terça-feira, 31 de maio de 2011

VII- O GRANDE SILÊNCIO

VII- O GRANDE SILÊNCIO


Esse silêncio devia durar mais de duas horas. Durante esse lapso de tempo as trevas ir-se-ão cada vez mais adensando; tudo se espavorirá em torno do augusto moribundo, e as palavras que Ele acaba de pronunciar operarão lentamente, qual germe poderoso, nas almas.

O perdão, lançado indistintamente sobre todos os algozes e sobre todos os soldados, já inclina o coração do centurião e o dos seus homens... E dentro em pouco, prostrando-se, eles vão ser os primeiros a exclamar: este era verdadeiramente o Filho de Deus!

A misericórdia divina concebida ao ladrão enche-o, eleva-o, purifica-o, e aquele santo moribundo conserva a alma deliciosamente ocupada com aquela soberana e divina compaixão.

Aquela dupla palavra: Mulher, eis aí Vosso filho! João, eis aí vossa mãe!... oh! como opera a um tempo suave e dolorosamente no coração de Maria e de Seu novo filho!

A princípio, ao primeiro enunciado dessa palavra, João e Maria devem ter-se entreolhado... e, nesses recíprocos olhares, que respeitosa veneração da parte do novo filho!... que ternura do lado da nova Mãe!

Em seguida Maria compreendeu, com a reflexão e pela operação divina que agia nEla, compreendeu todo o singular alcance dessa doação. Indubitavelmente, e é o primeiro sentido verdadeiro falando daquele modo Jesus não fazia mais do que cumprir os deveres de um bom Filho. Ele partia, morria: Sua Mãe ali estava, ia ficar sozinha, e Ele não quer que Ela fique assim sem arrimo e isolada. Queria dizer que Ele ainda se ocupava com Ela, mesmo durante a Sua vida pública. Nem tudo está relatado nos evangelhos: há um evangelho do coração que se não escreve, sente-se.

Jesus se vai, e quer que alguém O substitua: Seus olhos procuram, há um apóstolo presente... Ah! se Pedro ali estivesse! Aquela Mãe inconsolável tocava-lhe de direito, a ele, o chefe da Igreja, o vigário, o representante de Cristo. Mas não estava. E então Jesus dá à felicidade de João aquilo que houvera talvez dado ao primado de Pedro, se este tivesse sido fiel.

Há horas em que Deus procura: feliz de quem se acha então sob os olhares do Senhor!

Portanto Maria se torna a Mãe de João, e João deverá ter para com Ela toda a ternura de Jesus.

Porém a Virgem penetrou mais a fundo na palavra de Seu Filho: dá-Lhe Ele coisa melhor e Lhe pede mais. Ela compreendeu-O.

É uma maternidade mais extensa; e, segundo a tradição da piedade cristã, para corresponder a Seu Filho, que lhO pedia moribundo, Ela devia amar no novo filho todos os homens presentes, todos os homens futuros.

E é precisamente esta dolorosa maternidade que executa a Sua obra durante aquelas duas horas de silêncio.

- Ah! meu Jesus, que é que Me pedis? Todos os homens presentes?... E Maria olha à volta de Si. Há lá João, certamente o Seu olhar se compraz nele, mas há também os algozes, os soldados, os motejadores, os sacerdotes e os fariseus. Será mister ir até estes? – Ó Mãe dolorosa, é mister. Que revolvimento nas Suas entranhas! Uma vez mais, é mister.

E os homens vindouros? Ai! Assim como Seu Filho, do alto da Cruz, abraçava com Seu olhar divino todas as gerações, do pé da Cruz Maria deve estender a amplitude da Sua maternidade a todos os homens futuros.

Não recueis ante esta tarefa, ó minha Mãe, vinde até mim e estreitai-me nesse cruel amplexo!

Ela assim faz; porém, ao mesmo tempo em que se Lhe operava nas entranhas essa nova e cruel parturição, o coração se Lhe rasgava sob a ponta do gládio prometido por Simeão. Ela compreendeu então o alcance da sinistra profecia; mas, como via Seu Filho oferecer as mãos e os pés aos cravos, ofereceu Seu coração ao gládio, e foi desta ferida cruenta que nós nascemos, naquela hora de silêncio e de trevas, ao pé da Cruz, a dois passos do ladrão perdoado, ao lado de Madalena chorosa, e na aproximação simbólica e divina de João e Maria.

E Jesus contemplava tudo do alto ao Seu trono sangrento; e pôde dizer então, como após os dias da primeira criação, que tudo tinha sido bem feito: et vidit Deus quod esset bonum (Gên. 1,12).

Desde aquela hora do Calvário, desde aquele parto laborioso e novo, Maria tem pelo mundo duas classes bem distintas de filhos.

Há a raça de João: as almas puras ou purificadas. A estas, as carícias e as doçuras dos olhares de uma Mãe que ama neles a vida de Seu Jesus, a graça. Quantas se encontram, ó Mãe, dessas almas seletas? Eu vejo só um João no Calvário.

E há a raça dos algozes. Ai! Quem há que possa lisonjear-se de lhe não pertencer ou de lhe não haver pertencido?

- Quem comete o pecado não crucifica de novo Jesus Cristo? E ao lado dessa Cruz incessantemente erguida não deve haver uma Mãe incessantemente de pé e dolorosa? Ela lá está, mas nós lá estamos com Ela, e Ela nos ama.

E é este talvez um dos maiores milagres de Deus, o haver sabido de tal sorte atrair a Si os pecadores, que deles tenha feito filhos de Sua Mãe; porque aquela hora lúgubre Maria não somente Se digna de recebê-los, como ainda os procura, vai atrás deles, retém-nos e lhes abre o Seu coração como o melhor e o mais seguro dos refúgios.

Sancta Maria, refugium paccatorum, ora pro nobis.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: Quarta palavra: O desamparo.)

domingo, 29 de maio de 2011

VI- TERCEIRA PALAVRA: JOÃO E MARIA

VI- TERCEIRA PALAVRA: JOÃO E MARIA


Assim, toda a vida passada de Jesus reconstitui-se aos pés da Cruz nas recordações comovidas e agitadas dos assistentes. Maria, Madalena, o próprio ladrão, a se dar crédito à piedosa lenda que faz desse ladrão um miraculado de Cristo no deserto, na estrada do exílio quando a Sagrada Família fugiu para o Egito: - outras tantas testemunhas do passado. Todas as santas mulheres que O seguiram pelos caminhos da Galiléia e da Judéia, e que lá estão, ao longe, também devem repassar as recordações de outrora, sobretudo a hora do seu primeiro encontro com o Cristo; as palestras familiares, à tarde, ao frescor cadente da noite, debaixo das grandes figueiras, dos opulentos sicômoros, ou através dos eloendros que beiram as margens encantadoras de Tiberíades: o Mestre gostava tanto de ali pregar a Sua nova e insólita doutrina!

Tudo revive, por conseguinte, aos olhos deles, e essas múltiplas imagens formam uma auréola de glória, de amor e de saudade em torno do Semblante lânguido do Senhor.

Estava ainda lá, com as três Marias, Salomé, a mãe ambiciosa dos filhos de Zebedeu, Tiago e João: como ela também não havia de se lembrar da hora em que, tomada de uma pretensão bem perdoável às mães, se abeirava do Cristo no caminho, dizendo-Lhe: - Mestre, quero pedir-Vos uma coisa. – Oh, que é? – Já que sois Rei, sobretudo já que o ides ser, fazei que meus dois filhos, João e Tiago, se assentem no Vosso Reino um à Vossa direita e outro à Vossa esquerda. – Ó mulher, não sabeis o que estais pedindo. O Meu Reino, mas vede-lhe as insígnias hoje: o trono, uma cruz; a coroa, espinhos; as jóias, o Meu sangue que borbota; o Meu título está pregado lá em cima, lede-o; e os que estão a Minha direita e à Minha esquerda, dois crucificados como Eu. Não, em verdade não sabeis o que pedis. João e Tiago, sois capazes de beber no Meu cálice? – Sim, Senhor. – Sim?... mas este cálice é fel, vinagre, são as lágrimas que Me escorrem dos olhos, é a cólera de Meu Pai, é o desprezo dos homens, é o abandono dos Meus. E bebereis tudo isto? Oh! não sabeis o que estais pedindo. O bom ladrão mendigar-Me-á uma simples lembrança, bem longe de reclamar lugares de escolha; e há de ter a lembrança e há de ter o lugar.

Todo o que se exaltar será humilhado, e todo o que se humilhar será exaltado.

Como todos estes pensamentos, como todos esses longínquos quadros deviam vir flutuar em torno de Salomé, mormente quando ao lado daquele Jesus moribundo, desconsiderado e escarnecido, ela avistava de pé seu filho João! Ele lá estava sozinho.

E o outro, Tiago? aquele que pedia também um lugar junto ao Rei e afirmava poder beber no mesmo cálice? Fugiu, esconde-se; João está só, e era o mais moço.

E também este, naquele cimo ensangüentado, deve pensar nos dias antigos, e as suas recordações comovidas escrevem uma página da vida passada do Mestre.

A hora do primeiro encontro impõe-se-lhe amorosamente à memória, porque há sempre que tornar a esse instinto do coração que, em face do ser amado, amesquinhado, rebusca avidamente as primeiras imagens do seu primeiro amor.

João pensa, assim, naquelas margens do Jordão onde o Precursor batizava no meio dos compridos caniços afilados e das moitas de tamargueiras que beiravam o rio. Naquele dia do primeiro encontro, o Batista estava sozinho naquelas margens tão frescas e contrastarem violentamente com a planície arenosa de Jericó, talada como um leito de torrente enxuto. Estava só com dois discípulos, André de Betsaida e João filho de Salomé e de Zebedeu, pescador, como André, no lago de Genesaré.

São quatro horas da tarde, o ar está mais tépido, o sol vai sumir-se para as bandas de Jerusalém, por trás dos montes da Quarentena.

Súbito, faz-se ouvir um ruído de passos; João Batista se volta: é Jesus. A Sua alva figura sobressai através das folhagens.

- Eis o Cordeiro de Deus, murmura o Batista.

André e João apreenderam essa palavra escapada ao Precursor, deixam-no e põem-se a seguir timidamente Jesus que caminha na frente.

Em dado momento, o Cristo se volta.

- Que quereis? Perguntou-lhes. – Mestre, saber onde morais. – Vinde e vede.

Aonde os conduziu Ele? A que retiro? A Jericó? Mais além, para o lado do Mar Morto? Ou na direção da fonte de Eliseu? Não o sabemos, mas sabemos que eles ficaram com Ele todo o resto do dia; sabemos também que, no dia seguinte ao dessa entrevista, André, encontrando-se com seu irmão Simão, dizia-lhe: - Encontramos o Messias. E sabemos mais que, há algum tempo daí, passando Jesus por diante da barca de João e de Tiago, os dois irmãos que pescavam com seu pai Zebedeu, o Mestre diz: - Vinde e segui-Me.

Assim foi feito. João estava capturado. Lembrava-se dessa captura deliciosa, e também do quanto entrara depois na intimidade do Senhor, a ponto de repousar a cabeça no Seu peito, quase rosto contra rosto. E hoje, que mudança! Sobretudo quando, contemplando aquele Semblante conspurcado e desdourado, revia-o nas suas lembranças brilhantes como o sol, no cimo do Tabor.

No lugar daqueles dois ladrões havia então Elias e Moisés: o céu falava, o Cristo rutilava, alvejara-se-Lhe a veste de uma alvura de neve... e agora, naquela escuridão crescente do Calvário, João já não via senão três agonizantes que estertoravam em três cruzes.

Evidentemente devia operar-se-lhe uma subversão no espírito: ele não compreendia, não apreendia o porquê de tantos sofrimentos.

Nem nós, tampouco, compreendemos na nossa vida a causa misteriosa das provações que nos acabrunham: faz-se mister uma luz mais alta do que a da nossa razão. Creiamos, porém, que isso é justo, que isso é bom, que isso é glorioso para Deus. Este ato de fé é a única luz que sobrevive a muitas sombras, e que brilha através dos destroços esparsos da nossa pobre vida...

Nesse ínterim, o céu se velava cada vez mais de trevas inexplicáveis: foi nesse momento, foi no meio do desconcerto que naturalmente devia causar esse fenômeno, que subitamente Jesus chamou por Sua Mãe:

- Mulher, diz Ele docemente, Mulier...

Não estaquemos ante a frieza aparente de um termo que em realidade e na língua do lugar é um termo de respeito e de veneração afetuosa.

“Ele chama por Sua Mãe, diz Santo Ambrósio, porque a Sua ternura de Filho devia este último testemunho a semelhante Mãe”. (Epístola à Igreja de Verceil).

Que frêmito não deve ter sacudido todo o coração de Maria! Como Ela Se aproximou da Cruz, quase a colar os lábios aos membros de Seu querido Filho, estendendo os braços para cima, e mais ainda toda a Sua alma!

- Mulher, Mãe!... é o último apelo dos moribundos. Aqueles que assistem; testemunhas contristadas, às agonias dos hospitais, aos últimos estertores do ferido nos campos de batalha, surpreendem-se de ouvir brotar, nos extremos delírios, como um grito lancinante, esse doce nome de mãe. É um clamor desesperado ao ente a quem mais havemos querido. Quando o homem sente que tudo lhe vai fugir, por um derradeiro instinto volve-se então para aquele que nunca abandona porque sempre amou, e chama: Minha mãe!

Naquele espírito que soçobra só há um semblante que sobrenada a tudo o mais: minha mãe! E é como que uma invencível esperança de que essa mãe reclamada vencerá todos os obstáculos e todas as distâncias, para vir uma última vez beijar aquela fronte que empalidece e aqueles lábios que morrem...

“Santa Maria, Mãe de Deus e mãe nossa, rogai por nós pecadores, agora, mas, sobretudo na hora da nossa morte”.

Eu compreendo esta oração, ela é feita para mim, ó meu Deus; e nesse último apelo ao coração tão bom de minha Mãe do céu eu saberei por tudo quanto minha alma ainda conservar de ternura e de súplica.

- Mulier, Mulher, Mãe, dizia, pois Jesus, esse será doravante o Vosso filho!... e indicou João com o olhar.

- Eis aí Vosso Filho em Meu lugar, ó Mulher, em Meu lugar, ó Mãe!...

E, volvendo para o discípulo a quem amava os olhos dolorosos, murmurou:

- Eis aí vossa Mãe.

E, isto dizendo, reengolfou-Se num grande silêncio.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: o grande silêncio.)

sábado, 28 de maio de 2011

Solteirona

Solteirona


É assim que se diz: “solteirona”. Em francês são denominadas “vielles filles”. E, no entanto, não são sempre velhas, as “Vielles filles”! Elas não nasceram com oitenta nos! Então, porque são chamadas “Villes filles”? Porque não sabemos dizer de outro modo. É uma questão de hábito.

Com que idade se começa a ser “solteirona”? A esse respeito a Escritura nada diz. A razão insinua que seja lá pelos sessenta anos, mas a tradição decidiu que é lá “pelos vinte e cinco anos”! Inclinemo-nos ante essa resolução, apesar de não estarmos convencidos.

Ou melhor, digamos que se é “solteirona” desde o momento em que, com plena liberdade, se decidiu a ficar assim e que se assenta em que assim se ficará.

Lembremo-nos desta definição.

As duas espécies de “solteironas”

Existe a solteirona forçada

Assim o é aquela que quis casar-se, mas não pode; que poderia ter sido Religiosa, mas não quis. Que é que a vida então lhe ofereceu? A medalha das celibatárias...

Digna de respeito; é certo, mas muito pouco apreciada e comumente levada sem grande orgulho.

O casamento falhou. Por quê? Vejamos cada um dos casos.

Ou ninguém a pediu, enquanto ainda jovem; ou, quando foi pedida, ainda não estava preparada e o ônibus partiu sem ela; ou, quando já estava pronta, ninguém mais pensou nela; ou enquanto esperava a ocasião sonhada, deixou passar a ocasião real, e a ocasião sonhada nunca mais se apresentou.

Ainda durante muito tempo espera, com sobressaltos de confiança, ilusões de êxito. Mas, com a idade, a evidência se impõe e o malogro é completo. E, para sempre, fica sendo a solteirona como outras às quais, involuntariamente, falta alguma coisa.

Uma mão impiedosa amarrou os cordões da touca de Santa Catarina ao seu quarto.

Muitas vezes, trágicos acontecimentos multiplicam esses casos em proporções lamentáveis. Terríveis hecatombes, como foi a da última guerra em cada um dos países nela metidos, transformaram esse problema num drama pungente. A esses milhares de jovens mortos, alinhados todos eles debaixo de cruzes, deitados em fossas, perdidos em baixo da terra, correspondem milhares de moças que, dentro de suas casas enlutadas, choram desoladamente um sonho desfeito. O número das vítimas foi duplicado. E nem sempre os mortos são os mais lastimáveis.

Existem as solteironas por escolha livre

Ela mesma, com suas próprias mãos, sorriso nos lábios ou lágrimas nos olhos, amarrou os cordões da touca...

Teria podido casar-se, mas não quis. Também não achou que fosse seu dever entrar para o convento.

Por quê? Lá tem suas razões.

Talvez um dia, depois de haver estudado longamente a vida e encarado o amor no coração dos homens, julga ter reconhecido que a fidelidade não existe, que a ternura que eles dão jamais equivale ao chamado que lhe fizeram, que o interesse faz parte dos seus melhores sentimentos, que o egoísmo é a base de tudo, que a deslealdade é coisa comum e o respeito bastante raro. Daí surge à decepção. Esta decepção transforma-se num princípio e elas resolvem: “Não me casarei”.

Um dia, talvez, num esplêndido, mas imprudente impulso, levaram o ideal de amor a alturas inacessíveis. Procuraram entre os viajantes humanos algum que tivesse o coração bastante ritmado, o andar bem enérgico, para, com ela, atingirem tais alturas. E não encontraram. Então sopraram o sonho; ele se apagou como a vela do altar depois da Bênção. E elas abaixaram a cabeça e fecharam os olhos, enquanto diziam ao coração: “Não existe amor para ti, não existe ternura digna da tua...” Não se casarão.

Talvez um dia tenham amado ardentemente e ardentemente tenham sido amadas... Já estavam às portas do casamento. As duas mãos, já unidas, iam colher o fruto da árvore sagrada. E, então, as influências fizeram-se sentir; oposições se ergueram; daqui e dali surgiram recusas, cheias de ameaças, de cólera, de súplicas... Foi horrível. Perturbação, revolta, indignação... E, depois, as duas mãos se afastaram uma da outra, e a jovem deixou cair o braço. E ela partiu, para sempre magoada, para sempre solitária, como o ficam certos seres que renunciam seu sonho, sacrificam sua felicidade, mas impõem-se permanecer sempre fiéis, viver de uma lembrança e, desta forma emocionante, realizar seu amor.

Um dia, talvez, porque os pais estavam doentes ou velhos, porque os irmãozinhos eram numerosos, compreenderam que se lhes impunha um sacrifício. Era preciso uma ajuda à mamãe, uma enfermeira ao papai.

Talvez fosse precisa uma mamãe para aqueles que não mais a tiverem. Assim proposto, o problema não permitia ilusão alguma. Era bem claro o que significava.

Nobres almas tiveram a coragem de encarar a realidade das coisas. Refletiram, rezaram, choraram. Agitaram-se. Mas, escondendo a fraqueza num sorriso, confiando só a Deus seu segredo, vencidas pelo dever e vencedoras de sua fraqueza, disseram, sem pronunciar uma só palavra, que não haveria mais casamento. Com efeito, não se casarão. Deus, que é o único, a saber, do que se passou, somente Ele poderia responder e responderia – na Eternidade Ele responderá – depondo sobre essa jovem fronte pensativa uma coroa do lírio das virgens e da rosa dos mártires.

Um dia, talvez, souberam que ao apostolado cristão faltavam operárias e que ele lançava seu apelo veemente aos quatro ventos... São necessárias professoras para o ensino livre... Onde encontrá-las?... Para tal obra social são necessárias pessoas livres e dedicadas... De onde virão elas?... São necessárias diretoras e auxiliares para os patronatos... Quem serão elas?... É preciso... é preciso... Hoje em dia são tão necessárias certas pessoas que se dedicam a essas piedosas obrigações, a cumprirem certas obrigações cada vez mais complicadas e sempre urgentes, e fazerem para Deus o que nem as Religiosas nem as senhoras casas podem fazer no mundo... Elas leram “Maggy” ou o “Cristo no subúrbio”; aí viram a história verdadeira de jovens heróicas com esse heroísmo. Elas disseram: “Também eu”. Foram criticadas, suspeitadas, ridicularizadas. Delas murmuraram que “era uma louca imprudência”, “um capricho passageiro”, “que isso não era situação que servisse”, “que não se tem direito a proceder assim quando se pode proceder de modo diferente”, que “ser solteirona era a última das ocupações e, para a família, a maior das humilhações...”. Murmuraram-lhes no ouvido que “eram belas... que tal rapaz pensava nelas... que faltam à Igreja mais mães cristãs do que solteironas dedicadas”... que, enfim, “decentemente, não se têm dessas idéias”... etc., etc.. Tudo escutaram, viram os prós e os contras. Cercaram suas meditações de muita oração... E depois, lentas, mas enérgicas, seguras de seu ideal, dizem: “Não me casarei”.

É por todas essas razões, e ainda outras existem, - cada uma tem as suas – que se fica solteirona por livre escolha.

Que pensar delas?

Que pensar das que quiseram casar-se e não puderam?

É dever de bom senso não zombar delas, pelo menos maldosamente, com essa crítica que já deixou de ser brincadeira e que se transforma em crueldade!... Porque, enfim, senhorinha, minha jovem senhorinha, você está tão certa assim de encontrar aquele que você procura?...

E ele procurá-la-á?... Na sua idade, também elas esperavam como você, talvez até com maiores razões do que você! Quem lhe afirma que, como elas, não ficará de lado? Você é assim tão irresistivelmente bela, tão fabulosamente rica, tão genialmente inteligente que não possa deixar de “chamar a atenção” de algum jovem entusiasta? Você está mais segura de morrer do que de casar... Talvez a Igreja reserve para você somente o dobrar dos requiem em vez dos acordes da marcha nupcial... Espere um pouco... E, depois, se você ainda ousar, zombe à vontade!

E mesmo, você terá esse direito?

Porque, enfim, minhas senhoras, a sorte será sempre uma superioridade? Se são felizes no lar, satisfeitas com o amor, será razão suficiente para desprezar aquelas que, tanto quanto vocês, mereciam a felicidade?

Aliás, essa felicidade e esse sucesso com que dinheiro foram, às vezes, comprados? Tais conquistas serão sempre nobres vitórias? As companheiras que hoje estão sós por terem sido anteriormente por demais pudicas, por demais discretas, por demais reservadas, creio que mereceriam um pouco de respeito!

Deus que julga e compara talvez as julgue de modo diferente...

A justiça quer que se seja indulgente para com elas.

Conhece-se o gênero de vida que possuem, suas manias, seu “tudo o que vocês quiserem”. Os livros dizem-no bastante. As conversas também. Fala-se muito mal delas. São cobertas de todos os ridículos. Nelas se conhecem todos os defeitos. Têm mau gênio!... Têm uma língua muito comprida!... Que é que elas não têm?

E você, senhora casada, você não fala nada? Seu gênio é suave como uma doce melodia? Se perguntássemos a seu marido, que responderia ele? O bigode caído de tal ou tal marido é a prova mais do que eloqüente (?). Já se sabe: algumas solteironas resistiram a todos os encantos da serpente, mas algumas senhoras também.

De maneira que, resumindo, pode-se agradecer a Deus determinada solteirona não haver encontrado marido e, do mesmo modo, lamentar determinado marido porque sua mulher não ficou solteirona...

Se, portanto, vemos claramente que as solteironas possuem defeitos que lhes são próprios ou têm os defeitos comuns, mas levados ao mais alto grau, ainda assim deveriam ser julgadas com menos severidade. O doente tem direito a queixar-se. O miserável, quando acusa a vida, blasfema menos do que um outro. O soldado, chafurdando na lama da trincheira, merece muito mais condescendência por suspirar depois da paz assinada.

As solteironas têm suas amarguras: é a solidão da casa em que vivem que lhes faz mal. Preocupam-se demais com os outros: é porque lhes faltam crianças com que se ocuparem. Criticam, espiam, invejam. Certamente, fazem mal. Mas pensem como é natural, lancinante até, para um coração sem amor, a tentação de invejar a felicidade que se não tem! Ver passar na rua jovens mamães sorridentes ou então a avó inclinada para um lindo bebê é coisa bem dura para quem não dá carícias nem beijos. As jovens têm seus pais; as senhoras idosas seus filhos. E elas, que não são nem jovens, nem mamães, não têm ninguém. A justiça, aliada à compaixão, quer que se perdoe muito àquelas às quais muito falta.

E a caridade exige que sejam ajudadas. Não a ficarem solteironas, pois já o são, mas a sê-lo nobremente, dignamente, sem que nosso ar de habitual desprezo, nosso sorriso quase ultrajante, nosso desagradável vocabulário não as obriguem a considerar-se a escória da vida, as parasitas da sociedade, quase como leprosas. Ora, elas não são isso. São o que são, eis tudo. Se, maldosamente, as consideram inúteis, não lhes podem, contudo, tirar o direito de viver em paz. Se são inúteis, outras há que o são ainda mais do que elas! Porque só o fato de trazer o nome de um homem bastará para tornar uma mulher respeitável? E porque merecerá a solteirona ser enterrada viva só porque conservou durante a vida inteira seu nome de moça?

Que pensar das que escolheram o celibato por livre vontade?

Primeiramente, têm o direito de fazê-lo

É preciso afirmar esse direito bem alto, para que todos o ouçam.

E porque não o teriam? Como provar que uma jovem seja obrigada, ou a casar-se, ou a entrar para o convento? Só se é obrigada a seguir um desses estados se, por um lado, a vocação for clara e, por outro, a evidência se impõe de que será essa a honestidade moral. Fora desses casos, não.

O que é absolutamente obrigatório é salvar a alma, embora se seja obrigada a sacrificar o universo. Ora, também o caminho das solteironas conduz ao Céu, algumas vezes mesmo muito diretamente.

O desejo de ter um marido e filhos, o dever de professar os votos, não pesam obrigatoriamente sobre ninguém em particular. É mais um dever geral que se impõe para o conjunto, com possíveis exceções, sem que se possa obrigar cada uma em particular, a submeter-se a ele sob pena de pecado ou condenação.

Desde que a celibatária possa amar a Deus, conhecê-lO e servi-lO é o suficiente para que ela tenha o direito de ser quem é. Desde que no Paraíso haja uma poltrona para ela, porque não a haverá nas casas de família? Desde que em casa de Deus ela poderá usar o manto real das virgens, porque aqui na terra querem cobri-la com a roupa destinada às loucas ou com os farrapos das doidas?

Se tem esse direito, poderá exercê-lo. Os pais abusam quando o proíbem e a opinião pública calunia quando ela não lhe dá importância.

Merecem respeito tanto quanto as outras

Não fica ao fogareiro zombar do carvão porque, visto por baixo, um é tão negro quanto o outro. Ser casada não é suficiente para merecer respeito; ser solteirona não é suficiente para merecer desprezo ou piedade. Por que se merecerá o respeito? Pela utilidade que se dá à vida. Ora, existem vidas matrimoniais completamente inúteis e também existem vidas celibatárias perfeitamente úteis. Quando as senhoras casadas cumpriram com sua obrigação e as religiosas também, nada mais resta a fazer para a beleza do mundo e sua felicidade? Sim, ainda resta muita coisa. E esse muito, quem o fará? Quem o faz, realmente? Suprimam todas as que não são casadas nem Religiosas e olhem. Fica um imenso campo abandonado e infrutífero. E a humanidade sofre com sua falta.

Os doentes, os pobres, os pequenos, os abandonados, os “abandonados a si mesmos”, poderiam dar testemunho.

Seria uma curiosa estatística a que, abrangendo a vida material, moral e religiosa do mundo, fixasse primeiramente tudo o que as “solteironas” fizessem de bom e, depois, tudo o que, sem elas, não estaria feito!

A igreja o sabe e não receia afirmá-lo. Ela não se acanha de defendê-las. Não tem para elas um sacramento especial nem uma cerimônia de profissão, mas tem para elas sua bênção e seu reconhecimento. A estima que tem para elas vinga-se. Cobre-as com sua aprovação, e isso lhes é suficiente. A confiança da Igreja vale cem vezes mais do que o desprezo do mundo. E, se elas existem unicamente para assegurarem a Cristo algumas aforadoras, à Mesa Eucarística, algumas comungantes, a preencher no Templo quase deserto o vazio de muitas outras ausências, tudo isso não bastaria para que elas existissem? Uma artista se justifica (é justificada pelo mundo) pelo fato de dançar, declarar e cantar! Comungar, rezar, adorar são coisas bem melhores. Quem se ocupa dessas coisas adquire mais um direito do que uma respeitosa tolerância.

Algumas vezes praticam o que de mais nobre existe no mundo

Se todas as escolas, todos os orfanatos, todos os patronatos contassem sua história e se, levantadas de sua cama ou de seu túmulo, as velhas mães dissessem o que sabem, a humanidade ficaria conhecendo o que deve às “solteironas”. O baile com seus “flirts”, as praias com seus escândalos, a moda com suas audácias, não lhes devem grande coisa. Mas, na humanidade, não existem somente os que “flirtam”, os que dançam e gozam férias. Existem os que sofrem, os repelidos, os incuráveis e os contaminados. Existem as feridas supuradas e os cabelos cheios de piolhos. Existe tanta miséria e tanta sujeira! Mulheres há que provêm a essas grandes necessidades, e Religiosas também. Mas sempre vemos “solteironas” que as acompanham. Porque existem muitas solteironas que o são desde “a idade de vinte anos”, desde que, generosas e heróicas, juraram assim permanecer para melhor se dedicarem.

Esse esplendor moral oculta-se. Em seu lugar exibem-se as ridículas “toilettes” e as ridículas “toilettes” absorvem o olhar do público.

Tanto pior! Já o sabiam de antemão as solteironas e mesmo assim aceitam.  Aquele para quem elas trabalham também o sabe. O resto pouco importa. Só dão importância à opinião de Jesus Cristo. Mas algumas vezes, se somos sinceros, surpreendemo-nos a pensar na inapreciável abundância de secreto devotamento... Tremendo, levantamos o véu... olhamos... escutamos... O que então vemos é mais belo do que tudo que se apresenta nos teatros das cidades; o que se ouve faz rir de alegria, porque é o batimento de inúmeros corações devotados ao amor dos infelizes.

Então, não se ousa mais rir das solteironas. Ao contrário, diante delas, sentimo-nos envergonhados de nós mesmos. E esta vergonha é, para elas, a maior homenagem...

Nesta época, em que cada vez mais aumenta a crise de empregadas, tanto para Cristo como para os ricos, é emocionante vermos como Ele encontra nelas servas obedientes e submissas, de tal modo que nem Religiosas nem senhoras do mundo as superam, e, em sua soberana humildade, elas atingem os altos cumes da pura santidade.

Conclusão

Resumindo, trata-se de cada um permanecer em seu lugar, comportar-se bem, cumprir com suas obrigações.

Isso supõe lealdade, generosidade, algumas vezes resignação, e sempre uma presteza em fazer tudo o que Deus ordenar.

Nenhuma das três vocações deve olhar para a outra de maneira desprezível. Nenhuma das três vocações deve envergonhar-se de si mesma.

Todas três têm sua grandeza, suas dificuldades, seus méritos. Todas três têm sua coroa no Céu e, na terra, seus altares construídos pelos que as irão honrar.

Para uma jovem, haveria desonra onde houvesse pecado. E o pecado seria: casada, Religiosa ou solteirona; tomar, diante do apelo positivo, a atitude do jovem covarde que baixa a cabeça e foge; cumprir levianamente com as obrigações inerentes a cada um desses estados; realizar frívola e desinteressadamente o ideal que cada um representa.

E, maltratando uma vocação que é bela e deveria embelezar a vida, seria prejudicar a própria vida.

E este crime (pois é crime) ninguém, com vinte ou quarenta anos, tem o direito de cometê-lo.

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Obstáculos e mais obstáculos

Obstáculos e mais obstáculos


Obstáculos erguidos por Deus

É preciso respeitá-los, parar diante deles e, pacientemente, sem revolta, esperar.

Entende-se por obstáculos, assim erguidos no caminho de uma vocação, a tal ou qual circunstância brutal, a certos acontecimentos exteriores que, independentes de nós e representando a vontade divina, exigem que nos inclinemos diante deles como diante de uma força sagrada ou de um direito líquido.

Por exemplo: um cansaço, uma doença, um acidente.

Outros exemplos: a necessidade imperiosa de nossa presença em casa, devido ao pão conquistar, aos doentes a cuidar, aos velhos pais a auxiliar.

Que fazer? Nada. Que tentar? Nada. Permitindo que tudo isso aconteça, Ele diz, ao menos provisoriamente, o que quer. A sabedoria está em ceder. E o verdadeiro amor também.

Obstáculos erguidos por vocês

Esses têm de ser destruídos.

São obras do seu egoísmo, de sua covardia, de seu receio. Quando se construiu um muro em lugar proibido a única coisa a fazer é derrubá-lo e passar adiante.

Parar aqui, para esperar, é, nem mais nem menos, esconder-se na trincheira no momento do ataque para não ter de saltar. Que desonra para semelhante soldado!

Algumas jovens hesitam e essa hesitação não as honra. Falta-lhe a coragem de cortar os fios que as prendem e de pular um muro que não passa de uma nuvem. Podem esperar indefinidamente e será o mesmo que dizer que renunciaram à sua vocação.

Também fez assim o moço rico do Evangelho. Colocou diante de si, amontoados, seu dinheiro e sua felicidade humana. Olhou-os e depois não tentou nem transpô-los, nem pisá-los. Ficou onde estava. Recuou o seu passado. Vida perdida. E Cristo se entristeceu...

Quantas há que, no caminho do convento, ficam sentadas? Levantam-se e tornam a sentar-se. Reiniciam a caminhada e tornam a parar. Desejariam que o Anjo as carregasse pelos cabelos, mas Deus quer que caminhem com seus próprios pés, passo a passo, até atingirem a meta desejada. E elas se desculpam chorando sobre a própria fraqueza. Que seria preciso? Um gesto libertador, um pulo decisivo. Somente a este preço terão direito a ficar em paz.

Obstáculos erguidos pelos outros

Esses devem ser, ora respeitados, ora desprezados.

Quem são os outros? Um pai, a mãe, uma amiga, as pessoas que nos cercam. Cada um deles tem seu ponto de vista, faz suas observações, formula suas críticas, encontra motivos para protestar contra “essa estúpida vocação” e para impedir “essa partida desarrazoada”...

Sua posição provém:

De uma afeição que treme diante da próxima ausência; de uma esperança que teme ser desfeita; de um projeto que desejaria realizar-se; de um interesse mais ou menos puro; de uma viva preocupação de trabalhar para a felicidade desta criança que “faz uma asneira”; de um ciúme despertado contra Deus; de uma amargura que se volta contra a Igreja, pois se considera o caso como um rapto; de um completo desconhecimento do que é a vida religiosa; de uma abusiva autoridade que pretende ser a única a decidir sobre a orientação de uma vida; de um ódio positivo; da vontade de ser um dia avó; do respeito humano que olha com receio para “o que dirá a opinião pública”; do orgulho em querer ser o sogro de tal rapaz estupendo; etc., etc.,... Uma página repleta de “etc.”...

O terrível é que o obstáculo toma forma humana: um pai encolerizado que se levanta pálido; uma mãe que chora ou fica de mau humor; uma tia que se excede em sabedoria e diz “Minha pequena, senta-se aqui, pois tenho que te falar”...; um velho tio, por demais experimentado e que meneia ceticamente a cabeça; um belo adolescente de olhar ardente e triste; uma distinta senhora que toma ares protetores e tem a fisionomia desdenhosa; uma linda boca que sorri; outra que zomba; dois braços febrilmente suplicantes em volta do pescoço; dois olhos espantados que ameaçam...

Em semelhante caso não é fácil saber o que fazer; ceder? retardar? forçar? esperar? É preciso querer o que for melhor. Algumas vezes só desejar o que for possível e ter como diretriz em primeiro lugar, esta palavra de Deus: “Amarás teu pai e tua mãe”; em segundo lugar, esta palavra de Cristo: “Aquele que ama a seu pai e a sua mãe... mais do que a Mim, não é digno de mim”...

Trata-se de conciliar ambos os amores. Muitas horas pungentes passam as jovens querendo resolver essa dificuldade e fazer essa conciliação.

Isso mostra que é útil, senão indispensável, procurar auxílio.

Decidir por si ou consultar?

Se sempre fosse simples reconhecer, decidir e realizar uma vocação religiosa, a interessada poderia sem grande imprudência, empreender e resolver tudo sozinha... Mas...

Mas a experiência diz que não.

Em primeiro lugar, nunca se é um juiz muito exato para o próprio caso.

Depois, devendo a questão ser estudada em toda sua complexidade, a jovem, sem se aconselhar, arrisca-se muito a perder-se nela, a embaraçar-se. A não poder concluir nem pró nem contra.

Além disso, durante o exame, póde ser tentada à deslealdade, ter medo de saber, temer a evidência, complicar ainda mais o assunto para mais facilmente o transferir para as calendas gregas.

Ela bem pode exagerar as dificuldades, supor insuperáveis obstáculos sem importância, tomar uma nuvem por um muro, uma pedra por uma montanha. Pode achar respeitáveis oposições que não se justificam. Pode não ter a coragem de sofrer nem de fazer sofrer quando o dever impõe, quando é bem intuitivo, quer que se seja rigoroso sob pena, não o sendo, de pecar contra Deus.

Pode cercar-se de ilusões, desconhecer as próprias aptidões, tomar suas emoções como pensamentos, seus sonhos como chamados.

Também pode misturar seus puros desejos com outros desejos que não sejam tão belos e, sem perceber, optar pela vida religiosa por um instinto de preguiça e como meio de fugir a uma humilde dever, humilde, mas penoso, que lhe é imposto aí mesmo onde está.

Também pode conhecer o desânimo, a noite íntima, as horas negras, as oposições exasperantes. Em tais momentos, ficar só é muitas vezes ser fraca e vencida.

Como pretender tomar responsabilidades? Como tomá-las sem se arriscar a, mais tarde, censurar-se por havê-las tomado quando, uma vez no convento, como muitas vezes acontece, surgem as dúvidas, o arrependimento cresce, trazendo consigo o receio de se ter enganado?

Por todas essas razões vê-se claramente que a vocação religiosa é um problema a ser estudado por dois: a jovem e o diretor de consciência!

E também é preciso tratar dele desde o início, para que, lenta e minuciosamente, seja estudado e se chegue à conclusão mais segura.

Aliás, tudo deve ser encarado com perfeita lealdade, num desejo sincero de encontrar solução e a preocupação de, não multiplicando as diversas consultas a vários conselheiros diferentes, complicar ainda mais o caso em vez de simplificá-lo.

O ideal está em procurar, e o dever em encontrar um padre que seja verdadeiramente um homem de Deus, sobrenatural, desinteressado, respeitando as almas sem forçá-las, e capaz de, chegado o dia, tomar a peito suas responsabilidades.

Será preciso preparar-se, e como?

Dizem: “E para quê? O noviciado, que foi feito para isso, remediará a situação. Preparar-se será fazer o noviciado do noviciado... E nunca se acabará!...”

Pretexto vão. Sim, também se deve preparar para a vida religiosa.

Somente praticando, de antemão e livremente, as virtudes de desprendimento, de obediência e de pureza absoluta que um dia deverão ser praticadas por voto. A vida religiosa, para a eleita, começa antes da tomada de hábito, com receio de, se ela só tiver de ser iniciada depois, não ser iniciada nunca...

Naturalmente, de um certo modo. É uma questão de bom senso e de espírito cristão.

Tanto aqui como em outra qualquer parte, a alma é o principal. E é nela que a preparação se faz.

No “toilette”, por exemplo, pelas audácias e excentricidades que evita. O uso dos prazeres, mesmo os permitidos, é moderado... Não mais flirta. Em matéria de leitura, a prudência é rigorosa. A vida cotidiana obedece a um horário fixo. A piedade faz sentir-se mais. Embora não cubra os olhos com o véu, eles são mais reservados, os olhares não são mais provocantes. Um certo espírito de sacrifício se insinua discretamente no íntimo do ser e se exercita em mil ocasiões, que os outros nem sequer suspeitam.

A ternura filial faz se mais suave, mais delicadamente cuidadosa. É preciso que os pais sintam que, quando há uma separação, sintam pelo menos que são amados com um grande e terno amor! Faz tudo para que a preferência dada a Cristo não seja para eles um peso insuportável.

E salva seu ideal, vigia-o, não o expõe a ficar obscurecido. A vocação é uma pérola que não deve ser atirada aos porcos. É cultivada como uma rara flor. É conservada como um tesouro. Deve ser defendida como se fosse a honra ameaçada. Deve tornar-se cada dia mais digna dela, certificando-se cada vez mais de que não é uma ilusão e que será realizada magnificamente.

Por não se terem preparado para a vida religiosa, muitas nunca chegaram a realizá-la, embora tenham ciumentamente guardado esse sonho. O sonho se desvaneceu.

E, um dia, não mais quiseram...

Houve pecado mortal? Houve risco de condenação? Quem sabe? Em princípio, o chamado de Deus não obriga. A única coisa indispensável é salvar a alma, e pode-se renunciar-se ao convento sem, no entanto, renunciar ao Paraíso.

Mas fica um temível desconhecido. Quem perde a vocação ou a recusa também pode perder a eternidade. Porque casos há em que o único meio de atingir o “essencial” era praticar o “supérfluo”. Para algumas, entrar no caminho dos conselhos era a única segurança de não abandonar o caminho dos preceitos. Então...

Sim, então... A conclusão é bem clara.

Há perigos que os prudentes não correm. Ofertas de salvação que um ser inteligente não despreza.

Ao privilégio de ser a mais amada deve corresponder o desejo de amar ainda mais.

Segue-se a própria vocação. Enquanto se espera, deve-se conservá-la. Para conservá-la, deve-se dar-lhes o justo valor, não a deixar entregue aos perigos, preparar-se para ela e, de antemão, para que o “depois” seja belo, praticar-lhe as nobres virtudes.

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Solteirona.)

domingo, 22 de maio de 2011

Carta de um herege/ Resposta de um cristão


Carta de um herege

É este o vosso rei? Prostrado no Horto, tendo a face por terra, tendo a alma triste até a morte?

Pense bem, isso não acontece com um rei. Um rei goza de prazeres e tem servos prostrados aos vossos pés. Tem dinheiro, fama e delícias, como se entristecer com uma vida assim? Um rei não conhece a tristeza e a agonia.

Oh... perdoem-me, cristãos, vosso rei, era tão pobre que não tinha onde reclinar a cabeça para descansar e era um simples filho de carpinteiro, não é?

Vejam quem vem lá... olhem, cristãos, o vosso rei com um manto encharcado do próprio sangue; uma  coroa de espinhos e um cedro de cana... Que rei esfarrapado! é esse o vosso rei? Respondam miseráveis cristãos?! Ele não abre a boca... não dá uma ordem, recebe cusparadas na face desfigurada e permanece em silêncio... cadê a sua autoridade? simples soldadinhos brincam com a suposta majestade do vosso rei, onde está o seu poder? A sua glória? Porque não reage?

Vosso rei vai morrer da forma mais dolorosa e infame e permanece calado. E onde estão os seus seguidores? Há poucos dias o aclamavam e hoje vejo poucos que permanecem com ele, um rei não acabaria assim, abandonado...

Vejam suas mãos e seus pés, seu corpo dilacerado, isso não acontece com um rei...
Cadê o seu exército?

Entre dois ladrões ele foi pregado e diz poucas palavras entre o sangue abundante e as lágrimas.

Pense bem cristãos, um rei não morre assim.

Resposta de um cristão

Sim, este é o meu Rei – Meu Senhor Jesus Cristo - e o Seu Reino não é deste mundo.

Veio para nos ensinar a humildade, a mansidão e a bem sofrermos. Sua glória está em servir e não em ser servido. Veio nos salvar e por isso Se ofereceu como Vítima imaculada.

Oh! meu Rei, que cegueira a deste mundo... quantos entregues a ídolos mesmo depois de Vossa morte ignominiosa por todos os homens; escravos das riquezas, das honras e dos louvores humanos, Vos ignoram por orgulho, por não aceitarem que és Rei entre as dores.

Um dia tremeram diante de Vossa vinda triunfante, onde julgará todos os povos, triste dia será o desses hereges que não aceitaram o Vosso Amor no Calvário.

Triste dia!... e então ao verem os seus “reis de areia” serem aniquilados por Vossa justiça, dirão: Malditos somos, por não aceitarmos servir ao verdadeiro e único Rei, o Rei dos cristãos, malditos somos!

Venha Rei dos exércitos e nos ensine a sermos Vosso fiéis soldados!
Assim seja.

Religiosa

Religiosa


Vejo, diz o Apocalipse, uma imensa multidão, difícil de precisar. Toucas de todas as espécies, véus, mantos e cordões de todos os feitios e cores. Uns azuis como pervinca, outros brancos como lírio, outros castanhos, outros cinzentos, e outros ainda negros como o pecado mortal...

Os nomes variam:

As Filhas... de Caridade, da Sabedoria, do Espírito Santo...

As Irmãs de... X, Y, Z...

As senhoras de...

Mas, no fundo, todas elas cantam o mesmo hino em diferentes tons...

Têm o mesmo coração oferecido ao mesmo Jesus Cristo...

É a revoada de Religiosas dispersadas aos quatro ventos da terra...

Benditas sejam elas por causa do sinal de escolhidas que trazem na testa! Quando mortas, todas elas apresentam uma pequenina cruz, sempre igual, tendo em baixo um nome que é o seu nome, mas que também não é seu nome. Não é seu nome perante o mundo, mas é seu nome perante Deus.

Benditas sejam elas! Felizes que são...

O que é uma religiosa

Pondo de parte qualquer diferença secundária, essencialmente falando, a religiosa é, desde o momento em que formula seus votos, uma jovem que:

Abstendo-se do direito de casar-se; pretende-se, por um determinado tempo ou para sempre, aos votos de pobreza, castidade e obediência; dedica-se ao serviço de Deus, entrega-se a Ele, pertence-Lhe e faz dEle seu único Senhor e o único amor de sua vida.

Ela contrai esses votos oficialmente, perante a Igreja, num determinado grupo de que vem a fazer parte e cujos costumes e obrigações aceita voluntariamente.

Distinguem-se comumente: as Religiosas contemplativas, muitas vezes enclausuradas, e que se dedicam especialmente à oração e à penitência; as que ensinam, que têm por missão principal instruir nas escolas e colégios; as enfermeiras, que se dedicam às obras de caridade nos hospícios, hospitais, clínicas, creches e dispensários; as missionárias, consagradas ao apostolado católico nas suas diferentes formas e até em países estrangeiros...

Que pensar da vida religiosa?

A Igreja a considera como a maneira mais digna de viver. Uma cristã, diante de semelhante problema, deve seguir o julgamento da Igreja.

Mas o mundo, naturalmente, pensa de modo diferente.

Ora declara que a vida religiosa é um refúgio oferecido às jovens feias, pobres e imbecis, e que, não se podendo casar por essas três razões, ficam muito felizes por encontrarem no convento o ninho onde esconder sua incapacidade; ora promulga que ela recorre à vida religiosa como um meio de consolar suas desilusões amorosas, delas tirar proveito e torná-las úteis em alguma coisa, sem o que só encontraria desespero; ora considera-a como o cemitério de jovens prematuramente mortas e que, entrando para “essas casas” suscitam respeito, um vago pesar e uma amarga piedade; ora acusa, dizendo: “A vida religiosa é a covardia dos seres que não têm coragem de enfrentar o mundo, de arcar com suas responsabilidades e que, fugindo dele em vez de desafiá-los, são desertoras que se devem desprezar”; Ora ele se zanga, de modo insolente e mau: “A vida religiosa é uma ladra! Tira do mundo as mulheres a que tem direito! Arrebata ao amor belezas com as quais se teria alegrado. Diminui o número dos lares. Faz com que as mães chorem. Revolta os parentes. Faz com que certos valores fiquem escondidos. Enterra as que vivem. Necessário é que a suprimamos”.

Ora ele dá de ombros... Lamenta essas mulheres que também foram feitas para a felicidade e que inocentemente sacrificam as alegrias certas e imediatas da vida por alegrias tardias de um Paraíso duvidoso; ora admite, vencido pela evidência, o bem praticado pelas Irmãs de Caridade nos hospitais, mas condena ainda mais impiedosamente as religiosas enclausuradas; ora consente em agradecer ao convento a solução do problema dos pais, que ficam embaraçados com uma filha em casa. Tomando-a, livra-os de uma preocupação. Ora, e é a maior concessão que lhe faz, declara que cada um é livre e que, além de tudo, a vida religiosa é uma vida como outra qualquer e que aquelas às quais ela agrada podem vivê-la e, embora sejam originais, é prudente deixá-la em paz.

Tudo isso nada prova que o mundo compreenda a vida religiosa, que ele a aprecie, que a venere, que lhe tenha penetrado o sentido por demais elevado e o raro valor.

A igreja pensa mais ou menos o contrário.

Ela bem sabe de todas as críticas e admoestações mais ou menos fundadas que se podem lançar contra tais e tais Religiosas, de vista estreita, mesquinhas, severas, de alma tacanha... Mas ela não se baseia em casos particulares e, encarando a vida religiosa em seu conjunto, aprova-a e exalta-a.

Ela acha que a vida religiosa representa o caminho mais seguro, mais direto, mais bem protegido para a meta suprema da vida humana, que é o Céu.

Afirma que, quanto mais se ama a Deus, maior será o valor que se tem, e a vida religiosa, libertando o coração, unindo-o cada vez mais a Deus, impedindo as necessárias partilhas da vida comum, permite ao ser humano realizar seu maior valor.

Não hesita em afirmar que as contemplativas têm uma utilidade muito maior para o mundo por meio de suas orações e suas penitências, e sob o ponto de vista cristão, o único verdadeiro, representam, na humanidade, um alto cume, porque são a porção de humanidade mais aproximada de Deus!

Julgam, pois, que, se formos classificar teoricamente as diferentes formas de vida, a vida religiosa estaria em primeiro lugar. Afirmar isso não é desacreditar o casamento nem levar a humanidade a encerrar-se nos conventos. É simplesmente dizer o que é.

Também defende obstinadamente a vida religiosa contra todos os seus detratores. Ela cobre com seu manto maternal e envolve com sua especial estima e seus privilégios a imensa multidão de Irmãs espelhadas por toda a Terra. Condena a todos os que a elas se referem desrespeitosamente.

Aprova, encoraja e felicita a todas que a escolheram. Segundo São Paulo, ensina oficialmente que o chamado a esta vida representa uma graça inestimável que é sinal de um amor especial, e que todas as que a ela foram chamadas devem, sem orgulho e sem pesar, sentir-se felizes, muito felizes, por Deus se haver mostrado tão bom ao tomá-las para Si!

Tal é o pensamento da Igreja.

Esse deve ser o pensamento de uma moça cristã sobre a vida religiosa.

Quais são os sinais indicadores do chamado à vida religiosa?

Como a vida religiosa é uma vida excepcional, são precisas, para se entrar nela, garantias que fazem da entrada para o convento um empreendimento legítimo e prudente.

Como se sabe que se pode?
Como se sabe que se deve?

Problema por demais complexo! Existem tantos atalhos que conduzem ao mosteiro! Tantos e diversos segredos aí se escondem! Cada alma tem sua personalidade. A graça é tão pronta! As naturezas variam tanto! A história de cada um é tão pessoal!

No entanto, existem algumas regras gerais.

O caminho de veludo

Desde que se sentiu o primeiro chamado de Deus não se pensa noutra coisa. Não se sonhou com outra coisa. Tudo leva ao convento. Tudo para ele atrai. Uma espécie de instinto vital, cada ano mais forte e seguro, para ele arrasta... Já se nasceu Religiosa...

Então é coisa simples. A hesitação não é permitida, visto não se levantar nenhum obstáculo impressionante. Chegada a idade conveniente, vai-se!

É a vocação por inclinação e que, em circunstâncias especialmente favoráveis, quando a família encoraja em vez de se opor, passa-se suavemente do lar ao noviciado, sem aparente dificuldade.

O caminho de rochedo

Desta vez não sentiu a atração. O pensamento do convento ainda não penetrou no íntimo da criatura, como um fermento sempre em ação, nem cruzou o horizonte da vida como um sonho cuja beleza atrai!

Ao contrário, friamente, por um exercício de vontade, a alma em que Deus age é obrigada a refletir.

Apresenta diante de si a vida religiosa como um problema que ela mesma deve resolver, seja num ou noutro sentido. Ela o encara como o melhor caminho para a salvação, como o mais belo emprego de suas forças íntimas.

A natureza não impele, nem mesmo o temperamento. Mas a vontade reina e decide. É um caminho rude, que sobe cheio de pedras, sem árvores que façam sombra. A jovem obriga-se a caminhar, um pouco semelhante às horas secas de piedade, quando se impunha meditar e rezar. E ela o faz sem outra alegria sentida senão a de uma resolução tomada e a de um dever praticado.

O caminho de areia movediça

É o caso das vocações que se iniciam nitidamente, segundo um rumo bem traçado, e que, pouco a pouco, como os caminhos do deserto que se perdem na areia, ficam incertas de si mesmas.

Não se sabe se é sim ou não, para aqui ou para lá. Porque é ora para um lado, ora para outro, e ora para ambos. Um eterno “talvez”. E não se chega a tomar uma decisão única porque, logo que se pensa decidir, a decisão contrária se tornará possível também.

Algumas vezes, nem sempre, falta coragem ao coração, que fica tão incerto. Outras vezes é questão de temperamento e outras ainda depende do modo com que Deus está agindo. Os santos nem sempre estão seguros do caminho a seguir, quando se trata de sua santidade. E porque, então, quando se trata do seu destino, as jovens hão de estar certas do caminho a percorrer?

Mas é um caso bastante doloroso para em geral ser tratado com bondade. As jovens que estão envoltas por essas sombras devem sondar ainda seu íntimo e procurar socorro.

O caminho de Damasco

Brusca parada em pleno caminho. Um divino imprevisto. Saulo ia em perseguição de Cristo e eis que Cristo o chama para fazer dele um apóstolo.

Jovens há que estão felizes e tranqüilas. O mundo não é para elas uma tremenda decepção. O casamento lhes sorri. Nenhuma touca branca lhes aparece em sonhos. Bastam-lhes os dez mandamentos. Pretendem segui-los e é só. E porque não? Desde que Deus não lhes pede mais nada, terão elas de oferecer mais? Deliciosamente, como o monograma no canto do lenço, bordam em sua juventude o monograma do amor. Se lhes disserem que um dia... serão... (oh!) Religiosas! O queixo lhes cairia! Ser-lhes-ia necessária uma hora para fecharem a boca...

E, no entanto... Ele espera. Quem é esse Ele? Deus.

Sem prevenir, igual aos ladrões, invade essa calma, perturba o suave sonho. Elas nada compreendem. Os que as cercam também nada entendem. Mas existe algo. A alma esta aterrada. A terrível pergunta foi feita: “Queres?” E, mal sabendo o que dizer, respondem: “sim”.

A derrota foi rápida e total. Total a vitória de Cristo. Houve como que uma invasão de luz resplandecente.

E aquela que, no inverno passado, dançava nos bailes até tarde, neste inverno não dança mais. Já traz sua pequena touca de postulante. O único que dança é o diabo que, furioso, a convida a vir dançar novamente o tango...

O caminho da batalha

Neste caminho Jacó lutou contra o Anjo e este foi o vencedor.

Mais do que geralmente se acredita, vocações de certas moças iniciam-se como um encontro de patrulhas, como um choque de armas. Deus e elas. Deus que quer e elas que resistem. Deus é um temível jogador, mas certas almas são rudes adversárias! Durante muito tempo, vendo-O vir de longe, têm evitado o encontro. Agora não há mais jeito. Ambos estão em combate. Não seria mais emocionante assistir ao espetáculo de dois lutadores em plena arena antiga. A sorte sorri, ora para um, ora para outro.

E, quando termina a luta, na submissão total da alma, num longo consentimento da vítima, que atira seu “sim” como se estivesse numa lenta agonia, resta uma Religiosa a mais ao serviço de Jesus Cristo.

Mas algumas vezes, como se não pudesse defender-Se, Deus é vencido!

Respeitando a liberdade, querendo para Si uma alma e não uma escrava, pois que ela recusa, Ele desiste, faz-Se de vencido e retira-Se como um ferido...

Uma Religiosa a menos na Terra.

E inaugura-se um futuro cheio de mistério. Infelizmente, tais vitórias são para a alma a pior das vergonhas. A coroa das condenadas muitas vezes é feita desses triunfos.

O caminho de Getsêmani

É o caminho das dores que conduz ao grande Amor. Quem póde proibir a Deus de escolher Suas eleitas entre as vítimas da vida? E quem é capaz de encontrar defeito no que Deus faz? Quem póde condená-lO porque recolhe náufragos, adota órfãs, oferece o coração a fugitivas e povoa Sua casa com jovens feridas que Ele uma noite recolheu quando percorria o campo de batalha? Deus penetra pela ferida aberta num jovem coração de vinte anos. Está em Seu direito. Ofereceu-Se para vir substituir alguém que partiu. Será a mamãe que morreu. Será o noivo que partiu bruscamente.

Então, uma vocação religiosa originada de uma desilusão amorosa? E porque não? Tantos artistas há que executam sua obra-prima sob uma amarga decepção! E porque não poderá uma jovem transformar a dor numa vida religiosa? Que mal existe se a tristeza desta jovem, transformada em divino amor, faz a felicidade dos pequeninos de que ela cuidará na creche, dos velhos que ela acariciará no hospital...?

Essas vocações têm direito a um respeito comovente.

Seria preferível que a jovem transformasse sua tristeza em desespero e vergonha? Como é que não se compreende poder o sofrimento, que é luz, revelar também bruscamente um caminho até então desconhecido e projetar da porta fechada do convento uma suave claridade que convinha a vir bater a ela com as lágrimas nos olhos?

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: Religiosa, parte II - Obstáculos e mais obstáculos.)

PS: Grifos meus

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Segunda palavra: o bom ladrão

Segunda palavra: o bom ladrão


Este episódio do ladrão é um dos mais maravilhosos, dos mais consoladores para nós no grande drama do Calvário.

O que primeiro admira é a rapidez que empolga a cena. Algumas palavras se cruzam por sobre a cabeça inclinada de Jesus Cristo, uma prece a esse Cristo, uma resposta de Jesus, e está tudo acabado. Mas também está tudo mudado. Aquele bandido, coberto de todos os seus crimes mais ainda do que do seu sangue, torna-se, num abrir e fechar de olhos, um santo tão purificado e um eleito tão autêntico, que merecerá naquele dia mesmo ser o companheiro de Cristo no paraíso.

- Hoje, digo-te em verdade, Eu, este Rei achincalhado, mas eterno, hoje mesmo estarás comigo no paraíso – Que rapidez!...

Deus não precisa de muito tempo para entrar numa alma, para transformá-la completamente: e é o que é consolador para nós. Mas, nessa ação tão rápida, que drama profundo e pungente: é mister acompanhar-lhe todas as peripécias.

São, portanto, três na cruz, a dominarem com suas cabeças lívidas e já moribundas a multidão que lhes ondeia aos pés. Ora, daqueles três, só um tem a fronte curvada como um convencido, como um verdadeiro condenado que se envergonha dos seus crimes e os reconhece: é o Cristo.

Os outros dois estão no paroxismo da dor e da revolta. Um frêmito de ódio sacode-lhes os pobres membros regados de sangue. Eles parece terem esquecido todo o seu passado, não pensam em qual tenha sido a sua vida e qual também a sua justa condenação. Voltam-se contra Jesus, que parece a causa do seu suplício. Teriam eles sido crucificados naquele dia mesmo se o Cristo não tivesse tido de o ser? Ele lhes é, pois, ao menos a causa da sua morte antecipada, e em razão disto raivam, rangem de furor, blasfemando o divino Pendurado da Cruz.

Et latrones qui crucifixi erant cum eo improperabant ei (Mt. 27,44).

Jesus, cujo ouvido divino percebe todas as intenções secretas, condói-Se deles mais talvez do que os de baixo; sente nas palavras deles a dor abrasadora que os aguilhoa: e por eles tanto quanto pelos algozes foi que Ele deixou cair a sua doce e primeira prece: - Pai, perdoai-lhes, porque eles, principalmente eles, não sabem o que fazem.

Ó mistério das eleições divinas! Ó profundeza das potências da nossa vontade! Os dois ouviram a santa e abençoada palavra. Um se cala, opresso, aturdido por aquele golpe de misericórdia; o outro, entregue todo à sua dor, ao seu violento desejo de viver, à raiva de ter sido crucificado mais cedo por causa daquele Jesus, o outro, apanhado no ar todas as blasfêmias que sobem de baixo, pega de uma à passagem e exclama:

- Se verdadeiramente és o Cristo, começa por te salvares a ti mesmo, e a nós depois!...

Esta impetração não tinha nada, em si, de blasfêmia: o ladrão exacerbado clama àquele Messias, àquele taumaturgo, àquele Filho de Deus, que se salve a Si, e a eles ainda por cima. Não pede sequer a salvação para si só: Et nos, porém nós contigo, nós dois que estamos sofrendo e morrendo atrozmente. É provável, entretanto, que esse pedido tenha sido acompanhado e seguido de mais odiosas blasfêmias.

Insinua-se o evangelista: um dos ladrões, diz ele, blasfemava contra Ele, chamando:

- Salva-te então a ti mesmo e a nós dois contigo.

Mas a resposta brusca, viva do outro ladrão é a prova disso. Não é mesmo uma resposta, é uma violenta réplica:

- Oh! como! Brada o ladrão que estava defronte, nem tu também tens medo de Deus?... embora estejas morrendo no mesmo suplício?... Ainda para nós é só justiça; mas ele, ele não fez mal.

Que significa isto, em verdade? Eis então aquele ladrão, aquele celerado que cuspia blasfêmias havia apenas um instante, e que subitamente se faz advogado daquele a quem insultava? Chega até a falar de um Deus que estaria ali... pertinho... Será o delírio da agonia, será a demência do sofrimento que assim o fazem disparatar?

Há naquelas palavras uma sucessão rápida de sentimentos que denota o trabalho de uma graça excessiva.

O ladrão ouviu e ainda ouve todas as blasfêmias que sobem para a cruz: ouviu ao mesmo tempo a prece e o silêncio daquele Cristo pregado naquela cruz, daquele Cristo a quem alternativamente e por mofa chamam de Messias, de Rei dos Judeus, de Filho de Deus. A princípio ele se admira; mas em seguida parece apreender a monstruosa injustiça que cravou no mesmo patíbulo aquele Cristo benfeitor e a eles... celerados.

Sente então – por esse instinto supremo de justiça – que um Deus mais cedo ou mais tarde vingador paira sobre aquele drama do Calvário:

- Então não o temes... esse Deus, clama ele ao companheiro... nós, nós temos só aquilo que merecemos... mas Ele, esse companheiro que ai está, no meio... que mal fez?...

E olha para ele... e, à medida que fala, dir-se-ia que uma luz lhe invade o espírito.

- Não, não, esse ente que morre como nós, e que perdoa, e que ora morrendo, não é um ente vulgar: coroaram-no irrisoriamente... e cruelmente... mas, e se fosse um Rei? Matam-no porque ele é o falso Messias: mas, e se fosse o verdadeiro?

Se fosse o Filho de Deus... o próprio Deus?...

- É, eu creio, sinto, confesso-o e imploro-o...

E, volvendo os olhares súplices para o Cristo, murmurou:

- “Senhor, lembrai-vos de mim... quando chegardes ao vosso reino!”

Ó conversão estranha, exclama São João Crisóstomo. Ele vê um crucificado... e confessa um Rei da Glória! (Crisóstomo, homilias. De cruce et latrone.)

Vê chagas abertas e sangue que corre, diz Santo Ambrósio, e, bem longe de o crer um criminoso, reconhece-o como um Deus! (Ambrósio, sermão 50).

Ele não clama como os outros, diz Eusébio: Se é Deus, salva-me; mas sim: Já que és Deus, livra-me do julgamento futuro. (Eusébio, homilia de Latrone beato.) Meu Senhor e meu Mestre... dignai-vos de Vos lembrar de mim...

Assim, aquele homem já não crê, vê, a fé foi absorvida.

Ele já está nos esplendores da graça, compreendeu num instante toda a economia da vida e da morte divinas. (Cornélio a Lapide – Comnent. in Lucam, c. 23 ss 40 – chega até a dizer que, chamando ao companheiro: Neque tu times Deum? [Tu também não temes a Deus?] videtur Christum denotare eumque confiteri esse Deum, q. e.: Times vindictam Christi quem blasphemas, quia ipse non tantum est homo sed et Deus”; parece designar o Cristo e confessar que ele é Deus; ou seja: Não temes a vingança do Cristo que blasfemas? Porque Ele não é só homem, mas também Deus. – Santo Ambrósio e Eusébio têm esses mesmos sentimentos.) O homem que está ali no meio é um Deus, e está condenado embora não tenha feito mal algum, e morre por ser o grande celerado, o grande miserável da humanidade.

Mas é também o Rei lá do alto: tem, pois um reino, um palácio, servos: vai subir a esse reino, e pode fazer ali entrar quantos quiserem crer nEle.

E então ele crê, espera, ama, aquele, pobre ladrão sem letras e sem ciências, repleto de pecados e de ignomínias; mas ele sabe divinamente que todos os seus pecados, todas as suas ignomínias lá estão sobre aquele homem-Deus, como a púrpura real do Rei que Ele é: e diz docentemente fazendo-Se pequeno na Cruz, não podendo estender a mão como um mendigo, mas estendendo a alma dolorida e radiosa:

- Meu Senhor e meu Rei, lembrai-Vos de mim, - uma simples lembrança! – quando entrardes no Vosso grande reino.

E Jesus, que não pode mexer-Se, imóvel também, e Jesus, que não pode nem erguer a cabeça para o ósculo de amor nem levantar os braços para o perdão supremo, Jesus diz-lhe, entretanto com uma irradiação de bondade e de alegria inefável:

- Hoje, amigo, sou eu quem te diz, estarás junto a mim no paraíso.

No paraíso! Com Ele! Ouviste, ó pobre facinoroso? E entre a imobilidade dolorosa daqueles dois homens passou-se num instante a maior e a mais rápida ação que jamais tenha havido.

E agora o ladrão se clã: Jesus igualmente não diz mais nada; porém os seus dois semblantes se entreolham e os seus dois corações se falam: “In hoc enim totius forma salutis”, diz Santo Ambrósio (Sermão 50). E eis aqui todo o segredo da salvação eterna.

Reconhecer um Deus lá onde há um simples homem, e um homem humilhado; discernir através dos desfalecimentos do supliciado a glória do Rei eterno! E, quanto a nós, nas particularidades da vida, não nos escandalizarmos com a mão que nos fere: bem mais ainda, beijarmos essa mão quando nos lacera ou se retira; muito melhor, não murmurarmos do silêncio, às vezes esmagador, de Deus, e da convivência que Ele parece emprestar aos nossos inimigos: enfim, por toda parte e sempre firmes na fé e ardentes no amor, aguardarmos a “revelação futura” e consentirmos em murmurar o nosso Credo até o fim, nas trevas do Calvário: repito, é toda a santificação. In hoc totius forma salutis. Desde agora a noite pode vir, há ao pé da grande vítima um facho que arde: a alma luminosa do ladrão, que lhe ilumina a pavorosa agonia com a rutilação da bondade divina. Ele vela, ora, espera. “Comigo, no paraíso, hoje”; isto lhe basta, e ele torna a entrar na sua escuridão e na sua imobilidade.

Como Deus é bom! Como, depois do que acabamos de ver, não crermos que ele queira perdoar-nos?

Que é que nos impediria, aliás, de receber essa inesgotável misericórdia?...

Olha para o Calvário, ó minha alma: seriam os teus pecados? O número deles? A malícia? Toda a vida pregressa do bom ladrão é como que aniquilada num instante; abisma-se nesta palavra:

- Hoje, comigo, no paraíso. – Mas e ontem?
- Que importa o ontem? Se hoje estás no paraíso, que mais te é preciso?...
- Seria o tempo que te faltaria? Alguns segundos bastaram àquele criminoso.
- É a justiça de Deus que te assusta? – Onde está ela? Na Cruz. Em ti só vejo agora a obra da bondade. E então? Que é que pode atormentar-te?

Ó tortura, ó grandeza, ó suprema piedade de Deus! Ó meus pecados, como me inquietais pouco! Tivesse-os em cem vezes mais, que é preciso para os fazer para sempre perdoar?

É preciso estar na cruz: estaremos ao menos quando morrermos. É preciso reconhecer que sofremos justamente: é a única vantagem que devemos auferir dos nossos pecados. Finalmente, é preciso mendigar um olhar do Rei Jesus. Memento mei; menos do que um olhar, uma lembrança basta.

Tudo o que não passa de um temor ultrajante para com um Deus tão bom. Não só Ele perdoa, não só esquece, mas ao mesmo tempo diz:

- Estarás comigo hoje.
- E o purgatório?
- Comigo, digo-te, e no paraíso. Então eu não posso tudo apagar, tudo tirar, quando me apraz? Ecce agnus Dei qui tollit peccata mundi. Se eu tiro os pecados do mundo, não estão dentro os teus?...

E eis aí o segredo da paz e da confiança dos nossos últimos momentos.

- Mas eu sofro constrangido e forçado.
- Que importa, se sofres!

“Pois Jesus perdoa facilmente aos que sofrem com Ele e fazem um sacrifício voluntário dos seus males mesmos forçados” (Bossuet – meditação para o tempo do Jubileu, 5ª consideração.)

- Mas...
- Pára com as tuas objeções, alma ainda orgulhosa até o fim: acaso o pobre discute quando estende a mão? Estende a tua, recebe, e fica para sempre na gratidão.

Há almas santas que guardam sempre em reserva alguma força a fazer valer contra a justiça de Deus: uma irrisão!... teias de aranha diante de uma chama ardente!... mais vale ainda depender só da sua piedade.

Ir-se para Deus pobre, nu, vazio e despojado, nada mais tendo depois de ter tido tudo; só lhe poder apresentar a própria miséria e decadência, abeirar-se daquele juiz temível que penetra os anjos, e apresentar-se-Lhe sem advogado, sem inocência e sem reparação: de certo, que mais tremenda desgraça!... A não ser que se sinta desabrochar docemente nos lábios, com o espírito do bom ladrão, esta oração única que tudo salvará: In sola misericordia Domini spero salutem. Só da compaixão do Senhor espero a minha salvação. Amém (Epitáfio de uma antiga pedra sepulcral na igreja de São Remígio, em Reims.)

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: Terceira palavra: João e Maria.)

PS: Grifos meus.
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