segunda-feira, 30 de abril de 2012

SINAIS DA SIMPLICIDADE

Nota do blogue: Acompanhe esse ESPECIAL AQUI.

  
Agora que sabeis o que é a simplicidade e quais os seus frutos, não gostaríeis de vos tornar "simples como as pombas"? Mas, por que sinais reconheceríeis que o sois? - Por quatro sinais principais.

O primeiro é a indiferença ao próprio êxito.

O que vos perturba, quando não vos saís bem de um empreendimento - quer se trate de uma obra no meio familiar, educação e futuro dos filhos, deveres para com o marido, direção da casa e dos empregados; quer de uma obra externa, esmolas, visitas aos pobres, apostolado, relações de família - o que vos entristece e vos desanima é falhar no objetivo que vos propusestes, objetivo legítimo, sem dúvida, mas humano. Visastes apenas ao resultado, ao êxito, à própria obra: faltou-vos a pureza de intenção.

Na verdade, se tivesse sido pura a vossa intenção, se antes de tudo houvésseis procurado o contentamento e a vontade de Deus, diríeis: Se Deus não quis esse resultado, também não o quero. Além disso, se trabalhei para Deus, se procurei agradar-Lhe, certamente venci, e Deus deve estar satisfeito porque fiz o que de mim dependia; o resto não estava em meu poder. Portanto, devo estar tranqüila e tão calma como se houvesse conseguido o que desejava.

A indiferença pelo êxito daquilo que empreendemos é um sinal necessário e certo da pureza de intenção.

O segundo sinal é a alegria pelo êxito ou pelo progresso espiritual de outrem.

Se vossa intenção é reta e pura, deveis querer tudo o que honra, contenta e glorifica a Deus. Se, junto de vós, outros fazem o bem; se, na mesma obra, alguém consegue melhor resultado do que o vosso; se é maior o sucesso de um empreendimento semelhante ao vosso; não vos deixeis vencer pela desconfiança, ciúme, amargura ou tristeza; rejubilai-vos sinceramente, de todo o coração, porque Deus foi glorificado, Falta pureza de intenção às pessoas exclusivistas, que só pensam nas próprias obras e no bem que realizam, e, com mal disfarçado despeito, em toda parte vêem concorrentes e rivais, aos quais gostariam de afastar ou sobrepujar.

Do mesmo modo, falta-vos a pureza de intenção, se em presença de alguém que se esforça, progride e se aperfeiçoa, ficais contrariadas, irritadas - não digo se experimentais uma nobre e santa emulação, o que é bom e legítimo - e se em vós existe algo que deseje impedir esse progresso. Que vos aborrece.

Diante do progresso dos outros ou diante do bem que realizam, reconhece-se a pureza de intenção pela alegria sincera e verdadeira que se experimenta, ou que, ao menos, livremente se desejaria experimentar, desprezando todo o sentido contrário.

O terceiro sinal da pureza de intenção é nada preferir voluntariamente e a nada se apegar de maneira absoluta. 

Vossas tendências podem ser naturais ou devidas à graça. Podeis, espontaneamente vos sentir mais atraídas por uma coisa do que por outra: algumas dentre vós são mais inclinadas a vida interior, outras à vida ativa; algumas dedicam a visitar os pobres, a cuidar dos doentes, outras a instruir as crianças e os retardados. Mas, quando necessário, e quando vossos superiores o exigirem, deveis estar preparadas para de boa vontade sacrificar os vossos postos pessoais e vos consagrar àquilo que é determinado pela obediência.

Antes de tudo deveis estar de tal maneira presas à vontade de Deus que, quando está vos for claramente manifestada, estejais dispostas a cumpri-la generosamente, não obstante vossas antipatias e os necessários sacrifícios de vossas inclinações.

A nada se apegar de maneira absoluta, exceto a vontade de Deus, é o terceiro sinal da pureza de intenção.

O quarto sinal é não desejar nem procurar o louvor ou a aprovação dos homens pelo, bem que fazeis, e não perder a calma nem a paz interior se, ao contrário, receberdes apenas censuras e repreensões.

Deveis pensar: se cumpri meu dever, se realizei a vontade de Deus, fiz tudo quanto desejava; o mais me é indiferente.

Se em vosso coração não se encontram esses quatro sinais da pureza de intenção; se um só vos falta ou se existem de maneira incompleta ou imperfeita, e porque vossas intenções não são inteiramente puras e que vossa simplicidade não é verdadeira ou talvez esta virtude vos falte de todo.

Esforçai-vos por adquiri-la, esforçai-vos por aumentá-la cada dia! Para que produza todos os frutos e para que os produza em abundância, seria necessário elevá-la ao mais alto grau e fazê-la atingir a perfeição.

Seria necessário ter o coração semelhante ao da mulher a que se refere santo Afonso de Ligório. Encontrada na Palestina por um dominicano companheiro de são Luís, ela carregava numa das mãos um vaso cheio d'água e na outra segurava uma tocha acesa. Perguntou-lhe o religioso o que significava tal aparato: "Com esta água, respondeu-lhe, desejaria extinguir o inferno; e com esta tocha, destruir o céu, a fim de que doravante servíssemos a Deus não pelo medo do inferno ou pela esperança do céu, mas unicamente por amor."            

Seria necessário exclamar constantemente com são Bernardo: "Pudesse eu, Senhor, amar-Vos por Vós mesmo!" não para ser feliz em amar-Vos, mas unicamente para Vos satisfazer e para contentar o Vosso coração!

Seria necessário poder dizer, como o divino Mestre: "Não procuro a minha vontade, mas a vontade dAquele que me enviou ... Faço sempre o que é do seu agrado." (S. João, VIII, 28-29) Teríeis alcançado, então, a perfeita simplicidade.

(A Simplicidade segundo o Evangelho, Instruções às senhoras e às jovens por Monsenhor de Gibergues, 1945)

domingo, 29 de abril de 2012

sábado, 28 de abril de 2012

São Paulo da Cruz. Confessor.

Nota do blogue: Texto retirado do blogue Escravas de Maria

Agradeço a São Paulo da Cruz, padroeiro deste blogue juntamente com Santa Filomena e Santa Bernadette, todas as graças alcançadas para este apostolado. 

São Paulo da Cruz, rogai por nós!

Letícia de Paula

28/04 Sábado 
Festa de Terceira Classe 
Paramentos Brancos


Papa Pio IX, assinalado pelo honroso epíteton “Cruz da Cruz”, teve a satisfação de inscrever no catálogo dos Santos Paulo da Cruz, o grande devoto à Sagrada Paixão de Jesus, o benemérito fundador dos Passionistas. 

Este Santo nasceu em 1694, na Itália setentrional e recebeu no Batismo o nome de Paulo Francisco. Os piedosos pais souberam dar a seu filho uma ótima educação cristã, e em suas instruções muitas vezes relataram-lhe fatos da vida de penitência que levaram os santos Eremitas. Foi neste ambiente de piedade e amor de Deus, que Paulo Francisco nasceu e cresceu. 

Não podia, pois, faltar, que também ele fosse do mesmo espírito, e, menino ainda de poucos anos, se entregasse aos exercícios de oração e penitência também. Seu lugar predileto era a Igreja, ou para acolitar o sacerdote no altar ou para visitar Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento. Todos os dias rezava o terço. Este terno amor à Maria Santíssima teve o recompensado uma vez com a aparição de Nossa Senhora com o Menino Jesus, e outra vez pela salvação miraculosa de um grande perigo de morte. 

Nas sextas-feiras se flagelava e seu alimento era um pedaço de pão embebido em vinagre e fel. 

Fez estudos em Cremolino, localidade vizinha. Não só revelou bonitos talentos, como entre os condiscípulos se distinguiu pela pureza dos costumes, que o fez ser por todos respeitado e amado. Com alguns dos seus companheiros fez uma santa aliança, com o fim de se solidificarem no amor de Deus e se familiarizarem com a meditação sobre a Sagrada Paixão e Morte do Salvador. Entrou com eles na Irmandade de Santo Antônio, sendo ele nomeado seu chefe. Nesta qualidade muitas vezes dirigia a palavra à numerosa assistência dos Irmãos, que muito apreciavam suas alocuções, cheias de sentimento e piedade. 

Quis seu tio sacerdote que, por interesses puramente materiais tomasse estado, a que o sobrinho teve esta bela resposta: “Meu Salvador crucificado, eu vos asseguro, que em vós vejo o meu sumo Bem, e que, possuindo-vos a vós, me basta”. Esta vitória sobre sua própria natureza Deus lhe recompensou com um forte desejo, que lhe deu ao martírio. 

Quis se alistar entre os soldados de Veneza, para com eles ir combater os turcos, mas Deus lhe revelou, ser a sua vontade que fundasse uma Congregação de homens que, como missionários, trabalhassem pela salvação das almas. Paulo confiou este segredo ao bispo de Alexandria, o qual, após madura reflexão aprovou o plano, e em 22 de novembro de 1720 lhe deu o hábito preto com uma cruz branca sobre o peito, encimada esta do Santo Nome de Jesus, e impôs-lhe o nome de Paulo da Cruz. Na mesma ocasião autorizou-o a ensinar a doutrina cristã ao povo de Castellazzo. 

Paulo obedeceu; com o crucifixo na mão andou pelas ruas da cidade, chamando o povo para dar atenção às verdades divinas. Suas prédicas sobre a Sagrada Paixão causaram profunda impressão. Os ouvintes choravam, velhas inimizades acabaram de vez; não mais se ouvia falar de orgias no Carnaval, e por toda a parte apareceram dignos frutos de penitência. Ali mesmos, restringindo a sua alimentação a pão e água, escreveu a Regra da sua futura Ordem, fez uma romaria a Roma, e com seu irmão João se retirou para o monte Argentano perto de Orbitello. A fama do seu zelo apostólico, de sua vida mortificada e santa fizeram com que o Bispo de Toja, os chamasse para sua diocese, lhes conferisse as ordens sacerdotais, e do Papa Benedito XIII alcançasse a licença de poder aceitar candidatos em seu noviciado. 

Depois de alguns anos de abençoada atividade os Irmãos voltaram para o monte Argentano, para proceder à fundação da Ordem. Em breve aliaram-se-lhes discípulos. A cidade de Orbitello se encarregou de os dotar de grande convento, de que tomaram posse em 1737. 

A finalidade da Ordem, fundada por São Paulo da Cruz é pela pregação de missões implantar e firmar nos corações o amor de Deus por meio de meditação da Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo. Todos os seus Religiosos, aos três votos comuns acrescentam o quarto, pelo qual se obrigam a trabalhar pela propagação entre os fiéis da devoção à Sagrada Paixão. 

A Ordem foi aprovada pelo Papa Bento XIV, em 1741. Deste mesmo Papa é o conceito: “Esta Ordem, que ao nosso ver, devia antes de toda ser a primeira, acaba de ser aprovada por último”. Paulo foi nomeado seu primeiro superior geral. 

Com o estabelecimento oficial da Ordem, as suas obrigações começaram a vigorar. Não é possível enumerar as Missões que foram pregadas nas cidades e nas aldeias; e muito menos haverá quem possa contar as conversões nelas efetuadas. As prédicas de São Paulo da Cruz sobre a Paixão de Cristo operaram milagres nas almas dos mais empedernidos pecadores. “Padre, disse-lhe certa vez um oficial militar, eu estive no tumulto da batalha; presenciei terrível canhoneio sem estremecer; mas as suas práticas fazem-me tremer da cabeça aos pés”. Paulo pregando, parecia ser tomado todo do amor divino; falando do amor de Jesus na Eucaristia, dos tesouros insondáveis do sacrifício da Missa, ou tratando da devoção da Mãe de Deus dolorosa, seu rosto se transfigurava, e o ardor com que falava, se comunicava aos ouvintes. 

A santa Missa celebrada por ele era um espetáculo de piedade e de concentração para todos a quem era dado lhe assistir. 

Os seis Papas, em cujo governo Paulo da Cruz viveu, tinham-no em alta consideração. Clemente XIV deu à sua Ordem o Convento de São João e Paulo no monte Ceio, onde tinham pregado as últimas Missões. 

Quando muito doente, desenganado pelos médicos, mandou ao Santo Padre pedir a bênção para a hora da morte, Pio VI deu ao mensageiro esta resposta: “Não queremos que o vosso Superior morra agora; dizei-lhe que esperamos a sua visita aqui, depois de três dias”. Paulo, ao receber esta ordem, apertou o crucifixo ao coração e disse, em abafado gemido: “Oh meu Senhor crucificado, quero obedecer ao vosso representante”. O perigo da morte desapareceu imediatamente, e três dias depois esteve no Vaticano, cordialmente recebido pelo Papa. 

Viveu mais três anos, cheios de sofrimentos, mas sempre unido a Jesus na Sagrada Paixão e a Maria a Mãe dolorosa, de quem favores especiais recebeu na hora da morte, em 18 de outubro de 1775. Paulo da Cruz despediu-se do mundo na idade de 81 anos. Sua Ordem chamada a dos “Passionistas” continua florescente, no vigor e no espírito do seu Fundador, na Itália, na Bélgica, Bulgária, Inglaterra e Austrália. No Brasil ela se estabeleceu em 1911, com Casa Provincial em São Paulo. (*)
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Epístola 
Iª Coríntios 1, 17-25 

17.Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho; e isso sem recorrer à habilidade da arte oratória, para que não se desvirtue a cruz de Cristo. 18.A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. 19.Está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes (Is 29,14). 20.Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? 21.Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem. 22.Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; 23.mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; 24.mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus. 25.Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens 
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Evangelho 
São Lucas 10, 1-9 

1.Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir. 2.Disse-lhes: Grande é a messe, mas poucos são os operários. Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe. 3.Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos. 4.Não leveis bolsa nem mochila, nem calçado e a ninguém saudeis pelo caminho. 5.Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! 6.Se ali houver algum homem pacífico, repousará sobre ele a vossa paz; mas, se não houver, ela tornará para vós. 7.Permanecei na mesma casa, comei e bebei do que eles tiverem, pois o operário é digno do seu salário. Não andeis de casa em casa. 8.Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que se vos servir. 9.Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo.

(*) Nota do blogue A grande Guerra: "Sua Ordem chamada a dos “Passionistas” continua florescente, no vigor e no espírito do seu Fundador". Creio que as Irmãs tiraram o texto de algum devocionário antigo, pois justamente o que não vemos hoje na Ordem dos Passionistas é o espírito de seu Fundador. 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Os exemplos de Jesus


Mas Deus está no alto; ultrapassa de tal forma as nossas fracas concepções, que poucos são aqueles que se impressionam com Suas grandezas e possuem o conhecimento de Seus atributos. É graça insigne fazer da Divindade uma idéia que arrebata e esmaga, enquanto consola e reconforta. Aqueles que não recebem vivas luzes de fé não se comovem com as perfeições divinas, ou pouco e de passagem; não compreendem senão imperfeitamente as exigências de Sua justiça e de Sua santidade; como poderiam então encontrar no pensamento das grandezas de Deus um alívio aos próprios males? Não haverá um meio ao alcance da fraqueza humana para atingir esse Deus tão elevado? Um caminho seguro e fácil que leve a Ele? Ego sum via. "Eu sou o caminho", responde nosso Senhor, e ninguém chega a meu Pai senão por mim. Qui videt me videt et Patrem. "Aquele que me vê, vê o meu Pai". Consideremos, por conseguinte, a Jesus, aprendamos a conhecê-lO, a fazer uma idéia exata de Suas disposições íntimas, de Sua ciência, de Sua admirável sabedoria, do poder imenso de amor que está em Seu Coração. Contemplemo-lO, sigamo-lO com carinho em Seus mistérios, em Seu nascimento tão pobre, em Sua juventude, nas fadigas de Suas excursões evangélicas, em Sua paixão, em Sua Eucaristia, onde é tão desconhecido e ultrajado. Vejamos o que Ele, o Filho do Deus todo poderoso, o Verbo eterno feito homem por nós, suportou, e a disposição de alma com que sofreu. Então, nossas tribulações não nos surpreenderão e compreenderemos a glória que podem proporcionar a Deus e a vantagem que nos podem trazer a nós.

Quando nos sobrevier uma provação, saibamos dizer: "É uma ligeira picada da coroa de espinhos, um leve roçar da vara da flagelação. Nossas mais penosas humilhações não passam de uma pequena participação às afrontas e ignomínias de Jesus".

Que doutor de paciência foi o meigo Jesus e que ciência de sublime resignação podemos adquirir em Sua escola! "Bem-aventurados os que sofrem, disse Ele, bem-aventurados os que choram... Em verdade, vos digo, chorareis e gemereis, mas vossa tristeza se há de converter em gáudio e essa alegria ninguém vo-la tirará. Sereis felizes quando vos carregarem de injúrias, por causa do Filho do homem: regozijai-vos e exultai de alegria, pois grande e vossa recompensa!"
             
Palavras consoladoras. Menos, porém que Seus exemplos. Quem aprendeu com Ele a suportar valorosamente os sofrimentos, vê em cada provação a mão benfazeja de Deus. Contenta-se em assemelhar-se a Jesus.

Sabe que, "tornado conforme a imagem do Filho unigênito" tornou-se tambem, com Ele, objeto das complacências do Pai eterno, tanto mais caro ao Coração de Deus quanto mais se assemelhar ao Filho.

A tal tende a ação do Espírito Santo em nossas almas, a tornar-nos, segundo a palavra de São Paulo, semelhantes ao Cristo, modelo perfeito, exemplar sublime, que devemos reproduzir conforme depender de nós. Ele é o cepo, nós os ramos; Suas perfeições, Suas qualidade devem viver em nós. Ele praticou a adoração, a satisfação, a conformidade à vontade do Pai em grau supereminente; essas virtudes, nosso divino Chefe as quer ver reproduzidas, de algum modo, em nossas almas.

Manifestaram-se nas tribulações do Homem-Deus; devem manifestar-se agora, em nós, pela provação.

Devemos, portanto, estudar a Jesus, procurar em que O podemos imitar. Vendo-Lhe as mãos pregadas na cruz, devo perguntar-me que pregos atravessarão as minhas mãos, onde estará a cruz que as firmará. Minha cruz é o dever, o dever de estado ao qual a vontade divina me quer manter unido. Os pregos que me atravessarão as mãos, os golpes que me hão de ferir são as dificuldades que encontrarei na prática de meus deveres e que precisarei dominar redobrando os esforços; são os incidentes que se apresentarem impedindo-me o repouso; são as obrigações que me retiverem quando o prazer me chamar alhures. Ou então, pelo contrário, minha cruz e a inação; os pregos são a enfermidade, a incapacidade, é a perseguição, que me proíbe as obras ativas.

Quando Deus quiser que eu me dedique, que me entregue a fadigas penosas, poderei considerar Jesus em Seu trabalho de Nazaré ou em Suas caminhadas evangélicas, perseguindo com Seu amor as ovelhas desgarradas. Quando me suspender o trabalho, poderei contemplá-lO em oração, enquanto Seus apóstolos pregavam e operavam milagres em Seu nome. Em meus reveses, poderei pensar em Jesus agonizante, abandonado, renegado pelos discípulos e deixando aos apóstolos a honra de fundar a Igreja, de propagá-la por toda a terra. Morto Ele, Sua obra estava, aparentemente, perdida, a derrota não podia parecer mais completa. Humilhando-Se, porém, aceitando todos os opróbrios da Paixão, os sarcasmos dos inimigos que se regozijavam do triunfo alcançado, merecia e preparava o futuro êxito dos apóstolos.

Jesus quis passar por toda sorte de provações, a fim de que, em todas as nossas dificuldades, encontrássemos as graças particulares que nos mereceu e fôssemos sustentados pelos exemplos que nos deu.

A alma que passa por numerosos sofrimentos, caminhando sempre nos passos de Jesus, merece ser purificada de suas manchas e enriquecida com todas as virtudes. Assemelha-se ao modelo divino; Jesus desce em sua alma, une-se intimamente a ela e ela pode exclamar em toda sinceridade: "Já não vivo eu, mas Jesus é quem vive em mim". 

(O Caminho que leva a Deus - Cônego Augusto Saudreau) 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

6.ª- Confirma-se o sobredito com alguns exemplos

Nota do blogue: Com este post encerro este Especial sobre Securas e desconsolações na vida de oração. Ver este Especial completo AQUI.



Conta-se nas Crônicas da Ordem de S. Domingos[1], que um dos primeiros Padres da ordem, depois de ter estado nela alguns anos com grande exemplo de vida e grande limpeza e pobreza de alma, nenhuma consolação, por pequena que fosse, sentia nos exercícios espirituais da religião, nem meditando, nem contemplando, nem orando, nem lendo. E como sempre tinha ouvido falar dos singulares favores que Deus fazia a outros na oração, e dos sentimentos espirituais que nela tinham, estava meio desesperado.

Estando em oração diante de um crucifixo, chorando amargamente, pôs-se a dizer estes desatinos: “Senhor, eu sempre entendi que excedeis a todas as Vossas criaturas na bondade e mansidão; porém aqui estou eu, que há tantos anos Vos servi, sofrendo por Vosso respeito muitas tribulações, e sacrificando-me só por Vós, de muita boa vontade; e se a quarta parte do tempo Vos tenho servido, servisse-a um tirano, já me teria mostrado algum sinal de benevolência, ao menos com um ar de sorriso e graça. E Vós, Senhor, nem um pequeno mimo, nem o mínimo favor me tendes feito daqueles que a outros costumais fazer; e sendo Vós a mesma doçura, sois para mim, mais duro que cem tiranos. Que é isto, Senhor? Por que razão quereis que isto seja assim?”

Estando dizendo estas coisas tão desatinadas, ouviu de repente um grande estrondo e tão espantoso, que parecia que vinha a igreja ao chão, e no forro da mesma igreja havia um ruído tão temeroso, que parecia que milhares de cães com os dentes queriam despedaçar o madeiramento. Ficou em extremo assombrado e tremendo de medo. Voltou o rosto para ver o que fosse aquilo, e viu atrás de si a mais feia e horrível visão do mundo. Era um demônio que, com uma barra de ferro que tinha nas mãos, lhe deu um tão cruel golpe, que caindo em terra não mais pode levantar-se. Teve contudo ânimo para se ir arrastando até chegar a um altar que estava perto, mas sem poder andar nem menear seus membros com a força das dores, que não parecia senão que lhe tinham desconjuntado todos os ossos a poder de pancadas.

Quando depois os religiosos se levantaram para cantar prima, e o acharam como morto, sem saberem a causa de tão inesperado e mortal acidente levando-o à enfermaria, o trataram durante três semanas inteiras. Mas no meio das dores gravíssimas que o atormentavam era tão intenso e abominável o mau odor que despedia, que os religiosos de nenhum modo podiam entrar no aposento a curá-lo e servi-lo senão tapando cautelosamente os narizes e usando de outras prevenções.

Passadas aquelas três semanas, recobrou forças: e tanto que se pode ter em pé, quis logo curar-se de sua louca presunção e soberba; e tornando ao lugar onde tinha cometido a culpa, buscou nele o remédio dela, e com muitas lágrimas e muita humildade fazia a sua oração bem diferente primeira. Confessou a sua culpa e reconheceu-se por indigno de algum bem, e por muito merecedor de pena e castigo. Então o Senhor consolou-o com uma voz do céu que lhe disse: “Se queres consolações e gostos, convém que sejas humilde, e que reconheças a tua vileza, entendendo que és mais vil que o lodo, e de menos valor que os bichinhos que pisas com os pés”. Com isto ficou tão escarmentado, que dali em diante foi perfeitíssimo religioso.

De nosso bem-aventurado Padre lnácio lemos outro exemplo bem diferente. Conta-se na sua vida que, examinando as suas faltas, e derramando por elas muitas lágrimas, dizia que desejava, em castigo delas que Nosso Senhor lhe tirasse alguma vez o regalo da consolação, para que com esta secura andasse mais cuidadoso e mais acautelado no Seu serviço; porém que era tanta a misericórdia do Senhor, e tão abundante a doçura e suavidade de Sua graça para com ele, que, quanto mais ele faltava e mais desejava ser castigado daquela maneira, tanto o Senhor era mais benigno, e com mais abundância derramava sobre ele os tesouros de Sua infinita liberalidade. E assim dizia que pensava não haver homem no mundo, em quem se juntassem tanto como nele estas duas coisas: primeira faltar tanto a Deus, segunda receber tantas e tão contínuas mercês de Sua divina mão.

De um servo de Deus conta Blósio[2], que lhe fazia o Senhor grandes favores e regalos, dando-lhe grandes ilustrações e comunicando-lhe coisas maravilhosas na oração. E ele com sua muita humildade e desejo de agradar mais a Deus, lhe pediu que, se fosse servido e lhe agradava mais nisso, lhe tirasse aquela graça. Ouviu Deus a sua oração, e suspendeu-lha por cinco anos, deixando-lhe padecer durante este tempo muitas tentações, desconsolações e angústias. Estando ele uma vez chorando amargamente, apareceram-lhe dois anjos para o consolarem, aos quais respondeu: Eu não peço consolação, porque para minha consolação basta-me que se cumpra em mim a vontade de Deus.

Refere o mesmo Blósio[3] que Cristo Senhor Nosso dissera a S. Brígida: Filha, que é que te perturba e te dá cuidado? Respondeu a Santa: Ando perturbada, porque me vejo aflita com maus pensamentos, e como não os posso expulsar e desterrar de mim, angustia-me e atemoriza-me o Vosso tremendo juízo. Então lhe disse o Senhor: Esta é a verdadeira justiça que, assim como tu, lá no mundo, te deleitavas com as vaidades contra a minha vontade, assim agora te sejam penosos vários e perversos pensamentos contra, tua vontade e querer. Mas o meu juízo deves temê-lo moderada e discretamente, confiando firmemente sempre em mim, que sou teu Deus; porque deves ter por muito certo que os maus pensamentos a que o homem resiste com empenho, são purgatório e coroa da alma. Se os não podes rechaçar inteiramente, sofre-os com paciência faz-lhes oposição com a vontade. E ainda que não lhes dês consentimento, deves ter cuidado não te venha daí vaidade ou soberba, e venhas a cair, porque todo o que está em pé, a graça de Deus somente é que o sustenta.

Diz Taulero, e o traz Blósio na Consolação dos pusilânimes: Muitos que se vêem aflitos com alguma tribulação, costumam dizer-me: “Padre, tratam-me mal; não me vai bem, porque me vejo fatigado com diversas tribulações e com melancolia”. Eu a quem me diz isto respondo, que antes lhe vai muito bem e que se lhe faz muita mercê. Então replicam eles: “Senhor, não é assim; antes creio que por minhas culpas me cede isto”. E eu torno de novo: “Ou seja por teus pecados ou não, crê que essa cruz te vem de Deus: dá-Lhe por ela muitas graças, sofre e resigna-te inteiramente em Suas mãos”. Dizem também: “Ando consumido interiormente com a grande secura que padeço e com as trevas em que encontro”. A estes digo eu: “Amado filho, sofre com paciência, e far-te-ão maior mercê que se andasses com muita e muito grande devoção, sensível”.

De um grande servo de Deus se conta que dizia: Quarenta anos há que sirvo a Nosso Senhor e trato de oração, e nunca tive nela consolação, nem gosto. Porém no dia que tenho oração sinto em mim um grande alento para os exercícios de virtude; e quando falto à oração, ando tão descaído, que não se me levantam as asas para coisa boa. 

Notas:

[1] Hist. Ord. Praed., I P., lib. I, c. 60.
[2] Blos. Monil. Spirit., cap.10.
[3] Monil. Spirit., cap. 4.

(Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs pelo V. Padre Afonso Rodrigues da Companhia de Jesus, versão do Castelhano por Fr. Pedro de Santa Clara, 4.ª Edição, primeira Parte, Tomo II.)

terça-feira, 24 de abril de 2012

Curiosidade

Nota do blogue: Agradeço imensamente a alma generosa que transcreveu este belíssimo texto. Deus lhe pague.

Título XVI – CURIOSIDADE
(Padre Manuel Bernardes)



CXLI

De Demóstenes, orador de Grécia eloqüentíssimo

Orando uma vez em Atenas sobre matérias de importância, e advertindo que o auditório estava pouco atento, introduziu com destreza o conto ou fábula de um caminhante que alquilara um jumento e, para se defender no descampado da força da calma, se assentara à sombra dele, e o almocreve o demandara por maior paga, alegando que lhe alugara a besta, mas não a sombra dela. Estavam os atenienses neste passo mui aplicados, desejando saber a sentença com que se decidira aquele pleito. Porém Demóstenes no mesmo tempo se desceu da cadeira, dizendo: Oh pejo! Oh miséria grande! Folgais de ouvir da sombra do jumento; e não folgais de ouvir do estado e bem público da Grécia!

REFLEXÃO

É paralelo deste caso outro, que conta Cassiano[1] do Monge Machetes, que, fazendo uma prática espiritual das coisas divinas, começaram os ouvintes a bocejar e cabecear, até que ficaram adormecidos. Então o servo de Deus, espertado a voz: Ouvi (lhes disse, interrompendo o fio da prática e pegando de outro muito contrário), ouvi uma coisa maravilhosa: como uma raposa e um bugio se enganaram um ao outro, alternando suas astúcias. Neste ponto logo todos se aplicavam, e sacudiram o sono, e já ninguém tinha tédio nem preguiça. Então Machetes, voltando sobre eles o estímulo do zelo, os feriu com uma correção acre, dizendo: Que é isto, irmãos? Tanto sono para as coisas divinas e de importância para a nossa alma, e tanta alacridade para ouvir fábulas e contos ridículos? Vede que não pode ter este efeito outra causa mais que o demônio e a vossa negligência, consentindo com ele.

Os atenienses eram sumamente afetos à curiosidade de ouvir coisas novas: Ad nihil  aliud vacabant (testifica deles S. Lucas[2], nos Atos dos Apóstolos) nisi aut dicere, aut audire aliquid novi. E Plutarco, que alcançou o tempo de S. Lucas e S. Paulo, imperando Domiciano, diz[3] que eram tão amigos de comédias, por serem oficinas de novidades, que gastavam nelas o que fora bom gastar nas armadas e exércitos; e traz[4] o gracioso caso de um barbeiro que, ouvindo dizer a um seu escravo de uma batalha que os atenienses tinham perdido em Sicília, com geral mortandade sua, saiu logo pela porta fora, a dar a triste nova em público. Com que, amotinado todo o povo, porque apenas havia quem não tivesse no exército filho, ou pai, ou marido, ou irmão, quiseram averiguar a origem e fundamento de tão funesta fama. E, não aparecendo senão o dito barbeiro, que não podia descarregar-se com testemunhas abonadas, investiram a ele, e, depois de cheio de pancadas e opróbrios, o amarraram a um pau, para ser baliza dos escárnios públicos, pois fora alvorotador falso da paz pública. Mas, sobrevindo alguns que escaparam da batalha, verificaram a desgraça, e cada um se recolheu a carpir-se em sua casa, e a ninguém lembrou soltar o miserável barbeiro. Até que já tarde chegou um beleguim, a desatá-lo; e estava ele já tão emendado do seu vício de saber novidades que perguntou ao mesmo beleguim: se sabiam já também de que modo morrera Nícias, general do exército. Pior lhe sucedeu a um cavalheiro florentino que mandou a um criado que nunca viesse para casa sem lhe trazer novas de um inimigo[5]. O criado, achando ocasião, matou ao tal inimigo, e foi mui contente referir estas novas a seu amo. Foi este preso e sentenciado como réu de homicídio, porquanto a sua ordem equivalia a mandato nas circunstâncias do caso. Estes frutos lhe rendeu a sua novidade.

Este vício da curiosidade e afeição a coisas novas passa também aos trajes, aos edifícios, aos comeres, aos estilos, às leis e até às mesmas palavras. Porque não faltam noveleiros que querem emendar ou ilustrar o idioma comum, introduzindo palavras exóticas e termos que lhes parecem mais elegantes, sendo, na verdade, mais ridículos. Dionísio Sículo, sofista, afetava explicar-se por este modo[6]: Às donzelas chamava “Menandros”, isto é que esperam por varão; à coluna “Menecrates”, isto é que sustenta o peso firmemente; e aos esconderijos e buracos dos ratos chamava-lhes mistérios, porque os ocultam e defendem. Alexarco, irmão de Cassandro, rei de Macedônia, chamava ao galo Ortoboas; ao barbeiro Brotoceres; à dracma, que é um dinheiro pequeno de prata, Argirides. Pela mesma toada, Demades não dizia os mancebos, senão “a primavera do povo”; nem dizia muralhas, senão “o vestido da cidade”; nem dizia “trombeteiro”, senão o “galo do exército”.

Os espíritos que não mortificam em si este gênio de curiosidade e afeição a novidades perdem nisso mais do que, porventura, lhes parece. Porque se fazem incapazes de coisas sérias; e, como sempre andam nadando sobre a cortiça da vaidade, nunca descem ao fundo da verdade, antes esta se lhes representa coisa tão cheia de tédio, tristeza e trabalho que sempre diferem o tratar dela pra outro dia. E aos livros espirituais, que tratam os pontos necessários para o nosso desengano, chama livros desesperados, porque não querem que lhes mostre claramente como a esperança com que eles se entretêm acerca das coisas do século futuro é falsa e mal fundada e, por conseguinte, não é esperança teológica, procedida do Espírito Santo, senão presunção temerária, pregada pelo demônio; a qual tanto presta para a salvação como uma nau aberta e rota presta para a viagem longa e feliz. Pelo que, toda a pessoa que quer ajuntar forças de espírito para empreender o alcance das virtudes e persistir no que empreendeu foge muito das zombarias ou nugacidades do século, porque a repetida experiência a ensinou, à sua custa, que enervam e jarretam aquela atividade e eficácia que é necessária para tão superior emprego. E este é um dos sinais que o Doutor Angélico, Santo Tomás aponta para conhecer se um sujeito é virtuoso e trata deste negócio com veras. Faz também grande estimação do tempo: porque sabe que é semente da eternidade que, uma vez malograda, é impossível recobrar-se. E, assim, emprega e aproveita as mínimas partes dele em coisas úteis, proveitosas e honestas, seguindo o aviso do Espírito Santo pelo Eclesiástico: Non defrauderis a die bono; et partícula boni diei, non te praetercat.

Notas:

[1] Lib. v. "Institut.", c. 31.
[2] Act., XVII, 27.
[3] Plutarc., "Tract. de glória Atheniens."
[4] Idem "Tract. de Garrulilat."
[5] Barihot., in L. Siquis mihi bona, § Pater Scio.
[6] Ex Athenaeo, lib. III, c.10.

(Nova Floresta, quarto tomo pelo Padre Manuel Bernardes, Livraria LELLO & IRMÃO, 1949)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

5ª. É grande engano e grave tentação deixar a oração por nela sofrer desolações

Nota do blogue: Acompanhe este Especial AQUI.


Do que temos dito se segue que é grande engano e grave tentação, quando algum, por se ver deste modo atribulado, chega a deixar a oração ou a ser nela menos assíduo, parecendo-lhe que não faz ali nada, antes perde tempo. Com esta tentação tem o demônio feito abandonar o exercício da oração não só a muitos dos seculares, mas também a muitos religiosos; e quando de todo lhes não tira a oração, faz que não se dêem tanto a ela nem gastem nela tanto tempo como poderiam. Começam muitos a dar-se à oração: e enquanto bonança e devoção, continuam com muito fervor, porém, apenas chega o tempo da secura e das distrações, logo desanimam, parecendo-lhes que aquilo não é oração mas antes nova culpa, pois estão ali diante de Deus com tanta dissipação e com tão pouca reverência. E assim vão pouco a pouco deixando a oração, cuidando que hão-de fazer maior serviço a Deus noutros exercícios e ocupações, que não em estar ali deste modo. E como o demônio sente neles esta fraqueza, vale-se da ocasião e se apressa de tal modo a lhes sugerir pensamentos e tentações na oração, que persuadidos já que é tempo mal gasto, pouco a pouco chegam a deixá-la de todo, e com ela a prática da virtude.

E muitas vezes não param aqui. Por este caminho principiou a perdição de muitos. Há amigos, que só o são para a mesa, e que faltam no tempo da tribulação e necessidade, diz o Sábio (1). Gozar com Deus ninguém recusa, porém trabalhar e padecer por amor de Deus é o único sinal do verdadeiro amor. Quando na oração há devoção e consolação, não é muito que persevereis e que vos detenhais e gasteis nela muitas horas, porque isso podeis vós fazer só por vosso gosto e contentamento; e é prova de que assim o fazeis, se, quando isso vos falta, já não perseverais na oração. Quando Deus manda desconsolações, securas e distrações, então se provam os verdadeiros amigos, então se conhecem os servos fiéis, que não buscam o seu interesse, senão puramente a vontade e o beneplácito de Deus. E por isso então havemos de perseverar com humildade e paciência, ficando ali todo o tempo marcado e ainda um pouco mais, como no-lo aconselha nosso Padre lnácio, para assim vencermos a tentação e para nos mostrarmos esforçados e fortes contra o demônio.

Conta Paládio que, exercitando-se ele nas coisas divinas e na consideração dos bens espirituais encerrado em uma cela, padecia graves tentações de secura, e grande moléstia de pensamentos; e lhe vinha à imaginação que deixasse aquele exercício, porque era para ele sem proveito. Foi logo buscar àquele santíssimo varão Macário Alexandrino, e lhe contou esta tentação, pedindo-lhe conselho e remédio. Respondeu-lhe o Santo: Quando estes pensamentos te disserem que te vás, e que não fazes ali nada, responde-lhes logo: “Quero estar aqui por amor de Cristo, guardando as paredes desta cela”. E foi o mesmo que dizer-lhe que perseverasse na oração, contentando-se com fazer aquela santa obra por amor de Cristo Nosso Senhor, ainda que não tirasse mais fruto que este.

Esta é muito boa resposta para quando nos vier a tentação do desânimo na oração; porque o fim principal que havemos de pretender neste santo exercício, e a intenção com que devemos tomá-la e ocupar-nos nele, não há-de ser o nosso gosto e consolação, senão fazer uma obra boa e santa, com a qual agrademos a Deus e Lhe demos contentamento, e juntamente Lhe paguemos alguma coisa do muito que Lhe devemos, por ser Ele quem é, e pelos inumeráveis benefícios que da Sua liberal mão temos recebido; e pois Ele quer e Se agrada de que eu esteja agora aqui em oração, ainda que me pareça que não faço nada, permanecerei contente no meu posto.

Conta-se de S. Catarina de Sena que por muitos dias esteve desamparada destas consolações espirituais, sem sentir o costumado fervor de devoção; além disso era muito molestada de pensamentos maus, feios e desonestos, os quais não podia afastar de si; porém nem por isso deixava a sua oração, antes perseverava nela o melhor que podia com grande cuidado, e então falava consigo mesma deste modo: Tu, vilíssima pecadora, não mereces consolação alguma; não te contentarias tu com que não fosses condenada, ainda que toda a tua vida houvesses de padecer estas trevas e estes tormentos? Com certeza que não escolheste servir a Deus, para dEle receberes consolações nesta vida, senão para gozares dEle no céu por toda a eternidade. Ânimo pois, e prossegue nos teus exercícios espirituais, persevera na fidelidade de teu Senhor.

Imitemos nós estes bons exemplos, e fiquemos com as palavras de um Santo bem gravadas no nosso coração: Tenha eu, Senhor, por minha consolação o querer de boa vontade estar privado de toda a consolação humana; e se também a Vossa consolação me faltar, tenha eu por supremo alívio a Vossa vontade e justa prova (2) . Se chegarmos a esta perfeição; se conseguirmos que a vontade de Deus seja todo o nosso contentamento e consolação, de tal modo que até o carecer de toda a consolação do céu seja o nosso gosto e contentamento, por ser essa a vontade de Deus: então será verdadeira a nossa alegria, e tão sólida e duradoura, que nenhuma coisa deste mundo no-la poderá roubar.

(1) Est autem amicus socius mensae, et non permanebit in die necessitatis. Eccli. VI.10.
(2) Kempis, de Imit. Obr., 1. III, cap. 16. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Obstetrícia e moralidade matrimonial por Pio XII

Nota do blogue: Creio que esse discurso será de grande proveito para os médicos católicos. Mesmo abordando mais especificamente a parte de obstetrícia Pio XII aponta bem os deveres que cercam tal profissão. Quis justamente transcrevê-lo quando desgraçadamente foi aprovada, pelo governo (pagão) brasileiro, a “lei” do aborto de anencéfalos. 

Vem Senhor Jesus!

Letícia de Paula


Quando se pensa nessa admirável colaboração dos pais, da natureza e de Deus, que resulta em dar à luz um novo ser humano feito à imagem e à semelhança do Criador, como se poderia recusar apreciar no seu justo valor o precioso concurso que trazeis a uma tal obra? A heróica mãe dos Macabeus dizia a seus filhos: "Não sei de que maneira recebestes o ser no meu seio: não fui eu quem vos deu o espírito e a vida, e não fui eu quem formou o vosso organismo. Foi, pois, o Criador do universo, quem formou o homem no seu nascimento".

É por isso que aquele que se aproxima desse berço da vida em formação, e que exerce nele a sua atividade de uma maneira ou de outra, deve conhecer a ordem que o Criador quer que aí se conserve e as leis que a ele presidem. Porquanto trata-se aqui, não de puras leis físicas, biológicas, às quais obedecem necessariamente agentes privados de razão e forças cegas, mas de leis cuja execução e cujos efeitos são confiados à livre e voluntária cooperação do homem.

Essa ordem, estabelecida pela inteligência suprema, é dirigida para o fim querido pelo Criador. Ela abrange a obra exterior do homem e a adesão interior da sua livre vontade; implica tanto a ação como a omissão necessária. A natureza põe à disposição do homem todo o encadeamento das causas que serão a fonte de uma nova vida humana; ao homem pertence o liberar-lhe a força viva, à natureza pertence o desenvolver-lhe o curso e conduzi-la ao termo. Depois de haver o homem desempenhado o seu papel e posto em movimento a maravilhosa evolução da vida, o seu dever é respeitar-lhe religiosamente a progressão, dever que lhe proíbe sustar a obra da natureza ou impedir-lhe o desenvolvimento natural.

Destarte, a parte da natureza e a parte do homem estão nitidamente determinadas. A vossa formação profissional e a vossa experiência colocam-vos em condições de conhecer a ação da natureza e a ação do homem, não menos do que as regras e as leis a que ambas estão sujeitas. A vossa consciência iluminada pela razão e pela fé, sob a direção da autoridade estabelecida por Deus, ensina-vos até onde vai a ação permitida, e onde, em compensação, se impõe estritamente a obrigação da omissão.

À luz destes princípios, propomo-nos aqui expor-vos certas considerações sobre o apostolado a que a vossa profissão vos concita. Porque toda profissão querida por Deus comporta uma missão: a de realizar no domínio dessa mesma profissão, os pensamentos e as intenções do Criador, e ajudar os homens a compreenderem a justiça e a santidade do desígnio de Deus, e o bem que para eles mesmos promana do cumprimento desse desígnio.

1. O VOSSO APOSTOLADO PROFISSIONAL EXERCE-SE EM PRIMEIRO LUGAR POR INTERMÉDIO DA VOSSA PESSOA

Por que é que as pessoas vos chamam? Por estarem convencidas de que conheceis o vosso mister, de que sabeis o que é necessário à mãe e ao filho, a que perigos uma e outro estão expostos, e como podem esses perigos ser evitados e superados. Espera-se de vós auxílio e conselho, naturalmente não de uma maneira absoluta, mas nos limites do saber e do poder humano, segundo o progresso e o estado atual da ciência e da experiência na vossa especialidade.

Se se espera de vós tudo isso, é porque se tem confiança em vós, e essa confiança é, antes de tudo, uma coisa pessoal. Deve a vossa pessoa inspirá-la. Que uma tal confiança não seja iludida, não somente é o vosso vivo desejo, mas é ainda uma exigência do vosso cargo e da vossa profissão, e, por conseguinte, um dever da vossa consciência. É por isto que deveis tender a elevar-vos até o ápice dos conhecimentos específicos da vossa profissão.

O CRISTIANISMO TRAZ UM ESTIMULANTE E UMA GARANTIA AO VALOR PROFISSIONAL

Mas a vossa habilidade profissional é também uma exigência e uma forma do vosso apostolado. Com efeito, que crédito acharia a vossa palavra nas questões morais e religiosas conexas ao vosso mister, se vos mostrásseis falhas nos vossos conhecimentos profissionais? Pelo contrário, de bem outro peso será a vossa intervenção no domínio moral e religioso, se souberdes inspirar o respeito, por efeito da superioridade da vossa capacidade profissional. Ao juízo favorável que o vosso mérito vos valerá, ajuntar-se-á, no espírito dos que a vós recorrem, a persuasão bem fundada de que o cristianismo convicto e fielmente praticado, longe de ser um obstáculo ao valor profissional, traz-lhe um estimulante e uma garantia. Eles verão claramente que, no exercício da vossa profissão, tendes consciência da vossa responsabilidade perante Deus; de que na vossa fé em Deus achais o motivo forte para assistirdes com tanto maior dedicação quanto maior for a necessidade; de que nos vossos sólidos princípios religiosos hauris a força para opordes a pretensões desarrazoadas e imorais (venham de que lado vierem) uma recusa calma, mas intrépida e irrevogável.

Estimadas e apreciadas como sois, por causa da vossa conduta pessoal, tanto quanto pela vossa ciência e pela vossa experiência, vereis vos confiarem de bom grado o cuidado da mãe e do filho, e talvez sem o perceberdes, exercereis um profundo, não raras vezes silencioso, mas eficacíssimo apostolado de cristianismo vivido. Com efeito, por maior que possa ser a autoridade moral devida às qualidades propriamente profissionais, a ação do homem sobre o homem exerce-se sobretudo sob o duplo selo da verdadeira humanidade e do verdadeiro cristianismo.

II. O SEGUNDO ASPECTO DO VOSSO APOSTOLADO É O ZÊLO EM DEFENDERDES O VALOR E A INVIOLABILIDADE DA VIDA HUMANA

Disto tem o mundo atual uma necessidade urgente de ser convencido pelo tríplice testemunho da inteligência, do coração e dos fatos. A vossa profissão oferece-vos a possibilidade de dardes esse testemunho, e vos faz disto um dever. Às vezes, é uma simples palavra dita, no momento oportuno, e com tato, à mãe ou ao pai; mais vezes ainda, toda a vossa conduta e toda a vossa conscienciosa maneira de agir influem discreta, silenciosamente sobre eles. Mais do que outros, vós estais no caso de conhecer e de apreciar o que a vida humana é em si mesma, e o que ela vale perante a sã razão, perante a vossa consciência moral, perante a sociedade civil, perante a Igreja, e acima de tudo, perante Deus. O Senhor fez todas as outras coisas na terra para o homem; e o próprio homem, no que diz respeito ao seu ser à sua essência, foi criado para Deus, e não para qualquer criatura que seja, embora, na sua atividade, ele também tenha obrigações para com a comunidade. Ora, o filho, mesmo antes de nascer, é "homem", no mesmo grau e pelo mesmo título que a mãe.

TODO SER HUMANO TEM DIREITO A VIDA

Além disso, todo ser humano, até mesmo a criança no seio de sua mãe, recebe o direito à vida imediatamente de Deus, e não dos pais ou de alguma sociedade ou autoridade humana. Portanto, não há nenhum homem, nenhuma autoridade humana, nenhuma ciência, nenhuma "indicação" médica, eugênica, social, econômica, moral, que possa exibir ou conferir um título jurídico válido para dispor direta e deliberadamente de uma vida humana inocente, isto é, para dispor dela em mira à sua destruição encarada quer como fim, quer como meio para obter um fim que talvez em si mesmo absolutamente não seja ilegítimo. Assim, por exemplo, salvar a vida de uma mãe é um fim nobilíssimo; mas a supressão direta do filho como meio de obter esse fim não é permitida. A destruição direta de uma pretensa vida "sem valor", nascida ou ainda não nascida, destruição essa praticada, há alguns anos, em larga escala, de forma alguma pode justificar-se. Por isto, quando essa prática começou a se difundir, a Igreja formalmente declarou que matar, mesmo por ordem da autoridade pública, aqueles que, embora sendo inocentes, por causa das suas taras físicas ou psíquicas não são úteis à nação, mas antes se tornam uma carga para ela, é contrário ao direito natural e ao direito divino positivo, e, por conseguinte, proibido. A vida de um inocente é intangível, e todo atentado direto ou agressão contra ela viola uma das leis fundamentais sem as quais não é possível a vida em segurança na sociedade. Não precisamos expor-vos pormenorizadamente a significação e o alcance, na vossa profissão, dessa lei fundamental. Mas não vos esqueçais de que acima de toda lei humana, e acima de toda "indicação" ergue-se, indefectível, a lei de Deus.

O apostolado da vossa profissão impõe-vos esse dever de fazerdes partilhar também pelos outros o conhecimento, a estima e o respeito da vida humana, que vós nutris no vosso coração por convicção cristã; dever de, quando preciso, tomardes ousadamente a defesa deles, e, quando isto for necessário e estiver em vosso poder, de protegerdes a vida, ainda oculta e sem proteção, do filho apoiando-vos na forma do preceito de Deus: Não matarás, "non occides". esse serviço de defesa apresenta-se às vezes como o mais necessário e o mais urgente. Não é esta, entretanto, a parte mais nobre e mais importante da vossa missão, pois esta não é puramente negativa, porém sobretudo construtiva, e deve tender a estabelecer, a edificar, a firmar.

A ACOLHIDA AMOROSA DO RECÉM-NASCIDO

Ponde na mente e no coração da mãe e do pai a estima, o desejo, a alegria, a acolhida amorosa do recém-nascido desde o seu primeiro vagido.

A criança formada no seio materno, é um dom de Deus, e Deus confia o cuidado dela aos pais. Com que delicadeza, com que encanto, a Sagrada Escritura mostra a graciosa coroa dos filhos reunidos em volta da mesa paterna! Eles são a recompensa do justo, como a esterilidade é, muitíssimas vezes, o castigo do pecador. Escutai a palavra divina expressa na sublime poesia do Salmo: "Tua esposa será como uma vinha fecunda no meio de tua casa; teus filhos serão como plantas de oliveiras em volta da tua mesa. Eis aí como é bendito o homem que teme a Deus". Do mau, está escrito: "Seja a sua posteridade condenada à morte, seja numa geração apagado o seu nome".

Desde o seu nascimento, apressai-vos - como já o faziam os antigos romanos - a depositar o filho nos braços de seu pai, porém num espírito incomparavelmente mais elevado. Entre os romanos, isso era a afirmação da paternidade e da autoridade que dela promana; aqui, é a homenagem de gratidão para com o Criador, é a invocação da bênção divina, o incitamento a cumprir com afetuosa dedicação a missão que Deus lhe confiou. Se Deus louva e recompensa o servo fiel por haver feito frutificar cinco talentos, que elogio, que recompensa não reservará ao pai que houver guardado e educado para Ele a vida humana que lhe foi confiada, vida superior a todo o ouro e a toda a prata do mundo?

GRANDEZA E ALEGRIA DA MATERNIDADE

Entretanto, o vosso apostolado dirige-se sobretudo à mãe. Sem dúvida a voz da natureza fala nela e põe-lhe no coração o desejo, a alegria, a coragem, o amor, a vontade de cuidar de seu filho; mas, para vencer as sugestões da pusilanimidade sob todas as suas formas, essa voz precisa ser reforçada, e, por assim dizer, assumir um tom sobrenatural. Pertence-vos fazer a jovem mãe degustar, menos pelas vossas palavras do que por toda a vossa maneira de ser e de agir, a grandeza, a beleza, a nobreza dessa vida que desperta, que se forma e lhe vive no seio, que nasce dela, que ela carrega em seus braços e nutre com seu leite; fazer resplandecer aos olhos dela e no seu coração o grande dom de Deus a ela e a seu filho. Por numerosos exemplos a Sagrada Escritura faz-vos ouvir o eco das preces súplices e, depois, dos cantos de agradecida alegria, de tantas mães finalmente atendidas após haverem longamente implorado por suas lágrimas a graça da maternidade. Mesmo as dores que, desde a culpa original, a mãe deve suportar para dar à luz seu filho não fazem senão apertar mais estreitamente o laço que os une; ela o ama tanto mais quanto mais sofrimentos ele lhe custou. Foi o que exprimiu com comovente e profunda simplicidade Aquele que formou o coração das mães: "A mulher, quando dá à luz, está em dor, porque é chegada sua hora; mas, quando deu à luz seu filho, já não se lembra das dores, por causa da alegria de haver dado um filho ao mundo".

Além disto, pela pena do apóstolo São Paulo, o Espírito Santo mostra ainda a grandeza e a alegria da maternidade. Deus dá à mãe o filho, mas no próprio dom ele a faz cooperar efetivamente para o desabrochar da flor cujo germe ele lhe depositara nas entranhas, e essa cooperação torna-se um meio para conduzi-la à sua salvação eterna: "A mulher salvar-se-á pelos filhos que puser no mundo".

Esse perfeito acordo da razão com a fé dá-vos a garantia de estardes na plena verdade, e de poderdes prosseguir com segurança absoluta o vosso apostolado de estima e de amor à vida nascente. Se conseguirdes exercer esse apostolado junto ao berço onde solta seus vagidos o recém-nascido, não vos será muito difícil obterdes aquilo que a vossa consciência profissional, de acordo com a lei de Deus e da natureza, vos impõe prescreverdes para bem da mãe e do filho.

Aliás, não precisamos demonstrar-vos, a vós que tendes a experiência disso, o quanto hoje em dia é necessário esse apostolado da estima e do amor à nova vida. Ai! Não são raros os casos em que mesmo por uma simples e discreta alusão falar dos filhos como de uma "bênção" é o bastante para provocar a contradição ou mesmo, às vezes, a zombaria. Muito mais freqüentemente reinam a idéia e a expressão do "peso" fastidioso dos filhos.

Quanto esta mentalidade é oposta ao pensamento de Deus e à linguagem da Sagrada Escritura, e mesmo à sã razão e ao sentimento da natureza!

Se há condições e circunstâncias em que, sem violarem a lei de Deus, podem os pais evitar "a bênção" dos filhos, todavia esses casos de força maior não autorizam a perverter as idéias, a depreciar os valores, a vilipendiar a mãe que teve a coragem e a honra de dar a vida.

O BATISMO DOS RECÉM-NASCIDOS

Se o que até aqui dissemos concerne à proteção e ao cuidado da vida natural, com muito mais forte razão deve isso valer para a vida sobrenatural que o recém-nascido recebe pelo batismo.

Na ordem presente, não há outro meio de comunicar essa vida à criança que ainda não tem o uso da razão. E, no entanto, o estado de graça, no momento da morte, é absolutamente necessário à salvação. Sem isso, não é possível chegar à felicidade sobrenatural, à visão beatífica de Deus. Um ato de amor pode bastar ao adulto para adquirir a graça santificante e para suprir à ausência do batismo. Mas, para aquele que ainda não nasceu, ou para o recém-nascido, esse caminho não está aberto. Portanto, se se considerar que a caridade para com o próximo impõe assisti-lo em caso de necessidade; se esta obrigação é tanto mais grave e urgente quanto maior é o bem a proporcionar ou o mal a evitar e quanto menos facilidade aquele que dela precisa tem para se ajudar e se salvar por si mesmo, então fácil é compreender a grande importância de prover ao batismo de uma criança privada de todo uso da razão e que se acha em grave perigo ou diante de uma morte certa.

Sem dúvida, esse dever obriga em primeiro lugar os pais; porém, nos casos de urgência, quando não há tempo a perder e não é possível chamar um padre, a vós é que é atribuído esse sublime dever de conferir o batismo. Não deixeis, pois, de prestar esse serviço de caridade e de exercer esse ativo apostolado da vossa profissão. Possais achar conforto e incentivo na palavra de Jesus: "Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia". E haverá misericórdia maior e mais bela do que a de assegurar à alma da criança - entre o limiar da vida, que ela apenas transpôs, e o limiar da morte, que ela vai em breve passar - assegurar-lhe a entrada na gloriosa e bem-aventurada eternidade?

UM TERCEIRO ASPECTO DO VOSSO APOSTOLADO PROFISSIONAL PODERIA CHAMAR-SE O DO AUXÍLIO À MÃE NO CUMPRIMENTO PRONTO E GENEROSO DA SUA FUNÇÃO MATERNAL

Desde que ouviu a mensagem do anjo, a Santíssima Virgem respondeu: "Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa palavra".

Um "fiat", um sim ardente à vocação de mãe! Maternidade virginal, incomparavelmente superior a qualquer outra, mas no entanto maternidade real, no verdadeiro e próprio sentido da palavra. É por isto que, na recitação do Angelus, depois de recordar a aceitação de Maria, o fiel conclui imediatamente: "E o Verbo se fez carne". É uma das exigências fundamentais da retidão da ordem moral que ao uso dos direitos conjugais corresponda a sincera aceitação íntima do encargo e dos deveres da maternidade. Com esta condição, a mulher trilha a via traçada pelo Criador rumo ao fim que ele designou à sua criatura, fazendo-a, pelo exercício dessa função, participar da sua bondade, da sua sabedoria, da sua onipotência, consoante a palavra do anjo: "Conceberás em teu seio e darás à luz. Concipies in utero et paries".

Se tal é, pois, o fundamento biológico da vossa atividade profissional; o objeto urgente do vosso apostolado será: agir para manter, despertar, estimular o senso e o amor da função da maternidade.

Quando os esposos estimam e apreciam a honra de suscitar uma existência nova, cujo aparecimento eles aguardam com santa impaciência, bem fácil é o vosso papel: basta cultivardes neles esse sentimento íntimo; a disposição para acolher e para entreter essa vida nascente segue-se então como por si mesma. Entretanto, nem sempre assim é; ai! muitas vezes o filho não é desejado; pior ainda, é temido; como, pois, em tais condições poderia ainda existir a presteza no dever? É aí que o vosso apostolado deve exercer-se de maneira afetiva e eficaz; acima de tudo, de maneira negativa, recusando toda cooperação imoral, e, depois também, de maneira positiva, aplicando delicadamente vossos desvelos em dissipar os preconceitos, as diversas apreensões ou os pretextos pusilânimes, em afastar, tanto quanto possível, os óbices mesmo exteriores que podem tornar penosa a aceitação da maternidade.

A LEI FUNDAMENTAL DO ATO E DAS RELAÇÕES CONJUGAIS

Se só se recorrer aos vossos conselhos e aos vossos serviços para facilitar a procriação da nova existência, para protegê-la e para encaminhá-la ao seu pleno desenvolvimento, podeis sem hesitação prestar a isso a vossa plena cooperação; mas em quantos outros casos, pelo contrário, não se recorre a vós para impedir a procriação e a conservação dessa existência, sem nenhum respeito pelos preceitos da ordem moral?

Obtemperardes a tais solicitações seria abaixardes o vosso saber e a vossa experiência, tornando-vos cúmplices de uma ação imoral; seria uma perversão do vosso apostolado. Este exige um "não" calmo mas categórico que não deixe transgredir a lei de Deus e o ditame da consciência. É por isto que a vossa profissão vos obriga a terdes um claro conhecimento dessa lei divina, de modo a fazê-la respeitar, sem ficardes aquém nem irdes além dos seus preceitos.

Por conseguinte, na prática da vossa profissão e no vosso apostolado não vos deixeis perturbar por esse termo pomposo de impossibilidade, nem no que concerne ao vosso juízo íntimo, nem no que se refere à vossa conduta exterior. Nunca vos presteis a coisa alguma que seja contrária à lei de Deus e à vossa consciência cristã! É fazer injúria aos homens e às mulheres do nosso tempo o considerá-los incapazes de um heroísmo contínuo. Hoje em dia, por muitos motivos - quiçá sob o aperto da dura necessidade, ou mesmo, às vezes, a serviço da injustiça - o heroísmo exerce-se num grau e numa medida que nos tempos passados se teria acreditado impossíveis. Por que, pois, deveria esse heroísmo, se verdadeiramente as circunstâncias o exigem, deter-se nos limites marcados pelas paixões e pelas inclinações da natureza? É bem claro: aquele que não quer dominar-se a si mesmo não o poderá fazê-lo; e quem crê poder dominar-se contando só com as suas próprias forças, sem procurar sinceramente e com perseverança o socorro divino, será miseravelmente desiludido.

Eis aí o que concerne ao vosso apostolado junto aos esposos para ganhá-los ao serviço da maternidade, não no sentido de uma cega servidão sob os impulsos da natureza, mas no sentido de um exercício dos direitos e deveres conjugais regulado pelos princípios da razão e da fé.

O ÚLTIMO ASPECTO DO VOSSO APOSTOLADO CONCERNE A DEFESA TANTO DA ORDEM JUSTA DOS VALORES COMO NA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

Os "valores da pessoa" e a necessidade de respeitá-los são um tema que há vinte anos, ocupa sempre mais os escritores. Em muitas das suas teorias até mesmo o ato especificamente sexual tem o seu lugar marcado para fazê-lo servir à pessoa dos esposos. O sentido próprio e mais profundo do exercício do direito conjugal deveria consistir nisto: em que a união dos corpos é a expressão e a realização da união pessoal e afetiva.

Artigos, capítulos, livros inteiros, conferências especialmente, mesmo sobre a "técnica do amor", são consagrados a difundir essas idéias, a comentá-las por conselhos aos jovens esposos, servindo de guia no casamento, a fim de que, por tolice, ou por um pudor mal compreendido, ou por um escrúpulo sem fundamento, eles não descurem aquilo que lhes oferece o Deus que criou também as inclinações naturais. Se, desse completo dom recíproco dos esposos nasce uma vida nova, esta é um resultado que fica fora ou quando muito, como que na periferia dos "valores da pessoa"; resultado que se não recusa, mas que não se quer que esteja como que no centro das relações conjugais.

Segundo essas teorias, a vossa dedicação ao bem da existência ainda oculta no seio materno, e para lhe favorecer o feliz nascimento já não teria senão uma importância menor e passaria a segundo plano.

Se essa apreciação relativa não fizesse mais do que acentuar o valor da pessoa humana dos esposos de preferência à do filho, a rigor poder-se-ia deixar de lado esse problema; mas aqui, pelo contrário trata-se de uma grave inversão da ordem dos valores e dos fins fixados pelo próprio Criador. Achamo-nos diante da propagação de um conjunto de idéias e de sentimentos diretamente opostos à clareza, à profundeza e à seriedade do pensamento cristão. E eis que aqui deve novamente intervir o vosso apostolado. Efetivamente suceder-vos-á receberdes as confidências da mãe e da esposa, e serdes interrogadas sobre os desejos mais secretos e sobre as intimidades da vida conjugal. Como então, cônscias da vossa missão, poderíeis fazer valer a verdade e a retidão da ordem nos juízos e na conduta dos esposos se vós mesmas não tivésseis deles um exato conhecimento e se não estivésseis munidas da firmeza de caráter necessária para apoiar aquilo que sabeis ser justo e verdadeiro?

A HIERARQUIA DOS FINS DO MATRIMÔNIO

Ora, a verdade é que o casamento, como instituição natural, em virtude da vontade do Criador, tem por fim primeiro e íntimo, não o aperfeiçoamento pessoal dos esposos, mas sim a procriação e a educação da nova vida. Os outros fins, embora sendo igualmente queridos pela natureza, não se acham na mesma linha que o primeiro, e menos ainda lhe são superiores, mas, antes lhe são essencialmente subordinados. Isso vale para todo casamento, mesmo infecundo: do mesmo modo que de todo olho se pode dizer que foi destinado e formado para ver, mesmo se, em casos anormais, em conseqüência de condições especiais internas ou externas, se verifica que ele nunca estará no caso de conduzir à percepção visual.

Precisamente para cortar com todas as incertezas e desvios que ameaçavam difundir erros a respeito da hierarquia dos fins do matrimônio e das suas relações recíprocas, Nós mesmo redigimos, há alguns anos, uma declaração sobre a ordem desses fins, indicando aquilo que a estrutura interna da disposição natural revela, aquilo que é patrimônio da tradição cristã, aquilo que os Sumos Pontífices ensinaram repetidas vezes, aquilo que depois nas formas requeridas, foi fixado pelo Código do Direito Canônico. Ademais pouco depois, para corrigir as opiniões contrárias, num decreto público a Santa Sé declarou não se poder admitir o pensamento de vários autores recentes que negam seja o fim primário do casamento a procriação e a educação do filho, ou ensinam que os fins secundários não são essencialmente subordinados ao fim primário, mas lhe são equivalentes, e deles são independentes.

Querer-se-á com isso negar ou diminuir tudo o que há de bom e de justo nos valores pessoais que resultam do casamento e da sua realização? Certo que não, visto como à procriação de uma nova vida no casamento o Criador destinou seres humanos, feitos de carne e de sangue, dotados de espírito e de coração, e, na qualidade de homens e não de animais sem razão, são eles chamados a ser os autores da sua descendência. Foi com este intuito que o Senhor quis a união dos esposos. Com efeito, a Sagrada Escritura diz que Deus criou o homem à sua imagem, e o criou homem e mulher, e - como repetidas vezes é afirmado nos Livros Santos - quis que "o homem abandone seu pai e sua mãe e se una à sua mulher, e que eles formem uma só carne".

Tudo isso é, pois, verdadeiro e querido por Deus, mas não deve ser separado da função primária do casamento, isto é, do serviço em prol da vida nova. Não somente a obra comum da vida exterior, mas ainda todo enriquecimento pessoal, mesmo o enriquecimento intelectual e espiritual, até mesmo tudo o que há de mais espiritual e profundo no amor conjugal como tal pela vontade da natureza e do Criador foi posto a serviço da descendência: Pela sua natureza, a vida conjugal perfeita significa também o dom total dos pais em proveito dos filhos, e, na sua força e na sua ternura o amor conjugal é por sua vez um postulado da mais sincera solicitude para com os filhos e a garantia da sua realização.

Reduzir a coabitação dos esposos e o ato conjugal a uma pura função orgânica para a transmissão dos germes seria como que converter o lar doméstico, santuário da família, num simples laboratório biológico. Por isto, em a Nossa Alocução de 29 de setembro de 1949, ao Congresso Internacional dos médicos católicos, Nós excluímos formalmente do casamento a fecundação artificial. Na sua estrutura natural, o ato conjugal é uma ação pessoal, uma cooperação simultânea e imediata dos esposos, a qual, pelo próprio fato da natureza dos agentes e do caráter do ato, é a expressão do dom recíproco, que, segundo a palavra da Escritura, realiza a união "numa só carne".

Isso é mais do que a união de dois germes, a qual pode efetuar-se mesmo artificialmente, isto é, sem a ação normal natural dos esposos. O ato conjugal, ordenado e querido pela natureza, é uma cooperação pessoal, e, contraindo casamento, os esposos permutam entre si o direito a essa cooperação.

Por conseguinte, quando essa prestação na sua forma natural é desde o início e de maneira duradoura, impossível, o objeto do contrato matrimonial acha-se afetado de vício essencial. E eis aqui o que dizíamos então: "Não se esqueça isto: que só a procriação de uma nova vida, segundo a vontade e o plano do Criador, comporta, num admirável grau de perfeição, a realização dos fins colimados. Ela é ao mesmo tempo conforme à natureza corporal e espiritual e à dignidade dos esposos, ao desenvolvimento normal e feliz do filho".

Estes valores pessoais, quer no domínio dos corpos ou dos sentidos quer no domínio do espírito, são realmente autênticos, mas na escala dos valores, o Criador os colocou não na primeira linha, mas na segunda.

UM HEDONISMO ANTICRISTÃO

Acrescentai outra consideração que corre o risco de cair no esquecimento: todos esses valores secundários da esfera e da atividade geradora entram no quadro do papel específico dos esposos, que é serem os autores e os educadores da nova existência. Sublime e nobre papel, o qual, entretanto, não pertence à essência de um ser humano completo, como se, não sendo realizada essa tendência natural para gerar, de algum modo ou em algum grau se produzisse uma diminuição da pessoa humana. Renunciar a essa realização especialmente se isso se faz por motivos os mais nobres - não é mutilar os valores pessoais e espirituais. Dessa livre renúncia feita pelo amor do reino de Deus, o Senhor disse: "Non omnes capiunt verbum istud, sed quibus datum est. Nem todos compreendem esta doutrina, mas somente aqueles a quem é dado compreendê-lo".

Exaltar fora de medida, como muitas vezes se faz nos nossos dias, a função gerativa, mesmo na forma justa e moral da vida conjugal, não é apenas um erro e uma aberração; comporta também o perigo de um desvio intelectual e afetivo capaz de sustar e de sufocar sentimentos bons e elevados, especialmente na juventude, ainda desprovida de experiência e ignorante das desilusões da vida. Porque, afinal de contas, que homem normal, sadio de corpo e de espírito, aceitaria pertencer à categoria dos deficientes de caráter e de espírito?

INSTINTO E DIGNIDADE HUMANA

Contudo, incompleta seria a Nossa exposição do exercício do vosso apostolado profissional, se não aditássemos ainda uma palavra rápida a respeito da dignidade humana no uso da tendência a dar a vida.

O próprio Criador, que, na sua bondade e sabedoria, e para a conservação e propagação do gênero humano, quis servir-se do concurso do homem e da mulher, unindo-os no matrimônio, estabeleceu também que nessa função os esposos experimentassem um prazer e uma satisfação do corpo e do espírito. Portanto, nada de mal fazem os esposos procurando esse prazer e fruindo dele. Aceitam aquilo que o Criador lhes destinou.

Sem embargo, ainda aí devem os esposos saber manter-se nos limites de uma justa moderação. Tal como no gosto dos alimentos e das bebidas, assim também no prazer sexual não devem eles abandonar-se sem freio ao impulso dos sentidos. A justa regra é, pois esta: o uso da função geradora natural só é moralmente permitido no casamento, a serviço e segundo a ordem dos fins do próprio casamento. Daí ainda resulta que, só no casamento e observando essa regra, é que o desejo e o gozo desse prazer e dessa satisfação são lícitos. Porquanto o gozo está sujeito à lei da ação de que ele deriva, e não vice-versa, a ação à lei do gozo. E esta lei, tão razoável, visa não somente a substância mas ainda as circunstâncias da ação, de tal maneira que, mesmo salvaguardando o essencial do ato, pode-se pecar no modo de cumpri-lo.

A transgressão desta regra é tão antiga quanto o pecado original. Entretanto, na nossa época corre-se o risco de perder de vista o princípio fundamental. De feito, atualmente as pessoas habituam-se, pela palavra e pelos escritos (mesmo oriundos de certos católicos), a sustentar a autonomia necessária, o fim próprio e o valor próprio da sexualidade e do seu exercício, independentemente da finalidade da procriação de uma nova vida. Querer-se-ia submeter a um novo exame e a uma nova lei a própria ordem estabelecida por Deus. Não se quereria admitir outro freio no modo de satisfazer o instinto a não ser o de respeitar o essencial do ato instintivo. Assim a obrigação moral do domínio das paixões seria substituída pela licença de obedecer cegamente e sem freio, aos caprichos e aos impulsos da natureza: o que, mais cedo ou mais tarde, só poderá redundar em detrimento da moral, da consciência e da dignidade humana.

Se a natureza tivesse tido em vista exclusivamente, ou pelo menos em primeiro lugar, um dom e uma posse recíprocas dos esposos na alegria e no prazer e se houvesse regulado esse ato unicamente no intuito de levar a experiência pessoal deles ao grau mais elevado da felicidade, e não no intuito de estímulos ao serviço na vida, então o Criador teria adotado outro plano a formação e na construção do ato natural. Mas, pelo contrário, esse ato é, em suma, todo ele subordinado e ordenado para essa única e grande lei da geração e da educação do filho, "generatio et educatio prolis" isto é, para o cumprimento do fim primário do casamento como origem e fonte de vida.

VAGAS DE HEDONISMO INVADEM O MUNDO

Ai! Vagas incessantes de hedonismo invadem o mundo e ameaçam submergir na mare montante dos pensamentos, dos desejos e dos atos toda a vida conjugal, não sem criar sérios perigos e grave dano para a função primária dos esposos.

Esse hedonismo anticristão, sobejas vezes as pessoas não se envergonham de erigi-lo em doutrina, inculcando o desejo de tornar sempre mais intenso o gozo na preparação e na realização da união conjugal; como se nas relações conjugais, toda a lei moral se reduzisse ao cumprimento regular desse ato e como se tudo o mais, de qualquer maneira que o façam, se achasse justificado pela efusão do amor mútuo, santificado pelo sacramento do matrimônio, digno de louvor e de recompensa perante Deus e perante a consciência.

Com a dignidade do homem e com a dignidade do cristão, que põem um freio nos excessos da sensualidade, com isto ninguém se preocupa!

Pois bem! não. A gravidade e a santidade da lei moral cristã não admite uma satisfação desenfreada do instinto sexual, nem essa tendência exclusiva ao prazer e ao gozo: ela não permite ao homem racional deixar-se dominar até esse ponto, nem no que diz respeito à substância nem no que concerne às circunstâncias do ato.

Alguns quereriam sustentar que a felicidade no casamento está na razão direta do gozo recíproco nas relações conjugais. Não: pelo contrário, a felicidade no casamento está na razão direta do respeito mútuo entre os esposos; mesmo nas suas relações íntimas; não porque eles julguem imoral e repilam aquilo que a natureza oferece e o que o Criador deu mas porque esse respeito e a estima mútua que ele gera são um dos elementos mais sólidos de um amor puro e, por isto mesmo, tanto mais terno.

Este nosso ensinamento nada tem a ver com o maniqueísmo e com o jansenismo, como alguns querem fazer crer para se justificarem. Ele é pura e simplesmente uma defesa da honra do casamento cristão e da dignidade pessoal dos esposos (1).

(I) Discurso sobre o apostolado das parteiras, 29 de outubro, 1951. 

Fonte: Pio XII e os problemas do mundo moderno, tradução e adaptação do Padre José Marins, 2.ª Edição, edições Melhoramentos. 
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