segunda-feira, 15 de abril de 2013

§ III. A ira

 Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.
A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey


         A ira é uma aberração daquele sentimento instintivo que nos leva a defender-nos, quando somos atacados, repelindo com força. Diremos:
            1. ° a sua natureza;
            2. ° a sua malícia,
            3. ° os seus remédios.

            I. Natureza da ira.

            Há ira paixão e ira sentimento.
            1.º A ira, considerada como paixão, é uma necessidade violenta de reação, determinada por um sofrimento ou contrariedade física ou mo­ral. Esta contrariedade desencadeia uma emoção violenta que distende as forças no intuito de vencer a dificuldade: sentem-se então impulsos de descarregar a cólera sobre pessoas, animais ou coisas.
            Distinguem-se duas formas principais: a cólera rubra ou expansiva nos fortes, e a cólera branca ou pálida, ou espasmódica nos fracos. Na primeira, bate o coração com violência e impele o sangue para a perife­ria: acelera-se a respiração, purpureia-se o rosto, incha o pescoço, dese­nham-se as veias sob a pele; eriçam-se os cabelos, faísca o olhar, saltam das órbitas as pupilas, dilatam-se as narinas, enrouquece a voz, entre­cortada, exuberante. Aumenta a força muscular, todo o corpo se disten­de para a luta, e o gesto irresistível fere, quebranta ou afasta violenta­mente o obstáculo. - Na cólera branca, contrai-se o coração, torna-se a respiração difícil, cobre-se a face de palidez extrema, goteja a fronte suor frio, cerram-se as maxilas, guarda-se um silêncio impressionante; mas a agitação, contida no interior, acaba por estalar brutalmente, des­carregando-se por meio de golpes violentos.
            2.º A ira, considerada como sentimento, é um desejo ardente de repelir e castigar um agressor.

            A) Há uma cólera legítima, uma santa indignação, que não é senão o desejo ardente, mas radical, de infligir aos criminosos o justo castigo. Foi assim que Cristo Senhor Nosso entrou em justa cólera contra os vendilhões que com o seu tráfico contaminavam a casa de Seu Pai; o sumo sacerdote Heli, pelo contrário, foi severamente censurado por não ter reprimido o mau procedimento de seus filhos.
            Para ser legítima, a cólera tem que ser:
a)      justa no seu objeto, não tendo em vista senão castigar a quem o merece e na medida em que o merece;
b)      moderada no seu exercício, não indo mais longe do que reclama a ofensa cometida e seguindo a ordem que demanda a justiça;
c)     caritativa na sua intenção, não se deixando arrastar a sentimen­tos de ódio, não procurando senão a restauração da ordem e a emenda do culpado. Qualquer destas condições que falte, haverá excesso repre­ensível. - É sobretudo nos superiores e pais que a cólera é legítima; mas os simples cidadãos têm por vezes direito e dever de se deixarem infla­mar de cólera santa, para defenderem os interesses da cidade e impedi­rem o triunfo dos maus; é que, efetivamente, há homens que a doçura deixa insensíveis, e nada temem senão o castigo.
           
            B) Mas a cólera, que é vício capital, é um desejo violento e imoderado de castigar o próximo, sem atender às três condições indica­das. Muitas vezes é a cólera acompanhada de ódio, que procura não somente repelir a agressão, mas ainda tirar dela vingança; é um senti­mento mais refletido, mais duradouro, e que por isso mesmo tem mais graves conseqüências.

            3. ° A cólera tem graus:

a) ao princípio, é apenas um movimento de impaciência: mostra-se mau humor à primeira contrariedade, ao primeiro revés;
b) depois, é arrebatamento, que faz que um se irrite desmedidamen­te e manifeste o descontentamento com gestos desordenados;
c) às vezes, vai até à violência e traduz-se somente por palavras, mas até por golpes;
d) pode chegar ao furor, que é uma loucura passageira; o colérico nesse caso já não é senhor de si mesmo, mas deixa-se arrebatar a pala­vras incoerentes, a gestos tão desordenados que antes se diriam um verdadeiro acesso de loucura;
e) enfim, degenera por vezes em ódio implacável que não respira mais que vingança e vai até desejar a morte do adversário. Importa dis­cernir estes graus, para apreciar a sua malícia.

           II. Malícia da ira

            Podemo-la considerar em si mesma e nos seus efeitos.
            1. ° Em si mesma, pode sugerir ainda várias distinções:

            A) Quando a cólera é simplesmente um movimento transitório de paixão, é de sua natureza pecado venial: porque então há excesso na maneira por que ela se exerce, neste sentido que ultrapassa a medida, mas não há, assim o supomos, violação das grandes virtudes da justiça ou da caridade. - Há casos contudo em que é tal o excesso, que o coléri­co perde o domínio de si mesmo e se deixa arrastar a graves insultos contra o próximo. Se estes movimentos, posto que passionais, são deli­berados e voluntários, constituem falta grave; muitas vezes, porém, não passam de semi-voluntários.
            B) A cólera, que chega a ódio e rancor, quando é deliberada e voluntária, é pecado moral de sua natureza, porque viola gravemente a caridade e muitas vezes a justiça. E neste sentido que Nosso Senhor Jesus Cristo disse: «Todo aquele que se irar contra seu irmão, será réu no juízo. E o que disser a seu irmão: raça, será réu no conselho. cE o que lhe chama insensato, será réu do fogo do inferno» Mas, se o movimen­to de ódio não é deliberado, ou se não se lhe dá senão consentimento imperfeito não passará de leve a falta.

            2. ° Os efeitos da cólera, quando não são reprimidos, são às vezes terríveis.

A) Sêneca descreveu-os em termos expressivos: atribui-lhes trai­ções, assassínios, envenenamentos, divisões intestinais nas famílias, dissensões e lutas civis, guerras com as suas funestas conseqüências. Ain­da quando não chega a tais excessos, é fonte dum sem-número de faltas, porque nos faz perder o senhorio de nós mesmos, e em particular per­turba a paz das famílias e cria inimizades tremendas.
B) Sob o aspecto da perfeição, é a ira, diz São Gregório, um grande obstáculo ao progresso espiritual. É que, de fato, se a não repri­mimos, faz-nos perder:
  1. a sabedoria ou a ponderação;
  2. a amabilidade, que faz o encanto das relações sociais;
  3. a preocupação da justiça, porque a paixão impede de reconhecer os direitos do próximo;
  4. o recolhimento interior, tão necessário à união íntima com Deus, à paz da alma, à docilidade, às inspirações da graça. Importa, pois, en­contrar-lhe o remédio.
            III. Remédios contra a ira

            Estes remédios devem combater a paixão da cólera e o sentimento do ódio que às vezes dela resulta.
            1. ° Para triunfar da paixão, não se deve descurar meio nenhum.

            A) Há meios higiênicos, que contribuem para prevenir ou moderar a cólera: tais são um regime alimentício emoliente, banhos tépidos, duchas, abstenção de bebidas excitantes, e em particular das alcoólicas: por causa da união íntima entre o corpo e a alma, é mister saber moderar o mesmo corpo. Mas, como nesta matéria, é preciso ter em conta o temperamento e o estado de saúde, requer a prudência que se consulte um médico
            B) Mas os remédios morais são ainda melhores.
           
a)                Para prevenir a cólera, é bom acostumar-nos a refletir, antes de fazer qualquer coisa, para nos não deixarmos dominar pelos primeiros ímpetos da paixão: trabalho de longa duração, mas eficacíssimo.
b)                 Quando esta paixão, a despeito de todas as cautelas, nos sobres­saltou o coração, «melhor é sacudi-la com presteza que querer negociar com ela; porque, por pouco lugar que lhe demos, se faz senhora de toda a praça, havendo-se como a serpente que introduz facilmente todo o corpo, por onde pode meter a cabeça... E mister, logo que a sentirdes, convocar prontamente vossas forças, não áspera nem impetuosamente, mas suave e ainda assim seriamente». Aliás, se quisermos reprimir a cólera com ímpeto, mais nos perturbaremos.
c)                  Para melhor sofrear a ira, é útil divertir a atenção, isto é, pensar em qualquer coisa diversa do que a possa excitar; é necessário, pois, desterrar a lembrança das injúrias recebidas, afastar as suspeitas, etc.
d)         «Devemos invocar o auxílio de Deus, quando nos vemos agita­dos pela cólera, à imitação dos Apóstolos, combatidos pelo vento e tem­pestade no meio do mar, porque Deus mandará às nossas paixões que sosseguem e sobrevirá grande tranquilidade.
           
            2. ° Quando a cólera excita em nós sentimentos de ódio, ran­cor ou vingança, é impossível curá-los radicalmente com outro remédio que não seja a caridade fundada no amor de Deus. É caso, então, de nos lembrarmos que somos todos filhos do mesmo Pai celestial, incorpora­dos no mesmo Cristo, chamados à mesma felicidade eterna, e que estas grandes verdades são incompatíveis com qualquer sentimento de ódio. Assim pois:
        a) Recordaremos as palavras do Pai-Nosso: perdoai-nos as nossas (dívidas), assim como nós perdoamos (aos nossos devedores); e como desejamos vivamente receber o perdão divino, de mais bom grado per­doaremos aos nossos inimigos.
            b) Não esqueceremos os exemplos de Cristo Senhor Nosso, cha­mando a Judas Seu amigo, ainda no momento da traição, e orando do alto da cruz pelos próprios verdugos; e pedir-lhe-emos ânimo para es­quecer e perdoar.
            c) Evitaremos pensar nas injúrias recebidas e em tudo que a elas se refira. Os perfeitos orarão pela conversão de quem os ofendeu, e encon­trarão nesta prece bálsamo suavíssimo para as feridas da sua alma.
            Tais são os principais meios para triunfar dos três primeiros peca­dos capitais, o orgulho, a inveja, e a ira; vamos agora tratar dos defeitos que derivam da sensualidade ou da concupiscência da carne: gula, luxú­ria e preguiça.

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