sábado, 30 de abril de 2011

Sinal da Cruz - Terror para os inimigos infernais

Sinal da Cruz - Terror para os inimigos infernais


"É com o Credo e com o Sinal da Cruz que é necessário correr o inimigo. Revestido destas armas, o Cristão sem dificuldade triunfará do antigo e soberbo tirano. A Cruz basta para desfazer todas as maquinações do espírito das trevas." (lib. de Symb., c. I. - Santo Agostinho)

"O Sinal da Cruz torna impotentes todos os artifícios da magia, ineficazes todos os encantos e ao abandono todos os ídolos. Por ele é moderado, abatido, extinto o fogo da voluptuosidade mais brutal; e a Alma, curvada para a terra, levanta-se para o Céu. Outrora os demônios enganavam os homens, tomando diferentes formas; postados à beira das fontes e dos rios, nos bosques e nos rochedos, surpreendiam por artificiosos enganos aos insensatos mortais. Mas, depois da vinda do Verbo Divino, basta o Sinal da Cruz para desmascará-los todos. Quer alguém a prova do que digo? Não tem mais que colocar-se no meio dos artifícios dos demônios, das imposturas dos oráculos e os embustes da magia e, feito o Sinal da Cruz, verá como por virtude dele fogem os demônios, calam-se os oráculos e se tornam impotentes todos os encantos e malefícios." (Lib. de Incarnat. Verb. - Santo Atanásio)

"O Sinal da Cruz é a armadura invencível dos Cristãos. Esta armadura que te não falte ó Soldado de Cristo, nem de dia nem de noite, nem um só instante, seja qual for o lugar em que te aches. Quer durmas, quer vigies, quer trabalhe, quer comas, quer bebas, quer navegues, quer atravesses rios, sempre andarás revestidos desta couraça. Orna e protege teus membros com este Sinal vencedor e nada te poderá fazer mal. Contra as setas do inimigo, não há escudo mais poderoso. A vista deste Sinal, trêmulas e aterradas fugirão as potências infernais." (S.Eph. de Panophia ot de poenitem, apud Gretzer p. 580,581 e 642. - São João Crisóstomo)

(Frases retiradas do livro: O Sinal da Cruz por Monsenhor Gaume, Protonotário Apostólico, livro que de Pio IX mereceu um “Breve” especial, primeira tradução brasileira cuidadosamente calcada sobre a 4ª edição francesa, 1950.)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Jordi Savall (Música medieval) - Cantigas de Santa María de Afonso X El Sabio

Jordi Savall (Música medieval) 
Cantigas de Santa María de Afonso X El Sabio


O "flirt" e suas falsas justificativas - Conclusão

O "flirt" e suas falsas justificativas


Conclusão

Em suma, o “flirt” não deve ser classificado entre as “coisas más” e, pois, absolutamente, impiedosamente, universalmente proibidas. Mas deve ser classificado entre as coisas perigosas que, muito depressa, o serão gravemente.

Ora, o princípio da moral cristã determina que as coisas perigosas devem-se fazer o possível por evitá-las e quando a elas nos expomos, deve haver um motivo tão grave quanto o próprio perigo. E tratando-se do “flirt”, quando é que se têm esses motivos? Nunca. Porque, se o grande motivo para “flirtar” deriva de querer divertir-se, quem ousará pretender que seja uma razão que constitua um direito e, em caso de pecado, possa servir de desculpa?

Mas quem determinará a medida do risco a correr? Naturalmente que o perigo não é o mesmo para todos, e nem sempre igual a todos. Certas circunstâncias tornam o perigo mais imediato. O temperamento de cada um, ora modifica o perigo, ora o diminui, ora o agrava.

Do mesmo modo, a experiência pessoal, adquirida por preço elevado, traz consigo lições decisivas. Seria uma desonestidade esquecê-las e ir procurar nos livros uma permissão que nossa consciência, instruída pela própria vida, nos recusa... Quando, apanhando um pedaço de carvão, queimamos as mãos, quem irá dizer que esse carvão estava apagado? Quando nos machucamos num galho, quem dirá que ele não tinha espinhos? E, quando se fica tonto bebendo um pouco de licor, poder-se-á dizer que é água pura?

No entanto, não é o que muitas fazem? Pecaram flirtando e protestam indignadas contra “os pretensos perigos do flirt”... Feriram-lhes a consciência, deixaram-nas semi-inconscientes às margens do caminho moral, e zangam-se quando se lhes diz que o caminho do “flirt” se assemelha ao mau caminho que descia de Jerusalém a Jericó... Desoladas pela inocência perdida e, assim que ficam um pouco consoladas, ironicamente aos conselhos que lhes dão. Têm o braço inchado e ainda dizem que a serpente não era venenosa... Estão arruinadas e, no entanto, dizem que a aplicação que fizeram do dinheiro foi excelente. Sua lâmpada, ainda cheia, apaga-se e negam que haja vento... Em mar calmo, sua barca naufraga e, presas aos destroços, gabam-se de terem manobrado na perfeição. Limpam como podem a mancha negra no vestido e juram terem rolado na farinha...

Nessas condições, está visto, é inútil falar-lhes, avisá-las, suplicar-lhes que não prossigam. Rir-se-ão. Sabem, melhor que ninguém, o que devem fazer...

Mas as que têm a coragem de ser sinceras e recebem com dolorosa submissão as lições que a vida lhes dá, encontram aí a condenação definitiva do “flirt”. Se as faltas as prejudicam em alguma coisa, pelo menos servem-lhes também para alguma coisa, é por meio delas pela misericórdia de Deus, que a derrota se transforma no benefício de servir de obstáculo a não mais pecar.

Adverte o catecismo que, quando pelo exemplo dos outros e pela própria experiência, se compreende para onde leva o “flirt”, o problema prático está resolvido. Não se flirta mais porque se sabe que não se tem o direito de o fazer...

Contra essa doutrina severa e duvidosa, ouço o protesto indignado das jovens que permaneceram puras e, certas do triunfo obtido, reivindicam temerariamente o direito de prosseguir na brincadeira. Mas, também ouço a queixa desolada e o amargo escárnio daquelas que tudo perderam. E a queixa dolorosa tem um som diferente do protesto... Suponho que também você a ouve... Muitas vidas profanadas a fazem ouvir... O estertor dos moribundos, na planície de Wagram, faz correr sobre a relva um pequeno arrepio semelhante ao provocado, num coração cristão, pela queixa de tantas e tantas almas feridas que agonizam no campo da vida.

Essa é uma revelação. É Deus que fala pelo silêncio dessas inocências mortas... É a lei moral que ainda mais se afirma pela ruína dessas consciências desmoronadas por não a haverem respeitado...

Mas existem almas que nunca se emendam. Existem outras que querem ter razão apesar de toda a evidência. Serão sinceras? Se o são, compadecemo-nos delas por serem cegas... Se não o são, compadeçamo-nos por serem tão calmamente desonestas...

Jovens que flirtam, vocês não vêem com que olhar o crucifixo pendurado na parede de seu quarto as olha? Nas encruzilhadas dos caminhos por onde vocês passam, se houver um Cristo, não se envergonham de passar adiante? E na igreja onde, apesar de tudo, vocês ainda vêm rezar ao domingo, sua consciência não ouve a palavra aflita que Judas ouviu em Gethsemani: “Meu filho, meu amigo, será por tais beijos, em tais noites, que traís o filho do Homem?” Por tê-la ouvido, muitos se puseram a chorar e suas lágrimas confundiram-se num comum arrependimento... Será pedir muito a vocês para, ao menos, não rir?

O que não se pode fazer, sem vexame, diante de Cristo, é quase sempre o que não deve ser feito. Aquilo que nos envergonha diante do Cristo-Redentor é o que nos envergonhará diante do Cristo-Juiz...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Vocês e vosso futuro.)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Devotos do Sagrado Coração de Jesus



... Um outro sequaz do pobre de Assis, no desprezo das verdades mundanas, no amor da vida penitente e na contemplação do mistério da Cruz, foi o Beato Jacopone de Todi (+ 1306). Na seleta das suas poesias sacras, achamos pedaços, em que nos fala do amor do Coração de Jesus pelas almas e do incêndio da caridade ateado na sua alma.

Citamos dentre elas algumas estrofes:

Olha-Me esposa um momento
Nu na Cruz pregado
Com tão horrível tormento
Para dar-te em alimento Meu divino fogo.

No Meu Coração estais escrita
Com letras de sangue;
Porém se torna exangue
Por tua causa, morre pouco a pouco.

Teu amor Me forçou
A este mundo baixar;
Com Meu Coração Santo e puro
A morte não pôde acabar.

Em outro canto:

Ó alma bendita
Do Supremo Criador,
Olha que teu Senhor
Espera-te Crucificado.

Observa aquela chaga
Que tem ao lado direito;
Vê o sangue no Seu peito
Que teu delito paga.

Pensa que Eu fui aflito
Por uma lança cruel
E tive por cada fiel
O Coração transpassado.

Em um outro:

Vôa ao alto coração enamorado
Passa e vai ardente ao Redentor
E vai ao lado
Que conserva a ferida por amor;
Entra até o Coração com grande ardor
Depois não sai por coisa vã
Dessa doce fonte
Que toda gente cura e faz sarar.

(Sorio - Poesias escolhidas - Verona 1838.)

(Citado no livro: Eu Reinarei, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus no seu desenvolvimento histórico, pelo Pe. Fernando Piazza, da ordem de São Camillo, obra traduzida pelo Dr. Alberto Saladino Figueira de Aguiar; impresso nas "Escolas profissionais do Lyceu Coração de Jesus", ano de 1932.)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Madalena, a perdoada

Madalena, a perdoada


Esse cântico, repete-lhe Madalena as estrofes dolorosas ao pé da Cruz.

A tradição unânime e constante coloca o penitente nessa posição humilhada e amorosa. Parece que ela não se atreve a subir até o semblante do Senhor; e, entretanto, do pé da Cruz ser-lhe-ia bastante levantar a cabeça, e os seus olhos se encontrariam, através do seu véu de lágrimas, com os olhos cheios de sangue que o haviam fitado e transmudado outrora.

Madalena volve incessantemente a este outrora das suas recordações.

Onde e quando viu ela o Mestre pela primeira vez? Com que curiosidade, a princípio, a mulher leviana procurara achar-se em face do grande taumaturgo? Com que interesse depois? Com que temor secreto também, pois pretendem que Ele sabe ler no fundo dos corações? Como foi que, por esse misterioso encadeamento da graça, ela chegou a desejar rever aquele ente tão meigo e tão poderoso que a atrai estranhamente?

Quando, de volta de uma daquelas entrevistas que ela queria triviais e sem conseqüência, Madalena tornava a encontrar-se no cenário íntimo onde tudo só lhe falava das suas vergonhas públicas e secretas... de que desencantamento não devia ela sentir fulminarem-se uma a uma todas as coisas que amara, desejara, sofregamente buscara?

Toda volta a Deus começo por essa desilusão. A grande luz do alto põe a nu o vazio que está em baixo. Deus não violenta nada em nós; e nós somos transformados. O fruto tão doce do prazer assume então um travor singular: o lábio tende-lhe ainda, mas a mão logo o repele, e arranca-o àquele lábio trêmulo e desiludido.

Inconsciente do movimento que nela se opera, a alma se agita, vai de uma flor à outra: já não há mel.

Madalena recorda-se desse vago e antigo mal-estar quando, no fundo do horizonte da sua vida, via elevar-se lentamente o sol estranho do semblante humano e divino cujo esplendor a fascinava.

Um dia, ainda meio ataviada, mulher pecadora e pública, ela se levanta, sai com um vaso de perfume nas mãos: tem o andar ansiosa, precipitado... entra numa sala onde há  um festim, ao qual não foi porém convidada; são ricos que estão deitados nos divãs ao redor da mesa. Ela insinua-se pelo meio dos criados; é bastante conhecida para que lhe não embarguem o passo... e ei-la inopinadamente, ela, o orgulho e a volúpia, ei-la que cai de joelhos aos pés da divina e radiante pureza! Há virtudes que só se aprendem de joelhos: a pureza é dessas.

Entretanto um silêncio se fez subitamente na sala; toda gente se admira, o dono da casa, os convivas, os criados: e Madalena rega humildemente os pés de Jesus com as primeiras lágrimas de arrependimento. Depois quebra a empola de perfume e derrama-lhe o líquido precioso nos pés lavados pelo seu manto. Mas tarde ela ousará subir mais: irá até a derramar o óleo odorífero nos cabelos e na cabeça; por hoje, cinge-se aos pés, no chão, no seu lugar, no opróbrio e no pó. E tudo isso se faz com um rito augusto e sagrado, - pois não é a consagração da alma contrita?... – e no meio de um silêncio em que começam, entretanto, a ressumar alguns murmúrios de convidados os risos discretos dos criados.

Madalena não atenta nisto. Com um derradeiro gesto, como para completar a sua humilhante atitude, desnastra os seus longos e sedosos cabelos: assim fazia o sumo sacerdote sobre os ombros da mulher adúltera. Só por este gesto confessa ela, pois, toda a sua vida criminosa, e, com a fronte ruborizada de pejo, inclina-se, a modo de uma escrava, para enxugar com as suas tranças magníficas e onduladas os pés divinos que os seus perfumes, as suas lágrimas e os seus beijos tão ardentemente banharam.

A história, diz Lacordaire, em parte alguma nos mostra o arrependimento e o pecado a criarem juntos uma imagem tão tocante de si próprios”. (Vida de Santa Maria Madalena, c. III.)

Foi nesse momento que, no coração do fariseu orgulhoso da sua integridade, se elevou uma dúvida, uma irônica reflexão: “Se fosse um profeta, dizia ele de si para si, ele saberia o que vale essa mulher pública que o toca e o beija nos pés”. Madalena não ouviu este pensamento, mas percebia os murmúrios e até o silêncio que enchia a sala. E eis que, no meio dos murmúrios e do silêncio, ouve de repente uma voz que se eleva: Jesus defende-a; faz mais, desculpa-a; faz melhor, louva-a; e, coroando tudo com uma palavra, perdoa-lhe.

- “Vai, filha, todos os teus pecados te são perdoados, estás ouvindo? Vai, a tua fé te salvou, e fica em paz”.

Isto foi dito com tal tom, isto foi dito com tal olhar, que, através das suas lágrimas e dos cabelos esparsos, Madalena, fitando um momento aquele divino semblante, nesse mesmo instante foi ferida, abatida, derribada, reerguida, e tão alto que, doravante reabilitada, luminosa e pura, ela não mais deixará Jesus, segui-lO-á, apegar-se-Lhe-á, subirá com Ele a toda parte.

- “Vede, irmãos meus, o vôo dessa alma que o amor de Deus feriu”, exclama Bossuet falando das virgens: pelo seu arrependimento, Madalena entrou na ascensão das almas puras, e conclui hoje o seu vôo extático pela subida do Calvário. Ela lá está em lugar de honra, ao lado da Rainha das Virgens e do apóstolo casto.

Ó pecadores, ó pecadoras, almas perdidas, carnes desprezíveis e desprezadas, vinde e vede: no montão imenso dos vossos pecados, achai-me um só de que a bondade de Deus não possa fazer um degrau para vos elevar, se, iguais a Madalena, souberdes abaixar-vos, arrepender-vos e melhor amar.

Madalena, que caíra tão raso por mal e em demasia ter amado, só se alcandorou tanto por muito e bem ter sabido finalmente amar; e hoje, nesta hora do Calvário, ela dá ao seu arrependimento o derradeiro lustre, ao seu amor a suma intensidade.

Porquanto, se aquele grande silêncio, naquela escuridão do Gólgota, ela ouve, principalmente, nas suas recordações comovidas e perturbadas, naquela palavra que foi a alvorada da sua vida refeita: - “Tem confiança e vai em paz”... como, erguendo os olhos, não devia ela compreender a que preço cruel e doloroso lhe fora essa paz comprada! Era preciso nada menos do que aquela Cruz erguida, o horror dos cravos enfiados na carne, e a morte que avançara e cuja sombra pálida cobriu já aquela face adorável.

E Madalena olhava então como que furtivamente, de baixo, onde se achava ainda aos pés de Jesus, Madalena olhava o semblante do Senhor coberto de livor e de sangue, onde se escrevia impiedosamente a história dos seus pecados, a história do seu perdão.

Que olhares!

Há um olhar das almas perdoadas, como há um olhar das almas inocentes.

Em qual dos dois se aninha maior suavidade? Em qual mais alegria e gratidão?

Isto é segredo de Deus, e também desses privilegiados.

Afiguram-se-me, porém, ó meu Deus, que, nos olhos da minha alma tantas vezes perdoada, luzirá mais amor, porque com os destroços dos grilhões dos meus pecados, por Vós tantas vezes partidos, eu posso de ora em diante formar um elo tão forte e tão doce, que nada será já capaz de separar neste mundo da Vossa imensa caridade.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: As zombarias.)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Acerca da decência do vestuário

Décimo sexto dia 
Acerca da decência do vestuário


I – Quanto me afliges, Minha filha, quando te vejo de tal modo ocupada pelas festas mundanas, vaidades e modas, que para as seguires em teus vestuários e enfeites, não tem pejo de violar as santas leis da modéstia. Dotou-te Deus de razão para que te percas em semelhantes frivolidades? Em lugar de diligenciares agradar-Lhe, não cuidas senão em ser agradável ao mundo e às criaturas. Como tu correspondes mal, ó Minha filha, às graças que te prodigalizou e aos fins a que se propunha concedendo-as. Para desculpar uma tal desordem, as tuas companheiras, bem o sei, dizem que não querem ser ridículas, escarnecidas pelas outras e olhadas como pessoas cheias de escrúpulos e de preconceitos.

A modéstia não se opôs nunca à decência e à propriedade do vestuário. A negligência e a grosseria nunca agradaram a Deus nem às almas virtuosas; mas é o impudor e a imodéstia que Deus detesta e pune severamente. Quando Eu era da tua idade, também Me enfeitava segundo o Meu estado e a Minha condição, mas para atrair o respeito e a estima de preferência a uma admiração vã, que não serve senão para excitar as más afeições.

Crê tu, Minha filha, que esses ornatos, esses trajes justos e essas nudezas descaradas sejam capazes de te atrair o respeito? Se observasses a modéstia, quem zombaria, de ti? Não seriam as pessoas virtuosas e tementes a Deus, mas as donzelas levianas e mundanas. E tu, inquietar-te-iam as suas tolas irrisões! Deixar-te-ias arrastar à perdição pelos seus maus exemplos! Ah! cora da tua loucura e não te envergonhes de imitar os Meus exemplos, se Me tens amor.

II. – Tu, Minha filha, não podes observar em jejum prescrito pela Igreja; o só nome de mortificação te assusta; o ar que se respira no hospital ou na câmara dum doente revolve-te o coração: mas a que tormentos te não submetes para seguires as leis da vaidade e da moda, para te apertares a fim de pareceres dum talho elegante e gracioso? A que mal-estar, a que escravidão tu te condenas, quantos enojos e enfados suportas, quer seja para dar-te as mais vivas cores, quer ao contrário para fazer empalidecer essa cor e adquirir, como costuma dizer-se, uma cor sentimental? És mártir da moda, ou antes, - do demônio. Quantos trabalhos tu tomas voluntariamente para te condenares, e quanto desgosto experimentas em fazer alguma coisa pelo céu e por tua alma!

Se um confessor te impusesse por penitência dos teus pecados sofrer unicamente a metade do que sofres pelas modas, taxá-lo-ias de indiscreto. Mas tudo se torna fácil quando é o mundo que o ordena. Deus faz mal, dizia um dia um dos Meus fiéis servidores a sua filha, que via diante dum espelho toda aplicada a vaidade; Deus faz mal se te não envia para o inferno, porque tu procuras todos os meios de ir para lá. É, pois assim, ó Minha filha, que desempenhas as promessas feitas no dia sagrado do teu batismo?

Na verdade, tu desonras muito a Minha modéstia, afetando, pela pouca decência no vestuário, querer agradar aos mundanos! Crês tu ter a modéstia duma donzela cristã, quando até para a igreja vais carregada de jóias e modas escandalosas? Quando pela afetação do teu aspecto fazes com que todos os olhares se dirijam mais depressa para ti do que para o altar? Quando roubas para ti mesmo as homenagens devidas a Meu Filho e a Mim, Sua Mãe e tua?

Aviva a tua fé, ó Minha filha, e reconhece que nesse ato um demônio que se apresentasse no lugar santo faria menos horror que tu.

Persuades-te sempre, ó Minha filha, que não fazes senão o que as outras fazem. Ainda que os pecados que tu cometes e fazes cometer pela imodéstia do teu vestuário sejam inumeráveis, fazes deles tão pouco caso, como muitas outras das suas companheiras, que os não confessa ou que te acusas quando muito, de ser um pouco inclinada à vaidade.

Ah! Minha filha, tu não compreendes bem o que quer dizer – ser inclinada à vaidade: não vês os grandes males que dali derivam.

A vaidade produz a glória vã que coloca a sua própria felicidade, não em agradar a Deus, mas em ganhar a estima e afeição dos homens com a esperança de ser por eles aplaudida. Produz a perda do tempo, tesouro tão precioso de que o Espírito Santo nos recomenda estimar a menor parcela: faz passar todos os dias longas horas diante do espelho, que tu não calculas, mas que Deus conta. Produz a ruína nas famílias, o desgosto dos pais que nunca podem satisfazer o teu gosto pelas modas.

Produz o escândalo das tuas irmãs e companheiras, a quem o teu exemplo inspira o gosto das modas e aformoseamentos imodestos; o escândalo também nas estranhas, porque te tornas como um laço de Satanás, e das quais arrasta as almas para o inferno, inflamando-as das chamas impuras. Produz a profanação do lugar santo; faz roubar dum modo sacrílego a honra devida a Deus. Aparecendo na igreja sem modéstia, elevas-te em face do santo altar como um altar profano e detestável, sobre o qual são sacrificados ao demônio da libertinagem os corações e as almas de todos aqueles que o idolatram. Tens tu seguido essas modas vãs e escandalosas?

Oh! se tem sido assim, corrige-te, Minha filha! Desgraçada de ti, se não reparas essas culpas pela penitência.

Afetos. – Tinha os olhos fechados a respeito destas culpas, ó Mãe Santíssima. Não via os graves inconvenientes da vaidade. Agora reconheço que é um laço insidioso que me expõe a perder-me e outros comigo. É preciso, pois que o evite; não posso agradar a Deus, querendo agradar aos homens e a mim mesma.

Querendo parecer amável aos olhos do mundo, tenho-me tornado execrável aos Vossos e aos do meu Deus. Malditas vaidades! Enfeites detestáveis! De hoje avante não tereis mais encantos para mim. Renuncio a isso, ó Mãe compadecentíssima, como renunciei no dia do meu batismo. Faço-Vos de novo a promessa, porque não quero perder a minha alma. Se for desprezada pelo mundo, que me importa contanto que agrade a meu Deus e a Vós? Tendes-me feito conhecer o meu mal e quero sanar. Ajudai-me, Mãe querida.

Com o Vosso socorro não mais serei infiel às promessas que agora faço e para sempre. Fugirei d’ora avante com o maior cuidado à imodéstia e à vaidade.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzido do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O "flirt" e suas falsas justificativas - 3ª Parte

Terceira parte
O "flirt" e suas falsas justificativas


Dizem: “Irei até certo ponto... não mais além... Fixei um limite que nada me fará transpor”.

Dizem, dizem... Mas, entre o dizer e o fazer, há a fraqueza humana que conclui o seguinte: o fazer é, muitas vezes, o oposto do dizer... Nós o verificamos e sofremos. O que se denomina problema moral não é justamente o problema de saber se e como se irá do dizer ao fazer sem desfalecer no meio do caminho? Do pensamento ao ato, do querer à realização, é grande o caminho a percorrer. E quantos caem nesse caminho que sobe! No entanto, não tinham intenção de cair nem de acabar sem glória nos buracos. Somente, não tinham previsto tudo: cansaço; falta de coragem, mau tempo, atração pelo espaço, chuva e sol. Acreditavam ser de ferro e só possuíam pernas de lã. Pensavam ter um bom coração e a subida os estafa. Não sabiam que, entre os companheiros de viagem, alguns só oferecem seus amáveis serviços para obterem, em troca, as não menos amáveis cumplicidades. De maneira que aqueles com os quais se contava para atingir a meta final são justamente os que impedem seja atingida. 

A ilusão humana transforma os sonhos em realidades. Encanta-se com o esplendor do seu programa e a ressonância de suas promessas. Antes da saída, garante a chegada. Faz prever uma recepção triunfal aos hipoteticamente vitoriosos, que terminam num fracasso tremendo.

Ao sinal de batalha, faz com que se envolvam com a bandeira que se transformará em mortalha. Eis porque “não irei além daqui” não é uma garantia de que, de fato, não se irá.

Por isso a sabedoria ordena que não enveredemos pelo caminho perigoso, com receio de caminharmos demais e, por termos ido muito longe, se torne necessário regressar de padiola...

É romance, isso? Não, é a vida. Será um “espantalho” para assustar os pardais? Não, é a realidade rigorosamente descrita. Melhor vale a gente fiar-se na fraqueza sentida do que na força suposta. Nada lucramos em nos seduzirmos e, desconhecendo-nos a nós mesmos, ao contrário, arriscamo-nos a tudo perder...

Dizem: “Desde que os interessados estão de acordo, não existe falta, ou, se a houver, é menos grave e não há de que se censurar mutuamente”.

Curiosa moral! Estranha fórmula de absolvição! Como se o tácito acordo entre o assassino e a vítima fosse bastante para permitir ao assassino matar e a vítima deixar-se matar!

Evidentemente, e infelizmente, eles se entendem, os dois levianos. Correm juntos os riscos da brincadeira. De mãos dadas, ajudam-se a descer, assim como outros; de mãos dadas, ajudam-se a subir. Mas este entendimento diminui o perigo e a responsabilidade? Equivale a uma autorização que tiverem o direito de se irrogar? A água turva transforma-se em água clara? O que é carnal espiritualiza-se? Morrer com outro não é a mesma coisa que morrer sozinho? Onde arranjaram essa estranha idéia de se darem um ao outro uma autorização que nem um nem outro tinham? Isso quereria dizer que só existe maldade quando a sofremos independente de nós mesmos, e não quando a permitimos livremente... e que bastaria que Judas e os Fariseus se compreendessem para que o negócio fosse honesto...

O contrário seria mais verdadeiro, pois, em boa moral, uma cumplicidade culpável ou perigosa tem como resultado fazer cada qual responsável pelo próprio erro e pelo erro do outro.

Vendo as coisas superficialmente, essa doutrina parece menos odiosa e menos grave, porque foi mutuamente oferecida e mutuamente aceita. Mas só o é aparentemente, como areia movediça sobre a qual não se pode construir sólido refúgio.

Diante da consciência, que pode significar uma autorização dada num ponto em que precisamente a consciência queria justamente que se negasse? O pecado nunca foi um direito. Quem nunca o deve cometer, nunca o deve permitir. Tentador algum, seja ele qual for, não poderia trazer no seu cesto, junto com os frutos proibidos, a permissão de saboreá-los. Se ele a trouxer, você a deve recusá-la, pois será uma permissão fraudulenta, à qual falta a assinatura de Deus.

A razão que faz com que não se deva cair no buraco, também faz com que não se consinta que outro nele caia. Teoricamente, deve-se esperar que aqueles que se auxiliaram na queda também se auxiliarão a levantar-se. Mas nada há de certo e, se acontecesse, como várias vezes acontece, que ambos quebrassem a perna, que socorro eficaz poderiam prestar um ao outro? Juntos estirados, não é de supor que o esforço de cada um deles para se levantar seria inutilizado pelo peso do outro e que a mesma impotência, os imobilizaria lado a lado na lama?

Dizem: “É coisa admitida. Quase todo o mundo o faz. Quais são os jovens que não flirtam?”.

Os jovens que não flirtam são aqueles que, conscientes da própria fraqueza e do perigo que correm, e querendo conservar intacta sua integridade, adotam medidas rigorosas, as únicas eficazes.

Existem ainda jovens dessa espécie. Em número asas suficiente para não surgirem como “fenômeno”, nem como “pato branco”, nem como “carola”...

Que alegria malsã reduzir assim a zero o número dos seres intactos para, com esse processo, deixar de ajuntar uma unidade a mais ou evitar pertencer a esse número! Uma vez mais se verifica o acertado da lei que diz não crerem os impuros na pureza dos outros e que os viciados só vêem vício nos outros, como neles também. As mãos sujas sujam tudo em que tocam, os olhos embaciados sombreiam todas as coisas que enxergam e dir-se-ia que, para ver a virtude, é preciso primeiramente praticá-la. É neste sentido que muitas vezes nossas suspeitas nos julgam e a severidade para com os outros traduz nossas taras secretas.

Existem moças que não “flirtam”. Dizendo isso, nada mais faço senão afirmar a verdade contra seus acusadores maldosos, aos quais ela incomoda e que pretendem justificar-se negando-a.

Essas moças não são menos alegres, nem menos inteligentes, nem menos amorosas, nem menos modernas que as outras. São apenas mais sérias, põem mais reserva nos prazeres, mais profundeza nas ternuras. Perdem algum encanto? Não. Mas esse encanto não apaixona, tranqüiliza. Provocam menos tempestade, mas prometem mais felicidade. E aqueles aos quais só agradariam com a condição de os enlearem em seu “flirt”, merecem acaso que elas lhes sacrifiquem um pudor tão emocionante e tão precioso?

Existem moças operárias, estudantes, burguesas que não “flirtam”. É fato corrente chamarem-nas tolas. Muitas delas deixam-se impressionar. Mas não há motivo. E não é preciso refletir muito maduramente para se perceber que o insulto é muito mais ultrajante para a pessoa que ousa proferi-lo do que para o rosto que o recebe sem por ele ser contaminado.

Supondo que essas moças sejam exceção, que prova isso e a que autoriza? Prova que existem poucas consciências fortes, que as ocasiões de tentação aumentam dia a dia e, principalmente, que as vitoriosas merecem provas maiores de admiração. E autorizará também as fraquejantes a prosseguir em sua brincadeira após terem procurado canonizar seu erro? Nunca. O dever conserva sempre seu prestígio, seja qual for o número, pequeno ou grande, dos que o praticam. Mesmo quando cometido por toda a gente, o pecado sempre é pecado. O atrativo universal pode, em certos casos, explicar e mesmo até desculpar a fraqueza, mas nunca a justifica inteiramente. Se, afim de “flirtar”, procuram argumentar com a multidão daqueles e daquelas que “flirtam”, isso não passa de um ardil desastrado de pessoas que estão à procura de uma absolvição que não é bem a absolvição sacramental.

Se a roda gira, gira e ainda gira, poderá girar quando quiser, pois nunca se deterá diante do “bom número”, se por “bom número” se entende o número em cujo reverso estaria escrito com lindas letras maiúsculas, caligrafadas pela consciência, “o direito de flirtar, visto que todo o mundo flirta...”

Antes de dizer: “Quantos são os que praticam o dever para que eu saiba e estou obrigado a praticá-lo?” é preciso dizer: “É ou não é o dever?” Porque, para o homem honesto, essa é a única pergunta existente.

Existem muitas que “flirtam”. Inútil saber ao certo o número delas, pois o perigo do “flirt” é independente do número dos que o correm e o dever de abster-se dele também é independente do número dos que o permitem a si próprios.

Verdade de La Palice” pensarão. Sim, e, principalmente, “verdade do Evangelho”. Pois não é verdade que Nosso Senhor disse: “Quando um cego conduz outro cego caem ambos no precipício?”

Você já é bastante grande para concluir sozinha. Só lhe peço que tenha a necessária coragem e lealdade.

Dizem: “O flirt é juventude... é vida... é alegria”...

Sim, mas com a condição de lhe adicionar os qualificativos necessários: “É juventude... desperdiça... É vida... fictícia... É alegria... decepcionante.”

E como não havia de o ser? A verdadeira vida, a verdadeira juventude, a verdade alegria supõem um ardor que não seja sensualidade consumada, uma plenitude e profundeza interior, um amor próprio, uma paz consigo mesmo, fora dos quais só haveria desperdício e fadiga sem proveito...

Quando se diz que o “Flirt” produz alegria não se diz totalmente a verdade e está-se muito longe de traduzir, com precisão, a história íntima dos que brincam dessa forma... Existem pessoas, é certo, que encontram a felicidade em insignificâncias e que, contentando-se com muito pouca coisa, não tendo um ideal mais elevado, acreditam ter colhido a felicidade quando só tiveram um pouquinho de prazer. Por demais superficiais para exigirem muito, estão tão ausentes de si mesmas que não sabem o que lhes falta em casa. A alegria que aparentam prova principalmente o terra-a-terra de suas aspirações e o testemunho que dão, sendo sincero, não tem valor.

Mas, dentre as jovens, as que nem sempre viveram superficialmente e que, por permanecerem puras e reservadas, experimentaram a alma nos dias sombrios, elas bem sabem, ao “flirtar”, qual a felicidade que sacrificam e o pouco de felicidade que, em compensação, encontram. Mas não o reconhecem logo e não o dizem em voz alta, porque reconhecê-lo e proclamá-lo equivale a condenar-se e, diante dessa confissão, o orgulho das jovens se revolta e, não se sentindo com coragem de corrigir o erro, melhor será não o tornar público.

No entanto, quando o segredo lhes é por demais pesado, procuram um coração amigo e seguro com o qual possam desabafar. E suas confidências transformam-se em verdadeiras lágrimas, lágrimas que têm o peso do chumbo e a amargura do fel. Lágrimas que parecem feitas de água do oceano, saturadas de sal, com gosto de tempestade e desolação... E que há, então? O final sangrento da tragédia? Oh! não. O que há, e que as martiriza, é uma grande desilusão, uma vergonha impregnada de remorsos, a sensação de um grande vazio, a evidência por demais clara de que “não é isso”, a certeza torturante de ter perdido muito para o passado, e muito comprometido para futuro. Elas, que muitas vezes foram o Magnificat cantado em noites puras, são agora o Miserere gemido em noites mais ou menos culpadas. Não mais se reconhecem. Ou, por outra, reconhecem-se por demais, à luz de uma consciência que as acusa e faz com que leiam nas paredes da sala onde termina a festa: “Então é você?” 

Para quem nasceu num palácio, um casebre, é horroroso. Para quem já reinou, a escravidão é a mais das desonras. E, para aquelas que foram felizes com a felicidade proporcionada pelas comunhões piedosas num coração casto e pacífico, a alegria do “flirt” depressa se transforma em aflição, sua mentira traz desespero e as cartas que então se escrevem a modo de consolo são páginas de grande melancolia, com palavras pungentes, como se fossem gritos de desespero...

Quando se está ao serviço do dever e da inocência virtuosa nunca se deixam escapar tais queixas. Ou isso nada significa – mas quem ousará pretendê-lo? – ou então significa que nos “flirts” suspeitos a esperada descoberta da felicidade não se realizou, mas, ao contrário, se descobriu, o que, de antemão, foi dito pela consciência, mas que não era aceito enquanto o coração acabrunhado não fizesse por si mesmo a dolorosa experiência.

Agora já se sabe. Mas o que se sabe hoje, outras ainda não sabem e negarão até que por sua vez o aprendam chorando, se Deus tal graça lhes conceder.

Admite-se que só as naturezas privilegiadas são capazes de aproveitar da lição, porque só elas avaliam a profundidade do vazio cavado em seu íntimo. Mesmo quando isso acontecer, as naturezas privilegiadas merecerão que se recolham suas confidências e que nelas se reconheça a submissão da lei moral a si mesma, junto daquelas nas quais ela agora se desdobra em remorsos depois de, durante muito tempo, se haver afirmado em altivez tranqüila e radiosa serenidade.

Para as jovens de vinte anos, que, com um sorriso nos lábios, dizem tranquilamente: “O flirt é alegria”, quantas, oh! quantas dizem tristemente, com o olhar vagando no infinito: “Não, não é alegria”. Estas últimas têm razão porque “sua boca diz da abundância de coração” enquanto que outras só falam “do vazio da consciência”...

Dizem: “Mas para que tanto barulho? Não é assim tão trágico! Se o mundo inteiro se incendiasse, não se gritaria tanto...”

Minha jovem, não censure a quem tem por você, do íntimo do coração, um excessivo cuidado que só pode ser tido como prova de afeição. Preferiria você um desinteresse glacial diante do que ameaça maculá-la, diminuí-la e perdê-la?

É verdade, enquanto você ri de si mesma, a Igreja chora. Chora de inquietação a quando de vossas imprudências, para não chorar, depois da ruína, as lágrimas de Raquel diante dos campos de Roma, onde jazem seus filhos mortos.

Mostra-se assustada quando você diz alegremente que “o flirt não é grande coisa”... Não é grande coisa! Ora, o que se passa realmente é o seguinte: o pássaro, ao voar, deixa cair uma a uma suas asas e não mais pode voar... arrasta-se pelo chão, como um verme nojento... Será alegre isso?

A ovelha que seguia, terna e confiante, o pastor filialmente amado, não mais corre agora atrás dele. Foge, receia encontrá-lo, pois bem sabe, ao encontrá-lo, o que ele diria e o que perguntará. Evita os lugares por onde ele passa habitualmente. Se o vê, volta a cabeça para que não lhe faça o sinal temido de regresso ao aprisco, em vez de andar atraída por outros chamados... Será isso também tão alegre?

E ela, a grande mestra da experiência, assiste ao desenrolar do jogo cujas vítimas bem conhece. Talvez seja uma batalha sem fulgor, talvez seja uma morte sem lamentações no meio de perfumes e flores. Mas será preciso que o estertor se faça ouvir para que a morte seja verdadeira? Que as chagas sejam horripilantes para que se considerem mortais? Será mais fácil fazer ressuscitar uma morta que sorri do que uma terrível morta em esgares? E você censura-a por exagerar, por “fazer cara feia” no momento mesmo em que, do seu coração ferido e da sua alma sensível, jorra sangue. A vida espiritual, do mesmo modo, diminui a cada pecado cometido, como também o sangue diminui a cada ferida aberta.

Enquanto você está preocupada com os prazeres suspeitos, que o “flirt” proporciona, lá longe, na subida do Calvário, está ela esperando-a ansiosamente, como as mulheres bretãs esperam seus terra-nova... E isso a enerva... Então você não compreende que, em seu coração maternal, a onda das tristes recordações e dos lutos sentidos está sempre crescendo? Existem tantos perigos nas noites da vida naquelas que saem cantando para uma viagem perigosa! Onde estão agora? E à margem de que eternidade a última onda as atirará, talvez envoltas nos próprios pecados, semelhantes aos naufrágios que o oceano, à noite, joga ao litoral, cadáveres envoltos pela mortalha pegajosa das algas? A Igreja recorda-se e treme. Sua alma maternal voa em volta das próprias recordações. E, semelhante às aves marinhas que alongam suas asas brancas sobre o movediço cemitério do oceano, ela, a Igreja, abrange, com sua ternura e seu sofrimento, os entes queridos que se perderam nas infinitas profundidades da vida! E você ainda ri! Você a chama louca! Você ridiculariza seus soluços! Você a censura por dobrar a rinados quando sua negligência preferiria o toque de clarins!

Como é ingênua! Se fosse bela, seria admirada por ela. Se merecesse confiança, ninguém mais do que ela confiava em você. Mas, justamente porque ela receia, você também deveria temer. Fazendo-lhe a honra de respeitar sua angústia, você se livraria da vergonha tardia de havê-la desprezado e, desprezando-a, de se ter perdido sobrenaturalmente.

E perdido numa morte inglória. Diante de certas vítimas, inclinamo-nos com amor. As vítimas do dever e do sacrifício são veneradas. “São envoltas por um último silêncio”. Junto delas, em seu túmulo, coloca-se um pouco da terra sagrada para a qual morreram. Ficam cercadas de esperança e de paz... Mas com que divina paz cercar aquelas que, quando vítimas, não são senão vítimas voluntárias de suas imprudências voluptuosas? Não podem ser admiradas. Não podem ser citadas com orgulho.

Pelo contrário, são malquistas por sua inútil morte. E é de recear que a oração que se faz por elas não seja atendida porque, por terem rido da grande inquietude que as aguilhoava, talvez não mereçam uma misericórdia que de antemão sua insolência repelia...

“Mas não é tão trágico assim”... dirão vocês. No entanto, vocês mesmas ficam melancólicas diante das árvores sem folhas e diante das folhas que apodrecem nas árvores... E quem sabe quantas jovens dentre as que dizem “não é tão trágico assim”, sofrem secretamente como se, na verdade, o fosse! Sozinhas no meio de tanta desolação, olham a seus pés o número lamentável de todos os sentimentos que lhes caíram da alma ao impulso extenuante do “flirt”, Olham e comparam... Comparam e lastimam.

Choram “a primavera que se foi”...
E há motivo para isso.

Respeitosamente, deixemo-las entregues a seu pesar.

Apenas não mais digamos que “a Igreja fala muito”. E lembremo-nos de que, com a ternura esclarecida pela sabedoria, seus sofrimentos são sagrados e que seremos bem ingratos se os provocamos, bem imprudentes se alimentamos e, mesmo em companhia de pessoas de bem, somos perfeitamente loucos em desafiá-los...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: O “Flirt” e suas falsas justificativas - Conclusão.)

PS: Grifos meus.

domingo, 24 de abril de 2011

Avante

Avante


Levantai-vos, soldados de Cristo;
Eia avante! na senda da glória;
Desfraldai no pendão da vitória
O imortal Coração de Jesus.

Não nascemos senão para a luta;
De batalha amplo campo é a terra;
É renhida e constante esta guerra.
Apanágio dos filhos de Adão.

No combate esforçados, valentes.
Não temais, ó soldados de Cristo;
O triunfo será nunca visto.
Se souberdes cumprir sua lei.

Amparai-vos no escudo da graça.
Fortaleza circunde vossa alma;
Pela fé no Senhor, vossa palma
É segura na eterna mansão.

É Jesus nosso Rei soberano;
Seu amor de atrair-nos não cessa,
De vencer dá-nos firme promessa,
E prepara fiel galardão.

Oh! segui d'este Rei tão amante
O estandarte divino, glorioso;
Contra as forças do inferno teimoso
Ele só à vitória conduz.

De Jesus Coração sacrossanto,
Guardai pura esta santa bandeira
No combate esperança fagueira;
Do triunfo seguro penhor!

(Retirado do livreto: Manual do Coração de Jesus, 
26ª edição brasileira, 1951.)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Os últimos gritos

Nota do blogue: Antecipei esse capítulo, do livro que vem sido transcrito em seqüência, pela data de hoje. Perdoai-nos Senhor as nossas ingratidões e falta de amor por Vós mesmo quando temos diante de nós, a Vossa Santa Cruz.

Os últimos gritos


A partir desse primeiro grito da Sua grande angústia interior, - pois, segundo São Matheus, aquele apelo súplice foi lançado ao céu com grande grito: Et circa horam nonam clamavit Jesus voce magna dicens: Eli, Eli, lamma sabactani (MT. 17, 46) – a partir desse primeiro grande grito as coisas vão-se precipitar.


Chegamos à nona hora: as trevas estão no mais espesso, a natureza se conturba, a terra parece comover-se.

Maria, João, as santas mulheres, que aquele grito de angústia alanceou, chegam-se mais para perto da Cruz.

Olham todos para cima. Pode-se dizer que o rosto do Senhor já não existe: é bem agora que, consoante a palavra do profeta, ele está como suprimido e, de todo ponto, desprezível.

Lívido, afinado, imerso em sombra e em sangue, de olhos já fixos e vidrados, Ele só tem de dolorosamente saliente a boca, que haure o Seu sopro com dificuldade, uma boca seca e moribunda: é o fim.

Jesus o sabe. Mas conserva ainda ereta a cabeça, regiamente ereta: só a abaixará quando quiser.

Com uma lucidez de espírito a que nada escapa, Ele percorre no longínquo do passado tudo o que os profetas disseram dEle: nenhum ultraje Lhe faltou e, num terrível e pungente escorço, revê e ressente todos os sofrimentos preditos que O trouxeram àquele cume e O cravaram naquela Cruz. Tudo está cumprido, salvo um ponto entretanto.

Falando daquelas intoleráveis dores e do desprezo que delas se havia de fazer, David dissera no salmo 68: - Na minha sede horrível, deram-me só vinagre.

Teria faltado um traço à ingratidão humana e à sua crueldade sábia se Jesus, sedento, carpindo a mais horrível tortura da crucificação” (Fouard), tivesse achado a gota de água refrescante que se não recusa, no entanto, ao último dos criminosos.

Vai Ele, pois, externar essa angústia da sede, mas para atrair a Si um mais cruel sofrimento.

Não se queixou dos cravos, nenhum grito pelos espinhos, e a horrenda tensão que Lhe separa todos os membros e Lhe desarticula todos os ossos não Lhe arranca nenhum murmúrio.

Só dois gritos, no Calvário, traem as Suas dores.

Ele se queixa de ser desamparado por Deus, e clama lastimosamente: - Tenho sede!...

Esta sede justificava-a de sobejo o horrível trabalho do Seu corpo e do Seu espírito. Tudo devia acender-lha: o sangue derramado aos borbotões, as lágrimas correntes, os suores estranhos de Getsêmani, a noite insone, a incrível flagelação, e, sobretudo aquele desamparo interior de Deus, cuja justiça implacável O abrasava ainda mais do que a febre da crucificação que Lhe inflamava as veias.

- Tenho sede! Gemia Ele mansamente.

Este queixume, este murmúrio, caiu primeiro sobre o grupo comovido das santas mulheres. Maria deve ter-Se voltado, indo de um a outro e procurado, com o olhar, a bebida mitigante pedida com tanta humildade. Madalena, Maria Cleófas, João, todos os Seus amigos diletos olham para a boca ressequida... Ai! Nada, no Calvário, tirante dos rochedos que vão fender-se e a terra ensangüentada.

Entretanto, também os soldados ouviram os queixumes do moribundo.

Do vinho misturado com mirra que, havia duas horas, o Cristo recusara, nada mais devia restar, dado que os dois ladrões deviam tê-lo absorvido todo. E eles, os soldados, teriam ainda vinho para seu uso? Talvez. Em todo caso, a sua disposição de espírito não nos permite supor que eles o tivessem oferecido a Jesus a não ser por escárnio, quando, conforme a palavra de São Lucas, eles se aproximavam da Cruz e estendiam as taças cheias à vitima, parecendo dizer-lhe: Vem tomá-la, e, se és o Cristo, salva-te da cruz.

Havia, porém, ali um vaso cheio de vinagre. Costumava-se trazer vinagre para aspergir o rosto dos pacientes que desmaiavam às vezes à simples vista da horripilante crucificação, ou que empalideciam e perdiam os sentidos logo às primeiras marteladas a enfiarem os pregos. Ao lado desse vaso estava uma esponja que servia aos algozes ou para lavar as mãos e os braços manchados de sangue, ou mesmo para friccionar o rosto descorante dos condenados. Estava essa esponja no chão, cheia de sangue, lambuzada de água e de pó.

Quem foi, entre os soldados, que teve a cínica idéia de matar a sede ao agonizante com aquela beberagem? O texto sagrado deixa-nos entrever que vários se puseram nessa tarefa. Sem dúvida, um embebe a esponja no vinagre, enquanto outro procura como atingir a boca do paciente, e um terceiro toma de um pedaço de cana para adaptar nele a esponja úmida. Tudo se faz, aliás, com precipitação odienta.

De onde vinha aquela cana? Quem a trouxera? Como ali se achava? Nada de imprevisto nos desígnios de Deus.

Quem sabe? Não seria uma das canas que tinham dado na cabeça de Jesus no pretório? Quiçá aquela mesma que Lhe haviam posto entre as mãos régias por ocasião da paródia ridícula no seio da corte?

Tinham trazido até o Calvário a coroa de espinhos: por que não teriam trazidos também o cetro real? O Traje devia estar completo.

Seja lá como for a esponja cheia de vinagre foi aproximada da boca ressecada de Jesus. Ele aspirou algumas gotas do áspero líquido, e, quando retiraram a esponja, os lábios do moribundo remexeram-se um pouco, e este murmurou debilmente: - Agora, tudo está consumado.

Sim, estava tudo acabado. O ciclo doloroso dos suplícios está esgotado, o abandono não pode ir mais longe, as trevas estão espessas, o céu retirou as suas complacências, o corpo do condenado já não tem uma gota de sangue, e malícia humana toca o seu auge, a taça está cheia: bebeu-a Jesus até as fezes eram aquele áspero vinagre que haviam sabiamente reservado para o fim.

A morte paira, por conseguinte, sobre aquela Cruz: estende-Lhe a mão; mas não poderá agarrar a sua vítima senão quando está o permitir. Só eu tenho o poder de depor a Minha vida, dissera Cristo; Ele é o Senhor absoluto até o fim, bem o fará ver daí a pouco.

Jesus quer morrer por Sua plena vontade e com toda a Sua dignidade. Nunca Ele foi mais Rei do que em face da morte: morramos com Ele, e, se Ele o quiser, morremos como Ele.

A morte mais bela dos eleitos é a que se calca sobre a morte de Jesus.

Findar na Cruz, isto é, no abandono total, findar no silêncio, cercado de sombra e, se o permitir Deus, com uma última gota de fel nos lábios, ó morte preciosa aos olhos do Senhor!

Qual será a minha, ó meu Deus, ignoro-o.

Mas, tanto quanto depender de mim, quero-a simples, esquecida, silenciosa. O homem sonha com aparato até nessa última cena; pode-se levar mais longe a vaidade? As palavras desse último são, às vezes, arranjados e preparadas com antecedência... Calemo-nos, calemo-nos, baixemo-nos a cabeça, humilhemo-nos, e ocultemos a nossa invencível esperança na sombra que a mão de Deus fará quando vier para nos tocar.

Pode suceder que nesse último instante, na nossa sede suprema de ternura e de afeto, não nos seja apresentada mais do que uma amarga beberagem misturada com vinagre. Deus é tão cioso da Sua imagem, que, sem ofensa do próximo, se compraz em lhe imprimir os traços na alma dos Seus melhores eleitos. Havemos de sofrer então até mesmo daqueles que nos amaram e a quem nós amamos: é a dor bendita.

Contentemo-nos com olhar amorosamente o nosso Jesus crucificado, não nos distraiamos deste olhar, e finemo-nos com a alegre severa de morrer na cruz, esquecido, desamparado e desconhecido talvez no meio dos nossos próximos.

Repito, ó morte desejável e preciosa aos olhos dos anjos, para quem ela é então como que um decalque maravilhoso e fiel da morte do dulcíssimo Jesus!

Senhor, meu Deus, desde já aceito de bom grado e com justiça, da Vossa mão, o gênero de morte, qualquer que seja, que Vos aprouver infligir-me, com todas as suas angústias, penas e dores”.

(Oração de São Pio X – Indulgência plenária aplicável só no momento da morte – Decreto de 9 de março de 1904 -. Para obter esse favor é preciso, depois de se confessar, fazer a sagrada comunhão e pronunciar essa oração.)

Consummatum est. Está tudo acabado.

Hei de dizê-lo um dia, digo-o hoje por antecipação conVosco, ó meu Deus.

Essa última palavra de Cristo pareceu roçar apenas pelo Calvário: parecia dita aos anjos comovidos antes que aos homens, caía no segredo da justiça de Deus para sempre satisfeita.

Quase não a ouviram os soldados, entregues de todo à sua última e sinistra irrisão.

Galhofavam eles ainda a respeito da esponja cheia de vinagre, e de Elias que sem dúvida viria livrar o Rei dos Judeus, quando, de repente, um brado imenso e profundo rasgou a noite que se envolvia. Eles se voltaram todos para o lado da Cruz do meio, de onde irrompera aquele intenso clamor.

Viram então aquela vítima, expirante e agitada por um tremor estranho, erguer-Se, de algum modo, sobre as Suas feridas, como para desafiar a morte, e alçar um vôo sublime para alturas desconhecidas; e, através do silêncio de estupefação e de terror, uma voz forte e cheia lançou no espaço esta última palavra:

- Pai, nas Vossas mãos entrego a Minha alma.

Estas palavras vencedoras pareceram varar o céu e abalar a terra.

João, que estava pertinho da Cruz, viu então o semblante do Senhor, feito mais lívido ainda, inclinar-se brandamente: a cabeça pendeu sobre o peito, e ele percebeu o último suspiro de Jesus.

Et inclinato capite tradidit spiritum (Jo. 9,30).

Finda aqui a subida do Calvário.

A grande obra da redenção está consumada: Cristo reconciliou o céu com a terra;

Ó irmãos meus do mundo inteiro, vinde, acorrei todos, cheios de esperança, a este cimo ensangüentado: agora podeis salvar-vos... se quiserdes. Amém.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O dia Eucarístico - Sacrifício

O dia Eucarístico 
Sacrifício


I - Dizia São João da Cruz: - “È importante em sumo grau que a alma se exercite no amor, para que, consumindo-se rapidamente, não fique limitada a esta terra, mas se esforce por contemplar a face do seu Deus”.

Porém a angélica irmã de Santa Terezinha do Menino Jesus, acrescentou: - “Oferecer-se ao Amor como vítima não quer dizer oferecer-se às doçuras, às consolações; pelo contrário, é oferecer-se às angústias e a todas as amarguras, porque o Amor só vive pelos sacrifícios... Quanto mais queremos nos abandonar ao Amor, tanto mais devemos nos abandonar à Dor...” (História de uma alma- cap. XII).

Que sabedoria nas palavras do Mestre! Que exposição admirável nas palavras da discípula!

Eis porque a alma eucarística, filha privilegiada do amor, também é (e por força) filha privilegiada da dor. Tardamos já em bem dizê-lo: a Eucaristia não é somente sacramento do amor, é também sacramento da dor. Jesus Sacramentado é o Deus da dor; Seu amor por nós é o amor da dor.

II – Hoje um só sacrifício existe na nossa religião, é a santa Missa, que é essencialmente o sacrifício do Calvário. Do sacrifício do Calvário se distingue como o rio da fonte: ao sacrifício do Calvário nada acrescenta à fonte de onde brotou.

No universo, que é o grande templo de Deus, o Calvário foi o verdadeiro primeiro altar; depois, cada altar tornou-se Calvário. Sem Cruz, hoje não haveria Eucaristia, não haveria sacrifício. A Cruz e a Hóstia! Ó palavras santas que resumem um único mistério de dor e de amor!

Não se pode achar a Cruz, viva e verdadeira, senão na hóstia; e não pode haver hóstia sem cruz.

Na Eucaristia, pois, ou na santa Missa, o conceito da dor entra por três modos: como sacrifício em gênero; como sacrifício da Cruz; e, por fim, como sacrifício eucarístico.

III – Qualquer sacrifício não importa somente em dor, mas dor suprema, porque, em qualquer sacrifício, para que seja perfeito, é indispensável que a vítima, realmente, ou, pelo menos misticamente, se imole e se consuma. Portanto onde não há imolação ou consumação não há sacrifício. E vice-versa, quanto mais a vítima é imolada, tanto mais o holocausto é perfeito.

Assim, a perfeição do sacrifício se mede pela perfeição da imolação e da consumação.

Até quando a ovelhinha se debate e estrebucha, até quando bala e se lamenta, recebeu o golpe, mas ainda não morreu. Já é vítima, já seu sangue corre aos borbotões.

Mas, somente quando não se lamentar mais, somente quando não balar mais, somente quando estiver perfeitamente morta há de ser perfeita vítima, porque, então unicamente (consummatum est!) há de ser perfeitamente imolada e destruída.

Tudo isto é indispensável a qualquer sacrifício, visto que dele constitui a essência; tudo isto é indispensável à santa Missa, mesmo considerada como sacrifício em gênero.

IV- Muito mais ainda se for considerada como sacrifício da Cruz.

Toda a vida de Jesus já fora uma imolação, iniciada no momento em que, fazendo-Se homem, não desdenhou o seio de uma virgem.

Desde aquele instante, Sua imolação cresceu e progrediu ao mesmo tempo em que os anos de Sua idade.

Sua existência inteira foi uma Missa única, posso dizer assim: em Belém estava no Gloria; o santo velho Simeão, apertando-O nos braços, recitou o Offertorio. A entrada triunfal em Jerusalém foi o Prefacio... Porém o momento soleníssimo daquela Missa de trinta e três anos foi sobre o Calvário, quando a augusta Vítima, inclinando a cabeça, entregou o espírito...

Cristo foi sempre vítima em toda a Sua vida; mas só quando nEle tudo ficou consumado tornou-Se a vítima perfeita. E tudo nEle ficou consumado quando se realizaram aquelas palavras há um tempo terríveis e amáveis, que para sempre alegrarão e farão chorar a humanidade: crucifixus, mortuus est sepultus est!

V – Não menos comovente é a santa Missa como sacrifício eucarístico.

Como já foi dito, ela é idêntica ao sacrifício do Calvário, quanto ao sacerdote, e quanto à vítima. Na verdade falta a morte real (*); porém o aniquilamento eucarístico é de fato uma morte, mística e incruenta, sim, mas inefável e única possível a Deus.

São Paulo, medindo o abismo da encarnação, diz que o Filho de Deus exinanivit semetipsum – “fazendo-Se homem, aniquilou-Se a Si próprio”. (Fil. II, 7).

Expressão esta digna do grande Apóstolo!

Ora, a Eucaristia, se é lícito falar assim, é um passo adiante, é o último passo da Encarnação.

Na Encarnação, o Filho de Deus tomou uma forma ainda mais humilde, a forma de comida e bebida. Na Cruz, só estava escondida a divindade; na Eucaristia também o está à humanidade. Por isto podemos dizer que a Eucaristia é um passo mais adiante, o último passo da Encarnação. Santo e divino mistério nunca estudado suficientemente!

Já o próprio ato da consagração, considerando em si mesmo, é terrível, porque reduz Jesus Cristo a este estado de aniquilamento. A língua do sacerdote, quando pronuncia as palavras sublimes da consagração, é como uma espada de dois gumes, a fazer morrer moralmente o Cristo; separa-Lhe o corpo do sangue, e o sangue do corpo, consagrando em separado as duas espécies.

VI- Resumindo, temos que a santa Missa é o único sacrifício propriamente dito da religião nossa; é o sacrifício da Cruz; é o sacrifício eucarístico. São três as razões ou motivos que, na santa Missa, encerram o conceito essencial da dor, antes da dor suprema que é a imolação e a consumação mística ou real da vítima.

Eis porque a sagrada Eucaristia não é só o Sacramento do amor, mas também é essencialmente o Sacramento da dor.

E Jesus que é o nosso Jesus no Seu adorável Sacramento?

É essencialmente vítima, e, portanto, essencialmente o Deus da dor.

Não é preciso provar isto, sendo corolário e conseqüência de tudo o que dissemos até aqui.

No conceito geral de sacrifício, Jesus entra como único Cordeiro que rigorosamente possa aplacar, agradecer, glorificar o Pai Celeste, e obter graça para todos.

No sacrifício do Calvário, Ele entra como Protagonista crucificado, no sacrifício eucarístico entra como Hóstia Santíssima, Cordeiro, Crucificado, Hóstia, eis o Deus da dor.

VII – Coisa admirável, com efeito, todos os deuses do paganismo se rodearam de flores, de prazeres, de alegrias. Só um Deus se coroou de espinhos e de humilhações, o Deus do Calvário, o Crucificado.

Tirando-Vos a dor, que Vos resta adorado Jesus? Que Vos resta de belo, de amável, de grande, se não és mais o Cordeiro, Crucificado, Hóstia?

Que seríeis Vós sem feridas, sem coroa de espinhos, sem Cruz? Que seriam Vossas mãos e Vossos pés sem pregos, Vosso coração sem aquela abertura que formou o gozo dos santos? Dirão que sem a dor Vos restaria o amor. Ah! Mas sem a dor, que é o próprio amor senão um fogo fátuo, uma moeda desvalorizada, um dom vão? Não é a dor que forma o brilho, a força, a vida do amor?

Não é a dor que eleva o amor, e o faz grande, nobre, divino? Enfim, não é a dor que torna mais bela a beleza, mais santa a santidade, mais inocente a inocência, mesmo?

Não me digas, pois, ó Diletíssimo meu, que sem a dor Vos restaria o amor, quando é principalmente a dor que Vos faz belo, que Vos faz querido e amável. Por isto, a dor Vos precede, Vos acompanha; Vos segue, por isto és o Vir dolorum – “o Homem das dores” por isto és o Deus do amor, do qual a dor é a prova, a vida e a coroa!

VIIISe assim não fosse, Vos, ao saíres do sepulcro, assim como deixaste o sudário e as faixas, terias deixado também o sinal das Vossas chagas.

Mas, não! Ressurgis-Vos com todos os estigmas, para seres compreendido em Vossa beleza. Sim, ó Jesus, são os sinais da dor, que fazem belíssima para sempre Vossa humanidade deificada, já que as chagas ficaram em Vossa carne como rubins preciosíssimos em coroa de ouro.

O mesmo que os selos no xerografo ou nos decretos do rei, tal são Vossas chagas, selos de Vossa Paixão. Sem as cinco chagas, sem aqueles divinos selos, não serias hoje um Jesus timbrado, isto é, um Jesus autêntico; nem autêntica seria Vossa lei; nem autêntica Vossa religião e Vossa Igreja.

Sem os sinais de Vossa dor, não terias comovido, convertido e atraído a Vos a humanidade inteira, porque Vos, sem aqueles sinais, não terias sido tão grande, tão nobre, tão magnífico como És. Não terias sido o Salvador, o Redentor do mundo.

Nem mesmo terias sido um simples herói. Que são os heróis senão grandes desventurados? e não são somente os heróis da história, porém mesmo os heróis da fábula...

Assim, agora compreendo porque, quando o Divino Ressuscitado, pela primeira vez, Se apresentou a Seus apóstolos, Seus irmãos, reunidos no cenáculo, sentiu a necessidade de acompanhar com um gesto divino a divina saudação da ressurreição.

A saudação da ressurreição foi esta: “Pax vobis” – “A paz seja convosco!” e o gesto do Ressuscitado foi enquanto saudava, apresentar-lhes as mãos e o lado: Et cum hoc dixisset ostendit eis manus et latus (João, XX, 2º).

Ó Deus da dor, prostro-me aos Vosso pés e suplico perdão, de tanta coisa que disse sobre o sofrimento e sobre o sacrifício, quando bastava citar unicamente esta cena evangélica. Bastava só o Vosso gesto, ó ressuscitado Senhor.

Se Vós próprio apresentastes Vossas mãos, se Vós próprio mostrastes Vosso lado, que posso dizer ainda, que posso excogitar de mais para fazer compreender a força, a grandeza, a divindade da dor?

Ah! Basta, já não falo mais; emudeço, Senhor. Para sempre resôe em Vossos lábios a saudação: “A paz seja convosco!” E para sempre fiquem-nos presente Vossas mãos e Vosso lado: Salvete, Christi vulnera, immensi amoris pignora – "Ó chagas de Cristo, penhor de eterno amor, eu Vos saúdo”. (Hino de louvor na festa do preciosíssimo sangue). – “Ó Coração de amor, inclina fonte de água límpida, vem; ó Coração, delícia dos celestes, e esperança dos mortais, atraídos por Vossos convites, vamos a Vos suplicantes.” (Hino da festa di Sagrado Coração de Jesus).

IX- Avante, ó almas eucarísticas, vossa hora já chegou; chegou o momento de vossa ação sobre a terra. Quantas lágrimas caíram já, nas chagas de Jesus! Quantos beijos lhes foram dados! Quanto bálsamo nelas derramado!

A consideração destas chagas benditas e o amor para com elas formou os santos, isto é, formou almas de imolação e de sacrifício, filhas privilegiadas da dor, as vítimas. Os crucificados, as hóstias da Igreja.

E formou-as pela virtude da Eucaristia.

Os dons de Deus como todas as Suas obras não podem ser espedaçadas nem deformadas.

Assim, não se pode deformar nem espedaçar a Eucaristia. Tentar isto seria destruí-la, como seria destruir o Crucificado ousar modificá-lO ou corrigi-lO. Destruíram-nO de fato em Sua verdadeira imagem todos os infelizes incrédulos que ousaram cometer tão sacrilégio atentado. Jesus Cristo ou se aceita todo inteiro ou dEle nada se aceita. Dá-se o mesmo com Suas obras e com Seus dons, dá-se o mesmo com Sua obra prima que é a Eucaristia. Como é essencialmente sacramento, é essencialmente sacrifício, a divina Eucaristia; antes é sacrifício, e depois é sacramento.

Mas, onde está o sacrifício, a imolação, está a dor, mesmo a dor suprema. Uma Eucaristia que não admite imolação, não é mais sacrifício, e, se não é mais sacrifício, é falsa Eucaristia. Como falso seria o Cristo que não fosse Vítima Crucificado, Hóstia. Um Cristo que não é o Deus da dor, já não é verdadeiro Cristo, já não é verdadeiro Deus. Seria um deus do paganismo.

X- Tirando a conseqüência, devemos imediatamente concluir que é falsa alma eucarística a alma que só aceita a Eucaristia como sacramento, e não como sacrifício, que na Eucaristia só busca o amor e não a dor; que dela aprecia o gozo e recusa à pena. Falsa é a alma eucarística que em Jesus Sacramentado procura o Esposo dileto e não o Esposo crucificado, que se agrada das carícias e não das provas; das flores e não dos espinhos; dos sorrisos e não das cruzes. Estaria no engano uma tal alma, se se julgasse alma eucarística, ainda que fizesse a santa Comunhão todos os dias. Oh! quantas vezes se é obrigado a fazer a sagrada Comunhão todos os dias, mas isto quando se é livre, e se ama as flores e os prazeres, e se aborrece a dor, a mortificação, a cruz! Neste caso, ficai certos, não durará muito a comunhão quotidiana.

A alma verdadeiramente eucarística é a que faz cada dia a santa Comunhão, mas cada dia aspira ao sacrifício, à crucificação, à imolação; e aspira a isto por virtude, e como fruto da mesma Eucaristia que cada manhã recebe.

Esta alma, quanto mais é sacrificada, imolada, crucificada, tanto mais é eucarística, e vice-versa.

Entre uma e outra coisa há conexão de causa e de efeito, de premissa e conseqüência, tanto que sem medo de errar pode-se dizer: - “É alma verdadeiramente eucarística? Então será uma alma verdadeiramente imolada. É uma alma imolada? Só pode ser uma alma eucarística”.

XI – Ó almas aflitas, atribuladas, infelizes, falta-vos a resignação, a força, a calma? Arrastai-vos sob o peso da cruz, levando-a a força e, talvez, em desespero, como os dois ladrões? E por quê?

Ou não fazeis a santa Comunhão, ou a fazeis raramente, ou a fazeis mal. A divina Eucaristia possui e dá a força da imolação e do sacrifício. Se fazeis a santa Comunhão cada dia, e cada dia com empenho, oh! também vós adquirireis a calma na dor, a força na desventura, o conforto na Cruz. Também vós em breve vos tornareis uma vítima digna de Deus.

Oh! se o mundo compreendesse esta verdade!

Quantos desesperados de menos ele teria, se mais e melhor fosse freqüentada a santa Comunhão, que possui como virtude própria a força de tornar grandes as almas, conforme a necessidade que têm.

Ó Vós que sofreis indizivelmente ou no corpo ou na alma, ou em um e outro ao mesmo tempo; ou na pessoa ou na família, e na substância, mas que sofreis com o sorriso nos lábios, com a força na alma, com a calma no coração, em suma, que sofreis com a coragem dos santos, não faleis, ficai silenciosos, não é preciso que me manifesteis o segredo da vossa força, eu o adivinho e percebo: fazeis cada dia a santa Comunhão... respirais Eucaristia... viveis da Eucaristia...

Basta isto; nada é preciso acrescentar. Podeis ser mártires, possuindo a força de Deus, de Deus crucificado.

Sim, almas afortunadas, como na época dos mártires, a passagem era fácil dos ágapes, dos banquetes santos das catacumbas às fogueiras, aos circos, ais dentes dos leões, esfaimados no anfiteatro Flavio, assim hoje a passagem é fácil da mesa eucarística, às lutas da vida, aos combates espirituais, produzidos pela enfermidade, pela indigência, pelas perseguições, por qualquer desventura.

Quereria levantar a voz e fazer ouvir e uma extremidade do mundo à outra esta verdade tão doce: “a santa Eucaristia basta para fazer mártires...”


XII – Eis o grande atleta São Inácio.

Condenado às feras, de Antioquia, onde era bispo, transportaram-no à Roma. E a viagem foi toda um martírio, glorioso prelúdio de gloriosíssimo fim.

Roma pagã não se mostrou tão ávida de assistir ao cruel espetáculo quanto ele de lh’o oferecer; os leões do anfiteatro Flavio (o Coliseu) não sentiram tanta fome de devorá-lo quanto ele se ser devorado. Foi esta a sua única oração durante o trajeto: Utinam fruar bestiis... tantum ut Christo fruar!... Que palavra sublime! – “Queira o Céu que só para gozar de Cristo eu goze das feras!

Mas sublime é seu grito quando, na arena do anfiteatro, em presença de oitenta mil espectadores, se encontra com os leões, soltos na jaula. Enquanto as feras rugidoras e furiosas o fitam e preparam o salto... o grande confessor de Cristo se ajoelha, junta as mãos, e exclama: “Frumentum Christi sum, dentibus bestiarum molar ut panis mundus inveniar Sou o frumento de Cristo; serei triturado pelos dentes das feras para tornar-me pão muito puro...” Não acabara de falar e os leões já o haviam devorado.

Quão nobres e delicados são os corações dos santos!

Estes três pensamentos, ou melhor, este pensamento único e completo de Santo Inácio mártir é propriamente divino.

Mais se medita nele, e mais se lhe goza a doçura. Sobretudo o pensamento de Santo Inácio é deveras um cântico eucarístico: - Desejar ser frumento, para ser triturado, e tornar-se pão de Cristo, puro e sem mácula, triturado pelos dentes dos leões... Que pensamento pode haver de mais elevado e delicado?

Que desejar de mais nobre e generoso?

Melhor ainda: Que pedir a Deus e obter de mais eucarístico que pede e obtém Santo Inácio mártir? Ele adivinhou o desejo de todos os santos; exprimiu em forma nobilíssima a aspiração de todas as almas verdadeiramente eucarísticas. E a aspiração é esta: “Ser frumento, para ser triturado pela dor e tornar-se pura hóstia de Jesus Cristo.”

Ao menos especialmente concedei tal graça às almas enamoradas de Vós, ó Senhor, para que todas de todo coração digam e repitam: “Frumentum Christi sum, dentibus bestiarum molar ut panis mundus inveniar!...”

Da dor, porém, não nos podemos afastar tão depressa. A alma verdadeiramente inflamada pela Eucaristia, sobre o Calvário, ao lado de Jesus Crucificado, deve aprender todos os ofícios dolorosos de qualquer alma eucarística.

* Nota do blogue: (Morte real no sentido de físico, natural.)

(A alma Eucharistica, por Padre Antonino de Castellammare, capuchinno, tradução feita por uma filha de Maria, Sociedade Editora São Francisco das Chagas, 1929.)

PS: Grifos meus.

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