quinta-feira, 31 de março de 2011

IV- Meditação (final) - Jesus no Jardim das Oliveiras

IV- Meditação (final)
Jesus no Jardim das Oliveiras


Consideremos Jesus na agonia. Aproxima-se o momento em que Jesus é preso pelos Seus algozes; sofre já no Seu coração todos os tormentos de que Seu corpo vai ser vítima... Não sente somente os tormentos do corpo flagelado senão também todas as dores que merecem os pecados da humanidade.

Ó Jesus, Vós sofrestes também as penas dos meus pecados, para me poupardes, aos tormentos do inferno!

A Vossa agonia foi tão dolorosa que o Eterno Pai Vos enviou um Anjo do céu para Vos confortar. E Vós, Senhor, nesse momento de extrema amargura recorrestes à oração! “Et factus in agonia profixius orabat” e entrando em agonia orava mais intensamente. Que lição Vós me dais, ó Divino Salvador! Por maior que seja a amargura da minha vida, eu terei confiança na bondade do Pai celeste, que sempre me confortará e serei perseverante na oração por mais longo que seja o meu sofrer.

Senhor, antes de terminar esta hora santa passada em união conVosco, permiti que eu faça a minha comunhão espiritual para me unir mais intimamente a Vós.

Comunhão espiritual

Ó Jesus, que tão ardentemente desejais unir-Vos às almas para as santificardes:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, verdadeira luz que nos ilumina neste mundo e nos mostrais o caminho do paraíso:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, força de Deus, que nos amparais em nossas fraquezas e consolais em nossas armarguras.
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, exemplar divino de todas as virtudes:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, fonte inesgotável de todos os bens:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus. Pão da vida, que alimentais com a graça divina as almas que Vos recebem:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus, sabedoria infinita, que dissipais as trevas das inteligências que Vos procuram:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ó Jesus que estais presente na Hóstia Consagrada para que as almas Vos recebam:
Todos: Vinde e vivei em mim.

Ò Jesus, eu Vos amo de todo o meu coração e desejo ardentemente receber-Vos ao menos espiritualmente.
Todos: Vinde e vivei em mim.

(Oração retirada do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

Ver as outras meditações desta série:

quarta-feira, 30 de março de 2011

Flirtar é divertir-se com a alma

Flirtar é divertir-se com a alma


Denomino alma a fonte profunda e misteriosa da nossa atividade moral, intelectual e religiosa. É por meio dela que a graça de Deus chega até nós para nos santificar. É nela que Deus reside. É ela que estabelece uma admirável intimidade entre Deus e nós. É por ela que O chamamos Nosso Pai e por ela, efetivamente, é que somos Seus filhos. É o que temos de mais grandioso e imortal. Anima nosso corpo, mas também tem sua vida própria, vida esta que vale tudo. A fim de salvá-la, nenhum sacrifício é demasiado, e, para desenvolvê-la, nenhum esforço deve ser recusado.

Brincar com ela equivale, pois, a brincar com seu eterno futuro. Será uma sinistra brincadeira, se acreditarmos na palavra de Jesus Cristo: “De que vale ao homem ganhar o universo se vier a perder sua alma?

Ora, a alma está aderente ao coração e este, por sua vez, depende de algum modo dos sentidos. Também o “flirt”, brincadeira do coração e dos sentidos, pode, igualmente, transformar-se em brincadeira da alma.

A alma perde o gosto pelo invisível

Com essa brincadeira, a alma desenvolve insensivelmente o gosto pelo que é visível e, na mesma proporção, perde o atrativo pelo invisível, que, segundo o que diz São Paulo, é o verdadeiramente real.

Ela empreende uma viagem de ternura para as baixezas, aprende a deslizar e, depois, a rolar. Em vez de ser a coisa impelida pelas asas e que plana, torna-se a coisa puxada por patas pegajosas.

As imagens voluptuosas flutuam na paisagem interior. Os sonhos que antes divagavam no mistério recolhido, à procura de Deus, agitam-se, ansiosos e atormentados, nas nuvens de recordações suspeitas.

A Igreja não é mais o lugar abençoado em que se rezava, cantava, ouvindo a alma para amar, é o lugar sossegado em que se passa um longo tédio. Seu silêncio inquieta e faz fugir. Suas cerimônias cansam e logo nos desinteressam. Sua calma, em que Deus habita, parece vazia porque falta alguém, alguém cuja presença, cada vez mais indispensável, traz consigo a única felicidade que se espera para o futuro.

Certamente, a jovem mudou muito. Mais do que ela diz, mais do que pensa. Quando se lhe observa isso, protesta, talvez se zangue ou sorria. Mas de que valem esses protestos contra a evidência que irrompe de toda ela? Pode tentar salvar as aparências continuando exteriormente a ser “como era antes”, mas trai-se em mil outras ocasiões. Escapam-lhe reflexões, que põem a descoberto o segredo de sua alma “ausente de onde anima e presente onde ama”.

Mais tarde, nem mesmo as aparências consegue salvar. Quando as coisas nada mais significam, a espécie de sorriso que se lhes dá não pode continuar indefinidamente. Quando Deus é substituído por outro na vida e passa a valer cada vez menos, é preciso que isso se torne conhecido. Aliás, é uma questão de sinceridade.

A menos que sejais de uma hipocrisia revoltante, sentir-vos-íeis miseráveis por prolongar ainda mais tempo essa brincadeira de mentira. E, se a covardia auxilia a sinceridade, como não se tem mais a coragem de ser o que se parece, temos então a coragem de aparecer como de fato somos. Pelo menos é lógico, dirão. Sim, e infelizmente. Porque, para uma cristã, existe outra maneira de ser lógica. Somente essa maneira lhe custará um sacrifício e tal sacrifício não quer praticá-lo, não quer...

A alma perde o gosto pela piedade

Como conseqüência imediata dessa aversão pelo invisível, a alma se afasta da piedade, tanto pelo sentimento quanto também pela prática. Ora, pensando que é principalmente nas ocasiões perigosas que a piedade é ainda mais necessária, como não lamentar essa jovem que se afasta cada vez mais de Deus quando Seu auxílio lhe é mais útil?

No entanto, os fatos aí estão para o provar, ela se afasta de Deus. As comunhões “falam-lhe” menos, e diminui-lhes o número... As confissões, por timidez ou por vergonha, aborrecem-na, e então suprime-as. O exame de consciência só pode condená-la, e ela então deixa de fazê-lo. As meditações, as leituras religiosas entediam cada vez mais, ela então joga o livro para um canto e não o lê mais... Os retiros causam-lhe medo – é bem compreensível, - e ela então não os freqüenta mais... Os ofícios religiosos enfastiam-na, e ela então evita-os o mais que pode. Os sermões arrazam-na, e foge deles... As obras pias, as verdadeiras, são, para ela, trabalhos forçados, e encontra 33 razões suficientes para não mais aparecer...

Digam francamente: não é assim que se passam as coisas nesses períodos da juventude, provisórios ou definitivos, durante os quais o “flirt” ocupa a vida, a absorve e a consome?

Para não ver nisso um inconveniente, por pequeno que seja, é preciso ser bastante ingênuo ou cúmplice de fraquezas tão perniciosas. Mas aqueles que acreditam ser a vida espiritual a verdadeira e única vida não tomam partido assim tão facilmente. Pensam que, ao contrário, o mal é grande, que o séquito que o acompanha é funesto, e que a tranqüila inconsciência que muitas vezes vai a seu lado só pode agravá-lo, pois suprime, na doente, a vontade de curar-se.

Supondo que nada de mais grave aconteça e que, em continuação, depois de perdido o espírito de apostolado e a piedade, não se perca também a fé essencial, já não basta que a vida espiritual esteja em perigo? E que essa, em que antes se admirava uma jovem ardorosa em sua religião, ande agora por uma estrada cujo destino faz tremer? E em que estado se encontrará a filha de Deus já cansada de servi-lO e não tendo mais coração para amá-lO?... A religião pura de Salomão morreu por ter “flirtado” com a idolatria de Moloch e de Baal e de todos os deuses pagãos... O amor de Judas por Cristo acabou por ele ter "flirtado" com o dinheiro dos Fariseus. Quantas jovens cristãs morrem sobrenaturalmente porque sua alma flirta com o coração seduzido, enquanto o coração flirtava com o prazer sensual e, depois, com o pecado?...

A alegre brincadeira transformou-se numa brincadeira fúnebre. Aquela que era a virgem prudente e pura, talvez não mais seja nem virgem, nem prudente, nem pura. E, portanto, também a virgindade religiosa da alma é preciosa. Num sentido, é mais preciosa do que a outra virgindade. Mas, como, ao comprometê-la, se experimenta menos violentamente o sentimento da derrota, sofre-se menos tragicamente ao perdê-la...

Ilusão! Porque derrota existe, visto a fervorosa intimidade com Deus ser substituída por uma indiferença morna num coração entibiado.

Muda a alma para pior

Tudo isso, provoca uma transformação. Seria o caso de felicitações, se houvesse motivo... Mas haverá quem o ouse?

Com efeito, a jovem mudou muito. Ao redor, silenciosamente, o “flirt” teceu sua teia. Cada vez mais enraigados, os hábitos foram adquiridos.

Aquela que, durante tanto tempo, mantinha o equilíbrio, custasse o que custasse, não o mantém mais. Cansada ou enervada de tanto dançar a divertida dança, já atingiu o extremo da corda e é aí que estremece diante da poderosa atração do espaço. Então, rompendo as amarras, deixa-se arrastar pela onda e lança-se à vida na qual se abisma, o “tanto pior” fatal, que tudo aceita, mesmo morrer.

Assombros assustadores

Diante deste espetáculo, alguns se espantam e se aterram. Compreende-se que fiquem aterrorizados, mas não se compreende que se assombrem. Naturalmente, a criança está irreconhecível. Não é mais o que era. Ou melhor, é a mesma, porém estragada; a bela alma ficou-lhe por lá, não se sabe bem onde, nos países insalubres e misteriosos em que reina o “flirt” e onde, dominadas por seu encanto, as consciências apodrecem, os corações murcham, as almas se tornam carnais.

Ficam assombrados. E dizem, modernizando os clássicos: “Como é que o ouro puro se pode transformar num mísero chumbo? Como é que a alma real que, nos dias de sua pureza, voava, vestida de púrpura e coroada de lírios, por entre outras almas amantes e submissas, vai agora, pesada e mesquinha, desprezada e só, toda andrajosa? Que respondam os que sabem, porque explicação existe.

Esta criança chegou aonde chegou porque seguiu o caminho assas conhecido. Espantam-se, e por quê? Seria melhor chorar, pois é bem doloroso. Mas não se deviam assombrar porque aí não há mistério nem milagre. Clara como a luz do sol, o que existe é uma grande imprudência com suas conseqüências, em de deslize em deslize, como atraída pelo declive, desde as alturas para os subterrâneos, dos cumes cheios de neve para os barrancos cheios de lodo, do pico luminoso das águias para a cova dos répteis. A estrela fugiu do firmamento e sua luz embaciada arrasta-se pela poeira das estradas...

Flirtar é divertir-se com um outro

Flirtar é divertir-se com o coração, com a própria consciência, com sua alma, com seus sentidos, mas também é divertir-se com o coração, a consciência, a alma e os sentidos de outra pessoa ou de várias outras. E este segundo perigo é tão impressionante quando o primeiro. Porque se, no segundo caso, o perigo de queda é igual, a esperança do arrependimento é muito mais duvidosa. O tormento implacável das escandalosas, mesmo depois de convertidas, não derivará da sua impotência em converter o “outro”? O carrasco sobrevive à sua vítima. Ele levanta-se e ela permanece hirta...

Nunca poderemos apagar os incêndios por nós mesmos ateados. Seria necessária a miraculosa mão de Deus para que ressuscitassem as pessoas de cuja morte se é autor. Caim olha Abel, compreende e, desesperado, foge. Tendo obtido a graça do arrependimento e, aceitando-a, se recita um ato de contrição, isto não quer dizer que o outro também faça o mesmo... Eis aí razões suficientes para assustarem todo aquele que conserva ainda um pouco de senso moral e se atemoriza com toda razão em frente às responsabilidades que pesam sobre o que é eterno e, talvez, irreparável.

Guardadas as devidas proporções, tal é a situação, no “flirt”, de cada um dos dois com respeito a seu cúmplice... (Se a palavra “cúmplice” lhes parece muito forte, substituam-na por “companheiro da brincadeira”... É a mesma coisa...)

Imaginem a seguinte hipótese, que corresponde à realidade.

São dois. Iniciam junta a sessão. No primeiro ato, um deles, já inquieto e desapontado, não quer prosseguir... E se o outro, que tomou gosto pela coisa, desejar continuar? E se essa recusa em prosseguir só faz com que o companheiro prosseguir só faz com que o companheiro procure outra atriz para com ela continuar o diálogo? E se, a fim de evitar essa conseqüência ameaçadora, ele consente em prosseguir no seu papel, em qual dos casos, se sentirá mais seguro? Em qual deles a responsabilidade não estará empenhada?

São dois. Mas não têm a mesma temperatura sentimental. Com calor idêntico, a madeira queima muito mais depressa que o ferro. Sobre o forno acesso, o alumínio queima, ao passo que o cobre apenas se aquece...

No “flirt”, a mesma lei se verifica. Enquanto um ainda está no idílio, o “outro” já pode ter alcançado o drama.

Um anda com a velocidade de um ônibus, enquanto o outro talvez com a velocidade de um trem-rápido. Um plana no céu calmo, talvez o outro se debata no meio da tempestade. Um sorri amistosamente, talvez o outro tenha sonhos agitados... Um domina-se, talvez o outro se entregue. Um adormece sem sonhar, talvez no outro a febre suba. Um não enxerga mais longe do que a ponta de seu nariz. Talvez o outro pressinta a vida inteira...

São dois, mas não têm o mesmo apetite e não vivem sob o mesmo regime. Um, idealista, contenta-se com o perfume da flor, o outro, mais prático, quer provar o fruto...

São dois... Mas uma, piedosa, encontra na sua piedade uma salvaguarda, em sua fé, um cuidado, em seus princípios, uma luz... O outro, menos religioso, só vê barreiras abertas em caminhos permitidos que convirjam para lugares autorizados.

São dois... Mas um se confessa e se arrepende, o outro não se confessa e não tem remorsos.

São dois... Mas um, que ainda é puro, acredita em sua pureza e não quer perdê-la. O outro, que não mais a possui, não acredita nela e não teme perdê-la...

São dois. Mas um, tímido, não ousa tudo recusar receando pecar. O outro, audacioso, seria capaz de tudo, do pedido e da culpa.

São dois e ambos se divertem. Enquanto divertir-se para um deles consiste apenas em sorrir um pouco, para o outro, que talvez nem ria, quer dizer: brincar até o fim com o brinquedo da volúpia e da morte...

De maneira que dizer que são dois significa, não somente que existe um, depois outro, mas ainda que um não é igual ao outro e que, apesar das aparências oficiais, não é o mesmo problema real que tentam resolver. Esta verificação dá muito que pensar. E, como se impõe a quem deseja ser leal, vê-se bem a que angustiosas conclusões se chega diante da traiçoeira segurança em que se baseia sob pretexto de que “isso não lhes fará mal”... Pode ser que a elas não o faça... mas, e a eles?...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças, editora caravela LTDA, 1950, continua com o post: O "flirt" e suas falsas justificativas)

PS: Grifos meus

terça-feira, 29 de março de 2011

III Meditação – Jesus no Jardim das Oliveiras (III de IV)

III Meditação (III de IV) 
Jesus no Jardim das Oliveiras


Consideremos no horto abandono de Seus discípulos. Jesus, oprimido pelo sofrimento como que necessitando de um socorro, levanta-Se e dirige-Se ao lugar onde mandou a Seus discípulos que esperassem. É bem terrível vermo-nos sós no meio de sofrimentos atrozes! Mas os discípulos dormem. Oh! como devemos contar pouco com os homens ainda que sejam nossos amigos!

Os discípulos dormem; não puderam acompanhar o seu divino Mestre durante uma hora... Judas, porém o traidor, aproveita aquela hora para entregar Jesus aos seus inimigos. Como são diligentes e ativos os homens sob o influxo do espírito maligno!...

Vigiai e orai para não sucumbirdes à tentação, disse Jesus aos Seus discípulos, como que repreendendo-os docentemente: “Já que não pensais em Mim, pensai ao menos em vós, porque o espírito mau está de vigia e a carne ou a criatura humana é fraca”.

Fracos somos nós também, Senhor, e bem reconhecemos os benefícios que nos dispensais. Aceitai, ó Jesus, a nossa ação de graça e ouvi benigno as nossas súplicas para podermos resistir as tentações.

Ação de graças

Meu Deus é a Vós que devo o ser e a vida, o corpo e a alma:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios.

É a Vós Senhor, que eu devo a vida sobrenatural que me faz Vossa filha, herdeira do céu:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios.

É a Vós, Senhor, que eu devo todas as graças necessárias à minha santificação e todos os Sacramentos:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios.

É a Vós Senhor, que eu devo os Anjos e Santos meus protetores, especialmente a minha Mãe do céu:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios

Meu Deus, dignai-Vos aumentar o meu reconhecimento, para poder repetir com um mais vivo sentimento de gratidão:
Todos: Meu Deus, eu Vos agradeço todos os Vossos benefícios.

Atos de súplica

Meu Deus, eu creio em Vós, mas aumentai a minha fé, tornai mais firme a minha esperança e mais ardente o meu amor por Vós:
Todos: Jesus ouvi a minha oração.

Meu Deus abençoai os meus pensamentos, as minhas palavras e as minhas ações:
Todos: Jesus ouvi a minha oração.

Meu Deus abençoai a minha família, preservai-a do pecado e socorrei-a em suas necessidades espirituais e temporais:
Todos: Jesus ouvi a minha oração. 

Meu Deus abençoai o Soberano Pontífice, os Bispos, os Sacerdotes e os fiéis de toda a Igreja Católica:
Todos: Jesus ouvi a minha oração. 

Meu Deus suscitai vocações sacerdotais e religiosas, convertei os pecadores, aumentai o fervor dos justos e assisti aos moribundos:
Todos: Jesus ouvi a minha oração. 

Meu Deus aliviai as almas do Purgatório, particularmente as almas dos meus parentes, benfeitores e amigos:
Todos: Jesus ouvi a minha oração.

(Oração retirada do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

Savall suona la viola da gamba

Savall suona la viola da gamba


domingo, 27 de março de 2011

Por este Sinal vencerás

In hoc Signo vinces.”
Por este Sinal vencerás.
(Euseb. vit. Const., 1,22)


Nota preliminar
(da primeira edição francesa)

No mês de novembro deste ano, chegou a Paris, para seguir os cursos de um colégio de França, um jovem católico, pessoa de grande distinção. Fiel ao uso tradicional de fazer o Sinal da Cruz antes e depois de comer, foi, desde o primeiro dia, objeto de espanto para os condiscípulos pensionistas.

O dia seguinte, em virtude da – liberdade dos cultos – o objeto das zombarias era ele.

Vindo-me visitar, pediu-me que algo lhe eu dissesse a respeito do Sinal da Cruz; pois os condiscípulos pretendiam fazê-lo envergonhar-se de o fazer.

Respondem àquele pedido as cartas seguintes.(Nota do blogue: total de 23 cartas)

Paris, 1862 – Monsenhor Gaume.

Sétima carta
Paris, 2 de dezembro de 1862.

Meu caro Frederico,

Os que desprezam o Sinal da Cruz ou dele desdenham não podem ter dúvida nenhuma com relação ao lugar que o Sagrado Sinal ocupa no mundo.

Tais indivíduos pertencem a uma classe hoje muito numerosa: é a classe dos que de nada duvidam porque ignoram tudo.

Tu, porém, deixa por um instante a sede de Juiz e, dando-me tua mão, em rápida viagem, percorre comigo os mundos – antigo e moderno.

Visitemos primeiro a brilhante antiguidade.
Peregrinos da verdade; entremos no oriente e no ocidente.

Memphis, Athenas, Roma.

São três grandes centros de luzes, que nos convidam a visitar as escolas de seus sábios. Vejamos que dizem estes mestres ilustres sobre os pontos cujo conhecimento mais nos interessa.

O mundo é eterno, ou foi criado?
Se foi criado, quem foi o seu criador?
É corpo ou espírito, o autor da natureza?
É ou não é eterno?
É livre, independente?
É um só ou são muitos?

As respostas são – hesitações, incertezas, flagrantes contradições.

Que é o bem?
Que é o mal?
Qual a origem do bem e do mal?
Como o bem e o mal se acham no homem e no mundo?
Há um remédio para o mal ou é incurável?
Se tem remédio, qual é ele?
Quem o possui?
Como se pode obter?
De que modo se aplica?

Hesitações, incertezas, fragrantes contradições, são as respostas.

Que é o homem?
Entra na sua essência uma coisa chamada – Alma?
É um fogo?
É matéria aeriforme?
Morre com o corpo?
Sobrevive ao corpo?
É espírito?
Qual é o seu destino?
Qual a finalidade de sua existência?

E as respostas a estas e mil outras questões, não passam de hesitações, incertezas, flagrantes contradições.

Ah! Meus grandes povos, meus grandes homens!

Apesar de tão pretensiosos, vós não sabeis nem a primeira palavra de uma resposta a estas questões fundamentais!

Não sois mais do que – notáveis ignorantes!

Que importa saber fabricar sistemas, compor sofismas, inundar de eloqüência as escolas, os senados, os areópagos?

Que importa saber guiar carros no circo, edificar cidades, dar batalhas, conquistar províncias, tornar a terra e os mares tributários de vossa avareza?

Ignorais o que sois, donde vindes, e para onde ides?
No dizer de um de vós mesmos não passais de uns suínos mais ou menos gordo, lá no rebanho d’Epicuro!... – “Epicuri de grege porci.” – Eis o mundo antigo.

Com a divulgação deste Sinal eloqüente que é o Sinal da Cruz essas vergonhosas trevas se dissiparam.

Aprendendo a fazer o Sinal da Cruz, o homem, ilustrado ou não, aprende a ciência de Deus, do mundo, e de si mesmo.

Repetindo-o constantemente, grava-se-lhe no fundo da alma esta doutrina a ponto de jamais esquecê-la.

Digam o que disserem: graças ao uso tão freqüente do Sinal da Cruz em todas as classes da sociedade, tanto nas cidades e como nas aldeias o mundo católico dos primeiros séculos e da idade média conservou em grau até então desconhecido, o conhecimento da ciência divina, mãe de todas as ciências e mestra da vida.

Poderia acontecer o contrário disto?

Se durante anos, certo homem repete um erro dez vezes por dia, dele fica plenamente compenetrado e com ele, para assim dizer, se identifica.

Ora, se isto acontece com o erro, porque não há de acontecer com a verdade?

Desejas a contra-prova?

Continuemos nossa viagem e entremos no mundo moderno.

Abandonou ele o Sinal da Cruz e desde esse tempo, não mais teve a seu lado um monitor que lhe avivasse a cada instante os três grandes dogmas indispensáveis à vida moral.

Por isso que olvidou o Sinal da Cruz, Criação, Redenção e Glorificação, essas três verdades fundamentais são para ele como se não existissem.

Não vês o que ele está sendo em matéria de ciências? Semelhante ao mundo de outrora, tu ouves o mundo de agora gaguejar vergonhosamente sobre os princípios mais elementares da religião, do direito, da família e da propriedade.

Que fundo de verdades alimenta suas conversas? 
Que contêm seus livros de política e de filosofia? 
À luz de que fachos anda ele com sua vida política e particular? 
E que pensas tu dos jornais? 
Na torrente de palavras que despejam diariamente na sociedade, quantas idéias sãs poderás apontar, com relação a Deus, ao homem, e ao mundo? 
Qual é a sabedoria deste mundo, deste século de luzes, que não sabes fazer o Sinal da Cruz?

Igual ao mundo pagão que lhe serve de mestre e de modelo.
O mundo de hoje só conhece e adora

o deus-eu,
o deus-comércio,
o deus-dinheiro,
o deus-ventre,
o deus-prazer.

Conhece e adora

a deusa-indústria,
a deusa-politicagem,
a deusa-volúpia.

Por serem meios de satisfazer a todos os seus maus desejos, ele conhece e adora as ciências da matéria: - a química, a física, a mecânica, a dinâmica; as essências, os sulfatos, os nitratos, os carbonatos.

Eis aqui destes séculos as suas divindades e o seu culto.

Eis aqui a teologia, a filosofia, a política, a moral, a vida do mundo moderno: - O egoísmo com seus vícios. – Progredindo assim, breve estará ele bem a par dos contemporâneos de Noé, destinados a morrer nas águas do dilúvio.

Para aqueles também consistia-lhes toda a ciência em conhecer e adorar os deuses do mundo moderno.

Consistia em comer, beber, edificar, comprar, vender e casar cada um, a si e aos outros na depravação.

O homem tinha concentrado sua vida na matéria.

Havia-se ele mesmo tornado carne: ignorante como as carnes e manchado como as carnes. (1)

De todas estas más tendências, qual é a que falta ao mundo atual?
De resto, nada de melhor o mundo hoje exige de sua própria essência.

Não sabendo fazer e não fazendo o Sinal da Cruz, ele se materializa.

Em virtudes, pois da lei de gravitação moral, o gênero humano tem forçosamente de recair no estado em que estava antes de amar a este Sinal salvador.

Digamos a este mundo ignorante de hoje:

O Sinal da Cruz é um livro que nos educa e nos eleva.

Sob tal ponto de vista, podes agora julgar se era sem razão que nossos pais constantemente faziam o Sinal da Cruz.

Agora vais ver que, há uma ignorância mui deplorável do mundo atual é que se deve imputar, em grande parte, o abandono do Sinal da Cruz.

Que é a ignorância?

É a indigência do espírito.

Em matéria de religião, ela acusa sempre a indigência do coração. E tal indigência procede da fraqueza em – praticar a virtude e repelir o mal.

E porque existe tal fraqueza? É porque o homem despreza os meios de obter a graça e de torná-la eficaz.

O primeiro, o mais pronto, o mais vulgar, o mais fácil destes meios, é, como sabes, a oração. E de todas as orações, a mais fácil, a mais pronta, a mais vulgar, e, talvez, a mais poderosa, é o Sinal da Cruz...

Nota:

1Sicut autem in diebus Noe ita erit et adventus filis hominis. Sicut enim in diebus ante diluvium comedentes nubentes, et nuptui tradentes… donec venit diluvium et tulit omnes. (Math., XXIV, 37,38,39.)

- Edebant et bibebant; emebant et vendebant; plantabant, et oedificabant. (Luc., XVII, 28.)

- Omnis quipe caro corruperat vitam suam super terram. (Gen., VI, 12)
- Quia caro est. (Ibid., 3.)

(Excertos do livro: O Sinal da Cruz por Monsenhor Gaume, Protonotário Apostólico, livro que de Pio IX mereceu um “Breve” especial, primeira tradução brasileira cuidadosamente calcada sobre a 4ª edição francesa, 1950)

Flirtar é divertir-se com a própria consciência

Flirtar é divertir-se com a própria consciência


 A consciência
O que é?

A consciência é, em nós, o sentido do bem e do mal, a guardiã da vida moral, o guia prático de nossa vida cotidiana. É a voz interior que diz: “Faça isso, não faça aquilo”... É a testemunha, talvez silenciosa, mas atenta, que nos vê viver, lutar, ceder, vencer, pecar. E o juiz impiedoso que, realizado o ato, absolve ou condena, repreende ou felicita, tranqüiliza ou maltrata. Segundo a circunstância, é por meio dela que sentimos o direito de nos orgulharmos ou o dever de corar. Por causa dela, a alma febril não pode dormir nas noites culposas. A alma contente dorme placidamente nas noites de pureza.

Tê-la a nosso favor, mesmo nas provações, é o segredo da felicidade. Tê-la contra nós, mesmo no meio dos maiores êxitos e dos mais rasgados elogios, é o segredo roaz que estraga toda alegria. Se Judas desespera, é porque sua consciência o condena. Se os mártires exultam, é porque a consciência os abençoa.

O que vale

É a única fortuna que possuímos, nosso mais precioso tesouro. Nada a substitui, porque nada lhe chega aos pés. Enquanto a possuímos intacta, é o supremo refúgio em que se encontra segurança e força para viver. Última estrela no céu interior, enquanto estiver iluminada, a gente vê como andar, e a estrada apresenta-se cheia de luz.

Uma vez morta, que importa que em nós tudo esteja iluminado?... Tal qual como, numa família unida, a morte da filha única deixa um tal vazio que não poderá ser preenchido por montanhas de dinheiro...

As pessoas honestas apreciam-na mais que a outra qualquer coisa. E tem razão. Seu valor é tão grande que, para salvá-la, deve-se preferir perder tudo e nunca se deve pensar em perdê-la, embora se ganhe com isso o próprio universo...

O único lugar digno dela é o primeiro. Porque é a dona da casa, a rainha do secreto reinado. Obedecendo unicamente a Deus, manda em tudo mais. Reduzi-la ao papel de empregada ou de simples dama de companhia, é desconsiderá-la e desonrá-la. Foi feita para levar o cetro e não para servir à mesa. Somos nós que nos devemos curvar diante dela e não ela diante de nós.

Suas grandes qualidades

Primeiramente, é ser clara, distinguir nitidamente as coisas, ver branco quando, de fato, é branco, ver preto quando é preto, sem o que não saberia para onde orientar a vida, nem o que deveria ordenar ou proibir deixando de ser o guia de confiança.

Em segundo lugar, ser leal, o contrário de mentirosa e hipócrita. Não se lhe pergunta o que agrada, tranqüiliza ou diverte. Pede-se-lhe que diga, seja agradável ou não, o que é e o que deve ser. Se se torna cúmplice das paixões, se lisonjeia quando deveria acusar, se dorme quando deveria vigiar, se tranqüiliza quando há perigo, trai sua missão, perde a razão de ser, e nada há que fazer com ela.

Finalmente, ser forte. Mais forte do que nossos caprichos e interesses, forte com a força do dever e da verdade. Se cede a nossos desejos, se se deixa apiedar de nossas lágrimas, se sempre nos aprova para não nos magoar, se, como meninota sentimental, se enternece com nossas carícias e, enfim, na luta íntima, deixa cair das mãos a bandeira que tem por missão erguer bem alto, custe o que custar, não é mais o que deveria ser e essa derrota, que significa a vitória das paixões, é a morte de nossa vida moral.

Flirtar é divertir-se com a consciência

Se assim é a consciência, tal sua nobreza e valor, vê-se bem o crime que se comete fazendo dela um brinquedo.

A consciência... um brinquedo! Se, depois de Deus, houvesse deusas, seria ela a mais divina de todas! Encarregada de nosso destino, indicadora de nossos caminhos, responsável por nós, que somos imortais, seria sobre um trono, entre lâmpadas, que a deveríamos instalar a fim de venerá-la respeitosamente, e não sobre uma raquete para no jogo a fazer dançar insolentemente.

Mais ainda do que o coração, do que é salvaguarda e lei, merece uma religiosa veneração e um trêmulo receio de não a deixar profanar. 

Ora, quem “flirta” diverte-se com a ela. Diverte-se com ela. Porque, comumente, previne as jovens puras que iniciam um “flirt”. Discreta ou violentamente, tem um protesto secreto que a interessada ouve perfeitamente bem e que é bastante significativo para que não se compreenda o que quer dizer. Como um tilintar de campainha na noite calma, o perigo se anuncia. Eis proposto o problema. Ei-lo resolvido para quem tomou como princípio nunca desprezar a consciência. Mas, para quem não coloca a consciência acima de tudo, eis a ocasião de se divertir com ela.

E a brincadeira se inicia. E a brincadeira continua. Brincadeira cínica e imprudente, durante a qual submete-se a consciência a todos os matizes do “flirt”. Se ela se inquieta, é logo serenada. Se amua, é logo amimada. Se protesta, tapa-se-lhe gentilmente a boca. Se chora, dá-se-lhe um bombom. Se fica zangada, dá-se-lhe de ombros com um sorriso. Diz: “Isso é mau!” e responde-se-lhe: “Ah! Não é tanto assim!” Se se queixa e diz-se-lhe: “Não é nada!” Insiste, e se lhe responde: “cala-te!

É assim ou não é? É ou não brincadeira com a consciência?

Resultados da brincadeira

A brincadeira prossegue. Para chegar ao que? É simples. E inquietador.

- Uma bela consciência é uma consciência clara. O primeiro resultado da brincadeira é sombrear a consciência e insensivelmente torná-la incerta, confusa, indecisa.

Cada vez menos distingue o bem do mal, o permitido do proibido. Perde o sentido das “nuances”. As cores não se destacam. As tintas não sobressaem. As linhas se misturam. Vê tudo turvo. Como na guerra, em noites de cerração, as sentinelas tomavam os salgueiros por homens, também ela quase que involuntariamente toma o prazer por dever.

Não sabendo muito que deve pensar, não sabe muito mais o que deve dizer. E, quando fala, palavras inarticuladas saem de uma boca pegajosa. No lugar dos “sim” ou dos “não” de antigamente, multiplica os “pode ser” que parecem aprovar, quando, de fato, condenam e condenar o que, de fato, aprovam.

É vida moral sob um regime vago e incerto. E para ela, é o pior dos regimes. Enquanto isso, na alma, qual paisagem brumosa, tudo se mistura e confunde, auxiliado pela obscuridade cada vez mais, o inimigo mortal pode insinuar-se sem mesmo se fazer notar...

Que pensam desse resultado? Sinceramente...

- Uma bela consciência é uma consciência é uma leal. A segunda conseqüência da brincadeira é tornar cúmplice aquela que deveria permanecer como juiz.

Confessem que se trata de uma coisa excepcionalmente grave. Na vida social, isso representa o fim da justiça, a impunidade assegurada aos culpados quando audaciosos, o direito recusado aos inocentes quando tímidos.

Na vida moral, onde os interesses são infinitamente mais sagrados, os resultados são ainda mais deploráveis.

No “flirt”, a pobre consciência, virada e revirada, seduzida e ameaçada, lisonjeada, comprada, acariciada, rodeada de súplicas, como uma primeira concessão, a ser obrigada a muitas outras. Adapta-se, um pouco por piedade, um pouco por fraqueza, um pouco por condescendência, um pouco na esperança de tudo amoldar. A princípio, um tanto dificilmente e atormentada por um secreto mal estar. Mas os sentidos, interessados no assunto, contam com um terrível poder de persuasão. A sua voz, embora grosseira, o coração junta a sua, meiga e bela. E como não se deixar cair na rede? A vítima tem um ar tão atraente! A acusada possui tal sorriso! E, pouco a pouco, sempre resmungando, a consciência ensaia os primeiros passos, formula algumas concessões sabiamente dosadas, autoriza “por algum tempo determinado”... “com certas medidas”... “mediante certas garantias”... etc., etc. Mas, por fim, consente. E era justamente isso o que não deveria ter feito, receando, por palavras de boa acolhida, vir a ser a vítima de sua sedução.

E é o que acontece, efetivamente. Inicia-se, assim, o período das acomodações, de benévolos acordos, das negociações suspeitas, em que o pecado é o comprador e a lei moral posta à venda.

Chega o dia em que o incorruptível se deixa corromper. Aquela que há pouco tempo proclamava: “Isto é proibido”, diz agora: “É desculpável” e, enquanto o coração, saboreando os prazeres, murmura: “Como é bom!”, a consciência contenta-se em suspirar: “Não é tão mau assim...”

- Uma bela consciência é uma consciência forte. A terceira conseqüência da brincadeira é enfraquecê-la a tal ponto que, inútil e impotente, é como se não mais existisse.

A consciência fortifica-se em cada vitória que alcança e enfraquece em cada derrota que sofre. Entre os criminosos convictos verifica-se que, a princípio, sofrem verdadeiras agonias de remorsos, passam por horas de tortura e vergonha, e depois, progressivamente insensíveis, acabam numa admirável serenidade. Diz-se, então, com referência a eles: “Não têm mais consciência”.

E é certo, não mais a possuem e, se a têm já está morta. É um cadáver inerte e dessecado que trazem consigo e neles se cala, imóvel, como calados estão os mortos. Moralmente falando, é um homem morto. Ora, acabar desse jeito é o pior modo que a alguém possa acontecer. Seu caso é desesperador, pois, para renascer, seria necessário arrepender-se; para arrepender-se, seria necessário sentir o mal cometido e, para senti-lo, é-lhe necessária uma consciência, consciência esta que não mais tem.

Guardadas todas as proporções, o “flirt” arrisca-se à mesma decadência, pelo decaimento moral. Ao menos nesse ponto, suas fraquezas são tais como suas concessões, transforma-se em consentimentos, seu hábito de ceder dá-lhe um temperamento de vencida, e, mais cedo ou mais tarde, em lugar de uma justiceira corajosa e franca, que se erguesse contra o mal, nada mais ficou, para dirigir a vida, de que uma doente cansada, resignada com sua impotência, e tirando tristemente partido dos erros que não ousa mais condenar porque não espera mais impedir. Em alguns momentos, tem sobressaltos de angústia ante a aproximação do abismo, instintivamente ainda ensaia tímidos protestos, que são os últimos lampejos do coração ou os últimos soluços da moral agonizante; nas horas mais loucas do iniciado “flirt” solta um grito que se perde entre o riso dos cúmplices; uma última vez, olhando para dentro de si, parece concentrar-se para expulsar e vencer o inimigo, depois detém-se, não o expulsa, e se estende preguiçosamente, como cadela submissa, aos pés da jovem soberana que lhe sorri.

Comparações poéticas, dirão, e que, para serem mais emocionantes, exageram os casos e os dramatizam tornando-os irreconhecíveis... E as que o sabem, se são sinceras, não confessarão que é assim que se passa comumente a história? E as próprias interessadas, se ainda resta uma luz na noite em que vivem, verão que, no campo da batalha íntima, há uma vítima que aí jaz e, na expressão dolorosa de sua pálida fisionomia, reconhece-se que já foi bela, que muito lutou e se, finalmente, sucumbiu, foi devido às inúmeras feridas provocadas por dois jovens loucos que se divertiam com ela. Ainda parece olhá-los. Mas seu olhar fixo não tem mais chama. Olhar morto imobilizado pelos prazeres dos vivos. Olhar de estátua sobre os dançarinos no baile e que não os intimida nem preocupa porque se sabe que seus olhos são de pedra não vêem e sua boca também de pedra não falará...

Certamente, daí ao crime a distância é grande. Mas é o seu caminho, pois trata-se, incontestavelmente, do caminho do prazer livre, do instinto desenfreado, da espontaneidade sensual entregue a si mesma e, uma vez nesse caminho, ninguém poderá dizer se, arrastado pelo declive e chamado lá e baixo por vozes ameaçadoras, não fará a viagem até o último metro do último quilômetro... Tantas amantes dessa brincadeira esportiva juraram parar e não o conseguiram! No entanto, eram sinceras. E também decididas. Mas nem a sinceridade as resguardou, nem a decisão lhes deteve os passos... Um rochedo cedeu sob suas mãos, uma pedra rolou a seus pés. Queda no abismo...

Se o perigo do “flirt” fosse imediatamente mortal, seria menos perigoso. Haveria recuos instintivos, súbitas emendas, bruscas meias-voltas... Porque, dentre as jovens cristãs, poucas eram as que aceitariam tornar-se de improviso grandes culpadas.

No entanto, muitas delas aceitam vir a sê-los aos poucos. A mesma consciência que deixou escapar um primeiro “sim” prepara-se para dizer vários deles...

Hoje, o sim a um olhar.
Amanhã, o sim a um beijo.
Depois de amanhã, o sim a um abraço.
Finalmente, o sim a qualquer coisa.
O primeiro sim para causar prazer.
O último para não causar tristeza.

 Do primeiro ao último, todos os sins que se dirão simplesmente, porque já e o disse alguma vez, e, tendo aparecido pela primeira aceitação para conferir direitos, uma última surge como cumprimento de um dever...

Aí chegando, pode-se esperar tudo e, de fato, a experiência o confirma, não se esperava tanto quanto realmente aconteceu...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Frei M. A. Bellouard O. P. / coleção moças; edições Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: "Flirtar" é divertir-se com a alma)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O segundo Pilatos – Os expedientes

O segundo Pilatos – Os expedientes



A palavra de Pilatos, caindo no silêncio contido daqueles sacerdotes impacientes de sangue e de morte, foi seguida de um clamor imenso que surpreendeu e conturbou o procurador.

A vista de Jesus que chegava nas pegadas do Romano aumentou os brados e as exclamações: estes partiam da multidão; da multidão, já espessa e marulhosa, que ocupava o fundo da praça, sombria orla de onde se desprendiam murmúrios e surdos rumores denunciadores de profundezas de ódio insuspeitadas.

Pilatos poderia crer-se voltado aos maus dias de Cesaréia. Pensava só ter que ver com uma camarilha: os sacerdotes; e achava-se em face da multidão.

Até ele subia com concerto de furores e de acusações, e, inclinado sobre todas aquelas bocas ululantes, a custo podia o procurador precisar a forma e os matizes daqueles selvagens depoimentos. Cansado de lutar, voltou-se para Jesus e perguntou-Lhe, já um tanto ansioso:

- Estás ouvindo?

E, como Jesus Se calasse:

- Não ouves então de quantos crimes eles te acusam?

E Jesus nada respondeu. É provável que, destrinçando no meio dos gritos os principais agravos, Pilatos os fosse reproduzindo a Jesus; porque mais tarde ele dirá ao povo: - Bem vistes que eu o interroguei na vossa presença.

Jesus obstinava-Se em calar-Se, e isto muito admirava o juiz; pressentia este algo de anormal, de grande, quiçá de sobre-humano, naquele homem singular. Surge então o segundo Pilatos, que a todo custo quer livrar-se daquela pesada questão, mais ainda do que livrar Jesus. Porque aquela questão subitamente se ampliou e, mercê do concurso da multidão, quase assume as proporções de um tumulto popular. É forçoso sair dela: Pilatos procura a porta de saída.

Lançar aquele homem, que ele diz inocente, em pasto ao povo em furor, ele ainda tem algum escrúpulo disso. Vira e revira o problema; de repente uma palavra sobe até ele: falaram da Galiléia. Será que Jesus é galileu? E, como lhe respondem afirmativamente, logo Pilatos aproveita a ocasião e declina competência. Sendo galileu, é de Herodes que o acusado depende. Ora, Herodes estava justamente em Jerusalém, e pouco se entendia com os Romanos. Ao mesmo passo que se descartava do embaraço, Pilatos demonstrava certa deferência a Herodes: tudo seria, pois, pelo melhor. Assim, não tendo surtido efeito a improcedência, este expediente agora será mais feliz: Herodes que decida!

No fundo, Pilatos cedia ainda. Era, além do mais, uma primeira covardia; porque, afinal, se ele sentia o dever de ordenar a improcedência, com que direito encaminhava Jesus a Herodes?


Ou Jesus era culpado ou não era. Ora, Pilatos acabava de dizer que Ele não era culpado. Logo, não tinha senão que manter a sua primeira decisão. Mas não ousa, procura safar-se da dificuldade; é bem o superior fazendo resvalar habilidosamente à responsabilidade sobre outro.

Entrementes ele torna a entrar, mais uma vez safou-se; a multidão também se vai, corre com os sacerdotes e com os anciãos para o paço de Herodes: a praça fica limpa, tudo vai realmente pelo melhor.

Reis, governai afoitamente”, diz Bossuet. Nada é mais prejudicial a um povo, a uma família, a um agrupamento qualquer, do que governá-los por expedientes. Não se contenta a ninguém, nem a si nem aos outros: essa destreza tresanda a prestidigitação.  A probidade repele os processos oblíquos, e a franqueza é sempre um pouco de altivez, porque é aceitar as conseqüências da própria palavra e dos próprios atos. Isto pressupõe força e honra; ora, não é a altivez feita destas duas coisas? Elas faltavam totalmente a Pilatos.

Não tardou que novos clamores viessem tirá-lo da sua covarde quietude. Herodes recambiava-lhe Jesus; divertira-se à custa dEle, mas nada julgara.

Cruelmente volvido às suas perplexidades, Pilatos quis, ainda assim, tirar proveito de Herodes. Este era Judeu, ele se lhe valeria do nome; além de que a sua diligência não devia ter desagradado ao povo... Quem sabe? Tudo ia talvez poder terminar razoavelmente. Desta vez, ele manda vir à sua presença os príncipes dos sacerdotes, os sinhedritas, e, para lisonjear a todos, à própria ralé, faz-se acessível, simula condescender, entrar-lhes nas vistas: é quase bonancheirice.

- Trouxeste-me este homem, diz-lhes ele, e apresentastes-mo como um agitador pernicioso do povo. Interroguei-o na vossa presença, e vós mesmos pudestes ver que, de tantos capítulos de acusação, nenhum sério pude reter contra ele, Ademais, não me circunscrevi ao meu próprio juízo: encaminhei esse Jesus a Herodes, e vós com ele, a fim de que pudésseis repetir todas as vossas acusações. Herodes ouviu tudo, e ele mesmo nada achou nada que merecesse a morte. Todavia, se alguma coisa houver que tenha melindrado as vossas leis, vou mandar castigá-lo, estará dito tudo, e mandá-lo-ei embora.

Pilatos cedia, e era uma nova covardia. Por que esse castigo? Se se tratava da flagelação, não tinham os Judeus necessidade da sua permissão para esse suplício, que lhes não transcrevia o direito. Mas eles só lhe haviam trazido Jesus para a morte: claríssimamente fora isto declarado, e desde o começo. – Não podemos matar ninguém, haviam dito desassombradamente os sacerdotes, e então vimos pedir-vos que o façais por nós. – A flagelação era, portanto, um rigor inútil, incapaz de engodar os sacerdotes e de saciar o povo.

Fizeram-no sentir ao Procurador. Como o seu faro cruel, a turba dos sacerdotes e a plebe amotinada viram bem depressa o afrouxamento de Pilatos. O impulso estava dado, restava somente carregar brutalmente sobre aquele pobre coração vacilante e sobre aquele espírito em apuros, para acabar de fazê-los soçobrar.

Por sua parte, Pilatos parecia, entretanto enrijar-se no pensamento de livrar Jesus; parece mesmo que a sua compaixão despertada e não sei que temor reverencioso o induziam a esse partido. Em todo caso, ele já avançara demais para recuar. Publicamente e por duas vezes declarara que não achava nenhuma causa de morte naquele homem: não queria, contudo, engolir todas as vontades daqueles Judeus opiniáticos e invejosos, porque no fundo lhes farejou a baixa inveja.

Metade por amor-próprio, metade por comiseração natural, vai, pois compreender ainda o salvamento da vítima.

Na sua política cavilosa, acredita ter achado a melhor saída. Distingue maravilhosamente, naquela massa encrespada que lhe bate os degraus do tribunal, as cabeças e os cúmplices, os sacerdotes e a multidão. Que golpe mestre se conseguisse dividir aquelas duas categorias, a fazer salvar Jesus, contra os sacerdotes, pela multidão! O expediente pareceu-lhe uma idéia genial.

Era costume conceder ao povo o perdão de um condenado à morte por ocasião das festas da Páscoa. Ora, havia, que aguardava o suplício, um celerado famoso, por nome de Barrabás, o terror do povo, homicida e sedicioso por todos temido...

Certamente que, pondo ao lado dele Jesus, aquele Jesus que só bem fizera e que, diziam, havia estranhadamente curado cegos, leprosos, e até ressuscitado mortos, Jesus benfeitor público ao lado de Barrabás malfeitor consumado, e o povo encarregado de escolher, o povo só, pois é o sufrágio deste que se vai pedir, o voto não podia ser duvidoso.

Pilatos parece então abandonar o seu projeto de flagelação; senta-se no seu tribunal, e, com todas as mostras do poder que se faz indulgente, lança àquela turba fremente o seu hábil e inesperado dilema.

- Ou Jesus ou Barrabás? Escolhei.

E espera. Sem se dar conta, Pilatos cedia: era uma terceira e sinistra covardia. Cada vez mais se afastava do seu primeiro movimento, de bom, que dissera: Não há nada que repreender neste homem. Pôr Jesus ao lado de Barrabás era, pelo contrário, dizer: Ele é culpado. Era dizer mais: Ele já está condenado à morte, pois só se libertavam os condenados ao último suplício. Sem dúvida ele queria despertar no povo uma preferência por Jesus; mas afinal o põe no mesmo pé de igualdade porquanto toda eleição a fazer pressupõe uma certa igualdade nos indivíduos a eleger.

E Pilatos aguarda, fia do seu expediente; assim, quando, naquele momento, sua mulher lhe manda pedir que não se envolva em nada no caso daquele justo, ele a tranqüiliza: Jesus será salvo, é questão de tempo.

Sim, e justamente os sacerdotes empregam esse tempo; os sacerdotes, que vêem a tática do Procurador, espalham-se imediatamente pela multidão. Como um fermento secreto, qual veneno sutil, circulam, trabalham, fazem ferver os espíritos já escaldados; e, quando Pilatos se levanta e se inclina sobre o povo para ter a resposta, ouve só um grito: Non hunc! Este não! Jesus devia, pois, estar presente, pois parece que esse termo O designa e O indigita. Este não, dá-nos Barrabás. Non hunc, sed Barabbam.

(A Subida do Calvário, pelo Padre Luís Perroy, S. J; Editora Vozes, 1957, continua com o post: O terceiro Pilatos – O medo)

A pomba do dilúvio

A pomba do dilúvio


A pomba que, ao cair o crepúsculo da tarde, trouxe à família de Noé o ramo de oliveira, presságio da cessação do flagelo, diz Santo Alberto Magno, é evidentemente a imagem de Maria, que apareceu nos últimos vislumbres do mundo antigo, carregada da oliveira da paz.

Por estas palavras: "Eis aqui a serva do Senhor", Ela anunciava o apaziguamento da cólera divina. (Bibl. Mar. in Gen. 8,11.)

"Maria é a pomba inocente, imaculada e bela", dizem Santo Epifânio, Santo André de Creta e São Lourenço Justiniano.

(Por que amo Maria, pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, Vozes, 1945)

Oração - Anunciação

Anunciação



"Ó Maria, que fostes escolhida por Deus, entre todas as mulheres para serdes a Mãe do Redentor: alcançai-me a graça de pertencer ao número dos escolhidos que hão de gozar no céu dos frutos da redenção. 
Ave Maria, etc...

Ó Maria, que, sendo escolhida para Mãe de Deus preferistes a esta excelsa dignidade a Vossa virgindade, e só quando o Anjo Vos assegurou que com ser Mãe não deixareis de ser Virgem, anuístes à Sua proposta: concedei-me um amor tão grande à pureza, que por nenhum bem deste mundo eu consinta em perdê-la. 
Ave Maria, etc...

Ó Maria, que, sendo escolhida para Mãe de Deus, Vos oferecestes para ser a Sua escrava, fazei que eu me tenha sempre na conta de uma serva de Deus, cumprindo com exatidão a Sua santa Lei.
Ave Maria, etc..."

(Oração retirada do livreto: Venha a nós o Vosso Reino, manual de piedade para as alunas das irmãs missionárias do Sagrado Coração de Jesus, 1959, com imprimatur)

"Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado"

(Clique na gravura para ampliá-la - Belíssima)

"Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado"

Esta é a palavra do Senhor; não pode falhar. Havia Deus determinado fazer-Se homem para remir o homem decaído, e assim manifestar ao mundo Sua bondade infinita. Devendo para isso escolher-Se mãe na terra, andava buscando entre todas as mulheres qual fosse a mais santa e humilde. Entre todas as mulheres qual fosse a mais santa e humilde. Entre todas observou uma, e foi a virgenzinha Maria, que muito mais era perfeita nas virtudes, tanto mais simples e humilde era no Seu conceito: "Há um sem-número de virgens (a Meu serviço) - diz o Senhor - mas uma só é a Minha pomba, a Minha eleita" (Ct. 6,7 e 8 ). Por isso disse Deus, seja esta escolhida para Minha Mãe.

(Excertos do livro Glórias de Maria, por Santo Afonso Maria de Ligório)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Madalena ou a louquinha que “Flirta”

Madalena ou a louquinha que “Flirta”



O “flirt”... palavra bonita, sentimental e poética... Pronuncia-se com um sorriso porque o que ele significa é justamente um sorriso do coração...

Bonita palavra... e coisa ainda mais bonita...

É o meio de se distrair sem pecar... O modo feliz de se passar alegremente os anos que vão desde a época em que se não é mais uma menina até a época em que se transformará numa mulher... O “flirt”! meio prático de experimentar as doçuras do amor sem, no entanto, sofrer os encargos, os desgostos, as angústias, as decepções nem a monotonia que quase sempre acarreta...

Aliás, é coisa elegante... nada banal... cheia de surpresa... “Quem não tem seu flirt”? Isto não tem nada de mal... não se corre nenhum risco... Poderá haver coisa melhor? Substitui-se a boneca por alguém “verdadeiro”.

E, como todo o mundo se serve dele à larga, soa falso qualquer palavra dita em seu desfavor. Ninguém morre por sua causa. Muitos, ao contrário, vivem à sua sombra... aqueles que por ele adoecem, bem depressa se curam... É o idílio sem drama e, se for drama, termina sem crime...

Pois eu, Madalena, flirto...
Tu, Yvonne, flirtas...
Ela, Gaby, flirta...
Nós, pois, as três, flirtamos...
Todas vós flirtais...
Elas todas flirtam...

E a juventude desliza conjugando o verbo no passado, no presente, no futuro, no condicional, em todos os tempos...

E vai-se por aí afora animadamente! Boa viagem, louquinhas...

Mas deve haver um regresso. Nem sempre voltam intactas. Nesse giro alegre também existem tristes noites em que se têm, entre os dedos, flores murchas e, nos lábios, um sorriso que nem chegou a esboçar-se... Durante a guerra, até mesmo dos setores tranqüilos, vinha-se um pouco sujo, cansado, com uma premente necessidade do ar tranqüilo e fresco da aldeia... O menos que se pode dizer do “setor flirt” é que, nesse setor, se não se morre, regressa-se sujo, magro e com as roupas rasgadas...

Quem pretenderá dizer o contrário?

Quando se disse: “Não é coisa má”, não se disse tudo porque, algumas vezes, é coisa bem má. E o que não é mau pode ser perigoso, o que não é pecado pode vir a ser uma tentação. Aquele que não é culpado agora, ainda pode vir a sê-lo. A inundação não é mais do que um rio que transborda. Para salvar-se, bastará gritar a pulmões cheios: “Não se assustem. Não é o oceano! Isso não passa de um rio.”

O “Flirt” e suas conseqüências

Que é flirtar?

Na sua essência, flirtar é “brincar com o amor”... Tal qual como se brinca, quando pequenos, de “mocinho e mocinha”... Não é amar, é fazer de conta... Mas na idade em que, comumente, esse jogo se inicia, muito depressa se pode transformar, seja numa imitação imprudente, seja numa realidade cheia de ameaças, seja numa desonestidade hipocritamente disfarçada, seja num desrespeito consciente para com essa grande coisa que é o amor.

Flirtar-se para se distrair... E, com efeito, diverte-se “à grande”... Mas, de que? Com que? Essa é a questão... Divertir-se com uma folha morta é coisa inofensiva, divertir-se com uma víbora é mortal...

Que é que diverte no “flirt”? Quais são os jogadores desse jogo? E que procuram nele?

A todas essas perguntas só temos uma leal resposta.
Pondo toda e qualquer sutileza de lado, no “flirt”:

a- Diverte-se com o coração,
b- diverte-se com a consciência...
c- diverte-se com a alma...

É esse o motivo de ser tão sério. E, para assim o considerarmos, não há necessidade de ter o espírito estreito, o caráter mal feito, a mentalidade atrasada. É suficiente enxergar o que existe e dizer o que se viu.

a-      Flirtar é diverti-se com o coração

Com o próprio coração, com o coração de outra ou de muitas outras pessoas.

Ora, a simples junção das palavras “divertir-se” e “coração” dá bem idéia do que se trata.

Porque o coração não é um brinquedo, nem uma raquete, nem um balão. É um músculo, mas um músculo “que tem seu destino”.

Quando Cristo fala sobre o coração, trata dele como se fosse uma coisa desprezível? Por acaso ri ou simplesmente sorri quando se refere a ele? Sempre sério, dir-se-ia que ainda mais o fica ao ditar as grandes leis do coração ou denunciar as iniqüidades que poderá cometer.

Dizer com Ele: “Amarás a Deus de todo o teu coração” é levar o coração muito a sério. Mais tarde, quando diz: “Do coração saem toda inveja, os homicídios, os adultérios”, é bem severa a palavra que pronuncia referindo-se a ele. Isso não faz rir nem chorar ou tremer. Faz refletir. E o primeiro resultado de tal reflexão é aprender a respeitar o coração, a receá-lo, a vigiá-lo, mas não a divertir-se à sua custa... Não nos divertimos com nosso destino, terrestre e imortal. O coração trá-los consigo, aos dois.

Aí está o centro vital, seja fraco ou forte, puro ou contaminado, putrefato ou virginal. Aí se acendem as chamas que purificam ou destroem. Aí se desenrola o drama humano. Aí nascem os heroísmos e os desesperos. Se aí faz calor e está tudo claro, a vida é feliz. Se aí faz frio e é tudo sombrio, a vida está completamente arruinada.

Não nos devemos divertir com o próprio coração. E, como o coração dos outros é tão sagrado quanto o nosso, também com eles não nos devemos divertir. Em ambos os casos, razões idênticas obrigam ao mesmo respeito religioso, homenagem prestada à augusta dignidade do coração humano.

Cristo zombou do reinado deste mundo. Quando Satanás lhO ofereceu, Ele o recusou com um só gesto. Mas creu e proclamou a realeza do coração. Ele amou o coração, Ele, o Homem-Deus possuidor de um incomparável Coração...

Cada vez que nos divertimos com o coração, profanamos a divina fonte das lágrimas!... É dançar no templo vivo, é transformar “a casa do Pai” numa sala de jogo e, como no festim de Baltazar, é beber o vinho da volúpia nos copos do Santuário.

Divertindo-se deste modo com o coração, provamos duas coisas: a primeira é que não se dá grande importância à verdadeira vida do coração, deixando-a entregue aos seus frívolos compromissos. A segunda é que ainda não se compreendeu a verdadeira vida do coração, visto ser ela conduzida para aquilo que a fará morrer.

Em ambos os casos brincamos demais.

É uma brincadeira muito mais violenta do que aquela a que teríamos direito. Cristãmente não se deve fazer com o próprio coração o que se quer nem com o coração de outra pessoa o que ela nos permite fazer. Existem permissões que não podem ser assim encaradas, visto não passarem de uma autorização para correr um perigo grave sem necessidade, ou cometer um pecado, e tal autorização ninguém a pode dar nem receber... A ilusão está em dizer “meu coração me pertence” e em o dizer sem as devidas atenuantes. Na verdade, esse coração te pertence afim de que possas derramar as ternuras e provar-lhes as doçuras, mas, tudo isso, nos limites do dever e de conformidade com as indiscutíveis exigências de uma lei divina superior a ti...

Ele não te pertence para ser entregue a qualquer transeunte nem para aprisionar qualquer porco que grunhe. Ele te pertence para ser dado sinceramente com um amor puro. Ele não te pertence para ser desperdiçado antes do tempo e se acostumar, com os erros de hoje, a um modo de amar que não é o amor.

E, em conseqüência, se se transformar numa árvore que só tenha folhas, sem jamais frutificar, valerá à pena sacrificar tanto para obter tão pouco? A história da figueira estéril do Evangelho tem aqui miserável reedição. Se fosse só uma figueira estéril, não era trágico, mas um coração vazio, usado, dessecado, é coisa bem triste... Pelo menos, para quem acredita no valor do coração, na sua missão, nas eternas conseqüências de suas faltas, bem como na eterna repercussão de suas boas ações.

Com essa brincadeira o coração se macula

Porque permite contatos que não enobrecem... Quantas vezes se flirta com pessoas com quem não se desejaria casar... Isto quer dizer que a jovem que flirta não é muito difícil... Não há necessidade de olhar de muito perto, pois está visto que jamais se fará a vida em conjunto... Exigem-se unicamente belos olhos, uma voz acariciadora, a graciosidade no porte, enfim: ser “chique”... Qualquer serve, contanto que lhe faça a honra de pô-la em evidência e de se preocupar com ela.

Mas, por superficial que seja a intimidade, existe o contato... Trocam-se palavras, as confidências perduram, os sonhos se cruzam... almas que se falam, olhos que se miram, vidas que respiram uma na outra. Se como geralmente acontece, uma das duas vidas tiver o hálito viciado, não haverá perigo imediato para que a outra vida também fique viciada?

Não é suficiente uma só palavra para fazer muito mal? Não é suficiente uma leve batida à porta para que aquela que está só, durante a noite, em casa, fique amedrontada? Como é, pois, que semanas inteiras de “flirt” hão de ser consideradas inofensivas? E como é que esses longos contatos não hão de deixar vestígios na carne do coração? Por onde passa a lesma, aí deixa o traço de sua baba... Que é que o “flirt” deixa por onde passa?

Pode ser – objetarão. – Mas se um vestígio nos desgosta podemos apagá-lo... Um móvel sujo podemos limpá-lo... uma chaga asquerosa podemos lavá-la... o que um “flirt” possa deixar de ruim é depressa apagado pela aragem da vida livre!... O coração é limpo como se fora uma praia... como um céu sem nuvens... enfim, como qualquer outra coisa, visto que tudo se esquece, e, com o tempo, qualquer ferida cicatriza...”

Na verdade, é menos simples do que se supõe... Não é certo que todos os vestígios se apaguem, que todas as manchas possam ser lavadas, nem que toda ferida cicatrize. Existem lembranças que perduram, desejos que espreitam silenciosos e vivos, como a traça no velho móvel... Algumas almas não mais encontram a antiga e pura beleza por se terem deixado contaminar um dia... e a consciência também pode ficar para sempre marcada com esta varíola...

Com essa brincadeira o coração se gasta

Objetar-se-á que, ao contrário, ele se vai formando, faz deste modo um útil aprendizado, assim como que um noviciado do amor, com todas as benfazejas tolices que, mais tarde, poderão ser evitadas... Sendo ainda livre, multiplica as experiências, as faltas. E, uma vez que de qualquer modo temos que as praticar, não será melhor se use desse processo que, afinal, não acarreta grande risco para ninguém e não traz o perigo de catástrofe definitiva? Ao flirtar, a gente se conhece a si mesmo... Observa, compara, escolhe... É o passeio pelas pensões do coração a fim de encontrar a mais amável, assim como se faz, nas adegas, por entre os barris de vinho, para encontrar o melhor... Como é que se pode ser um perfeito conhecedor de bombons se não se provou cada um deles, em sua basta variedade?...

Sim...
E não...

Porque, tratando-se de “flirt”, a coisa deve ser encarada de maneira diferente. No fundo, trata-se principalmente, e de qualquer modo, de dar uma ocupação ao coração enquanto se espera...

E, se o resultado fosse igual ao de uma pessoa que, de tanto haver beliscado os pedaços de pão antes de jantar, nada mais encontrasse para comer, e, de tanto haver provado todas as qualidades de bombons, acabasse por achá-los todos igualmente saborosos ou igualmente insípidos, de modo que fossem todos comprados indiferentemente ou todos indiferentemente rejeitados com a incapacidade de escolher uma só vez e contentar-se com um apenas, onde estaria então esse famoso noviciado do amor?

Se, com este regime, se aprende a amar a quantidade em vez da qualidade, onde está o benefício?

Será vantagem habituar-se alguém a procurar em toda fisionomia ainda não vista o encanto especial ainda não encontrado, em vez de se acostumar a conhecer o encanto do único rosto amado?

Se, no amor, se cria um humor tão mutável, um verdadeiro coração de nômade, se se transforma naquela que chama “viver” ao que é simplesmente “mudar” e que seria horror, mais que tudo, à definitiva imobilidade numa única ternura; se se transforma na amorosa que sempre vive à procura de outro amor, sempre à espera de outro, sempre espreitando um novo livro para guardar na estante do coração, onde está o progresso?

Com essa brincadeira o coração torna-se falso

Habitua-se a simular um amor que não possui

No “flirt”, comumente, existe grande profusão de provas de afeto, de promessas, de confidências, de íntimas confissões levemente amorosas. Nessas aparências todas, em que dose entra realmente o amor? Já é outro caso porque, no “flirt”, quase sempre há exagero e, muitas vezes, mentira. Por boa vontade que haja em acreditarmos sinceridade no “flirt”, sempre haverá nele algo de inquietante que nos leva a suspeitar da verdadeira sinceridade do que nele se diz e se faz. Assim como se admitem e se verificam vários “flirts” simultaneamente, existem igualmente ternas confissões a vários “amados”. E, como a cada um se diz ser o “primeiro”, porque é este o lugar que cada qual exige, acontece que aumenta consideravelmente o número dos “ex aequo”. E, como, ainda mais, a cada um se diz ser o “único”, porque cada qual faz questão de o ser, acontece que existem muitos “únicos” sem que nenhum deles o seja verdadeiramente. Ficam, pois, todos eles mais ou menos “embromados”. Embromados pelos sorrisos e pelas flores, mas embromados...

Muitos pensarão que tal procedimento é mais divertido que trágico. De acordo, mas deverão reconhecer que também pode tornar-se mais trágico do que divertido. Será tão raro assim um deles soluçar enquanto o outro ri? Um deles soluça porque acreditou “ser sincero”... O outro caçoa porque somente o disse por “brincadeira” e esquece a ferida logo após havê-la causado.

Se essa brincadeira não passasse de divertimento, não seria menor a gravidade, porque o coração, brincado com as augustas realidades do amor, adquire, para o resto da vida, um amargo e inapagável ceticismo.

As pequenas mentiras são prenúncio das grandes mentiras. A facilidade em jurar fidelidade que não duram a prodigalizar ternuras que se perderão rapidamente na tepidez da noite, muito se arrisca a tornar-se, uma vez passada a louca juventude, uma temível facilidade em provocar dramas prodigalizando confissões. O jogo, então, deixa de ser um divertimento e os lares desaparecem, incendiados pelas faíscas ateadas pelas moças, namoradeiras agora como antes.

Habitua-se a só viver pela metade

O “flirt” não é um grande amor, não atinge as profundezas do amor. Voa pela superfície, algumas vezes mergulha, o mais das vezes roça a asa pelo “espelho prateado”. Há no “flirt”, um misto de audácia e timidez. Não faz promessas que se mantenham eternamente. Forja cadeias de papel dourado que têm um duplo encanto: o de prenderem durante o tempo que se deseja e o de se quebrarem por si mesmas logo que há um desejo de separação. Não diz “até a morte” e, se o diz, reserva-se o direito de se contradizer. Não se apresenta nem ao Pároco bem ao Juiz. É gratuito e livre de formalidades legais. Não requer o consentimento dos pais e deixa em plena liberdade a escolha recíproca.

Tudo isso é certamente muito interessante e torna-o bastante simpático. Por isso, seu armazém é dos mais variados: objetos para todos os gostos e todas as bolsas...

Mas isso mesmo, que o torna interessante, fá-lo igualmente desastrado. Quem habituou o estômago a um alimento leve poderá suportar outro mais forte? Quem viveu durante tanto tempo com um meio-amor, poderá viver o amor total? Quem gozou sem sacrifício poderá dedicar-se sem que uma alegria lhe sirva de garantia e salário? Quem acreditou que o amor consistia nesse prazer sem deveres, admitirá que o amor tenha suas obrigações? Quem, enfim, se prendeu com fios de uma lã fraca e, por conseguinte, quebradiços, poderá sujeitar-se sinceramente às algemas cristãs da fidelidade conjugal?

E é isso que se torna ameaçador para o futuro.

Habitua-se a uma impossível e exaustiva dispersão de ternuras

Para quem ama verdadeiramente, um único amor basta. Para quem ama cristãmente, um único amor deve bastar. Se for sincero, o dom do coração é total. O lar honesto está cheio de uma única presença, sem necessidade de outras para assegurar a própria felicidade. O amor deve ser mais profundo do que amplo. Tendo em vista a felicidade, as lutas do coração tendem a defendê-lo contra as indiscretas invasões de ilegítimas ternuras e abortar nele a tentadora necessidade que possa vir a ter delas. Isto quer dizer que, na época destinada à preparação e à espera, todos os esforços devem ser orientados no sentido de nos tornarmos aptos para um único amor e de não mantermos, no céu do coração, satélites secundários girando continuamente em volta do astro principal e arriscando a tornar-se, por sua vez, o principal centro de atração.

Então não se vê que uma juventude em que o “flirt” foi à lei única muito se arrisca a prolongar para além do casamento hábitos que favoreceu e necessidades que alimentou, não os cortando logo de início? Quando o coração toma o gosto de se desfelhar à porta de diversas casas, como poderá resignar-se, de repente, a só florescer na chaminé da esposa? E se, durante anos seguidos, se habituou a ver a mesa guarnecida por diversas qualidades de flores, oferecidas por diferentes mãos, não é de temer que a mesa lhe pareça desguarnecida se forem sempre às mesmas flores e as mesmas mãos a adorná-la? O anel de mero símbolo, sem a sua correspondente realidade, se, de antemão, não se pratica a leal fidelidade que ele exprime.

Há exceções felizes. São possíveis radicais conversões. A única diferença está em que, quando se trata dos outros, temos, algumas vezes, o direito de esperá-las, ao passo que, quando de trata de nós, temos principalmente o dever de realizá-las, sem o que a esperança não passaria de mentirosa ilusão e vã tentativa de atingir a fidelidade, pois nunca chegaria a ser praticada.

Para quem sabe quantos fios tece a vida em volta de certas pessoas e como é preciso que a consciência seja firme para que o coração seja puro, as infinitas conseqüências do “flirt” sobre a juventude não se discutem.

São aceitas com toda sua evidência. A mulher capaz de um único amor foi quase sempre à jovem de uma única ternura. Um ano contém outro. Do “flirt” nasce o “flirt”. Quem cultiva muitas flores de amor para com elas fazer um ramalhete variadamente perfumado que colherá no jardim do matrimônio que, bem fechado pelo muro espesso da moral cristã, deveria ser um jardim onde unicamente dois seres, á tardinha colhessem juntos as únicas flores que juntos tivessem semeado?

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Frei. M. A. Bellouard O. P - Coleção moças; Edições Caravela LTDA, ano de 1950, continua com o post: Flirtar é divertir-se com a própria consciência)

PS: Grifos meus.