sexta-feira, 30 de abril de 2010

Trechos do sermão 13 (São Cesário de Arles)

Trechos do sermão 13
(São Cesário de Arles)


Eu vos rogo, irmãos caríssimos, que reflitamos sobre o significado de sermos cristãos e sobre o sinal da cruz de Cristo que trazemos na fronte. Não nos basta - bem devemos saber - termos recebido o nome de cristãos se não agimos como cristãos, conforme disse o próprio Senhor no Evangelho: “De que adianta dizer: ‘Senhor, Senhor’, se não fazeis o que eu digo?” (Lc 6,46). Se mil vezes te proclamas cristão e fazes o sinal da cruz, mas não dás esmola de acordo com tuas possibilidades e não queres ter amor, justiça e pureza, de nada te aproveitará o nome “cristão”.

Sim, é uma grande coisa o sinal de Cristo e a Cruz de Cristo, mas, precisamente por isso, grande e preciosa deve ser também a realidade assinalada por tão precioso sinal. De que adianta fazer um selo de ouro, se o que está por dentro é palha podre? De que adianta andar com o sinal de Cristo na fronte e na boca se o que ele encerra são nossos pecados e delitos? Pois, quem pensa mal, fala mal e age mal e, se não quiser corrigir-se, a cada sinal da cruz seu pecado não só não diminuirá como aumentará.

É o caso de muitos que, ao furtar, adulterar ou agredir a pontapés, fazem o sinal da cruz e nem por isso deixam de fazer o mal. Ignoram esses infelizes que, com isso, atraem mais demônios para dentro de si em vez de expulsá-los.

Já quem, com a ajuda de Deus, afasta de si os vícios e os pecados, lutando por pensar o bem e realizar o bem, este imprime de verdade o sinal da cruz sobre seus lábios: pois esse agir, sim, é digno de receber o sinal de Cristo. E já que está escrito: “O reino de Deus não consiste em palavras mas em virtudes” (I Cor. 4,20) e também: “A fé sem obras é morta” (Tg 2,26), não usemos, pois, o nome de cristãos para nossa condenação, mas para nossa cura e dediquemo-nos às boas obras enquanto ainda podemos lançar mão dos remédios.

***

Memorizai o Símbolo e o Pai-Nosso, e ensinai-os a vossos filhos, pois não sei como pode alguém dizer-se cristão e não se empenhar sequer em saber os poucos artigos do Símbolo e o Pai-Nosso.

Sabei que sois responsáveis diante de Deus pelos filhos, que trouxestes ao Batismo: deveis ensinar e corrigir tanto os vossos próprios filhos como os afilhados para que vivam uma vida pura, justa e sóbria. E vós mesmos agi de tal maneira que, querendo vossos filhos imitar-vos, não acabem ardendo convosco no fogo eterno mas, a vosso lado, atinjam o prêmio da vida eterna...

***

Aos domingos, reuni-vos na igreja. Se os infelizes judeus celebram o sábado com tamanha devoção que nesse dia não realizam nenhum trabalho, quanto mais não deve o cristão dedicar o domingo somente a Deus e vir à igreja em benefício de sua alma? Quando vierdes às reuniões da igreja, orai por vossos pecados e não entreis em discussões nem provoqueis discórdias ou escândalos. Quem vem à igreja para tais coisas agrava a ferida de sua alma, precisamente onde, pela oração, poderia curá-la.

Na igreja, não fiqueis tagarelando, mas ouvi pacientemente as leituras da palavra de Deus. Quem fica conversando na igreja deverá prestar contas, não só do mal que causa a si mesmo, mas também do que causa aos outros: pois nem ele ouve a palavra de Deus nem deixa que os outros a ouçam.

Dai o dízimo de vossos proventos à Igreja. Aquele que foi soberbo seja humilde; o que era adúltero seja casto; o que costumava furtar ou apropriar-se das coisas alheias que comece a dar de seu próprio patrimônio aos pobres. Quem foi invejoso seja benevolente; seja paciente o iracundo, quem ofendeu apresse-se a pedir perdão e o ofendido apresse-se em ser misericordioso.

Toda vez que sobrevier uma doença, o que a sofre receba o corpo e o sangue de Cristo; peça humildemente e com fé ao sacerdote a unção com o óleo bento a fim de que se cumpra nele o que está escrito: “Algum de vós está doente? Chame os presbíteros para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo, e a oração da fé salvará o enfermo, elevando-o ao Senhor. Se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão remitidos” (Tg 5,14-15).

Vede, irmãos, como quem recorre à Igreja em sua doença obtém a saúde do corpo e a remissão dos pecados. Se é possível, pois, encontrar este duplo benefício na Igreja, por que há infelizes que se empenham em causar mal a si mesmos, procurando os mais variados sortilégios: recorrendo a encantadores, a feitiçarias em fontes e árvores, amuletos, charlatães, videntes e adivinhos?

***


Como disse há pouco, exortai vossos filhos e parentes a viver uma vida pura, justa e sóbria. Não só com palavras mas também com a força do bom exemplo.

Antes de mais nada, onde quer que estejais, em casa, em viagem, comendo ou em reuniões, não profira vossa boca palavras torpes e obscenas, e exortai os vizinhos e vossos próximos a que falem sempre o que é bom e belo, e não palavras más ou maledicência. Evitai as danças organizadas nas festas religiosas, com suas canções torpes e obscenas: a língua, com a qual o homem deveria louvar a Deus, é então usada para ferir a si mesmo.

Esses infelizes e miseráveis que, sem vergonha e sem temor, promovem seus bailes e danças bem diante das próprias basílicas dos santos, tendo vindo à igreja como cristãos, dela saem como pagãos: pois tais bailes são restos de paganismo. E dizei-me que tipo de cristão é esse que veio à igreja para orar, mas se esquece da oração e não se envergonha de entoar cânticos sacrílegos pagãos. Considerai ainda, irmãos, se é justo que a boca cristã, que recebe o próprio corpo de Cristo, entoe cânticos obscenos, um veneno do diabo.

E, principalmente, fazei aos outros tudo o que quiserdes que os outros vos façam, e não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam. Se cumprirdes isto, podereis preservar vossas almas de todo o pecado. E todos, mesmo aqueles que são analfabetos, devem guardar estas duas sentenças na memória e, com a ajuda de Deus, podem e devem pô-las em prática.

Nós, caríssimos irmãos, conscientes de nossa responsabilidade, advertimo-vos com solicitude paterna: se de bom grado nos ouvirdes, dar-nos-eis uma grande alegria e chegareis felizmente ao reino de Cristo. Que Ele se digne vo-lo conceder, Ele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

(Grifos meus)

Todos os dias...

Todos os dias...


Há certas realidades de todos os dias. São realidades inegáveis, tangiveis, tremendas. Com elas tens de contar. Viver no esquecimento delas é indigno de uma cristã, máxime quando é jovem ainda.

"Todos os dias Deus é ultrajado, esquecido, desprezado, blasfemado, odiado... Todos os dias Jesus Cristo renova seu amoroso sacrifício do Gólgota sobre o altar, sempre que numa matriz ou capela se celebra a santa Missa. Seus inimigos procuram crucificá-lO novamente, maldizendo-Lhe o Evangelho. "Como é evidente que nosso Senhor, se voltasse ao mundo, seria crucificando de novo e mais depressa do que a primeira vez"! (Gay)

Todos os dias a Santa Igreja é atacada, criam-se leis que a perseguem...

Todos os dias oculto no tabernáculo, o Divino Mestre pergunta-te: É pouco o que tenho feito por ti? Nada me custou o amar-te?

Todos os dias milhares de vidas desaparecem... Uma hora! Que é isso? É um desfile de sessenta minutos breves? Um minuto? Significa a morte de cem pessoas e o nascimento de cem crianças. Uma centena de agonizantes e outra centena de recem-nascidos. Numa hora: seis mil cadáveres e seis mil berços! E para quantos correu talvez em vão o sangue de nosso Senhor!... Até ao fim do mundo, disse alguém, nosso Senhor estará em agonia.

Todos os dias milhares de almas deixam-se talvez arrastar e seduzir pelo pecado e ofendem a Deus, expõem-se ao inferno, ou, quem sabe, nele caem.

E eu, entretanto, em que vivo pensando? Penso em divertir-me, em distrair-me, em ofender a Deus também? Preocupa-me tão somente a frivolidade, a futilidade, o prazer, o nada?

"Pobre coração, que passa insensível ao lado de tanto amor, de tanta dor, de tanto risco, de tanto ódio, sem sensibilizar-se. Pobre cabeça que um nada distrai e que tanta coisa não pode enchê-la." (Pe. Plus).

(Excertos do livro: Audi Filia!, do Pe. Geraldo Pires de Souza)

PS: Grifos meus.

ESPECIAL: Textos do livro: A formação da donzela, do Pe. J. Baeteman

Nota: Reuniremos em um único post os textos do livro: A formação da donzela, do Pe. J. Baeteman.
Este post receberá atualizações.


ESPECIAL
 Textos do livro: A formação da donzela, do Pe. J. Baeteman
 
 

Da fidelidade aos pais

Da fidelidade aos pais


Conforme a vontade de Deus, deves antes de tudo dedicar aos teus pais amor e fidelidade. São Jerônimo refere-se um belo exemplo desta fidelidade na vida da Santa Eustáquia, filha de Santa Paula, notável dama romana.

Segundo conta, ela portou-se em tudo, como boa filha, ternamente amorosa para com a sua mãe. Amava a mãe de todo o coração e se empenhava por imita-la em todo o bem.

Assinalavam-se, constantemente, por uma voluntária e pontual obediência, e cumpria-lhe prazerosa os menores desejos. Sempre ficava satisfeita, quando podia proporcionar-lhe alguma alegria. Seu maior gosto era permanecer em sua presença e assisti-la, com incansável dedicação e ilimitada diligência, tanto nos dias de saúde, como nos de doença, até o derradeiro momento de sua existência.

Tais foram às disposições e o procedimento de uma filha verdadeiramente boa, que tu, donzela cristã, deverás ternamente imitar.

Sim, cumpre com absoluta fidelidade, os teus deveres para com teus pais que, segundo a determinação de Deus são os teus maiores benfeitores. Lembra-te, por um instante que tudo deves agradecer a teus pais. Vê quanto por ti se afadigou teu pai, no decorrer de muitos anos. Todos os dias, pela manhã, erguia-se do leito e, depois de curta oração, encaminhava-se para os duros trabalhos de sua profissão. Quantas pesadas gotas de suor derramou para satisfazer às suas obrigações!

Quantas vezes sentia que as forças ameaçavam abandoná-lo, e as mãos denunciavam cansaço! Sem embargo, o pensamento em ti, o amor por ti, estimulava-o sempre a continuar o trabalho, não obstante toda a fadiga.

Enumera, se puderes, os penosos passos que deu por ti, as muitas alegrias e prazeres de que se privou para que nada te faltasse, os gastos incalculáveis que fez para que tivesses o necessário e te instruísses convenientemente. Contempla os duros calos de suas mãos, os sulcos de sua fronte, a gravidade que lhe transparece na face e em todo o ser – tudo isso te fará lembrar uma infinidade de incômodos e cuidados que teu pai suportou por tua causa.

Interpela, depois tua mãe, sobre o que tem feito. Responder-te-á: Minha filha, não te posso narrar, é impossível.

Horas e dias consecutivos trouxe-te em meus braços, acalentei-te ao meu coração e velei-te no berço; cumulei-te de carícias, antes que tu as pudesses compreender. Tu me fatigaste, muitas vezes; longas horas me roubaste ao repouso noturno pelo qual suspirava e do sono de que eu tanto necessitava. Sustentei a tua fraca vida, alimentei-te e tanta coisa suportei, até que pudesses falar, andar e de algum modo agir por ti mesma.

E, que de cuidados eu não sentia por tua vida, quando ela de qualquer modo corria perigo! Como eu oscilava entre a angústia e a esperança, esquecendo o comer e o beber, quando alguma doença te retinha no pequeno leito.

Fui eu a primeira que te iniciei no conhecimento de Deus, a primeira que acendi em teu coração a chama do seu divino amor, a primeira que juntei tuas mãozinhas e te ensinei a rezar: “Pai nosso que estais no céu”. Inúmeras vezes, ao divino Salvador e a sua Mãe Santíssima, com fervorosas orações e lágrimas, pedi o teu verdadeiro bem no tempo e na eternidade.

Estas e muitas outras coisas poderá narrar-te a tua boa mãe, se a interrogares sobre quanto fez por ti.

Os alemães têm um belo provérbio que diz com razão:

A mãe fiel será diariamente nova”
- Mutter treu vird taglich neu”.

Não seria, portanto, donzela cristã, sobretudo ignóbil, não seria uma negra injustiça, se não fosses boa e fiel para com teus pais, a quem tanto tens que agradecer, e não cumprisses conscienciosamente os teus deveres?

Se alguém visita um enfermo que, enfraquecido e desditoso jaz no seu leito de dores, e leva-lhe uma pequena dádiva, o doente comovido agradece com lágrimas nos olhos essa prova de carinho e amizade. Mais ainda: se alguém nos faz uma pequena fineza um favor insignificante, imediatamente proferimos o nosso “muito obrigado”, ou “Deus lhe pague”.

Tem-se, geralmente por falta de atenção e de nobreza de sentimento, o não reconhecer e agradecer tais favores e gentilezas. No entanto, são de todo insignificantes esses pequenos favores ao lado dos inumeráveis benefícios com que os pais cumularam aos filhos; mesquinha gota de água, em confronto com o mar incomensurável.

Cumpre, com toda a fidelidade e consciência os teus deveres para com teus pais, porque são eles aqui na terra os primeiros representantes de Deus junto de ti.
Nas suas ações externas, por via de regra, Deus não age imediatamente, mas com intervenção das causas segundas.

Ao trabalho do diligente, lavrador e do perito jardineiro, alia a sua atividade criadora e faz as sementes germinarem, nos campos cheios de esperança e orna os jardins com magníficas flores.

Foi assim também que, por meio de teus pais, te deu a vida; por meio de teus pais te alimenta e veste; por meio de teus pais te protege e guarda de muitos perigos; por meio de teus pais quer educar-te para a vida futura, conduzir-te para o bem e finalmente para o céu.

Os pais ocupam junto de ti o lugar de Deus; são para ti os primeiros dons de Majestade de Deus.

Deus tomou por assim dizer, uma pedra cintilante da sua coroa divina e a engastou na coroa da autoridade dos teus pais. Este pensamento a honrá-los, em alto grau, e a cumprir, com perfeição, os teus deveres para com eles?

Quando o Faraó do Egito nomeou seu representante, na qualidade de vice-rei, o patriarca José pôs-lhe um anel no dedo, vestiu-o com um manto real e lançou-lhe ao pescoço um colar de ouro.

Fê-lo depois percorrer toda a cidade no seu segundo coche, a que precedia um arauto para anunciar a todos que se ajoelhassem diante dele e soubessem que esse era o superintendente de todo o país do Egito.

Ora, os reis e príncipes da terra querem que seus representantes sejam honrados, que se lhes tribute uma parte da veneração e do respeito devidos ao rei. Porventura, donzela cristã, o Rei dos reis, perante quem o mais poderoso monarca na terra não passa afinal de um mesquinho grão de poeira, não exigirá que os homens respeitem seus representantes – os pais, - e lhes manifestem grande fidelidade?

Cumpre, fiel e conscienciosamente, os teus deveres para com teus pais; isto atrairá sobre ti as bênçãos de Deus para o teu futuro e graças abundantes para uma vida cristã virtuosa. Assegura-te o próprio Deus eternamente veraz e que sustenta o que prometeu.
Quero citar alguns dos mais belos trechos da Sagrada Escritura, que diz respeito a este assunto.

Lê-os com a atenção e devagar. Toma-os na devida consideração e propõe, por tua atenta observância, merecer as bênçãos divinas:

Honra teu pai e tua mãe, para que tudo te corra bem e tenhas uma vida longa sobre a terra”. Assim reza o quarto mandamento da Lei de Deus, que tu aprendestes quando criança.
Como quem acumula tesouros, assim é aquele que honra sua mãe (Ecli., 3,5).

Filho, ampara a velhice de teu pai e não o entristeças durante a sua vida. Se a inteligência lhe for faltando, suporta-o e não o desprezes por teres mais vigor do que ele; porquanto a caridade exercida com teu pai não ficará no esquecimento. Serás recompensado por teres suportado os defeitos de tua mãe... No dia da tribulação Deus se lembrará de ti, e os teus pecados se desfarão com o gelo num dia sereno”. (Ibid., 14,17).

Assim, como Deus prometeu as suas bênçãos aos bons filhos que fielmente cumprem os seus deveres para com os pais, assim também, ameaça com sua maldição àqueles que transgridem muitas vezes e de modo grave esses deveres.

Severas, com efeito, são as suas palavras. Lê, também, estas e sirvam-te de aviso salutar, a fim de conscienciosamente, pores em prática, a resolução de ser, em todo o tempo, boa filha.

Maldito o que não honra seu pai e sua mãe; e todo o povo dirá: Assim seja (Deut., 27,16).

O olho do que escarnece de seu pai e do que despreza a mãe que o deu à luz, arranquem-no os corvos... e comam-no os filhos da água (Prov., 30,17).
Como é infame aquele que desampara seu pai! E como é amaldiçoado de Deus o que exaspera sua mãe!” (Ecli., 3,18).

Quantas vezes não se encontra na história o cumprimento destas ameaçadoras palavras de Deus! Lembra-te de Absalão, que se sublevou contra o pai; ficou suspenso pelos longos cabelos ao galho de uma árvore e ali foi atravessado por três lanças.

Lembra-te de Cam que, com maliciosa satisfação, viu o pai em estado de embriaguez e foi referir o caso aos irmãos com certo desprezo. Em castigo, tornou-se escravo dos seus irmãos com certo desprezo. Em castigo, tornou-se escravo dos seus irmãos, e toda a sua descendência deverá sofrer a pena daquele delito.

Ainda hoje, cada cidade, cada aldeia, nos oferece exemplos de filhos que, muitas vezes menosprezaram gravemente os seus deveres para com os pais, e foram depois, a cada passo perseguidos pela maldição de Deus, de modo que, nas empresas comuns não logram nenhum êxito, nenhuma benção, e são de ordinário molestados e maltratados de igual maneira pelos próprios filhos, exatamente como antes haviam feito a seus pais.

Em lugar de maldição, donzela cristã, procura merecer as bênçãos abundantes de teus pais.
Portanto, presta sempre a teus pais, que ocupam junto de ti o lugar de Deus, temor reverencial; não te esqueças as belas palavras que São Cirilo Alexandrino dirige a cada filho: Honra e venera muito teu pai e tua mãe, porquanto os pais trazem em si de certo modo a imagem de Deus”.

Tomás Moro, homem de brilhantes dons de espírito e coração, foi nomeado arquichanceler da Inglaterra, portanto um dos primeiros e mais notáveis dignatários de todo o Reino. Todavia, com ser homem de estado, nunca deixou sua residência por muito tempo, sem se despedir do velho pai e sem lhe pedir, de joelhos, a benção.

Se participava duma reunião dos Grandes da Inglaterra, onde o pai estivesse presente, ele se dirigia logo ao pai, beijava-o com todo o respeito, oferecia-lhe o primeiro lugar, e só depois de recusado este, ocupava Tomás o lugar de honra que requeria a sua posição de arquichanceler.

Honra também teus pais em qualquer ocorrência. Seja onde e quando for, refere-te a eles com toda a atenção e respeito; guarda-te de te alegrar com suas faltas eventuais e suas imperfeições e de as ocultar a outrem. Jamais te envergonhes deles, ainda que sejam pobres ou defeituosos ou pouco educados.
Como é triste e intolerável aos olhos de Deus, o filho desprezar a seus pais, dirigir-lhes palavras ásperas e encara-los de rosto sombrio!

Diz com grande severidade São Jerônimo: Merece ficar cego, aquele que encara com mau humor o semblante de seus pais e ofende com olhos arrogantes, o amor filial!”.

E verdadeiras são as belas palavras de São Pedro Crisólogo: Tirai os raios ao sol e não mais alumiará; separai o regato da fonte, e não mais correrá; despojai a árvore de seus ramos, e secará; arrancai os membros, ao corpo, e morrerá; tirai ao filho a reverência aos pais e já não será nem filho, nem filha”.

Se, pelo contrário, estimares e honrares teus pais, a ti mesma te honrarás; o respeito que demonstra a teus pais, é a maior honra para tua pessoa e granjeia-te as suas bênçãos.
Honra teu pai por ações, por palavras e com toda a paciência, para que venha sobre ti a sua bênção e esta permaneça contigo até o fim”. (Ecli.,3,9-10).

Sê, além disso, pontual e obedece com alegria a teus pais. Receberam de Deus o sério encargo de te educar como boa cidadã e diligente cristã, pra que logres o destino eterno.

A esta grave incumbência não poderão satisfazer sem a espontânea obediência de tua parte. Com efeito: assim como sem a luz do sol não há dia claro, muito menos ainda pode existir verdadeira educação sem a obediência. Eis porque tens o dever rigoroso, perante Deus. De prestar de bom grado obediência a teus pais.

Não os deixes nunca chamar-te ou interrogar-te sem lhes responder alegremente; encaminha-te depressa e com prazer para o trabalho que eles te destinarem. Não te atrevas jamais a tomar atitudes arrogantes quando, com razão, eles te negarem visitar um clube. Nunca exijas deles coisa algumas contra a sua vontade, por ex., dar um passeio, ou isto ou aquilo; não procures depois extorquir ou captar a sua licença e permissão.

Não consinta que te chegue aos lábios uma palavra de descontentamento pela tua desobediência, nem jamais se veja, em ti, um sinal de enfado ou mau humor.

Executa com prazer sempre que puderes, os desejos que te não manifestam, mas que podes adivinhar. Assim, proporcionanas a teus pais grande alegria e edifica a teus irmãos, profundamente.

Por último, jovem cristã, ama teus pais, de todo coração. O grande, o heróico amor que te votam reclama o teu amor recíproco em alto grau: os inumeráveis benefícios de que te cumularam, desde os mais verdes anos de tua vida, impõe-te a doce obrigação de lhos retribuir com grato amor, o qual há de ser verdadeiro e puro, e não aparente ou hipócrita, e deve consistir numa afeição cordial, que te induza a tomar parte, de modo mais íntimo, em tudo quanto se relaciona com eles: alegrias e tristezas, saúde e doenças, felicidade e infelicidade.

O teu amor a teus pais deve ser constante e permanente: não só na tua mocidade, mas ainda em toda a tua vida subseqüente; não só enquanto eles têm saúde e aptidão para o trabalho, senão também, quando estiverem doentes e quebrantados e exigirem muitos cuidados, cumpre lhes sejas dedicada com amor íntimo e fiel.

Poupa-os sempre da menor aflição; proporciona-lhes com o teu procedimento, constante alegria. Não deixes tampouco de rezar por eles todos os dias, principalmente, quando assistirem ao santo Sacrifício da Missa ou quando receberes a sagrada Comunhão, o que fazes com bastante freqüência, como é de se esperar.

Teu amor para com teus pais deve, enfim, ser ativo e pronto. "O amor é paciente", diz o Apóstolo São Paulo aos gentios. Suporta com grande peciência as imperfeições e pobreza de teus pais. Se possuem defeitos realmente notáveis, que te fazem recear pela sua salvação, então reza por eles com maior solicitude e procura, de maneira prudente e afável, influir cristãmente sobre eles; entretanto, guarda de te queixares deles na presença de outrem e de aludir sem necessidade, a seus defeitos; antes sofre tranqüila e resignada, o que apesar de tua boa vontade, não podes modificar.

Se teus pais forem velhos e doentes, assiste-os com terno respeito, atenção e amor. Terás por grande favor e graça do céu o porporcionar-te Deus a ocasião de cuidares de teus pais velhos alquebrados. Em caso de necessidade deves preferir impor-te uma restrição ou privação, e até mesmo abster-te do próprio sustento, a permitir que eles de qualquer modo vivam na indigência.

Há muitos filhos e muitas filhas que não têm verdadeiro amor aos pais. Pode chamar-se amor, o tratar os pais com dureza e desprezo, não lhes dirigir uma palavra de afeto, falar com eles de maneira áspera e mortificante?

Pode chamar-se amor, o de filhos que por seu comportamento leviano, sua indiferença religiosa, sua vida dissoluta, afligem profundamente os pais e lhes preparam opróbrio e vergonha?

Pode, finalmente, chamar-se amor, a atitude de filhos que, por ocasião de uma doença mais prolongada dos pais, ou nos achaques próprios da velhice, se mostram insensíveis ou pouco cuidadosos; e cada trabalho, cada sacrifício, cada despesa, lhes parece demasiado, manifestando assim falta de amizade e de paciência?

Chegará tempo, talvez mais depressa do que supões, em que a morte te roube os pais. Então, o coração paterno que agora pulsa com tanto calor por ti, se quebrará no doloroso combate da morte; os olhos que tantas vezes agora se fixam com sincero amor e alegria se hão de cerrar para nunca mais baixar sobre ti; as mãos que tão frequentemente acariciam, tu as verás tolhidas, frias e hirtas.

Que de exprobações farás, então, a ti mesma, ao pé do leito funéreo de tua terna mãe, ou do teu bom pai, quando sentires os clamores da consciência assim bradando: eu causei à minha mãe, a meu pai, tantas aflições e dissabores, ultrajei-os tantas vezes e gravemente; agora estão no tribunal de Deus, para serem os meus acusadores!

Por outro lado, que doce consolação te será naquele tão grave momento poderes dizer com toda a verdade: sempre me esforcei em proporcionar a meus pais alegrias e prazeres; fui em todo o tempo filha sincera e fiel, cumpri as suas ordens e executei os seus desejos com a maior prontidão e boa vontade! Reflete, donzela cristã, sobre esta consolação que te poderá propiciar.

(Excertos do livro: A donzela cristã, do Pe. Matias de Bremscheid)

PS: Grifos meus

quinta-feira, 29 de abril de 2010

VII- OS FLAGELOS

VII- OS FLAGELOS


Do começo da vida até ao momento da morte, Jesus teve sempre diante dos olhos a Sua Paixão sangrenta.
Qual um artista que traz incessantemente consigo, numa gestação dolorosa, o ideal de que fará a sua obra prima.

Para Jesus, este grande drama da Paixão tem cinco atos principais: Ele os enumera, pormenoriza-os e sobre eles frequentemente comenta na intimidade da sua conversação com os Apóstolos.

O Filho do Homem, diz mais de uma vez aflitivamente, será traído (e ai daquele que O trair!): em conseqüência dessa traição será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, que por sua vez O entregarão aos gentios”. E aí está o primeiro ato.

Depois será escarnecido, posto a ridículo. Et illudent ei. Ludibria-lO-ão, divertir-se-ão à Sua custa cinicamente. E nesta palavra, como num espelho profundo onde se refletissem cenas distantes, Jesus vê se desenrolarem todos os ultrajes do corpo da guarda, do Pretório, do palácio de Herodes, até a sinistra irrisão da coroa e do título real afixado à cruz: é o segundo ato.

O terceiro cifra-se numa palavra: Et conspuent eum: cuspir-Lhe-ão em cima. É um traço que O atormenta antecipadamente, frisa-O Ele com dolorosa precisão.

Et flagellabunt: será flagelado, açoitado como um escravo ou um animal malfazejo: é o quarto ato.

Após todas essas cenas, todas essas orgias de sangue, o quinto ato termina no Calvário.
Assim, como em cruel escorço, eis toda a Paixão do Cristo, tal qual O preocupa e O angustia de antemão.
A traição. As zombarias. Os escarros. Os flagelos. A cruz.

Tais são os cimos que Ele tem de galgar em menos de dezoito horas. Que profundezas de humilhações ser-Lhe-á forçoso atravessar para atingi-los!

Flagellabunt eum!

A flagelação parece ser, à luz da reflexão, uma cruel inutilidade: porque essa tortura suplementar a quem vai padecer a morte? A flagelação pode quando muito compreender-se como um castigo destinado a punir e a escarmentar.

Mas, para um condenado, não passa isso de um ato de selvageria. Aturou-o Jesus.

Tão bem o haviam compreendido os Judeus que, na conformidade da sua lei, ratificada por Deus, tinham que limitar no número dos golpes, trinta e nove, e o lugar onde se deviam aplicar esses golpes estava designado: as espáduas e o peito do réu.

Jesus não teve o benefício da Sua lei nacional.

Estava entregue aos gentios: ora, os gentios, mais bárbaros, mais cínicos, mais próximos dos baixos instintos, a despeito da sua civilização, não entendiam essas reservas no modo do castigo.
Ó Jesus! Fostes pois inteiramente despido e atado assim a uma coluna, com as mãos presas pela frente a uma argola, e o Vosso corpo se dobrava dolorosamente em dois!

Quanto tempo durou esse horrível suplício? Qual foi o número dos golpes?

Sabemos que eram gentios que batiam, que nenhuma lei limitava os golpes; – que eles eram estimulados pelos judeus; – que o homem entregue perdera toda reputação; – que já lhes era entregue em estado deplorável, coberto de poeira e de escarros, como um louco indigno de compaixão, um sedutor, um mágico; – que Pilatos, na sua cruel política, pedira um castigo de preferência severo; – que eles, os gentios, não queriam ficar atrás relativamente ao que fôra feito na noite precedente pela guarda de Caifás; – que, finalmente, eram soldados grosseiros, ávidos de espetáculos sangrentos.

Sabemos também que não se utilizavam varas para os estrangeiros e os escravos, mas sim flagelos engrossados de nós ou eriçados de pontas.

É provável portanto que aqueles verdugos não se tenham contentado com bater só no lado de trás do corpo, porém que, quando a sua Vítima ficou ensangüentada desse lado, a tenham cruelmente virado e sulcado de golpes, da cabeça aos pés o Divino Cordeiro a sangrar e a gemer sob os flagelos.

Supra dorsum meum fabricaverunt peccatores. Lavraram-me as costas todas. Prolongaverunt iniquitatem suam. E prolongaram a sua cruel prática (cf. Sl 128, 3).

Aí estão o lugar e a duração já indicados.

A planta pedia usque ad verticem, non est in eo sanitas, nem um só lugar sem laceração, da base ao vértice.

Vulnus et livor et plaga tumens. São só feridas, rasgos lívidos, chaga túmida (cf. Is 1, 6).

Como designar melhor os efeitos de uma longa e cruel flagelação? Nenhum dos suplícios suportados pelo Filho do Homem na Sua Paixão podia produzir efeitos semelhantes. E sob o dedo do profeta se remata a sinistra pintura:

Já não tinha forma, nenhuma beleza, o rosto está como suprimido, encolhido, aniquilado por aquela horrível dor; flagelado, açoitado como o último dos homens, assemelha-se o Seu corpo ao de um leproso; exangue, parece um galho mirrado que sai de uma terra seca. Podem-se-Lhe contar os ossos, postos a nu. Faz mal à vista, a gente desvia a cabeça, é um homem açoitado por Deus: açoitado, que digo? Ele está é triturado” (Isaías 53).

Estes pormenores não convêm senão à flagelação. Por que a quis Deus tão longa, tão cruel, tão especialmente horrível? Por que essa pintura do Profeta tão pungente, tão realista? Por que de per si constitui ela um ato do drama lúgubre? Por que acrescentou Ele que de antemão ela faz experimentar ao Filho do Homem um arrepio involuntário?

Os que conhecem o terrível mistério da depravação humana e as perversões de uma carne de que Deus queria fazer um invólucro radioso da alma pura, talvez compreendam os horrores da expiação divina.
Em duas circunstâncias memoráveis Deus alçou-se contra a carne culpada: no dilúvio, que cobriu o mundo corrompido, e em Sodoma e Gomorra, que inflamaram-se numa noite, quais sinistros archotes.

A mesma corrupção existe hoje em dia: se não tivéssemos a onda de Sangue Divino que correu na coluna, o mundo subsistiria ainda?

(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

(Texto recebido por e-mail)

PS: Mantenho os grifos.

VI- A VESTE BRANCA

VI- A VESTE BRANCA


Jesus é arrastado, pela manhã, de Pilatos a Herodes: em que estado! A última parte da noite foi tão dolorosa! Aquela sala baixa de onde saímos, aquela coluna, venerada ainda hoje em Jerusalém, onde Ele se assentara, aquela oliveira do pátio de Caifás a que teria estado preso enquanto os soldados cobravam alento para a obra bebendo, outras tantas testemunhas daquela espantosa agonia!

Passa Ele pois pelas ruas, com as vestes sujas, o rosto inchado de bofetadas, a barba esquálida, embaraçada e cheia de escarros, sempre atado. Quando O vêem passar, desviam a cabeça... ousaremos dizê-lo? Depois do que disse o profeta, sim: é uma Face nojenta. Não está bastante ensangüentada para excitar a compaixão; está suja demais, por demais desfeita, para não suscitar o nojo.

Ó meu Deus, perdão por este termo repugnante, mas é o verdadeiro, nada se deve mudar ao que disse o Espírito Santo.

Tem Ele os braços amarrados, o rubor da confusão cobre-Lhe os pontos do rosto que não sujam os escarros e a poeira: não pode nem enxugar a Face nem esconder o pranto que corre.

Jesus deve ter chorado muitas vezes na Sua Paixão.

Ei-lO em presença de Herodes, de pé, pálido e desfeito; um arrepio de nojo percorre a elegante assembléia. Não podiam tê-lO modificado? Quando menos lavá-lO?

Atormentam-nO com perguntas; lisonjeiam-nO, gabam-nO; Ele se cala; desatam-Lhe as mãos para que execute passes. Jesus se cala, pendem-Lhe imóveis os braços. Instam então com Ele, a impaciência reponta:

“O quê?! Eu antecipei o meu levantar, atrapalhei o meu dia, convoquei a minha corte, pra Te ver, pra Te ouvir!”

E Jesus se cala. – “Que doido estúpido é este, ignorante das conveniências e usanças do mundo, que Pilatos me despachou?”

“É vosso rival, Herodes, intitula-se Rei dos judeus”.

“Belo Rei na verdade! Vamos vesti-lO de Rei, preciso tirar o meu proveito; prometi um divertimento à minha corte: já que Ele não nos quer divertir, divertir-nos-emos nós a custa dEle”.
Trazem a veste branca, passam-Lha, menosprezam-nO. E Jesus mantêm-se firme, face a Herodes, e despreza nEle o mundo.
Eis porque se cala.

Se houvesse diante dEle um simples pecador, oh!, por certo o Coração se Lhe fundiria, as mãos se Lhe atirariam no pó para retirá-lO. Mas há um zombador. Então Jesus se cala... aguardando a hora da justiça final. In eteritu vestro ridebo et subsanabo. Eu, a Sabedoria que tratais de loucura, a meu turno Eu me rirei de vós e brincarei convosco (Prov 1, 26).

Ó brinquedo terrível!

Há ainda vestes brancas que passam pelo mundo, justamente porque há sempre um mundo.

Todo o que quer amar a Deus acima de alguma coisa reveste um pouco dessa veste branca: se quiser amar a Deus acima de tudo, revesti-la-á toda. Eu posso, aos olhos de Deus, cobrir-me ainda com outra veste de humilhação: envolve-me a lembrança dos meus pecados, as tentações me assediam, os meus sentidos se revoltam.

Que veste humilhante! E eu só tenho esta para apresentar a Deus, pois perdi a outra, a primeira, a da minha inocência.

Ó Deus, ó Pai, afferte stolam primam, mandai que me tragam outra vez a minha veste, e com ela o anel, as sandálias e o vosso amor novo. Assim seja.

(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

(Texto recebido por e-mail)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Nona Conferência - Mulher e a verdadeira força

Nona Conferência - Mulher e a verdadeira força
Monsenhor Landriot - Arcebispo de Reims ,1877


"Ela pôs a força como um cinto em volta dos seus rins,
e fortaleceu o seu braço:
Accinxit fortitudine lumbos suos,
et roboravit brachium suum."
(Prov. XXXI, 17)

O que é a força?

Poderia definir-se, a energia da alma, que nos faz suportar com serenidade os enfados e os males da vida, que nos dá a coragem de prosseguirmos nos nossos desígnios com inabalável firmeza, e nos conserva com vigor da ação, que os obstáculos humanos não podem deter. É, diz São Cirilo, uma ativa energia que faz com que a alma se ponha em ação com o vigor da mocidade.” (Isai. 1.V)

Estas diferentes definições são o comentário destas palavras da Bíblia: Ela pôs a força como um cinto, em volta dos seus rins, e fortaleceu o seu braço.

A força e a firmeza de caráter são virtudes que caminham no meio de dois defeitos contrários, a obstinação e a fraqueza; e há uma nova prova desta importante verdade, sobre a qual, por mais de uma vez, tenho chamado a vossa atenção; a virtude e o vício estão, muitas vezes, separados um do outro apenas pela dose da mistura; tornai conveniente a dose e a virtude existe; tirai mais ou menos á dose e o vício começará.

Escutai São Tomás com a sua clareza e concisão ordinária: A obstinação consiste no apego mais que necessário ás idéias e aos projetos; a fraqueza não tanto, e a firmeza, segundo o necessário: secundum quod oportet.(Q. II.).

Não encontrareis nunca destas naturezas, de tal modo enfatuadas de si próprias que tudo quanto dizem e pensam deve ser verdadeiro? Tudo quanto sonham se deve realizar? E para as quais o resto vai todo torto?
Tanto que uma idéia lhes penetrou no cérebro, de tal modo se instala que não deixa um cantinho para a opinião contrária.

Esta idéia tem, muitas vezes, os seus lados absurdos: não importa, entrou nessa cabeça, tomou todos os lugares disponíveis e o omnibus vai completo. Viajantes honestos e elegantes, isto é, pensamentos justos, verdadeiros, graciosos se apresentam, mas os bilhetes estão todos vendidos e já ninguém pode entrar.

Se acontecer – diz Alberto, o grande – a esses espíritos afirmarem que o dia é noite, não tenteis provar-lhes o contrário porque perdereis completamente o vosso tempo”.(Ética, 1,7).

A pertinácia, senhores, é segundo as notas dos moralistas, uma prova de fraqueza de espírito, ou, pelo menos, indica uma paixão não razoável de amor próprio e de vaidade; basta a estes espíritos o terem avançado uma vez ao público para não mais o quererem soltar: e uma vez pronunciadas num sentido e num momento de paixão irrefletida, nada há que os faça recuar, nem mesmo quando sintam o erro da sua persistência. É realmente triste!

Mas a razão e a verdade não conduzem, a maior parte das vezes a inteligência do homem, é a paixão, e, sobretudo, a paixão azeda: e isto é tão verdadeiro quanto podeis fazer passar sucessivamente de uma opinião a outra, certos homens, tomando-se pelo lado em que o vento os lisonjeia. Também nada há mais móvel que os caracteres obstinados.

Nunca estão mais próximos de uma mudança do que quando protestam apego á sua idéia. Esperai alguns dias, e o novo Proteu, tão inflexível e tão absoluto da véspera, terá variado a sua forma: o essencial é reservar-lhe a satisfação de crer que só ele, e sem alguma influência estranha, operou a metamorfose. Não nos espantemos com estas variações: só a verdade é sólida e estável, e o teimoso não está na verdade, nem tem, tão pouco, a sábia medida dela.

Há naturezas colocadas noutro extremo: são os caracteres fracos, que não têm nenhuma consistência. Semelhantes ás esponjas, tomam sucessivamente todas as cores dos líquidos em que as mergulhais. Lançai a esponja numa substância de um negro carregado e ela tornar-se-á negra, passai-a, em seguida, do vermelho ao branco, e ela executará, uma após as outras, as cores mais opostas.

Eis a imagem do temperamento de certas almas! Por fraqueza, pela impotência de resistir, e, outras vezes, por cálculo, adotarão todas as idéias que vos agradarem, dirão sim e não a propósito da mesma questão, como o vento que ora sopra do norte, ora do sul. Seria curioso seguir essas naturezas nos diferentes salões, em que as cambiantes de idéias mais contrárias dominam como soberanas; seria curioso ouvi-las exclamar aqui: - Eu sou rato, vede os meus pés! E ali: - Eu sou ave, vê de as minhas asas!

Seria ainda curioso ouvi-las na mesma conversação, discreteando pró e concluído contra, segundo tal influência, tal receio, tal reviramento de bordo, ou simplesmente, por fraqueza, esse defeito de formas múltiplas e indefinidas, que faz com que um ser ceda, logo que sente oposição e resistência, e que na fraqueza tem muito de preguiçoso, que acha tudo bem ordenado, com tanto que o deixem dormir.

Entre os caracteres obstinados e as naturezas fracas, marcha a virtude da firmeza, que pertence ás suas idéias, aos seus projetos, ás suas resoluções: - secundum quod oportet. O caráter firme, uma vez que examinou perante Deus; que consultou os que a Providência lhe deu por conselheiros naturais, que tomou todas as precauções que sugere a prudência cristã, o caráter firme, repetimos, vai direto ao seu fim, e nada o detêm, nem os discursos dos homens, nem as injustiças da opinião, nem a voz das paixões. Como o corcel de Job, adora a guerra a exclama: - Vamos! Et dixit, vah!

No entretanto, a firmeza não exclui a destreza, a ductibilidade da alma, e a disposição para admitir novas idéias que aperfeiçoam as primeiras: pois é tal a fraqueza humana, tal a ignorância da nossa natureza, que os melhores espíritos não devem nunca parar e petrificar-se numa idéia, a ponto de não admitirem outros que não conservem, limitem, estudem e modifiquem as que já possuímos.

- A verdadeira firmeza – diz Fenelon – é doce, humilde e tranqüila. Qualquer firmeza austera, altiva e inquieta é indigna de sustentar as obras de Deus.” (Cartas espirituais. CX)

Quando a firmeza tem suas condições, quando é serena, quando se possui na paz e sob o olhar de Deus, nunca ela é extrema, nem impele as coisas e os homens; sabe condescender e apiedar-se; é mola de aço finamente temperado: - tem a consistência e a elasticidade do metal habilmente preparado. É forte, porque se apóia sobre o verdadeiro e o divino; é flexível porque se enche de humildade; inteligente porque desconfia se si própria, e porque volve a decisões que não tivessem sido sabiamente amadurecidas.

Estou a ver que me apresentais uma objeção séria, dizendo-me: Vós não fazeis mais do que recuar a dificuldade. A obstinação é um defeito, que nos prende ás nossos projetos, mais do que é necessário: a fraqueza cede de um modo despropositado. A força, pelo contrário, é uma qualidade que nos prende aos nossos pensamentos e resoluções como é necessário: - secundum quod oportet. Mas onde encontrar a medida que São Tomás chama o necessário?

Confesso, senhoras, que me julgaria felicíssimo se pudesse fazer-vos conhecer um instrumento, com que pudésseis medir tudo, e que vos servisse de indicador para misturardes convenientemente e adesão firme ao verdadeiro, a sábia desconfiança de vós mesmas, e a disposição de vos deterdes, de avançar, de recuar, segundo a oportunidade das circunstâncias e as regras da verdadeira sabedoria.

Existem instrumentos para as misturas perfeitas: tantas colheres de azeite, de vinagre e tantos graeiros de sal. Infelizmente, na ordem moral não os há tão preciosos e tão matemáticos, e esta é a melhor resposta aos espíritos absolutas, que querem, em tudo, uma precisão rigorosa, e decisões, cujos ângulos sejam sempre perfeitamente retos. Ao passo que se avança na vida, tomam-se por suspeitas estas maneiras de conduzir e de talhar as questões.

Todavia indiquemos brevemente as precauções que a prudência sugere.

Antes da adoção de tal ou tal idéia, de terdes seguido este ou aquele partido, refletisteis seriamente? Consultasteis as pessoas nas quais deveis depositar confiança? Não tendes a rijeza que, até na linha do bem, é sempre um defeito? Em vós não degenera a firmeza em uma espécie de fé á vossa infabilidade pessoal, que é nociva ás melhores causas?

Sabeis volver-vos, ouvindo a linguagem na sabedoria e o testemunho das pessoas graves? Outra questão muito essencial: - Sois serenas nas vossas apreciações? Como vos bate o pulso? Não estais agitadas? A agitação nem sempre é, sem dúvida, uma prova de que se esteja em falsidade, mas deve, ao menos, fazer refletir: deve levar-nos a esperar, a dormir uma noite, várias noites sobre um projeto.

Examinai bem, sobretudo, se a vossa pretendida firmeza não vem do amor próprio irritado, da zanga, do azedume, e isto facilmente se conhece, por não sei que tom sacudido, por não sei que movimentos febris, por um humor em ebulição que procura todas as ocasiões de sair com uma lava incandescente.

A força que se bebe na zanga, na irritação, nunca é senão fraqueza” – diz Madame Swetchine.

Não é este o vosso caso? Não sentis em todas as vossas faculdades a dureza do metal, a tenacidade do bronze, que não cede, e que se recusa a todas a elasticidade nos movimentos? Se assim é considerai a vossa firmeza, ao menos de suspeita: “Pois- diz Fenelon – a verdadeira firmeza é doce, humilde, tranqüila. Toda a firmeza austera, altiva, inquieta é indigna de sustentar as obras de Deus... Humilhai-vos diz ainda o grande arcebispomas sem vos amolecerdes.”

Quer isto dizer que depois de tomadas todas estas precauções, não vos enganareis algumas vezes na aplicação? Ah! minhas senhoras, o erro é a sorte da natureza humana, porque só Deus é infalível. Enganar-vos-eis, sem dúvida, ireis, ora para a direita da fraqueza, ora para a esquerda da obstinação: mas, os vossos erros, não serão, pelo menos, perigosos, porque os não sabereis reconhecer.

Deus, que vos ama, dar-vos-á, na ocasião luzes suficientes para que possais descobrir; uma prudente desconfiança de vós próprias tornará fácil a entrada da luz divina, e tereis bastante firmeza para reagirdes no sentido que a graça vos indicar.

Mas se pode haver engano tomando todas estas precauções, que diremos das naturezas obstinadas que só seguem as suas idéias pessoais, que não crêem senão em si próprias, que de tal modo se ligam a um pensamento, sob pretexto de que é verdadeiro, que, a final, acabam por cair em deploráveis exagerações?
Não refletem que, mesmo seguindo uma idéia justa, podem bater no falso porque há no mundo intelectual vários pensamentos que se cruzam, se aperfeiçoam, e porque o exclusivismo é um sistema muito mau, que pode conduzir a abismos, ainda mesmo cavalgando-se um idéia verdadeira.

Que pensar dos espiritosinhos, dos pequenos vasos de tal modo penetrados, embebidos no seu próprio licor, que não crêem possível a existência de um vinho melhor e mais generoso do que o que eles encerram? Também nada os pode entrar, porque estão cheios de si próprios e da fé na sua medida.

Que pensar dos caracteres abruptos, talhados em facetas, que tomam a pertinácia por firmeza, que chamam respeito de si e da sua própria dignidade ás suas ridículas obstinações, e que julgariam desonrar-se, convindo nas suas tolices?

Estas espécies de temperamentos semelham-se, na guia dos negócios, aos cavalos indomáveis que uma vez atrelados a uma viatura, se precipitam com violência, não cedendo ao freio, nem á voz do cocheiro, chegando ao fundo da montanha, depois de terem despedaçado tudo, e talvez comprometido à vida das pessoas que cometeram a imprudência de se confiarem deles.

As naturezas dispostas assim são uma desgraça para as sociedades e para as famílias. Quebram tudo nos negócios e nos homens, e coisas há que, uma vez partidas, nunca mais se concertam. Afastam os espíritos e os corações; e, muitas vezes, o estado de sofrimento que pesa sobre as famílias e as relações sociais, não tem outra causa mais do que esta desinteligência obstinação das naturezas que nunca sabem ceder.

Quanto ao contrário, não seria a vida mais doce, mais cristã, se os caracteres se parecessem com as molas das viaturas bem feitas? Elas são sólidas, suportam os maiores pesos, mas vergam tão docemente que nem se percebem os abalos causados pelos acidentes da estrada, parecendo antes estar num flácido colchão.

É assim que vão os caracteres formados na escola evangélica: são sólidos e resistam a todos os choques; e para melhor resistirem, cedem muitas vezes, e cedem com energia e doçura: - com energia, porque estão á prova dos maus caminhos, e porque mal cedem voltam a tomar o seu lugar; mas tudo isso se opera com tanta doçura e facilidade, que o viajante pode dormir em paz.

Possais vós, senhoras, ser em vossas casas, como estas molas flexíveis e corajosas! Possa a vossa família repousar em vós: marido, filhos e criados!

O vosso papel neste mundo é serem molas dentro de casa; ao menos sede-as sólidas, perfeitamente doces e, sobretudo, sempre oleadas. Deste modo, a criatura caminhará tranqüilamente, com alguns balanços, é certo, porque são inevitáveis neste mundo; mas é neles que se reconhece a perfeição das molas.

No momento do abalo vergareis sem ruído, abaixar-vos-eis sem violência; passada a agitação, retomareis o vosso lugar ordinário. Ainda mesmo que vosso marido tenha o humor difícil, há de acabar por admirar o que nem sempre havia compreendido, e num momento de verdade e de expansão, dirá falando de vós: Que excelente mola tenho em minha casa! Que flexibilidade! Que graciosa elasticidade! E, ao mesmo tempo, que hábil solidez, que me cede resistindo e me resiste vergando! Eu era verdadeiramente desarrazoado queixando-me.

Se, pelo contrário, quereis ser mola inflexível e imóvel, o abalo chegará infalivelmente, o ferro quebrará e a criatura talvez seja partida; e ainda que, coisa difícil, o caso permaneceu secreto, por pouco que transpire, dareis assunto, e talvez divirtais o público á vossa custa.

Susceptibilidade

Antes de terminar este primeiro entretenimento sobre a firmeza, digamos alguma coisa de um defeito, que lhe é completamente oposto, que perturba a vida inteira, e faz da existência uma grande e perpétua maré, e sempre agitada por violentas nortadas: quero falar da susceptibilidade.

É um assunto que nenhum livro tratou ainda talvez, e sobre o qual tenho de deter-me alguns instantes, porque é um defeito ou uma enfermidade, que, faz, muitas vezes, a desgraça da vida e sem outra causa estranha.

Que é, pois, susceptibilidade?

Torna-se difícil definir o silfo ligeiro, calcular a direção dos ventos do mar, os caprichos da imaginação e os sonhos de uma pessoa que tem febre; mas mais difícil ainda definir a susceptibilidade e calcular-lhe as numerosas metamorfoses.

Susceptibilidade vem duma palavra latina que significa facilidade em receber as impressões.

Tendes notado alguns doentes atacados de reumatismo? Pois esses receiam as menores correntes de ar, e, para eles tudo o é; a menor frescura, o menor ruído fere-os e faz-lhes mal. A susceptibilidade é uma espécie de reumatismo na ordem moral: tudo fatiga os doentes desta natureza, tudo os achaca, tudo se transforma numa corrente de ar que lhes produz febre. Se se vai para a direita, magoam-se; se se vai para a esquerda contrariam-se horrivelmente. Os menores atos, as palavras mais inofensivas, tomam para eles proporções espantosas.

Se conversais inocentemente, é contra eles; se guardais silêncio, é porque estais sombrio e triste ao seu lado; se sorris, tendes o ar zombador; se estais grave, é porque não estais bem.

Quando o vosso espírito, ou naturalmente distraído, ou demasiadamente culpado, parece, numa circunstância indiferentíssima ou sem nenhum cálculo, conservar certa reserva silenciosa, o doente achará que o esqueceis completamente, e que pondes de lado os deveres mais sagrados da afeição: debalde permanece no fundo da vossa alma, a mais verdadeira e sincera dedicação de que, mil vezes, lhe tendes dado provas; nada poderá, talvez, curar a sua injusta prevenção esse cérebro fatigado.

Que direi eu? É tão impossível contentar as pessoas assim como saber a direção do vento nos equinócios; é necessário que a melhor vontade do mundo se resigne a sofrer as abordagens do seu humor e do seu descontentamento.

A susceptibilidade indica uma grande fraqueza de espírito e de caráter, ou uma formidável dose de amor próprio e, algumas vezes até, estes dois defeitos reunidos. As almas fortes não são susceptíveis; têm tempero vigoroso, e não se deixam ferir nem atingir pelos mil nadas, pelos mil graus de pó que formam, por assim dizer, o fundo da vida humana.

A alma susceptível é sempre desgraçada, impressionável como a sensitiva, e sempre agitada ao sopro do vento; e apesar de todas as precauções possíveis, a vida é de tal modo feita assim, que, sobre a terra haverá sempre, pelo menos, pequenas correntes de ar na atmosfera das almas, e, muitas vezes, abalos para agitarem esses caracteres vacilantes, que não têm mais consistência do que as folhas da floresta.
Às almas que tão facilmente são afetadas pelas menores coisas, poderia eu dirigir uma frase de São Crisóstomo e dizer-lhes:

Não é a natureza das coisas, é a fraqueza de vossa alma que vos ocasiona tal pesar: - Non rerum natura, sed animi imbecillitas hanc tibi maestitiam affert.” (Epist. Aos Cor.)

Não, não é a natureza das coisas, não foi tal pessoa que vos ocasionou tal pesar, porque nem nisso pensou até; essa idéia é que vos penetrou na cabeça e já não quer sair, e só ela é a causa da vossa desventura. Não, não é á vossa amiga dedicadíssima que é necessário acusar; é a vossa cabeça que zumbe, é a vossa imaginação que tem a faculdade de criar fantasmas.

Creio que tais fantasmas vos rodeiam realmente, mas no nosso cérebro é que está a magnífica oficina da fabricação deles; o cérebro é que carece de cura. E quando mesmo no espaço andassem voando algumas moscas, quem é que presta atenção ás moscas neste mundo? Há quem procure bater-se com os insetos que volteiam em toda a parte?

Haveria muito que fazer, e no fim de contas seria tempo perdido. Um filósofo pagão, deu-nos, sobre este assunto os mais sábios conselhos:

A maneira mais nobre de perdoar – diz Sêneca – é ignorar os males de cada um. A credulidade faz muito mal: muitas vezes nem mesmo se deve escutar; pois em certas coisas, mais vale ser enganado do que estar em desconfiança. É necessário banir da alma qualquer suspeita, qualquer conjectura, como fonte de injustas cóleras. Tal indivíduo saudou-me polidamente; um outro abraçou-me com frieza; este interrompeu-me bruscamente uma frase começada; aquele não me convidou para o seu banquete; o rosto de um último pareceu-me pouco risonho. Nunca os pretextos faltarão ás suspeitas: vejamos, porém, mais simplesmente as coisas e julguemo-las com benevolência.”
 (Da cólera, 1.II, c. 23-24)

Fala-nos o mesmo filósofo dum sibarita do seu tempo que se queixou de ter uma arranhadura, por se haver deitado sobre as folhas de rosas dobradas.

Há nesse mundo um grande número de pessoas ás quais parece que nada falta para a felicidade, e, todavia, a susceptibilidade corta-lha a todos os instantes, e é um obstáculo que se interpõe entre elas e os objetos exteriores. Essas pessoas são um pouco semelhantes ao homem de Sêneca: tudo as fatigaria, e até as folhas de rosa, se nelas se deitassem muitas vezes...

Os melros e as outras avezinhas um pouco selvagens, ainda mesmo que eu avance com as intenções mais pacíficas, e até sem pensar nelas, começavam a piar e a fugir de medo, por entre os ramos das árvores; dir-se-ia, em verdade, que me supõem as intenções mais hostis. Mas a causa do seu receio está unicamente na cabeça delas, e o mais seguro seria calarem-se e permanecerem escondidas sob a folhagem, deixando-me passar. Deste modo, eu, nem sequer suspeitaria ali a sua presença e elas estariam perfeitamente protegidas pelo seu silencioso descanso.

Ora, não está nisso uma pequena imagem dos carateres susceptíveis?

Passeais tranquilamente pelas áleas da vida, quando de súbito, sem saber porque, nem como, esses caracteres começam a soltar altos gritos: - dir-se-ia que era intenção vossa declarar-lhes uma guerra encarniçada, quando, com certeza, nem disso concebieis a menor idéia.

Tal ruído não passa da imaginação delas.

A suceptibilidade, senhoras, pode vir dos nervos, do temperamento, de uma imaginação doentia. Quantas sensitivas neste mundo!

O melhor conselho que lhes posso dar é o de cortarem em duas partes, e, às vezes, em três, as suas impressões, ou então suprimi-las completamente, porque só assim estarão na verdade. Desejar-lhes-ia ainda uma alma amiga e sinceramente dedicada, na qual tivessem confiança e derramassem a enchente das suas águas amargas, mas sob a condição de lhes permitirem uma inteira franqueza, e de lhe conservarem uma submissão infantil.

A susceptiblidade, como a princípio dissemos, também nasce, muitas vezes, do amor próprio, e ainda mesmo  que outras causas existissem, o amor próprio e a vaidade, entram, ordinariamente na mistura, em dose consideráveis.

Há naturezas por tal forma vaidosas, que lhes parece que todo o mundo devia pensar nelas: é um instinto de amor próprio, é uma idéia desgraçada que as persegue por toda a parte: se são esquecidas um instante todas as benquerenças são postas de lado. Mal de vós se sois tão imprudentes que não lhes ofereceis um grão de incenso, e, muitas vezes, um turibulo inteiro! Mal de vós se vos escapa uma palavra de crítica, mesmo muito benigna, ou se, em tal soirée, vos aconteceu, por involuntária distração, não lhes prodigalizardes o ramo de mentiras que se chamam - comprimentos!

Podeis ter a certeza de atrair uma erupção de malquerenças, de azedumes, ou pelo menos de fazerdes concentrar interiormente uma futura explosão de cólera profunda.

A humildade, senhoras, não é somente uma grande virtude, é ainda uma fonte de nom senso, de paz e felicidade.

Como se é feliz quando se é humilde!

Que profunda paz se não goza, quando se pode prescindir das criaturas, das suas enganosas palavras e mentirosos elogios!

Como se é ditoso, quando se sabe, nas ocasiões oportunas, transformar-se num tapete que todo o mundo pode calcar aos pés, sem mesmo o atritar!

A natureza não compreende esta linguagem, e, no entretanto, é a linguagem da fé, da verdadeira razão, e a chave da verdadeira ventura. Quer se queira ou não, é necessário que a gente se resigne a ser, muitas vezes, calcado aos pés neste mundo!

Quer se queira ou não, as línguas, as traições, os negrumes, os maus procedimentos farão de nós um tapete, aonde se poderá caminhar com o prazer de um patinador maligno. Pode-se suportar este papel, sem cólera, sem inquietação séria; é perfeitamente conciliável com a dignidade do cristão e a nobreza da resignação, e há uma verdadeira grandeza no levantar-se, no pôr a mão no rosto, e em dizer como o conhecido imperador: - "Nem mesmo me sinto ferido!"

A indiferença por uma multidão de coisas externas, é o segredo da ciência do cristão, e a causa principal da serenidade da alma do justo.

Uma palavra somente como conselho, e terminarei. Se viveis com caracteres susceptíveis, tendo por eles uma terna caridade, aliada a uma sábia firmeza. Sede cheias de compaixão, mas não receies, algumas vezes, fazer-lhes tocar o dedo os moínhos de vento que se lhes afiguram guerreiros armados contra eles. Quando um cavalo é medroso, leva-se ao próprio lugar do perifo imaginário, e acaba-se por curá-lo mostrando-lhe o ridículo do seu medo chimerico.

Mas como há coisas que se não curam completamente na terra, tende paciência, tolerai: evitai, tanto quanto possível o que pode causar-lhes agitação. Há pessoas, cuja cabeça é doente, e cujo cérebro não é muito forte, e já Santo Agostinho o havia notado desde muito:

"Quanto mais fracos são os espíritos, tanto mais facilmente se ofendem: - Eo magis offenduntur homines, quo infirmioris sunt." (Da doutrina de Cristo, I. II, nº 20.)

A caridade quer que tenhamos piedade destes doentes, e que não os exponhamos abertamente a dificuldades, que, na realidade, apenas são grãos de areia tornando-se, todavia, enormes montanhas á força da imaginação. Não tenho pretensões a que evitaremos todos os atritos, pois isso seria um milagre permanente; peço somente o possível e o razoável.

Devo ainda dizer-vos que se viverdes com tais caracteres, tende sempre por precaução um manto de caoutchuc: pois tereis necessidade dele no momento das primeiras bategas.

Possam, senhoras, estas primeiras noções sobre a força ter-vos esclarecido, e preparado para vós a inteligência desta virtude, que é uma das principais belezas da mulher.

Restam-nos ainda muitas coisas a desenvolver; reservo-as para a nossa próxima reunião, e talvez chegueis a compreender que profunda doutrina e que ensino prático há neste elogio que a Bíblia faz á mulher forte:

"Ela pôs a força como um cinto em volta dos seus rins, e fortaleceu o seu braço:
Accinxit fortitudine lumbos suos, et roboravit brachium suum."

(Conferência retirada do livro: A Mulher forte, Monsenhor Landriot)

PS: Grifos meus.

Trecho da Carta Encíclica DIVINI ILLIUS MAGISTRI, Papa Pio XI

Trecho da Carta Encíclica
DIVINI ILLIUS MAGISTRI
de sua Santidade Papa Pio XI
acerca da educação cristã da juventude.


SUJEITO DA EDUCAÇÃO

c) Educação sexual

Mormente perigoso é portanto aquele naturalismo que, em nossos tempos, invade o campo da educação em matéria delicadíssima como é a honestidade dos costumes. Assaz difuso é o erro dos que, com pretensões perigosas e más palavras, promovem a pretendida educação sexual, julgando erradamente poderem precaver os jovens contra os perigos da sensualidade, com meios puramente naturais, tais como uma temerária iniciação e instrução preventiva, indistintamente para todos, e até publicamente, e pior ainda, expondo-os por algum tempo às ocasiões para os acostumar, como dizem, e quase fortalecer-lhes o espírito contra aqueles perigos.

Estes erram gravemente, não querendo reconhecer a natural fragilidade humana e a lei de que fala o Apóstolo: contrária à lei do espírito, (43) e desprezando até a própria experiência dos factos, da qual consta que, nomeadamente nos jovens, as culpas contra os bons costumes são efeito, não tanto da ignorância intelectual, quanto e principalmente da fraqueza da vontade, exposta às ocasiões e não sustentada pelos meios da Graça.

Se consideradas todas as circunstâncias se torna necessária, em tempo oportuno, alguma instrução individual, acerca deste delicadíssimo assunto, deve, quem recebeu de Deus a missão educadora e a graça própria desse estado, tomar todas as precauções, conhecidíssimas da educação cristã tradicional, e suficientemente descritas pelo já citado Antoniano, quando diz:

« Tal e tão grande é a nossa miséria e a inclinação para o mal, que muitas vezes até as coisas que se dizem para remédio dos pecados são ocasião e incitamento para o mesmo pecado. Por isso importa sumamente que um bom pai quando discorre com o filho em matéria tão lúbrica, esteja bem atento, e não desça a particularidades e aos vários modos pelos quais esta hidra infernal envenena uma tão grande parte do mundo; não seja o caso que, em vez de extinguir este fogo, o sopre ou acenda imprudentemente no coração simples e tenro da criança. Geralmente falando, enquanto perdura a infância, bastará usar daqueles remédios que juntamente com o próprio efeito, inoculam a virtude da castidade e fecham a entrada ao vício » (44).

(43) Rom., VII, 23.
(44) Silvio Antoniano, Dell'educazione cristiana dei figliuoli, lib. II, c. 88.

28 de abril - São Paulo da Cruz

Viva São Paulo da Cruz!



PUREZA ANGÉLICA

Em todo o curso desta vida, temos respirado, como num jardim, o doce perfume desta alma virginal, branca e pura como o lírio. Desde os mais tenros anos, tomara por divisa a sentença POTIUS MORI QUAM FOEDARI, Antes morrer do que pecar.

Conservou a inocência batismal até o último alento de vida. Discorreu de sua juventude, acusava-se de ter sido demasiado vivo, e acrescentava que Deus o preservara dos escolhos em que tantos jovens se perdem.

Quando enfermo em Orbetello, julgando-se sozinho, assim se desabafava com, Nosso Senhor:

Bem sabeis, ó Senhor, que, com o auxílio de vossa graça, o vosso Paulo jamais maculou a alma com falta deliberada”.

Não pensemos que nele a virtude fosse fruto espontâneo de temperamento gélido ou de insensibilidade. Muito ao contrário, possuía rara ternura de coração, natural ardente, imaginação vívida. Alcançara a pureza angelical a preço de lutas e combates cruentos. Sua juventude foi dotada de riquíssimos dons naturais e do atrativo da virtude. Nem por isso foi isenta de perigos. Apesar das mais séries precauções, encontrou rudes assaltos, que quebrantariam virtude menos sólida.

Numa palavra, nele brilhou o lírio da virgindade, porque soube cercá-lo com os espinhos da mortificação, da modéstia, da fuga das ocasiões e da desconfiança das próprias forças. Sua modéstia era realmente angélica. Chegou a dizer certa vez que preferia lhe arrancassem os olhos, antes que fitar o rosto de uma mulher.

Conhecia apenas pela voz uma senhora espanhola de Orbetello, de rara formosura, a quem dirigira por muitos anos. A castidade, qual tímida pomba, vê perigo por toda parte. Em conversa com pessoas de outro sexo, suas palavras respiravam gravidade religiosa e celestial unção. Exigia que a porta do locutório estivesse aberta.

O companheiro recebia ordem de não afastar-se muito. Costumava dizer que o companheiro é como o Anjo da guarda. Não admitia exceção com quem quer que fosse. Estando em conferência espiritual com uma princesa, fecharam por inadvertência a porta do quarto. Bradou Paulo imediatamente:

Abram, abram a porta, pois estarmos de porta fechada é contra as regras de nossa Congregação”.

Disse certa vez: Não confio absolutamente em mim; nesta matéria fui sempre escrupuloso, tornando-me por vezes até descortês”.

Santas DESCORTESIAS, que levam o religioso a cumprir sua primordial obrigação: a observância das Regras! Velava o coração a fim de que se não afeiçoasse às almas por ele guiadas à santidade. NADA DE LATROCÍNIO EM RELAÇÃO A DEUS! essa a sua divisa.

Uma senhora, recomendando-se-lhe às orações, acrescentou com certa afetação:

Lembre-se sempre de mim em suas orações; jamais me esqueça”.
Isto não, replicou o Santo; depois de ter atendido às senhoras que a mim recorrem e de tê- las ajudado o melhor possível, recomendo-as a Nosso Senhor e procuro esquecer-me delas”.

Talvez pareça pouco satisfatória a resposta, mas era a máxima do servo de Deus que a familiaridade com essas pessoas é espinho capaz de ferir o formoso lírio da pureza. Deviam seus filhos ser Anjos em carne humana. Exortava-os calorosamente a imitarem a modéstia do Salvador. Recomendava-lhes não somente a modéstia da vista e o combate à concupiscência, mas também modelassem o seu agir às normas da modéstia, que a tudo empresta medida, compostura, dignidade.

Subira tão alto na região do amor celeste que, embora revestido de carne humana, já o constituira Deus poderoso protetor da castidade. Na missão de Valentano, dissera a uma jovem “Minha filha, Deus me fêz conhecer que sua inocência será submetida a terrível provação. Muito cuidado, minha filha”.

Estimulou-a a confiar em Deus, garantindo-lhe a vitória. Quatro anos decorridos, em quatro ocasiões diversas, sofreu a jovem violentos assaltos. Para repelir o brutal inimigo, invocava o nome do Pe. Paulo e sempre saiu vitoriosa.

Espargia o nosso santo em derredor de si o perfume da pureza. Bastava conversar com ele ou mesmo dele se aproximar, para experimentar os atrativos dessa virtude. Odor caraterístico exalava-se-lhe do corpo, dos objetos de uso e até da cela em que habitava. E esse celestial perfume perdurava por meses e anos.

Por vezes suas carnes virginais como que tomavam as propriedades do corpo glorioso: impassibilidade, claridade, agilidade e sutileza. No êxtase, tornava-se insensível à dor, desprendia de si luz vivíssima, elevava-se aos ares, voava como os Anjos, ausentava-se de casa com portas fechadas, como Jesus no Cenáculo, encontrava-se presente em vários lugares simultaneamente. Freqüentes eram esses prodígios na vida do servo de Deus.

Para retratar com perfeição a Paulo da Cruz, fora mister um raio de luz puríssima, mãos de Anjos, as cores que matizam a celeste Jerusalém.

(Excertos do livro: Caçador de almas, do Pe. Luís Teresa de Jesus Agonizante)

PS: Grifos meus
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