sexta-feira, 30 de novembro de 2012

VII - A morte do justo e a morte do pecador

Nota do blogue: Meu agradecimento dessa transcrição vai para o Alexandria Católica, um grande blogue amigo de apostolado. Deus lhe pague, minha irmã.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

P.S: Especial, em andamento formiguinha, AQUI.

Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917


I. Tu tens de morrer um dia, Minha filha, e do momento da morte depende a ventura ou a infelicidade da tua eternidade. A tua morte será preciosa perante Deus como a dos pecadores? Interroga a tua consciência, ela te responderá. A morte, ó Minha querida filha, é um eco da vida. É, pois em vão que se imagina bem morrer, quando se leva uma vida má. Uma morte santa é uma graça de tal modo precisa que está acima do merecimento de toda a criatura. Pensa, portanto que gênero de morte fulminará aquele que, durante a sua vida, nunca fez outra coisa senão ofender e ultrajar a Deus. Qual não é a loucura daquele que se excita a engolfar-se nos seus vícios com a esperança de que Deus terá dele misericórdia no momento da morte? Como merecem os pecadores essa graça? É ultrajando Deus por contínuos delitos? Figura-se a esses desgraçados que, pelo abuso atual das graças que Deus lhe concede, merecem a maior de todas, — uma morte santa.
Ó presunção culpabilíssima que tem povoado o inferno de almas regeneradas pelo batismo! Esperavam todos esses infelizes que, à hora da morte, Deus os traria com misericórdia; mas indignado enfim pelos excessos dos seus vícios, tem consentido justamente que a sua culpável esperança seja logo mudada em desespero, ou que, perdendo a vida subitamente, sejam de repente precipitados no inferno. Acautela-te bem, Minha filha, de cair nesse laço insidioso que o demônio te arma para te perder e grava bem esta verdade no coração: — Só pode obter a morte dos justos, que é preciosa diante do Senhor, quem passa a vida em obras virtuosas e santas, ou na penitência das culpas passadas.

II. Para te provar esta verdade de uma maneira sensível, vem, ó Minha filha, vem junto do leito de um dos escolhidos do Senhor, e observa como ele morre. É verdade que, se o olhares somente com os olhos do corpo, vê-lo estendido sobre um leito de dores, e parece-te que a sua morte não difere absolutamente nada da dos pecadores. Não te assustes, porque as dores e os desfalecimentos anteriores à morte são comuns a todos — tanto aos pecadores como aos justos. Cessa pois, por um momento, de o olhares com os olhos da carne; penetra com os olhos da fé nesse coração e nessa alma, e verás sem demora quanto diferem o justo que morre na graça de Deus, e o ímpio que morre abandonado por Ele. O Espírito Santo diz do primeiro que o seu socorro o fortifica por inefáveis consolações, entretanto que sofre exteriormente na carne, Ele não se aflige em pensar que tem de abandonar os parentes e os amigos, porque sabe que não os deixa para sempre; nutre no coração a esperança de torná-los a ver no céu: sabe que os deixa nas mãos de Deus que cuidará deles. A própria morte não o amedronta: encara-a animoso diz como Job:— Tenho a certeza de ver o meu Deus com estes olhos, de O amar com este coração e de O servir com estas mãos; o meu corpo ser-me-á restituído cheio de glória no dia da Ressurreição. — Estes pensamentos fortificam-no. Anima-se a sofrer tudo com resignação e valor para se assemelhar a seu Salvador crucificado, que tanto sofreu por ele. Acusa as suas culpas ao ministro do Senhor e com arrependimento. Recebe em Viático o seu Redentor no sacramento eucarístico e com que afetos de amor! Ouve a ordem de sair deste lugar de exílio e, com que paz, com que tranquilidade! Exala finalmente a alma, o rosto sereno unido a seu Deus, que possui nas mãos em crucifixo e no coração em sacramento. Está morto aos olhos do mundo, mas, aos olhos de Deus, vive. É exalando o último suspiro que começa a sua vida gloriosa e imortal. Ó morte ditosa que se faz lembrar, não com lágrimas, mas com alegria e prazer!

III. Vemos ao contrário a morte do pecador. Nada o consola, tudo o assusta, tudo o tortura: o mal que sofre, o mundo que o abandona, a eternidade que se apresenta sob um terrível aspecto. O pensamento de que deve comparecer diante desse Deus a quem tem sempre desprezado, o faz estremecer. Ai! Esses desgraçados, enquanto gozam saúde, veem a vida como numa longa perspectiva que leva muito longe os seus olhares e as suas esperanças. Mas o véu das ilusões cai no leito da morte. A fé recupera os seus direitos e ilumina com uma luz mais viva a inteligência do pecador. Representando-lhes com toda a força as suas verdades imutáveis, obriga-o a crer, mau grado seu, Mas ai! O desgraçado crê então, como creem os demônios, isto é, para ter medo e tremer.
A consciência, que está extinta desde longo tempo, sufocada pelas paixões, desperta-se subitamente. Vê o Deus das vinganças prestes a cortar o fio dos seus dias e a notificá-lo como um mau servidor perante o seu tribunal. Os crimes sem número que tem cometido durante a vida chegam lhe todos juntamente à memória, semelhantes a torrentes impetuosas, para submergi-lo num abismo de angústias. O demônio, insultando-o por seus males, executa tudo quanto pode para lançá-lo no desespero.
Nesta extremidade, os socorros da Igreja chegam a ser inúteis para este infeliz. O sacramento da comunhão, único que pode reabrir-lhe o caminho da salvação, recusa-o, ou antes, como sempre tem feito, recebe-o sacrilegamente. O Viático da vida eterna não lhe serve senão para firmar a sua eterna condenação. Neste momento terrível, ó minha filha, desgraçado daquele que durante a vida não temia Deus. A ordem dada em nome de Deus pelo padre, àquela alma desventurada de sair do corpo que ela tem idolatrado, é uma espada cruel que a separa do mundo para mergulhá-la no oceano de uma eternidade sem fim. Estorcendo-se, lamentando-se, lançando olhares de desespero, o pecador exala o último suspiro e morre. Ó morte triste, ó morte dolorosa, ó morte terrível do pecador!
Qual será a tua, ó Minha filha? A do justo ou a do pecador? Medita, consulta a tua consciência e ela lhe dirá.

Afetos. Estou oprimida de susto, ó Minha Mãe Santíssima, cora o pensamento da morte e do estado a que o meu corpo será reduzido no túmulo pelos vermes e podridão. É verdade que, pensando que a minha alma, separada pela morte deste corpo corruptível, irá unir-se no céu a meu Deus e a Vós, em uma vida incorruptível e imortal, sinto diminuir o terror que naturalmente me inspira o falecimento. Considerando a morte dos justos, inflamo-me de amor e exclamo muitas vezes: Oh! Pudesse eu ter a morte dos santos! Que a minha agonia seja semelhante à deles! Mas pensando na morte triste e afrontosa dos pecadores, refletindo que tenho merecido cem vezes uma morte igual pela vida culpada que tenho levado meu Deus! De que pavor me sinto atacada!
Ó querida Mãe, socorrei-me, rogai por mim afim de que não caia numa desgraça tão medonha. Para merecer esta graça, tomo a resolução, prostrada a Vossos pés, de viver para o futuro como uma donzela verdadeiramente cristã. Reconheço que por mim própria nada posso, nem mereço; mas Vós ó Mãe muito amável, interessai-vos por uma desgraçada que deposita em Vós toda a sua confiança. Alcançai-me da divina clemência o perdão das minhas culpas passadas; consolidai-me para o futuro no bem. Que eu mereça a morte dos justos e possa, à minha última hora, cheia de confiança, exalar a alma em Vossas Mãos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O pecado venial

Nota do blogue: Agradeço muito algumas moças de um grupo do Facebook por me ajudarem com na transcrição desse maravilhoso livro. Meu agradecimento de hoje (novamente) vai especialmente à Débora por essa transcrição. Deus lhe pague, minha irmã.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

P.S: Especial, em andamento formiguinha, AQUI.

Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917


I. Não é suficiente a uma virgem cristã preservar-se somente do pecado mortal, a fim de não merecer o inferno, é preciso ainda que se preserve do pecado venial, se deseja que Deus a ame com aquela ternura de afeto que testemunha as almas que lhe são mais queridas. Ah! Se tu conhecesses o valor do amor divino, não terias desejo mais vivo que merecê-lo em toda a sua plenitude se, contentando-te com não o irritar gravemente, te não preservas das culpas veniais que ofendem a sua bondade, se te não preservas dessas mentiras, dessas palavras picantes que arremessas a tuas companheiras, desobediências, curiosidades perigosas, delírios de impaciência, pensamentos frívolos.
Deus detesta os sonhos ociosos, as longas horas perdidas diante do espelho ou nessas futilidades que preenchem a vida de tantas filhas do século. Não me digas que não podes evitar essas culpas. Reconheço que no estado de corrupção em que estás não pode, sem um favor especial de Deus, preservar-te de todas as culpas veniais que podem fazer-te cometer a falta de coragem, a ignorância e a fragilidade humana; mas essas culpas ofendem tanto a majestade de Deus que conhece bem a tua fraqueza. Se não podes evitá-las todas, podes ao menos e deves aborrecê-las. Porém, não podes dizer que detestas aquelas que cometes voluntariamente, a olhos abertos e mesmo com delírio. Tu bem vês por tais erros que não estimas Deus como Ele merece, e que, se te absténs de O ofender gravemente, é apenas o medo do castigo que te estorva. Não terias vergonha de fazer-Lhe os mais graves ultrajes, se o pudesses ultrajar impunemente. Tal é, pois, ó minha filha, o amor que sentes por Deus? Aquele que O ama com um coração sincero e filial, não indaga com subtileza até onde pode chegar sem O ofender gravemente, mas preserva-se de tudo aquilo que pode causar-Lhe desgosto. São os escravos e os mercenários que obram com semelhante precaução.

II. É a pouca importância que tu ligas às culpas veniais, Minha filha, que te faz cometê-las em tão grande número e com tanta facilidade. São pequenas coisas, dirás tu, bagatelas de que não é preciso fazer grande caso; mas se conhecesses a majestade de Deus, não chamarias pequeno um mal que O ofende. O pecado venial, comparado ao pecado mortal, que tem uma maldade infinita, é pouca coisa sem dúvida, mas relativamente ao Deus que ofende, é um mal tão grande, que todo o outro mal deste mundo em comparação dele, nada é. É um mal tão grande, que não se podia cometer, mesmo para impedir a ruína do mundo inteiro. É um mal tão grande que se todos os santos ainda vivos sobre a terra, todos os que reinam já no céu, e todos os espíritos venturosos do paraíso estivesses a ponto de se perder, e que, cometendo um só pecado venial, uma só mentira se pudesse impedir uma tão grande ruína, não se deveria de modo nenhum cometer, conviria antes deixar morrer tudo. A causa é evidente: é que toda a ofensa cometida para com o Criador, por mais leve que seja, é infinitamente mais grave que o bem de todas as criaturas existentes e possíveis. Compreende daqui, Minha filha, se o pecado venial é um ligeiro mal. Entretanto, tu cometestes tantos cada dia e, o que Me aflige ainda mais, acintemente, animas-te, dizendo: - Deus é bom e perdoar-me-á.
Sem dúvida Ele é bom, e se o não fosse, que desgraça seria a tua! Mas por que Ele é bom, ser-te-á permitido ultrajá-lO sem comedimento, ainda que por culpas leves? Deus é bom, mas é justo também. Ora, em virtude da Sua justiça, como trata as almas que, durante a vida, se tem santificado pela prática das mais sublimes virtudes se, depois da morte, são encontradas cúmplices duma culpa venial? Ainda que as ame ternamente, não deixa de condená-las às chamas do purgatório. Vós não saireis mais daí, lhes diz Ele, enquanto não tiverdes pagado a vossa dívida até ao último óbolo. Convém considerar bem, ó Minha filha, que as culpas veniais dispõem insensivelmente ao pecado mortal, como as doenças dispõem à morte, impedindo-te de te dirigires para Deus com o transporte e o amor que sentem as almas que O amam verdadeiramente.
Não sentes tu tibieza, ó Minha filha, quando tens cometido tantas dessas culpas veniais? Não conheces que não podes nesse caso formar um desejo verdadeiramente cheio de amor por Deus, arremessar-te para o lado do teu verdadeiro bem com fervor, aproximar os lábios daquela fonte de toda a consolação, e tirar dela os socorros que fortificam o espírito? O teu coração acha-se oprimido por um peso que o inclina para as coisas da terra e o faz sentir desgostos e enfado pelas coisas do céu. Em tal caso, ama-se, mas não é Deus; fatiga-se e sofre-se, mas com impaciência, sem pensar em oferecer generosamente a Deus as suas dores; reza-se, mas sem devoção: aproxima-se dos sacramentos, mas sem fervor. Além disso, as culpas veniais impedem que Deus se una a ti com aquela abundância de graças que te derramaria se não encontrasse tais obstáculos.
Se as tuas infidelidades veniais te não tornam em objeto de horror para Deus, fazem pelo menos que Ele te olhe com desprazer e desgosto. Elas têm ainda um outro efeito funesto. Multiplicando-se cada dia, enfraquecem sempre mais as forças da tua alma, abrem às paixões uma via mais larga, excitam mais tumultuosamente os sentidos e os instintos desregrados. Então, a fé enfraquece, a esperança desfalece, a caridade resfria, e faltando cada vez mais os alimentos, termina por morrer. Oh! Desgraçada da alma que chega a uma culpa mortal depois de ter atravessado uma multidão de pecados veniais. A infeliz não conhece o que há de mais horrível no seu estado, não se assusta mais dele. A consciência adormecida por um longo hábito nunca mais reclama com força, não trata de sair desse estado pela penitência; e a alma perde-se facilmente.

Afetos. À luz dessas verdades reconheço, ó Minha Mãe, a cegueira daqueles que não ligam importância nenhuma às culpas veniais e sobretudo reconheço qual tem sido no passado a minha cegueira de ter tido tão pouco cuidado em preservar-me dessas culpas. Olhava o pecado venial como um ligeiro mal, por que não refletia na injustiça que ele faz a Deus e as funestas conseqüências que arrasta consigo. Como se pudesse bastar a alma cristã evitar as culpas graves, cometia as culpas ligeiras sem remorsos.     Agora compreendo todo o mal cometido em qualquer ofensa que seja à majestade infinita de Deus que me criou, me conserva e governa, que me remiu e não cessa um momento de me cumular de favores e graças, apesar da minha indignidade.
Compreendo que a gente se expõe ao perigo de se perder eternamente, não fazendo caso algum das culpas veniais, por causa das funestas conseqüências que as seguem.
Ó meu adorado Jesus, soberanamente amante! Vil criatura que eu sou, não cessarei nunca de Vos ofender? Ah! Eu reconheço qual tem sido a minha vida passada, por Vos ter tão pouco amado e estimado. Eu Vos peço humildemente perdão. Para reparar o mal que tenho cometido e evitá-lo de futuro, prometo-Vos que quero ser de hoje em diante tão atenta a fugir às culpas veniais, como mesmo ao pecado mortal. Serei fiel, Senhor, a promessa que faço. Concedei-me essa graça, pelos merecimentos de Maria, Vossa Mãe Santíssima e minha. E Vós, Virgem puríssima, castíssima e inocentíssima, não cesseis de orar por mim a fim de que possa obtê-la.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

XI- A eternidade

Nota do blogue: Agradeço muito algumas moças de um grupo do Facebook por me ajudarem com na transcrição desse maravilhoso livro. Meu agradecimento de hoje vai especialmente à Débora por essa transcrição. Deus lhe pague, minha irmã.

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula

P.S: Especial, em andamento formiguinha, AQUI.

Maria falando ao coração das donzelas
pelo Abade A. Bayle, 1917

 
I-  São horríveis as penas do inferno, mas bem mais horríveis parecem quando se pensa que são eternas. Contando que o inferno seja horroroso, não seria o foco de todos os males e a privação de todo o bem se restasse a esperança de ver-lhe um dia o fim.
Oh! Se os condenados pudessem somente animar-se com o pensamento que anima neste mundo os mais desgraçados; que as suas dores terminarão um dia, ao menos pela morte, quanto este pensamento mitigaria os seus sofrimentos; mas esta consolação que resta aos mais desesperados, não pode aliviar nem diminuir os seus tormentos. Procuram a morte os desgraçados! Mas a morte foge-lhes e despreza-os.
Aqueles que se resignaram voluntariamente a uma total aniquilação, devem, para ali chegar, passar através de dores cem vezes mais cruéis que o inferno mesmo; mas todos os seus desejos são inúteis. A ofensa feita ao Criador, ó minha filha, tem uma maldade ilimitada, porque ela é feita a um Deus duma majestade infinita; o castigo para ser proporcionado à ofensa deve, portanto ser infinito. Como a criatura não é capaz de sofrer uma pena infinita em intensidade, é necessário que ela seja infinita em duração, isto é que seja eterna. Mesmo nos tribunais deste mundo, observa-se esta proporção, e a ofensa feita a um homem do povo.
Mas que são todos os soberanos diante da majestade infinita de Deus? Nada. Assim, todos os castigos e suplícios sofridos no mundo, não são nada em comparação da ofensa feita a Deus. É preciso portanto que o castigo dela seja eterno. Aquele que recusa durante a vida servir a Deus e chegar a ser, salvando-se, objeto das Suas eternas complacências, tornar-se-á, condenando-se, o objeto do Seu ódio eterno; aquele que não quer nesta vida aproveitar as Suas divinas misericórdias, virá a ser no inferno ludribio das suas eternas vinganças.

II- Pensa, ó minha querida filha, pensa qual seria o teu desespero nos teus tormentos, se tivesses a desgraça, a terrível desgraça de te condenares! Chegada lá baixo aos eternos horrores, o desejo natural de sair de lá, conduziria imediatamente o teu pensamento para o termo dos teus sofrimentos; mas, súbito, lembrar-te-ei que aqueles tormentos são infindos. A imaginação aterrada espavorida, dir-te-ia: Depois de mil anos estas portas se abrirão. - Não, responder-te-ia de momento a consciência e a fé. - E depois de cem milhões de séculos, Deus cessará de estar irritado contra os meus pecados?
- Não, não. Passarão tantos milhões de séculos como de estrelas resplendentes há no firmamento, de gotas de água nas ondas dos mares, rios, lagos e fontes, de folhas sobre as árvores, de vergônteas de ervas verdejantes sobre a face da terra. Depois desta infinita sucessão de séculos, que a imaginação não pode compreender, o teu inferno findará? Será sempre como se estivesse em princípio. Ó minha filha, de que desespero te oprimirá este pensamento! Se para chegares a ser rainha do mundo tolerasses sofrer durante cem mil anos aquelas atrozes chamas, qual não seria a tua loucura? Poderia acalmar os teus remorsos mergulhada nesses fogos? Ah! Dirias tu sempre com desespero, por alguns anos de reinado cem mil de inferno! Entretanto, ao fim de dez anos poderias dizer: - Eis aí dez anos de menos a sofrer, e chegará um dia em que não terei mais que dez anos de suplício, mais que um ano, alguns meses, alguns dias, algumas horas, e acabarão. O seu sofrimento, seria grande, mas não seria o do inferno. Sofrer o inferno é sofrer sempre, saber que se não pode cessar de sofrer e não esperar refrigério algum. Que loucura, ó minha filha, se te expusesses ao perigo de cair numa tão horrível desgraça; não por um reino, mas por uma bagatela, uma vaidade, um adorno, um prazer passageiro, um gozo criminoso, para agradar a uma miserável criatura.

III- Mergulhada nesses tormentos medonhos acusarias Deus de injusto por castigar eternamente as culpas de um instante? Mas reflete agora a tua injustiça, pensa que por um prazer momentâneo, por uma coisa vil, desprezas o teu Deus poderosíssimo que te criou, que te conserva, que te remiu, que te acumulou e acumula ainda de benefícios sem número. Para contentares o demônio, Seu eterno inimigo, recusas-lhe a obediência que Lhe deves, calcas aos pés os Seus santos preceitos, e chamá-lO-ias cruel se Ele te condenasse aos suplícios do inferno! Mas que crueldade não é a tua agora quando crucificas em teu corpo o Deus que Se fez homem em Meu seio, e por teu amor deu Sua vida: quando por teus sacrilégios O entregas no sacramento eucarístico às mãos do demônio que habita em tua alma. Chamá-lO-ias mau por se comprazer com tuas dores e teu desespero! Mas qual não é agora a tua maldade continuando a viver no vício, a escarnecer das suas ameaças, a desprezar os seus avisos, os seus convites ao arrependimento? Não, obra só por Sua justiça, e dá a cada um o castigo ou a recompensa que merece. E Eu também, Minha filha, Eu chegaria a teus olhos cruel, injusta, má; no teu desespero farias também rebentar contra Mim as tuas queixas furiosas vendo-Me aplaudir a justiça divina. Mas a culpa seria tua; é que tu não terias correspondido aos cuidados que tomo por ti; é que desprezando os Meus avisos, terias querido perder-te, mau grado Meu, para seguires as tuas paixões. Não poderias pois esperar de Mim, mais compaixão alguma: chegarias a ser para Mim um objeto de ódio eterno; rir-Me-ia dos teus tormentos; calcarias aos pés a cabeça orgulhosa que não tinha querido curvar-se diante de Deus. Ai! Minha filha, por piedade, por tua alma, não obrigues a tornar-se tua inimiga uma mãe que te ama com o mais terno amor. Reconhece as culpas, agora que ainda é tempo de as reparar e toma prudente resolução de não esperar o momento em que o mal seja sem remédio.

Afetos. Ó Mãe compassiva! A meditação destas verdades eternas que Vós me tendes posto sob os olhos, enchem-me de horror. Ó terrível eternidade! Ó insensato aquele que, por um prazer fugitivo, se expõe ao perigo de cair nesse abismo de males? Ó insensata que eu tenho sido até hoje, ousando ofender meu Deus poderosíssimo e terno, merecendo ser punida por castigos infinitos durante toda a eternidade. Cem vezes os meus pecados me têm feito merecer tão horríveis castigos. Oh! Eu tremo! O sangue gela-se-me nas veias! Já vejo abrir-se o inferno para me engolir! Onde achar um abrigo? Ah! Recorro a Vós, ó Mãe compadecente; lanço-me em Vossos braços, horrorizada, trêmula; olho aquela horrível prisão cheia de desesperados. Não eu não quero ir para o inferno! Não, eu não quero precipitar-me lá baixo para blasfemar contra o meu Deus e contra Vós. Ah! Primeiro quero morrer aqui, a Vossos pés. As minhas culpas, ai de mim! Têm demasiado merecido o inferno, mas castigai-me nesta vida. Puni-me neste mundo como pune uma mãe; por que não quero que me castigueis como uma inimiga.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Abandono

Como, estando morta a si, a vontade vive puramente 
na vontade de Deus
(São Francisco de Sales - Tratado do amor de Deus)


 Com propriedade toda particular falamos da morte dos homens na nossa linguagem francesa; pois chamamo-la trespasse, ou trânsito, e os mortos trespassados; significando que a morte entre os homens é uma mera passagem de uma vida à outra, e que morrer não é outra coisa senão ultrapassar os confins desta vida mortal para ir à imortal. Certamente a nossa vontade nunca pode morrer, como tão pouco o nosso espírito; porém às vezes ela ultrapassa os limites da sua vida ordinária, para viver toda na vontade divina: é quando já não sabe nem quer querer mais nada, porém se abandona totalmente e sem reserva ao beneplácito da divina Providência, misturando-se e embebendo-se de tal forma com esse beneplácito, que já não aparece mais, porém fica toda oculta com Jesus Cristo em Deus, onde vive, não mais ela mesma, porém a vontade de Deus vive nela.
Que é da claridade das estrelas, quando o sol aparece no nosso horizonte? De certo não perece; mas é arrebatada e tragada na soberana luz do sol, com a qual fica felizmente misturada e conjunta. E que é da vontade humana quando está inteiramente abandonada ao beneplácito divino? Não perece totalmente, mas fica tão abismada e misturada na vontade de Deus, que já não aparece, e já não tem nenhum querer separado do de Deus. Imaginai, Teótimo, o glorioso e nunca assaz louvado São Luís, que embarca e se faz de vela para ir além-mar, e vede que a rainha sua cara mulher embarca com sua majestade. Ora, a quem perguntasse a essa brava princesa: Aonde ides, senhora? sem dúvida ela responderia: Vou aonde o rei vai. E a quem de novo perguntasse: Mas sabeis bem, senhora, aonde vai o rei? ela responderia: Ele mo disse em geral, mas todavia eu não tenho nenhuma preocupação de saber aonde ele vai, mas apenas de ir com ele. E se lhe replicassem: Então, senhora, não tendes projeto nessa viagem? Não, diria ela, não tenho outro projeto senão estar com meu caro senhor e marido. Poder-se-lhe-ia então dizer: Mas no entanto ele vai ao Egito para passar à Palestina; pousará em Damieta em Acre e em vários outros lugares; e vós, senhora, não tendes intenção de ali ir também? A isso responderia: Não, deveras, não tenho intenção alguma senão estar junto de meu rei, e os lugares aonde ele vai são-me indiferentes e de nenhuma consideração, a não ser enquanto ele estiver neles; vou sem desejo de ir, pois não desejo nada a não ser a presença do rei. É, pois, o rei quem vai, e quem quer a viagem, e quanto a mim, não vou, sigo; não quero a viagem, mas só a presença do rei, sendo-me inteiramente indiferentes a permanência, a viagem e toda sorte de diversidades.
Certamente, se se pergunta aonde vai a algum servo que está acompanhado seu amo, ele não deve responder que vai a tal ou tal lugar, mas somente que segue seu amo; pois não vai a parte alguma por sua vontade, mas apenas pela vontade de seu amo. Assim, meu Teótimo, uma vontade resignada na de seu Deus não deve ter nenhum querer, mas seguir simplesmente o de Deus. E, assim como aquele que está num navio não se move por seu movimento próprio, mas apenas se deixa mover segundo o movimento do navio em que está, assim também o coração que está embarcado no beneplácito divino não deve ter nenhum outro querer senão o de se deixar levar ao querer de Deus. E então o coração já não diz: Seja feita a vossa vontade, e não a minha, pois não tem mais vontade nenhuma a que renunciar, porém diz estas palavras: Senhor, entrego minha vontade em vossas mãos; como se a sua vontade não estivesse mais à sua disposição, porém à disposição da divina Providência; de sorte que não é propriamente como os servos seguem seus amos: porque, ainda que a viagem se faça pela vontade de seu amo, o seu seguimento todavia se faz pela própria vontade particular deles, embora esta seja uma vontade seguinte e servente, submetida e sujeitada à de seu amo; de tal sorte que, assim como o amo e o servo são dois, assim também a vontade do amo e a do servo são duas. Mas a vontade que morreu a si mesma para viver na vontade de Deus, está sem nenhum querer particular, permanecendo não somente conforme e sujeita, mas totalmente aniquilada em si mesma e convertida na de Deus; como se diria de uma criancinha que ainda não tem uso da vontade para querer nem amar coisa alguma a não ser o seio e o rosto de sua cara mãe; pois essa criança absolutamente não pensa em querer nem amar coisa alguma senão estar nos braços da mãe, com a qual pensa ser uma mesma coisa, e absolutamente não se preocupa com acomodar a sua vontade à de sua mãe, pois não sente a sua, e não cuida tê-la, deixando a sua mãe o cuidado de ir, de fazer e de querer o que achar bom para ela.
De certo, é uma suma perfeição da nossa vontade o estar assim unida à do nosso sumo bem, como foi a do santo que dizia: Ó Senhor, conduzistes-me e levestes-me segundo a vossa vontade; pois, que queria ele dizer senão que absolutamente não empregara a sua vontade para se guiar, havendo-se simplesmente deixado guiar e conduzir pela vontade de seu Deus?

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 27

Fonte: Almas devotas

Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)


DIA 27
Quarto meio: — O ato heróico
Um derradeiro meio que encerra em si todos os outros é o ato heroico, que con­siste em aplicar às almas do Purgatório tudo de que podemos dispor em nossas orações e obras pessoais, e ainda em ceder-lhes a aplicação que nos tocar das orações e obras de outros.
O ato heroico é o mais próprio das al­mas que só se julgam felizes quando, de­pois de haverem dado tudo, dão-se a si mesmas; por isso a instituição desse ato foi bem aceita e ele é praticado com fervor.
Demais, esse ato não empobrece a nin­guém; antes, centuplica o mérito de todas as nossas boas obras. — O mérito de uma obra procede, com efeito, da caridade, e quanto maior caridade houver em uma ação, mais meritória será ela para quem a faz. Ora, haverá na vida cristã ato mais cheio de verdadeira caridade do que aquele, pelo qual, despojando-nos de todo o mé­rito satisfatório de nossas orações e boas obras, nós o oferecemos a Deus para que o aplique, ele mesmo, às almas do Purgatório?
Esse ato heroico centuplica o fruto impetratório de nossas boas obras. Quan­do pedimos a Deus uma graça, não somos sós a pedir; milhares de almas, as almas em beneficio das quais fizemos esse ato, pedem conosco: pedem do Céu, se já o gozam; pedem do Purgatório, se ainda nele estão!
O ato heroico pode ter a seguinte fór­mula:
«Para vossa gloria, ó meu Deus, e para imitar o mais possível o generoso Cora­ção de Jesus, meu Redentor, e também com o fim de mostrar minha dedicação à Santa Virgem, minha Mãe, que é também Mãe das almas do Purgatório, deponho em suas mãos todas as minhas obras sa­tisfatórias, assim como o valor de todas as que houverem de ser feitas em minha intenção depois de minha morte, para que Ela aplique tudo às almas do Purgatório, segundo sua sabedoria e à sua discreção.»
Esse ato dá aos sacerdotes altar privilegiado todos os dias do ano; aos fieis, uma indulgência plenária com que podem livrar uma alma do Purgatório todas as vezes que comungam e todas as segundas-feiras, ouvindo a santa Missa pelos de­funtos, contanto que visitem nesse dia uma igreja, e orem segundo as intenções do Sumo Pontífice; além disso, podem apli­car aos mortos todas as indulgências que, pela letra das concessões, não lhes fossem aplicáveis.
Quem recusará fazer esse ato, ato de ge­nerosidade, por certo, mas também ato que a Igreja remunera com tanta largueza e a que Deus será reconhecido no Céu?
Eu faço-o em toda a sua extensão: digo com alegria essa fórmula que me é indi­cada, e formo a intenção de renová-la, ao menos de coração, em todas as minhas comunhões.
Que não faria eu, meu Deus! que não daria eu com o fim de contribuir para vossa glória e poupar o sofrimento a meus defuntos tão pranteados!


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Trecho extraído do livro - Mês das Almas do Purgatório - Mons José Basílio Pereira - 10a. Edição - 1943 - Editora Mensageiro da Fé Ltda. - Salvador - Bahia.

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 26

Fonte: Almas devotas

Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)


DIA 26
Terceiro meio: — O jejum, as mortificações, a esmola
Os atos de mortificação, em geral, nos fazem mais comedidos, mais piedosos e, consequentemente, mais agradáveis a Deus; as orações que conjuntamente fazemos são acolhidas mais favoravelmente: Deus não repele o coração contrito e humilhado; mas, além do valor que esses atos dão a nossas orações, eles são por si mesmos uma reparação em favor das almas do Purgatório.
Estas almas sofrem porque foram ne­gligentes, sensuais, tíbias, pouco submis­sas… e nós, esforçando-nos por sermos mais ativos nos trabalhos, mais firmes na resistência às tentações, mais mortificados nos sentidos, mais generosos para dar, reparamos o que elas fizeram mal, — su­primos o que omitiram, — compensamos o que fizeram de modo imperfeito, e, assim, pagamos realmente a Deus as dívidas, que contraíram.

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 25

Fonte: Almas devotas

Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)


DIA 25

Segundo meio: — A Santa Missa
É o meio mais eficaz e mais pronto para, aliviar e libertar as almas de nossos mortos.
A cada Missa celebrada com devoção, diz S. Jerônimo, saem muitas almas do Purgatório. — E não sofrem tormento al­gum durante a Missa aplicada por elas, acrescenta o mesmo Doutor.
Na Missa, é o próprio Jesus que se oferece ao Eterno Padre em troca, por assim dizer, da alma de quem se lhe pede o livramento. — Um santo sacerdote, diz o Cura d’Ars, orava por certo amigo que ele sabia estar no Purgatório: veio-lhe a ideia de que não podia fazer nada de me­lhor do que oferecer por sua alma o santo sacrifício da Missa. Chegado o mo­mento da consagração, tomou a hóstia en­tre as mãos e disse: «Pai santo e eterno, façamos uma troca. Vós tendes a alma de meu amigo que está no Purgatório, e eu tenho em minhas mãos o corpo de vosso Filho: pois bem! livrai meu amigo e eu vos ofereço vosso Filho com todos os méritos de sua Paixão e Morte.» No mo­mento da elevação, viu ele a alma do amigo que, toda radiante de glória, subia ao Céu.

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 24

Fonte: Almas devotas

Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)


DIA 24
Primeiro meio: — A Oração
A oração, feita diretamente pelas almas do Purgatório, é a súplica de um filho a Deus para que se mostre bom e miseri­cordioso.
A uma oração feita assim, no fundo da alma, será Deus insensível?
De mais, a oração, quando parte de um coração puro e é feita com instância, tem por si só, diz S. Tiago, uma força imensa. Eleva-se até o coração de Deus, penetra nesse coração, comove-o, e lhe arranca, de alguma sorte, a despeito de sua justiça, o perdão e a misericórdia.
Portanto, eu rogarei muito a Deus por meus mortos, farei a Deus esta violência que lhe é tão grata.
Entre minhas orações, empregarei, de preferência, as que são indulgenciadas: o Terço, a Via Sacra, invocações espe­ciais… etc.
Uma indulgência é a remissão total ou parcial das penas temporais devidas aos pecados já perdoados quanto à ofensa e à pena eterna: essa remissão é outor­gada pela Igreja, que recebeu de seu di­vino Fundador o poder de fazê-lo pela aplicação dos méritos superabundantes do mesmo Jesus Cristo e dos Santos.

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 23

Fonte: Almas devotas
Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)


Meios que nos fornece a Igreja para aliviar as almas do Purgatório
DIA 23
Meios Gerais
Graças, meu Deus, mil graças de terdes em vossa infinita misericórdia permitido a meu coração fazer bem a meus pobres finados e de haverdes multiplicado em redor de mim os meios de fazê-lo.
Esses meios, diz um piedoso autor, são tão numerosos como as pulsações de meu coração, como meus pensamentos, como minhas palavras, meus suspiros, minhas ações, porque não há uma só destas coi­sas que não lhes possa aproveitar.
Um movimento do coração em sua intenção, — um olhar para o Céu em sua lembrança, — um suspiro de piedade por eles, — um pensamento de compaixão so­bre os males que sofrem, — os nomes de Jesus e de Maria pronunciados com devo­ção em seu favor,—a menor obra boa em recordação deles, — diminuem certamente suas penas, contanto que a caridade tenha parte nisso e que esteja em estado de graça aquele que pensa neles e por eles trabalha.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Pensamento da noite de 22/11/2012


"A fé, com efeito, quando se apodera de uma alma, só pode nela imprimir o selo da bondade. Os ensinamentos que oferece, as graças que comunica, os deveres que impõe, tudo converge para tornar a bondade soberana sobre a vida."
(Padre J.Guibert - A bondade, 1907)

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 22

Fonte: Almas devotas

Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)



DIA 22
Quarto motivo: O julgamento que nos espera após a morte
Ouvi estas palavras do Evangelho:
O que fizerdes ao mínimo dos meus, é a mim que o fazeis. — Sereis medidos com a mesma medida de que houverdes usado com outros.
Virá um dia, e talvez esse dia não es­teja longe, em que estareis vós mesmos no lugar da terrível expiação. Conhecereis então, por uma experiência pessoal e dolo­rosa, o que é o Purgatório; e, como as pobres almas que lá sofrem a esta hora, clamareis com um acento aflitivo: — tende piedade de mim, tende piedade!
E, por uma justa permissão divina, estes gritos despedaçadores penetrarão na alma daqueles a quem vos dirigirdes na medi­da em que agora as súplicas das almas calam em vosso coração: esquecestes? Sereis esquecido! Repelistes como importunos seus pedidos de orações? vossas ins­tâncias também serão repelidas; — não quisestes sofrer uma privação para dar uma esmola em favor dos mortos? Não se fará esmola em vosso beneficio. E assim ficareis só, sem amigos, obrigado a per­manecer no fogo purificador até expiardes vós mesmo ainda a mais pequena mancha.
E, mesmo quando, mais caridosos que vós, vossos parentes intercedessem por vosso livramento, Deus, árbitro supremo da aplicação de seus sufrágios, quiçá não vos deixará sentir em toda sua medida os efeitos de uma caridade da qual vos tornastes tão pouco digno.
Oh! Não nos coloquemos em condições de ser assim abandonados!
Mas, se houverdes sido bom, dedicado, generoso com essas pobres almas, é Deus — Ele o disse — é Deus mesmo que vos retribuirá, e no cêntuplo, o que tiverdes feito em seu nome pelos seus, e, até dado que vossos parentes e amigos vos aban­donem, Deus suscitará boas almas que hão de orar e expiar por vós; ou, talvez, por uma abundância de graça toda especial, aumentando aqui mesmo na terra vosso amor por Ele, vos fará expiar em vida todos os vossos pecados.
Deus é muito justo para deixar uma só ação boa sem recompensa, e, recompen­sando como Deus, dá sempre mais do que se lhe deu.
Terminemos com estas palavras de San­to Ambrósio: «Tudo o que damos por ca­ridade às almas do Purgatório converte-se em graças para nós, e, após a morte, en­contramos o seu valor centuplicado.»
O Purgatório é como um banco espiri­tual em que podemos depositar cotidianamente nossas boas obras, por menores que sejam; e aí estão em seguro e se multiplicam; e, quando nos vemos aflitos e inquietos, daí vem, como viria o rendi­mento de um dinheiro depositado, a luz, a força e a prudência que nos são precio­sas em nossas dificuldades.
Sejamos, pois, generosos, muito gene­rosos.


__________
Trecho extraído do livro - Mês das Almas do Purgatório - Mons José Basílio Pereira - 10a. Edição - 1943 - Editora Mensageiro da Fé Ltda. - Salvador - Bahia.

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 21

Fonte: Almas devotas
Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)


DIA 21
Terceiro motivo: — As principais virtudes que assim praticamos
— Socorrendo as almas do Purgatório, praticamos a caridade em toda a sua exten­são. «A devoção às almas do Purgatório, diz S. Francisco de Sales, encerra todas as obras de misericórdia, cuja prática, ele­vada ao sobrenatural pelo espírito de fé, nos há de merecer o Céu.»
Descer ao meio desses fogos devoradores, levar às almas prostradas em seu leito de chamas a esmola de nossas orações, não é, de algum modo, visitar os enfer­mos?
Não é dar de beber aos que têm sede, chover o doce orvalho de graça celeste so­bre as almas que ardem na sede de ver a Deus face a face?
Adiantar para elas o momento em que hão de entrar na posse da bem aventurança, do Céu, de Deus, do qual estão mais famintas do que o mendigo o está do pedaço de pão que lhe estendemos: é, em verdade, alimentar os que nos pedem de comer.
Nós remimos cativos, pagando o resgate das santas almas prisioneiras da justiça divina, despedaçando as cadeias que as retêm longe do Céu, e que cadeias!

Novembro - Mês das Almas do Purgatório - 20

Fonte: Almas devotas
Retirado do livro
Mês das Almas do Purgatório
Mons. José Basílio Pereira
 livro de 1943 
(Transcrito por Carlos A. R. Júnior)


DIA 20
Segundo motivo: O serviço que prestamos a nós mesmos

1º. Adquirimos um protetor certo no Céu. A alma que nossas orações tiverem libertado, contraiu para conosco, só pelo fato de seu resgate, uma estrita obriga­ção de reconhecimento; primeiro, diz o padre Faber, pela glória da qual lhe ante­cipamos a hora; depois, em razão dos horríveis sofrimentos aos quais a arran­camos; assim, é para ela um dever obter-nos incessantes graças e bênçãos. No Céu também se ama e se é reconhecido!
E não é somente essa alma que fica re­conhecida, é seu anjo da guarda também, é a Santíssima Virgem a quem essa alma era consagrada, é o próprio Jesus que a nossas orações deve o glorificá-la mais cedo. — E o anjo da guarda, e Maria e Jesus, também eles nos testemunham sua alegria com benefícios novos.
2º. — Constituímos no Céu um repre­sentante nosso que, em nosso nome, adora, louva e glorifica o Senhor. — Aquele que serve a Deus na terra, nunca está satis­feito; não sabe, não pode amar como de­seja e sente a necessidade de fazê-lo; mas, se libertou uma alma do Purgatório, oh que alegria, que consolação a de poder dizer: Uma alma santa que ama perfeita­mente a Deus, foi amá-lo por mim; e, enquanto eu estou na terra ocupado, nas funções e trabalhos da vida, talvez até esquecendo-me de Deus, lá no Céu ela, talvez muitas, sem interromperem um só momento seu cântico de amor indizível, adoram, glorificam a majestade e a beleza do Altíssimo, e fazem-no em meu nome!

Da virtude mais necessária aos operários


 Padre Júlio Maria, C.SS.R.
As virtudes, 1936.


Nós podemos justa ou injustamente, mas sem malicia, desprezar, num homem, a inteligência, por mais brilhante que seja. Podemos, justa ou injustamente, mas sem culpa grave, desprezar, num homem, as conquistas ou façanhas com que ele tenha feito jus à gratidão de sua pátria ou à admiração da humanidade.
O que, porém, nenhum de nós, sem grande perversidade, pode fazer, é desprezar, em outro homem, o amor que ele nos consagre.
Nenhum de nós o pode porque isso importa, uma exceção monstruosa da nossa natureza que o amor atrai, que o amor fascina, que o amor impele à única reciprocidade digna do amor: amar; não amar a quem nos ama, anomalia é tão repulsiva, violenta e monstruosa, que só o Dante, na Divina Comédia, a pôde definir, dando ao inferno, por origem, o amor desprezado.
Dir-se-ia que, nisto, Deus é igual ao homem, porque o desprezo que o homem não pode sofrer sem a vindita do ódio, Deus não o pode tolerar sem a desafronta das chamas eternas.
E se o amor desprezado é esse amor infinito que, em Jesus Cristo, veio solicitar os homens, mostrando preferências, se as teve, juntamente pelos pequenos, pelos pobres, pelos infelizes; de todo não o podemos compreender, esse desprezo que eu só poderia profligar devidamente se tivesse o cinzel do artista incomparável que gravou no mármore da Divina Comédia a represália do amor desprezado.
Pois bem: esta enormidade nós a vemos hoje; no Brasil, neste traço bem saliente da sua intelectualidade social e dirigente -- o desprezo de Jesus Cristo. E se bem quiserdes verificar desprezo tão monstruoso, contemplai-o neste fenômeno: falsa noção do Cristo.
            Examinai a atualidade brasileira e encontrá-la-eis, a essa falsa noção nas cadeiras do professorado, no Parlamento, nos artigos dos jornais, na ópera, na comédia, no romance, no livro de versos, tanto como no ensino dos colégios e academias. Por toda parte vereis um Cristo falso e imaginário, substituindo ao Cristo verdadeiro, isto é, ao Cristo da História, do Evangelho e da Igreja.
O Cristo da História, vós o sabeis, enche toda a História que, sem Ele, é incompreensível. Não obstante, substitui-se a Sua biografia histórica por uma falsa biografia, negando-se facilmente ao primeiro os personagens da História, isto é, a Jesus Cristo, o que não se nega a César, Pompeu ou Napoleão, isto é, aos personagens secundários da mesma História.
O Cristo do Evangelho, também vós sabeis, não pode ser esse que o pedantismo literário descreve, com pieguices de estilo, indignas do Mestre incomparável que evangelizou a verdade, elegeu os apóstolos e promulgou a lei moral.
Não, não pode ser esse, porque esse é um Cristo fútil, ridículo, um moço e louro nazareno, produto da imbecilidade literária,
Também o Cristo da Igreja não pode ser esse que, no Brasil, imaginam os intelectuais sem fé e que querem uma religião sem Cristianismo, um Cristianismo sem Igreja.
O Cristo da Igreja não pode ser o dispensador de preceitos e ensino de que Ele próprio encarregou a Igreja, por Ele constituída órgão e interprete da verdade...
Sim, se o Cristo que prepondera no espírito das classes encarregadas de darem ao povo o modelo das crenças e a regra dos costumes, é um Cristo falsificado, mister é mostrar aos pequenos, aos pobres, aos operários, às vitimas de tal falsificação, de onde esta procede.
Ela procede da mais lamentável ignorância da parte dos incrédulos, os quais não têm, da divindade do Cristo, a idéia que a própria razão, independente da fé, pode ter.
Passarei a demonstrar esta afirmativa de que a divindade de Jesus Cristo é uma verdade que pode ser afirmada, não só pela fé, como também pela razão.  
Para isso, servir-me-ei de três argumentos que exporei e desenvolverei com longas e variadas considerações: o argumento histórico, o argumento experimental e o argumento psicológico.
Quanto ao argumento histórico - Jesus Cristo preexistiu na História como Deus; existiu na História como Deus; sobrevive na História como Deus.
Preexistiu como Deus, porque, ou havemos de recusar 40 séculos da História, ou havemos de afirmar que esses 40 séculos não fizeram senão desejar e esperar o Messias, e o Messias, tal como o descreviam a salmodia de David, os discursos dos Profetas e os próprios livros dos filósofos pagãos.
O messianismo, isto é, a expectativa de um libertador divino que viesse resgatar a Humanidade, é um fato histórico, afirmado por todos os historiadores, inclusive Volnei e Voltaire.
Jesus Cristo existiu como Deus, porque, sirvo-me agora de uma bela síntese de Frepel - nasceu; como Deus, viveu como Deus, falou como Deus, operou como Deus, na ordem física pelo milagre, na ordem intelectual pela visão dos tempos, na ordem moral pela santidade absoluta. Ainda mais: Ele exigiu como Deus, ameaçou como Deus, prometeu como Deus, perdoou como Deus, exaltou soberanamente todos os direitos de Deus e, se é certo sofreu e morreu, ninguém pode negar que a Sua paixão e a Sua morte foram a paixão e a morte de um Deus! como de Deus foi a Sua ressurreição.
Jesus Cristo sobrevive como Deus, porque, há vinte séculos já, é crido como Deus, é obedecido como Deus, é adorado como Deus. Preexistir como Deus, na História, ter existido como Deus na História sobreviver como Deus na História, é ser Deus; porque, ou não há conexação na História; ou a divindade de Jesus Cristo é uma certeza histórica.
Quanto ao argumento experimental, ele é mais convincente ainda. Jesus Cristo tem uma doutrina cujos efeitos são atestados pela História. Esta doutrina foi um reviramento completo de todas as idéias e sentimentos do universo. Foi uma contradição absoluta aos instintos de todos os povos; foi uma transformação completa, radical, absoluta, do direito, da legislação, da política, da ciência, que governam o mundo. Para que Sua doutrina vencesse, foi-Lhe mister vencer todas as forças do mundo, isto é, o paganismo, a política romana, a filosofia da Grécia e o judaísmo.
Como e com que armas a doutrina venceu estas forças? Venceu-as sem meios nem recursos humanos, opondo a todas as potências do mundo doze homens inermes e que proclamavam ao mundo a maior e mais estupenda de todas as notícias que o mundo já tinha ouvido, isto é: que Deus se tinha feito homem, e que este homem nascera de uma virgem, depois de ensinar a verdade que tinha morrido crucificado, mas, conforme o que Ele mesmo havia anunciado, resuscitado três dias depois de Sua morte. Pois bem; não obstante tão grande escândalo para o mundo, o mundo foi vencido e reformado radicalmente pela doutrina. Ora, a ciência experimental afirma que todo efeito é proporcional a uma causa. O Cristianismo é evidentemente um fenômeno divino que exige uma causa divina para ser explicado, sob pena de ficar sendo o maior e o mais monstruoso dos absurdos da História.
O argumento experimental, portanto afirma a divindade de Jesus Cristo.  
Não o afirma menos o argumento psicológico. Jesus Cristo, perante Seus juízes, perante a multidão, Se afirmou como Deus; portanto, Jesus Cristo é Deus. Por que Se afirmou? Sim, por que Se afirmou: que homem é esse que Se afirmou como Deus? É o mesmo homem que preexistiu na História como Deus, existiu na História como Deus, e sobrevive, na História como Deus, que homem é esse - que Se afirmou como Deus? E o mesmo homem que Seus próprios adversários, como Renau, Strauss e tantos outros, descrevem como um homem perfeito, perfeito na inteligência, perfeito no coração, perfeito no caráter. É o mesmo homem de quem Renan diz que, quaisquer que sejam os fenômenos inesperados do futuro, por nenhum outro será igualado; e de cuja religião diz textualmente: "Jesus promulgou a religião pura, última, definitiva. E se outros planetas têm habitantes, dotados de razão e liberdade, a religião destes não pode ser diferente".
Se não é verdadeiro o testemunho de Jesus Cristo, deixa Ele de ser o homem perfeito e passa a ser um impostor ou um alucinado. Se Ele é um impostor, como pode a Sua importância resistir vinte séculos? Se Ele é um alucinado, alucinada é a humanidade cristã inteira, que há vinte séculos O adora como Deus. Eu avanço mais - que, se Jesus Cristo mentiu e não é Deus, o maior mentiroso é o próprio Deus, que há vinte séculos deixa a humanidade acreditar que a mentira é a verdade; que há séculos deixa um alucinado exercitar todos os direitos de Deus.       
O verdadeiro Cristo, o Cristo que deveis seguir é o que vos mostra a Igreja. Esse é o Cristo verdadeiro, que se destaca na História, que refulge na ciência e que Se afirma na palavra divina que Ele próprio fez ouvir ao mundo. Vos principalmente, operários, não deveis esquecer a dignidade, a nobreza e suprema distinção que Ele vos concedeu. Parece que Deus, fazendo-Se homem, e para salvar o homem vindo a este mundo, devera sentar-Se num trono ou assumir a autoridade de um estadista, ou empunhar a espada de um general. Ele, porém, desconcertou todos os juízos humanos, preferindo a todas as grandezas do mundo, fazer, como se fez, operário; manejar, como manejou, durante dezoito anos, na oficina de José, os utensílios de um carpinteiro.
Este é um grande episódio um fato singular, um exemplo magnífico, uma lição sublime, nunca bastantemente meditada no plano divino da nossa redenção.
Jesus, na oficina, é a dignificação do operário e a divinização do trabalho. A dignificação do operário porque antes de Jesus Cristo, o operário era desprezado e o trabalho manual era considerado, em Roma e na Grécia, como uma coisa ignóbil. Jesus Cristo, porém, fazendo-Se operário, deu ao trabalhador títulos de nobreza, cobiçados depois d’Ele, pelas pessoas mais ilustres e nobres, por associações e institutos religiosos. Jesus, na oficina, é também a divinização do trabalho, porque é o trabalho como quer a Providência, na ordem e com os desígnios que ela lhe dá; é o trabalho, não como um meio de, enriquecer e gozar, mas como fadiga salutar e expiatória imposta ao homem.
Compreendem agora os operários a necessidade que eles têm da verdadeira noção de Cristo, que é outra e bem diferente da noção que lhes dão, na sociedade brasileira, com grande e descomunal ignorância, os intelectuais sem fé.
Fé - eis a virtude que eu aconselho hoje, aos operários e sem a qual eles não poderão ter, no Cristo, a devida confiança.
Devo observar - que, aconselhando uma virtude a cada uma das classes sociais a que me dirijo, faço-o, apenas, sob o ponto de vista restrito e especial a conferência. Da mesma sorte que o homem de ciência, o homem de letras, o homem de Estado e o sectário, a cada um dos quais foi dado uma virtude cardeal, se não podem julgar, porém, dispensados das outras virtudes; também o operário, o industrial e o capitalista, a cada um dos quais vou aconselhar uma virtude teologal, não podem julgar-se dispensados das outras virtudes.
Afirmo que ao operário, como operário, a virtude de que mais necessita presentemente é a fé.
Da Fé, definindo-a com o apóstolo S. Pedro, que ela é a substância das coisas que devemos crer e a expectativa das coisas que devemos esperar.
A teoria da Fé é análoga à teoria da ciência. O objeto desta é, ao mesmo tempo visível e invisível nos seus fenômenos. Os mistérios da religião não são menos compreensíveis do que os mistérios da ciência. Se esta tem verdades claras, também a Fé as possui.
A Fé tem princípios, objeto, motivo, garantia; mas tem também condições de credibilidade. O principio é a graça, dom gratuito de Deus. Objeto é a verdade revelada por Deus, a qual, às vezes, se compreende, às vezes não. O motivo é a autoridade de Deus. A garantia é a Igreja. Em todas essas coisas a razão do homem não é livre, certamente. Quanto, porém, aos motivos de credibilidade, a razão do homem opera livremente, porque pode, quando lhe apraz analisar e verificar os fatos comprobatórios de que a verdade foi revelada.
A Fé não é, pois, como muitos supõem, uma adesão inconsciente; é um ato voluntário e mais belo que o homem possa praticar, porque é, ao mesmo tempo, um holocausto do homem, glória de Deus e uma reparação do pecado.
Não se compreende que a tantos repugna a fé religiosa, quando é certo que o homem em qualquer das relações de sua vida, não vive senão de fé; quando é certo que a necessidade da Fé é absoluta.
A Apologética o demonstra com muitos e variados argumentos: mas eu quero neste momento utilizar-me só mente das analogias de Bougaud.
A criação se compõe de três reinos superpostos: o mundo da natureza, o mundo das leis da natureza no mundo sobrenatural. Para, no primeiro, o homem contemplar as belezas da criação, que tanto fazem o encanto do poeta e do artista, Deus deu-lhe os olhos. Para, no segundo, apreender as leis da natureza, que tanto fazem o encanto do geômetra, do físico, do sábio, Deus deu-lhe a razão. Para, no terceiro, elevar-se até à contemplação das maravilhas sobrenaturais, Deus deu-lhe a Fé. Os olhos, a razão a fé -eis os três órgãos que se devem harmonizar no homem que deseje verdadeiramente glorificar a Deus.
Por que acreditar que a contemplação dos olhos é bela, que é bela a contemplação da razão, e não acreditar o mesmo das contemplações da Fé?
É á Fé, entretanto, que S. Paulo entoa um hino triunfal... Em Abel, em Hennoch, em Abrahão, em Sara, em Jacob, em José, em Moisés, em Gedeão, em Sansão, em David, em Samuel e nos Profetas. Hino triunfal, cujas estrofes são reinos vencidos, feras subjugadas, batalhas ganhas, doenças e torturas, cadeias e calabouços, a fome, a angústia, a dor e a morte - tudo isto impotente para arrancá-la de um coração onde, como diamante divino, ela está engastada.
Guardem todos os operários a Fé - este é o conselho que lhes dou, não podendo, porém, concluir sem me lembrar de que hoje é o dia da Ressurreição.
Por mais que, neste momento, eu o tente, não posso reprimir a minha imaginação. Ao lado do sepulcro de onde Jesus Cristo saiu glorioso, e que a Igreja nos apresenta na festividade de hoje, como que eu vejo um outro sepulcro. Sim, eu vejo uma cova... uma cova que mais e mais se alarga e que se o coveiro não for detido, de tão grande se tornará capaz de absorver um povo inteiro. Eu vejo a cova onde se lançam continuamente crenças e tradições religiosas... Eu vejo o coveiro, um vulto sinistro, como que fascinado, contempla-la, parecendo que o seu maior desejo é que a cova absorva os símbolos que restam ainda de uma grande fé nacional.
Mas que cova é essa? Que coveiro é esse?
É a cova que desejam à pátria os inimigos de Jesus Cristo e o coveiro a incredulidade, que, para consumar a sua obra, já tenta aliciar os operários.
Não, operários! Não coopereis com eles, os incrédulos! Cooperai, antes, com os que trabalham pela salvação da pátria, que devemos todos desejar esperar.
Por que não esperá-la? 
Vendo o Cristo ressuscitar, por que não esperar que ressuscitem ainda o sentimento, o entusiasmo religioso, a piedade católica dos nossos antepassados?
A cova está aberta e nela já estão apodrecendo crenças e tradições. Mas que importa? Na natureza a semente primeiro apodrece para depois se transformar no arbusto. Também as crenças que já apodrecem se transformarão, talvez, em germens benéficos de onde brotará uma nova e bela árvore: o Brasil regenerado, forte, cristão. 
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