridade e convicção capazes de fazer aceitar a resposta do próprio Divino Mestre: É necessário sofrer e morrer, para entrar assim na glória. Ele lutará com todos os meios e expedientes da ciência e de sua habilidade contra a doença e a morte, não com a resignação de um desesperado pessimismo, nem com uma exasperada decisão, que uma moderna filosofia crê dever exaltar, mas sim com a calma serenidade de quem vê e sabe o que a dor e a morte representam nos desígnios salvadores do onisciente e infinitamente bom e misericordioso Senhor.

***

É portanto claro que a pessoa do médico, como toda sua atividade, se movem constantemente no âmbito da ordem moral e sob o império de suas leis. Em nenhuma declaração, em nenhum conselho, em nenhuma providência, em nenhuma intervenção, o médico pode encontrar-se fora do terreno da moral, desvencilhado e independente dos princípios fundamentais da ética e da religião; nem há ato algum ou palavra, dos quais não seja responsável diante de Deus e de sua própria consciência.

É verdade que alguns repelem como absurdo e quimera, em teoria e na prática, o conceito de uma "ciência médica cristã". Segundo o que pensam, não pode existir uma medicina cristã, do mesmo modo que não existe uma física ou química cristãs, quer sejam teóricas, quer aplicadas: o domínio das ciências exatas e experimentais - dizem - estende-se fora do terreno religioso e ético e por isto não conhecem nem reconhecem senão suas próprias leis imanentes. Estranha e injustificada restrição no campo visual do problema! Não vêem eles que os objetos daquelas ciências não estão isolados no vácuo, mas fazem parte do mundo universal dos seres; têm na ordem dos bens e dos valores um determinado lugar e grau; estão em permanente contato com os objetos de outras ciências, e em particular estão sob a lei da imanente e transcendente finalidade, que os liga em um todo ordenado?

Admitamos porém que, quando se fala de orientação cristã das ciências, tenha-se em vista não somente a ciência em si mesma, mas também em seus representantes e cultores, nos quais vive, desenvolve-se e manifesta-se. A Física também, e a Química, que os cientistas e os professores conscienciosos fazem servir em vantagem e em benefício dos indivíduos e da sociedade, possam tornar-se, em mãos de homens perversos, agentes e instrumentos de corrupção e de ruína. Tanto mais que é claro que na medicina o interesse supremo da verdade e do bem opõe-se a uma pretendida liberação objetiva ou subjetiva de suas múltiplas relações e vínculos, que a mantém na ordem geral.

Tivemos já ocasião de expor uma série de considerações em torno do Decálogo, das quais esperamos que também os médicos católicos possam tirar alguns úteis ensinamentos para o exercício de sua profissão.

***

O maior de todos os mandamentos é o amor: o amor de Deus, e, dimanando dele, o amor do próximo. O verdadeiro amor, iluminado pela razão e pela fé, não torna cegos, mas muito mais clarividentes os homens, nem jamais o médico católico poderá encontrar melhor conselheiro do que neste verdadeiro amor, ao ditar seus diagnósticos ou ao assumir e conduzir até o fim a cura de um doente: "Dilige, et quod vis fac": esta afirmação de Sto. Agostinho, axioma incisivo - muitas vezes citado fora de propósito, - encontra sua plena e legítima aplicação. Que recompensa será para o médico consciencioso ouvir no dia da eterna retribuição o agradecimento do Senhor: "Estava enfermo e me visitaste". Tal amor não é débil, não se presta a qualquer diagnóstico complacente; é surdo a todas as vozes das paixões que desejariam conseguir sua cumplicidade; está pleno de bondade, sem inveja, sem egoísmo, sem ira; não goza pela injustiça; tudo crê, tudo espera, tudo suporta; assim o Apóstolo das gentes pinta a caridade cristã, em seu admirável hino de amor.

***

O quinto mandamento - não matarás - esta síntese dos deveres que dizem respeito à vida e à integridade do corpo humano, é fecundo de ensinamentos, tanto para o docente sobre a cátedra universitária, como para o médico exercendo sua profissão. Até quando um homem não é culpado, sua vida é intangível, e é, portanto ilícito todo ato tendendo diretamente destruí-la, quer se trate de uma vida embrional, ou de uma vida em seu pleno desenvolvimento, ou tenha já chegado ao seu termo. Da vida de um homem, não réu de delito punível com a pena de morte, somente Deus é senhor! O médico não tem direito de dispor nem da vida da criança, nem da vida da mãe; e ninguém no mundo, nenhuma pessoa privada, nenhum poder humano, pode autorizá-lo à direta destruição da criança, ou da mãe. Sua obrigação não é a de destruir a vida, mas de salvá-la. Princípio fundamental e imutável, que a Igreja no curso dos últimos decênios se viu na necessidade de proclamar repetidas vezes e com toda clareza contra opiniões e métodos opostos. Nas resoluções e nos decretos do magistério eclesiástico o médico católico encontra a tal propósito um guia seguro para seu juízo teórico e sua conduta prática.

***

Mas há na ordem moral um vasto campo, que requer no médico uma particular clareza de princípios e segurança de ações; é aquele no qual fermentam as misteriosas energias imersas por Deus no organismo do homem e da mulher, para que surjam novas vidas. É uma potência natural, cuja estrutura e formas essenciais de atividade foram determinadas pelo próprio Criador, com um fim preciso e com correspondentes deveres, aos quais o homem está submetido em todo e qualquer uso consciente da referida faculdade. O escopo primário (ao qual os fins secundários são subordinados essencialmente) desejado pela natureza neste uso é a propagação da vida e da educação da prole. Somente o matrimônio, regulado por Deus mesmo, em sua essência e em suas propriedades, assegura uma e outra coisa, segundo o bem e a dignidade não só da prole, como também dos progenitores. Tal a única norma que ilumina e rege toda esta delicada matéria; a norma a que em todos os casos concretos, em todas as questões especiais, convém voltar; a norma enfim, cuja fiel observância garante neste ponto a sanidade moral e física dos indivíduos em particular e da sociedade.

***

Não se deveria tornar difícil ao médico compreender esta imanente finalidade profundamente radicada na natureza, para afirmá-la e aplicá-la com íntima convicção em sua atividade científica e prática. A ele não raramente mais do que ao próprio teólogo prestar-se-á fé, quando admoesta e adverte que todo o que ofende e transgride as leis da natureza, terá cedo ou tarde que sofrer as funestas conseqüências em seu valor pessoal e em sua integridade física e psíquica.

Eis o jovem, que sob o impulso das nascentes paixões recorre ao médico; eis os noivos, que em vista de suas próximas núpcias lhe pedem conselhos, que não raro, infelizmente, desejam em sentido contrário à natureza e honestidade; eis os cônjuges, que procuram nele luz e assistência ou mais ainda cumplicidade, porque pretendem não poder encontrar outra solução ou caminho de saída nos conflitos da vida fora da voluntária infração dos vínculos e dos deveres inerentes ao uso das relações matrimoniais. Tentar-se-á então fazer prevalecer todos os argumentos possíveis, todos os pretextos (médicos, eugênicos, sociais, morais), para induzir o médico a dar um conselho ou a prestar um auxílio, que permita a satisfação do instinto natural, privando-o porém da possibilidade de atingir o escopo da força gerativa de vida. Como poderá ele permanecer firme diante de todos estes assaltos, se a ele mesmo faltarem o claro conhecimento e a convicção pessoal de que o Criador, para o bem do gênero humano ligou o uso voluntário daquelas energias naturais aos seus escopos imanentes com um vínculo indissolúvel, que não admite nem relaxamento, nem ruptura?

***

O oitavo mandamento tem igualmente lugar na deontologia médica. A mentira segundo a lei moral não tem nenhuma permissão; existem entretanto casos nos quais o médico, ainda que interrogado, não pode, embora não deva jamais dizer coisa positivamente falsa, manifestar cruamente toda a verdade, especialmente quando sabe que o doente não teria a força de suportá-la. Existem ainda outros casos nos quais tem sem dúvida o dever de falar claramente; dever diante do qual devem ceder todas as outras considerações médicas ou humanitárias. Não é lícito iludir o enfermo ou os parentes em uma segurança ilusória, com o perigo de comprometer assim a salvação eterna dele ou o cumprimento das obrigações de justiça ou de caridade. Estaria em erro quem quisesse justificar ou escusar tal conduta com o pretexto de que o médico se exprime do modo que ele julga mais oportuno no interesse pessoal do doente, e que é culpa dos demais se tomam exageradamente à letra suas palavras.

Entre os deveres derivantes do oitavo mandamento deve-se enumerar também a observância do segredo profissional, que deve servir e serve não somente ao interesse privado, mas muito mais ainda à comum vantagem. Também neste campo podem surgir conflitos entre o bem privado e o público, ou entre os diversos elementos e aspectos do próprio bem público, conflitos nos quais pode ser, por vezes extremamente difícil medir e pesar justamente o pró e o contra entre as razões de falar e calar. Em tal perplexidade o médico consciencioso pergunta aos princípios fundamentais da ética cristã as normas que o ajudarão a encaminhar-se pela reta estrada.

Estas normas em verdade, enquanto afirmam nitidamente, sobretudo no interesse do bem comum, a obrigação do médico de manter o segredo profissional não reconhecem porém a ele um valor absoluto; não seria realmente condizente ao próprio bem comum se aquele segredo devesse ser colocado a serviço do delito ou da fraude.

***

Não queremos, finalmente, omitir, uma palavra sobre a obrigação do médico não somente de possuir uma sólida cultura científica, mas também de continuar sempre a desenvolver e a integrar seus conhecimentos e suas virtudes profissionais. Trata-se aqui de um dever moral em sentido estrito, de um vínculo que liga em consciência diante de Deus, porque diz respeito a uma atividade que toca de perto os bens essenciais do indivíduo e da comunidade. Importa:

- Para o estudante de medicina, no tempo de sua formação universitária, a obrigação de aplicar-se seriamente ao estudo para adquirir os conhecimentos teóricos requeridos e a habilidade prática necessária na aplicação dos mesmos.

- Para o professor universitário o dever de ensinar e de comunicar aos alunos uma coisa e outra no melhor modo possível, e de não dar a ninguém um certificado de idoneidade profissional, sem ter-se assegurado previamente disto com um consciencioso e profundo exame. Agir diversamente seria cometer uma grave culpa moral, porque exporia a sérios perigos e a incalculáveis danos a saúde privada e pública.

- Para o médico que exercita já sua profissão, a obrigação de manter-se informado do desenvolvimento e dos progressos da ciência médica, mediante a leitura de obras e de revistas científicas, a participação em congressos e cursos acadêmicos, as conversas com colegas e as consultas aos professores de faculdades de medicina. Este constante esforço por aperfeiçoar-se obriga o médico que exerce a profissão, enquanto isto é praticamente possível, e é pedido pelo bem dos doentes e da comunidade (1).

(I) Discurso, União Micro-Biológica São Lucas, 12 de novembro, 1943.

Fonte: Livro Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Martins, 1959. PS.: Grifos meus.

Pensamento do dia 23/12/2011


"Para vós, Senhor, elevo a minha alma.

Meu Deus, em Vós confio: não seja eu decepcionado! Não escarneçam de mim meus inimigos!

Não, nenhum daqueles que esperam em Vós será confundido, mas os pérfidos serão cobertos de vergonha.

Senhor, mostrai-me os Vossos caminhos, e ensinai-me as Vossas veredas.

Dirigi-me na Vossa verdade e ensinai-me, porque sois o Deus de minha salvação e em Vós eu espero sempre.

Lembrai-Vos, Senhor, de Vossas misericórdias e de Vossas bondades, que são eternas.

Não Vos lembreis dos pecados de minha juventude e dos meus delitos; em nome de Vossa misericórdia, lembrai-Vos de mim, por causa de Vossa bondade, Senhor. 

O Senhor é bom e reto, por isso reconduz os extraviados ao caminho reto. 
Dirige os humildes na justiça, e lhes ensina a sua via. 

Todos os caminhos do Senhor são graça e fidelidade, para aqueles que guardam Sua aliança e Seus preceitos. 

Por amor de Vosso nome, Senhor, perdoai meu pecado, por maior que seja. 
Que advém ao homem que teme o Senhor? Deus lhe ensina o caminho que deve escolher. 

Viverá na felicidade, e sua posteridade possuirá a terra. 
O Senhor se torna íntimo dos que O temem, e lhes manifesta a Sua aliança.

Meus olhos estão sempre fixos no Senhor, porque Ele livrará do laço os meus pés.
Olhai-me e tende piedade de mim, porque estou só e na miséria.

Aliviai as angústias do meu coração, e livrai-me das aflições. 
Vede minha miséria e meu sofrimento, e perdoai-me todas as faltas. 

Vede meus inimigos, são muitos, e com ódio implacável me perseguem. 
Defendei minha alma e livrai-me; não seja confundido eu que em Vós me acolhi. 

Protejam-me a inocência e a integridade, porque espero em Vós, Senhor."
(Salmo 24)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pensamento do dia 22/12/2011


"Marchemos, pois, cheios de confiança 
para o trono de graça, a fim de obtermos misericórdia 
e alcançarmos a graça no socorro oportuno" 
(Hb 4,16)

O inferno


I. Tu, Minha filha, acaricias o corpo nutrê-lo, satisfazê-lo em tudo, e não refletes que, tratando-o dessa sorte, o tornas mais apto de ser preso dos fogos do Inferno. Oh! se conhecesses o que no outro mundo está preparado às almas sensuais, e que atrozes tormentos nele sofrem, repelirias num momento tudo o que podes pôr em perigo a tua salvação eterna. A penitência não mais te seria custosa: não te deixarias mais mover pelo respeito humano; não olharias mais o corpo senão como um servo inimigo a quem é preciso vigiar sempre severamente.

Coragem, pois, ó Minha filha, aviva a tua fé e unida a Mim, vem em espírito visitar o inferno. Examina esta horrível prisão, sem abertura, sem respiradouro, onde circula um espesso fumo e chamas devorantes. Mas tu enganavas-te se julgavas que este fogo tem alguma coisa de comum com o fogo de que fazeis uso sobre a terra. Ah! esse é um dote da bondade divina, que vo-lo concedeu para o vosso bem. Mas o fogo do inferno foi criado pela justiça divina, para castigar os maus revoltados contra ela. Produz todos os males que pode ocasionar o fogo da terra e não produz bem nenhum. Não ilumina, não enfraquece, não se extingue não mata. O fogo da terra não tem ação nenhuma sobre os espíritos, mas este é elevado por Deus a um grau de atividade tão terrível, que queima os espíritos como os corpos e abrasa os corpos como os espíritos sem os consumir. Se o fogo da terra é tão ativo que petrifica nas fornalhas o barro mole como o granito, pulveriza as pedras mais duras, funde os metais nos cadinhos, que fará lá em baixo esse horrível elemento, agitado fora disso pelo sopro dum Deus irritado! Vê como as suas chamas se agitam sem repousar se retorcem, se levantam do chão, se arremessam com silvos horrorosos sobre esses infelizes. Vê como enroscando-se neles os estreita, os trespassa, os despedaça. Escuta os seus gritos, os seus lamentos, as suas comoções de desesperar.

Se tu te expões a ser condenada onde te colocarás neste profundo abismo? debaixo dos pés destes monstros cruéis? Ah! tal será, pois a tua eterna morada.

II. O suplício do fogo não é o único ó Minha filha, que atormenta no inferno os desgraçados condenados as penas eternas. Esses olhos que têm lançado tantos olhares lascivos serão punidos por um fumo e trevas que os forçarão a derramar torrentes de lágrimas, não lhes restará senão a luz necessária para divisarem mais horríveis desses monstros horrendos que a cada instante os farão estremecer.

Esses ouvidos que se têm aplicado a ouvir cantos desonestos, discursos vergonhosos, serão continuamente ensurdecidos pelos berros, gritos, maldições e blasfêmias desses desesperados. Examina que mau cheiro são transformados os perfumes, as essências odoríferas de que se perfumavam esses efeminados. Como todas as gulodices agora são satisfeitas! Como eles têm desejo das iguarias esquisitas e das beberagens estudadas! Há vinte séculos que o mau rico ali pede arquejante uma gota d'agua para refrescar o ardor dos seus lábios, mas é em vão, nunca a obterá. Os maus, durante a sua vida têm abusado de todos os seus sentidos para ofender o Criador; é bem justo que sofram neles uma dor particular; que tudo quanto foi durante a sua vida um instrumento do pecado, se torne em instrumento de suplício.

Desgraçada de ti Minha filha se te condenas às penas eternas; se trocas as conversações deliciosas por horríveis conversações com os demônios; os passeios e os divertimentos por uma prisão desesperadora; o repouso sobre moles plumas por cruéis agitações sobre um leito de fogo; as graças e a beleza que ostentas com tanto orgulho, por uma fealdade tão medonha que o mais horrendo monstro da terra não poderia igualar, e que; tornada para ti um objeto de horror, dar-te-ias de boa vontade a morte, buscarias mesmo um inferno mais cruel contanto que ele te pudesse livrar da vista de ti própria. Eis aí onde rematam os vícios e as paixões. Eis aí os sofrimentos e as dores onde conduz o caminho largo da libertinagem.

III. Até ao presente, Minha filha, não tens meditado senão acerca dos suplícios que atormentam no exterior os condenados. Oh! se pudesses ver os castigos muito mais terríveis que os dilaceram no interior, o teu espanto redobraria. Esses desgraçados confessam, mas inutilmente que se têm iludido. Maldizem a sua loucura que, por um prazer momentâneo lhes tem feito escolher um castigo tão horroroso. Reconhecem que tinham pouca coisa a fazer para se salvar, e que tem feito e sofrido muito mais para se perderem. Recordam as exortações, os avisos, os sermões que têm ouvido e de que não têm feito caso, ou mesmo têm escarnecido. Abandonam-se, pois a todos os furores do desespero, mordem as mãos com raiva, laceram as carnes, despedaçam-se, amaldiçoam-se, acusam-se uns aos outros de terem praticado os escândalos que originaram a sua condenação. Examina como eles se revolvem ferozes para os demônios que escarnecem a sua sorte.

Compreende por isso que tempestade agitadora de inimigos, de rancores, de afrontosos desesperos agita os seus corações, os dilacera, os tortura. A felicidade dos santos, para quem, a seu pesar, lançam olhares invejosos, contribui a tornar mais atroz o seu inferno. A perda irreparável do Deus que devia fazer a sua felicidade e ao qual eles sabem que têm preferido uma vilania, e mesmo o demônio, roe-lhes o coração e lança-os no mais horrível desespero.

Ó Minha filha, um tão afrontoso espetáculo não bastará para te ensinar a que perigos te expõem as vaidades, os amores profanos, os costumes dum mundo perverso, e para fazer-te mudar de vida? Ah! por piedade de ti mesma, corrige-te, toma um outro caminho. Não vês tu que aquele que tens seguido até hoje te conduz a esse termo fatal? Hesitas ainda? Oh! não, Eu não quero que tu te condenes. Se tudo quanto tens meditado não basta para te mover, eis-Me prostrada a teus pés para te pedir e rogar a mudar de vida e não te precipitares no inferno. Colocar-Me-ei sobre o limiar desse inferno terrível para te conservar e impedir de cair nele. Serás tu surda à Minha voz? inflexível a meu pedido? Para satisfazer as tuas paixões quererás perder-te, mau grado Meu, e calcar-Me aos pés para correr a precipício? Vai, pois, ai de Mim! não poderei senão chorar a tua obstinação e tua louca cegueira.

Afetos. Surda à Vossa voz? inflexível ao Vosso rogo para cair no inferno? Ó Virgem Santíssima, que monstro de crime eu não seria! Não, todos os tormentos do infernal abismo, fossem eles mil vezes mais dolorosos, não bastaria para punir a minha louca audácia. Não, todos os raios da cólera divina despedidos contra mim não seriam suficientes para um castigo proporcionado à minha monstruosa ingratidão. Que compaixão poderia eu esperar? Pode ser que a justiça divina, ameaçando-me com suplícios tão terríveis, ainda não conseguisse mover o meu coração, mais duro que a pedra? Pode ser que, meditando a respeito dum fogo tão horroroso, eu não tenha aprendido quanto é perigoso o viver na inimizade de Deus? Que mistério incompreensível eu não sou? Temo o inferno, tenho medo de cair nele, amo aquilo que para ele me impele! O meu temor e as Vossas exortações, ó Mãe querida, não são suficientes para me desprender daquilo que me arrasta ao inferno! Oh! que feneçam e desapareçam de vez as vaidades, os amores profanos, os adornos, as festas, os prazeres ilícitos e tudo quanto pode expor-me ao perigo de me condenar às penas eternas. É tempo de sair, finalmente, duma tão criminosa letargia. Ó Mãe compassiva já que Vos dignais instruir-me com tanta ternura, não cesseis de me dirigir no custoso caminho da salvação. Dirigi-me censuras; puni-me severamente todas as vezes que dê um passo errado, a fim de que emende o meu proceder, que me não desvie do direito caminho do céu, e que não caia nessa ruína irreparável, nesse terrível inferno.

(Maria falando ao coração das donzelas pelo Abade A. Bayle, 1917)

PS.: Grifos meus.