sábado, 27 de abril de 2013

Amor do próximo - Quinta Parte

Nota do blogue: Acompanhar esse Especial AQUI.
Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

Ofensas à vida espiritual
Escândalo
            Que é o escândalo?

            O escândalo é uma palavra, ação ou omissão capaz de levar o próximo a fazer o mal ou a deixar de praticar o bem.

1.      Escândalo por palavras. — Escanda­liza-se por palavras, falando contra a fé, afir­mando, por exemplo, que Deus não existe, que tudo acaba na morte e outras impiedades seme­lhantes. Muitas vezes, não é preciso mais para abalar a fé das pessoas simples e até fazer-lha perder completamente.— Escandaliza-se por palavras, falando contra a religião e seus minis­tros, fazendo assim perder o respeito a que têm direito e de que têm necessidade para cumprir o seu ministério com proveito.
Escandaliza-se por palavras, falando sem a devida precaução, em ajuntamentos, de coisas torpes e escanda­losas.—Escandaliza-se por palavras, ensinando o mal. Os que ensinam a pecar são a causa de muitos pecados mortais. Muitas vezes, um inocente aprendeu a pecar porque um compa­nheiro fez um pecado na sua presença. E ficou depois fazendo muitos pecados mortais por via desse maldito mestre da maldade. Quem há de pagar por tantos pecados mortais, senão quem os faz e muito mais quem os ensinou a fazer? Escandaliza-se por palavras, aconselhando o mal. Caifás, com o seu conselho, deu a morte a Jesus Cristo. Herodias, com o seu conselho, cortou a cabeça de João Baptista. Quantos, com o seu conselho, com o seu parecer, fazem o mesmo! São escandalosos os que aconselham meios supersticiosos para alcançara saúde; os que aconselham modas indecentes, maus livros e maus jornais; os que aconselham outros a cometer um furto. Escandaliza-se por palavras, mandando pra­ticar o mal. São escandalosos os que mandam fazer o que é ofensa a Deus; tal é o superior que manda o seu súbdito. O pai que manda o filho que furte, que minta, a filha que procure quem lhe dê jóias para se enfeitar. O amo que manda os criados ou jornaleiros trabalhar ao domingo e não os deixa ir à Missa. David não matou Urias, mandou; Herodes não degolou os inocentes, mandou; Pilatos não crucificou a Jesus Cristo, sentenciou-o.
2.      Escândalo por ações. — Escandaliza-se por ações todas as vezes que se dá mau exemplo. É o caso dos que trabalham ao domingo sem necessidade, dos que organizam passeios ou excursões, que tornam impossível a santificação do domingo e dias festivos, ou que organizam divertimentos perigosos para a virtude. É o caso dos que usam modas indecentes, com estas modas calcam aos pés todo o pudor e provocam naqueles que os vêem toda a espécie de maus pensamentos e maus desejos. É o caso, numa palavra, de todos aqueles que têm uma vida irregular.
3.      Escândalo por omissão. — Escandaliza-se, enfim, por omissão quando se desprezam os deveres e se é causa de que outros os despre­zem também, tornam-se culpados deste escân­dalo todos os superiores que não dão aos seus subordinados o exemplo de obediência às leis de Deus e da Igreja. As omissões nos pais são tão repetidas, nos amos, tão ordinárias, e nos que devem zelar o bem da sociedade, tão notórias!

I— Gravidade do escândalo

            Consideremos a gravidade do escândalo rela­tivamente a Deus, ao próximo e ao próprio escandaloso.

1— Gravidade do escândalo relativamente a Deus

            O escândalo é o pecado que se opõe mais diretamente à Santíssima Trindade — ao Pai que nos criou, ao Filho que nos remiu e ao Espírito Santo que nos santifica.
1.      Pecado contra o Pai. — Deus criou a nossa alma à Sua imagem e semelhança e, por isso, estima-a acima de tudo. Vejamos.
            Deus permitiu que o demônio tentasse Jó. E o drama trágico das tentações começa. O primeiro mensageiro vai ter com Jó e diz-lhe: Agora mesmo os Sabeus roubaram os vossos bois e jumentos, passaram à espada os criados e só escapei eu para te trazer esta notícia. E, estando ainda este a falar, veio outro e disse: Agora mesmo caiu fogo do céu, e, ferindo as ovelhas e os pastores, consumiu-os e escapei eu só para te trazer a notícia. Ainda este falava, e eis que chegou outro e disse: Os Caldeus dividiram-se em três esquadrões, lançaram-se sobre os camelos, e levaram-nos, passaram à espada os criados e só escapei eu para te trazer a notícia. Ainda este estava falando e eis que entrou outro e disse: Estando teus filhos e filhas reunidos em casa do irmão mais velho, festejando-lhe os anos, levantou-se uma tremenda tempestade, a casa desabou e lá ficaram todos sepultados nas suas ruínas, e só eu escapei para te trazer a nova.
            Jó perdeu os bens, os filhos, a própria saúde, da cabeça aos pés era uma chaga viva. E, no extremo rigor de seus males, diz: Como foi do agrado do Senhor assim se fez, seja o nome de Deus bendito!
            Convém notar que Deus disse a Satanás: podeis despojar Jó de todos os bens: riqueza, família, saúde, mas não lhe focas na alma: Veruntamen animam illius serva (Jo. I, 13-22)
            Deus proibiu que lhe tocasse na alma, então que rigorosa proibição não faz Deus ao escan­daloso! Repete-lhe o mesmo que a Satanás: Já que assim o exige tua maldade, podes des­pojar o teu próximo dos bens de fortuna, dos bens da vida, mas não do tesouro da alma e da graça.
2.      Contra o Filho. — O Filho de Deus fez-Se homem, derramou todo o Seu Sangue, deu a Sua própria vida para salvar as almas. E o bom pastor que dá a vida pelas suas ove­lhas. O escandaloso torna inútil o Sangue de nosso Senhor, é um lobo no meio das almas e causa o maior estrago no rebanho de Jesus Cristo, rouba, mata e condena ao inferno.
3.      Contra o Espírito Santo. — A obra do Espírito Santo é santificar as almas por inter­médio dos ministros de Deus. Porém o demônio procura perverter as almas por meio dos seus ministros que são os escandalosos. O escan­daloso anda numa guerra formal contra a San­tíssima Trindade.

2— Gravidade do escândalo relativamente ao próximo

1.      O escândalo é um grande pecado por causa da injustiça que se faz ao próximo.
            O ladrão rouba a sua bolsa, o caluniador arrebata-lhe a honra e a reputação, o assassino tira-lhe a vida. Mas que são estes bens em comparação da vida da alma que o pecado arre­bata? Que são estes bens que mais tarde ou mais cedo havemos de deixar em comparação da vida eterna que perdemos? Por isso, Nosso Senhor nos faz ver bem que não são os assas­sinos do corpo que são de temer, mas aqueles que matam a alma e que, de fato, lançam a alma e o corpo no inferno.
2.      O escândalo é um grande pecado por causa da longa série de iniquidades a que dá origem. — O escandaloso só em uma ação pode escandalizar mais de mil pessoas e, desta sorte, cometer mais de mil pecados e condenar outras tantas almas. Morre o escandaloso e ainda ficam pecando, neste mundo, outros por via dele. Nosso Senhor Jesus Cristo vendo que tantas almas se haviam de perder por causa do escândalo, exclamou aflitivamente: Ai do mundo por causa do escândalo! Como se dissera: O mundo perde-se, o mundo condena-se eterna­mente por via dos escândalos.

3 — Gravidade do escândalo relativamente ao escan­daloso

1.      O escandaloso torna o homem seme­lhante ao demônio. — Jesus Cristo vendo que os Judeus escandalosos empregavam todos os meios para impedir a Sua santa doutrina e, não obstante, tinham a Deus por Pai, disse-lhes: O vosso Pai é o demônio, porque quereis fazer aquilo que faz o demônio — e que é perder as almas. E São Paulo também repreendeu um escandaloso chamando-lhe filho do demônio.
2.      O escândalo torna o homem pior do que o demônio. — Os escandalosos são piores que o demônio porque arrastam mais almas para o inferno do que o próprio demônio. Nin­guém dirá: o demônio apareceu-me e ensinou-me tal maldade; mas dirá: tal pessoa da família ou estranha ensinou-me a cometer este pecado.
3.      Ninguém dirá: o demônio arrastou-me para os divertimentos para a casa do baile; mas dirá; foi um meu amigo, uma minha amiga que me veio convidar e me arrastou até às portas do inferno.
            Com razão diz São João Crisóstomo: o escan­daloso é pior do que o demônio porque o demônio afasta-se com o sinal da cruz e o escanda­loso é difícil de repelir da sociedade; o demônio tenta as almas e o escandaloso é difícil de repelir da sociedade; o demônio tenta as almas e o escandaloso violenta-as

II— Punição do escândalo

1.      Condenação eterna. — Pela boca de Oseias diz Deus que se haverá com o escanda­loso como a leoa quando lhe roubam os filhos, a qual despedaça tudo com raiva. Deus casti­gará rigorosamente o escandaloso.
            Nosso Senhor Jesus Cristo diz: Ai daquele que escandaliza! melhor lhe fora que lhe atas­sem a mó de um moinho ao pescoço e que o lançassem, ao mar. Que esperança de vida poderia ter aquele a quem assim fizessem? Que esperança de salvação poderá ter aquele que escandaliza? Nenhuma; os seus pecados de escândalo arrastam-no ao abismo da perdição.
2.      Inferno especial. — O Profeta David diz que os escandalosos serão lançados em abismos insondáveis. Há para eles um inferno especial, quer dizer que o escândalo é o pecado mais punido no inferno, porque morrem os escan­dalosos e ainda ficam pecando neste mundo ou outros por via deles, o que vale o mesmo; e desta sorte se lhes estão aumentando os tor­mentos mesmo até ao fim do mundo. Que coisa mais terrível! depois de mortos ainda estarem pecando neste mundo e pecarem até ao fim do mundo e lá no inferno os tormentos crescendo sempre!

III— Reparação do escândalo

            O escândalo é tanto mais grave quanto mais contagiosos são os resultados nefandos que produz. Estragos dificilmente reparáveis quase sempre. A gravidade do escândalo depende com efeito:
1.      da intenção do escandaloso. Quanto mais alto for o conhecimento que este tiver da malícia do seu pecado, tanto mais pesada a responsabilidade. Logo o escândalo direto é pior por natureza do que o escândalo indireto, porque é calculado;
2.      da influên­cia que o escandaloso tem sobre os outros; assim a falta cometida por um superior dá escândalo mais pernicioso que a mesma falta cometida por um inferior;
3.      da idade dos mesmos. Maior culpa é a de quem escandalizar crianças ou jovens inocentes; — da gravidade das faltas que o escândalo motivar. — Que deve fazer aquele que deu escândalo? Deve arrepen­der-se, confessar-se e reparar o dano causado.

a)      Deve confessar-se. — Quando se faz a con­fissão é necessário dizer:
1.      a quantas pessoas se deu escândalo;
2.      em que espécie de pecado se deu escândalo;
3.      gravidade do escândalo.
            Deve reparar o dano causado. E obriga­tória à reparação do escândalo. É dever de justiça e de caridade. E a reparação deve revestir a mesma notoriedade do escândalo. Efetivar-se-á pelos processos mais adequados para aniquilar os resultados nefastos do escân­dalo. Substituir os maus conselhos pelos bons, exemplos maus por exemplos bons.
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