sábado, 31 de julho de 2010

A ALMA ABANDONADA DEVE CONTAR COM A PERSEGUIÇÃO

A ALMA ABANDONADA DEVE CONTAR COM A PERSEGUIÇÃO

"Os que quiserem viver piedosamente em Jesus Cristo
sofrerão perseguição".
(II Tim 3,12)

É São Paulo quem o diz sob a inspiração do Espírito Santo.

Nos começos, a alma naturalmente boa acha que na vida tudo lhe sorri. Entrega-se descuidada ao que lhe agrada e atrai. Julga que todos os homens são retos e simples como ela. Esta ilusão dura pouco. Em breve constata que o amor que lhe manifestam, a bondade com que a tratam não andam sem mistura e muitas vezes não passam de um verniz, de uma aparência, digamos de um véu, sob o qual se esconde muitas vezes o egoísmo.

Quanto mais lida com os homens, mais descobre em muito deles a frieza de coração, a pequenez de sentimentos, e estreiteza de vistas. Esses defeitos, pode encontrá-los mesmo naqueles que lhe parecem virtuosos e instruídos. E a verdade é que, por uma série de experiências pessoais, acaba por constatá-los em si própria.

E não se engana. Todo homem é por natureza limitado em todos os sentidos: em inteligência, prudência, reflexão e conselho.

O amor-próprio egoísta amesquinha extraordinariamente o coração humano; e o mesmo faz a ambição com o espírito. A mesquinhez e estreiteza de vistas, a obstinação nas próprias opiniões desfiguram as melhores almas. Muitas vezes, sem dúvida, estes defeitos não são culpáveis, mas são reais e com frequência tornam difícil o convívio prolongado, mesmo entre pessoas que têm o mesmo nível espiritual ou no seio da família.

Sabe-se muito bem que, de parte em parte, as intenções são excelentes, mas os pontos de vista e os temperamentos diferem. De parte a parte, a vontade é boa, mas o modo de ver as coisas é diverso e, muitas vezes, contraditório.

Se a dificuldade se limitasse a esses atritos e incompatibilidades de gênio e opinião, seria suportável; bastaria uma virtude comum para vencê-la. Mas acontece que essa surda divergência se sentimentos e pontos de vista rompe em oposição confessada, em alerta desaprovação.

A alma bem-intencionada sente-se rodeada de suspeitas, contrariada, tolhida nos seus melhores propósitos. Julgando chegar a Deus por um simples movimento do coração, vê-se objeto de desconfianças, censuras. Esses amigos, colegas ou familiares não toleram que ela se comporte de modo diferente dos outros, que se dedique à oração e a outras práticas espirituais, que se prive de certos divertimentos ou corte algumas relações que eles julgam necessárias.

E não se limitam a julgar e comentar. Se a alma persiste na sua linha de conduta, começa a perseguição, ora velada, ora às claras. Movem todos os recursos para demovê-la e paralisá-la: a zombaria, os comentários desfavoráveis e até, por vezes, a calúnia.

A perseguição nem sempre tem este caráter agudo; permanece muitas vezes latente e surda. Há mesmo almas que não chegam a ser atingidas, seja porque a sua situação, o comportamento inatacável e o ascendente das suas virtudes desarmam ou paralisam o inimigo, seja porque a sua vida sem alardes as subtrai a essas investidas.

É fora de dúvida, porém, que em geral as almas interiores devem contar, mais cedo ou mais tarde, com a prova da oposição sob esta ou aquela forma, e estar preparadas para enfrentá-la com proveito.

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. Joseph Schrijvers)

PS: Grifos meus.

Santo Ignácio de Loyola, Confessor

Dia 31 de julho
Santo Ignácio de Loyola


Companheira da humildade é a castidade, que em Santo Ignácio foi coisa maravilhosa. Depois que viu a Virgem durante sua conversão, não consentiu e mesmo não teve mais a menor tentação contra a pureza.

Depois disso andava com tanto recato, que nunca mais olhou no rosto a mulher alguma, mesmo que fosse muito devota e tratasse de coisas santas. Ele destilava tanta pureza que só com o vê-lo a pessoa era levada a pensamentos castos.

Vigiava tanto seu interior, que não lhe passava pela mente nenhum pensamento que fosse ocioso. Examinava sua consciência de hora em hora para purificá-la de qualquer pensamento que não tivesse como fim a maior glória de Deus.

Tinha tanta facilidade de unir-se a Deus que, com qualquer coisa, uma flor que fosse, logo se lhe abrasava o coração e se punha a amá-lO. Enquanto rezava, era muitas vezes levantado da terra, desprendendo grandes luzes de si.

Sua devoção a Nossa Senhora era terna e filial. Em todos os oferecimentos que de si fazia a Deus, era pondo sempre a Santíssima Virgem como intermediária.

Todos os dias, logo que despertava, a primeira coisa que fazia era rezar o rosário bem vagarosamente, meditando suas palavras. Na vigília de armas que fez em Montserrat, a Ela se consagrou como seu guerreiro. E como Ela o inspirou quando escrevia os Exercícios Espirituais, as Constituições e em todas as suas obras.

Sua fé era tão grande que dizia que, se se houvessem perdido todos os livros canônicos e não houvesse na terra alguma firme coluna da verdade, mesmo assim ele creria em todos os mistérios da fé com tal firmeza, que daria sua vida em sua defesa.

O desejo de ver a Cristo tanto o consumia que desejaria sumamente morrer se sua vida não fosse mais necessária para o bem do próximo. Quando caía doente, a esperança de partida fazia com que se esquecesse de tudo, absorto em Deus.

(Santo Ignácio de Loyola, o Guerreiro de Cristo - Editora Artpress)

O Senhor, herói da guerra...

O Senhor, herói da guerra...

Hoje o nosso modesto blogue completa um ano de existência. Agradeço a Cristo nosso Rei, a Santíssima Virgem Maria e Seu castíssimo esposo São José, aos nossos padroeiros: Santa Bernadette, Santa Filomena e São Paulo da Cruz; ao meu anjo-da-guarda; a todos os santos e anjos do Céu pela proteção e força. Agradeço aos leitores (os que me ajudam com as transcrições de textos, entre outros favores), enfim, hoje é um dia muito feliz. Que tudo seja para honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua santa Mãe.

Busquemos o Céu, o resto passa!
Avante...

PS: Peço orações para esse pequeno apostolado!

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Salmo 24


Do Senhor, é a terra e tudo o que nela existe,
o mundo com seus habitantes,
pois Ele fundou-a sobre os mares,
firmou-a sobre as correntes.

Quem pode subir ao monte do Senhor?
Quem poderá estar no recinto sagrado?
Quem tem mãos inocentes e coração puro,
que não recorre aos ídolos
nem jura em falso.

Esse receberá do Senhor a bênção
e a justiça de Deus seu Salvador.
Este é o grupo que O busca;
que vem visitar-Vos, Deus de Jacó.

Portões, erguei os frontões!
Que se ergam as antigas comportas,
pois vai entrar o Rei da Glória.

Quem é esse Rei da Glória?
O Senhor, herói valoroso,
o Senhor, herói da guerra.

Portões, erguei os frontões!
Erguei as antigas comportas,
pois vai entrar o Rei da Glória.

Quem é o Rei da Glória?
O Senhor dos exércitos,
Ele é o Rei da Glória.

Amor a ordem e a pontualidade

AMOR A ORDEM E A PONTUALIDADE


Deus confiou à mulher um encargo duplamente importante: santificar a família por sua vida e trabalhos, e dar aos filhos  primeira educação.

Cumpra ela, conscienciosamente, esse dever, e grande cópia de graças fará fluir sobre a humanidade. Para a tornar apta à sua missão, comunicou-lhe o Criador, a par de outros dons, o amor à ordem e a atenção às coisas pequenas.

Exercitar retamente este amor à ordem é, portanto, um dever que Deus exigirá, principalmente dela.

A ordem agrada.

Agrada, principalmente, a Deus, Deus ama a ordem, porque Ele mesmo é ordem, a mais maravilhosa e a mais amável harmonia. Unem-se nEle as três Pessoas, numa perfeita unidade de substância; nEle estão todos os atributos em perfeita consonância entre si - a justiça com a misericórdia, a onipotência com a bondade, a majestade com a assombrosa singeleza de Seu amor; todos os Seus atributos infinitos forma a unidade absolutamente perfeita do Seu Ser, numa ordem e harmonia inconcebíveis. Não há nEle a menor sombra de desordem ou dissonância.

Deus ama a ordem. Eis porque comunicou à Sua obra (a natureza) uma ordem admirável.

Com quanta precisão os inumeráveis corpos celestes executam as órbitas que o Senhor lhes traçou! Que ordem surpreendente as manifesta na criação das mais pequeninas plantas e dos mais insignificantes insetos, que nós podemos examinar suficientemente apenas com o microscópio!...

Assim como Deus ama a ordem, também tu deves ter sempre em vista um método em tua vida e nos teus trabalhos, seguindo assim a admoestação do Apóstolo dos gentios: "Faça-se tudo decentemente e com ordem". (I Cor. 14,40).

A ordem agrada também aos homens.

Quando entramos num jardim e encontramos tudo bem ordenado, as plantas tratadas com cuidado, as árvores dispostas com perícia e inteligência, ordem e proporção, no desenho dos caminhos, dos canteiros e divisões, imediatamente e desde o primeiro aspecto sentimo-nos cheios de alegria e satisfação, e esta alegria ainda sobe de ponto à medida que dirigimos nossa atenção, para cada coisa em particular.

Se, ao invés houver, no jardim, as mais belas flores e arbustos encantadores, mas tudo sem nenhuma ordem, a trouxe-mouse, sentimo-nos mal impressionados por aquela confusão e contristados abandonamos imediatamente o jardim.

A ordem desperta-nos contentamento; a desordem, desgosto.

Conserva, pois, a ordem em tudo, sê pontual na execução das tuas obrigações, apresentando-te sempre à hora certa; assim a todos contentarás, granjearás a maior confiança, e verás os teus esforços reconhecidos.

Sucederá, precisamente, o contrário se faltares em tudo á pontualidade e não guardares a ordem em teus trabalhos. Sobrevir-te-ão reclamações sobre reclamações e ninguém ousará confiar-te coisa alguma de importância.

A ordem também é útil e saudável.

Sem o amor à ordem não existe verdadeira e sólida virtude. Com efeito: que é a virtude? Em sentido estrito, é o desembaraço, adquirido pelo exercício no querer e fazer o bem. Basta ter em vista definição para reconhecer que a verdadeira virtude não tolera a desordem.

Sem dúvida, como pode solidademente formar-se aquela prontidão no bem, se, no seu proceder o homem se deixa conduzir apenas pelo humor e disposição, pelas contingências e exterioridades?

Sem o apego à ordem não haverá boa formação de caráter. Se desejas adquirir um caráter firme e reprimir o teu espírito versátil e teu coração volúvel, hás de ser enérgica e renunciar a ti mesma.

Só assim teus pensamentos, desejos e atos poderão tomar rumo seguro e definido.

Não o conseguirás, porém, da maneira mais eficaz, se te acostumares com a ordem e pontualidade, a despeito de todos os estorvos e impedimentos?

Sim, a pontualidade fortalece o teu caráter, e comunica à tua natureza uma têmpera de aço.

Sem o amor à ordem é impossível, também, o cumprimento fiel dos deveres do próprio estado.

Quem ama e observa a ordem, dispõe de mais tempo para os seus trabalhos, porque tudo está regulado e ordenado na sua vida; não perde tempo em conversações e divertimentos inúteis, em sonhos quiméricos, na ociosidade estéril.

Quem ama e observa a ordem, trabalha com mais energia e tenacidade, suplanta mais facilmente, com inflexível aferro, as dificuldades e obstáculos que se opõem ao fiel cumprimento das obrigações, sua vontade, tornar-se-á de contínuo, robustecida pela constante abnegação que há de exercitar.

Quem ama e observa a ordem, pode finalmente no exercício dos seus deveres, contar com a bênção de Deus, que a tudo acompanha.

No entanto, Deus abençoa, principalmente, aquilo que Ele ama. Ora, ama antes de tudo, como ficou indicado, a ordem, - e aborrece a desordem.

De todas estas razões se conclui que, pela desordem e inexatidão, muitos e grandes danos se produzem.

Acostuma-te, pois, desde jovem, à pontualidade e ao amor à ordem. Surge agora esta objeção: onde deverás observar a ordem?

Em primeiro lugar, observa a ordem nos deveres do teu estado. Levanta-te cedo pela manhã, para que possas, à hora marcada, começar a tua obrigação. Nunca comeces tarde, nem um instante sequer.

Executa cada parte da tua tarefa, com atenção e consciência. O que puderes fazer agora, não o transfira para a hora seguinte, nem deixes para amanhã o que deve ser feito hoje.

Sobretudo não descures a limpeza no teus deveres e o asseio de tua pessoa. Causa tão má impressão uma jovem, desasseada no seu ofício e no seu vestir!

Deves ter certa ufania de ser em tudo exata, pontual e limpa.
Observa, em segundo lugar a ordem em (momentos de ) folgas e prazeres.

O cristão que trabalha, assiduamente, deve também conceder a si próprio alguma folga e descanso. Não pode o arco permanecer sempre retesado, aliás, perderá sua força, sua elasticidade.

O descanso e a alegria sadia, comunicam-nos novo frescor e força nova para o trabalho sério; tornam-se, pois, verdadeira necessidade para nós. No entanto, se por um lado o descanso é útil, por outro lado é sobremodo necessário que, nas alegrias e prazeres da vida se observe medida e termo, regra e ordem.

Quem não observa, neste ponto, a justa medida e ordem razoável, expõe-se ao perigo de queres gozar sempre mais até chegar finalmente a engolfar-se nos prazeres, e então se verificam as palavras: "Se condescenderes com tua alma no que deseja, ela fará de ti a alegria dos teus inimigos". (Ecli., 18,31).

É, em nossos dias, principalmente, que tais palavras encontram a sua aplicação, quando uma sede desordenada de prazeres se apoderam de quase todas as classes sociais e causa tantos males, precisamente, à mocidade.

Aprende, pois a guardar aquela sábia medida e só desfruta o teu descanso até o ponto em que tua moralidade, o gosto pelo trabalho, o zelo de teus deveres não sofram o menor dano.

Não te deixes seduzir de nenhum modo, pelo exemplo dos outros, ou pelas exortações ou zombarias de companheiras levianas: Primeiro o necessário: depois o útil; finalmente o agradável.

Por último observa a ordem na tua vida religiosa. Refiro-me principalmente à oração, à recepção dos Santos Sacramentos e à assistência aos atos religiosos. Aqui, a ordem e regularidade são de grande importância.

Para que possa a flor prosperar e desenvolver-se em magníficos frutos, necessita de humildade.

Que faz, então, o jardineiro quando a chuva não vem no tempo próprio? Ele mesmo rega as flores, e com toda a regularidade. Se não observar nenhuma ordem, se durante dois ou três dias inundar as plantas, e depois deixar passar três ou quatro semanas sem as prover duma só gota de água, aquelas plantas, enfezadas pelo ardor do sol, não poderão desenvolver-se satisfatoriamente.

Assim, também, para que a vida de virtudes produza em ti frutos preciosos, necessitas da presença da graça, comunicada por meio da oração e dos santos Sacramentos.

Se procederes segundo a tua vontade e capricho, serás como a pobre flor, que o jardineiro desleixado rega, tão desordenadamente.

Por conseguinte, faze sempre e com todo o escrúpulo, dia a dia, a tua oração de manhã e à noite, e estabelece como norma de vida, receber, regularmente, os santos Sacramentos.

Desejaria aconselhar-te ainda, a fazeres todos os dias, com regularidade, uma breve leitura espiritual de um quarto de hora, ou pelo menos de dez minutos, nalgum livro, por ex., "Santo Evangelho", "Imitação de Cristo", ou "Filotéia" de São Francisco de Sales.

"Guarda a ordem e a ordem te guardará".

(Donzela cristã, pelo Pe. Matias de Bremscheid)

PS: Grifos meus.

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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Rainha poderosa

Rainha poderosa

Oh! Salve do Universo,
Rainha poderosa!
Socorrei-nos, bondosa
ó Mãe de piedade!

Alma vida e doçura
de quem sempre em Vós mira,
ampara a quem suspira
pela eterna beldade!

A Vós a voz levanta
minha alma arrependida,
e implora, ó doce vida,
refrigério na dor!

Neste vale profundo
de prantos e amargura,
será tudo ventura
com Vosso divino amor.

Olhai-me com piedade,
ó Mãe, nossa advogada,
e ficará lavada
nossa culpa e error!

Vossos olhos amorosos
de luz clara tão bela,
serão consolo, estrela,
ao justo, ao pecador!

Deste infeliz desterro
à Patria guiai-nos;
do Vosso ventre dai-nos
o Fruto a contemplar.

Ó minha amável Mãe,
ó Clemente Maria,
Dulcíssima Rainha,
em Vós quero esperar!

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

A formação da vontade - Parte IV

A FORMAÇÃO DA VONTADE
Parte IV


A docilidade em relação à razão e aos conselhos dados

Quando a inteligência é sinceramente esclarecida, quando se elevou à altura dos princípios, quando se lhe dissiparam as obscuridades numa consulta ponderada, que resta fazer?
Nada mais resta que tomar a decisão e pô-la em prática sem demora.

- Que vossos filhos, pais que nos ledes, se habituem a dizer: "Tenho a obrigação de o fazer, faço-o!"

- Que acrescentem: "Faço-o imediatamente!"

Que não adotem nunca esta expressão dos covardes: "Eu bem sei, mas..."

Se o fizessem, quando se trata de coisas conscientemente graves, pecariam contra a razão: e isto é terrivelmente perigoso. Se o fizessem quando se trata de coisas naturais, a vontade perderia toda a delicadeza, toda a sensibilidade, toda a prontidão; deformar-se-ia.

É por isso que às pessoas que têm um programa de vida e não o seguem, diremos francamente: "Se não quiserem seguir o seu programa, queimem-no"!

A utilização do poder moral do sentimento

Que é preciso para bem agir?
É preciso acrescentar à luz fria da idéia pura a paixão arrebatadora do sentimento.

"Só o sentimento que move o coração dá impulsos que triunfam da apatia, ou desperta essas emoções favoráveis que contrabalançam e substituem as emoções hostis".
(Payot, Educação da vontade, t. II, cap. III, em J. Guibert, ob)

Quais são os sentimentos que exercem sobre a vontade uma ação mais eficaz e mais duradoura?
São o temor e o amor.

De resto, o temor não é mais que uma forma do amor. Ele é, diz-nos Bossuet, "um amor que, vendo-se ameaçado de perder o que procura, se inquieta com esse perigo".
(Conhecimento de Deus e de si mesmo, cap. I, p.6)

Foi esse sentido que Joubert escreveu:

"O amor e o temor. Tudo o que um pai de família diz aos seus deve respirar um e outro". (Pensamentos)

Qual é a influência do temor sobre a vontade?
"O temor da polícia assusta o malfeitor; o temor dos castigos eternos impede o cristão de pecar até no recôndito do seu coração; o temor dos juízos humanos impõe a honestidade aqueles homens que a consciência, isoladamente, não poderia governar; o temor de desagradar aos olhos de Deus ou de macular a pureza das consciência leva as almas delicadas ao cumprimento dos próprios conselhos de perfeição."
(J.Guibert)

"O temor tempera as almas como o frio tempera o ferro. A criança que não tiver experimentado grandes temores, não deve ter grandes virtudes".
(Joubert, pensamentos)

Qual é a influência do amor sobre a vontade?
"Para bem agir, é preciso ser sacudido e arrastado por um grande amor".
(J.Guibert)

Santo Agostinho, dizia:

"O meu amor... é este o peso que me arrasta; para onde quer que eu vá, é sempre o amor que me leva" - Amor meus pondus meum, quocumque feror amore feror. (...)

Quais os amores que mais impulsionam a vontade?
- O amor de si próprio. "Este amor inspira o instinto de conservação, o desejo de progredir, a coragem de se vencer pelo esforço e pelo progresso. Quem desconhece a força da ambição?" (J.Guibert)

- O amor dos homens. Quando enche um coração, este amor "leva ao desinteresse e à própria imolação: sacrifícios de tempo, de dinheiro, de paixões, da própria vida, nada parece custar por aqueles a quem se ama". (J.Guibert)

- O amor de Deus. "É o mais poderoso, é o que tem feito mais heróis e mártires. A história da humanidade ensina-nos, com efeito, que o sentimento religioso é o mais profundo, o mais inextirpável, aquele que mais aproxima ou mais divide os homens, aquele que dobra com mais energia as vontades para o cumprimento do dever revelado pela consciência". (J.Guibert)

Se o sentimento desempenha uma tarefa tão importante e tão necessária na formação da vontade, quais são os meios de o exercitar?
Há três principais, especificados por J.Guibert, que nos serve de guia neste pequeno estudo.

- A vida interior.
- A influência do meio.
- A ação começada.

Como é que a vida interior excita o sentimento?
Desta maneira: aquele que a pratica concentra-se, não para se contemplar, mas para ser senhor de si e recuperar todos os seus poderes; para se esclarecer à luz da razão e da fé; para se excitar ao dever e à virtude, ao amor de Deus e ao temor do Seu julgamento; e também para buscar, na oração e nos sacramentos, os socorros de que tem necessidade.

Qual é a influência da vida interior?
Diz-nos a experiência que é entre os que se habituaram à vida interior que se recrutam os gênios e os santos.

"Perguntando-se um dia a Santo Inácio se estaria disposto a aceitar um sacrifício tão heróico como o do consentimento na supressão da sua Companhia, respondeu:
- Precisaria dum bom quarto de hora de recolhimento para me conformar com isso."
(J.Guibert)

(...)

Quais são as coisas que podem exercer uma influência funesta sobre nós e sobre os nossos filhos?
São as artes, os espetáculos, a música, etc. Mas é preciso evitar as representações imorais ou simplesmente livres, a música lasciva, os espetáculos perturbadores.

Pelo contrário, é preciso dar à alma o alimento de que tem fome, contemplando belos quadros, executando boa música, assistindo a espetáculos tonificantes. [N.B: leituras que edificam]

Quais são os homens cujas relações devem ser procuradas?
São os homens de valor.

"O grande homem, quando se encontra ao vosso caminho, traz em si uma influência magnética á qual não escapareis, pelo menos se sois acessíveis aos sentimentos nobres. Não há método mais seguro para se tornar grande do que conviver com grandes homens cotados de bondade".
(Blackie, A educação de si mesmo, p. 95)

Como influem os homens de valor?
- Influem pelos seus exemplos.
E é a melhor eloquência.

"As palavras de Ambrósio interessavam Agostinho, mas não o arrastavam; para mover esta grande alma, era preciso o exemplo dos santos: Por que não hei de poder praticar o que este ou aquele puderam fazer"?
(J.Guibert)

- Influem pela sua eloquência.

"... felizes as almas que encontram no seu caminho homens capazes de as converterem pela palavra". (J.Guibert)

- Influem pela sua conversação.
A conversação é uma comunhão de almas; quando as almas são grandes e belas, que fonte de consolações, de idéias nobres, de generosos desejos, de sublimes entusiasmos, que enriquecimento mútuo...

- Influem pelos seus escritos.
O livro, é verdade, não tem o calor comunicativo da linguagem... mas, em compensação, é mais complacente, mais completo, mais universal. É preciso pois amar os livros, saber escolhê-los, não se agradar senão dos excelentes.

"Quem ama os bons livros vive sempre no meio de almas nobres e de influências fortificantes". (J.Guibert)

É verdade que a ação começada excita o sentimento e produz a força?

"Não conheço outro segredo de amar senão amar". (São Francisco de Sales)
"É preciso começar pelos atos". (São Francisco de Sales)

(...)

(Excertos do livro: Catecismo da Educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: A energia da ação)

PS: Grifos meus.

Veja também:

Quanto mais a alma se esquece de si, mais Deus pensa por ela

VIDA DE ESQUECIMENTO PRÓPRIO
PARTE FINAL


Quanto mais a alma se esquece de si, mais Deus pensa por ela

À medida que a alma avança na perfeição, a sua vida espiritual simplifica-se e acaba por resumir-se nestas palavras dirigidas a Santa Catarina de Sena: "Pensa em mim, que Eu pensarei em ti". Isto quer dizer: Eu pensarei na tua honra, na tua saúde, nos teus bens temporais; pensarei na tua salvação e santidade. Jesus tudo sabe e nada esquece.

Quando Ele pede à alma um tão grande sacrifício como é o abandono total de si mesma, encarrega-se de por remédio aos inconvenientes que daí possam resultar humanamente.

A alma deve limitar-se a obedecer e abster-se de perscrutar o futuro.

A pobre viúva de Sarepta estava numa grande miséria quando um dia encontrou o profeta Elias. Ia consumir as suas últimas provisões, e depois só lhe restaria morrer à míngua junto com o seu filho. No entanto, a pedido daquele estranho, cedeu-lhe o último pão. Humanamente, era uma loucura, mas era também sabedoria diante de Deus, pois compelia-o a fazer um milagre.

A alma verdadeiramente simples procede assim com Deus. Só pensa nos seus deveres de estado, sempre cumpridos de olhos postos nEle. Ignora o cálculo, os rodeios, o fingimento, e, em troca, Deus tudo prevê por ela. Às vezes, sem dúvida, a astúcia julga tê-la feito cair nos seus laços. Puro engano. Um acontecimento imprevisto, uma simples palavra, um gesto, desmascaram a intriga.

Quando estiveres diante dos poderosos do mundo, disse Jesus aos Seus discípulos, não vos preocupeis com que ireis dizer em vossa defesa. O Espírito Santo porá nos vossos lábios as palavras que deveis pronunciar.

Se os Apóstolos, no começo da sua vida apostólica, tivessem pesado as conseqüências da sua arrojada empresa, jamais teriam evangelizado. Não tinham nenhuma esperança de fazer aceitar a doutrina do Crucificado e, ao fim dos seus trabalhos, esperavam-nos as torturas e a morte. Mas eles iam para onde o Espírito de Deus os levava, sem hesitações nem temor. A sua missão era pregar: Pregai o Evangelho a toda a criatura (Mc. 16,15). Pregariam, e Deus faria o resto; e soube fazê-lo magnificamente.

Jesus não só pensa pela alma simples, como também supre e repara o que a sua ignorância e a sua imprevidência possam ter comprometido. Nenhum homem é tão sagaz que nunca se engane ou dê passos inconsiderados. Para os mundanos, estas imprudências são motivo de grandes desgostos e acerbas humilhações. E, para os que os invejam, ocasião de mordazes zombarias e severos comentários. Para Deus, são meios de humilhar e corrigir os presunçosos.

Pra com a alma simples, o proceder de Deus é diferente. Permite certas imprudências - a vida dos santos está cheias destes exemplos -, mas coisa singular, ficam sem efeito ou mesmo dão lugar a um bem maior.

A alma nunca perde por deixar Deus pensar por ela. Quando São Pedro no lago de Genesaré reconheceu, no "fantasma" que o assustava, Jesus caminhando sobre as águas, teve um rasgo sublime de esquecimento próprio: Senhor, se és Vós, manda-me ir até onde estás por cima das águas (Mt. 14,28).

Natureza espontânea, Pedro nem teve tempo de refletir, e já caminhava sobre as águas. De repente, uma onde levantada pelo vento avançou ameaçadora, e Pedro não pensou mais no Mestre que tudo pode, mas em si, na sua fraqueza. Vacilou e afundou-se. Felizmente, Jesus estava lá para tudo remediar.

É admirável verificar como, no Evangelho, Jesus toma sempre a defesa dos fracos, dos caluniados, mesmo que sejam pecadores. Desde que, de algum modo, Lhe tenham mostrado confiança, sente-se obrigado a defendê-los.

Toma, contra os seus discípulos, o partido das mães que se chegavam a Ele com os seus filhos. Defende contra os invejosos o recém-convertido Zaqueu que enfrentara o ridículo de subir a uma árvore para vê-lO passar. Toma sob a sua proteção a mulher adúltera, confunde os seus acusadores hipócritas e despede-a livre e convertida. Não permite que mandem embora em jejum o povo que O seguira ao deserto. Defende os Seus Apóstolos que, impelidos pela fome, colhiam espigas num campo em dia de sábado. Toma sobretudo sob a Sua proteção a pecadora. Como a defende contra os seus detratores! Não precisava ela ser defendida, ela que, levada pelo seu amor, não tomara nenhuma cautela?

Essa mulher era tida por pecadora pública e, sem que ninguém ainda tivesse conhecimento da mudança nela operada, veio fazer aos pés de Jesus "o Profeta", um ato de tão prodigiosa humilhação que o mundo a qualificará de extravagante. Entre numa casa estranha, penetra na sala do festim, causando perturbação entre os convivas, e cobre de confusão o dono da casa. Mas que lhe importava tudo isso, se Jesus aí estava e a esperava... pela primeira vez! O Mestre falaria por ela! Defendê-la-ia contra Judas, que a acusava de prodigalidade, e contra os indignados participantes do banquete. E iria ainda mais longe. Cuidaria de que a sua justificação ficasse consignada nos Livros Sagrados, e de que em toda a parte onde se pregasse o Evangelho se contasse e louvasse a loucura de amor imaginada por ela para agradar ao seu Senhor.

Não haverei eu também de entregar-me a Jesus e esquecer-me de mim? Jesus pensará por mim. Jamais se dirá que fraqueza ou indigência alguma se tenha refugiado no Seu Coração e dali tenha sido arrancada: Não repelirei ninguém que venha a Mim (Jo 6,37).

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. Joseph Schrijvers)

PS: Grifos meus.

Veja os demais posts desse capítulo aqui:

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Prática da pureza de intenção

Prática da pureza de intenção


Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi, que Deus premeia as obras na proporção da pureza de intenção com que as praticamos. A prática desta virtude consiste:

- Em procurarmos em todos os exemplos e obras espirituais, que fizermos, agradar a Deus, e não a nós mesmos; porque a obra, feita por amor da própria satisfação, não pode obter de Deus nenhuma recompensa. Trabalham muitos, pregando, assistindo aos enfermos, a fazendo outras boas obras, e por que se buscam a si mesmos e não a Deus, perdem todo o merecimento.

Um sinal de querermos agradar a Deus nas obras, que fazemos, é não procurarmos nem louvores nem agradecimentos da parte dos outros: outro é não nos inquietarmos, quando a obra não tem o êxito que pretendíamos; e outro ainda é o alegrarmo-nos tanto pelo bem, praticado pelos outros, como se o fora por nós.

- Em diligenciarmos fazer todas as obras, ainda as mais indiferentes, como trabalhar, comer, dormir, passear e recrear-se honestamente, para dar honra a Deus, e satisfazer a Sua santíssima vontade: por isso que a retidão e pureza de intenção é a verdadeira alquimia celestial, por meio da qual o ferro se converte em ouro, isto é, o verdadeiro modo de tornar as ações mais ordinárias e comuns em atos de verdadeiro amor de Deus.

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

PS: Grifos meus.

DEUS, ENAMORADO DA BELEZA DE MARIA

DA BELEZA DE MARIA
PARTE VII


DEUS, ENAMORADO DA BELEZA DE MARIA

Que poderia faltar ainda a esta coroa de incorruptível beleza que brilha na fronte da Imaculada Virgem?...

Ela aparece-nos verdadeiramente bela, e começamos agora a compreender o brado entusiástico do Espírito Santo: Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te.

Não é mais o louvor de um homem. É o amado falando à sua amada, o esposo à sua esposa, o imaculado à imaculada, o incorruptível à sua incorruptível, Deus à Virgem Maria.

Sois toda bela, "bela por natureza, mais bela pela graça, belíssima pela glória", diz ainda Hugo de São Vítor - Pulchra per naturam, pulchrior per gratiam, pulcherima per gloriam (De Assumpt.)

E o mesmo doutor, prosseguindo a continuação do mesmo texto, diz ainda:

"Maria é toda suavidade, a única bela em tudo, singularmente bela. Eis por que deve também ser belo o louvor a fazer a uma tão bela Virgem".

E como que em êxtase, à vista de tantas belezas acumuladas, o mesmo santo exclama, dirigindo-se ao autor de todas as Suas maravilhas:

"Ó Vós, que sois a própria beleza, dizei-nos qual a beleza de Maria. Louvai-Lhe a beleza, a fim de que Ela Se associe também a Vós, que sois a beleza incriada.

Ó Vós, que sois todo amor, dizei como é bela aquela que amais.

Ó Maria, Vós sois a digna do digno, a bela do belo, a pura do incorruptível, a elevada do Altíssimo, Mãe de Deus, esposa do Rei eterno! - O digna Digni, formosa Pulchri, munda Incorrupti, excelsa Altissini, mater Dei, sponsa Regis aeterni!"
(Hugo de São Vítor: De Assumpta Maria sermo egregius).

Escutemos ainda a série de elogios que o Espírito Santo dirige à beleza de Sua "Bem-amada", terminando este capítulo com alguns brados de admiração, brotados do coração dos santos.

"Com a Vossa graça e beleza, guiai-nos, aumentai em prosperidade e reinai. Filha de Jerusalém, Vós sois bela e resplandecente, terrível em Vossas vitórias, como um exército em ordem de combate. Do mesmo modo que a mirra escolhida, ó santa Mãe de Deus, espalhastes um odor de suavidade.

A graça derramou-se sobre Vossos lábios, e Deus Vos abençoou por toda a eternidade. Como pessoas em transportes de alegria são todos aqueles que em Vós residem, ó santa Mãe de Deus!

Nós Vos seguimos pelo odor de Vossos perfumes; as donzelas Vos amaram até ao extremo. Vós vos tornastes bela, e em Vossas delícias repleta de admirável doçura, ó santa Mãe de Deus!

Quem é aquela que aparece como a aurora ao despontar do dia, bela como a lua, resplandecente como o sol?...

Sou a Mãe do belo amor, do temor, da grandeza e da santa esperança!"

Quem poderá ainda balbuciar, após estes lisonjeiros encômios, que o Espírito Santo dirige a Maria pelos lábios da Igreja?... Todas as expressões de que se servem os santos padres, para mostrar a riqueza, a graça e a beleza interior de Maria, provam a impossibilidade em que nos achamos de descrevê-lA bem.

Segundo eles, Maria é:

"O abismo das infinitas grandezas de Deus". (S. João Crisóstomo)

"Um abismo de graças" . (S.J. Damasc. Orat. I de Nativ. B.V)

"Dotada de uma graça infinita". (S. Epiph. Orat. de B.V)

"O privilégio de Seus méritos é inexplicável". (S.Bern. Sermo 4 de Assumpt.)

"Todas as graças nEla irradiam, como naquela que, sozinha, possui um coração bastante vasto para contê-las todas". (S. Boaventura: in psalt)

"Ela possui todas as graças de que a liberalidade de Deus pode enriquecer e ornar uma alma". (S. Atanásio. Serm. de Deipar. 7)

"Mãe de doçura e de beleza". (S. Francisco de Assis)

"A graça fecunda da natureza humana". (S.J. Damasc. Serm. de Nat.)

"A mais bela e mais agradável de todas as belezas, o ornamento mesmo de toda beleza". (S. Jorge de Nicomed.)

"Vós sois toda bela, ó Maria, sois toda bela, não parcialmente, mas em tudo e por toda parte". (Idem: Contempl. Virg.)

"De fato, ó Maria, Vós reunis as belezas do corpo, as belezas de todas as virtudes, as belezas de todos os dons divinos, todas as belezas da glória, belezas sem mácula, sem defeito, inalteráveis, incorruptíveis, imortais, deslumbrantes, as mais excelentes, as mais apropriadas a encantar todos os espíritos e todos os corações". (P. de Gallifer: Excelência da devoção)

Eis a razão desta acumulação de graças na alma da Virgem Imaculada, que nEla faziam germinar as virtudes.

"O Altíssimo, diz S. Bernardo, criou em Maria, um céu a parte, um céu iluminado como que de um sol formado dos esplendores da sabedoria e do fulgor de todas as virtudes." (De B. Virg.)

Tudo o que os santos podem fazer é chegar aos pés de Deus, onde os vinte e quatro anciãos tiram as coroas e se prostram diante da Majestade do Altíssimo. Maria, porém, voa até os braços de Seu Muito-Amado, perto do Seu coração. É aí que está o Seu lugar, pois um único olhar Seu, um só anel de Seus cabelos, dizem os livros santos, feriu o coração do Monarca do Céu; ou, como diz ainda S. Bernardino de Sena, o coração de Maria parece cativar o coração de Deus, e tomá-lo de assalto.

"Uma jovem, não sei com que encantos, conquistou o coração de Deus".

"Quereis conhecer o número e a excelência das graças de que enriqueceu o Todo-poderoso a Sua Mãe santíssima? diz S.Pedro Damião... Dizei-me, se puderdes avaliar o que encerram os tesouros de Deus, dizei-me quantas perfeições divinas estão reunidas na Santíssima Trindade, e então eu responderei à vossa pergunta, pois poderei fazê-lo, dizendo-vos que a Santíssima Trindade se derramou toda inteira, expandiu-se totalmente no coração de Sua eleita. - In hujus utero, Majestas Altissimi mirabiliter liquefacta". (S.P. Dam Serm. de Annunt.)

E por que aconteceu tudo isto?...

Para excitar em nossos corações à chama do amor. Quem ama, torna-se mais puro. quem se dá, torna-se mais heróico; quem se expande, jamais se esgota!

Ó Maria, dai-me este amor! Inflamai-nos dessa paixão, a fim de que a nossa jamais se diferencie da Vossa!...

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continuaremos com a segunda parte deste capítulo: As belezas do coração de Maria)

PS: Grifos meus.


quarta-feira, 28 de julho de 2010

O amor torna fácil o esquecimento próprio

VIDA DE ESQUECIMENTO PRÓPRIO
PARTE V


O amor torna fácil o esquecimento próprio

O esquecimento próprio atemoriza a maioria das almas. Não compreendem como se pode amar a cruz, procurar a humildade, ambicionar o desprendimento.

Desconhecem o amor de Deus.

O amor é a chave do segredo, sem a qual toda a ciência espiritual é vã. Sem amor, não há esquecimento próprio, mas somente vil egoísmo, sensualidade, orgulho. Com ele, pelo contrário, o espírito mais extraviado volta ao bom caminho e o coração mais aviltado reconquista a sua nobreza.

Só o amor santo guia os corações, previne-lhes as quedas, livra-os da desordem. Ao egoísmo opõe a generosidade; ao orgulho, a humildade; à avidez de prazeres e glória, a abnegação, o espírito de serviço e o esquecimento próprio.

Qualquer homem, por mais fundo que tenha caído, guarda vestígios de sua primitiva grandeza. É ambicioso, procura apaixonadamente honras vãs, tesouros perecíveis; mas não foi ele criado para ser infinitamente honrado e possuir bens infinitos?

Ama o gozo, procura os prazeres com incrível tenacidade; mas não tem ele direito a delícias sem fim, a uma felicidade sem mescla?

Foge das penas, detesta o sofrimento e odeia o trabalho; mas não foi ele destinado a um descanso e a uma felicidade sem nome?

Teme a sujeição, abomina a escravidão, revolta-se contra a força, mas é porque tem sangue real nas veias, porque é filho de Deus, feito à imagem de Deus, feito para reinar.

Restituí a este homem o amor e converter-se-á em herói, em santo. O amor é o imã irresistível que atrai todas as forças divergentes da alma. As que pareciam refratárias a toda a tentativa de unificação acabarão por aglutinar-se sob o seu império.

Sob a poderosa influência do amor, a ambição e o desejo de estima transformam-se em zelo ardente pela glória de Deus, a procura obsessiva de gozo converte-se em sede ardente de agradar ao Coração de Cristo. A alma ansiosa de liberdade vê-se livre de entraves, livre como uma rainha presa somente pelo seu amor. O coração tímido, que abominava penas e sofrimentos, aspira à dedicação, à imolação, ao esquecimento próprio. É o poder do amor, forte como o exército alinhado em ordem de batalha.

O que é que faz a força de um general? O entusiasmo que inspira aos seus soldados. Um exército é inicialmente um composto informe de elementos dispersos. Todos esses homens só têm de comum o uniforme, a energia e o desejo de combater... Mas contra quem e segundo que estratégia? Venha um chefe competente e amado para o seu comando, alinhe-os, e eis formado um poderoso exército.

Os elementos desconexos agruparam-se em volta desse centro por uma irresistível força de atração, as inteligências de milhares de guerreiros aceitaram cegamente o plano do general, as suas vontades curvaram-se às suas ordens e, para agradar-lhe, combaterão até à morte. O que foi que os subjugou e eletrizou? O entusiasmo, a admiração e o amor pelo seu chefe.

A alma que luta pela santidade deve inspirar-se neste exemplo. Nela fervilham paixões indômitas; são forças temíveis. Se o coração não as dirigir, essas energias arremeterão contra ele. Mas como dominá-las? Dando-lhes um chefe amado que as submeta, discipline e coordene. Esse chefe é Jesus Cristo.

Senhor! Armai o Vosso trono no íntimo do meu coração, e todas as minhas capacidades, cativadas pelo Vosso perfil infinitamente amável, virão inclinar-se diante de Vós. A Vossa bondade as fascinará, a Vossa doçura as prenderá, a Vossa ternura as adormecerá no Vosso seio. Depois, transformadas pelo Vosso poder divino, converte-se-ão em energias para o bem.

Não, Senhor, não preciso destruir a minha natureza; basta que vo-la ceda. O Vosso amor penetrá-la-á, transformando-a.

Amar-Vos, ocupar a minha inteligência unicamente com o pensamento do Vosso amor, eis o meio eficaz de esquecer-me de mim. Invadi, Senhor, a minha alma por inteiro, sem deixar o menor lugar vazio, e serei forçado, como a pomba de Noé, a voltar para as Vossas mãos e a entrar na arca de Vosso Coração divino.

(O dom de si, vida de abandono em Deus, continua com o post: Quanto mais a alma se esquece de si, mais Deus pensa por ela)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Belíssima oração: Afetos amorosos para com o Sagrado Coração de Jesus

Afetos amorosos para com o Sagrado Coração de Jesus


Vós sois, ó Coração amável do meu Redentor, a morada de todas as virtudes, a fonte de todas as graças, a fragua ardente onde se abrasam todas as almas santas nas chamas do amor divino: Vós sois o objeto de todas as complacências divinas, o refúgio de todos os aflitos, a doce mansão de todos os que Vos amam.

Ó Coração digno de reinar em todos os corações, e de  possuir todo o seu amor!

Ó Coração por amor de mim transpassado na Cruz com a lança dos meus pecados; e não obstante, ferido sem cessar nesse Augustíssimo Sacramento pela lança do Vosso amor para conosco!

Ó Coração amantíssimo de Jesus, que amais tão ternamente os homens, e tão pouco sois deles correspondido, dai remédio à nossa ingratidão, abrasando os nossos corações na chama ardente do Vosso amor.

Quem me dera percorrer o mundo todo, para celebrar por toda parte a abundância de graças e bênçãos que Vos dignais comunicar a todos aqueles que verdadeiramente Vos amam. Aceitai os meus sinceros desejos de que todos os corações dos homens sejam abrasados no fogo do Vosso amor.

Ó Coração divino do meu Jesus, sede a minha consolação nas aflições, o meu repouso nas fadigas do trabalho, o meu alívio nas tribulações, e o porto seguro, onde me abrigue das tempestades desta vida.

A Vós consagro o meu corpo e a minha alma, o meu coração e a minha vontade, a minha vida e tudo quanto tenho e sou, e uno aos Vossos todos os meus pensamentos, afetos e desejos.

Eterno Pai, eu Vos ofereço os afetos puríssimos do Coração de Jesus ainda que pudésseis desprezar os meus, nunca havereis de ter em menos conta os do Vosso Santíssimo Filho. Supram eles a imperfeição dos meus, tornando-me agradável aos Vosso divinos olhos. Assim seja.

Se alguém há que Vos não ame, ó dulcíssimo Coração do meu Jesus, seja anatematizado.

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

V - A AGONIA

V - A AGONIA


É difícil ser corajoso só e sem testemunha.

A coragem não passa muitas vezes de uma chama ateada pela presença daqueles que nos observam, e que nos hão de censurar ou de louvar.

A força diante da morte é por vezes uma exibição que requer um palco e exige espectadores.

O homem que conduzem ao suplício tem um recuo involuntário; domina-se muitas vezes por medo... do medo: é um outro medo.

Mas ninguém escapa a esse combate ao menos interior da vida que a morte cai colher.
Dele não se isentam os próprios moribundos: é a agonia.

É ela ordinariamente mais cruel que a própria morte.
Esta é a libertação, o golpe derradeiro: não os haverá mais depois.

A agonia martela a alma, abala-a, sacode-a. Ataca por todos os lados: é a morte que quer assenhorear-se. O corpo banha-se em suor nesse rude e supremo combate.

É o último sobressalto do instinto de viver contra o medo de morrer.

Quando, já morto para os que o cercam, o agonizante parece inerte e sem força, é que a vida se retira para o fundo d’alma como para o último reduto; não quer sair, e desse fundo túrbido, como do antro escuro do Gethsêmani, brota com força estranha uma oração análoga à de Jesus... “Se é possível, passe longe de mim o cálice, meu Pai!”

A agonia é, pois, antes de tudo, o medo da morte, a tristeza de deixar a vida, o instinto que se aferra a esses destroços que hoje se chamam o corpo e amanhã serão o cadáver.

É evidente que a primeira agonia de Jesus foi esta.

E em verdade porque não a compreender antes que tudo assim?

Por que razão, a pretexto de uma dignidade mal entendida, recusar-nos, a nós que temos de agonizar e morrer, este último consolo de nos podermos dizer, quando estivermos nas supremas trevas do fim:

– Eu tenho medo, porém Jesus teve medo antes de mim, Eu tremo, Ele tremeu. Eu não quisera morrer, Ele também não quis.

Oh! Como te será consolador então, minha pobre alma em ânsias, repetires nos últimos balbucios dos teus lábios pálidos: Pater, transeat a me calix iste. Pai, afaste-se de mim este cálice.

Verumtamen, non sicut ego volo sed sicut tu. Contudo, faça-se a Tua Vontade e não a minha. Fiat. Amen.

Tudo estará então nestas duas palavras, sobretudo na última: Amen, assim seja, é o fim de tudo, Deus o quer... Amen, assim seja! Glória assim mesmo a Ele: ao Pai, ao Filho e a Espírito Santo; eu me extingo, sou consumido. Eis a eternidade!... Amen! Assim seja.

Como tal, portanto, foi bem esse medo do fim – e que fim deveria ser o Seu! – foi bem esse pavor do suplício que deitou por terra a Jesus, o Filho do Homem, igual a nós na natureza humana...

E isto me conforta: foi essa luta entre a vida que não quer sair e a morte que quer entrar que Lhe cobriu o corpo de suor, e a luta foi tão cruciante que o suor que escorria era Sangue.

E isto me fortificará nos terríveis e derradeiros suores da minha agonia.

Admitida esta primeira causa, eu admito a seguir todas as demais, na agonia do meu Mestre amado.

É primeiramente o horror da Justiça de Deus que vai abater-se sobre Ele; Ele é a Vítima prometida, esperada, conservada, acalentada quase, para aquela hora.

Teve a sublime imprudência de se comprometer para aquela hora por todos os pecadores; a palavra foi dita – todos –, o contrato está firmado, não se lhe pode Ele furtar.

Ora, aí está o vencimento [da dívida], o terrível vencimento; há que pagar, já que se fez fiador.
Nós não queremos crer, porém chegará para nós, como chegou para Ele, esse vencimento último.

Devêra ser pensamento em nós habitual, se conhecêssemos o abismo das nossas quedas, o perguntarmo-nos a cada sofrimento que presenciamos: E para mim, que dor estará reservada? Sobretudo se vemos o sofrimento de um inocente... E eu, quando chegar o terrível momento do vencimento?... Ó meu Deus!... Este peso da Vossa Justiça divina esmaga-me por minha vez: folgo, porém, de que meu Jesus tenha temido também essa Justiça, até a morrer de medo. Tranqüilizo-me vendo-O estendido no chão, triturado já por essa Justiça, cuja voz terrível ouço a convocar todas as criaturas como a Seus carrascos: Vinde, acorrei, avenhamo-nos sabiamente para oprimi-lO... Sim, rejubilo-me desse medo que O prostra e desse pavor da Justiça que O pisa, como a uva no lagar.

Porque afinal, o que essa Justiça esmaga assim são os meus pecados; eles lá estão todos, vejo-os no Seu pobre corpo, ó vergonha!... Nem um só falta, ó ventura!...

Meu Jesus expiou-os pois; já agora eu não terei mais do abraçá-lO, tomar do Sangue do meu Mestre, cobrir-me dEle pela Confissão e pelo arrependimento, e em seguida poderei, como o poeta [Des Barreaux], desafiar a Justiça do Pai clamando-Lhe:

“Em que ponto, porém, incidiria o Teu raio,
Que não esteja coberto do Sangue de Jesus Cristo?”

Uma outra causa, de não menos peso, da agonia do Mestre, é a vergonha que Ele experimenta de se ver carregado de todas as iniqüidades do gênero humano.

Representemo-nos uma alma, a nossa, chegada ao tribunal de Deus. Que silêncio... e que pavor!
De todas as partes, dos recantos mais remotos do nosso passado, as menores ações acodem: cada qualquer tem seu lugar, aquele que lhe deu em nossa vida a nossa vontade.

Há que responder por todas: os pecados mais secretos e mais esquecidos reaparecem como se foram de ontem. Todos os testemunhos se conjuram para acusar-nos: os da nossa memória, os da nossa sensibilidade, os da nossa carne culpada e violentada, os do nosso orgulho animado e dominador.

Deus se cala: só faz escutar. Nós nos calamos também; estamos sucumbidos!

Tal é a primeira atitude de Jesus no horto. Primeiro que tudo, está como atônito: ouve um clamor violento elevar-se contra Ele: escuta, cala-se.

Ai! Não tem de responder pela Sua Alma só: responde por todas.

Não é uma vida – a Sua – que se Lhe desenrola aos olhos ante a Face imutável de Deus Seu Pai... é a vida de todo o gênero humano. Tantos homens, tantas testemunhas; tantas testemunhas, tantas consciências que se abrem e se patenteiam; tantas vozes que saem das entranhas de todos os homens!
Já é, para um ente só, um concurso esmagador este acúmulo de testemunhos manantes da própria consciência: que dizer então de um homem que se achasse o confluente de todo o gênero humano, tendo que responder por tudo e por todos?...

“Um homem na queda de várias torrentes, exclama Bossuet... elas O empurram, derrubam-nO, tragam-nO: ei-lO prostrado e abatido, a gemer debaixo daquele peso vergonhoso, sem ousar sequer relancear o Céu, tão carregada tem a cabeça e esmagada pela multidão dos Seus crimes, quer dizer, dos nossos, que verdadeiramente se tornaram os Seus”
(Bossuet, 1º Sermão sobre a Paixão).

Chegam estes, com efeito, de todas as partes: as corrupções de Sodoma sobre a pureza divina; as exações de Tiro e de Sidon e as crueldades dos bárbaros sobre o manso Cordeiro que estende a cerviz ao cutelo.
Roma, Atenas, Nínive e Babilônia, todas as civilizações antigas, elegantes e apodrecidas, isto anteriormente; a depois dEle, toda a densa procissão dos crimes dos cristãos, as covardias, as traições, asa infidelidades, as recaídas, as blasfêmias.

Um oceano de torpezas, convocado por Deus, como por um assovio, de todos os confins do mundo, in illa die sibilabit Dominus... (Is 7, 18), e vindo despenhar-se sobre aquele pobre ser já por terra e quase morto.
De certo, bem está aí com que fazer rebentarem todas as veias de um corpo e trilhar todas as fibras de um coração. Que peso acrescentar ainda?... Outro mais.

A visão clara, nítida, precisa, por demais precisa, de que aquela agonia, aqueles padecimentos e aquela morte não servirão a todos; que só haverá mesmo, em suma, um pequeno número que os quererá aproveitar.

É este um sofrimento requintado; trabalhar em pura perda, descer tanto no opróbrio e no Sangue, e só tirar tão minguado proveito! Se ainda o mundo inteiro se assegurasse por tudo aquilo da sua salvação, mas tão poucos! Este pequeno número dos eleitos: mistério tremendo! E entre esses eleitos, tantos que deverão a sua felicidade eterna a um mero excesso de comiseração e de indulgência!

Para quê então? Quae utilitas in Sanguine meo? (Sl 39, 10). Por que aquela profusão inútil de Sangue?...

Deste modo, tudo concorre para desalentar o Mestre. O medo natural da morte, o pavor dos suplícios, a inutilidade daquele esforço sublime pela salvação do grande número. A impotência de pagar as dívidas do gênero humano que não seja por todo o Seu Sangue. O peso da vergonha que O esmaga aos olhos do Céu inteiro, tudo, até o abandono dos Apóstolos, a desafeição que se opera neles, pois Jesus lhes conhece o fundo do pensamento e vê-lhes a admiração, o escândalo, quase o desprezo pela Sua fraqueza aparente e pelo Seu pavor natural. E depois, por cima de tudo, a cólera do Pai que O vai esmagar justamente...

Porque Ele não pode dizer que aqueles suplícios sejam exagerados ou injustos; não, eram necessários.

Os Mártires eram sustentados pelo testemunho da sua inocência; Jesus, porém, é acabrunhado até por Sua própria consciência, por Ele amorosamente sobrecarregada de todos os nossos pecados.

Em verdade, nada se pode acrescentar a esse mar profundo de ondas pesadas e revoltas que vêm quebrar de todos os lados, e que O cobrem da espuma de todas as humilhações.

+ + +

(2ª Parte da obra “A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

Presença da mãe no lar, confiança dos filhos!

Presença da mãe no lar, confiança dos filhos!


A confiança tem origem muitos humildes. Elabora-se, desde os primeiros anos, no bebê que, naturalmente, orienta sua simpatia para as pessoas que lhe prodigalizam cuidados. Ele desconfia dos estranhos e, em caso de medo ou perigo, estende, instintivamente, os braços para sua mãe, ou sua babá. A confiança em relação à mãe dependerá, pois, em grande parte, dos cuidados, maiores ou menores, que ele tenha recebido. É essa a razão, pela qual, uma criança dá preferência à babá, se esta tiver-lhe prodigalizado os primeiros cuidados.

A mãe decidida a conquistar a confiança de seu filho, jamais deverá, salvo impossibilidade manifesta, entregar a outrem seus primeiros cuidados.

A confiança exige um contato permanente. Ora, acontece, frequentemente, que a mãe, aproveitando-se do fato de a criança ser bastante grande para ocupar-se sozinha, abando-a a seus brinquedos e ocupações infantis, sem, jamais, imiscuir-se nessa parte. Por preguiça, ou porque deixa-se absorver por preocupações mundanas e caseiras, ela perde, mais ou menos, o contato com o filho.

Para que isto não aconteça, ser-lhe-á preciso interessar-se por tudo que ocupa e atrai a criança, ajudando-a a desenvolver suas atividades, a inventar brinquedos e ocupações agradáveis. Em resumo, seria necessário que o filho sentisse que a presença da mãe e, um pouco mais tarde, a do pai, contribuem para despertar o interesse que ele manifesta pela vida, pelas coisas. pelas histórias, pelas construções, etc...

(Excertos do livro: Pequeno Tratado de pedagogia, pelo cônego J.Viollet)

PS: Grifos meus.

Tudo convida a alma ao esquecimento próprio

VIDA DE ESQUECIMENTO PRÓPRIO
PARTE IV


Tudo convida a alma ao esquecimento próprio

Dependemos de Deus sob todos os pontos de vista e em cada uma das particularidades de nossa vida. Ele tem sobre nós um direito soberano e completo. Não existimos senão por Ele, e só para Ele e em conformidade com Ele podemos existir. Não é justo que seja Ele o centro para onde convergem todas as nossas ações, todos os nossos desejos e pensamentos, tudo o que possuímos e somos? Não será justo que diante dEle desapareçamos e nos esqueçamos de nós?

Mas que reviravolta universal na ordem estabelecida! Cada criatura racional procura substituir-se a Deus, constituir-se em centro e fazer gravitar em torno dela as outras criaturas e o próprio Deus. Os satélites querem tomar o lugar do sol, o grão de areia julga-se uma montanha, o pingo de água pretende encher o oceano.

A razão humana fez-se deusa, derrubou o trono de Deus e presta culto a si própria. Proclamou os seus direitos em relação a Deus e ditou-Lhe os Seus deveres. Quis dar a liberdade aos homens submetendo-os a Satanás, quis proclamar a igualdade entregando-se aos tiranos, quis fazer reinar a fraternidade suprimindo o amor.

O que o orgulho coletivo levou a cabo, a presunção de cada homem repete-o todos os dias na vida particular. Esquecendo que é um ser insignificante, essencialmente dependente, que não vive senão por favor e para honra de Outro, empertiga-se na sua dignidade, proclama-se senhor absoluto e estende o seu domínio sobre o que o cerca. Ao Deus criador e eterno que lhe reclama o tributo da sua submissão, responde desafiando-O com insolência.

"Céus, admirai-vos! Criei uns filhos e engrandeci-os; mas eles desprezaram-me. O boi conhece o seu dono, e o jumento quem cuida dele, mas Israel não me conheceu e o meu povo não me entendeu." (Is. 1,2-3)

Como pobre ser humano se deixou transformar pelo pecado! Não sonha senão com a independência, as honras, os prazeres e as riquezas, mas tudo dentro e fora dele lhe lembra o nada de onde saiu.

Vê o corpo debilitar-se lentamente e inclinar-se dia após dia para o túmulo. Sente o coração enregelar-se pouco a pouco ao contato com o egoísmo e estiolar-se ao sopro glacial da mentira e da hipocrisia. Vê esvaírem-se como sonhos os devaneios de felicidade que lhe embalaram a juventude. Julga-se livre, honrado, amado, influente, mas a triste realidade ensina-lhe que está à mercê dos acontecimentos, que é joguete da sua própria imaginação e vítima da cupidez e do egoísmo alheio. Tudo à sua volta lhe diz que é infinitamente pequeno e insignificante na terra, tudo o convida a esquecer-se e a fazer-se pequeno.

Se a alma soubesse compreender esta voz e retornar por uma ato de perfeita humildade à sua origem, que é o nada! Se pudesse de uma vez por todas restabelecer a ordem tão seguidamente violada pelo seu orgulho, como seria feliz, grande, livre!

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. José Schijvers, continua com o post: O amor torna fácil o esquecimento próprio)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

MARIA RADIANTE DE VIRTUDES

A BELEZA DE MARIA
PARTE VI

MARIA RADIANTE DE VIRTUDES


"Assim como o sol eclipsa todos os astros noturnos,
pelos seus raios ofuscantes, diz São Boaventura,
Maria ultrapassa a todos os demais eleitos em graça e em virtudes".

Teremos nós dito tudo o que diz respeito à beleza da alma de Maria?

Em substância, sim, já dissemos tudo. Em seus pormenores, porém, a graça, para ser coroada de glória, deve transformar-se aqui na terra em virtudes, como a água, para tornar-se nuvem, deve passar pelo estado de vapor, assim como a árvore ou a planta, para produzir a semente, deve primeiramente cobrir-se de abundantes flores.

"Maria", cheia de graça", não é, pois, "cheia de glória", senão porque é também "cheia de virtudes". Graça, virtude e glória são, de fato, as três etapas da felicidade eterna.

É que a graça não é uma coisa morta, mas uma luz, um impulso, um anelo, que afasta a substância de nossa alma, obriga-a a agir, a impele para fora de si mesma e a eleva para Deus.

A graça faz tudo isso!

E o que não teria feito esta plenitude de graças em Maria?...

Quantas virtudes heróicas e doces não A teriam impelido!...

Maria é bela, toda bela, porque a incomensurável grandeza que A elevou a Deus, se baseia nas graças mais raras. Com a graça a grandeza é mais característica; com a grandeza a graça é mais graciosa.

A beleza incomparável das montanhas, com as frondes altivas, flancos convulsos, os cimos embranquecidos de neve,  reside neste eterno contraste da grandeza que se eleva e tudo afronta, assim como a beleza das graças se compõe de condescendências e fraquezas aparentes, que sobre seus flancos se lançam, assim como a seus pés, e sobre os cimos.

As orlas destes fantásticos rochedos se cobrem de musgos floridos, de pequenas e verdejantes violetas, que são como um sorriso, uma graça florescente, e dão à grandeza este beleza que atrai, suaviza e encanta.

Assim Maria, tão real, tão elevada, tão divina, era doce, humilde, de virginal modéstia, repleta de ternura, de amor, transbordante de todas as virtudes.

Para compreender o número, a extensão e a intensidade das virtudes praticadas pela Virgem santa, seria, pois, necessário compreender o número, a extensão e a intensidade das graças que Lhe foram concedidas.

Experimentemos já formar uma imagem a Seu respeito. Escutemos Santo Antonino resumi-la em quatro palavras:

"Em primeiro lugar Ela possui todas as graças gerais e especiais de todos os santos, em um grau supremo. Em segundo lugar, Ela teve graças que jamais foram concedidas a natureza alguma. Em terceiro lugar, várias dentre estas graças eram tão sublimes, que criatura alguma era capaz de receber maiores, por exemplo, a maternidade divina. Em quarto lugar, Ela encerra em Seu seio virginal a graça incriada, fonte de todas as graças, abismo das grandezas - o próprio Deus". (Summum. P.4, tít. 15, c. 20,15)

1. Maria praticou todas as virtudes, de todos os santos, em grau supremo.

2. Ela elevou a heroicidade de Suas virtudes a um grau de intensidade jamais alcançado por santo algum.

3. Todas as Suas virtudes foram tão sublimes, que nenhuma outra criatura seria capaz de alcançá-lA.

4. Encerrou em Seu seio o foco e o modelo de todas as virtudes, a própria virtude, a ponto de Ela mesma tornar-se "toda virtude".

Exalta-se a justiça de Noé,  fé de Abraão, a castidade de José, a paciência de Jó, e Maria reuniu as virtudes de todos os patriarcas, e de tal modo, que Ela foi o modelo acabado de cada uma delas.

Deus derramou a mãos cheias Suas riquezas neste vaso de alabastro.

Ela não foi privada nem mesmo dos dons, que, segundo o apóstolo, são essencialmente conferidos para o bem do próximo, como sejam o conhecimento das línguas, a inteligência das Escrituras, o espírito profético, etc...

Uma das virtudes que mais distinguem a gloriosa Virgem é a Sua incomparável humildade.

"A graça santificante, diz São Bernardino de Sena, cumulando-A de todas as virtudes, aprofundou a Sua alma, desde o princípio, no abismo da humildade... A ninguém foi concedido, como a esta Virgem bendita, verificar melhor o nada que é a criatura, humilhar-se tão profundamente e aniquilar-Se tão completamente sob a vontade da Majestade divina".
(De concep. B. Virg. Art. I, C. 3)

"Vede, diz ainda o mesmo santo, como em santa emulação lutam na Santíssima Virgem a humildade e a bondade de Deus. Maria se humilha e Deus Se compraz em elevá-lA. Não basta a Maria humilhar-Se de um modo comum, mas Ela Se abisma na mais profunda humildade"
(De Assumpt. Art. 2. C. 2)

Foi dado à irmã Paula de Foligno compreender, em um êxtase, qual havia sido a humildade da Santíssima Virgem. Em seguida, querendo contar ao seu confessor o que ela havia visto, não soube, em seu espanto, senão exclamar: "A humildade de Maria!... a humildade de Maria! Ah! meu padre, não existe no mundo nem sequer o menor grau de humildade que se possa comparar com a humildade de Maria".

Um dia fez Nosso Senhor ver a Santa Brigida duas senhoras, dentre as quais uma não era senão fausto e vaidade, dizendo-lhe ao mesmo tempo: "Eis o orgulho!" Mas a outra, cabisbaixa, que se mostra muito respeitosa e considera-se um nada; "eis a humildade, lhe diz ainda, e esta última se chama Maria".

Por este meio quis Nosso Senhor fazer-nos compreender que a Sua bem-aventurada Mãe podia, tão grande era a Sua humildade, ser considerada como a humildade em pessoa.

"De fato, diz São Gregório de Nissa, a humildade é entre todas as virtudes talvez a mais custosa na prática à nossa natureza corrupta pelo pecado. Mas é preciso tirar dela o nosso proveito, diz Santo Afonso de Ligório (Glórias de Maria: Virtudes de Maria). Se não formos humildes, jamais seremos filhos de Maria. Daí esta palavra de São Bernardo: 'Se não sabeis, como o fez Maria, abraçar a virgindade, é preciso que, ao menos, a exemplo da Virgem Maria, pratiqueis a humildade'. - Si non potes virginitatem humilis, imitare humilitatem Virginis".
(De laud. B. Virg. hom.)

Tudo o que nos dizem os santos a respeito da humildade da Santíssima Virgem deve-se entender como dito de todas as virtudes, pois Ela praticou-as todas em grau heróico. É o que Lhe valeu o título que a Igreja Lhe confere: "Rainha de todos os santos", o que equivale ao título de Senhora de todas as virtudes.

"Assim como o sol eclipsa todos os astros noturnos, pelos seus raios ofuscantes, diz São Boaventura, Maria ultrapassa a todos os demais eleitos em graça e em virtudes".

E nós, que aspiramos a um dia fazer parte desta gloriosa falange dos santos, quão grande e intenso amor devemos ter para com aquela que será o nosso modelo e nossa Rainha!...

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: Deus, enamorado da beleza de Maria)

PS: Grifos meus.
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