sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

II- OS CONHECIMENTOS DE MARIA

A BELEZA DE MARIA
III PARTE


II- OS CONHECIMENTOS DE MARIA

Bem se pode compreender que um espírito lúcido e elevado como o de Maria deve ter sido dotado dos mais variados e mais extensos conhecimentos.

Entretanto, penetremos melhor neste assunto e vejamos quais eram exatamente esses conhecimentos.

Distingue-se o conhecimento natural adquirido pelas luzes da razão, e conhecimento sobrenatural que nos dão luzes da revelação e da fé.

Os conhecimentos naturais são: os infusos por si mesmos, quando é impossível ao homem adquiri-los, embora não ultrapassem a ordem da natureza; ou então, são infusos por acidente, quando Deus os dá, embora possamos também adquirí-los; ou ainda conhecimentos experimentais, para os quais é necessária a experiência.

Estas três espécies de ciências naturais se acham reunidas na humanidade do Salvador. Mas encontrar-se-iam elas também reunidas em Maria?... E em que grau?...

Não podemos decidir a controvérsia levantada sobre esta dupla questão, mas podemos, ao mesmo, expor as duas asserções seguintes, admitidas por Suarez e pelos teólogos de sua escola.

1. Esta fora de dúvida que a Mãe de Deus devia receber, por infusão divina, o pleno conhecimento das ciências naturais, para possuir sempre um proceder prudente, e ter uma inteligência perfeita a respeito das Escrituras e dos mistérios da fé.

2. Maria possui conhecimentos, até naturais, mais profundos e variados do que qualquer outra criatura humana, porque tinha funções mais nobres e em que eram úteis estas luzes.

Mas nem o Seu cargo, nem a Sua dignidade, nem a Sua glória parecem ter exigido um conhecimento universal de todas as artes mecânicas, de todas as ciências práticas ou especulativas.

De fato, várias dentre estas ciências não Lhe teriam sido de nenhuma utilidade, e, por conseguinte, poderiam ter-Lhe faltado.

Eis a opinião geralmente seguida. Abalizados autores, apoiando-se sobre o fato de não se poder negar a Maria nenhuma qualidade da natureza ou da graça, conveniente à maternidade divina, dizem que Ela foi dotada de todas as ciências conhecidas pelos anjos e homens, de todas as luzes proporcionadas a Jesus Cristo como homem e, por conseguinte, que Ela recebeu uma ciência infusa universal, a ponto de conhecer tudo o que diz respeito aos espíritos e aos corpos, e de possuir todas as luzes matemáticas, físicas e até mecânicas.

Entretanto, pode-se perguntar, com razão, se esta vasta enciclopédia de todas as ciências e de todas as artes tinha alguma utilidade para Maria, se convinha às Suas funções, se era um elemento de santidade ou era de utilidade para o Seu sublime ofício.

Poderia uma ciência universal da criação servir para realçar o Seu mérito e Sua glória durante a Sua vida mortal?...

É o que não se vê claramente.

A sabedoria de Maria Santíssima era tão perfeita, o Seu juízo tão são, Sua razão tão reta, que nunca em Sua inteligência se insinuou um só erro, que se pudesse chamar defeito; nunca um juízo mal fundado, e, sobretudo, nunca um desejo desregrado.

Ela não sabia tudo, mas sabia sempre o que Lhe convinha saber; ela podia aprender, sem ter sido ignorante.

"A lua, diz São Bernardo, é o emblema de uma razão inconstante e de um juízo mutável e confuso. Colocamo-la sob os pés desta prudentíssima Virgem, cuja vista sempre clara e límpida nunca foi obscurecida pelas nuvens do erro".

Esta luz racional, isentada de qualquer imperfeição, foi-Lhe dada por Deus, para auxiliar as operações de Sua inteligência na ordem sobrenatural. Quanto às luzes sobrenaturais de Maria, compreende-se que elas ultrapassam a tudo que foi ortogado às demais criaturas.

Desde Sua concepção imaculada, Ela recebeu, pela fé, como os anjos e Adão, conhecimento explícito do mistério da Santíssima Trindade. Ela conheceu também, como eles e melhor até do que eles, o mistério da Encarnação quanto à sua substância.

O ensino de diversos doutores vem cada vez mais realçar este conhecimento já tão sublime.

O Espírito Santo foi o Seu mestre e Lhe comunicou o primeiro conhecimento dos mistérios e dos dons que devia conferir às almas. Que, pois, não deve ter aprendido a Virgem na escola de um tal preceptor?... Quantas luzes não deve ter feito resplandecer o coração e o espírito de Sua Bem-Amada!...

Maria Santíssima foi instruída também pelos anjos, sobretudo pelo arcanjo Gabriel, antes da concepção de Seu Filho.

Segundo o parecer de São Bernardo, Maria Santíssima tivera colóquios com os anjos no templo. E, com mais razão ainda, com que complacência não se entretiveram com Ela os anjos, quando Se tornou Mãe de Deus feito homem?

Mas o grande meio de que Deus Se serviu para cumular das mais vivas luzes a alma de Sua Mãe, foram as revelações especiais que Lhe fez, fora a visão clara com que Deus A favoreceu.

Sem dúvida, Maria não foi favorecida da visão clara e intuitiva da divindade de um modo permanente; pode-se, porém, supor que Maria a gozasse de tempos em tempos. Ao menos, está é a opinião de Santo Antonino, Santo Alberto Magno, São Bernardino de Sena, Gerson, Salazar, São Pedro Canísio, Vega, Suarez, de Rhodes, Santa Brígida, Maria d'Agreda, etc.

Compreende-se que estas autoridades estão longe de serem desprezíveis; citemos simplesmente o raciocínio de Suárez.

Segundo um provável sentimento, diz ele, São Paulo e Moisés, revestidos de seus corpos mortais, teriam gozado da visão beatífica. Ora, o que é provável, tratando-se destes ilustres amigos de Deus, não seria mais provável e admissível ao se tratar de Maria, Mãe de Deus, à qual é impossível recusar um privilégio de graça, concedido a uma outra criatura?...

Confesso, diz ainda o mesmo teólogo, que me parece mais provável que nem São Paulo nem Moisés viram intuitivamente na terra a divina essência.

Sem negar-lhes, porém, este favor, sou levado a crer que ele foi concedido mais de uma vez à bem-aventurada Virgem, por exemplo, no dia da Encarnação e do nascimento do Cristo, em razão da dignidade incomparável da maternidade divina, à qual Ela havia sido elevada, ou ainda no dia da Ressurreição, em recompensa da excessiva dor que Lhe dilacerou a alma, durante a Paixão segundo a disposição da divina sabedoria.

A esta visão beatífica juntavam-se ainda as revelações propriamente ditas, e, além disso, colóquios com o Verbo encarnado.

A visão beatífica é também uma revelação feita no Verbo, e não é outra coisa do que a visão intuitiva dos bem-aventurados no céu.

Acabamos de dizer o que os santos pensam a respeito destes dom de Deus em Maria. Quanto às revelações, por conhecimento abstrativo, Maria foi delas dotada em um grau único.

Disto não se pode duvidar.

Este benefício das revelações, indício do amor divino, penhor precioso de familiaridade com Deus, foi, desde todos os tempos, a partilha das almas eminentemente santas, sobretudo das virgens e das contemplativas.

Quem ousaria crer que a Virgem Maria tenha sido menos favorecida?

Temos já indicado, segundo os santos padres, os seus misteriosos colóquios com os anjos, no templo de Jerusalém.

Por ocasião da concepção do Verbo encarnado, Ela recebeu dos lábios do arcanjo São Gabriel esta magnifica revelação, transmitida por São Lucas, e neste momento, diz Santo Anselmo, Ela conheceu, por uma revelação certa, que era predestinada ao céu, e que o Seu trono estaria acima de todos os coros de anjos.

Depois da Encarnação, entre outras revelações, que nos são desconhecidas, pode-se imaginar que o sentir geral dos autores é que Maria recebeu a primeira aparição de Jesus Ressuscitado, que Ela O viu várias vezes em Sua glória e que, mesmo depois da Ascenção, Ele não deixaria de visitá-lA muitas vezes, e de instruí-lA acerca dos mais profundos mistérios.

Eis alguns dos principais conhecimentos que ornaram esta inteligência sem par na terra.

Quando entre os homens aparece um homem, cuja fronte se cinge a auréola do gênio, e cujos atos denotam uma inteligência perspicaz e superior, os homens de valor a ele se dirigem, e então constitui uma escola, e torna-se um guia nas sendas árduas do dever e não se saciam de ouvir esta voz, cujos acentos parecem ser o eco de um mundo maior e mais elevado.

E Maria, a incomparável, a inefável Maria, com a Sua inteligência tão sublime e - perdoem-me a expressão- com o gênio tão luminoso quanto era santa a Sua alma e amante o Seu coração, Maria, cuja fronte é cingida de todos os conhecimentos e de todas as glórias, não seria também um cetro de atração, um guia, uma luz, enfim?...

Ó Maria, ante tanta beleza, diante de faculdades tão divinamente iluminadas, eu me prostro, admiro, sinto o meu coração abrasar-me e amar-Vos como o único objeto, depois de Jesus, que possa fixar as minhas afeições e possuir o meu coração!

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O MISTÉRIO DA CRUZ

O MISTÉRIO DA CRUZ


Redenção, palavra forte, cujo sentido muitos ignoram!

Há vinte séculos é tão difícil medir-lhe a extensão, quanto sondar-lhe a profundidade. Há um mistério de luz, nas trevas do Calvário. Há um resgate de vida, por trinta moedas de Sangue...

Condenamos a traição de Judas, mas, traímos a vocação cristã.

Maldizemos a fraqueza de Pilatos, mas, fugimos aos compromissos do Batismo.

Quantas vezes, na vida diária, a descrença macula as intenções e o desespero arruína a esperança. Somos filhos de Deus pela Graça, mas, seguimos a carne pelo sangue.

Ouvimos o apelo dos Céus, mas, voltamos os olhos para a terra.

No entanto, Senhor, a Mensagem é a mesma: "Se alguém quiser Me seguir, tome a sua cruz e Me acompanhe"!

Meu Deus, uns conhecem a cruz e rejeitam o seu peso, outros suportam o peso, mas, não querem carregar a cruz. Uns arrastam a cruz porque não podem fugir do Calvário; outros chegam ao Calvário, mas, se negam a morrer na cruz.

A cruz para ser árvore de vida há de ser plantada na morte. A seiva que lhe esgarça os ramos, só dá frutos quando nela morremos.

A cruz é qual sementinha do campo, que morre na terra para rebentar com vida. Senhor, pela redenção, nos legaste a Vossa Cruz! Os lábios que pregam essa "loucura", exprimirão o que a Fé nos ensina. A alma que sente esta Verdade, deve saber por que o mundo sofre.

Senhor, não é doce o tufão, quando varre as areias do deserto.

Não é doce o calor, quando mata a virulência dos gérmens.
Não é doce o bisturi, quando rasga a podridão da matéria.
Não é doce uma cruz, quando estamos pregados nela.

A cruz só é leve na vida, quando aceitamos o seu peso de morte.

Daí, a renúncia que se faz entrega e o amor que gera o sacrifício.
Daí, o heroísmo que sagra os fortes e a vitória que consagra os Santos.

Somos, por natureza, esquivos ao sofrimento.
Tudo o que nos rouba a fonte do prazer é espinho dorido macerando a nossa carne.

Há, na cruz, um plano da Providência que jamais se esgota.

A cruz não se pesa pela soma de sofrimentos, mas, pela unção paciente das dores. Uma cruz pequenina pode ser mais custosa que um madeiro imenso. Uma cruz gigantesca pode ser mais leve que um bloco de granito.

Aceitar, com paciência, a cruz, é diminuir-lhe o peso. Fugir ao seu domínio, é ser esmagado por ela. Na ordem do Cristianismo, em matéria de cruz, tudo depende dos ombros que se curvam e dos braços que a carregam.

Senhor, quem decifrará o mistério da dor?

As almas feridas são extremamente sensíveis; buscam o alívio das dores e escondem a cicatriz das chagas; suplicam a doçura do bálsamo e se esquecem do amor de gratidão.

O mundo sofre porque não sabe viver.
O mundo morre porque não sabe sofrer.

Senhor, dá-nos a conhecer o valor do sofrimento para aproveitarmos dos méritos de Vossa Paixão.

(Vozes do silêncio, meditações eucarísticas, pelo Pe. Isnard da Gama, gráfica Nibo LTDA, 1956, com imprimatur)

Fotos de Santa Bernadette

SANTA BERNADETTE 

(Textos retirados do livro: A humilde Santa Bernadette, Colette Yver,
Edições Paulinas, 1956)

Quando se deu a notícia de que já não tinha mãe, a dor execeu a sua resistência física, e desmaiou.
A volta aos sentidos continuou no pranto. Todavia a dor tomou imediatamente a forma suave e resignada de sua própria alma, pois as primeiras palavras ao recobrar a consciência foram:
"Meu Deus, Vós o quisestes. Eu aceito o cálice que me apresentais.
Bendito seja o Vosso nome!"
(Anúncio do falecimento de sua mãe)

"Como a terra se assemelha ao ceú"!
apreciava tristemente Bernadette,
quando lhe perguntavam se a imagem se parecia com Maria.

- Por que beijáveis a terra sem cessar?
É muito esquisito que a SSma. Virgem vos tenha pedido essas coisas sem alguma razão...
- Oh! senhor Padre! e a conversão dos pecadores!


"Sua fisionomia sobrenatural, seu olhar celeste deixaram em meu coração uma impressão profunda"
"Jamais me aproximei dela sem me sentir mais perto de Nosso Senhor"
(Noviças do convento)

"Tenho mais pressa do que nunca de deixar o mundo.
Agora estou completamente decidida,
pretendo partir dentro em pouco"

"Bernadette se nos apresentou com grande modéstia,
e entretanto com segurança notável. Mostrou-se serena, sem acanhamento no meio daquela numerosa assembléia, em presença de eclesiásticos respeitáveis que nunca tinha visto".
(Comissão eclesiástica de inquérito, 17 de Novembro)

- Eu tinha vontade de ver Bernadette! -
- Pois bem, aqui está ela - disse a Madre Josefina.
A postulante vira-se, repara na pobre e mirrada religiosinha,
e exclama: - Bernadette? é isso?
- Mas sim, Senhorita, exclama a Irmã Maria Bernarda, prorrompendo em riso, não passa disso".

"Oh! Coitadinho do meu Jesus!
Devia sentir muito frio no estábulo de Belém.
Eram pois sem coração aqueles habitantes para não Vos darem hospitalidade!"

"Sou mais feliz com meu crucifixo no leito
do que uma rainha em seu trono"

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Os sofrimentos Eucarísticos

OS SOFRIMENTOS EUCARÍSTICOS


(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus
pelo Pe. Frederick William Faber, tradução do inglês pelo
Dr. E.de Barros Pimentel.
Editora Vozes de Petrópolis
edição de 1929)

Os sofrimentos da Eucaristia são por si sós um mistério à parte. Assim como Nosso Senhor morreu no Santíssimo Sacramento, mas de uma morte mística, assim também Ele sofre, mas misteriosamente. É Deus vivo, o Senhor glorificado, mas sofredor. Os sofrimentos Eucarísticos são, ao mesmo tempo, alimento das almas que alcançaram a mais sublime santidade, e também o nutritivo leite para as crianças pequenas em Cristo; destes corações apenas purificados dos seus pecados e que de dia a dia vão mais e mais se purificando.

Os principais sofrimentos Eucarísticos são cinco. O primeiro é o desamparo, a que fica reduzida sua vida Sacramental. A magnitude e a imensa vastidão dos céus é o espaço necessitado para ser cheio pela grandeza da sua Humanidade glorificada. Liberdade, poder e alegria, Ele as possui mais do que qualquer outra pessoa ou coisa, salvo a onipotência do Altíssimo. Todas as criaturas recebem d’Ele socorro e nenhuma lh’O pode dar. Não há inteligência que se exercite, espírito que raciocine, pulso que palpite ou membro que se mova, sem que o conhecimento, o raciocínio, a pulsação e o movimento procedam d’Ele. Entretanto, viu-se jamais desamparo igual ao Seu, quando no Tabernáculo?

Houve jamais cativo encerrado em cela tão estreita como o âmbito do cibório? Houve jamais fraqueza tão completa? Os doentes nos leitos dos hospitais têm os movimentos mais desimpedidos do que este Rei da Glória, preso por amor nas malhas do Sacramento. É Ele prisioneiro nosso; temo-lO debaixo da chave e tiramo-lO toda a vez que nos apraz, a fim de mostrá-lO ao povo reunido, que assim se certifica da Sua Presença?

Ó meu Rei cativo! Que expressões poderei ter que sejam bastantes para significar a fraqueza a que voluntariamente Vos submetestes e a que Vos reduziu a autoridade sacerdotal; é exatamente como se Vós mesmos dissésseis: Ó Homem do pecado! Se não queres honrar-Me como Deus todo-poderoso, ao menos tem piedade de Mim como prisioneiro, desamparado e posto à tua mercê. De qualquer modo, custe-Me o que me custar, hei de forçar-te a Me amar. Sim, amável Senhor, terás o meu amor; e se não me é possível fazer mais, posso ao menos odiar a mim mesmo, por causa da minha pouca aflição, é que este ódio seja levado em conta de amor para conVosco.

O segundo dos sofrimentos Eucarísticos é a obediência contínua. Nosso Senhor não é somente prisioneiro; é também escravo. Essencialmente, Ele é Rei; Seu nome está escrito em Suas vestes e em Sua coxa, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Seu ofício é comandar, Ele regozija-se da vastidão do Seu poder, assim como da imensidade do Seu domínio supremo. O império serve-Lhe para desenvolver toda a sua munificência e, por ação da Sua soberania, multiplicam-se-Lhe as ocasiões de mostrar a Sua misericórdia. Ele estende o Seu cetro por sobre toda a eternidade e por sobre milhões de mundos increados e por sobre inumeráveis criaturas que são criações Sua. Mas tanto quanto sabemos, a criação poderia estar ainda em começo; poderia ter começado pelos Anjos e por nós mesmos; e o espaço poderá ainda ser povoado de inúmeras criações.

Entretanto, não houve monarca que, ao abdicar, descesse do trono no meio das circunstâncias mais humilhantes do que Jesus Se cerca no Santíssimo Sacramento.

Dir-se-ia que Seu reino abrange todo o universo, exceto o coração livre dos homens e que estes poderiam esquivar-se ao Seu poder, se o quisessem. Mas este domínio sobre os corações livres é exatamente aquele que jamais agrada ao Seu próprio coração; desdenhosamente teria rejeitado tudo mais, para granjear somente este e neste intento servirá antes como escravo do que correr o risco de perdê-lo; e como Jacó serviu para ter Raquel, não será somente durante quatorze anos, mas até ao dia do Juízo Final que Ele servirá. Não há extremos de obediência a que Ele não Se submeta, quando a isso for ordenado. A voz de algum mau padre, as sarjetas de uma cidade de heréticos, o coração do pecador renitente, todas estas coisas são provanças, que servem somente a demonstrar a obediência e humildade do Divino e Onipotente Escravo.

E por que nós, os filhos dos homens, não haveremos de acorrer em rebanhos para coroarmos o nosso caro Salvador?

Por que não se nos levantam os corações para coroar o Rei descoroado, Aquele que Se despojou a Si mesmo do Seu brilhante diadema, afim de que, com as mãos trêmulas de regozijo, puséssemos as nossas mesquinhas coroas de amor sobre as longas madeixas que coroam aquela formosa fronte?

A esta vida desamparada e de contínua obediência há a acrescentar o sofrimento Eucarístico do Amor ultrajado. Este mesmo amor, pelo qual Ele Se dignou de Se tornar prisioneiro e escravo, foi-Lhe retirado pela crueldade e negligência das Suas criaturas, por abuso de vontade. Ele bem sabia que não poderia ser condignamente amado. Ele sabia que ninguém, a não ser Ele mesmo, o poderia amar merecidamente. Nem Sua Mãe, nem São Miguel mal podem voltar-Lhe o amor que Lhe seja proporcionado. Mas pelo menos os filhos dos homens poderiam afligir-se de não O amarem mais e mais, eles que O deveriam animar-se uns aos outros para oferecer-Lhe com abundante generosidade e mais ternura filial.

Todavia, há homens que ultrajam o Seu amor, blasfemando abertamente e negando a Sua presença. Uns ofendem-nO, abandonando-O e recusando aproximar-se-Lhe, quando Ele os chama. Outros vindo sem ser chamados e ultrajando-O com irreverência e sacrilégio.

Ah! E nós mesmos que fazemos, senão ultrajá-lO com o nosso descuido, nossa ingratidão, frieza, familiaridade e distrações voluntárias? Para um que ultraja a majestade do Santíssimo Sacramento, há cem que ultrajam o Seu amor. Porque o amor é Sua mais bela coroa, os homens fazem deste amor objeto especial de sua maleficência e injúrias. Ó meu Jesus, como é que podeis suportar os nossos pecados? Como é que tendes deixado de inteiramente recolher aos céus este mistério, e sufocado as vozes da missa e arrancado os véus dos Tabernáculos desertos?

Quando subíeis a encosta do Calvário para esgotar até às fezes o terrível cálice, previstes quão poucos seriam os que se lembrariam de que o Criador morrera por eles na Cruz. Mas poderíeis ter previsto, naquela noite de Quinta-feira, o mesquinho reconhecimento que os homens Vos prestariam por este abençoado Sacramento? Entretanto, como se qualquer farrapo do nosso amor devesse ser preciosíssimo aos Vossos olhos, consentistes em dar-Vos a nós neste santíssimo mistério! Oh! Quanto sois admirável! Quem há que possa sondar os abismos de Vosso amor? A Vossa paixão de ser amado excede a todo o alcance da nossa inteligência.

O quarto sofrimento Eucarístico consiste em Abjeção insultada. Por que veio Ele a nós em tão miraculosa exigüidade e com tal humilhação que nos espanta? Por que, neste misterioso Sacramento, a Sua sabedoria e o Seu poder se apresentaram com defeitos de humilhação, como se Ele próprio quisesse ir à beira do nada e nesse abismo desaparecer, para novamente ser criado e surgir de novo nada? Por que tem Ele cuidadosamente excluído da Sua pessoa toda a exterioridade que pudesse conciliar respeito e inspirar estima, e revestir-Se dos mais ignóbeis materiais que a terra pode dar? Por que toda essa abjeção, senão porque o amor me depara nisso mesmo todo o encanto? Entretanto, esta mesma vileza do Seu aspecto, a facilidade do Seu acesso, a barateza de Sua manutenção, tudo voltou-Se contra Ele; e aquilo que o amor considera razões de atração, a frieza fez ocasiões para ultraje.

Os homens repelem-nO por estes mesmos braços que Ele nos estende. Negam a Sua Presença Real ou deixam Seus altares ao abandono; e vêem no Santíssimo Sacramento antes conveniência sua do que condescendência d’Ele. Certo, à primeira vista e tendo somente os olhos do mundo, Ele é de todos os reis aquele que mostra menos realeza. Mas foi o Seu amor que assim o quis. E se nosso amor, fosse sensato e esclarecido, compreenderia que nunca se mostra tão maravilhoso como quando na abjeção e nem tão onipotente do que quando faz abaixar Sua majestade divina até ao pó da terra; e que não é nunca tão admiravelmente puro, do que quando os homens O têm debaixo de seus pés sem poder atingi-lO com sua lama.

Oh! Senhor, que será maior, nossa malícia ou Vosso amor?

Vós inventais artifícios de abjeção para granjear o nosso amor, inspirando-nos piedade, e nós convertemos cada um dos Vossos próprios artifícios em meios para ferir o Vosso Sagrado Coração! Mas Vós afadigareis a nossa maldade com os excessos de Vossa admirável paciência, e desarmareis a nossa insolência com a doçura da Vossa tolerância e o encanto da Vossa fidelidade.

Ó Majestade, a quem nada pode irritar!

Ó Potência que Vos despistes dos vossos raios, calcam-Vos aos pés e não Vos queixais; ferem-Vos, o Vosso sangue corre e não dais nenhum grito. Oh! como o Vosso silêncio fala eloqüentemente em Vosso favor ao coração dos homens!

Quantas conquistas tendes obtido pela só humilde e fecunda abjeção, pois procurais menos combater e domar o orgulho o homem, do que iludi-lo, surpreendê-lo e fazer disso razão para Vos amar, um motivo de Vos amar mais e mais.

O quinto sofrimento Eucarístico é a solidão em que O deixam, não O visitando senão raramente. A solidão há de pesar-Lhe imensamente, a Ele que nos Céus é sempre, de dia e de noite, acompanhado de inumerável e pomposo cortejo de um culto imaculado. Que profeta houve que tivesse predito que Deus haveria de vir, Deus, a sabedoria increada, e que Ele armaria a Sua tenda entre homens errantes e que estes se afastariam d’Ele, como de um leproso, verme e não homem? É como se Ele fosse um cordeiro abatido? e Ele o é.

Poderíamos ter imaginado que as mesmas inanimadas montanhas se teriam movido e teriam levantado e formado novas cordilheiras, agrupando-se em volta dos Seus tabernáculos. Poderíamos ter imaginado que as feras das florestas acorreriam domesticadas pela Sua presença e Lhe teriam pedido a bênção, como o faziam a Adão, nas sombras do paraíso. Isso, com maior razão poder-se-ia supor do coração dos homens. Quando a luz do céu desceu e iluminou a terra, certo seria justo que esta também se assemelhasse ao céu, fazendo do culto do Santíssimo Sacramento a ocupação, a profissão, a felicidade e o objeto de ambição de todo o homem. Temos que comer e beber e dormir porque assim Deus o quis, e temos também que ganhar para alimentar-nos e vestir-nos. E se não fosse assim, a Igreja seria a nossa morada habitual. Não teríamos necessidade de outra habitação. Demais não seriam somente algumas almas eleitas que socorreriam a Ele, mas sim todas aquelas pelas quais Ele morreu e todas as almas que existiram e poderão no futuro existir. Disse muito bem um filósofo francês: Deus ama cada homem, tanto quanto a raça humana inteira. O peso e o número nada são aos Seus olhos. Eterno e infinito, não tem amor que não seja imenso.

Entretanto, vede em que solidão o povo O deixa. Quando quiseram fazê-lO rei de Judá, Ele Se ocultou e Se esquivou ao povo. Agora, que Ele não lhes pede senão amor, os homens se Lhe esquivam e O abandonam. Quando Ele estava só no deserto, os animais ferozes se Lhe aproximavam e Lhe faziam companhia. Eles ficavam contentes de estarem com Ele, olhos fitos na beleza humana do Criador. Havia adoração no espanto deles e homenagem em estarem presentes. Mas que horrível solidão reina hoje em torno do Tabernáculo. O fruto da rica oliveira alimenta uma pequena estrela de luz no céu do Seu santuário, e durante quantas horas, dia e noite, e em quantos santuários, é esta a única honra prestada à Sua majestade!

Algumas vezes, Ele tem que renunciar a tal homenagem, pelo receio de que venham ladrões e d’Ele se apoderem, não, ah! por causa da Sua beleza, pois sacrílegos O atirariam no chão do templo, mas sim por causa dos trinta dinheiros de prata que poderá valer o vaso de prata, onde Ele está encerrado. Ele não permitirá que os Anjos O venham salvar.

Que dizer? Ele permite muitas vezes a perpetração deste crime atroz, afim de que as procissões feitas em expiação Lhe tragam um novo tributo de amor. Não sois então, Senhor, um companheiro a Vossas criaturas. Companhia que pelo menos Lhe devia ser grata?

O ar que respiramos perto de Vós não nos basta para infundir em nossos corações vida e alegria? E a minúscula lâmpada que arde diante de Vós, ó Rei do Tabernáculo, sinal da Vossa morada, e outros sinais da Vossa pobreza nazarena, não hão de ser como recordações da casa do Nosso Salvador? Por que, Senhor, permaneceis em meio de nós; por que? Não Vos fazem falta os cantos celestiais? Não Vos fazem falta o incenso dos louvores seráficos, e a multidão de espíritos e almas cuja essência é o mais ardente amor para conVosco? Que posso fazer-Vos que já não Vos tenha feito? Dizia outrora o Senhor. Meu Deus, eu vo-lO não poderia dizer. Desde há muito Vossa misericórdia tem esgotado tudo quanto poderia eu conceber, assim como os abismos dos quais não poderia cogitar jamais; e agora eis estes sofrimentos Eucarísticos, esta vida ao desamparo, esta obediência perseverante, este amor ultrajado, esta abjeção insultada, esta segunda Paixão, quase pior do que a do Calvário. Não tenho senão que repetir conVosco: Que podereis fazer que já não tendes feito?

***

PS: Grifos meus.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

I- O ESPÍRITO DE MARIA

A BELEZA DE MARIA
III- PARTE

A BELEZA DO ESPÍRITO E DO CORPO DE MARIA


"Maria sobrepujava em beleza todos os seres visíveis.
E assim devia ser, pois Ela fora destinada a tornar-Se
o Tabernáculo vivo d'Aquele que o universo inteiro
é incapaz e indigno de conter".
(São João Crisóstomo: Op. imperf.)

I- O ESPÍRITO DE MARIA

Uma das condições da beleza perfeita, da beleza ideal, é a relação e a proporção exata entre as diferenças faculdades do homem, entre o seu corpo e sua alma.

Em Maria admiramos uma alma ornada de todas as virtudes e um coração transbordante do mais profundo amor.

Resta-nos ver o espírito da Virgem, o espírito mais nobre e mais admirável que jamais houve, depois de Jesus Cristo: inteligência ornada dos conhecimentos mais variados e mais profundos.

Primeiramente, consideremos estas maravilhas interiores; em seguida, contemplaremos, por um instante, a beleza corporal de Maria: beleza única, aliás, pois era o reflexo de uma alma, de um coração e de um espírito acima de tudo o que podemos imaginar.

São João Damasceno, no seu primeiro sermão sobre a natividade da bem-aventurada Virgem, chama-A "a boa graça da natureza humana".

São Jorge de Nicomédia exclama: "Ó mais bela e mais agradável de todas as belezas - Ó Virgem santa, ornamento inigualável de toda beleza!" (Serm. de Oblat. B.Virg.)

Ricardo de S.Vítor louva-A, dizendo que "Seu rosto é tão angélico quanto a Sua alma".

Confirma-o São Gregório Nazianzeno, dizendo que "em matéria de beleza Ela ultrapassa a todos os outros seres". (Tragédia de Cristo paciente. 25º)

Outro tanto a Seu respeito proclamam todos os doutores, enobrecendo-A até, pois dentre eles muitos chegam a dizer que, ao se reunir à Sua alma para ser elevado ao céu, o Seu corpo era tão belo e tão proporcionado, que não foi necessário corrigi-lo ou reformá-lo, como todos os outros, mas, no estado em que se achava, foi capaz de receber as riquezas da glória e ser revestido da veste da imortalidade.

Mas se Seu corpo era dotado de tal beleza, qual não era a perfeição de Seu espírito?...

Seu corpo tão perfeito, único em sua espécie, era digno de um espírito elevado, nobre e transcendente.

Encontramos razões poderosíssimas sobre a necessidade de um espírito elevado em Maria, na eleição, no ministério e na ação que a bendita Virgem devia exercer, segundo os desígnios de Deus. (Cfr. P.Poire: A trípice coroa. 5ª estrela, cap. VI)

Como mais tarde Madalena, antes que ela fizesse a escolha pela melhor parte, que é o retiro e a contemplação, o próprio céu havia-a escolhido para este fim, destinando-A às obras da mais sublime contemplação que espírito algum jamais havia praticado.

Além do que nos ensinam os santos doutores, não podemos duvidar, desde que cremos ser Ela a Mãe de Deus.

Disto é preciso deduzir que, pela santificação e pela Sua imaculada Conceição, Deus Lhe deu todos os conhecimentos intelectuais, conformes ao Seu estado, e por isso Ela devia chegar a este grau eminente de contemplação no qual possuía um conhecimento excelso de Si mesma, das criaturas intelectuais, dos mistérios ocultos e das ações morais.

As revelações da divina Mãe foram quase contínuas e também as mais elevadas que tem havido, revelações pelas quais Santo André de Creta a chama: "fonte de revelações divinas, que não pode ser esgotada". (Sermo. de Assumpt.)

São Lourenço Justiniano diz que "elas deviam ultrapassar às revelações de todos os santos, tanto quanto maior havia sido o número de graças que Ela havia recebido, e que estava acima das graças que aos santos deviam ser comunicadas". (Serm. 5 de Nativit.)

Ora, é certo que elas requerem um espírito claro, penetrante, firme e elevado acima de tudo o que nós podemos imaginar na mais alta elevação de nosso espírito.

Secundariamente, era destinada a fazer companhia ao Filho de Deus, em que estavam ocultos "todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus", como diz São Paulo.

Daqui se pode dizer que se não tivesse havido alguma relação ou proporção entre estes dois espíritos, chegar-se-ia à conclusão de que a condição de Nosso Senhor tenha sido desvantajosa, por ter Ele muito tempo necessitado de uma companhia à Sua grandeza, e de que a Santíssima Virgem tenha sido até digna de compaixão, desprovida da capacidade necessária quanto à inteligência dos admiráveis segredos que sem cessar Ele Lhe revelava e que um dia Ela deveria comunicar aos discípulos.

Eis mais um terceiro ofício da Mãe de Deus que Lhe merecia o dom de um espírito elevado: a Sua qualidade de soberana da Igreja: "Ela havia sido proposta aos apóstolos e discípulos do Salvador, diz muito bem Santo Anselmo, para repetir-lhes e explicar-lhes o que Ele lhes havia ensinado, e o que o Espírito Santo lhes revelava e que evidentemente Ela compreendia melhor do que eles". (Lib. 2 de excell. Virg. c. 7)

Eis por que os santos A chama "a mestra dos apóstolos" e Santo Inácio "a mestra de nossa religião" (Epist. I).

Como poderia Ela preencher esta missão tão importante para com a Igreja, se não tivesse recebido de Deus um espírito sublime?

Sustentá-lo seria dizer que se pode voar sem ter asas, ver sem olhos e ouvir sem ouvidos.

Finalmente, consideremos os atos de heróicas e extraordinárias virtudes que Ela devia praticar.

Estes atos são singularmente avantajados e mais facilitados aos espíritos dotados de uma inteligência viva, como se verifica entre os maiores doutores da Igreja. Eles aliaram ao seu eminente espírito e à sua são doutrina uma virtude não menos extraordinária e imensamente acima daquela que é comum aos homens.

"Livre de tudo o que é criado, diz a venerável Joana de Matel, o espírito de Maria se achava sempre pronto a corresponder-lhe. Era uma mesma carne com o Verbo encarnado, como era um mesmo espírito com a Santíssima Trindade. Ela se unia a Deus de todo o Seu coração e de toda a Sua alma, pois nEla e em Seu seio bendito o Verbo divino havia tomado a Sua humanidade santíssima".

Digamos, pois, sem receio que Maria, tão magnificamente dotada, em relação ao espírito como quanto ao coração, estava certamente em estado de corresponder aos desígnios adoráveis do Altíssimo, quando foi chamada por Deus à dignidade de Mãe de Deus, criatura privilegiada, prodígio do Seu poder, de Sua sabedoria e de Seu amor.

Quem jamais poderia avaliar os transportes inefáveis de amor e reconhecimento que fizeram pulsar de alegria o coração da Virgem, na hora em que a Sua alma, contemplando-Se a Si mesma, considerou o poder e a profundeza de espírito com que a bondade infinita Se aprouve em orná-lA!

E nós poderíamos ficar insensíveis a este espetáculo?...

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

AS VIRTUDES (Belíssimas gravuras)

AS  VIRTUDES

TEOLOGAIS
(Fé, esperança e caridade)


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA


CARDEAIS
(Prudência, justiça, fortaleza e temperança)


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA


EVANGÉLICAS OU CONSELHOS
(Pobreza voluntária, castidade perpétua,
obediência inteira e humildade cristã)


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA


Um pai que não reza

UM PAI QUE NÃO REZA


Ao pé do leito, Pedrinho (quatro anos e meio) faz a sua oração que parece bem comprida.

- Então não acabaste ainda a oração? - pergunta a senhora.
- - responde a criança embaraçada.
- Mas então que estás aí a fazer?

A criança cora e murmura timidamente:

- É que eu faço duas cada noite: a minha e a do Papai; ouvi-o dizer à mamãe que não estava disposto para rezas; faço-a eu por ele.

Precocidade? Sim. E as crianças não têm perspicácias destas que nos desnorteiam?

Ah! esses pais que julgam poder ser incoerentes diante dos filhos! Como eles ignoram as exigências desses cerebrozinhos, desses corações infantis!

E como sabem também os filhos aproveitar-se do que se diz diante deles!

Uma protestante convertida ao catolicismo, Lady Baker, conta no seu livro La Maison de Lumière, como criança ainda, - tinha onze anos aproximadamente, e, claro esta, pertencia como seus pais a Religião Reformada - lhe acontecera surpreender uma conversa entre seu pai e sua mãe. Dizia o pai: "Ouvi hoje um bom sermão; demonstrava-se que as Reformas fora um erro e que a Inglaterra teria passado muito bem sem ela."

"Psiu! interrompe a mãe escandalizada, cuidado que as crianças podem ouvir!".

"Retiraram-se da sala de estudos, escreve Lady Baker, e não ouvimos mais nada. Mas comecei logo a maturar sobre essas estranhas palavras". Nessa mesma tarde, em passeio, pedia ela à criada para entrar numa igreja católica. A partir dessa data germinara nela o desejo de estudar as origens da peseudo-Reforma, e, no caso em que seu pai tivesse dito a verdade, de mudar mais tarde de religião.

Graças a Deus, não perdi o hábito da oração. Mas talvez, por qualquer pretexto, eu não mostre bastante a meus filhos que oro. São efetivamente duas coisas distintas: orar e deixar perceber aos filhos que se ora. Não me basta, pois, orar só para mim. O meu dever de chefe de família é orar em nome da família, diante da família e com a família. É necessário que os meus filhos saibam que o seu pai honra a Deus, e aprendam, a exemplo seu, o grande dever da adoração e do culto. A oração, e da noite pelo menos, deve ser feita em comum.

Em muitos lares onde no fim do dia todos se reúnem para honrar a Deus, é a mãe quem preside à oração, o que mais tarde fará cada filho, por ordem. Melhor seria que fosse o pai. É uma função que lhe pertence, uma função em certo modo sacerdotal, falando num sentido lato...

(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição, Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

PS: Mantenho os grifos do autor.

A arte de estragar as crianças

A ARTE DE ESTRAGAR AS CRIANÇAS


Há dois grandes meios: o mau exemplo e os mimos.

- O mau exemplo. Todos os homens se imitam entre si. As crianças mais do que ninguém estão expostas a macaquear os grandes, e, antes de quaisquer outros, os da sua imediata convivência, sobretudo os pais, que lhes aparecem como seres privilegiados em que nada há de condenável.

A mãe é arrebicada? A filha será vaidosa. Falará, agirá, adornar-se-á, não por ideal de beleza conforme com a sua condição, com a sua posição, mas para que dela se tenha uma opinião levantada, há-de passar adiante de todas as suas companheiras, das amigas, pelo corte ou pela singularidade dos seus vestidos, ligará uma importância considerável, exagerada, a ínfimos pormenores do trajar, despertará crises de terrível ciúme quando se julgar desbancada.

O pai é orgulhoso? Procura acaso encarecer as suas qualidades, rebaixar as dos outros, ou não as querer reconhecer? O rapaz há-de ser presunçoso, desdenhoso, gabarola, pretensioso, arrogante, obstinado, dará mostras de incompreensão com relação aos outros.

Os pais são faladores, questionadores, picantes nas suas palavras? Os filhos hão-de ser intemperados em palavras, bulhentos, ciumentos.

Os pais são fingidos? Os filhos arriscam-se a tornarem-se mentirosos. Há indiscrições nas conversas, julgando-se a torto e a direito as ações alheias? Os filhos, já inclinados a julgarem de tudo do alto da sua grandeza, farão apreciações indiscretas, injustas, inoportunas.

Os pais manifestam gosto pelas comodidades, pela riqueza, ambição até de adquirirem por todos os meios? Os filhos arriscam-se a fazerem-se egoístas, apegados ao bem-estar, e se a ocasião se proporcionar, a serem fraudadores.

2º- Mimos. – Certos pais são demasiados duros, não animam. Outros – é o maior número – são bonacheirões, lisonjeiam os filhos, condescendem com todos os seus caprichos.

Amimar os filhos não é querer-lhes bem, não é amá-los por eles mesmos. É antes um retorno dos pais sobre si mesmos. Buscam-se a si nos filhos. Assim não poderão dar firmeza à educação, nem castigar quando for necessário, nem prevenir extravagâncias, nem fazerem-se obedecer. Deixarão de censurar qualquer fantasia.
Mas se não somos bondosos, a criança foge-nos; nas horas difíceis deixará de desabafar, ficaremos privados das suas confidências. Se, pelo contrário, multiplicarmos as nossas atenções, será sempre franca e teremos mãe nela.

Não se trata de faltar à bondade, trata-se de não ser fraco. Se dois criteriosos firmes, longe de perderdes a confiança dos vossos filhos, mais confiança terão eles ainda, porque sois prudentemente fortes. Se eles vêem que nas provas de afeição que lhes dais não vos buscais a vós mesmos, mas unicamente o bem deles, compreenderão que nas vossas atitudes de severidade não há vestígios de capricho, mas só o interesse deles. É precisamente isso que os educa, esse contato com uma alma forte e desprendida.

(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição, Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

PS: Mantenho os grifos do autor.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Santissimo Sacramento, a vida da Igreja - Comunhão espiritual

SANTÍSSIMO SACRAMENTO
A VIDA DA IGREJA


(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus
pelo Pe. Frederick William Faber,tradução do inglês pelo
Dr. E.de Barros Pimentel.
Editora Vozes de Petrópolis
edição de 1929)

CONCLUSÃO

COMUNHÃO ESPIRITUAL

Tais são as sete maneiras de considerar a Eucaristia, como Vida da Igreja e como força vivificante. Mas o que acima de tudo realça maravilhosamente a sua grandeza é que uma coisa, que não é mais que sombra do Santíssimo Sacramento, constitua por si só um dos grandes poderes da terra. Refiro-me à Comunhão espiritual que é, propriamente falando, a comunhão dos Anjos. Nada mostra mais admiravelmente falando, a comunhão dos Anjos. Nada mostra mais admiravelmente a influência que esta última exerce junto a Jesus, do que as numerosas ocasiões, nas quais desejo o de comungar se permite à alma de realmente receber a Santa Comunhão, por virtude de algum espantoso milagre. Exemplos de tal já citamos, falando de Santa Catarina de Sena, de outros santos e, principalmente, de Santa Juliana Falconieri, que comungou sem manducarão, tendo-lhe sido a hóstia posta através do peito; sua comunhão foi real, sem ter sido inteiramente espiritual, nem propriamente sacramental; porquanto, para que esta se dê, os Teólogos fazem da manducação a indispensável condição. O Concílio de Trento recomenda aos fiéis a prática da comunhão espiritual e Santo Thomas a explica assim:

Aqueles são considerados haver comungado espiritualmente, que tenham vivo desejo de receber a Santa Eucaristia e comam espiritualmente o corpo de Jesus Cristo, sob as espécies sacramentais”.

De sorte que, segundo faz observar Scaramelli, recebem eles não só Jesus espiritualmente, mas ainda secretamente de um modo espiritual. É assim que o mártir Santo Inácio disse aos Romanos: “Não desejo os prazeres do mundo, mas desejo o pão de Deus, o pão de Deus, o pão do céu, o pão da vida, a carne de Jesus Cristo, Filho do Deus vivo. Anseio por saciar-me desta bebida que é o Seu sangue e que acende em nós um amor incorruptível, dando-nos o penhor da vida eterna”.

Santo Afonso, em seu encantador tratadinho sobre as Visitas ao Santíssimo Sacramento, refere que Nosso Senhor fez ver à Irmã Paula Maresca dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata: no primeiro, se conservavam todas as comunhões sacramentais; e no outro, todas as comunhões espirituais. Joana da Cruz afirmava que recebia muitas vezes na comunhão espiritual as mesmas graças, das quais era cumulada na comunhão sacramental; e, com um suspiro, exclamava:

Ó raro e precioso método de comungar, para o qual não é de necessidade a permissão de um Diretor ou de qualquer outro superior; mas só a Vossa, meu Deus, basta.”

A bem-aventurada Ágata da Cruz era animada de tanto amor pelo SS. Sacramentado, que morreria, segundo se diz, se o seu confessor não lhe tivesse ensinado a prática da comunhão espiritual; e, quando ela a possui, tinha costume de a repetir duzentas vezes em um dia. Surin e Scaramelli afirmam ambos que certas almas recebem graças mais abundantes nas comunhões espirituais do que teriam recebido se houvessem comungado sacramentalmente; sem dúvida, caso como este apresenta-se raramente e, quando acontece, é preciso atribuir-se, como razão, não a ineficiência do Sacramento, mas a falta de fervor entre os homens. Surin, na relação dos favores que ele recebeu após a famosa possessão de Loudum, consagra ás graças que recebeu pelo canal da Eucaristia um capítulo, no qual se encontra a seguinte passagem:

Muitas vezes há acontecido que minha alma tem necessidade tão viva de comer o pão da vida que, em não comungando, a necessidade se tornava tão pungente a tal ponto, não só de comunicar um desânimo ao meu coração, como de me inabilitar para tomar qualquer espécie de alimento. Como o pão e o vinho haviam cessado de ser para mim refresco, via-me forçado a tomar o pão que havia à minha vista e orar a Nosso Senhor de dar-lhe a virtude de me fortificar. Comia então o pão nesta intenção, e notei que tinha ele o mesmo gosto sobrenatural que eu achava na hóstia; e este gosto era tão distinto e tão sensível que não podia duvidar pela força que ele me infundia que fosse Nosso Senhor que, em Sua divina bondade, houvesse atendido ao meu extremo desejo de comungar e que assim nutrisse e satisfizesse minha alma pela virtude do Seu divino corpo, que eu recebia em meu desejo com a mesma plenitude que se tivesse comungado pela mão de um padre”.

Este alimento, diz Santa Catarina de Sena, falando do corpo e do sangue de Nosso Senhor, comunica-nos mais ou menos força, segundo a intensidade do desejo com que o recebemos, qualquer que seja a natureza da nossa comunhão, sacramental ou virtual”.

Depois, ela passa a descrever esta última, que ela chama também comunhão espiritual. Santa Teresa demonstra quanto importa para a alma ficar só em presença de Nosso Senhor e não pensar senão nEle durante o tempo da ação de graças, após a comunhão; e fala da comunhão espiritual de passagem, quando se trata das disposições que havemos de entreter para dignamente recebemos a Nosso Senhor.

Donde é levada a notar que estas disposições sós, sem que seja necessário receber Nosso Senhor Sacramentado, são para nós a fonte de inúmeras graças. Eis como ela se exprime: “Todas às vezes, ó minhas filhas! Que ouvirdes missa e não vos aproximeis da santa mesa, nada vos impede de fazer a comunhão espiritual. É uma prática, da qual se colhem frutos abundantes e preciosos, se vos retirardes imediatamente em vós mesmas, assim como vos aconselheis, quando comungardes sob as espécies sacramentais; pois Nosso Senhor aproveita esta ocasião para difundir o Seu amor nas almas fervorosas. Com efeito, quando nos preparamos para recebê-lO, Ele não falta nunca de se nos dar por diferentes modos, que não nos são dados a conceber”.

Lê-se na vida de Santa Maria Madalena de Pazzi que as religiosas do mosteiro submetidas à sua direção tinham o costume de fazer a comunhão espiritual todas as vezes que a moléstia do padre ou qualquer outro motivo se punha à distribuição quotidiana do Pão Eucarístico. Dava-se pela manhã o sinal do costume, chamando as irmãs à comunhão e, estando todas reunidas, oravam em comum, durante meia hora; depois faziam a comunhão espiritual. Foi numa ocasião dessas que São Maria Madalena recebeu a comunhão pelas mãos de São Alberto do Carmo, depois de haver dito o Confiteor e o Domine non sum dignus, depois de ter cumprido todas as formalidades, que eram de costume quando recebia a Santa Comunhão. Ela declarou posteriormente que havia visto o Santo, sustendo o cibório entre as mãos e indo de uma religiosa à outra e distribuindo o corpo de Jesus Cristo.

Sua larga e veemente caridade fazia-lhe desejar que outras, e principalmente as do seu mosteiro, sentissem grande fome do Pão Eucarístico, isto tanto no interesse da glória de Deus, como no interesse das suas almas.

Conta-se da mesma santa um caso que nos lembra o dom atribuído por João d’Ávila à Santíssima Virgem. Deus, diz o biografo da Santa, concedeu-lhe a graça de ver Jesus entre as irmãs sob várias formas. Ela O via em uma, sob traços de um menino; em outras, Ele aparecia com a idade de doze, ou de trinta ou trinta e três anos; em outras, enfim, sofrendo e crucificado, segundo os desejos, o grau de perfeição ou de capacidade de cada Religiosa. Uma vez, estando em companhia de outras Religiosas, ela relanceou as vistas sobre todas e detendo-as sobre uma pessoa que estava perto, disse-lhe:

Quanto quero a estas irmãs; considero-as como outros tantos tabernáculos do Santíssimo Sacramento, que tantas vezes elas recebem e guardam no seio”.

Uma manhã de Páscoa, enquanto ela estava à mesa, no refeitório, iluminou-se-lhe a fisionomia, de radiante alegria. Uma das suas noviças percebeu-o e, aproximando-se, disse-lhe em confidência: “Minha mãe, donde lhe vem esta alegria?” – “Da beleza da presença divina, porque avisto Jesus, descansando no coração de todas as irmãs. – Sob que forma? - replicou a noviça. – Em toda a glória da Ressurreição, tal como a Igreja a representa hoje.”

Diz-se de Santa Ângela Merici que, quando se lhe proibia a santa comunhão de cada dia, ela supria-a por freqüentes comunhões espirituais na missa, e se sentia por vezes inundada de graças semelhantes às que teria recebido, caso tivesse comungado; por isso deixou à sua ordem como legado precioso uma recomendação fervorosa de não desprezar esta devoção. O Padre Squillante, do oratório de Nápoles, na sua vida da Irmã Maria de Santiago, da Ordem Terceira de São Domingos, nos informa que tal era o amor desta piedosa pessoa ao Santíssimo Sacramento que, afinal, chegara ao extremo de fazer uma comunhão espiritual de cada vez que respirava, de maneira que nela se realizavam as palavras seguintes, de Jeremias: “Sentindo de longe o que ela amava, corria logo após ele, sem que nada a pudesse deter”.

A irmã Francisca das Cinco-Chagas, Religiosa Napolitana da ordem de Alcântara, tinha o hábito de visitar o Santíssimo Sacramento em espírito, quando não lhe era possível ir à igreja. Viam-na muitas vezes elevar-se acima do solo, com os braços estendidos e o rosto voltado para a igreja mais próxima: “Ó meu esposo! Meu divino esposo! Ó Vós, a alegria de todo o coração! Quisera reunir em meu peito os corações de todos os homens para Vos abençoar e Vos amar! Ó meu doce Jesus! Como acontece que esteja eu hoje sem vós? Oh! Mil vezes felizes as línguas que Vos receberam! Felizes as paredes desta igreja, que encerra o meu Salvador! Quanto desejaria que fosse o meu coração uma fornalha ardente, onde ardesse sem cessar o fogo do amor, afim de mais Vos poder amar! Oh, como é digna de inveja a sorte dos Padres junto deste sol de Justiça, junto do meu doce Salvador!”

E ela procurava satisfazer o seu amor por freqüentes comunhões espirituais: era a este remédio que recorria nos momentos de sequidão e desolação. Mas, não era raro que suas comunhões espirituais se transformassem em comunhões sacramentais; pois São Rafael, que era o seu Anjo da Guarda, lhe dava a comunhão, do mesmo modo que a Bem-aventurada Benevenuta a recebia de São Gabriel. Por vezes, celebrando a missa, o Padre Bianchi, Religioso Barnabita, viu que lhe arrancava o cálice uma mão invisível (era de São Rafael), que em seguida lh’o restituía.

Em certa circunstância, o precioso sangue havia mais que de metade desaparecido; e Francisca disse ao Padre: “Ó meu Pai, sem a intervenção de São Rafael que me recomendou o deixasse afim de que pudesse consumar o sacrifício, eu teria esgotado o cálice!”

Lê-se na Vida de uma Dama Romana, Maria Scholastica Muratori, pelo Padre Gabrielli, do Oratório de Bologna, que ela se esforçava por fazer comunhão espiritual todas as vezes que respirava ou levantava os olhos, de modo que, dizia ela, se viesse a morrer de repente, eu morreria aspirando meu Deus. Outra das suas práticas consistia em fazer comunhão espiritual em dada forma, quando via na igreja alguém que recebia a comunhão.

Que deve a realidade, quando a sombra possui tal poder? Se tivéssemos estado na Galiléia com Jesus, Ele haveria de ter sido tudo para nós, em todos, quando conhecêssemos a Sua Divindade. Seria Ele o nosso primeiro pensamento, desde manhã, ao acordarmos, até à tarde, o nosso último, ao adormecermos. É o que Ele foi para a Sua Mãe; é o que é ainda para a Sua Igreja; enfim, o que deverá ser para nós, na terra; como o é para os bem-aventurados no céu.

Às vezes, parece-nos que sondamos o abismo de caridade, de que é o Santíssimo Sacramento fiel representação; e sentimo-nos inundados de alegria, de amor e de adoração.

Ficamos incapazes de orar, mas o nosso próprio silêncio já é uma prece. O louvor emudece em nossos lábios. Mas a nossa alma toda se transformou em um cântico de louvores.

Já começam a escorrer nos olhos lágrimas ardentes, ah, quando o mundo nos envia ao coração um ligeiro sussurro, o eu se recolhe todo sobre si e, de repente, apaga-se a luz. Mas no céu não será assim. Ah, se tivéssemos já alcançado aquelas margens benditas, fosse-nos permitido gozar, pela primeira vez, da vista de Jesus sem véus. Jesus, que é o penhor beatífico da nossa boa vinda na nossa verdadeira e eterna Pátria.

PS: Ver a seqüência de posts deste especial AQUI.
PS 2: Grifos meus.

Aos devotos de Santo Estevão

AOS DEVOTOS DE SANTO ESTEVÃO

(Santo Estevão, primeiro mártir)

Vejo os Céus abertos e Jesus de pé,
à direita do poder de Deus; recebei,
Senhor Jesus, o meu espírito e não lhes imputeis este pecado.

VII- OS CARACTERES DO AMOR DE MARIA PARA CONOSCO

A BELEZA DE MARIA
PARTE II

VIII- OS CARACTERES DO AMOR DE MARIA PARA CONOSCO


"Deus havia decretado, diz Santo Afonso de Ligório,
que um coração de mãe seria a fonte da salvação,
não de uma alma somente, mas de todas as almas”.

Este coração de mãe devia ser, pois, a obra de predileção e complacência do próprio Deus, pois nele o Altíssimo devia acumular todos os tesouros e ternuras que a elevariam acima de tudo o que a beleza possui de mais atraente e mais forte.

O amor das mães não é mais do que uma imagem pálida e longínqua do amor de Deus. O amor de Maria, porém, é uma semelhança real do amor do Pai e do amor de Jesus, pois representa-os pela sua própria natureza.

E não é somente por criação que o Pai e o Espírito Santo produziram este amor, como Eles produzem o amor das mães, mas sim por uma comunicação interna de Seu próprio amor.

O amor das mães é, por assim dizer, tirado do nada.
O amor maternal de Maria nasceu de Deus e, como já dissemos, provém da mesma fonte que deu à Virgem o Seu filho.

Deste modo, o amor aos homens participa do amor do Salvador para conosco.

Quem seria capaz de compreender tão tocantes caracteres que este amor deve a esta divina origem?...

Para entressonhar algo de sua beleza, temos o amor materno, terrestre, como termo de comparação, muito imperfeito embora, mas que ao menos, nos pode auxiliar a penetrar nos mistérios do amor de Maria Santíssima para conosco.

Ora, quais são os caracteres do amor de uma mãe ao seu filho?...

Especialmente três: a bondade misericordiosa, a ternura e a força.

O primeiro caráter é a bondade misericordiosa.

Mais adiante desenvolveremos este consolador assunto, como fonte de inumeráveis benefícios com que nos mimoseia o coração de nossa mãe...

Aqui mostraremos somente esta inclinação para a infância, pois, tratando-se de amor, todos nós somos crianças.

A primeira atitude de uma mãe é enternecer-se e inclinar-se, amorosa, com uma dedicação sem reserva, para a criancinha que vem ao mundo tão desprovida e tão fraca.

Falta-lhe tudo. É preciso que sua mãe veja e ouça por ela. Não há miséria mais impotente que a sua. O primeiro caráter de amor maternal de Maria para conosco é ser ele um amor misericordioso.

Na ordem sobrenatural, mais ainda que na ordem natural, precisamos nós, antes de tudo, de comiseração, tanto para as nossas fraquezas, para nossas próprias misérias físicas, quanto e, sobretudo para nossas ilusões, nossos erros e pecados.

Ora, o amor de Maria é puramente misericordioso, porque Sua maternidade não vem castigar, mas somente santificar e consolar.

E não há miséria que Ela não queira socorrer e curar.

Se Ela sente compaixão à vista de qualquer imperfeição dos justos, muito mais viva ainda é a Sua comiseração para o horrível estado dos pecadores.


“Ó Virgem bendita, exclama Santo Afonso de Ligório, por Vós encheu-se o céu, por Vós muitos evitaram o inferno; por Vós ainda foram reparadas as ruínas da Jerusalém celeste e a vida espiritual dada aos desafortunados que a esperam”.
(S. Ligório: Glórias de Maria)

Chama-se ternura esta sensibilidade delicada, esta atenção extremosa, graças à qual as menores alegrias do objeto amado nos deslumbram, seus mais leves sofrimentos nos contristam profundamente, suas ingratidões nos transpassam de dor.

Tudo isto se encontra no coração materno, e em um grau intensamente superior se encontra no coração de Maria, pois, para compreendermos a ternura deste coração, é preciso elevar-nos à ternura infinita de Deus.

Com efeito, por Sua maternidade, a incomparável Virgem participa da ternura infinita do Altíssimo.
Depois da compaixão, o que domina no amor de Maria é a ternura.

Em Seu coração, tanto quanto é possível em uma criatura, revive a ternura perfeita de Deus, a quem interessam perfeitamente todos os nossos bens.

À comiseração e à ternura o amor materno alia a força.
A força do amor materno é verdadeiramente maravilhosa.

Não somente a águia, o tigre ou o leão são prodígios de energia, quando ameaçados os seus filhotes, mas também uma mãe sabe afrontar os maiores perigos e a própria morte se seus filhos.

Entretanto, embora seja o amor materno o mais forte, mau grado as suas energias, ele também é fraco!
Mas em Maria encontra-se não só a força amante, mas ainda o poder do amor materno.

O amor de Maria transborda de um amor materno onipotente que Deus tirou de Seu próprio  coração e com que enriqueceu o coração de Sua Mãe. E o que há de mais sublime neste amor é que ele se dá sem reserva a todos e a cada um em particular. A cada um de nós Deus ama em particular, como se somente a nós tivesse que amar.

Ora, o amor de Maria é uma comunicação, uma derivação à parte e única do amor paternal de Deus.

E pelo fato deste amor maternal de Maria não ser simplesmente um amor criado, mas antes uma comunicação do amor do Padre eterno e do Espírito Santo, ele é antes de tudo sobrenatural e pode aplicar-se a cada um de Seus filhos: ele nos segue sem cessar, por toda parte, em todos os perigos, em todas as nossas provações e trabalhos.

E conservando este caráter todo particular e individual, o amor de Maria, semelhante ao amor de nosso Pai celeste, estende-se a todos os homens, abrange em um só devotamento a todos os Seus filhos, sem reserva alguma, pois Seus filhos são a humanidade inteira.

Na mais perfeita visão beatífica, Ela vê os seus sofrimentos, seus perigos e suas chagas.

Oh! não deveria este amor de nossa admirável Mãe para com os homens em geral ser um objeto de delícias?...

Como não concluir que o coração de Maria, sob o abrasamento do amor materno, ama a cada um de nós em particular e de um modo inefável, sabendo-se que ele, segundo a palavra de Santo Afonso, foi feito expressamente para nos amar, como o foi para amar a Jesus, e que sempre foi plenamente fiel a essa predestinação que constitui toda a razão do Seu ser?...

Oh! repitamos sempre: Maria nos ama com um amor maternal, com o amor mais delicado, mais terno, mais devotado e mais misericordioso.

Que ao pensamento desta grande verdade possa despertar e inflamar-se o nosso amor filial e que em nós o amor de Maria domine todo o amor criado, para que os nossos corações se apeguem a esta inefável beleza, sempre antiga e sempre nova, que é o coração de uma mãe, a gloriosa Mãe de Deus e dos homens.

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um santo Natal

Desejo a todos os leitores amigos do blogue um santo Natal.
Recebamos alegremente o Menino-Deus em nossos corações!

Viva Jesus!!!

_________________________

EL ROCÍO
DIVINO O LA LECHE
VIRGINAL

Envuelto en luz de amor,
en el blando regazo de tu Madre,
¡oh, mi dulce Jesús!, te muestras a mis ojos, radiante de amor.
El amor: misteriosa razón
que te alejó de tu mansión celeste y te trajo al destierro.
Deja que yo me esconda bajo el velo
que a la humana mirada te disfraza.
Solamente a tu lado, ¡oh Estrella Matutina!,
mi corazón pregusta un avance del Cielo.

Cuando al nacer de cada nueva aurora
aparecen del sol los rayos de oro,
la tierna flor que empieza a abrir su cáliz
espera de lo alto un bálsamo precioso:
la rutilante perla matutina,
misteriosa y henchida de frescura,
es la que, produciendo rica savia,
hace abrirse a la flor muy lentamente.

Tú eres, Jesús, la flor que acaba de entreabrirse,
contemplando aquí estoy tu despertar primero.
Tú eres, Jesús, la encantadora rosa,
el capullito fresco, gracioso y encarnado.

Los purísimos brazos de tu Madre querida
son para ti tu cuna y trono real.
Es tu sol dulce el seno de María,
tu rocío, la leche virginal.

Divino Amado y hermanito mío,
columbro en tu mirada tu futuro:
¡pronto a tu Madre dejarás por mí,
pues ya el amor te empuja al sufrimiento!
Pero sobre la Cruz, ¡oh flor abierta!,
reconozco tu aroma matinal,
reconozco las perlas de María:
¡es tu Sangre la Leche Virginal!

Este rocío se esconde en el santuario,
hasta el Ángel quisiera poder beber de él:
al ofrecer a Dios su plegaria sublime,
como San Juan repite: «¡Hele aquí!».

¡Oh sí!, miradle, aquí a este Verbo hecho Hostia,
eterno Sacerdote, sacerdotal Cordero.
El que es Hijo de Dios es hijo de María…
¡Se ha hecho Pan de los Ángeles la Leche Virginal!

El Serafín se nutre de la gloria,
del puro amor y del perfecto gozo;
yo, pobre y débil niña, sólo veo
en el copón sagrado
de la leche el color y la figura.

Mas le leche es un bien para la infancia.
Del Corazón divino el amor no halla igual…
¡Oh tierno amor, potencia incalculable!
¡Mi Hostia blanca es la Leche Virginal!
(Santa Teresita del Niño Jesús y de la Santa Faz)

LES DESEO UNA MUY SANTA Y FELIZ NAVIDAD
Con mis oraciones y mi bendición
Pater Ceriani

Ut adveniat Regnum tuum adveniat Regnum Mariae

(Retirado do blogue: Radio Cristiandad)