segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

IV- O pecado mortal

IV- O pecado mortal


I - Tu, Minha filha, cometes o pecado e não sentes dele horror algum... Vives tranqüila; parece regozijares-te da tua malícia, porque não compreendes talvez o mal que fazes e o estado miserável em que se acha a tua alma depois do pecado. Queres tu conhecê-lo? Considera a terra em, que vives e o grande número de criaturas que a habitam. Levanta os olhos para o céu, contempla o sol que o ilumina,  a lua e as estrelas que brilham no silêncio da noite. Se pudesses conhecer a sua grandeza desmedida, ficarias tomada de espanto e assombro. O sol é milhões de vezes maior que a terra e muitas estrelas o excedem em grandeza.

Houve tempo em que nenhum desses astros existiam. Quem os criou? Deus. Bastou-Lhe um momento e uma palavra. - Faça-se, disse Ele, e tudo se fez. - Esses grandes corpos celestes e a própria terra que te suporta, quem os tem suspensos no ar e lhes dá esses movimentos regulares que distinguem o dia da noite, marcam as estações e fecundam a natureza? Tudo foi regulado pela onipotência de Deus. Ah! Minha Filha, tu temerias ofender um rei da terra com receio de um castigo que te faria vergonha, e não temes ofender Deus, em comparação de quem todos os reis não são mais do que uma sombra, um pouco de pó. Podem os reis extrair do nada em só grão de areia, ter suspensas no ar sem apoio uma leve pluma e torná-las dócil ao seu mando? Nunca o poderão. De que maneira pois, ó minha Filha, tu que não ousarias ofender os reis, que não são mais do que homens, ousas ofender esse Rei onipotente a quem os anjos e santos adoram e diante de quem tremem as potências celestes? Um só de seus olhares irritados faria estremecer a terra, e as mais altas montanhas, fulminadas por Sua cólera, reduzir-se-iam a cinza num momento. Ah! que te sucederia, imprudente, se continuasse a ultrajá-lO?

II - Considera agora até que excessos de audácia tens chegado cometendo o pecado. Julgavas tu, talvez, que ninguém observava as tuas ações criminosas, nem ouvia os indignos colóquios por meio dos quais tens tantas vezes odendido o teu Deus? Tu és cristã, e a fé que professas te ensina que a Seus olhos nada pode ficar oculto. Nem as paredes nem as trevas O impedem de ver; Ele penetra até nos imos mais recônditos do coração humano, distingue os Seus pensamentos com todos os detalhes, complacências e desejos. Deus vê pois tudo aquilo que fazes no segredo da tua camara, na sombra da noite, só ou com as tuas companheiras, em público ou em particular. Deus ouviu-te quando excitada pela cólera rompias em imprecações e davas a teus pais insolentes respostas, quando tinhas com as tuas companheiras conversas tão contrárias a modéstia duma menina cristã. 

Quantas vezes Eu mesma tenho visto e ouvido de ti coisas indecorosas! teria devido gritar com sentimentos  - Filha ingrata, eis-aí como honras a teu Deus e a tua Mãe - Muitas vezes, meninas cristãs muito culpadas, e que não têm de cristãs mais que o nome, se animam a corresponder aos desejos daqueles que tentam arrebatar-lhes com a graça de Deus o mais belo tesouro que podem possuir neste mundo. Dizem eles para consigo: "Basta que nosso pai ou nossa mãe o ignore, basta que ninguém o saiba." Ó insensatas! ó desgraçadas! Podem elas acrescentar que Deus o não saberá! A este pensamento, que é suficiente para converter uma Thaís e fazer dessa mulher escandalosa um prodígio de penitência, quantas há que ficam insensíveis até não corar de ofender a Deus, sabendo que Ele as observa e as vê!? Tu excedes-te na presença de Deus no que não ousarias fazer à vista das tuas próprias companheiras. Deus não pode alcançar de ti o respeito que tens pelos homens. Onde está por conseguinte a tua fé: é assim que temes Deus, que desejas a salvação?

III- Mas há alguma coisa pior, Minha filha, sim alguma coisa pior. Observa em seus dons a beneficência de teu Deus, e dize-Me depois se há alguma coisa em ti que não seja dádiva dEle. Quando cometes o pecado, não somente desprezas Deus calcando aos pés a Sua santíssima lei, não somente praticas o mal a Sua vista, mas além disso serves-te desses dons para lhe declarar guerra. Se Ele te não tivesse criado, não O terias nunca ofendido. Se a primeira falta que cometestes te tivesse tirado a vida, não terias renovado as tuas injúrias. Nunca terias preferido imprecações, murmurado queixumes, dito palavras indecorosas, se te tivesse feito nascer muda. Nunca terias procurado com afinco a vaidade, os adornos, as festas e os divertimentos, com tanta inconveniência e escândalo para o próximo, se te não tivesse concedido dom algum de graça e de beleza. Para razão de que Deus Se mostrou para contigo pródigo dos Seus dons, na tua extrema ingratidão, tens-te servido deles para O ultrajar. 

Não merece mil suplícios, não seria indigno de viver o pobre que, depois de receber a esmola do seu benfeitor se servisse dela para comprar um punhal e lh'o enterrasse no seio? Ah! filha ingrata, tens tu procedido de outro modo para com Deus até hoje? Os bens da natureza e da graça que possuis, são todos dons da sua bondade. Em lugar de lh'os agradeceres e de O glorificares, serviste-te deles para O ofender e desprezar. Ah! pensa, Minha filha, pensa no teu excesso de ingratidão e vê se te é possível deixar de dar alguns suspiros de dor, de derramar algumas lágrimas de arrependimento, por conduta tão indigna para com Deus.

Afetos. - Ó Mãe Santíssima não sei o que deva confundir-me mais, se a incrível paciência do meu Deus em me sofrer, se a minha incrível audácia em O ofender. Que terror, se enquanto cometia o pecado Deus se me apresentasse com Sua majestade, ou se Vos tivesse visto irritada contra mim, censurando a minha audácia.

Mas quanto fui culpada! porque eu não via Deus, não me via Ele? não me estava presente? Como nesse momento estavas velada a meus olhos ó fé santa! Não te tinha perdido; mas ai! a minha maldade obscurecia-me a razão. Ah! as Vossas palavras têm-me instruído, eu o reconheço, ó querida Mãe. Sim, tenho-me servido dos dons de Deus contra Ele próprio. Horrível ingratidão de que me tornei mil vezes culpada. Ó pacientíssimo Salvador como tendes Vós suportado num ser tão vil como eu, tão temerária audácia? Inseto desprezível, tenho ousado não Vos respeitar nem temer; como não tendes esmagado a cabeça que contra Vós se sublevava?

Ó bondade só própria de Deus e de quem as misericórdias são infinitas! Maria, augusta Mãe, ouvi, os meus protestos e servi-me de testemunha diante da majestade divina. Quero que estes membros que têm sido instrumento de pecado, sejam para o futuro instrumento  de penitência, a fim de reparar tanto quanto possível as minhas culpas passadas.

Rogai a Deus que, ajuntando novas misericórdias as que me tem concedido, mude o meu coração, fazendo-lhe amoldar a inflexível dureza e o torne de hoje em diante tão dócil, as Suas vontades, quanto tem sido rebelde e obstinado até ao presente.

(Maria falando ao coração da donzela, meditações para todos os dias do mês, traduzidas do italiano pelo Abade A. Bayle --Professor de Eloquência Sagrada na Faculdade de Teologia de Aix--; Quinta edição, Livraria Catholica Portuense, ano de 1917)

PS: Grifos meus.

Cantiga 82 "A Santa Maria mui bon servir faz"

Cantiga 82 "A Santa Maria mui bon servir faz"


domingo, 27 de fevereiro de 2011

XI - Multidão


XI - Multidão


Mas até esse grande e último dia, Ele guarda silêncio. Entremos, também nós, neste silêncio do Senhor; ele é profundo, é cheio, é ao mesmo passo, esmagador e consolador.

Cada virtude de Cristo na Paixão é como um templo místico no qual se penetra por uma porta baixa e, à medida que se avança, o templo se alarga, as naves se prolongam, a obscuridade duplica a atração, a alma embrenhada perde-se nele, olvida-se.

Repito, entremos nesse grande silêncio.

Silêncio sobre mim, sobre os meus, sobre o meu passado, o meu presente, as minhas virtudes, os meus defeitos; silêncio sobre o tudo e sobre o particular da minha vida. Este silêncio conduz-nos à perda de nós mesmos. O nada se cala e não faz barulho, onde está?... Ninguém o procura.

Que de luz é preciso para saber falar! Quanta mais é precisa para querer calar-se, e calar-se realmente! A boca que se cerra, os olhos que se baixam, é a dupla porta que se fecha sobre o dileto que a gente introduz no interior para estar a sós com ele.

A solidão e o silêncio fazem tombar a última barreira entre os dois amados.

A partir do momento em que deixa o tribunal de Caifás, Jesus entra cada vez mais no silêncio

É, contudo, o momento em que pela primeira vez Ele toma contato com a multidão. Acompanhemos esse grande silêncio no meio daquela multidão volúvel, cheia de ódio. E por que cheia de ódio? Em verdade, Ele não fez mal algum àqueles que O envolvem de todas as partes.

Ainda ontem eram gritos de alegria, eram os caminhos juncados de palmas cortadas e de vestes lançadas, era o Homem em todo o percurso das estradas, a porta Dourada transporta como que sob um arco vivo de braços estendidos e de ramos triunfais entrelaçados por sobre a Sua cabeça... A multidão é ondulante e vária sem outra alma que aquela que Lhe sopram de fora. Havia muitos sopros que agitavam aquele mar e Lhe propeliam as vagas furiosas. O ódio dos sacerdotes, a inveja dos anciãos, o medo dos Sinhedritas; um sopro mais baixo: o de Satã; um sopro mais alto: a cólera de Deus.

É singular que os homens percam do seu bom-senso e da sua razão na proporção do número. Aquela multidão, composta de seres inteligentes, não passa agora de uma massa irracional e insensata. A razão individual parece perder-se, e perde-se efetivamente, na razão coletiva. Há pouco tínhamos homens, agora temos apenas uma imensa criança, trêfega, volúvel, irritável, passando do riso ao choro, gritando ao mesmo tempo o Hosana e o tolle, caprichosa no seu ódio e na sua compaixão.

E Jesus atravessa a multidão. Esta multidão será um dos agentes principais e dolorosos da Paixão. Ignora-se isto comumente: todavia, é o fundo do quadro.

Quais essas nuvens de procela, que ascendem a pouco no horizonte e acabam pelo encherem totalmente, a multidão irá engrossando do tribunal de Caifás ao cimo do Calvário, e Jesus lhe passará pelo meio.

A primeira imagem que Ele depara desse ator de papel progressivo e cruel é a turba dos soldados, o pessoal de faxina que foi prendê-lO como a um ladrão; operaram eles durante a noite, com a hesitação, a princípio, de um papel mal aprendido e a brutalidade, em seguida, de uma consciência que nada mais tem a temer. Os soldados reforçam-se logo com os criados e com as falsas testemunhas; a esses cumpre acrescentar os próprios sacerdotes, vimo-los em ação: tudo isto já é multidão.

Mas o primeiro contato verdadeiro de Jesus com o povo dá-se pela manhã, à saída do tribunal de Caifás.

Amanhecia, as ruas mal começavam a animar-se; vinham-se, entretanto, os madrugadores habituais, isto é, o pessoal de serviço, os criados, os mercadores de gêneros, e também um certo número de forasteiros, pois a cidade regurgitava destes no momento da Páscoa. À primeira vista, para aquela gente miúda como para os forasteiros, aquele homem que arrastam vivamente ao pretório, para os lados da Antônia, é um malfeitor noturno, algum vagabundo pilhado em flagrante delito: olham-no curiosamente e passam.

Entretanto, a escolta desperta a atenção: aqueles soldados, aqueles criados, ainda esquentados de vinho e de palavrões, sobretudo aqueles sacerdotes – Caifás é reconhecido – os anciãos, todo o Sinédrio... O povo pára, cochicha, indaga.

- É Jesus de Nazaré? – O famoso profeta? – Ele mesmo! Não há duvidar. – Ele, tão pálido, tão sujo, tão desfigurado, e amarrado com força?

A notícia é lançada, é ela que amotinará a segunda multidão que Jesus deparará esta mais densa e menos indiferente. À curiosidade sucedeu a admiração, e surdo rumor prenuncia uma secreta irritação contra aquele homem. Dizem que Ele quis entregar o povo à dominação romana; Ele já está julgado pelos sacerdotes... é um bruxo perigoso, um desordeiro... poderia, ao que  parece pelos Seus encantamentos e sortilégios, arruinar tudo o que nos restava de liberdade... é um desprezador de Deus, blasfemou...

Assim sobre a onda, engrossa subindo, e cobre-se da escuma do povoléu.

Depois disto, quem poderá fiar-se nos sentimentos da multidão? Todavia, que é que se não faz por essa enganadora popularidade? O aplauso do grande número tem seduzido a muitos que haviam esquecido que só o aplauso de Deus é que vale.

Jesus, Ele sentiu-Se primeiramente humilhado de Se ver obrigado a atravessar as ruas amarrado e cercado de soldados: é uma confusão natural, que Lhe não há de ter faltado. Como era de manhã, por ora há só confusão; mas, quando, um pouco mais tarde, Ele se viu arrastado pelas ruas já mais movimentadas e mais cheias, até o palácio de Herodes, a confusão redobrou, e a ela se juntou uma secreta indignação contra as falsas informações que sublevavam a multidão.

Mas foi principalmente ao sair da corte de Herodes, quando apareceu nas mesmas ruas marulhosas revestido irrisoriamente da túnica branca, e quando ouviu à volta de Si aquelas esfuziadas de riso, aquelas palavras contundentes com que O fustigavam a passagem, como a um ente degradado e malfazejo, foi então que a medida se encheu: tudo foi ferido nEle, a honra, a dignidade, a Sua doutrina tão pura e o Seu passado refulgente, que parecia esboroar-se no riso da sarjeta.

Tal como o olho da criança, o da multidão apreende eminentemente o ridículo: apraz-lhe o grotesco, porque o sacode de um riso fácil e sem fim. A delicadeza dos sentimentos morre na massa humana como o som tênue de uma lira se perde no burburinho da rua.

Ora, que mais ridículo do que a silhueta daquele taumaturgo metido naquele saco branco, empurrado para a direita, jogado para a esquerda, puxado em todos os sentidos, perdendo o equilíbrio, titubeando, já não tendo sequer aquele porte firme e ereto tão próximo da altivez que agrada a todos, mormente ao povo, debaixo das injúrias e das chalaças?

Que palavras deviam lançar-Lhe? Não o sabemos, mas sabemos que cruéis não deixaram de lançar-lhas no alto da Cruz. Pode-se, pois, facilmente conjecturar que O hajam acolhido à passagem com “gracejos tintos de sangue” (Sermão sobre a Paixão, 2º ponto), consoante o termo expressivo de Bossuet.

- Hosana ao filho de David! Deviam gritar-Lhe aos ouvidos.

- Eis o que vem em nome do Senhor! Estas palavras datavam de alguns dias apenas, toda a gente as tinha em memória. E também; - Eis aqui mais do que Salomão! Aludindo ao que Ele dissera de Si mesmo. E ainda, com quantidade de ademanes de respeito e consideração: - O Filho de Deus... o Messias!... o Filho do Deus bendito...

Há um espírito da multidão que apreende sagazmente a contradição e relembra tudo a calhar. Muitos dos que compunham aquele populacho tinham ouvido de noite as perguntas do sumo sacerdote, e não deixavam de formulá-las irrisoriamente de novo.

Aliás, tudo convidava a isso. Podiam ainda escutar-se, por trás da porta do palácio de Herodes, os ecos frementes do imenso gargalhar de toda uma tropa, de todo um grosso de cortesãos e de um príncipe tanto mais galhofeiro quanto era depravado. A ironia, o sarcasmo vagam facilmente nos lábios impuros.

Já pressente a multidão o espetáculo do Pretório e do pátio dos soldados; apinha-se, multiplica-se, converge à pressa para onde deve achar divertimento. Diverte-se com tudo: dentro em pouco rir-se-á do flagelado a se torcer sob as chicotadas como o verme debaixo dos pés, e do coroado de espinhos solenemente exibido em público. Ademais, a veste branca é o prenúncio do manto escarlate. Doravante nada será poupado ao vencido. Acabam de arremessá-lO ao vórtice da multidão como um galho seco e sem seiva: nada mais há a esperar quando uma vez se caiu no desprezo da multidão: não se torna a subir de tão baixo.

Outra faceta ainda mais humilhante, talvez, desse desprezo popular não foi poupada a Cristo. Foi a decadência aos olhos de entes conhecidos e até amados.

Ser desprezado por uma mansa pululante que nos ignora e que nós ignoramos, certamente é uma ferida profunda para a nossa honra; sê-lo, porém, como o foi Jesus, por um povo que O conhecia, que O aplaudira e que queria fazê-lO Rei!... Passar coberto de lama, de borra de vinho e de escarros pelo meio daqueles milhares de Galileus – conterrâneos – chegados para as festas pascoais na cidade e postados de todos os lados... ver-se desmoronar não já apenas no espírito de alguns discípulos amedrontados, mas no de todo um povo escandalizado... assistir pessoalmente a essa decadência progressiva e sem esperança de reabilitação: esta humilhação era uma flecha aguda, escolhida, afinada, da justiça divina. Sentiu-a Cristo revolver-se-Lhe nas chagas do coração.

Se o mesmo dardo humilhante nos vara, miremo-lo com amarga consolação embeber-se-nos na alma, saboreemos uma ferida igual à do pobre Jesus.

Há poucos eleitos, poucas testemunhas de Cristo, que não tenham tido de sofrer desta flecha de escolha. Se não a tinham assaz ao grado do seu amor, a si próprios a proporcionavam, repletos de santíssima avidez. Um Santo Inácio ia humilhar-se aos pés de um confessor de quem era conhecido, repetindo-lhe a dolorosa confissão das suas faltas. Um Lacordaire entrava, por gosto, em particularidades supérfluas, mas que o cobriam de confusão, perdendo assim voluntariamente a sua reputação íntima, para melhor imitar Jesus perdido na de toda uma multidão em delírio.

Quando uma alma há uma vez provado os desprezos de Jesus, quem pode contê-la de correr atrás do dileto que vai na frente coberto da veste fúlgida das suas longas humilhações?

Neste drama da Paixão, desde que a multidão entra em cena, aduz-Lhe a Sua confusão, a Sua irresistível pressão: há que contar com ela. Verdadeiramente, é bem, por instantes, o principal personagem. Pilatos dialogará com ela como com um só e poderoso interlocutor. Breve, já não serão injúrias que sairão daquela boca terrível, porém intimações, insolentes e brados de morte. É ela quem decide. O tolle faz pender a balança, e, se esta balança parece, apesar de tudo, inclinar-se para a inocência de Jesus, lança-lhe ela primeiramente Barrabás. Non hunc sed Barabbam. Tolle, tirai-o. Eis que agora é a Cruz: Crucifige, crucifige eum. Isto não basta, o prato ainda torna a subir. Lança-lhe ela então o medo de César.

- Se não O condenas, não és amigo de César, brada ela a Pilatos. Desta vez o prato toca terra. Jesus segue toda a cena, ouve-se passar todas as bocas, por todas vê-se repudiar: sobe, desce, ei-lO salvo, ei-lO perdido; a multidão é quem tem a última palavra.

O papel dela prossegue assim até o Calvário. Ali naquele cimo lúgubre, tudo é baralhado e confuso. A multidão é então aquele povo que passa meneando a cabeça, são aqueles sacerdotes que apodam, aqueles soldados que jogam insolentemente a veste de Cristo: uns bebem, outros riem, as santas mulheres choram. João está consternado, Maria conserva-Se de pé.

Jesus murmurou: Perdoai-lhes. Os ladrões insultam e blasfemam. As trevas cobrem pouco a pouco aquelas cenas diversas. E, no meio dessa sombria trama, lá do alto Deus desenreda todos os fios: já vê o centurião genuflexo, ouve o ladrão que confessa e implora Cristo; salva uns e enjeita outros; em verdade, o mundo há mudado? Cessaram os justos de sofrer e de ser misturados aos maus? E, de Seu lado, deixa Deus de escolher e de tomar para Si os Seus eleitos?

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy. S. J, tradução de Luís Leal Ferreira, III edição, Editora Vozes)

PS: Grifos meus.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Donzelas Cristãs: O esplendor - Parte II

Donzelas cristãs: O esplendor - Parte II




O esplendor da felicidade

Cristo disse: "Felizes dos corações puros". Daí vemos que uma deriva da outra: pureza e felicidade.

Muitos naturalmente, protestam. Para eles existe o "Prazer" e, como explicação:

Prazer - divertir-se.
Divertir-se - ser feliz.

Ainda mais abaixo acrescentam:

Pureza - privação.
Privação - tristeza.

Eis tudo!

Assim tudo explicam. Mas será que pensam mesmo dessa maneira? E, principalmente, será essa a verdade? Se o é, porque, então, as pecadoras se aborrecem de si mesmas, dos outros e da vida? Porque têm tanta amargura? tantas revoltas? tanta "negrura" na vida? tanto nervosismo? porque a alegria soa tão artificial como o seria, numa velha torre, o tanger simultâneo dos sinos para as núpcias e para o cortejo fúnebre? os cadáveres de crianças que os rios fazem rolar à noite, por debaixo das pontes, não são em geral cadáveres de virgens puras? O desespero faz suicidas, ousarão dizer que a pureza produz desespero?

Terrível ilusão. Dolorosa mentira.

O que engana é a exigência de sacrifício que a pureza acarreta e a austeridade de que tem necessidade para poder nascer, renascer e viver. Fruto saboroso mas de aparência espinhosa, palácio de fachada sombria, assim a pureza que, para ser uma alegria, requer, antes de tudo, realizar-se. Aquelas que a possuem encontram, nas ruínas dos prazeres recusados por um golpe de vontade, a paz, a força interior, o sentimento da própria dignidade que irradia uma deslumbrante alegria. Que se nota nos retratos de santa Teresinha do Menino Jesus? E como não se encontram jovem puras somente entre as Carmelitas, o sorriso daquela moça, o olhar desta outra, não o testemunham suficientemente? se, como acontece comumente, neste sorriso e nesse olhar encontramos, brilhando, a última gota de lágrimas vertidas ainda há pouco, impedirá isso que a alegria seja verdadeira e o testemunho eloqüente? Não se poderia ser ao mesmo tempo feliz e sofredora enquanto que, ao contrário, muitas vezes se é voluptuosa e desolada?

O esplendor da alegria nas pessoas puras! Até as culpadas o vêem e dele ficam invejosas. Quando encontram aqui e acolá uma companheira cujo sorriso as inebria, deixam-na cair numa cadeira e, soluçando, exclamam: "Ela é feliz, sim... Ao passo que eu!..."

"Ao passo que eu !..." Oh! esta queixa, esta confusão, este grito em certas bocas!...

É que tudo se paga. Existe uma lógica para as coisas, sejam elas belas ou não... Quem se engana no caminho a tomar nunca alcançará a meta desejada. A pureza tende à verdadeira vida, que é toda alegria. A impureza tende à morte, que é de fisionomia sombria e de olhar parado.

A pureza é um jugo e um fardo. Mas é o jugo do Mestre Jesus, e é suave. É Seu fardo, e é leve. Eis porque as puras irradiam a alegria dos seres livres. As outras, as que suportam o jugo martirizante e o fardo esmagador, desprendem, do ser desprovido de nobreza, a insolência de suas ambições, o desencanto em que degeneram as várias experiências, a humilhante resignação das escravas, das vencidas. Que verdadeira alegria possuem para as aureolar? Nada têm, a não ser cinzas, chagas e um grande vazio. É menos fácil extrair de tudo isso um único gramo de luz do que conseguir perfume de um ramo de rosas secas.

O esplendor da suavidade

Doce como o mel. Suave como um cordeiro. Acariciante como um veludo. A doçura é o contrário da violência, da cólera, do mau gênio, das reações brutais. Não é uma pequena virtude, é um misto de força e amor. Esse mel se encontra na boca escancarada do leão. Foi assim que Sansão o provou. Os suaves são senhores de si mesmos, acalmam as próprias tempestades, abafam os regidos do vulcão íntimo. Têm a mão aberta e pronta para a carícia em lugar do punho fechado que vai esmurrar. São censurados por serem macios demais, sem consistência. A  censura não tem fundamento. Na realidade, a paciência está-lhes apoiada pelo vigor e os golpes que não desferem foram retidos pelo coração forte e indulgente. Os seres puros não podem deixar de ser fortes, pois venceram na luta perante as pessoas e as coisas. Mas essa força transforma-se em suavidade, uma vez que impregnada de caridade e de paz. Pelo menos, assim devia ser normalmente.

A jovem que adquiriu a pureza, e a defende dia a dia, desconhece os ímpetos de raiva, de revolta e de inveja. Não é, ou não é mais, a serpente erguida, pronta para os ataques furiosos e os assobios sinistros. Não faz com que aqueles que a amam sofram as conseqüências de seus desgostos pessoais. Não é irritável como a apaixonadas nas horas tumultuosas.Não despede as vigilantes afeições que a querem auxiliar. Como não tem veneno em baixo do dente, não sente necessidade de morder para aliviar o rancor ou vingar a derrota. De antemão se sabe qual o acolhimento que se terá sem termos de recear essa indiferença ou essa recusa em que os pecadores são costumeiros, pois são volúveis, desajustados, dependendo de uma nuvem do seu céu, de uma carta na caixa, de um malogro em suas esperanças, dependendo da vida, enfim!...

O esplendor da paz

Duas jovens se querem com uma bela amizade. A confiança é plena. Amando-se, auxiliam-se e protegem-se mutuamente.

E eis que a crise agita uma delas. A vida soprou seus ventos de tempestade. Os rumores do prazer mergulharam nela. O tumulto das paixões brame-lhe no coração. Eis sonha. Treme. Está absorvida. É a luta íntima e são suas destruições. Atrativo e, ao mesmo tempo, pavor do mal. Necessidade de estar só. A tempestade enfurece o lago e o coração; quase barquinho frágil, parece assombrar.

No entanto a outra, mais vigilante, continua radiosa e serena. Que contraste! E o refúgio, para aquela que, angustiada, sente sossobrar, o refúgio está justamente aí. Da alma de sua amiga desprende-se uma suave serenidade. Não a serenidade insensível do penhasco orgulhosamente erguido contra as ondas, mas a serenidade das noites calmas quando nada parece perturbar a harmonia das coisas, sob o olhar vigilante das estrelas que surgem.

Abençoada vizinhança! Abrigo seguro e acolhedor. Contra as ameaças brutais ou os acenos maliciosos, a amiga a ele recorre como uma criança assustada que se atira aos braços maternos. E não é necessária uma palavra, basta um único contato de alma para que a calma volte ao coração, pouco a pouco, recupere o ritmo regular e sinta cair a febre do sangue. Amizade pura, remédio contra o falso amor. O esplendor da paz, tão misterioso, tão real, tão benfazejo! Coisa difícil de exprimir, mas fácil de negar, só aquelas que a experimentaram nas horas perigosas da juventude é que conhecem a esplêndida verdade, visto trazerem consigo a incomparável recordação.

O esplendor da nobreza

Nobre é o contrário de ignóbil, e ignóbil significa que não merecemos ser conhecidos porque, se o fôssemos, só mereceríamos desprezo.

A nobreza é uma forma de grandeza, um modo de superioridade, acima da banalidade.

Dá direito, a quem a possui, a uma humilde altivez. Para quem a vê, cria o dever do respeito que se curva e da confiança que admira.

Pela pureza, as puras possuem uma nobreza autêntica. A virtude brilha, a alma triunfa, o coração se espiritualiza. São o que devem ser. Não sofreram ou não guardaram vestígio de nenhuma tara vergonhosa. Não são belezas profanadas nem esplendores cujo brilho se apagou. Não deixam que sua estrela se arraste na lama. A marca das decaídas não está impressa em sua fronte. Constituem uma aristocracia moral que encontra em si mesma a mais segura consagração.

Aristocracia reconhecida por aqueles, ao menos, cujo julgamento é digno de se levar em conta e que têm o senso do valor como o artista o tem da beleza.

Mas as impuras! Como sua queda foi grande! Delas dizia a Escritura que "o ouro se transformou em chumbo". A casa de Deus transformou-se em estábulo. E, como dizia São Paulo, "o vaso de honra" é, agora, o vaso da infâmia... Passar do gênio à idiotice, da fortuna à miséria, não é das piores decadências. Os farrapos com que se cobrem os escravos são menos desonrosos nas costas de um rei do que esse trapo de pecado com que passou a cobrir-se aquela que um dia foi bela e respeitada.

Faz às vezes de sua vergonha uma terrível experiência. Faz, agora a comparação... Não mais se estima, a consciência grita alto a confiança que ainda se lhe dá: "Se soubessem!" diz ela para consigo.

Enquanto que, orgulhosamente, finge estar segura de si mesma, intimamente preferiria esconder-se. Um olhar puro de criança fá-la baixar os olhos. Lê a própria condenação em todas as fisionomias cândidas. Caso consiga alguns triunfos, eles não a fazem esquecer a miséria em que se encontra. Vê  que o mundo zomba das feias, das pobres, das velhas e quem sabe se não faz coro com ele? Mas ela sabe, pois é uma evidência que a martiriza, que a decadência não está em ser pobre, nem feia, nem velha, está em ... ser... impura... E ela o é!

Conclusão

Em tudo que vimos, isto é, vitórias que a pureza supõe, sacrifícios que exige, não haverá algum exagero? Encarar as coisas deste modo não será talvez vê-las sombrias, piorar a realidade, afim de torná-la mais comovente, bater na água para provocar espumas? melhor do que ninguém, podem as interessadas dar resposta. E essa resposta, sendo leal, se baseará no que escrevi.

Quando São Paulo, o apóstolo da caridade e da virgindade, iniciou suas pregações pelas grandes cidades pagãs, seu coração sentiu-se mal. A consciência gritou-lhe no peito, como que protestando indignada. Era feio, era sujo. O vício imperava. A sensualidade era a deusa do lugar. Na cidade, a única coisa pura que havia era o céu azul. quanto ao resto... o resto... Para uns, a vida era um gozo, enquanto que, para outros, não passava de aviltante servidão. A alma era sufocada pelos sentidos, como um ferido sob um montão de cadáveres.

Pregar a palavra "castidade" assemelhava-se ao gosto inútil e louco de um semeador que semeia o trigo no gelo ou atira as pérolas ao chiqueiro. No entanto, a palavra foi ouvida. O ideal brotou. Houve virgens puras. Mas quem percebeu seus sofrimentos mais secretos, suas heróicas resistências, seu sublime esforço, seu rigoroso e tímido recato? E tudo isso era bem necessário, sob o risco de logo depois desfalecerem, vencidas, e voltarem a ser iguais às outras. Quanto a essas últimas, bem sabemos que espécie de sorriso desabrochava de seus lábios pintados!

Para algumas, aliás bastante numerosas, o caso se apresenta do mesmo modo. Sim, é o mesmo, apenas menos complicado, menos angustioso. Em nossa civilização existe tanto paganismo vivo ou renascente! A árvore de onde pende o fruto proibido está plantada à beira de tantos caminhos! Existem tantas serpentes silvando sob as folhas verdes! Quantas jovens imprudentes não são vítimas do encanto de que se reveste a tentação, fascinadas pelo olhar meigo e terno! De maneira que,  para não ir aonde tantas vão, para não olhar nem por um minuto o que tantas olham, não se deixar morder no calcanhar nem ferir o coração, é necessária certa altivez no andar, aliada a uma sábia vigilância. Inês, Lúcia, Águeda só conquistaram a pureza aceitando o heroísmo até à morte. Para se tornarem suas dignas irmãs em Cristo Jesus, as jovens de hoje devem munir-se de idêntica coragem e suportar tão grandes sacrifícios.

"Custa caro", diz o Apóstolo, viver casta e piedosamente.

E, no entanto, é preciso, seja qual for o preço desse ideal. A mensagem do Mestre continua sendo o programa absoluto das jovens gerações que desejam tornar-se divinamente belas. O Sermão da Montanha foi pronunciado para todas as épocas. No ano 30, como ao ano de 1030, como no ano 10030, caso o mundo ainda viva: - "Bem-aventurados os corações puros". Foi dito pelo Mestre diante do lago de Galiléia. Foi repetido por São Paulo diante do lamaçal das cidades gregas e romanas.

É dito ainda no limiar da alma, ao ouvido de todas as jovens. Sempre. Em toda a parte. Apesar de tudo. Porque só aí está a verdade, o dever. Impõe-se até a quem a rejeita. Aqueles que não a conheceram serão julgados, e deixar de praticá-la, porque exige esforço, é reconhecer-se covarde quando a coragem cansa e pecadora quando o pecado atrai.

Uma cristã não pede explicações sobre: "Bem-aventurados os corações puros". Talvez trema um pouco antes, ou, então, core. Seja trêmula ou enrubescida, aceita-a porque o Mestre falou e só Ele possui as palavras da Vida Eterna. Sabe que cedo ou tarde o Mestre terá razão e, enquanto espera ela mesma fazer a própria experiência, seja nas manhãs de feliz pureza, seja nas noites de triste pecado, entrega-se inteiramente à palavra infalível. Quantas não se arrependeram por não terem acreditado! Milhares de outras se desonraram por não acreditarem! Outras, ainda, morreram culpadas e desesperadas por terem acreditado no contrário! E haverá alguma dentre elas que tenha sido enganada pela santa palavra? Onde  encontrar os mais belos sorrisos nos lábios de vinte anos? Os mais lindos olhares humanos, quais os olhos que os possuem? O vício é triste, a sensualidade sombria. Só a pureza possui belos olhares e divinos sorrisos.

Louca por sua alma

As dificuldades aumentam. Jovens, se não existir alguma coisa em vocês que não seja mais forte, elas acabarão vencendo.

E que é essa "alguma coisa"?

O culto pela alma, a loucura por vossa alma.

Sem a loucura pela Cruz, dizia São Paulo, não há nem sabedoria, nem ardor, nem apostolado, nem dedicação. É a verdade, mais do que a verdade.

Sem a loucura por vossa alma, não pode haver pureza. De acordo com essa loucura é que se age, se vive, se morre. 

A jovem que tem "loucura por seu corpo" entrega-se sem receio a todos os gozos, e a ele sacrifica a vida. A jovem que tem "loucura por seu coração" entrega-o indistintamente a qualquer amor que a ele sacrifica a consciência. A jovem que tem "loucura pela sua beleza" tudo vê, tudo lê, procura tudo, tudo experimenta, tudo empreende, tudo usa e, moralmente, assim morre.

Somente a jovem que tem "loucura por sua alma" renuncia a tudo que pode escurecê-la, conserva-a intacta e a salva. Semelhante aos grandes patriotas que são "loucos por sua pátria" e morrem para que ela viva, assim ela, que é louca por sua alma, tem-lhe apego. E defende-a ferozmente. E esta alma não é indício de pureza? Quando se lhe pede qualquer coisa, estando a alma tranqüila, ela se dá, não se de recusa a nenhum sacrifício, sente-se pronta para qualquer imolação. Basta que, do meio das ruínas, a alma surja luminosa, viva, invulnerável. Se salvou a alma, satisfaz-se porque não perdeu coisa alguma. A pureza mantém a alma intacta, a alma conserva a pureza imaculada. Unem-se com um elo que quer ser eterno.

Ridículo, baixo, grosseiro, o mundo ri.
Risada satânica.

Quanto a vocês, jovens cristãs, não riam dela. Compreendam-na. Admiram-na. Imitem-na. 

Transforme-se nela.
Porque ela tem razão.

E é para ela que vai o nosso respeito comovido e nossa absoluta confiança.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Vocês e vossas leviandades)

PS: Grifos meus

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

II - A AGONIA NO JARDIM

II - A AGONIA NO JARDIM


Torrentes iniquitatis conturbaverunt me.


As iniqüidades do mundo inteiro, como rios transbordados, precipitaram-se no mar do Meu coração.

O ideal do Amor, enfim, contente, repleto de venturas, satisfeito, eis a Agonia no Jardim: o primeiro, o maior e o mais misterioso dos episódios da Paixão.

O primeiro, porque na ordem do tempo, de modo exterior e visível, ele a começa; o maior, porque ele reitera todas as imolações do Homem-Deus, desde o primeiro vagido do Presépio até ao derradeiro gemido do Calvário; o mais misterioso, não só porque ele antecipa todos os sofrimentos corporais da vítima, mas também porque, onde os olhos da carne não vêem mais que uma luta, um combate, uma agonia, os olhos iluminados da fé contemplam a suprema ventura do Amor.

Eu vos disse anteriormente que, obra de Deus, a Cruz é a obra prima da alegria.

Obra de Deus neste sentido: conquanto os opróbrios, as ignomínias, os sofrimentos todos de Jesus Cristo fossem resultado da perversidade judaica, verdadeiros pecados do povo deicida, o Filho de Deus ab-oeterno aceitou-os, ab-oeterno resolveu tirar da iniqüidade a Sua glória, convertendo em instrumentos de Seu triunfo as humilhações da Sua Paixão.

Foi voluntariamente que Jesus Cristo Se sacrificou: oblatus est quia ipse voluit.

Sob este ponto de vista, portanto, a Cruz é obra de Deus, e obra prima da Alegria, porque Deus é uma imensa alegria, que se comunica a todas as Suas criações, e, pois comunicou-Se também à humanidade santa do Verbo, perfeitamente feliz e bem-aventurado em todos os instantes da Sua existência terrestre.

A Agonia no Jardim não foi por isso, apesar de todos os sofrimentos, menor que a suprema ventura do Amor.

O Amor! Ele é a seiva do universo; a energia atrativa de toda a criação; circula no ramo vive na flor, no pássaro, no inseto; produz e perpetua a vida.

Diz um antigo hino grego: “O Eterno disse ao Amor: que tudo se organize; e tudo se organizou!

Se no mundo físico o amor é o pólo da criação; no mundo moral é a alma do gozo, a vida da alegria. Sem dúvida, na sua verdade e pureza, o amor é raro, como é raro o gênio, raro o heroísmo, rara a formosura, raro tudo que se aproxima da perfeição. Ainda assim, na vida ele é para nós o tipo supremo da felicidade.

Falando do espírito das trevas, dizia a maior contemplativa do nosso tempo, Teresa de Jesus: “desgraçado! Ele não ama!” Eis como que o sinete da desgraça: - não amar.

Não há no céu, nem na terra, diz o livro da Imitação, coisa mais doce, mais forte, mais sublime, mais ampla, mais deliciosa, mais completa nem melhor que o Amor.

Esse amor de que nos fala o sublime poema monástico nasceu de Deus e não pode, como o mesmo poema acrescenta, descansar senão em Deus, elevando-se acima de todas as criaturas.

Não obstante, quaisquer que sejam as vicissitudes e imperfeições da humanidade, são muitas na terra as venturas do amor satisfeito: impossível seria o enumerá-las.

Vede: gozar, possuir uma alma, mesmo na ordem da natureza; mas é sublime! O que será possuí-la na ordem sacramental, divina?! Perguntai-o a ardente felicidade do coração juvenil, recebendo junto ao altar, das próprias mãos de Deus, um coração que para todo o sempre se engasta no seu!

Apertar em seus braços, revestido de sua carne, palpitante de seu sangue, o primeiro fruto de suas entranhas: que ventura! Perguntai-o a mãe fascinada pelos encantos do seu recém-nascido.

Imortalizar na ciência, na arte, na poesia ou na religião – uma idéia que aprendeu a verdade, um pensamento que atingiu o belo, uma inspiração que traduziu o amor, uma palavra que revelou Deus: que inefável ventura! Perguntai-o ao sábio, ao artista, ao poeta, ao apóstolo. Libertar uma raça, regenerar um povo, reconstruir uma pátria: que ventura tão grande! Perguntai-o ao filósofo, ao estadista, ao guerreiro.

Pois bem: a alegria de todas as almas humanas, o prazer de todos os corações satisfeitos, a delícia de todos os amores: amor maternal, amor conjugal, amor fraternal, amor da pátria ou da humanidade; todas as venturas do gozo mais requintado: - o das lágrimas que os Santos derramaram nos seus delíquios, o da pureza que as virgens sentiram no seu corpo imaculado, o do sangue que os mártires derramaram em testemunho da verdade, - todas as venturas do coração humano reunidas são infinitamente menores que a ventura de Nosso Senhor na agonia do Jardim.

É aqui, na verdade, que Ele exteriormente, com inflamada caridade e intrépido valor, dá começo à Sua Paixão. É aqui que a parte inferior da Sua natureza parece inválida por indizível tristeza; e os açoites, os opróbrios, as bofetadas, as zombarias, as blasfêmias, a morte de Cruz – tudo isso que Lhe iam dar os Judeus com tanta vivacidade  o penetra que Ele já suporta todos esses males, e geme, e treme, e perde as cores e as forças, e como que se Lhes esgota a vida.

Ei-lO prostrado, com a face em terra, em agonia!

Trinta e três anos passaram sobre a Sua cabeça. É agora um homem em toda a força da idade.

Muitas vezes mostrou-Se fatigado. Fatigado quando, junto ao poço de Jacob, pedia à Samaritana um pouco dessa água, que Ele próprio criou.

Fatigado quando, nos dias do Seu penoso ministério público, refugiava-Se entre os rochedos.

Nunca, porém, tão fatigado como agora em que uma santa impaciência O domina: a de não poder esperar algumas horas o Seu desejado sacrifício.

Dentro de poucas horas, Ele será batido, flagelado, coberto de ignomínias, crucificado; o Seu sangue será derramado como água.

Ele, portanto, crucifica-Se a Si próprio, num martírio mais misterioso que o do Calvário. Antecipa a Sua Paixão. Reveste-Se de todos os pecados tão numerosos, variados e enormes de todos os homens. Cobre-se deste medonho vestuário que O inflama e queima como uma túnica de fogo.

Treme, todo penetrado do mais horrível dos terrores.

Todos os crimes do espírito; todos os crimes do coração; todos os crimes dos sentidos; todas as loucuras do mundo; todas as orgias da humanidade; o orgulho de todas as inteligências; a luxúria de todas as imaginações; todas as aberrações da ciência; todas as profanações da arte; todos os adultérios da poesia; todos os sacrilégios de todas as religiões, a ambição dos despostas; a tirania dos governos; os atentados da política; as iniqüidades da justiça; os abusos da filosofia; as violações da Moral; todos os escândalos do mundo; as abominações de Sodoma e Gomorra; as prostituições de Babilônia; as bachanais da Grécia; a ambição, a loucura, as crueldades de Roma; a idolatria de todos os povos pagãos; as perversidades da nação judaica; as iniqüidades de todos os povos modernos; as perfídias de todas as monarquias; as mentiras de todas as repúblicas; a hipocrisia das democracias; as imposturas da liberdade – todo este peso enorme oprime a cabeça de Jesus Cristo na Agonia do Jardim, enche de confusão a Sua alma e de amarguras o Seu coração!

É assim, desfigurado, que a Justiça Eterna O contempla, como Holocausto vivo que se Lhe oferece pelos crimes de todas as pátrias, também da nossa: - de todos os pecados privados de públicos do Brasil, das iniqüidades de seus magistrados, do ateísmo político de seus estadistas, das apostasias de seus governos, do paganismo das suas escolas, da irreligião prática de seus lares, da impiedade dos seus parlamentares, do ceticismo de seus jornais, da ignorância religiosa dos seus mestres, da apatia e dos sacrilégios dos seus padres, do seu repúdio oficial da fé católica; de todas as loucuras do espírito revolucionário que invadiu as plagas de Santa Cruz e não deixou entre a monarquia e a república solução de continuidade!...

Onde, me perguntareis agora, numa agonia tão grande que não há, para exprimi-la, nas línguas humanas, termos nem frases; onde ver a ventura de Jesus Cristo?! Por todos os poros de Sua carne desfiam gotas de sangue que inundam a Sua fronte, banham as Suas faces, molham os Seus cabelos, cobrem os Seus olhos, enchem a Sua boca, maculam as Suas barbas, tingem o Seu vestuário, e avermelham mesmo as oliveiras do Jardim!

Que agonia dolorosa e profunda!
Que sofrimento inaudito!

Pois bem: onde os olhos da carne vêem a fraqueza, os olhos da razão, iluminada pela fé, vêem a força. Esta luta, diz S. Ambrósio, não é a luta de Jesus Cristo no temor da Sua Paixão; mas no desejo inflamado de no-la aplicar. É a luta entre dois atributos de Sua própria natureza divina: a justiça e a misericórdia. A Justiça, que representa o Pai, parece dizer, inflexível a Jesus Cristo: “Separa a tua causa da dos pecadores; deixa-Me derramar a Minha cólera sobre a posteridade proscrita de um pai culpado”. Mas a Misericórdia, que representa o Filho, parece responder ao Pai: “Não, nunca! Eu não deixarei de combater, de sofrer, de chorar até que os pecadores sejam postos no Meu lugar, sejam perdoados em Mim. Eu aceito sobre os Meus ombros o peso das suas faltas; Eu incorporo-os todos; Eu me revisto do opróbrio de todos os pecados; Eia, corram todos eles; entrem como torrentes transbordadas, no mar do Meu coração. Como todos os rios se precipitam no mar, as iniqüidades no mundo inteiro precipitem-se sobre a Minha alma; e, assim como o mar absorve todas as águas, que o Meu coração afogue todos os pecados.”

E a justiça emudece! A misericórdia triunfa! Oh! suprema ventura do Amor.
Era isto o que Ele desejava desde o presépio.

A Sua agonia não é, portanto, dizem os padres da Igreja, uma luta entre o espírito e a carne, entre a vontade divina e a vontade humana. Não é uma repugnância pelo sofrimento: é uma santa impaciência do amor.

Qual de vós, se pudésseis, para verdes a pessoa que amais, não transformareis em olhos todos os membros de vosso corpo?!

Dois olhos também não bastaram a Jesus Cristo, diz um ilustre doutor, para chorar a desventura possível dos que Ele ama: transformou em olhos todos os poros do Seu corpo, pelos quais, transformadas em sangue, correram as Suas lágrimas!

Mas, se é assim que Jesus Cristo nos ama, ao ponto de se revestir dos nossos pecados, como Seus próprios; sofrer as humilhações deles; experimentar o desgosto e o terror que eles inspiram e a contrição correspondente à sua enormidade; que loucura não é a nossa se desprezamos tamanho amor?!

Ele tomou a responsabilidade da pena; mas não a malícia da falta.

Tomou a superfície, a aparência, mas não a natureza, a substância do pecado, que não perverteu a Sua vontade, nem maculou a Sua inocência.

É preciso, portanto, que nos associemos às Suas lágrimas e às Suas dores; que demos a nossa o suplemento da Sua contrição.

Se a simples aparência do pecado tornou-Lhe tão severa a justiça do Pai, que severidade não merece em nós a realidade do pecado?!

Se, portanto, desde mistério não tiramos como ensino o ódio do pecado, e o desejo de repará-lo pelos méritos de Jesus Cristo, de nenhum proveito nos pode ser a Sua mediação.

Esta foi a mais heróica que o Amor nos podia dar. Para resgatar o mundo, Deus não precisava derramar o Seu sangue; podia fazê-lo por uma infinidade de meios que não alcança a nossa imaginação. Entretanto, a efusão de Seu sangue pareceu-Lhe o meio mais condigno da Misericórdia, e o mais capaz também de enternecer os nossos corações. Ainda mais: uma vez decretado que a redenção se fizesse pelo sangue, uma gota, sem dúvida, do sangue divino bastava, pelo seu mérito infinito, para remir este e todos os mundos possíveis. Que digo eu?! Uma gota de sangue?! Bastava uma lágrima, um suspiro, um gemido, uma simples súplica de Jesus Cristo. Entretanto, derrama-o com prodigalidade, em diversas e abundantes efusões: na Circuncisão, que foi como que a impaciência do precioso Sangue; na Agonia, que foi a antecipação da Paixão; na Flagelação, que foi o sangue de Deus dado em espetáculo à cidade e ao povo; na Coroação de espinhos, que foi o tributo pago pela cabeça divina aos pensamentos inefáveis da salvação; no Caminho do Calvário, que foi os esposais do Precioso Sangue com a Cruz; no Calvário, que foi o Seu consórcio; na abertura do Sagrado Coração, que foi o testemunho póstumo do amor de Jesus Cristo, derramando Seu sangue ainda depois de morto

Ora, como diz brilhante teólogo, não há superfluidade, nem ornamentos vãos nas obras de Deus. Se Ele, portanto, derramou o Seu sangue com tanta prodigalidade, é que a nossa condição o exigia, e neste sentido o Precioso Sangue, tão necessário à onipotência divina para salvar o mundo, o era, entretanto, a Sua misericórdia, e a nossa miséria, tão enorme que foi preciso o Precioso Sangue, como um oceano transbordado, alagasse o mundo e viesse até as nossas almas por esses sagrados canais que se chamam os sacramentos: o Batismo, que não é senão o precioso Sangue dando a uma gota d’agua o poder de operar uma revolução espiritual maior que todas as criações do mundo material; a Penitência, que não é senão a aplicação autêntica do Precioso Sangue sobre a cabeça do pecador arrependido; o Matrimônio, que não é senão a figura do casamento do precioso Sangue com a Igreja; a Confirmação, que não é senão o vigor do precioso Sangue comunicado pelo Espírito Santo; a Extrema-Unção, que não é senão o Precioso Sangue  dando ao óleo o poder de fortificar o moribundo; a Ordem, que não é senão o coração terrestre, o vaso que guarda o precioso sangue; a Eucaristia, que não é senão a ubiqüidade do Precioso Sangue, multiplicado em milhares de hóstias e milhares de cálices!

E que seria o mundo sem o sangue de Jesus Cristo?

O mundo seria insuportável, a vida sem esperança, as desgraças sem consolação.

Quaisquer que sejam as pretensões da ciência; qualquer que seja a presunção do espírito moderno; é o sangue de Jesus Cristo que detém suspensa sobre o mundo a cólera divina; que permite ainda a humanidade, no meio de tantos erros, calamidades e tristezas, algumas felicidades no seu exílio.

Vinde; vinde vós todos, espíritos modernos, inchados da vossa filantropia, que pretendeis dar aos homens testemunhos ainda não vistos de fraternidade, sempre prometida, nunca realizada pelas vossas ciências, pelas vossas filosofias, pelas vossas políticas; vinde ver, vinde aprender na Agonia do Jardim como se ama a humanidade.

E vós também, falsos profetas, Messias impostores do século 19, que prometeis aos povos novas religiões, e os quereis convencer de que eles devem esperar maiores e melhores provas de amor de Deus; vinde ver na Agonia do Jardim se o amor de Jesus Cristo pode ser excedido!

Vinde vós todos, também, espíritos modernos, que na tragédia, no drama, no romance, na música, na pintura ou escultura, tendes alimentado a ardente ambição de ver realizado na terra o ideal do Amor; vinde – vinde vê-lO realizado na Agonia do Jardim!

Tudo o que a imaginação pode conceber; tudo o que o coração pode desejar; tudo o que a alma humana pode sonhar – ei-lo realizado!

Todas as ciências, todas as literaturas, todas as artes não podem traduzir um ideal igual.

A Agonia no Jardim é a última palavra do amor.

É o sacrifício completo, não imposto por uma força exterior, pelas prevaricações da justiça, pela crueldade dos judeus, pela brutalidade dos carrascos, mas pela própria vontade da vítima.

É a vitima sacrificada pelo gládio inflamado do Seu próprio amor.

Jesus Cristo tinha dito que o Seu sacrifício seria voluntário: voluntarie sacrificabo tibi.

Pois bem; o que no Calvário, diz um padre, poderia parecer resultado de vontade exterior, no Jardim mostra-se como o resultado da própria vontade de Jesus Cristo.

Ali, nem tormentos, nem golpes, nem feridas.

A traição de Judas, a injustiça de Pilatos, a crueldade dos carrascos não têm parte no sacrifício. Nenhum delito desonra tão grande sacramento; nenhuma infâmia macula uma oferenda tão pura; nenhuma boca escarnece tão divina imolação.

O amor é a Sua própria vitima, o Seu próprio altar, o Seu próprio pontífice.

E o sacrifício de Jesus Cristo é completo; porque Sua vontade é o instrumento que Lhe abre as veias, Sua santidade é o altar onde corre o sangue, e o amor é o pontífice que O oferece ao Pai!

 (A Paixão, pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, Cruzada da Boa Imprensa - Rio, ano de 1937)

PS: Grifos meus.

Cantiga 8 "A Virgen Santa Maria"

Cantiga 8 "A Virgen Santa Maria"


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

IV- A santidade sacerdotal

IV- A santidade sacerdotal


I - Filho, considera que, entre um bom Sacerdote e um bom secular, deve haver tanta diferença, como há entre o Céu e a Terra. Devias ser tão puro, que colocado no Céu, brilhasses ainda entre os Anjos (1).

Busca a santidade; porque o teu estado exige que sejas mui semelhante a Mim.

Não julgues, filho, que é demasiado o que te peço; porventura parece-te que, para exercer o teu santíssimo e divino ministério, te basta qualquer perfeição?  Ah! não basta, é necessária uma santidade eminente.

Tu mesmo dizes aos seculares que, para a Comunhão quotidiana, é necessária uma perfeição, não vulgar, mas notável e distinta; não serei Eu porém o mesmo que recebem os leigos, para exigir de ti tanta virtude, quanta tu exiges deles? Tu não só Me recebes, mas também Me distribuis aos outros, e representas a Minha pessoa; não estarás pois ainda mais obrigado à perfeição que eles?

Examina-te pois por um pouco, e vê se em ti há virtude que corresponda a tuas grandes obrigações.

II - Filho, se és prejudicial a ti mesmo, como serás útil ao teu próximo, que é o grande fim da tua vocação? Se não tens zelo pela tua alma, como a terás pelas dos outros, que deves conduzir a Mim por meio de estudo, da catequese, da pregação, da Confissão, etc.? Se te não santificas a ti, como santificarás os outros?

Deves ser o exemplo dos seculares; logo cumpre que fujas até das culpas leves, que em ti se tornam gravíssimas. Nada deve aparecer em ti que seja próprio da plebe nem do vulgo; nada que seja comum com os usos, desejos e costumes da gentalha.

Quanto és superior aos seculares pelo teu estado, tanto o deves ser pelos merecimentos e virtudes. Como estás em lugar mais elevado, todos olham para ti atentamente; nem tu podes esconder-se a seus olhos, nem eles deixam de notar os teus defeitos (2).

Que seria, filho, se, em vez de seres tu mais santo que eles, o fossem eles mais que tu? Já era vergonhoso para ti serem eles mais caritativos, mais amigos do bem, mais zelosos da honra de Deus; e ainda te devias envergonhar, se eles nisto fossem somente teus iguais: pois como os edificarias? (3)

Que será porém, se, em vez de santa, te virem passar uma vida descuidada, sem mortificação e sem empenho pela virtude? E quanto pior, se a tua vida for perversa e detestável?!

III- Filho, outra vez te exorto: procura santificar a tua alma; porventura não vai nisto o teu maior bem?

A verdadeira virtude tornar-se-á para ti doce e suave. Se já a provaste, não estava satisfeito o teu coração? Não te movem a ele a riqueza de merecimentos, o trono de glória que te espera no Céu! Infeliz! que será de ti se seguires outro caminho!?

Vê os Meus Santos: todos temeram sumamente o Sacerdócio. Sabiam eles muito bem que, se é grande a dignidade d'um sacerdote, é também maior, que para os seculares, a medida de santidade que pede, e muito maior, até para o Sacerdote simples, a severidade do Meu tremendo juízo.

Deixa, filho, deixa a tibieza, deixa o mundo; entrega-te a um santo fervor. O Meu Paraíso merece bem que tu faças por ele alguma violência. Outros muitos, piores que tu, se tornaram Santos. Eu serei o teu auxílio. Recearás acaso que deixe de socorrer-te um Pai que morreu por ti?

Fruto.- Em teus defeitos quotidianos, nunca diga: isto é pequeno mal; dize antes: devo procurar a minha santificação; e assim esforça-te por extirpá-los.

Toma para teu exemplar as ações de Jesus Cristo, descritas no Evangelho, e as dos Santos Sacerdotes em suas vidas, para que te resolvas a imitá-los, donde depende a tua salvação eterna.

São Vicente de Paulo dizia:

"O Sacerdócio é a dignidade mais sublime que há sobre a terra; é a mesma que exerceu Jesus Cristo. Se a tivera compreendido quando tive a temeridade de a assumir, como depois a compreendi, antes houvera abraçado a profissão do lavrador mais infeliz em seu estado; e quanto mais correm os anos, mais me confirmo neste ditame; porque conheço quão longe estou daquela perfeição que devera possuir."

Notas:

1- Necesse est eum sic esse purum, ut in ipsis coelis collocatus, inter coelestes illas virtutes medium staret. (Chrysost., De Sacerdotio.)

2- Quum a rebus saeculi in altiorem sublati locum Clerici conspiciantur, in ipsos tanquam in speculum reliqui oculos conjiciunt, ac sumunt quod imitentur. Quapropter sic decet eos, qui se divino ministerio dedicarunt, vitam moresque suos omnes componere, ut habitu, incessu, gestu, sermone, aliisque omnibus rebus nil, nisi grave, moderatum ac religione plenum prae se ferant; levia etiam delicta, quae in ipsis maxima essent, effugiant: ut eorum actiones cunctis afferant venerationem, atque vita, et exemplum ad Dei cultum assidue instruat. (Conc. Trid., De Ref.)

3- Qualis vero aedificatio discipuli, si se intelligat magistro esse meliorem?... vehementer ecclesiam Christi destruit meliores esse laicos, quam clericos. (II, Decretal., 8.1)

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Donzela cristã: O esplendor - Parte I

Donzelas cristãs: O esplendor (I de II)


A coroa de estrelas

A Imaculada da Medalha apresenta-se cheia de luz. Em volta de Sua fronte uma coroa de estrelas, de Suas mãos jorra uma profusão de raios.

Símbolo que significa o esplendor da pureza.

Os pecadores não têm esplendor. Suas mãos não sabem fechar-se para o amplexo culpável. Quando se abrem, não é para dar, mas para aceitar. Ora crispadas com a avareza. Ora lânguidas com a volúpia, nervosas e abatidas, só deixam cair flores murchas. Se são feridas, de sua chaga só saí pus, mas jamais a claridade. Entre seus dedos mina, como se fosse uma água suja, o azedume das esperanças desfeitas ou das paixões esgotadas.

Sua fronte não tem estrelas. Talvez seja altiva e provocante, talvez arda em febre, mas não é luminosa. E como o seria? Somente a alma brilha, espiritualizando de antemão, para a glória eterna, a carne mortal. Quase que não tem mais alma. Sua alma está longe muito longe, agonizante ou embrutecida, nalgum canto obscuro de seu ser. Esgotando até o fim as últimas reservas, não tem mais forças para a iluminação de sua fronte e de seus olhos. As pecadoras são sombrias, pois o pecado é a própria noite.

A pureza faz a alma viva, clara e quente, ilumina o ser por inteiro. As virgens puras são as belas estrelas que iluminam a grande noite humana. Deslumbramento aliás discreto e agradável aos olhos, não os cegando.

Quando, pois uma jovem, de pé sobre a serpente esmagada, tendo o coração divinamente ferido, conquista a pureza, de seu sacrifício e de sua vitória emana uma luz pura como sua divina origem e alimentada pela própria claridade divina.

O esplendor divino

Os corações puros verão a Deus”. Desde aqui eles O vêem, pois penetram o mais que é possível no mistério de Deus. Nesse olhar não existe sombra, por mais voluntária que seja, que o obscureça. Na pupila desses olhos não existe mácula e a tara do vício, claro, luminoso, esse olhar íntimo da alma com o qual se pode ver sem o auxílio de ninguém.

Nos impuros, a fumaça negra do coração culpado sombreia o pensamento, limita a visão. Quando por demais materializada pelos cuidados, a alma torna-se insensível às coisas do espírito. Do mesmo modo, e ainda mais tristemente, quando por demais embrutecida pelos erros carnais a que não nega consentimento, não se comove nem vibra com as coisas de Deus. Para ela, isso tudo não passa de simples quimeras, de sonhos tolos. E a esta alma, transformada em corpo de seu corpo, só interessa o que se possa apalpar com o contato quente das mãos apaixonadas, o que se apresenta com cores vivas; só interessa, enfim, a ternura demonstrada pelas batidas desordenadas de um coração de carne...

Para a pecadora é esse o grande castigo. Perdeu a Deus, o gosto por Deus, o amor de Deus, a compreensão de Deus. E Deus, que não vive nela, também dela não se separa. Lembro aqui a frase tragicamente verdadeira de Mirabeau a Barnave: “Nada tens de divino!

Para dar a Deus, é preciso tê-lO e, para anunciá-lO é preciso com Ele viver. Dizia Jesus: “Quem Me vê, vê o Pai”.

Ninguém, aqui na terra, anuncia mais a presença viva de Deus do que uma virgem. Existe aí um mistério sagrado, uma realidade que a profundeza clara e infinita do olhar desvenda a quem é digno de compreender.

Assim como há um estado de graça para a alma sem pecado, também há um estado de graça para o sorriso, a ternura e as palavras dos corações puros, em que Deus habita.

Se não fosse esse o motivo, porque seria então que Ele é tão generoso para algumas criaturas? De onde vem esta paz com que as envolve, esta calma de que estão possuídas, esse fervor na oração que ilumina a alma, senão de Deus vivo que nelas realiza Sua admirável obra?

O universo fazia dizer a Ampêre: “Como Deus é grande, Ozanam!” E uma criança pura, com sua pureza de dez anos, com sua pureza de vinte anos, diz a quem olha:  Como Deus é belo!” Os céus narram Sua glória. Alguns castigos demonstram Sua justiça. A ordem do mundo demonstra Sua poderosa sabedoria. O coração das mães demonstra Sua bondade. Jesus na Cruz é sinal evidente de Seu amor apaixonado.

Entre as vilanias deste mundo, e com elas contrastando, a pureza de algumas fisionomias, irradiando a suave inocência dos corações, atesta sua adorável santidade. Se semelhantes criaturas não mais existissem, pensaríamos que Deus abandonou o mundo ou que, metido Consigo mesmo, recusasse a deixar-se ver pelos homens pecadores.

O esplendor da liberdade

Ser livre é não ser escravo, não sentir sobre si qualquer constrangimento que prejudica toda iniciativa. Assim considerando a liberdade, as puras são livres. Essa liberdade é conseqüência da luta generosa e uma das recompensas de sua vitória.

Tanto nelas como em qualquer de nós, havia os instintos com suas tiranias, o corpo com seu peso, os desejos com suas exigências.

Pouco a pouco, porém, de tanto frearem, conseguiram um domínio tal sobre si que a consciência reina de modo absoluto. Para cada pecado não cometido, aumenta o poder da vontade, e nisto consiste a verdadeira liberdade.

Para cada triunfo do dever sobre o prazer, da alma sobre os sentidos, o prazer diminui seu poder de atração, os sentidos enfraquecem suas exigências. Desse modo se estabeleces, no íntimo dos seres puros, uma harmonia que mantém cada coisa em seu lugar: a alma sujeita a Deus, o resto sujeito à alma. Na verdade, fazem o que bem querem e não o que as paixões exigem, como bestas esfaimadas.

Não é obedecendo ao dever que se fica escravo, ao contrário, essa obediência nos faz livres. O que torna escravo é fugir ao dever, sujeitar-se ao domínio brutal das potências sensuais.

Eis o motivo porque as pecadoras não têm, não mais têm, quase que não têm, ou têm cada vez menos uma grande liberdade. Fazem o que não quereriam fazer. Um outro – o pecado – é que ordena, e elas obedecem. Ele pede, e elas dão. Com seu punho de ferro, ele sufoca os débeis sobressaltos da consciência, as últimas palpitações do ideal esquecido.

Sufocadas ao mesmo tempo pelas recordações e pelos desejos, apoquentadas por visões, torturadas pela necessidade, insaciáveis e saturadas, encantadas e desgostosas, elas se agitam à mais suave brisa, caem ao menor choque, correm a um simples aceno, cedem diante de uma pequena ameaça, acompanham o pequenino veio de água. Abandonam-se sem resistência.

Assim que o Tentador lhes apresenta a corda, elas mesmas amarram as mãos. Não saberiam dizer hoje o que será delas amanhã, sentem unicamente – e isso é bem uma escravidão – que são hoje o que delas fez a ocasião e que serão amanhã o que a ocasião de amanhã delas fará.

Quem peca – disse Jesus – é escravo do pecado”. Com sua alma e sua vida, a impura é o comentário eloqüente e triste dessa frase de Cristo.

O esplendor da força

As puras são fortes. São corajosas. Lutaram vitoriosamente. Para elas, a pureza é uma conquista e, muitas vezes, para salvá-la, foi-lhes necessária uma defesa cerrada para a qual despenderam muita energia.

Supõe-se por acaso que essa harmonia interior é conseguida sem mais nem menos e conservada sem cuidados especiais? O domínio dos poderes do mal, o triunfo do espírito não deixa ser uma vitória. Mas elas não proclamam alto seu heroísmo, embora essa luta perdure enquanto houver vida.

Não são roseiras que vergam ao vento, não se deixam arrastar diante de um sorriso, não se entregam a primeira tentação. Resistem, firma-se.

E nisso é que consiste sua fortaleza. Muitas vezes, o esplendor que irradiam não é senão de calma e serenidade. E nada mais expressivo, visto que a força só é sagrada quando se desdobra em tranqüilidade e doçura.

Ao passo que as impuras!

Quantas vezes lhes escapam dos lábios a confissão de fraqueza desesperadora! Proclamam-na e a lamentam. E a história de sua vida cotidiana assim é escrita. Outras, porém, negam-na. Simulam denominar “força e coragem” o que não passa de grande audácia, escondem suas inúmeras quedas.

Vejamos! Será que elas se dominam? Fazem realmente o que querem? Resistem a uma tentação? Impedem um desejo de se manifestar? Quando o pecado tenta, podem freá-lo? E, quando a fascinação entra em jogo, não ficam imediatamente seduzidas? Não se entregam inteiramente um encontro, a uma lembrança, a um instinto que surge? E isso é força? O que em verdade encontramos na fisionomia que simula bravura é um grande abatimento. Cantar em altas vozes, falar grosso, rir, nada disso indica fortaleza. Muitas vezes prova o contrário. As interessadas negam-no, mas a própria vida o demonstra. E é justamente porque, ao invés de se conduzirem, deixam-se levar pelos acontecimentos, são uns entes fracos...

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post:. O Esplendor, parte II)

PS: Grifos meus