segunda-feira, 15 de abril de 2013

Amor do próximo - Terceira Parte

Nota do blogue: Acompanhar esse Especial AQUI.
Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

            II— Pecados do coração contra o próximo

            1 — Antipatia

            Antipatias são sentimentos de repugnância, irrefletidos, persistentes, que se experimentam para com certas pessoas por causa de certos defeitos: a voz, a linguagem, as maneiras, o porte, vaidades.
          Qual é a verdadeira causa disto? Outras pessoas, mesmo nossas amigas, podem ter os mesmos e mais graves defeitos e não temos por elas antipatia.
         Não é aos defeitos interiores ou exteriores do próximo que se deve atribuir a causa das nossas antipatias. A antipatia vem de um defeito nosso. Isso contende-nos com os ner­vos. Correntes nervosas atravessam a nossa alma.
            Não é pecado sentir a força destas corren­tes; é, porém, pouco cristão, e mesmo pecado, deixar-se arrastar pela sua violência e regular, por tais indisposições, a nossa opinião, estima e relações com o próximo. Excluir essas pes­soas da nossa benevolência, da nossa caridade, é sinal de que o nosso coração não é morti­ficado nem humilde, nem bom.
         Façamos, pois, violência a nós mesmos, para nos corrigirmos das nossas antipatias e más disposições, e haja, em nós, sobretudo caridade. «A caridade, diz São Paulo, é paciente e beni­gna». Esta é a torrente que deve inundar o nosso coração para o purificar, como recomenda São Tiago. Purifiquemos os nossos corações. E então a aversão se transformará em simpatia.

            2— Desejo de vingança


            «Não vos deixeis dominar pelo mal, diz o Apóstolo São Paulo, não façais mal a quem vos faz mal.» (Rom. XII, 21).
            O melhor homem e o melhor cristão podem ter inimigos, como o próprio Jesus Cristo teve os Seus. Não está em nosso poder não ter inimi­gos, todavia, depende de nós não ser inimigos de ninguém e de preservar a nossa alma do ódio.
            Quando nos tratam de uma maneira hostil, a primeira impressão é que somos esmagados pelo peso de uma grande injúria e vêm-nos logo sentimentos de aversão, ódio e desejos de vin­gança. Deixemos passar, e parece que, dia a dia, vai diminuindo até tomar as proporções de uma bagatela, uma ninharia, um nada, que não merece sequer que se fale nisso.
            Desejamos que seja humilhado, castigado aquele que, de algum modo, nos ofendeu, não por um sentimento de justiça, mas de egoísmos e de vingança; porque se os outros são ofen­didos ficamos indiferentes.
       «Aquele que procura vingar-se, experimentará a vingança divina e o senhor conservará cuidadosamente na lembrança os seus pecados.» (Ecles. XXVIII, I).
            Para acabar rapidamente com esses assaltos de pensamentos e desejos de vingança não há senão um meio: fazer algum bem. Por isso, diz ainda o Apóstolo: «Triunfemos do mal pelo bem.» (Rom. XII, 21).
            Esta transformação do mal pelo bem não se produz somente na alma que perdoa, vai mais longe ainda. Arranca não somente da sua pró­pria alma, mas também de uma família, de uma comunidade, de um povo, um dardo envenenado cuja permanência causaria grande mal. Introduz no mundo um pouco de amor e este pouco de amor fará muito bem.
            Será talvez, o inimigo a quem se perdoou, o primeiro a sentir a influência benéfica deste amor. Os carvões ardentes do amor que perdoa, amontoados na sua cabeça, fazem derreter o gelo no espírito e no coração, inspira a vergonha, a confissão, o arrependimento, e assim trans­forma em amigo fiel o inimigo fidagal, o ódio furioso, em amor profundo, e dá-se uma trans­formação divina, miraculosa que o ódio e a vingança nunca teriam produzido.

3— Rancor

            O rancor é uma lembrança, um sentimento que se conserva no coração por causa da ofensa. O rancor é verdadeiramente inimigo do amor. Sem dúvida não cuida, como a ira ou desejo de vingança, de ferir o próximo ou fazer-lhe mal, mas impede o amor de se manifestar em palavras agradáveis e em boas ações.
            Devemos esquecer e apagar a ofensa o mais breve possível. Deus não quer que as feridas sangrem sempre e, por isso, diz: Que o sol se não ponha sobre o vosso rancor. Encarregou a noite de curar as feridas que o dia fez, A noite assemelha-se à infinita misericórdia de Deus; cobre, esconde toda a fealdade; devemos tam­bém encobrir, esquecer mesmo, tudo o que desagrada a Deus.
            «Não deixeis pôr o sol sobre o vosso rancor». Pode ser que o sol que se põe não seja mais o sol da vida do nosso ofensor, pode morrer nessa noite e comparecer na presença de Deus com o peso do nosso ressentimento. O que será bas­tante grave para ele e, certamente, desagradável para nós.
            «Não deixeis pôr o sol sobre o vosso rancor.» O sol, que se põe, talvez o vejamos pela última vez; podemos morrer nessa noite e assim par­tiremos para a eternidade com o sentimento no coração contra aqueles que nos amortalham, juntam as nossas mãos, colocam no caixão e sepultam piedosamente.
            Acreditaremos que assim Deus nos receberá sem ressentimento, que a ferida que abrimos em Seu coração está fechada, e que apagou da Sua lembrança os pecados que tivéssemos cometido contra Ele?

4— Ódio

            A antipatia é a falta de amor, a ira e o desejo de vingança são agravos do amor, o ódio é antítese absoluta do amor.
            Vejamos.
            São João diz que «aquele que odeia o seu irmão é um homicida.» (Jo. III, 15). Cer­tamente um homem odiento não manchará as suas mãos com sangue, mas a sua alma é como manchada de sangue, e, se lhe fosse possível, substituiria o fiat divino que deu a existência a um homem por um pereat destruidor. Mas, a onipotência não pertence senão ao amor.
            «Aquele que odeia seu irmão, diz ainda São João, permanece nas trevas, isto é, no estado de condenação eterna, e o seu lugar pró­prio é o inferno.» Isto é evidente.   «Aquele que odeia seu irmão é um assassino; e vós sabeis que a vida eterna não tem morada em nenhum homicida.» (I Jo. III, 15).

III— Pecados da língua contra o próximo

1— Calúnia

            A calúnia consiste em atribuir ao próximo faltas que ele não tem cometido ou defeitos que não tem.
            A calúnia é, de sua natureza, um pecado mortal contra a caridade, a justiça e a ver­dade.

2— Murmuração

            A murmuração consiste em descobrir, sem necessidade, falhas ou defeitos ocultos do pró­ximo.
          A murmuração é: — Uma covardia: ataca uma pessoa ausente que não pode defender-se. — Uma crueldade: a língua do caluniador é uma espada que fere o próprio caluniador, o calu­niado e aquele que escuta a calúnia. — Uma injustiça: rouba a honra que é um bem mais precioso do que o ouro. (Prov. XXII, I).

3— Mexerico

            O mexerico semeia a discórdia nas famílias, e entre as pessoas amigas. Converte a amizade em ódio; a alegria em aflição; a paz em guerra. Por isso diz o Eclesiástico: Maldito o mexeri­queiro e o homem de duas línguas porque per­turba a paz de muitos.

4— Palavras ásperas

            As palavras ásperas esfriam os afetos a ponto de causarem a indiferença e a inimizade.

5— Troça

            A troça consiste em escarnecer dos defeitos naturais de alguém.
            Há pessoas que têm «muito espírito». Mas este espírito, diz o Padre Faber, tem alguma coisa que se assemelha ao aguilhão: a sua ponta, a sua rapidez, a sua finura, a sua malí­cia, a sua dor, o seu veneno. Muitos conside­ram a troça como um vexame e não perdoam facilmente.
          Convém notar que escarnecer de um superior com intenção de o deprimir e desprestigiar é pecado grave; e escarnecer da religião e seus ministros é pecado gravíssimo.

6— Sarcasmo

            É uma ironia mordaz, uma zombaria insul­tante. Há no sarcasmo «espírito» mas «espí­rito diabólico». Vós sereis como deuses, disse sarcasticamente a serpente infernal aos nossos primeiros pais. A seu exemplo há muita gente que, por perversidade, inveja, ódio, vingança, crava o dardo agudo e envenenado do sarcasmo no coração de seu irmão, derramando assim o seu espírito e baba infernais.
            Não escarneçais de ninguém, diz o Espírito Santo, porque isto faz sofrer muito, causa uma dor tão amarga que Jesus para completar a Sua Paixão também a experimenta: «Eu te saúdo, rei dos Judeus!... Desce da Cruz!»
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