segunda-feira, 31 de maio de 2010

As virtudes correlativas do Educador e do Educando - Parte II

As virtudes correlativas do Educador e do Educando
Parte II


A autoridade é uma ciência

Por que se pode dizer que a autoridade é uma ciência?
Porque o exercício do direito e o cumprimento do dever da autoridade exigem o conhecimento (a ciência) e o respeito dum certo número de princípios. Uns são remotos, outros imediatos: examiná-lo-emos sucessivamente.

Os princípios remotos

Quais são os princípios remotos a que está ligada a autoridade?
São cinco?

- É preciso começar a exercê-la muito cedo.
- É preciso que os pais sejam os primeiros a respeitar a fonte de toda a autoridade: Deus.
- É preciso que os pais apoiem a sua autoridade em Deus.
- É preciso que os pais mostrem em tudo um procedimento digno e nobre.
- É preciso que os pais evitem tudo que os possa colocar no mesmo pé de igualdade os filhos.

1º - É preciso começar muito cedo

"Curva a cabeça de teu filho na sua mocidade" (Eccli)

Por que é preciso que os pais afirmem muito cedo a sua autoridade?
Por que a experiência ensina que "se a criança não for dominada dos três aos quatro anos, é quase certo que nunca o será."
(F. Nicolay, As crianças mal educadas, p. 140)

Que sucederá se os pais se descuidarem na afirmação da sua autoridade logo nos primeiros anos dos filhos?
A criança cresce: a sua independência desenvolve-se com ela; as insubmissões são frequentes; tornam-se escandalosas; a sua arrogância é uma vergonha; os pais abrem enfim os olhos; decidem-se a reagir.
É muito tarde.

Se o pai e a mãe quiserem usar de rigor, encontram em face deles uma tal obstinação de resistência, que, com receio das conseqüências, renunciam à luta. Se os pais, apesar de tudo, querem impor-se pela força, a criança irrita-se, revolta-se interiormente, procura a causa daquela mudança de atitude, maldiz o lar onde o castigam, depois de a terem estragado: não aceita, nunca aceitará a autoridade.

2º - É preciso que os pais respeitem a fonte de toda a autoridade: Deus

"Que todo o homem seja submisso às autoridades superiores, porque não há poder que não venha de Deus" (S. Paulo, Rom, XIII, 1.)

Por que é preciso que os pais respeitem a autoridade?
Porque a autoridade é uma: não há a autoridade deste, a autoridade daquele; há simplesmente a autoridade; e tudo o que a ofender, seja neste ou naquele superior, enfraquece-a em todos os outros.

E depois, a criança, já tivemos ocasião de o fazer notar, é duma lógica implacável: não se submeterá por muito tempo à autoridade dos pais, se eles, pais, não se submeterem à autoridade de Deus.

"A autoridade não impõe o seu direito, quando aqueles que a exercem vivem duma maneira diferente da que recomendam aos outros." (Sto. Agostinho).

3º - É preciso que os pais apoiem a sua autoridade em Deus

"Se o Senhor não edifica a casa, é em vão que trabalham aqueles que a construem" (Ps. CXXVI)

Por que devem os pais apoiar a sua autoridade em Deus?
Porque Deus é a única base lógica, imutável e durável da autoridade.

Como farão os pais para convencer a criança da verdade deste ponto de apoio?
Evitarão, no exercício da sua autoridade, toda a consideração egoísta ou apaixonada; inspirados sempre na idéia do dever, manifestarão por ele um apreço profundo e afetivo.

4º - É preciso que os pais mostrem em tudo um procedimento digno e nobre

Por que devem os pais mostrar um procedimento digno e nobre?
- Porque o exercício da autoridade é fácil, quando aqueles que são depositários dela merecem estima. Ora, a estima só se obtém pela nobreza, dignidade e virtude.

Um domínio de si mesmo, uma firmeza sempre calma, uma atitude virtuosa elevam os pais aos olhos dos filhos, atraem a estima e afirmam a autoridade. Dom Bosco, de Turim, dirigia em passeio e durante um dia, 300 prisioneiros. (J.B.Francesia, Vida de Bom Bosco, p. 158)

- Pelo contrário, tudo o que rebaixa o homem, como as palavras grosseiras, as pragas, o excesso na bebida, os acessos de cólera, etc., são como pequenos escândalos, que fatalmente deprimem a autoridade de quem os dá.

Não há faltas que prejudicam mais gravemente a autoridade dos pais?
Podemos apresentar, como principais, a mentira e as preferências.

Quais são as formas de mentira, em geral mais abundantes na educação?
- Fazerem-se falsas promessas;
- Iludir-se a boa fé;
- Servir-se de flagrantes contradições da verdade.
(Nicolay, ob. cit., p. 98 e seg.)

Em que consistem as falsas promessas?
Consistem em explorar os desejos conhecidos ou supostos da criança, prometendo satisfazer-lhos, se obedecerem; e, obtido o resultado, esquecer, como por encanto, as promessas feitas... A criança deixa-se levar, porque é naturalmente confiante, acaba por se convencer de que zombam dela e abusam da sua credulidade.

Qual é o resultado destas verificações?
- A criança é obrigada a pensar que a mentira não é uma falta, porque a sua mãe a emprega a cada momento.

- Depois, um belo dia, mais desconfiada, porque a enganam sempre, deseja ver o que lhe prometem, ou então, escandalizada, revolta-se e grita:

- Há quantos anos que me andam sempre a prometer recompensas que eu nunca vejo... Para troça, já basta!

Nada mais insolente, nada mais justo!

Como se ilude a boa fé da criança?
Servindo-nos da sua confissão, para obter a sua docilidade, e voltando contra ela própria o ato de boa vontade que praticou.

- Porque fizeste isto muito bem, vou-te levar ao cinema.
E leva-se ao dentista!

- Dá-me o teu comboio, e verás como o faço manobrar.
- Agora, não o tornas mais a ver!

Não há ainda uma coisa pior?
É a de servir-se de flagrantes contradições de verdade.
Trata-se, por exemplo, e fazer tomar uma poção desagradável.

- Oh! não imaginas como isto é bom, diz a mãe, fazendo menção de provar.

A criança iludida, pega no remédio, e verifica imediatamente que a queriam obrigar a tomar uma beberagem de mau gosto... Enganaram-na: nunca se há de esquecer.

Se toma o remédio, é pior ainda, porque à humilhação de ter sido vítima dum logro, junta-se a indignação de ter sido enganada, e a ofensa do amor próprio produz, quase sempre, a raiva e o desejo de vingança.

Quais são as conseqüências que derivam destes métodos de engano odioso?
- Os pais rebaixaram-se a si próprios, desempenhando o papel de mentirosos.
- Educaram  às avessas, ensinando com gravidade a arte de enganar.
- Destruíram, para todo o sempre, a confiança na alma de seus filhos.

São frequentes as preferências?
Sim, infelizmente.

Algumas apoiam-se na semelhança física; sente-se naturalmente uma simpatia mais profunda por aqueles que apresentam as mesmas feições.

Outras derivam das qualidades exteriores de graça, de amabilidade e de inteligência. Um certo encanto nos liga mais fortemente àqueles cuja viveza adula o amor próprio, e faz conceber as mais belas esperanças.

Como se manifestam as preferências?
O preferido tem naturalmente mais preponderância; é mais acarinhado que seus irmãos e irmãs; poupam-no a trabalhos pesados; satisfazem-lhe os seus desejos; os próprios defeitos são considerados como virtudes, ou, pelo menos, tolerados; apontam-no como modelo, sem muitas vezes o merecer; e, atendendo a esta imaginária perfeição, a mãe declara bem alto que gosta mais dele que de todos os outros.

- Vê o teu irmão, olha como ele é bonito que obedece depressa, como se porta bem... É por isso que eu gosto mais dele do que de ti. E tu bem o deves saber...

Quais são os estragos causados por esta violência?
O preferido é uma criança cheia de mimos; torna-se orgulhoso, soberbo, cheio de caprichos, preguiçoso, impossível de aturar, sensual e transviado...

Os outros são quase necessariamente invejosos e odientos. O espírito deles torna-se sombrio, e o coração azeda-se-lhes e torna-se insensível porque é assaltado pela amargura e, frequentemente, pelo ódio.

Sim, pelo ódio.
Recordai-vos da história de José, pais e mães imprudentes: foi para vós que essa história se escreveu.

5º - É preciso que os pais evitem tudo o que os coloca no mesmo pé de igualdade com seus filhos

"As crianças devem ter por amigos os companheiros, e não os pais e as mães"
(Jaubert, pensamentos)

Por que se faz esta recomendação?
Porque a igualdade exclui a autoridade.

As liberdades na linguagem, as familiaridades no tratamento, um à-vontade nos divertimentos, diminuem as distâncias, produzem uma impressão de igualdade e prejudicam a autoridade.

"Adulai o vosso filho, e ele causar-vos-á grandes desgostos; brincai com ele e ficareis contristados. Não vos divirtais a rir com ele: tende receio de que daí venha uma dor, e tenhais, por fim, que arrepender-vos." (Eccli, XXX,9-10)

Não é também a opinião dos pensadores de todos os séculos?
Ouçamos Platão:

"Quando no interior das famílias domina a igualdade insolente, tudo, até os seus animais, parece respirarem anarquia. O pai teme e respeita seu filho, e o filho em breve trata o pai como a um igual. Já não tem pelos autores dos seus dias nem respeito nem temor; quer poder dizer em todos os casos: sou livre."

E de Bonald:

"Afetos fora da influência da razão, e uma educação doméstica mole e sem dignidade tomaram o lugar das relações de autoridade e submissão entre os pais e os filhos, das quais a geração passada viu na sua mocidade os últimos vestígios. Crianças que tinham no seu espírito idéias de igualdade com seus pais, e no coração sentimentos de insubordinação contra as suas vontades, praticavam o abuso de os tratar por tu, maneira de falar que, na nossa língua, exprime consciência da sua fraqueza, não ousavam dominar os filhos pela sua autoridade, aspirando tão somente a serem os seus amigos, confidentes e, muitas vezes, os seus mplices. Havia em França pais, mães, filhos, mas faltava a autoridade na família, e a sociedade política foi abalada até aos alicerces."

(Catecismo da educação, por Abade René de Bethléem, continua com o artigo: Os meios imediatos)

PS: Grifos meus.
Ver também: Parte I

sábado, 29 de maio de 2010

Papel especial de Maria nos últimos tempos

A devoção à Santíssima Virgem
será especialmente necessária nesses últimos tempos

  
Papel especial de Maria nos últimos tempos

Por meio de Maria começou a salvação do mundo e é por Maria que deve ser consumada. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria quase não apareceu, para que os homens, ainda insuficientemente instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de Seu Filho, não se Lhe apegassem demais e grosseiramente, afastando-se, assim, da verdade. E isto teria aparentemente acontecido devido aos encantos admiráveis com que o próprio Deus Lhe havia ornado a aparência exterior.

São Dionísio o Areopagita o confirma numa página que nos deixou e em que diz que, quando A viu, tê-lA-ia tomado por uma divindade, tal o encanto que emanava de Sua pessoa de beleza incomparável, se a fé, em que estava bem confirmado, não lhe ensinasse o contrário. Mas na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deverá ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de que por Ela seja Jesus Cristo conhecido, amado e servido, pois já não subsistem as razões que levaram o Espírito Santo a ocultar Sua esposa durante a vida e a revelá-lA só pouco depois da prepagão do Evangelho.

Deus quer, portanto, nesses últimos tempos, revelar-nos e manifestar Maria, a obra-prima de Suas mãos:

- Porque Ela se ocultou neste mundo, e, por humildade profunda, Se colocou abaixo do pó, obtendo de Deus, dos apóstolos, e evangelistas não ser quase mencionada.

- Porque, sendo a obra-prima das mãos de Deus, tanto aqui em baixo, pela graça, como no céu, pela glória, Ele quer que, por Ela, os viventes O louvem e glorifiquem sobre a terra.

- Visto ser Ela a aurora que precede e anuncia o Sol da justiça, Jesus Cristo, deve ser conhecida e notada para que Jesus Cristo O seja.

- Pois que é a via pela qual Jesus Cristo nos veio a primeira vez, Ela o será ainda na segunda vinda, embora de modo diferente.

- Pois que é o meio seguro e o caminho reto e imaculado para se ir a Jesus Cristo e encontrá-lO plenamente, é por Ela que as almas, chamadas a brilhar em santidade, devem encontrá-lO. Quem encontrar Maria encontrará a vida (cf. Prov. 8,35), Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). Mas não pode encontrar Maria quem não A procura; não pode buscá-lA quem não A conhece, e ninguém procura nem deseja o que não conhece. É preciso, portanto, que Maria seja, mais do que nunca, conhecida, para maior conhecimento e maior glória da Santíssima Trindade.

- Nesses últimos tempos, Maria deve brilhar, como jamais brilhou, em misericórdia, em força e graça. Em misericórdia para reconduzir e receber amorosamente os pobres pecadores e desviados que se converterão e voltarão aos seio da Igreja Católica; em força contra os inimigos de Deus, os idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios empedernidos, que se revoltarão terrivelmente para seduzir e fazer cair, com promessas e ameaças, todos os que lhe forem contrários. Deve, enfim, resplandecer em graça, para a animar e sustentar os valentes soldados e fiéis de Jesus Cristo que pugnarão por Seus interesses.

- Maria deve ser, enfim, terrível para o demônio e seus sequazes como um exército em linha de batalha, principalmente nesses últimos tempos, pois o demônio, sabendo bem que pouco tempo lhe resta para perder as almas, redobra cada dia seus esforços e ataques. Suscitará, em breve, perseguições cruéis e terríveis emboscadas aos servidores fiéis e aos verdadeiros filhos de Maria, que mais trabalho lhe dão para vencer.

É principalmente a estas últimas e cruéis perseguições do demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do Anticristo, que se refere aquela primeira e célebre predição e maldição que Deus lançou contra a serpente no paraíso terrestre. Vem a propósito explicá-la aqui, para glória da Santíssima Virgem, salvação de Seus filhos e confusão do demônio.

"Inimicitias ponam inter te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret caput tuum, et tu insidiaberis calcaneo eius" (Gn 3,15): Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela, Ela te pisará a cabeça, e tu armarás traições ao Seu calcanhar."

Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, Sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele lhe deu até, desde o paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrir a malícia dessa velha serpente, tanta força para vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus.

Não que a ira, o ódio, o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da Santíssima Virgem, pois as perfeições de Maria são limitadas, mas, em primeiro lugar, Satanás, porque é orgulhoso, sofre incomparavelmente mais, por ser vencido e punido pela pequena e humilde escrava de Deus, cuja humildade o humilha mais que o poder divino; segundo, porque Deus concedeu a Maria tão grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos, infunde-lhes mais temor um só de Seus suspiros por uma alma, que as orações de todos os santos; e uma só de Suas ameaças que todos os outros tormentos.

O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por humildade. O que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao poder infernal; Maria, por Sua perfeita fidelidade a Deus salvou consigo todos os Seus filhos e servos e os consagrou a Deus.

Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menos sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns e outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacob, figurando os réprobros e os predestinados.

Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que Ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo o orgulho. Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até ao fim dos tempos garantirá Seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo.

Mas o poder de Maria sobre todos os demônios há de patentear-se com mais intensidade, nos últimos tempos, quando Satanás começar a armar insídias ao seu calcanhar, isso é, aos seus humildes servos, aos seus pobres filhos, os quais ela suscitará para combater o príncipe das trevas. Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e rebaixados diante de todos como o calcanhar, calcados e perseguidos como o calcanhar em comparação aos outros membros do corpo.

Mas em troca, eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda a criatura, por seu zelo ativo, e tão fortemente amparados pelo poder divino, que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo.

(Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem - São Luís Maria G. de Montfort - pág. 50 a 57)

PS: Grifos meus.

Devoção a Maria Santíssima (São João Bosco)

ARTIGO IV
Devoção a Maria Santíssima


São João Bosco

Um grande sustentáculo para vós, meus queridos filhos, é a devoção a Maria Santíssima. Ouvi como ela vos convida: Si quis est párvulus, véniat ad me: Quem for pequenino, venha a mim. Si fordes seus devotos, além da abundância das suas bênçãos neste mundo, Ela vos garante o paraíso na outra vida. Qui elúcidant me, vitam eternam habébunt.

Tende pois amais íntima convicção de que obtereis todas as graças desta boa mãe, contanto que não peçais coisas que resultem em vosso dano. Deveis pedir-lhe com insistência particularmente três graças, que são necessárias para todos, mais especialmente para vós, meus caros jovens.

A primeira é a de não cometerdes nunca nenhum pecado mortal durante a vossa vida. Sabeis que significa cair em pecado mortal? Quer dizer renunciar a sermos filhos de Deus para tornar-nos escravos de satanás. Quer dizer perder aquela beleza que nos faz iguais aos anjos aos olhos de Deus, para tornar-nos deformes como demônios na sua presença.

Quer dizer perder todos os merecimentos já adquiridos para a vida eterna; quer dizer ficar suspenso por um fio muito fraco por sobre a boca do inferno; quer dizer fazer enorme injúria a uma bondade infinita e é este maior mal que se possa imaginar. Oh! Sim, por quantas graças vos obtenha Maria, seria todas inúteis sem esta graça de não cair nunca em pecado mortal. Esta é graça que haveis de pedir de manhã e á noite e em todas as vossas práticas de piedade.

A segunda graça que deveis pedir a Nossa Senhora é a de poder conservar a preciosa virtude da pureza. O jovem que a conserva tem a maior semelhança com os Anjos do Céu. Pelo que o seu anjo da Guarda o considera como irmão e se alegra sobremaneira pela sua companhia. Como me está muito a peito que todos os conserveis esta bela virtude, vos indico ainda alguns outros meios para conservá-la do veneno que a poderia contaminar.

Antes de tudo evitai a companhia das pessoas de diversos sexos. Entendamo-nos: Quero dizer que os meninos nunca devem contrair familiaridades com meninas; de outra forma esta bela virtude se acharia em grande perigo. A guarda dos sentidos contribui também muitíssimo a conservação desta bela virtude. Evitai portanto todo excesso no comer e no beber; evitai os teatros, os bailes e semelhantes diversões, que são a ruínas dos bons costumes.

Mas guarde particularmente os olhos, que são as janelas pelas quais o pecado entra no nosso coração e por onde o demônio, vêem a tomar posse de nossa alma.nunca vos detenhais a olhar para as coisas contrárias, por pouco que seja, á modéstia. São Luis Gonzaga nem sequer queria que lhe vissem os pés, quando se deitava ou quando se levantava.

Outro menino, sendo interrogado porque fosse tão recatado na vista, respondeu: Tomei a resolução de não fitar nunca o rosto de uma mulher, para reservar os meus olhos para fixar pela primeira vez se não for indigno formosíssimo da Mãe da Pureza, Maria Santíssima.

A terceira graça que deveis implorar solicitamente da Virgem Imaculada é de poder sempre andar afastados da companhia daqueles jovens que tem más conversas, isto é, certas conversas que não se fariam na presença de vossos pais ou de alguma pessoa de respeito. Guardai-vos destes tais, muito embora fossem eles vossos parentes. Posso garantir-vos que ás vezes é mais prejudicial a companhia desses, do que a de um demônio.

Felizes vós, meus caros filhos, se fugirdes da companhia dos maus! Então estareis certos de que trilhais o caminho do céu; diversamente, correreis muito grande perigo de perder-vos para sempre. Por isso quando virdes companheiros vossos proferirem blasfêmias, desprezar as práticas religiosas para afastar-vos da igreja ou, pior ainda, dizer palavras contrárias, por pouco que seja, á virtude da modéstia, fugi deles como da peste.

Ficai certos de que, quanto mais puros forem os vossos olhares e vossas conversas, tanto mais Maria se comprazerá em vós e maiores graças vos alcançará de Seu Filho e Nosso Redentor Jesus Cristo. São essas três graças mais necessárias na vossa idade; e as alcançareis, com certeza, de Nossa Senhora, se fordes sempre Seus devotos sinceros, rezando todos os dias o Santo Rosário ou ao menos três ave Maria e três glórias com a Jaculatória: Querida Mãe Virgem Maria fazei que eu salve a minha alma.

Com essas três graças trilhareis desde agora o caminho que vos há de tornar homens honrados na idade madura. Nessas graças tereis também o penhor certo da felicidade eterna que Maria Santíssima á de alcançar infalivelmente aos seus devotos.

(Jovem instruído - São João Bosco)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Santa Cecília (poesia de Santa Teresa do Menino Jesus)

Santa Cecília


Ao som dos instrumentos
Cecília cantava em seu coração

Ó Santa bem-amada, contemplo extasiada
essa sulco de luz que deixas atrás de ti.
Creio ainda escutar tua doce melodia;
sim, teu canto celeste ainda chega a mim!
De minha alma exilada escuta a oração:
Deixa-me reclinar em teu coração virgem
o lírio imaculado que brilhou nesta terra,
envolto em bela luz de fulgor sem igual.

Ó castíssima Pomba, atravessando a vida
só buscaste um esposo e não outro: Jesus!
Tendo escolhido tu'alma, a ela Se uniu,
pois a viu perfumada e com todas as virtudes.
Entretanto, um mortal cheio de juventude
sentiu o teu perfume, ó branca e celeste flor!
E a fim de te colher, de ganhar tua ternura,
Valeriano quis dar-te o seu coração.

Logo ele preparou núpcias magníficas,
com o palácio reboando ao som das melodias...
Mas teu coração virginal repetia cânticos
cujo eco divinal se elevava até o céu.
Que podias cantar longe de tua Pátria,
vendo a teu lado somente um coração mortal?
Querias, certamente, abandonar a vida
e te unir a Jesus para sempre no céu...

Mas não... ouço vibrar a tua lira angélica
lira do teu amor, de som que foi tão doce,
cantando a teu Senhor este canto sublime:
"Conservai puro meu coração, ó Jesus,
meu terno Esposo!..."
Que abandono inefável! Divina melodia!
Desvelas teu amor por teu celeste canto.
O amor que nada teme, adormece e se entrega
ao coração de Deus, como uma criancinha.

No céu apareceu, toda branca, uma estrela
que se pôs a alumiar com seus tímidos brilhos
a noite de esplendor que nos mostrou, sem véus,
o virginal amor do Esposo lá dos Céus...

Valeriano, em sonho, antevia a alegria
no desejo de ter, Cecília, o teu amor...
Felicidade e paz ele achou junto a ti
e tu lhe revelaste uma vida sem fim.
E lhe disseste: "Amigo, a meu lado, de pé,
um anjo do Senhor guarda puro o meu corpo;
jamais ele me deixa e, até quando adormeço,
com suas asas azuis alegre me protege.
Vejo brilhar, à noite, a sua face amável
com mais suave luz que o resplendor da aurora.
Seu rosto me parece a transparente imagem,
a pura irradiação do semblante divino".

E Valeriano: "Então me deixe ver esse anjo
senão podes temer que o meu amor se mude
em terrível furor, em ódio contra ti..."
Ó Pomba que num vão de rochedo se esconde!
Não temias a rede do teu caçador.
A Face de Jesus te mostrava sua luz,
repousava em teu peito o Evangelho sagrado...
Com teu doce sorriso assim recomeçaste:
"Meu celeste Guardião, escuta teu pedido
e tu logo o verás; ele te vai dizer
que para voar ao céu deves tornar-te mártir.
Mas antes de enxergá-lo é mister que o batismo
derrame em tua alma uma brancura santa
e que o Deus verdadeiro habite nela vivo
e que em teu coração viva o Espírito Santo.
O Verbo, Filho de Deus e Filho de Maria,
em Seu imenso amor Se imole sobre o altar.
Tu deves te assentar no Banquete da Vida
a fim de receber Jesus, o Pão do céu.
Então o Serafim te chamará de irmão
e vendo, dentro de ti, o trono do seu Deus,
far-te-á abandonar as pragas deste mundo
e verás onde mora o Espírito de fogo".

"Sinto dentro do peito ardor de chama nova"
Disse com alegria o fogoso patrício.
"Que esse Deus verdadeiro habite em minha alma,
Cecília, e o meu amor será digno do teu..."

Revestido da veste, emblema de inocência,
Valeriano de ver o belo anjo do céu;
absolto contemplou seu sublime poder
e viu em sua fronte irradiante fulgor.
Brilhante Serafim trazia frescas rosas
entremeadas de lírios de nívea brancura,
rosas que no jardim do céu desabrocharam
sob os raios do Amor de Deus, Astro Criador.

"Esposos que o céu ama, as rosas do martírio
cingirão vossas frontes", diz o anjo de Deus,
"Não há no mundo voz, tampouco lira existe,
capazes de cantar tão inefável graça!
Eu me abismo em meu Deus, Seus encantos contemplo,
mas não posso imolar-me nem sofrer por Ele.
Não lhe posso ofertar nem lágrimas nem sangue;
malgrado meu amor, não posso morrer...
A pureza de um anjo é a luminosa herança
de uma felicidade imensa que não passa,
mas neste ponto, sim, venceis os Serafins:
sois puros e além disso ainda podeis sofrer!...

Da virgindade vedes o símbolo
nos lírios perfumados que o Cordeiro envia,
com os quais vos cingirão a fronte em branca auréola.
E, então, entoareis um canto sempre novo;
da vossa casta união só almas vão nascer,
almas que só Jesus hão de ter como esposo.
Vós as vereis brilhar como chamas puras
junto ao trono de Deus, morada dos eleitos."

Ah, Cecília, empresta-me tua doce melodia:
Desejo converter todos os corações a Jesus!
Gostaria também de imolar minha vida,
ofertando a Jesus meus prantos e meu sangue...
Dá-me saborear, nesta terra estrangeira,
o perfeito abandono, doce fruto do amor.
Dá-me, santa querida, a graça de voar
para longe desta terra em revoada sem volta!

28 de abril de 1894

(Obras completas de Santa Teresa do Menino Jesus )

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Virgem Maria

A Virgem Maria



A Virgem Maria. - Seus pais.
 - Sua Conceição Imaculada. -
Sua vida no templo. - Os desposórios
- A anunciação. - A Encarnação.

Naquele tempo vivia em Nazaré, pequeno burgo da Galiléia, uma Virgem donzela da tribo de Judá, parenta chegada de Izabel e Zacarias. Chamava-se Maria.

Tudo o que os homens sabiam d'Ela, era que sob um exterior singelo e modesto cultava um nascimento ilustre. Por parte de Seu pai Joaquim e de Sua mãe Ana, a família sacerdotal de Aarão. Depois da queda da antiga dinastia, os seus antepassados, despojados da sua alta dignidade e fortuna, e perseguidos, como pretedentes perigosos, pelos novos senhores da Judéia, tinham procurado na obscuridade o repouso.

Desconhecidos ao sombrio Heródes, e ocultos num valesinho solitário, Joaquim e Ana lá viviam em paz dos frutos dos seus rebanhos, bastante ricos, apesar da sua decadência, para aliviar os indigentes e oferecer abundantes vítimas sobre o altar de Jeová.

E contudo decorriam-lhes os dias na tristeza, porque se recusava o Céu a abençoar-lhes com a prole a sua união. Como a mãe de Samuel, cujo nome gracioso tinha, suplicava Ana ao Senhor que lhe pusesse termo à esterilidade: Joaquim juntava as suas preces às da desolada esposa, mas parecia que Deus se comprazia em exercitar-lhes a paciência.

E contudo, por causa da sua perfeita virtude, tinha-os Deus escolhido para executar o mais admirável desígnio de quantos concebera. No momento em que os dois esposos perdiam de todo a esperança, deu-lhes o Senhor uma filha que havia de ser eternamente a Sua glória e a honra da nação.

Esta criatura bendita, colocara-A Deus em Seus eternos decretos acima de toda a criatura, acima dos reis e rainhas, que no decorrer dos séculos representariam o Seu divino poder; acima dos santos, nos quais resplandeceriam com maior brilho as Suas perfeições infinitas; acima até dos nove coros de espíritos gloriosos que Lhe rodeiam o trono. Eva no paraíso terrestre, parecia-lhe menos pura, Ester menos amável, Judite menos forte e menos intrépida.

Ao criar esta Virgem, fez um milagre, com que não favoreceu nenhum filho de Adão. Posto que saída duma raça manchada desde o princípio, preservou-A do pecado original. A torrente lodosa que vai rolando suas ondas por cima de todo o homem que vem a este mundo, deteve-se no momento da Sua Conceição; e pela primeira vez, desde o naufrágio do gênero humano, descobriram os anjos sobre a nossa terra uma criatura imaculada. E por isso num santo arroubamento exclamaram:

"Quem é esta mulher, formosa como o sol, radiante como o astro das noites?"

Ana e Joaquim receberam com gozo esta filha privilegiada de Deus, cujo glorioso nascimento haviam de celebrar à porfia os anjos e os homens. Não conheciam os pais toda a grandeza do tesouro confiado aos seus cuidados, mas bem cedo observaram que a celeste menina em nada se parecia com nenhuma outra criança da terra.

Antes de poder articular palavra, já a razão presidia a todos os seus atos e até nos movimentos mais instintivos nunca obedecia às tendências desordenadas que germinam em todos os corações, inficionando-os. Maravilhados com os dons que Deus prodigara àquele anjo da terra, Ana e Joaquim prometeram consagrar-Lhe a infância ao serviço particular do templo. E de fato, apenas terminava o Seu terceiro ano de vida, levaram-na para a cidade santa afim de a apresentar ao Senhor.

A menina subiu gozosa os degraus do templo, contentíssima de se encontrar na casa de Deus, cujo amor era o que só fazia bater-Lhe o coração. Ali nos aposentos vizinhos do santuário, no meio das Suas piedosas companheiras viu ela passar demasiado rápidos os belos dias da juventude.

As Suas ocupações consistiam na meditação dos Livros santos, e em confeccionar os ornamentos destinados ao culto divino e em cantar os louvores de Jeová. Por vezes com o rosto  voltado para o Santo dos Santos, tomava do seu avô David os cantos inspirados e com um coração mais ardente que o do santo rei, repetia Ela esta letra de amor:

"Senhor que amaveis são os Vossos tabernáculos! Um dia passado em Vosso templo vale mais do que mil nas tendas dos pecadores."

A hora dos sacrifícios, quando o sacerdote imolava a vítima sobre o altar dos holocaustos, suplicava Ela a Jeová que aceitasse pela salvação do povo aquele sangue de expiação e que enviasse enfim o Messias prometido a seus pais. Era o seu único desejo ver com os Seus olhos e venerar a mulher bendita que o havia de dar ao mundo.

Com diferença das filhas de Israel, das quais cada uma aspirava a honra de vir a ser a mãe do Libertador, Maria julgava-se indigna deste inefável privilégio. Um dia até, impelida pelo Espírito de Deus... esquecendo-se de que vivia num corpo de carne, elevou-se até aos anjos do Céu, e prometeu ao Senhor de não ter outro esposo mais que a Ele.

Quando chegaram os dias da adolescência, houve a donzela de deixar o templo e voltar para a Sua casa de Nazaré. O pai e a mãe haviam descido ao sepulcro. Na idade de quatorze anos, encontrou-Se a pobre orfã sozinha, sem proteção nem arrimo. Propuseram-lhe os membros da Sua parentela, entre os quais Izabel e Zacarias, que Se desposasse com um homem da Sua família, conforme prescrevia a lei.

Na qualidade de herdeira única devia tomar, como esposo, o parente mais próximo afim de conservar o patrimônio dos Seus antepassados. Entregando-se de toda a direção do Espírito que a inspirava a seguir este conselho, consentiu, apesar do Seu voto, no matrimônio que lhe propunham. O esposo da Virgem chamava-se José. Sendo, como Maria, da casa de David, descendia diretamente dos reis de Judá pelo ramo de Salomão.

Mas, posto que remontasse até Abrãao por uma esplendida série de antepassados, a nobreza do seu caráter sobrepujava ainda o lustre do nascimento. Justo e temente a Deus, mas pobre e obscuro também, como Maria, exercia em Nazaré o humilde emprego de carpinteiro e ganhava a vida com o suor do rosto. Avisado do voto que a esposa fizera, entrou nos desígnios de Deus, e constituiu-se o guarda da Sua virgindade.

Não esperava o Senhor mais que por esta angélica união para realizar o projeto cuja execução vinha preparando havia quarenta séculos. Uma tarde, ajoelhada na Sua humilde morada, expandia a Virgem de Nazaré a Sua alma diante de Deus com mais fervor que nunca. Eis que de súbito a envolve uma luz celeste e a tira do Seu recolhimento.

Volta a cabeça e observa um anjo em frente de si a alguns passos do lugar em que estava. Era o grande mensageiro de Deus, o arcanjo São Gabriel, aquele mesmo que há quinhentos anos, revelara a Daniel os tempos messiânicos e acabava de predizer a Zacarias o nascimento do Precursor.

Inclinou-se profundamente diante da Virgem e disse-Lhe com a humildade dum vassalo diante da sua rainha:

"Deus vos salve, ó cheia de Graça, o Senhor é conVosco, bendita sois Vós entre todas as mulheres."

Maria reconheceu logo um espírito celeste, e por isso não se assustou com esta visita; mas aqueles louvores que Lhe não parecia deverem-se dirigir a uma pobre mortal, causaram-Lhe grande perturbação. Pela Sua atitude e pelo rubor das faces, adivinhou o anjo o sentimento que a agitava: prosseguiu pois com doçura, chamando-A desta vez pelo Seu nome.

"Maria, Vós encontrastes graça diante de Deus. Eis o que Ele me encarrega de Vos anunciar: Vós concebereis e dareis à luz um filho, a quem dareis o nome de Jesus. Será grande, e chamar-Se-á filho do Altíssimo. Dar-Lhe-á o Senhor o trono de seu pai David, reinará na casa de Jacó, e o Seu reino não terá fim."

Não havia aqui possibilidade de engano: o Messias, havia quatro mil anos esperado, ia aparecer, e este Messias libertador, verdadeiro Filho de Deus, seria ao mesmo tempo Filho de Maria. Esmagada sob o peso de semelhante dignidade, permaneceu a Virgem por um momento assombrada; depois, refletindo no voto de virgindade, que a todo o custo queria guardar, fez esta pergunta ao arcanjo:

"Como será isso possível, quando eu não conheço homem?"

"O Espírito Santo descerá sobre Vós, respondeu o celeste mensageiro, e a virtude do Altíssimo Vos protegerá com a Sua sombra; por isso o Santo que de Vós há de nascer, chamar-Se-á Filho de Deus. Sabeis que Izabel, Vossa prima, concebeu um filho na sua velhice, e eis aí que há seis meses a que era estéril se tornou fecunda: porque a Deus nada é impossível."

Maria não precisava deste exemplo para crer que para a onipotência divina os prodígios são como brinquedos. Entendendo que por intervenção desse poder viria a ser mãe sem deixar de ser virgem, aniquilou-Se diante de Deus e exclamou:

"Eis a escrava do Senhor, cumpra-se em mim a Vossa Palavra." 

Depois de ter obtido este perfeito consentimento, desapareceu o anjo; e o Filho do Eterno, descendo das mansões celestiais, encarnou no seio virginal da Mulher Imaculada. Nesse momento, saudaram os exércitos angélicos ao Rei dos reis e ao Senhor dos senhores: ao Homem-Deus; como Homem, filho de David, filho de Abrãao, filho de Adão, formado do mais puro sangue da bem-aventurada Maria; como Deus, gerado desde toda a eternidade, Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

E tal é o adorável mistério que arrebatou aos anjos e ao próprio Deus nessa noite mil vezes bendita: o mistério do Verbo feito carne. A memória desta noite relembra-a o sino a todos os filhos dos homens, pela manhã, quando tudo desperta aos primeiros fulgores do dia; ao meio-dia, quando o trabalhador interrompe algum tempo os seus trabalhos; e à tardinha quando o sol ao pôr-se nos vem de novo trazer o descanso.

Então, quando essas alegres badaladas repetirem aos campos e as cidades, aos vales e aos montes:

"O Verbo se fez carne e habitou entre nós";

dobrar-se-á todo o joelho, toda a fronte se inclinará diante do Homem-Deus e de todos os peitos humanos irromperá esta exclamação de amor em honra da Virgem-Mãe:

"Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é conVosco, bendita sois Vós entre as mulheres."

(Jesus Cristo, Sua vida, Sua paixão, Seu triunfo, pelo R. Pe. Berthe, da Congregação do SSmo. Redentor - 1925)

PS: Grifos meus.

10ª Conferência (Mons. Landriot): A mulher e a verdadeira força - II Parte

Nota: A parte em azul (introdução do texto) é um resumo da 9ª Conferência do Monsenhor Landriot, que terá sua continuidade nessa que transcrevo a seguir, ele trata da mulher e a verdadeira força.
Leitura muito frutuosa por sinal.

Décima conferência
(Monsenhor Landriot, Arcebispo de Reims,
feitas às senhoras da associação de caridade, 1877)


Accinxit fortitudine lumbos suos,
et roboravit brachium suum.(Prov. XXXI)

Pôs a força como um cinto em volta de seus rins,
e fortaleceu seu braço.

Senhoras.

A força, já o dissemos, é uma energia da alma, que nos faz suportar com serenidade os enfados e os males da vida, que nos dá a coragem de prosseguirmos nos nossos intentos com inabalável firmeza, e nos conserva um vigor de ação, que os obstáculos humanos não podem deter.

Cada uma das nossas qualidades tem dois defeitos vizinhos que caminham de cada lado, um à direita, outro à esquerda, este pecando por excesso, aquele por privação. Esta máxima aplica-se perfeitamente à força e à firmeza de caráter: a obstinação excede os limites da verdadeira força, porque leva as suas idéias além do verdadeiro e do conveniente tornando-se, por isso mesmo, uma fraqueza perigosa como a locomotiva que descarrila.

A fraqueza, propriamente dita, é, pelo contrário, o defeito de um ser sem consistência que toma as formas que se quer, e que se colore sucessivamente com todas as cambiantes de idéias.
Muitas vezes, este último defeito é apenas o cálculo político das naturezas de camaleão, que variam de cor, segundo a posição e os reflexos do sol; pois, verdadeiros atores, têm sempre meia dúzia de opiniões no seu camarim, vestindo-se do mesmo modo que o histrião muda de trajes.

Entre a obstinação e a fraqueza, caminha a verdadeira firmeza, que se prende às suas idéias, aos seus projetos, tanto quanto é necessário: secundum quod oportet – diz São Tomás – expressão cheia de senso e de amplitude, que não fixa as coisas de um modo absoluto, e que abandona as soluções às circunstâncias reguladas pela sabedoria prática.

Antes de terminar estas diferentes explicações, devo assinalar-vos outro defeito, que se opõe à força e lhe paralisa a ação – a susceptibilidade. Quando se tem febre, a pele torna-se, de tal modo, susceptível, que até é necessário garantir os doentes contra a menor ação do ar: dir-se-ia que, nas naturezas susceptíveis, a pele da alma é trabalhada por uma febre moral, que a mais leve aragem duplica. Quase que se torna necessário encerrar tais temperamentos numa caixa de algodão, e, ainda assim, creio que, à força de se agitarem, acabariam por tornarem irritada a pele.

Continuemos senhoras, este importante assunto e terminemos hoje o comentário ao versículo:
- Ela pôs a força como um cinto em volta de seus rins, e fortaleceu seu braço.”

O animal marítimo tem o seu invólucro, o soldado o escudo, o navio o forro de cobre. A alma deve ser também o seu escudo e o seu cinto; o escudo, que é a firmeza, o cinto, que é a força: Accinxit fortitudine lumbos suos, et roboravit brachium suum.

A força é necessária, tem um uso quotidiano, nem sempre para atuar, mas, sobretudo para suportar, para resistir á ação dos choques exteriores, e das desventuras íntimas. A ponte de granito suspensa sobre um vasto rio, não atua; é imóvel, mas é forte porque suporta tudo, porque resiste á rápida corrente, à ação do ar, ao peso das viaturas e dos transeuntes, e porque se agüenta a si própria: todos estes fardos reunidos formam uma carga enorme, de que só os engenheiros apreciam a gravidade.

Vede ainda a trave: só ela, se fosse sensível, poderia avaliar o peso que tem em cima, só ela poderia queixar-se dele, porque só ela conhece o seu trabalho de resistência. Também para o homem a principal ação da força consiste em sofrer os acontecimentos da vida, e em se suportar a si próprio. Esta ação primária e principal da força é a que exige mais constância e energia: está latente, ninguém a descobre, ninguém a suspeita, mas, muitas vezes, o coração do homem é semelhante a uma trave, prestes a ceder, mesmo quando todos o crêem feliz e isento de tribulações, precisamente porque tudo está misteriosamente oculto e invisível no desenvolvimento da força interior.

Quantas almas não têm feito assim uma quotidiana despesa de coragem! Quantos corações não têm suado continuamente o sangue da sua vida mais íntima, sem que nada tenha transparecido no exterior!

Felizmente o que mais atrai o olhar do Céu, o que os anjos têm como melhor, aquilo que o Senhor mais leva em conta, é a vida íntima que desliza em segredo, longe dos olhos do homem, e que o olhar do mundo não profanou pelas influências da sua vaidade corruptora; é o que cabe, gota a gota, do coração, para ir diretamente ao coração de Deus: - Pater tuus qui videt in abscondito, redd et tibi (Mat., VI, 4).

Sim, há lá em cima um Pai, cujo coração é onipotente de amor, que vê tudo, e tudo sabe; e quando a alma está ligada a esta idéia fundamental, torna-se forte, porque pode dizer com um santo anacoreta: - “Eu saberei, se for preciso, ficar só neste mundo com Deus: Nisi homo dixerit in corde suo: Ego solus et Deus simus in mundo, requiem non habebit. (Apopht. Patr. – Patrol. Graec.)

Quando a força se exerce exteriormente, quando atua, quando fere como o guerreiro, ou vai lutar contra os obstáculos, como o fragata blindada de ferro, ela exige muito menos vigor moral: pois a natureza humana é tal, que a ação excita a coragem, e o movimento de impulso tem a propriedade de desenvolver o vigor; é possível também que mil considerações de amor próprio não sejam estranhas á vivacidade da ação.

A força física, em diferentes graus, é necessária em todos os movimentos do corpo, é necessária a todas as horas do dia. Do mesmo modo, a força moral, é de um uso quotidiano e contínuo. O homem tem necessidade dela para lançar contra as dificuldades da vida, contra os perigos do mundo, os revezes da fortuna, as dores da família, as atribulações íntimas, e contra essas mil formas de sofrimento, de ansiedade e de agonia, que rodeiam o homem desde o berço, e que se ordenam em falange, em volta dele, como os insetos alados que se encontram nos lugares úmidos.

Mas pondo de parte este posto de vista geral, que apenas indico, devo demorar-me especialmente no uso da força na vida das mulheres.

Distinguimos duas espécies de forças: a força que atua e a que suporta: é desta última, sobretudo, que tendes mais necessidade. Falei ainda há pouco de uma ponte, aonde passa todo o mundo, que tudo suporta, a ação do ar, os ímpetos da corrente, o peso de quanto se apóia nela, sem contar a própria carga de granito de que é construída.

Não está nisto uma imagem da vida das mulheres?
A mulher não é uma espécie de ponte na família?

Todos pesam um pouco sobre ela, o marido, os filhos, os criados, não contando os vizinhos importunos: uma grande parte dos cuidados domésticos rola sobre ela, carregando-lhes continuamente os ombros.

Assim, senhoras, quando a lua de mel tiver passado, tereis um marido, cujo humor, caráter, e tendências se vos tornarão antipáticas; e, ainda mesmo que ele menos o pense, ferir-vos-á os nervos, agastar-vos-á por palavras, e só a sua presença excitará, às vezes, a fibra da sensibilidade malévola.

É provável que lhes presteis o mesmo serviço e que o fluído das antipatias se comunique do vosso coração ao dele, pois ordinariamente tais impressões são recíprocas. Longe estou de pretender que este estado seja permanente, e que prejudique, sobretudo, a afeição essencial da família; mas repete-se demasiadas vezes para fatigar, ou, pelo menos, contristar o coração.

Tereis, pois, necessidade de força, não somente para vos não deixardes levar à febre da irritação, não somente para suportardes, senão também para deixardes triturar o vosso amor próprio, para deixardes quebrar, como a oliveira, todas as vossas antipatias, mudando-vos em óleo, e executando em toda a parte os processos benévolos, as operações untuosas da vossa caridade.
Este uso da força que acaba por transformá-la em óleo é o mais seguro dos meios de adoçardes os choques, de temperardes o coração do vosso marido, no momento talvez em que ele ia endurecer-se, e de desenvolverdes entre os dois uma afeição, que começava a gelar-se.

Os filhos experimentarão a vossa paciência: tereis de tratar com naturezas excelentes no fundo, mas de difícil humor, de caracteres ásperos; bons corações, mas más cabeças, cujo ruído bastará para vos fastigar. Tomai em cada manhã e em cada tarde cinco pílulas da força que resiste: sede serenas, mas firmes; doces e vigilantes, pois atuais na tranqüilidade da vossa força.

Os criados completarão o quadro: queixais-vos da sua indocilidade, do seu humor, do seu espírito de independência, e que sei eu? Da sua incapacidade, da sua falta de virtude e do seu caráter intolerável. Estou longe de vos empenhar em que os conserveis sempre, quando os seus defeitos atinjam um certo grau impossível de suportar-se. Não proíbo as representações, as caridosas advertências, nem as correções mais ou menos severas.

Mas, antes de tudo, insisto na força que sofre, na firmeza que espera, pois este meio é, muitas vezes, o melhor e o mais enérgico para chegardes ao fim desejado.

Não são só vossos maridos, vossos filhos e vossos criados os que porão em prova a vossa paciência, serão ainda as vossas amigas, os vossos conhecimentos. Contais com tal pessoa: é uma cana que se vos despedaça na mão, não logo na primeira, mas na segunda vez que vos encostardes a ela.

Onde estão, pois, os amigos deste mundo?

Pretende-se que as mulheres dificilmente encontram uma amiga segura e sólida no coração de outra mulher. Aos naturalistas explicam estas dificuldades por mil considerações sobre as antipatias naturais, sobre as questões secretas da vaidade, em que é raro que duas brilhem igualmente com o mesmo esplendor, sobre o não sei que de frágil que existe na flor e nas construções de vidro.

- “É necessária uma prodigiosa amizade entre duas mulheres – disse Madame Swetchine – para tirar a que é inferior a toda a fraqueza da inveja.”

Admitamos que possais encontrar verdadeiras amigas: mas ajuntemos, para permanecermos na verdade, que são raras. Contais com certo coração como com o vosso: um dia chegar-vos ao ouvido um vago zum-zum, vem em seguida às suspeitas, e, por fim a certeza. Essa pessoa traiu-vos mil vezes dum modo mais ou menos grave, foi infiel no que há de mais sagrado na amizade. Essa nova subida é como a onda violenta contra o navio da vossa alma! Que abalo no coração!

Outras vezes são os vossos parentes; quantas dificuldades nas famílias! Quantas misérias! Quantas antipatias secretas! Cada um produz o seu contingente, e, algumas vezes, os que gritam mais alto não são os menos espinhosos.

Mais longe encontrareis os vossos inimigos, porque, quem é que os não têm na terra? Vós tê-lo-eis, talvez, porque os vossos defeitos vo-los terão atraído, mas esta razão não é a única. Tendes uma inimiga em determinada pessoa, porque lhe prestastes um serviço, e, para certas naturezas, não há crime maior do que o de as condenarem à condição inferior em que as põe o reconhecimento.

Tal pessoa tem-vos inveja: é talvez, porque tendes uma qualidade boa, ou porque brilhais muito para ela.

- Porque me atacas? – perguntava uma vez o pirilampo a um vil animal, tão feio quão venenoso.
- Porque brilhas – respondeu ele.

Esta resposta é a explicação dum grande número de ódios, de vinganças e de irritações. Há tantas baixezas no coração humano, ao lado de tantos instintos de grandeza! Tantas invejas, a par de tanto amor pelo bem e pelas coisas elevadas!

Talvez até que vós tenhais feito demasiadas vezes um vão pacote das vossas qualidades, pois ou as tendes exagerado, ou pelo menos tendes fatigado o público, tende o aspecto de as apresentardes diante deles: e o que mais rapidamente fatiga os homens é a exposição das boas qualidades do próximo.

Perdoar-se-nos-á muito facilmente uma longa exibição dos nossos defeitos e ridículos, porque esta cena coloca o espectador numa posição de superioridade para conosco; mas o mais difícil de se fazer perdoar são as qualidades reais, por muito pouco, ainda assim, que obscureçam a glória dos outros.

Poderia continuar esta descrição e seguir convosco todas as correntes da vida; mostrar-vos em toda a parte as vagas que trabalham na demolição do vosso barco, no seu desconjuntamento, na sua submersão. O vosso navio tem necessidade de ser perfeitamente construído; as peças, formadas de madeira vigorosa, devem estar solidamente ligadas, e, no caso de o destinardes a afrontar certos mares, deveis ainda mandá-los forrar de cobre.

Não chegamos, todavia, ainda, ao vosso inimigo mais implacável, que sois vós próprias. Sim, levar-se a si própria, em certas horas, resistir aos choques da imaginação, aos abalos do coração, suportar a inércia, o torpor do seu caráter, sustentar sua alma em certos dias, em que se pergunta se se vive, em certas semanas, em que mais se sente a prisão do corpo, a dureza do exílio, o peso das cadeias, em que nos torturam mil sonhos chimericos, em que parece que lâminas finíssimas d’agonia nos separam as carnes, o sangue, a alma e o espírito, tal é a hora do combate verdadeiro, o momento em que é necessário o desenvolvimento duma séria coragem.

Suportar-se-iam ainda o marido, os filhos, os criados e os inimigos! Mas este desgraçado eu, muitas vezes tão estranho, tão bizarro, tão inconstante, eis o maior peso, e tanto maior, quanto nem um único instante nos deixa!

Pode-se escapar ao marido, aos filhos, aos amigos e parentes, mas este triste eu é uma esfera pesadíssima que a natureza nos prendeu ao pé, no dia do nosso nascimento, não havendo forças humanas, bastante fortes, que possam romper-lhe a cadeia.

Chego agora a um delicado assunto, de que já levantei aos vossos olhos uma ponta do véu que o cobre, de que já esbocei alguns traços na nossa primeira conferência: - “Como é uma coisa fraca o coração da mulher!” – disse o trágico inglês. (Shakespeare, Julio Cesar, ato I, cena 4ª)

Prestai atenção até ao fim antes de julgardes o que tenho a dizer-vos.

O corpo humano precisa de carnes e ossos; as carnes são naturalmente, e devem sê-lo, mais moles que os ossos. Do mesmo modo, nos planos do Criador, e no magnífico ideal da união do homem e da mulher, eram necessários dois caracteres diferentes, um mais sólido, outro mais frágil: o pecado transtornou esta ordem primitiva, não lhe abalou os fundamentos.

A missão da mulher exige alguma coisa mais doce na alma e nas formas, mais elástico, mais semelhante ao galhardete que se reprega e se torna, assim, mais facilmente o ornamento da árvore na qual está suspenso: a existência somente de partes sólidas neste mundo, produziria o mais solene enfado da imobilidade geométrica.

Depois, a fraqueza do coração; quando é contida nos limites da virtude e da sabedoria, é a mais doce imagem da bondade de Deus. A família seria incompleta, mesmo sob o ponto de vista moral e sob a relação de influências, que devem exercer-se, se não houvesse em casa mais que o caráter viril do marido.

Bem vedes, pois, senhoras, que não sou um severo acusador.

Mas a natureza mais frágil e mais elástica da mulher, pode degenerar, e muitas vezes degenera, sobretudo, na nossa época, em verdadeira fraqueza, em fraqueza mais ou menos culpada, mais ou menos nociva nos resultados. Depende isto da maneira mole e muito fácil com que se educam as meninas, da ausência de verdadeiros e sólidos princípios religiosos? Será necessário acusar a febre de idéias, a agitação dos homens e das coisas, que fazem da sociedade uma vaga sempre em movimento?

É certo que os caracteres estão enfraquecidos, e que, naturalmente, esta fraqueza, esta falta de energia, se fazem sentir, sobretudo, nas mulheres. Será necessário atribuir ainda este triste resultado as leituras enervadoras que amolecem, mais e mais, as almas, aos sonhos chimericos, que são os maiores dissolventes da força moral?

Nós cremos que a reunião de todos estes elementos diversos contribui para a produção do mesmo efeito: e, agora, sobretudo, pode-se, salvo raras e honrosas exceções, repetir com o trágico inglês: - “Como é uma coisa frágil o coração da mulher!”

Esta fraqueza é causa dum outro defeito, que se censura em várias mulheres – a teimosia. – “Eu conheci centos e centos de mulheres – diz Montaigne – às quais mais facilmente faríeis morder um ferro em brasa, do que fazer mudar duma opinião concebida em momento de cólera.”

É provável que a opinião de Montaigne se possa aplicar a todos os países, e que em toda a parte haja, para as mulheres, o perigo de caírem na teimosia. Tanto que uma idéia se lhes apodera da cabeça, deixa-lhe traços indeléveis, e, muitas vezes, não cede lugar a outra, por muito boa, por muito perfeita que ela seja: enroscam-se, e mais fácil vos era quebrá-la do que torcê-las uma linha.

Desconfiai da pertinácia, e por este sinal a conhecereis: - quando sentirdes elevar-se a temperatura da cabeça, aninhar-se o vosso caráter, pularem as vossas faculdades à menor contradição, dizei logo a vós próprias: - Cuidado! Eis os sintomas da febre da obstinação, já lhe sinto as tremuras.

Ajoelhai imediatamente aos pés da cruz e dizei a Deus: - Senhor, defendei-me de mim própria, contra as minhas fraquezas, contra as minhas obstinações; retemperai minh’alma na Vossa graça, afim de que ela se não obstine nunca e conserve sempre a flexibilidade da inteligência e da caridade.

A mulher é fraca por natureza, por compleição; por temperamento, em conseqüência de sua educação: femineum genus plerumque sane est et anima et corpore prorsus imbecillum. (Cyril. Alex. Hom. Pasch. 28).

E, todavia, quando a alma da mulher é excitada por uma generosa dedicação, quando, sobretudo, o amor de Cristo está no seu coração, ela é capaz de quanto há de mais elevado no pensamento, de mais nobre no coração, de mais heróico na coragem, de mais perseverante na luta.

Há mulheres, diz São Crisóstomo, que, não somente tem sido mais corajosas do que os homens, senão que também chegam à impassibilidade dos anjos. Há-as que, semelhantes ao rochedo imóvel são só não têm sido arrastada pela onda, mas que até hão quebrado em volta de si o mar espumante: tinham a solidez do ferro e a límpida dureza do diamante: Ut ferrum, ut adamas.” (De studo praesent. Hom.5)

Sim, senhoras, se a natureza vos não deu no mesmo grau que ao homem, a força moral ativa, a graça pode operar em vós uma obra de transfiguração e comunicar-vos, sobretudo, a força de paciência, a força de inércia inteligente, a força do rochedo à beira-mar, o qual vê as ondas levantadas contra ele permanecendo imóvel, o que faz com que, em breve, as dispersem frementes, e se desfaça, em espuma.

É especialmente esta força de longanimidade que eu vos recomendo: raramente tendes ocasião de exercer a força ativa, e se esta ocasião se apresentar, sabereis, como a mulher forte, fortalecer o vosso braço, e dirigi-lo sabiamente e com energia para a ação; mas mais habitualmente sedes fortes pela vossa impassibilidade, pela abnegação e pelo sacrifício. Tomai ao pé da cruz, nas vossas comunhões, nas vossas meditações, a elástica tenacidade para o bem, que vos converterá em heroínas, no lar doméstico.

Os homens não contarão os diamantes do vosso suor, nem as vossas lágrimas de sangue sobre a pedra duma vida oculta; mas contá-las-á Deus, e os anjos as guardarão. Cada lágrima invisível que cair assim do vosso coração, transformar-se-á numa pérola preciosa. E que felicidade não será a vossa, quando um dia encontrardes no Céu um número incalculável delas, que formarão sobre a vossa cabeça mil diademas de glória e de alegria! Tais diademas serão tanto mais belos e mais gloriosos, quanto mais fraca tiver sido a natureza da mulher vitoriosa: Ibi est corona gloriosa, ubi sexus infirmior. (S. Aug. Serm. nº 281)

Que meios tereis, senhoras, de adquirirdes este espírito de força? Eu não conheço nenhum melhor do que a confiança em Deus, e o recurso a Deus, nas circunstâncias em que sentirdes desfalecida a vossa coragem.

O Senhor é o fundamento da minha vida – diz o Profeta – é o meu refúgio e o meu libertador: Dominus petra mea et robur meum.” (II. Reg. XXXII,2.)

Apoiar-vos em Deus, como vos apoiais no braço, e, sobretudo no coração de uma pessoa dedicada, e nunca vos faltará à verdadeira força. Poderá haver desfalecimento na parte inferior do ser, fadiga na imaginação, perturbação nos sentidos; mas a parte elevada da alma conservará sempre a sua serenidade, e isso é a principal virtude: o resto é um acessório, que, não só não tira nada ao verdadeiro mérito, senão que o aumenta e o torna mais agradável a Deus.

Quando sentirdes as águas da tribulação prestes a submergir-vos, o enfado a ponto de cair sobre vós como um inimigo encarniçado, ide descansar alguns instantes aos pés da cruz. Dizei a Deus: - Sim, tudo aceito, quero tudo quanto quereis, a tudo me resigno, com tanto que não cesse de Vos amar, nem deixe de permanecer unida a Vós!

Levantar-vos-eis sempre com um sentimento de coragem e uma potência de ação, como não podeis supor.

A segurança do justo – diz São Gregório, o Grande – é justamente comparada à do leão, porque quando sente os ataques dirigidos contra ele, interna-se na inexpugnável fortaleza da sua alma: sabe que será o senhor de todos os seus inimigos, porque ama unicamente aquele, que ninguém pode subtrair-lhe.” (Moral, 1.31, c. 28.)

Sede, pois, como o leão, senhoras, tende a sua segurança. Ele tem confiança e não teme: tal é a natureza que Deus lhe deu, e é este caráter de seguridade e de força que Deus imprime aos seus verdadeiros amigos: Justus quasi leo confidens, absque terrore erit. (Prov. XXVIII).




A alma forte pode ainda comparar-se a uma ilha, pobre, nas costas, mas rica, verdejante e imóvel no interior. Sede, senhoras, como a ilha afortunada: no meio das águas amargas que vos rodeiam – e cada uma tem uma boa provisão -; no meio das ondas que solevantam a barquinha da vossa existência, retirai-vos para o interior da vossa ilha, isto é, para a parte mais secreta do vosso coração.

Tornai-vos num santuário oculto de que fechareis a porta, e não ouvireis o estampido das tempestades. Repetireis com toda a segurança o cântico do Profeta: - O Senhor é o fundamento da minha vida, é o meu refúgio e o meu libertador. (Ps. XVII.). É a pedra firme sobre a qual me apoio (Reg. XXII); nunca serei agitado: Non movebor amplius. (Ps. LXI)

(Conferência retirada do livro: A mulher forte, do Monsenhor Landriot)

PS: Grifos meus.
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