domingo, 30 de setembro de 2012

Erbarme dich, de la Pasión según San Mateo de J. S. Bach Bach. Contralto: Julia Hamari


Providência divina

Que é preciso evitar toda a curiosidade,
e aquiescer humildemente à sapientíssima providência de Deus.

(São Francisco de Sales, tratado do amor de Deus, Livro Quarto, Capítulo VII)


O espírito humano é tão fraco, que, quando quer investigar curiosamente demais as causas e razões da vontade divina, embaraça-se e enrodilha-se em redes de mil dificuldades, das quais depois não se pode desprender. Assemelha-se à fumaça; porque, subindo, sutiliza-se, e, sutilizando-se, dissipa-se. A força de querermos elevar nossos discursos nas coisas divinas por curiosidade, nós nos dissipamos nos nossos pensamentos e, ao invés de chegarmos à ciência da verdade, caímos na loucura da nossa vaidade (Rom 1, 21; 2 Tim 3, 7; Rom 1, 22).
Mas somos sobretudo extravagantes no que concerne à Providência divina, no tocante à diversidade dos meios que ela nos distribui para nos atrair ao seu santo amor, e, pelo seu santo amor, à glória. Porquanto a nossa temeridade nos força sempre a perquirir por que é que Deus dá mais meios a uns do que a outros; por que foi que Ele não fez entre os Tírios e os Sidônios as maravilhas que fez em Corozaim e Betsaida, já que eles teriam tão bem aproveitado delas; e, em suma, por que é que Ele atrai ao Seu amor um de preferência a outro (Mt 11, 21).
Ó Teótimo! meu amigo, nunca, nunca devemos deixar levar nosso espírito por esse turbilhão de vento louco, nem pensar achar melhor razão da vontade de Deus do que a Sua própria vontade, a qual é sumamente razoável, antes a razão de todas as razões, a regra de toda bondade, a lei de toda equidade. E, se bem que o santíssimo Espírito, falando na Escritura sagrada, em vários lugares dê razão de quase tudo o que poderíamos desejar no tocante ao que a Sua providência opera na guia dos homens ao santo amor e à salvação eterna, todavia em várias ocasiões Ele declara que absolutamente não nos devemos apartar do respeito que é devido à Sua vontade, da qual devemos adorar o propósito, o decreto, o beneplácito e o aresto ao cabo do qual, como juiz soberano e soberanamente equitativo, não é razoável que ela manifeste seus motivos; mas basta que fale simplesmente (e "pour cause"). Que, se devemos caridosamente prestar tanta honra aos decretos das cortes supremas, compostas de juízes corruptíveis da terra e de terra, a ponto de crermos que esses decretos não foram feitos sem motivos, posto que os não saibamos; oh, Senhor Deus! com que reverência amorosa devemos, adorar a equidade da Vossa providência suprema, a qual é infinita em justiça e bondade!
Assim, em mil lugares da sagrada palavra nós achamos a razão pela qual Deus reprovou o povo judeu. São Paulo e São Barnabé dizem: Porque repelis a palavra de Deus, e vos julgais a vós mesmos indignos da vida eterna; eis que nós nos volvemos para os Gentios (Mt 13, 24). E quem considerar em tranquilidade de espírito o IXº, Xº e XIº capítulo da epístola aos Romanos, verá claramente que a vontade de Deus não rejeitou o povo judeu sem razão; mas, não obstante, não deve essa razão ser investigada pelo espírito humano, que, ao contrário, é obrigado a deter-se pura e simplesmente em respeitar o decreto divino, admirando-o com amor como infinitamente justo e equitativo, e amando-o com admiração como impenetrável e incompreensível. É por isso que o divino apóstolo concluí destarte o longo discurso que sobre isso tinha feito: Ó profundeza das riquezas da sabedoria e ciência de Deus! Como são incompreensíveis os seus juízos, imperceptíveis os seus caminhos! Quem conhece os pensamentos do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? (Rom 11, 33-34). Exclamação pela qual testemunha que Deus faz tudo com grande sabedoria, ciência e razão; mas de tal sorte, todavia, que, não havendo o homem entrado no divino conselho, cujos juízos e projetos são elevados infinitamente acima da nossa capacidade, nós devemos devotadamente adorar-lhe os decretos, como muito equitativos, sem lhes investigar os motivos, os quais Ele retém em segredo para consigo, a fim de manter o nosso entendimento em respeito e humildade para conosco.
Santo Agostinho em cem lugares ensina esta mesma prática. Diz ele: "Ninguém vem ao Salvador senão sendo atraído. Quem é que Ele atrai, e quem é que Ele não atrai, por que é que Ele atrai este e não aquele, não queiras ajuizar disto, se não queres errar. Escuta uma vez e ouve. Não és atraído? reza a fim de seres atraído. De certo, ao cristão que ainda vive da fé e que não vê o que é perfeito, mas sabe apenas em parte, basta saber e crer que Deus não livra ninguém da condenação senão por misericórdia gratuita, por Jesus Cristo Nosso Senhor, e que Ele não condena ninguém senão pela Sua equidosíssima verdade, pelo mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor. Mas saber por que é que Ele livra este de preferência àquele, sonde quem puder tamanha profundeza dos Seus juízos, mas resguarde-se do precipício, pois os Seus decretos não são por isso injustos, ainda que sejam secretos(1). Mas por que então livra Ele estes de preferência àqueles (Ep. 105)? Dizemos outra vez: Ó homem! quem és tu para responderes a Deus?(2) Incompreensíveis são os Seus juízos (Rom 11, 20). E acrescentemos isto: Não inquiras das coisas que estão acima de ti (Rom 11, 33), e não investigues o que está além de tuas forças (Ecli 3, 22). Ora, Ele não faz misericórdia àqueles a quem, por uma verdade mui secreta e muito afastada dos pensamentos humanos, julga não dever conceder seu favor ou misericórdia(3).
Vemos às vezes crianças gêmeas das quais uma nasce cheia de vida, e recebe o batismo; a outra, nascendo, perde a vida temporal antes de renascer para a eterna; uma, por conseguinte, é herdeira do céu, a outra é privada da herança. Ora, por que será que a divina Providência dá desfechos tão diversos a tão semelhante nascimento? De certo, pode-se dizer que a providência de Deus ordinariamente não viola as leis da natureza; de tal sorte que, sendo um desses gêmeos vigoroso e o outro demasiado fraco para suportar o esforço da saída do seio materno, este morreu antes de poder ser batizado, e o outro viveu; não havendo assim a Providência querido impedir o curso das causas naturais, que, nessa ocorrência, terão sido a razão da privação do batismo naquele que o não teve. E certamente esta resposta é bem sólida. Mas, consoante o parecer do divino São Paulo e de Santo Agostinho, não nos devemos divertir nesta consideração, que, embora boa, todavia não é comparável a várias outras que Deus reservou para Si, e que nos fará conhecer no paraíso. "Então, diz Santo Agostinho, já não será coisa secreta a razão por que um é elevado de preferência ao outro, sendo igual a causa de ambos; nem porque milagres não foram feitos no meio daqueles que, se milagres tivessem sido feitos entre eles, teriam feito penitência, e foram feitos no meio daqueles que não estavam dispostos a crer". (4) E noutro lugar esse mesmo santo, falando dos pecadores dos quais Deus deixa um na sua iniquidade e levanta o outro, diz: "Ora, porque é que Ele retém um e não retém o outro, não é possível compreendê-lO, nem lícito inquiri-lO, visto como basta saber que depende d’Ele ficarmos de pé, e d’Ele não vem que caiamos; e repito, isso é oculto e muito afastado do espírito humano, ao menos do meu"(5).
Eis aí, Teótimo, a mais santa maneira de filosofar neste assunto. Por isto é que sempre achei admirável e amável a sábia modéstia e prudentíssima humildade do doutor seráfico São Boaventura, no discurso que ele faz da razão pela qual a Providência Divina destina os eleitos à vida eterna. Diz ele: "Talvez seja pela previsão dos bens que se farão por meio daquele que é atraído, enquanto esses bens provêm, de algum modo, da vontade divina; mas saber dizer que bens são esses cuja previsão serve de motivo à divina vontade, nem eu o sei distintivamente, nem quero indagar deles; e não há aí razão a não ser de alguma sorte de conveniência; de maneira que nós poderíamos dizer alguma, e seria outra. É por isso que não poderíamos com certeza assinalar a razão verdadeira nem o verdadeiro motivo da vontade de Deus a esse respeito; porque, como diz Santo Agostinho, se bem que a verdade disso seja certíssima, é todavia muito distanciada dos nossos pensamentos; de modo que sobre isso nada poderíamos dizer de seguro senão pela revelação d’Aquele a quem todas as coisas são conhecidas. E uma vez que não era conveniente para a nossa salvação que tivéssemos conhecimento desses segredos, antes nos era mais útil ignorá-los, para nos mantermos em humildade; por isso Deus não os quis revelar, e mesmo o santo Apóstolo não ousou inquirir deles, mas testemunhou a insuficiência do nosso entendimento a esse respeito, quando exclamou: "Ó profundeza das riquezas da sabedoria e ciência de Deus!" (Rom 11, 33). Teótimo, poder-se-ia falar mais santamente de tão santo mistério? Também, são as palavras de um santíssimo e judiciosíssimo doutor da Igreja.

Notas:

1-                  Tract. XXVI in Joan.
2-                  De bono persever., c. XII.
3-                  Quaest. II, ad Simplic.
4-                  In Enchir. ad Laur., c. XCIV, XCV.
5-                  Resp. ad art. sibi falso impositos; Resp. ad art. 14, lib. X, de Genes. ad litt.

sábado, 29 de setembro de 2012

Dedicação de São Miguel Arcanjo. Imposição do escapulário de São Miguel

Fonte: Escravas de Maria

29/09 Sábado
Festa de Primeira Classe
Paramentos Brancos


O Arcanjo Miguel significa "Quem com Deus". 
Na tradição da Igreja há várias aparições do chefe dos Anjos no Céu: 


São Miguel apareceu a uma jovem virgem de 15 anos, chamada Joana d'Arc, ela morava em Lorena, França, que neste período estava sendo invadida pelos ingleses, os quais já tinham tomado quase toda a região. São Miguel mandou que a menina se vestisse de cavaleiro e fosse para batalha, esta sendo apenas uma pastorinha começou chorar e São Miguel encorajando-a, disse-lhe "Vai, sem temor, que combaterei em teu favor".

Joana foi até o rei Carlos VII e o convenceu a deixá-la combater. Com a proteção do Arcanjo, teve 20 vitórias, e depois foi presa e condenada a fogueira, e neste momento São Miguel, também estava com ela. A libertadora da França, foi levada a julgamento, e deu o seguinte testemunho, diante dos juízes : "foi Miguel quem vi diante dos meus olhos e não estava só, mas acompanhado por anjos do Céu. Eu os vi com os olhos físicos tão bem como vejo vocês. E, quando me deixaram, chorei e teria gostado que me levassem com eles". Não são só as Sagradas Escrituras que vem nos revelar as aparições do Arcanjo São Miguel. A Igreja também reconhece outras aparições, sendo algumas festejadas com Missas e ofícios próprios.

São João Evangelista, começou seu trabalho de evangelização na Ásia Menor, após a Ascenção do Senhor Jesus ao Céu. Havia um cidade nesta região chamada Hierópolis, onde se tinha como deusa uma serpente. 

Após fervorosa e contínua oração de São João, a serpente morreu. O Apóstolo teve de fugir, pois foi perseguido, pelos sacerdotes do ídolo. São João foi para região de Chones, na Frígia, lá pregou e muitos se converteram. São João falou-lhes sobre os anjos e o nobilíssimo príncipe dos anjos, São Miguel, o qual fez brotar uma fonte nas portas da cidade, e todos doentes, tanto fiéis como pagãos, que invocavam a sua proteção e faziam o sinal-da-cruz, na mesma hora ficavam curados, o fato se espalhou por várias regiões.

Havia um homem, que tinha uma filha muda. Certa noite, São Miguel apareceu-lhe em forma humana e disse: "Conduze a tua filha à fonte dos cristãos e acredita na onipotência do seu Deus, que a tua fé será recompensada". Cheio de esperança e de temor, foi com a filha até a fonte, e lá perguntou o que deveria fazer. Eles disseram: "É em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e pela intercessão de São Miguel que nós usamos desta água". O homem repetiu essas palavras, e a filha começou a falar e a fé iluminou a sua alma e a de seu pai. Os dois pediram o batismo. Em forma de gratidão e para testemunhar o milagre, o homem mandou edificar junto a fonte uma igreja. um cristão jovem, que seguia a vida eremita ficou como guardião desse santuário.

Os adoradores da serpente, tentaram destruir o santuário, rompendo os diques que continham os rios que por ali passavam, quando o guardião do santuário escutou o barulho, clamou a Deus dizendo:" Senhor,a Vossa onipotência comanda e rege os abismos do mal. Vós podeis salvar o templo do Vosso arcanjo", e São Miguel veio em seu socorro para combater o inimigo, e disse ao eremita: "Não temais, o inferno não pode nada contra nós", o Arcanjo traçou sobre as águas o sinal-da-cruz e estas no mesmo instante se acalmaram e mudaram seu curso. São Miguel pediu ao eremita que continuasse a chamar todos que estivessem doentes, não só fisicamente, mas também doentes da alma, a traçar sobre si o sinal-da-cruz, e assim alcançar a cura que necessitassem.

Este acontecimento, é comemorado no dia 6 de setembro, pela Igreja Oriental, com Missa e ofícios próprios. 

E em 1950 Papa Pio XII o nomeou padroeiro dos policiais. O famoso Monastério do Monte São Miguel obviamente tem este nome em sua honra.

São Miguel é mostrado na arte litúrgica da Igreja como um anjo segurando uma espada ou lança, um escudo e uma balança.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sobre el Pecado Venial (III Parte)

Fonte: En Gloria y Majestad


§ III. — El pecado venial con relación al fervor


El pecado venial es esencialmente contrario al fervor, porque ataca a todos los elementos de la actividad espiritual.

I. DISMINUYE LA EFUSION DE GRACIAS ACTUALES

Jamás lo repetiremos bastante: la gracia actual es principio necesario a todos nuestros actos sobrenaturales, a todos absolutamente, aún en las almas más perfectas Y Dios concede ordinariamente sus gracias en proporción a la fidelidad y a la oración. Pero se falta a la fidelidad por el pecado venial y la oración se debilita más o menos por la impresión desagradable que deja tras sí.
Los pecados veniales verdaderamente voluntarios son los más temibles; entristecen y apenan al corazón de Dios; debilitan nuestra confianza. ¿Tiene uno acaso el mismo afán por una persona a quien se ha herido?
Las faltas por sorpresa o fragilidad no producen los mismos efectos; a veces aún puede decirse de ellas, según el sentido de la Iglesia, que son faltas dichosas: pues nos arrojan en actitud humilde a los pies de Dios y en oración más fervorosa.
Temed las faltas voluntarias por leves que sean; temed a las que llegan a instalarse sin inspirar verdadero pesar; constituyen una infidelidad permanente, por consiguiente un obstáculo permanente a la efusión de gracias.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

OS CATÓLICOS E OS PADRES

Nota do blogue: Pediram-me que ajudasse numa carta de incentivo aos padres resistentes, para que se mantivessem firmes e não se deixassem vencer pelo cansaço do combate travado. Tendo isso em vista, transcrevo um discurso que pode ser aproveitado em parte no momento atual.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula


P.S: Notas e grifos meus.


Padre Júlio Maria, C.SS.R.
As Virtudes, 1936.

Eu vos mostrei que as virtudes cardeais - temperança, força, prudência e justiça - que já existiam no paganismo, foram transfiguradas pela doutrina católica. Aplicando-as especialmente aos membros de certas classes sociais, demonstrei que o nosso homem de ciência, o nosso homem de letras, o nosso homem de Estado e o sectário, nem ao nível podem ficar dos pagãos, se as recusam.
Com as virtudes teologias, abrindo a doutrina católica, eu vo-lo demonstrei, novos e vastos horizontes ao espírito e ao coração do homem. Seguindo o mesmo método de aplicação sociológica, fiz sobressair a necessidade, no momento presente, da fé, principalmente para o operário; da esperança, principalmente para o industrial, e da caridade, principalmente para o capitalista. Passo a tratar das virtudes morais, das quais digo que não era possível, mas também não era necessário tratar senão nesta conferência.
O homem, no itinerário da vida cristã, encontra obstáculos que lhe impedem a segurança e a rapidez da viagem. Esses obstáculos não só provém do exterior, isto é, da ação das outras criaturas, mas principalmente das próprias paixões do homem viajor, que, para subjugar estas e vencer aqueles, precisa das virtudes morais, isto é, da humildade, da penitência, da abundância, da doçura, da mortificação, da castidade, da fraternidade e outras congêneres. Mas as virtudes morais são mais do que simples auxiliares da vida cristã; elas são a prova da divindade da doutrina católica pelos seus efeitos, e tão inerentes são à doutrina católica, que, onde quer que esta existe, é aceita e sinceramente praticada; tais virtudes não podem deixar de se manifestar. Vou provar isto com a psicologia e com a história.
Um homem repudiar a sua razão, o orgulho da sua inteligência, para aceitar verdades transcendentais; prostrar-se aos pés de outro, arrependido e acusando-se de seus pecados; perdoar as maiores injúrias, amar os seus maiores inimigos - não é só imolar o espírito no holocausto da fé, mas também substituir nas imolações do coração todos os seus amores humano pelo amor divino; estes são sob o ponto de vista psicológico, fatos individuais que ninguém contesta, porque todos os têm mais ou menos verificado, senão na própria pessoa, na pessoa de seus semelhantes. Igualmente, nós vemos, abrindo a história, que, antes do cristianismo os povos não só tocaram as últimas aberrações da inteligência, mas desceram às últimas torpezas do coração. A história anterior ao cristianismo é um colossal resumo de loucuras e sensualidades. A honestidade pagã não impediu a corrupção universal. As simples virtudes cardeais não bastaram para salvar os povos, que, entretanto, foram regenerados e salvos pelas virtudes morais: a humildade, a castidade, a fraternidade, etc.
Mas não só os efeitos psicológicos mostrando a transformação radical do homem, como os efeitos sociais mostrando a transformação dos povos, pela prática das virtudes morais, são manifestamente, pela sua desproporção com a miséria do homem e a miséria dos povos, efeitos elétricos, sem uma causa elétrica, nem fenômenos magnéticos, nem uma causa magnética, não pode haver também efeitos divinos, sem causa divina. Se, portanto, as virtudes morais são fenômenos divinos - divina é a doutrina que os produz, e à qual, tão inerentes e peculiares são esses efeitos, que, em primeiro lugar, só a doutrina católica é capaz de produzi-los: em segundo lugar, onde quer que ela seja sinceramente aceita e praticada, necessariamente os produz. Não é difícil verificá-lo. Basta analisar das virtudes morais estas - humildade, castidade, fraternidade - tão singulares na sua origem e nos seus efeitos, que os teólogos as denominam "virtudes reservadas", isto é, que só o catolicismo as possui e pratica.
Entregue aos impulsos de sua natureza corrompida pelo pecado original, o homem, sem a influência do catolicismo, nem é humilde, nem é casto, nem ama fraternalmente os seus semelhantes.
Inútil e ridículo, negar esta verdade. Inútil, porque a afirmação desta verdade todo homem a tem em si próprio. Ridículo, porque, a todo instante, essa verdade se mostra de modo evidente. Sem o contrapeso da religião, o orgulho domina o homem, que nem reconhece sua inferioridade em relação a outros homens, nem aceita lugar menos importante na hierarquia social. Esse orgulho implica sempre o ódio da superioridade, o ódio da igualdade e o desprezo da inferioridade. Substituir este orgulho por um juramento contrário - o ódio pelo amor da superioridade - é uma glória da doutrina católica, que só ela, produzindo esta fraternidade entre homens tão diferentes na sociedade pelo caráter, a inteligência, a fortuna, a posição, é também a única que produz o fenômeno da castidade na imolação do corpo, em holocaustos, de que muitos, é certo, têm desertado, mas de que um grande número de homens têm dado o exemplo em todas as épocas cristãs: o celibato, o sacerdócio, a virgindade.
É uma verdade, pois, não só perante a psicologia; como também perante a história, que não só as virtudes morais são fenômenos inerentes à doutrina católica, como também que, onde quer que a doutrina católica é sinceramente praticada, ela regenera as almas e salva os povos.
Agora, pergunto: se, como tantos o afirmam, somos um povo católico, por que razão entre nós nem a doutrina católica converte os incrédulos, que são em todas as classes um grandíssimo número nem a doutrina católica impede à nação nenhuma das sucessivas apostasias em que ela tem sacrificado as maiores verdades do catolicismo: o culto público a Deus o casamento, o ensino?!  
Dirão: "Os incrédulos é que têm feito isso". Mas então os incrédulos são em tão extraordinário número, que têm conseguido tudo isso? Eu já fiz, nesta pregação, a apologia do mau caráter, apologia tão mal compreendida, apesar de ter eu bem firmado que coisa pior do que o mau caráter, é o que aliás La Bruyére, um moralista, já afirmou: não ter caráter.
Pois bem; não duvido também hoje fazer a apologia dos incrédulos. Os incrédulos são homens como nós. Eles são dotados da mesma natureza. Eles também têm coração. Deles, não duvido, um certo número será sempre refratário à disciplina das verdades reveladas, tal o privilegio da liberdade humana, de que eles usam, rejeitando o catolicismo. Mas o maior número, é certo, vendo o fulgor da verdade católica não pode deixar de ser deslumbrado, e vendo o exemplo da virtude católica, não pode deixar de ser vencido. Para que negar aos incrédulos retidão, sinceridade, independência e bondade? Eles têm, sem duvida, a "honestidade", base sobre que deve repousar o edifício das virtudes sobrenaturais. Eles, sem dúvida; são homens "honestos". Mas então por que eles não se convertem?
Há em cada povo épocas singulares, em que dizer, a verdade inteira é para um homem o mais imperioso e ao mesmo tempo o mais doloroso dos seus deveres. Quis Deus que coubesse ao orador uma dessas época, e que tão doloroso dever seja o seu neste país. A pergunta que formulo, respondo eu próprio:
Dada a resposta, preciso justificá-la; e o faço com muitas e varias considerações.
Que é a penitência? Que é o católico? Que é a santidade? Que é o padre?
A penitência é o caráter imperecível do catolicismo. “Fazei penitência” – tal foi, na vida pública, a primeira palavra de Jesus Cristo.
Como "sacramento”, a penitência só existiu depois de Jesus Cristo. Como "virtude", ela é de todos os tempos; é o sentimento universal do gênero humano, desde a queda em Adão. Esse sentimento, não só Jesus Cristo o elevou à dignidade de sacramento, um característico infalível de verdadeira vida cristã. Lamento não poder tratar da confissão sacramental, por já tê-lo feito, em longas conferências no meu curso católico desta capital. Limito-me, por isso, a rápidas considerações, afirmando que a penitência sem a confissão é incompleta; mas a confissão sem a penitência é falsa. Por quê? Porque a penitência é a virtude moral que nos induz a detestar o pecado como ofensa a Deus, com o firme propósito de evitá-lo, e de satisfazer a justiça, a penitência não é só isso. É uma constante preocupação de nossa miséria; é um sentimento, que por toda a parte nos acompanha, do nosso nada; é a dor senão sempre viva, mas sempre real de sermos pecadores; é a sinceridade com que nos julgamos os indignos entre os pecadores. Assim considerada, a penitência implica sempre a humildade; e absolutamente não se pode compreender um católico que não seja penitente.
Ora não é fácil enumerar os diferentes matizes do nosso catolicismo. Nós temos, entre outras espécies, que longo seria enumerar, estas: "católico fantasista", o "católico do credo", o "católico dos mandamentos", o "católico de missa", o "católico de irmandades", o "católico autoritário"...
Ainda há outras espécies, que não posso enumerar, por falta de tempo.
Þ   O católico fantasista é aquele que vive de imaginação e quimeras, adotando os atos, da religião às suas faculdades imaginativas, aceitando os dogmas, não como a igreja os ensina, mas como ele os vê através do prisma variável da sua fantasia.
Þ   O católico sentimental (bem comum no sexo feminino) é aquele que tem acessos de piedade, coincidindo sempre com seus estados mórbidos, confessando-se e comungando, não principalmente para evitar pecados e corrigir defeitos, mas para satisfazer as exigências do temperamento.
Þ   O católico diletante é o que apenas se deleita na parte estética do catolicismo; que se concentra na devoção, nas magnificências e nos ornatos do templo, nas grandes festividades; que acha também na religião um perfume para embalsamar a sua família, mas não uma disciplina para lhe santificar a alma.
Þ   O católico do credo... esse é sempre herege dos mandamentos. Aceita os dogmas, admira-os... mas não se julga obrigado a cumprir, em todas as suas partes, o decálogo.
Þ   O católico dos mandamentos... é justamente o contrário. Aceita o decálogo, reconhece que é a grande lei a única capaz de salvar a sociedade moderna, mas, não acredita senão em certos dogmas, recusa os que lhe desagradam. Acha delicioso o céu; mas não suporta o inferno... O purgatório, talvez...
Þ   O católico de missas - em regra geral, esse é de infalível presença, aos domingos, no sacrifício do altar; mas de infalível ausência nas devidas ocasiões, no sacrifício dos lábios, isto é na confissão.
Þ   O católico de defuntos - esse é o que não acredita, pelo menos não crê firmemente nem no inferno, nem no purgatório; e, não obstante, podem as almas dos defuntos ter certeza de que eles, ou irão ajudá-los a sufragar, em sétimo e trigésimo dia, essas almas; ou, que, e isto não falha, porão suas assinaturas nos livros colocados à porta das igrejas, para serem os nomes publicados no dia seguinte, nos jornais, e, poderem eles próprios, os católicos de defuntos figurar nas missas sem terem ouvido as missas!
Þ   O católico de irmandades é o que inverte, modifica e transtorna a disciplina da igreja, querendo que os bispos consintam nas paróquias tantos vigários quantos são os irmãos de opa.
Þ   O católico autoritário é o que sabe mais do que os padres, os bispos, os teólogos, os concílios e o papa! Ele é católico, mas sem obediência... despreza só uma virtude, mas uma cuja violação é capaz de acabar com tudo neste mundo.(1)

Eis matizes do nosso catolicismo... Mas tudo isto é catolicismo falso, completamente divorciado do espírito de penitência que deve caracterizar o católico.
Um católico é um homem penitente; e a penitência não comporta nenhuma das falsificações apontadas.
Dirão que há católicos isentos de falsificação? Não nego; mas, a julgar, pelos resultados que vemos no Brasil, não podem ser muitos. Também há padres que escapam à outra falsificação de que vou tratar; mas, a julgar pelos mesmos resultados, bem raros devem ser, porque se a lei da penitência, entre os católicos, está tão degenerada, a lei da santidade, entre os padres, está em grande decadência.
Que é a santidade? Porventura a igreja exige de um padre que ele faça milagres e se torne facilmente canonizável? Não, sem dúvida. A igreja, porém, diz expressamente que o estado sacerdotal é um estado de santidade, e diz que a santidade é - a conformidade, não só com a lei de justiça que Deus gravou nos corações, mas com a lei mais alta que Jesus Cristo revelou ao mundo. Essa lei não obriga a todos no mesmo grau, mas é para todos a mesma, exigindo, porém, do padre, que é, quanto à dignidade e autoridade, a reprodução de Jesus Cristo, que o revestiu do seu sacerdócio, ser também na conduta o completo e perfeito imitador do Redentor.
São excepcionais os direitos do padre. Ele é o eleito de Deus, por Deus colocado acima de toda a criação. Ele é o mediador dos homens e, por isso mesmo, devendo receber destes as homenagens devidas a um ministério, que é a maior de todas as realezas. Excepcionais os direitos, mas também, excepcionais os deveres. Estes variam, segundo as considere o padre na sua vida interior ou na sua vida exterior.
Trato apenas da vida exterior e digo que esta, em relação às almas e à sociedade, se resume em três palavras: amar, dirigir, edificar.
Para o padre, amar as almas é imolar por elas todo seu coração; dirigir as almas - é imolar por elas todo o seu tempo e edificar as almas - é imolar por elas todos os vícios, todos os apetites, todas as paixões, dando às almas isso que faz a suprema força a suprema fecundidade, a suprema glória do padre: o exemplo.
No exemplo, mais que em tudo; sim, no exemplo das virtudes está a alavanca com que o padre move o mundo e eleva às almas à aceitação voluntaria da religião. Onde não há o exemplo o padre não ama; não dirige, não edifica.
Onde o padre não ama, não dirige, não edifica - a doutrina católica não é verdadeiramente a alma do sacerdócio, porque, como demonstrado ficou, as virtudes morais são inerentes à doutrina, e tão inerentes a ela, que onde quer que prepondere a doutrina, incessantemente se produzem essas virtudes.
Não julgo licito, sob o ponto de vista da santidade, negar a decadência do sacerdócio no Brasil; e como querer que sem a santidade dos padres os incrédulos se convertam e a Nação se salve ?!
A corrupção do sacerdócio judeu foi o maior obstáculo oposto à obra de Jesus Cristo, quando este apareceu.
Diz um historiador ilustre, o padre Didon:
"O sacerdócio estava aviltado. Tremia perante a autoridade pagã. Dos padres, uns eram verdadeiramente cépticos, sem fé na alma, na imortalidade, na ressurreição, na Providência Divina. Outros não conheciam das Escrituras senão a letra, sem penetrarem jamais no sentido que elas encerram. Outros, observadores fanáticos do rito, viviam absorvidos só pela prática exterior do culto. Faltava ao sacerdócio a pureza, o amor ardente de Deus, a misericórdia para com o próximo, a penitência, a justiça, a retidão. Se virtude havia, esta era como que máscara encobrindo a cobiça e o orgulho".
Tão acima está do sacerdócio antigo o sacerdócio da nova lei, tão superior e mais santo deve ser este. Eu não aplico os conceitos de Didon, em todo o rigor, ao sacerdócio no Brasil, mas, pelos resultados negativos da doutrina católica, tenho por justificada a afirmativa que fiz: - os incrédulos não se converteram e a Nação não recua de sua apostasia, porque nós somos, - católicos sem penitência e padres sem santidade.
- É tempo, entretanto, de tomar um expediente, e a Deus pedi me inspirasse em favor dos católicos e padres uma, idéia, um pensamento, um alvitre, que julgo ser o deste conselho que vou dar.
Resolvamos os católicos e os padres, resolvamos sem hesitação nem maior perda de tempo, dar, custe o que custar, aos incrédulos e à nação o exemplo de penitência e o exemplo de santidade; ou fugir para longe das cidades e das vilas. Tem o Brasil muitas matas, muitos rochedos e muitas cavernas. Vamos todos esconder nos esconderijos o nosso opróbrio, a nossa ignomínia. Talvez que os incrédulos, não vendo os testemunhos que damos em contrário à nossa religião, deixem de duvidar e se convertam. Talvez, também nos recônditos do Brasil, na vastidão das florestas, entre as feras, muito mais aproveitemos nós próprios, e reconheçamos a nossa culpa.
A agilidade do veado nos ensinará quanto é grande, na obra de Deus, a nossa indolência, não correndo nunca na estrada dos mandamentos, nem voando nunca às conquistas que o trabalho oferece.
O olhar da onça nos ensinará quanto é cruel o sentimento que uns aos outros votamos às vezes misturando de ódio a fraternidade deve existir entre católicos(2), para que ninguém os veja, digladiando, como os filhos de Jocasta, no mesmo seio maternal.
A sinuosidade da serpente nos ensinará as astucias com que na nossa devoção tentamos enganar o projeto de Deus, preferindo os caprichos de nossa vontade às lições maternais da igreja.
O rugido estridente do leão nos ensinará quanto somos covardes, engolindo a palavra, não soltando o verbo, na defesa e reivindicação dos direitos da Igreja...
- Quem é este, ó Deus, quem é este que acaba de fazer o que eu fiz hoje neste púlpito?! Quem é este que acaba de exprobrar aos católicos não serem penitentes, e de exprobrar aos padres não serem santos? É de todos os padres o mais miserável, porque o mais imperfeito na virtude e o mais distanciado da santidade... Como e por que o revestiste de missão tão alta?! Sem dúvida, por que não achaste em todo o Brasil um que pudesse melhor provar o que disseste pela boca de São Paulo: "Deus escolhe os homens mais fracos e mais vis, para com eles confundir os fortes e os poderosos". Isto, porém, nem me despoja da pena da minha miséria, nem me isenta da pena devida à minha maldade, tão grande quanto é grande o sacerdócio que só por minha culpa não me tem santificado.
Senhor! Vós bem o sabeis. Um só padre indigno basta para corromper uma nação inteira e atrair sobre ela os castigos da Vossa justiça. Senhor! Vós bem sabeis o que eu sou. Compadecei-Vos de mim, oh! Deus, pela Vossa infinita misericórdia.

Notas:

1- "Três coisas concorrem principalmente para formar e aperfeiçoar os Santos: os seus costumes simples, as virtudes que praticam, as graças que recebem. O homem de fé sente-se abrasado em amor para com a obediência, quando a encara debaixo destes três aspectos." (Meditações sacerdotais por R.P.Graignon. S.J, Tomo II, 1934).
2- "Amar-vos-eis uns aos outros, disse Cristo, como Eu vos amei a vós - "não como amam aqueles que corrompem a inocência ou a fé" comenta o imortal Agostinho (ln Joannis Evang. trato 65 c 13 - Migne PL t. 35 col. 1808-1809); "não como os homens se amam uns aos outros, simplesmente porque são membros da mesma raça humana, mas como amam quantos sabem e professam que todos os homens são filhos de Deus, filhos do Altíssimo no qual se deve formar e aperfeiçoar à semelhança de irmão do único Filho gerado". (Sobre a caridade Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos.)

domingo, 23 de setembro de 2012

Pensamento do dia 23/09/2012


¡Qué equivocados andamos a veces los que buscamos la verdadera paz de Dios! 
Qué humanamente pensamos lo que es paz!
¡Cuándo egoísmo encierran a veces nuestros deseos de paz..., 
pero es que lo que buscamos muchas veces no es la paz de Dios..., 
sino la del mundo!
(Saber esperar - Fray Mª. Rafael)

sábado, 22 de setembro de 2012

O PAI - A sua importância e os seus deveres - Parte 1

Padre Emmanuel de Gibergues

Qui scandalizaverit unum de pusillis istis... 
expedit ei ut suspendatur mola asinaria in collo ejus, 
et demergatur in profundum maris.

Aquele que maltratasse um destes rapazinhos... 
ser-lhe-ia melhor que lhe atassem uma pedra ao pescoço 
e o precipitassem no fundo do mar.
S. Matheus, XVIII. 6.


Eminência 1,
Meus senhores,

Aprouve a Deus, em Sua sabedoria, que o ser humano viesse ao mundo e se multiplicasse por intercessão recíproca do homem e da mulher, destas duas criaturas indissoluvelmente unidas por sua livre vontade. Daí, estas duas palavras importantes do Genesis: crescite et multiplicamini2. Digamos só algumas palavras da sua importância para insistirmos sobre os seus deveres.
Quem falará da importância da paternidade? Na ordem da natureza, não há outra mais elevada; fica-se deslumbrado quando se pensa nisto. O poder de criar, de tirar do nada, de fazer do nada alguma coisa; este privilégio sublime, que só pertence a Deus; este poder, que está acima de todos os poderes; este atributo, que é o caráter próprio do soberano Senhor de todas as coisas; este poder de dar a vida, e que acreditávamos incomunicável, foi da vontade de Deus concedê-lo ao homem.
É Ele, sem dúvida, que conserva a Sua propriedade radical, e o homem não age independentemente, mas sim por um poder comunicado; mas comunicado com tal liberalidade, que seriamos tentado a dizer: com que imprudência! Parece que Deus se desapossou, que se privou a Si próprio desse poder da vida, para o deixar, para sempre, à vontade do homem. Poderia Ele elevar o homem a maior altura, dar-lhe um dom natural
mais sublime, mais admirável, que ultrapasse a divindade? ego dixi: dii estis3; (eu vos digo: sois deuses).
Desde a origem do mundo, o nome de pai é o mais belo, o mais santo, depois do nome de Deus.
Divino, por sua origem e natureza, pois que o nome de pai representa a própria autoridade do poder criador e da vida dada; é ainda o alicerce do primeiro império estabelecido entre os homens - o império doméstico; e ficou sempre como o tipo do que há de mais venerável.
Quanto ao homem, queriam mostrar a importância que davam a uma dignidade, a uma instituição, a um serviço prestado; recorriam a esta palavra, para tomarem alguma coisa de sua aureola e majestade. Para exprimirem o que têm de mais caro, depois da família, e que não é senão uma extensão dela, dizem: a pátria. Para honrarem certos homens dentre todos os outros, deram-lhes o nome de pais da pátria, pais do povo, pais conscritos, patriarcas.
A própria religião, para glorificar ou caracterizar o que tinha de mais grandioso e de mais sublime, não achou palavra mais bela, e disse: pais da fé, pais do deserto, pais dos concílios, pais da Igreja, pais das almas, pais espirituais. Deu-se este nome ao próprio chefe da Igreja: Papa, que significa pai.
Que digo eu? Quando o Filho de Deus quis ensinar-nos a rezar, não achou nome mais augusto, para colocar nos lábios, do que o de «Padre-Nosso», para mostrar ao mesmo tempo que Deus não tem prerrogativa mais sublime, e que toda a paternidade dimana d'Ele: Unus Deus et Pater omnium4.

Não! nada, sobre a terra, é mais nobre do que a paternidade humana, pois que nela encontram-se, ao mesmo tempo, a comunicação da paternidade divina, a origem, o modelo de toda a autoridade, de todo bem, de toda a grandeza, e como que uma expansão misteriosa do próprio sacerdócio.
Sim! o pai é padre em toda a extensão do termo, e só ele o era no principio: regale sacerdotium5. É por isso que a religião sempre reconheceu ao pai o direito e o poder de abençoar.
Os pagãos não abençoavam. Enéas transporta, das ruínas de Tróia, o seu velho pai, às costas; e seu pai, quando morre, não o abençoa. As palavras de Heitor a seu filho, nos braços de Andrômaca, são heróicas, mas não o abençoa.
Priamo, o mais sublime dos pais da antiguidade, não abençoara Heitor antes do combate.
Mas entre o povo de Deus, Abraão, Isaac, Jacob, e os patriarcas de todos os tempos abençoaram seus filhos. Entre todos os povos cristãos, nos tempos de fé, os pais abençoavam seus filhos em ocasiões graves e solenes, pelo menos à hora da morte; como Deus o havia feito ao primeiro homem, e Jesus Cristo aos Seus apóstolos, quando subiu ao céu.
Ainda hoje se vê pais abençoarem os filhos, por exemplo, na ocasião da sua primeira comunhão, e esta bênção, emanando do coração de um pai sobre seus filhos, volta, de novo, ao coração paterno, e torna-se, para ele mesmo, uma bênção de Deus. É verdadeiramente um sacerdócio, em que o pai sente uma dessas emoções poderosas, que comovem até ao mais íntimo da alma.
A emoção ainda é mais forte, para os que se sentem menos dignos de uma função tão pura. Já se viu pais recusarem obstinadamente a bênção a seus filhos e exclamarem: Não, não! não posso! Em seguida, cederem, e tendo dado a bênção, derramarem lágrimas, que depois não podiam estancar.
Ah! Meus senhores, qualquer que seja o estado de um homem, por mais baixo que tenha descido, há alguma coisa que o eleva, e se torna, para ele mesmo, a fonte inesgotável dos mais nobres sentimentos - a consciência de ser pai.
Tem-se visto pais recuperarem, em presença dos filhos e num instante, toda a dignidade e respeito de si mesmos, que o mal lhes havia feito perder, e tornarem-se bons, castos, justos, crentes e cristãos!
E se acontece - pois, na humanidade, que é livre, dá-se o contraste espantoso de haver santos e de haver miseráveis, - se acontece, repito, que um homem calque aos pés o seu dever de pai e volva contra seu próprio filho esse poder de amor, de proteção física e moral, levanta-se um grito de indignação e de espanto! Este pai desnaturado, que assim procede, é incluído, por unanimidade, na classe dos monstros... A grandeza de sua queda, ainda mostra melhor a altura de que caiu, e qual é a nobreza o sacerdócio real do pai que não pode recusar o seu diadema sem cair completamente e causar horror! ...
Há perdão para tudo; e a alegria do padre é apagar tais iniquidades; mas é preciso o poder infinito do sangue redentor, para lavar tais manchas e levantar de tais quedas! ...

Notas:

1-      S. E. o Cardeal Arcebispo de Paris presidia à Reunião.
2-      Genesis VIII, 17 “Crescei e multiplicai-vos.”
3-      Salmo, XXXI, 6.
4-      Epístola aos Efésios, IV. 6. “Um só Deus e Pai de todos.”
5-     Epístola de S. Pedro, II, 6. “Sacerdote real.”

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A perfeita casada (XI) - Frei Luís de León

Não temerá a neve para sua família, porque 
toda sua gente está vestida com vestes duplas.


Não é esta a menor parte da virtude desta perfeita casada que pintamos, nem a que traz menos louvor à que é senhora de sua casa; o bom tratamento de sua família e criados, é como uma amostra onde claramente se conhece a boa ordem com que se governa todo o resto. E havia lhe mostrado Salomão, no que vem antes disto, a ser esmoleira com os estranhos, concordou em lhe avisar agora e lhe deu a entender que este cuidado e piedade devem começar com os seus; como diz São Paulo, "aquele que se descuida da provisão dos que têm em sua casa, infiel é, e pior que infiel". E mesmo falando aqui Salomão do vestir, não fala somente dele, e sim, pelo que diz neste particular, ensina o que deve ser em tudo que pertence ao bom estado da família. Porque, assim como se serve do trabalho dela o senhor, assim há de prover suas necessidades, e há de acompanhar o um com o outro, e ter grande medida em ambas as coisas, para que nem lhes falte o que necessitam, nem no que farão os sobrecarregue, como o avisa e declara o sábio no capítulo trinta e três do Eclesiástico. Um é injustiça e o outro escassez, e tudo crueldade e maldade.
E o pecado dos senhores com seus criados geralmente nasce da soberba e do desconhecimento de si mesmos. Se considerassem que tanto eles como seus criados são feitos do mesmo material, que a fortuna que é cega e não a natureza provida, é que os diferencia, que nasceram dos mesmos princípios, que terão o mesmo fim, e que vão em direção aos mesmos bens; e se considerassem que os que servem agora poderiam ser servidos depois, se não eles, seus filhos ou netos, como sempre acontece; que no fim todos, tanto os amos como os criados, servimos a um mesmo Senhor, que nos medirá como nós medimos; assim, se considerassem isto, deixariam os brios de lado, e seriam mansos, e tratariam os criados como a parentes e os mandariam como se não estivessem mandando.
E aqui convém que as mulheres prestem mais atenção, porque há algumas tão vãs, que quase desconhecem sua carne, e pensam que a sua é carne de anjos e a de suas criadas de cachorro, e desejam ser adoradas por elas, acham que tudo é pouco e nada para o que lhes devem ou pensam que devem. Além do muito que ofendem a Deus, tornam sua vida mais miserável do que já é, porque se tornam aborrecíveis aos seus, o que é maior miséria; porque nenhuma inimizade é boa e a dos criados, que vivem entre os amos, e sabem os segredos da casa, e são seus olhos, e mesmo que lhes pese, testemunhas de sua vida, é perigosa e pestilenta. Daqui geralmente saem as fofocas e as falsas testemunhas, e na maioria das vezes as verdadeiras.
E como é perigosa desventura fazer dos criados fiéis, cruéis inimigos com indevidos tratamentos. Assim, tratá-los bem não é só segurança, mas também honra e bom nome. Pois devem entender os senhores que sua gente é como parte de seu corpo, e que é como parte da casa, onde eles são a cabeça, e a família os membros e que os tratando bem, tratam bem e honradamente sua própria pessoa. E como se orgulham de que em suas feições e disposição não haja nem membro torto nem figura desagradável; como lhes acrescentam a todos os membros, tudo o que for beleza, e procuram vesti-los com cores, assim deve se apreciar que em toda sua gente reluza sua muita liberalidade e bondade, de modo que os de sua casa nem estejam nela com faltas, nem saiam dela queixosos.
Conheci eu neste reino uma senhora, que já morreu, ou por melhor dizer, que vive no céu, que, do cavalo troiano que dizem, não saíram tantos homens valorosos como de sua casa criadas suas donzelas e outras mulheres remediadas e honradas; aconteceu de mandar embora de sua casa, devido a um desentendimento, uma criada sua não tão remediada como as demais, a ouvi dizer muitas vezes que não tinha consolo quando pensava que, das pessoas que Deus lhe havia dado, havia saído uma de sua casa com desgraça e pouco remediada. E eu sei que nesta bondade gastava grandes somas, e que, fazendo estas despesas e outras semelhantes, não só conservou e sustentou os seus filhos, que vinham de muitos avós de antiga nobreza, mas também os acrescentou e ilustrou com novos e ricos vínculos; e assim era abençoada por todos.
Devem, pois, amar esta bênção as mulheres de honra, e se desejam elas ser estimadas e amadas, este é o caminho certo. Não quero dizer que tudo há de ser doçura e regalo; que bem vemos que a boa ordem pede algumas vezes severidade; mas, porque é comum que os amos pequem nisto, que é ser descuidados no que se refere ao bom tratamento dos que os servem, por isso falamos disso e não falamos de como os hão de ocupar.
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