quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Hora Santa de outubro

HORA SANTA
OUTUBRO


Esta é uma hora três vezes santa, pela proximidade de Jesus Cristo a nossas almas pobrezinhas... A ferida sempre aberta de Seu peito, fala-Lhe da terra e O força docemente a atender, ao mesmo tempo em que os cânticos do céu, as súplicas e os gemidos que sobem do desterro... Ele avança agora para o abismo de nosso nada, sedento de almas... Avancemos também nós para o abismo de Seu Coração até sucumbir ditosamente nele... Senhor Jesus, faz que compreendamos o dom inefável de Vosso Divino Coração!...

(Breve pausa)

(Pedi-Lhe luz de fé para conhecer-Lhe, caridade abrasadora para amar-Lhe e para fazer-Lhe amar em Seu Sagrado Coração)

Getsemaní, o Horto da agonia mortal do Mestre, não desapareceu...: Perpetua-se em cada Sacrário da terra... Ele está aqui, pois, na Hóstia... Nela Jesus agonizante sente os desfalecimentos de uma angústia suprema e de uma caridade incontrolável... “Triste até a morte nesse Tabernáculo. Ele anseia, oh, dulcíssima misericórdia!, encontrar uma reparação, descansar em nossos peitos e confiar-nos aí todo o tesouro de aflição e de carinho em que extravasa Seu adorável Coração...

A terra em que agora o adoramos é terra santa... Aqui está realmente Jesus, o jovem encantador de Nazaré...; Jesus, o Mestre compassivo de Tiberíades... Aqui, está Jesus, o Amigo de Betânia... Sim, aqui, a dois passos, está o amável moribundo de Getsemaní, a Vítima adorável do Calvário... Oh, noite mais formosa que a alvorada!... A sua sombra, de inefável paz, São João e Santa Maria parecem aproximar-se a este altar para compartilhar conosco o segredo que ao descansar sobre seu Coração lhes confiou o Prisioneiro do amor...

(Pausa)

(Declarai-lhe em doce intimidade que o amais com toda o alma, com amor de desagravo)

A sós com Jesus!... Que delícia... A sós com Ele, compartilhando Sua solidão e Sua agonia!... Mas escutai; lá fora ruge uma tormenta de ódio contra o perseguido Jesus Cristo... O eco dos séculos vai gritando ante as grades de seu cárcere, a blasfêmia horrenda do povo grita: “És réu de morte... Crucifica-o!” Que mal nos fez esse Deus ensangüentado?...Almas piedosas que desejas consolá-lO, vede-O chegar nesta Hora Santa, pressionado sob o peso de Sua Cruz... Vem ferido na alma, percorrendo uma Via Dolorosa que parece não ter fim... Vem, mas abraçado sempre a Seu patíbulo. Ama-nos tanto! Vede-O. Chega agoniado, perdido a formosura de Seus olhos na formosura de Suas lágrimas. Vem exausto de sangue e transbordante em misericórdia Seu doce Coração...

Já está aqui... Oh, mistério inefável!... Se compreendêssemos o dom desta aproximação de Jesus, a graça incomparável de sua vizinhança consoladora no Sacrário... Está aí... A um passo... Ao abençoar-nos, à sombra de Sua mão nos atinge...

(Breve pausa)

E o que é que procura? Uma trégua a Suas dores... Quer o amor de Seus amados... Que venha então. Ah, sim!... Que venha repousar nesta Hora Santa ao calor de afeto de nossas almas compassivas.

Os anjos do Santuário escutam abismados uma harmonia triste e misteriosa: é como o eco, nunca apagado, de um divino lamento: o de Getsemaní... É o gemido salvador da Gólgota, que parece repercutir ao renovar-se este sacrifício incruento do altar... Desde o fundo do Sacrário, Seus lábios, encharcados na amargura de todas as ingratidões, nomeiam-nos com bênção de amor a todos os que nesta Hora Santa viemos chorar com Ele a desventura de Seu amor menosprezado. É grande, que imensa é a dor que Lhe atormenta... Mas é maior ainda, é infinito, o amor que o tortura!...

Quanta dignidade a deste Salvador! Quer confiar-nos Suas tristezas; está ansioso de desafogar conosco a decepção sofrida com tantos que, tomados de favores, chamaram-se Seus discípulos, e depois O abandonaram... Mais fiéis ainda do que São Pedro, que São Tiago e que São João no Horto da agonia, escutemo-lO nós, pois quer falar-nos pela ferida de Seu amante Coração.

(Pausa mais longa)

(Solicita com fervor e humildade a graça de escutar a voz do Senhor, que pede e que se queixa)

(Lento)

Voz do Mestre. Fazia tanto tempo, alma querida, que vos aguardava aqui na Hóstia para contar-vos o amor que Me devora... Abençoo-vos, porque tiveste compaixão de vosso Deus encarcerado, sumido em amarga solidão... Tinha sede de vós... Por fim vos venci... Admite vós mesmo, sim, repete-me que Meu Coração vos venceu... Assegura-Me em seguida que Me amas... Que vós também sentes sede de Mim, e sede devoradora... Longe de Meu lado, vós, que és pó e nada, quantas vezes riste e gozaste... Eu sem vós, Eu, vosso Deus, por recobrar-vos, deixei aos anjos, deixei aos céus, e, depois de trinta e três anos de agonia, expirei num madeiro...

Rompeste um dia minhas correntes... E livre de Meus braços pela culpa, ai, como pudeste amar tão triste liberdade?... Olhe as mudanças, os disfarces que na terra Me forjei para atar-Me a vosso ingrato coração... Aqui me tens, constituído Prisioneiro ditoso de vosso amor... Como me pagaste?

Perdoo-vos; mas sereis desde hoje, em desagravo, inteira e eternamente Meu... Filho tão amado, contempla-Me traído e só..., só e blasfemado..., só e escarnecido..., só e sempre abandonado. Como Me fere esse esquecimento, sobretudo o dos bons; como Me magoa a covardia e indiferença dos que se chamam Meus amigos!...

Tenho aqui o Coração que tanto amou aos homens, e dos quais é tão mal correspondido... Terá dor semelhante a Minha dor?... Minha alma está triste até a morte... Acerca-vos, põe os lábios na ferida de Meu lado, e, em reparação de amor, diga que Me amas com todo vosso coração, com toda vossa alma e todas vossas forças. Dá-Me de beber vossa alma... Tenho sede de vossa felicidade...

(Cortado e muito lento)

Chamei a vossa consciência tantas vezes por Minha graça, e emudeceste... Recordas?... Perdôo vosso desdém e vosso silêncio... Esperei muito próximo de vossa alma semanas, meses, longos anos...; Supliquei-vos que Me abrisses... E me recusaste... Lembras-vos?... Perdôo essa cruel deslealdade... Arrojado de todas as partes... Mendiguei um consolo e o albergue de vosso coração... Por respeito humano, por falta de abnegação ou por indiferença, Me negaste-o ... Recordas?... Esqueço essa perfídia... Quando repartias carinho a todos, pedi para Mim uma centelha desse afeto... Todas as criaturas chegam sempre a tempo, todas... E Eu, alma querida, por que só Eu chego sempre tarde?... Por que Me feres?... Quando e em que vos tenho contristado?... Responde-Me!

(Breve pausa)

(Cortado)

Tive fome de dar consolo aos enfermos e aos tristes... Procurei um refúgio nas casas da dor humana...; Entrei com ousadia nelas, pois sou o Deus consolador de todas as misérias... E aqui Me têm jogado com ignomínia de centenas de hospitais, da cabeceira dos anciãos e dos berços dos órfãos... Que mal vos fez Minha compaixão e Minha ternura?... Oh! Vocês, filhinhos Meus, amai-Me, em reparação de tanta crueldade... Amai-Me muito. Sou Jesus...

Tive sede de um amor sem mancha: o das flores da infância... Procurei o carinho dos meninos, pois ao baixar do Calvário de Minhas decepções recordei os lírios e as brisas de Minha Nazaré inesquecível, quando Eu também fui Menino... Oh, dor!... Escuta, alma consoladora, como os que se chamam sábios no mundo Me renegam e amaldiçoam... Que mal fiz a vossos filhos?... Amai-Me, oh! Amai-Me muito. Sou Jesus...

Estive ansioso de fazer-vos felizes, dando-vos a verdadeira paz, que o mundo não possui, e vos roguei que me aceitásseis, como um dos vossos, no íntimo de vosso lar... Quis constituir-me e ser chamado o Pai, o Esposo adorado, o Irmão inseparável... E o lar Me despediu... Mas não Me irei... Ah, não! Aqui me tendes aguardando com doçura que um pesar me abra, ainda que tarde, sua porta, pois as de Meu Coração jamais se fecham. Eu sou Jesus, a paz e o amor das famílias... Deixai em Minha frente, se quereis, a coroa dos espinhos, deixai-a sangrenta e crudelíssima, mas dai-Me, vo-lo peço por Minha Mãe, dai-Me hospedagem em vossas casas, consenti que Eu reine no lar... Amai-Me na família...; Sou sua vida... Amai-Me muito, porque eu sou Jesus.

(Pausa longa)

E agora, fala-Me vos, alma ditosa; fala-Me em íntima confiança, a este Deus que é todo caridade... Eis Me aqui, benigno e manso, sou Jesus de Nazaré... Que poderia negar-vos nesta Hora Santa, em que vieste compartilhar Meus abandonos e Minhas agonias?... Aqui tens; entrego-vos o Coração que tanto vos amou...: Não posso conter os ardores do amor que vos professo... Chama-Me, e serei mil vezes vosso...; Fala-Me, sou vosso Irmão...; Adora-Me, sou vosso Deus... Consola-Me, com todo o amor de vossa alma... Eu sou Jesus...

(Pausa)

(Enquanto tantos bons dormem, enquanto tantos desgraçados pecam, o Senhor Jesus segue agonizando misticamente no Sacrário... Aproximemo-nos e falemos, em doce intimidade, a Seu Coração que nos aguarda)

(Lento e sempre cortado)

Voz da alma. Que tenho eu, Senhor Jesus, que Vós não me tenhas dado? O que sei eu, que Vós não me tenhas ensinado? O que valho eu, se não estou a Vosso lado? O que mereço eu, se a Vós não estou unido? Perdoa-me os erros que contra Vós tenho cometido! Pois me criaste sem que eu o merecesse, e me redimiste sem que eu o pedisse... Muito fizeste em criar-me, Muito em redimir-me. E não será menos poderoso em perdoar-me. Pois o muito sangue que derramaste, e a acerba morte que padeceste, não foi pelos anjos que Vos adoram, senão por mim e o restante dos pecadores que Vos ofendem...

Se Vos neguei, deixa-me reconhecer-Vos; se Vos injuriei, deixa-me adorar-Vos; se Vos ofendi, deixa-me servir-Vos, porque é mais morte do que vida, a que não está empregado em Vosso santo serviço.

(Breve pausa)

Que bem me encontro assim..., reclinado maciamente no céu de Vosso peito!... É este, só este, o lugar de meu descanso eterno...; Este, o Tabernáculo onde escuto Vossas palavras de vida e Vossas lamentações de amor e sacrifício... Deixa de sofrer, Mestre e atende o hino de minha alma, ansiosa de confundir-se, num abraço eterno, com a Vossa, escuta-me, Jesus irmão:

(Lento)

Coração de Jesus, dulcíssimo com os pecadores: um pecador Vos fala...

Coração de Jesus, caminho dos extraviados: um pródigo Vos procura...

Coração de Jesus, suavidade dos que sofrem: um desgraçado chama em Vosso santuário...

Coração de Jesus, amigo fidelíssimo do homem, um amigo ingrato está aqui e Vos chora...

Coração de Jesus, bonança nas contínuas vacilações da vida; uma alma combatida Vos chama em seu socorro... Coração de Jesus, fogueira de santidade no amor; minha alma anseia saciar-se em Vós de amor e santidade...

Coração de Jesus agonizante, esperança dos moribundos, lembra-Vos dos que nesta mesma hora lutam nas convulsões da morte... Tem piedade dos agonizantes, os salva segundo Vossa grande misericórdia... Envia-lhes, Senhor, o anjo de Getsemaní, e acerca a seus lábios que já não podem chamar-Vos o cálice de Vosso Coração piedoso. Jesus... com os moribundos mais desamparados!...

(Pedi pelos agonizantes)

(Pausa)

Vossa terna Mãe e Vossa Cruz são testemunhas desta Vossa amabilíssima palavra: “Vim em procura dos enfermos, dos extraviados..., das ovelhas perdidas de Israel”. A Virgem Maria recolheu zelosa, em benefício dos pecadores, Vossas lágrimas de sangue. Em união, pois, com Ela, boa, misericordiosa, refúgio de pecadores e caídos, peço-Vos por aqueles que ao ofender-Vos não sabem o que fazem... O mundo lhes condena inexorável; mas Vos, que conheces a fraqueza humana e que lês tão adentro dessas almas infelizes, Vós, Jesus, tem piedade, tem paciência, tem perdão para com elas em Vosso amável Coração... Peço-Vos, rogo-Vos, em nome de Vossa Eucaristia, pelos pobres pecadores... Perdoa-os, Jesus, e escreve seus nomes no livro da vida...

Divino Salvador das almas, coberto de confusão me prostro em Vossa presença, e, dirigindo minha vista ao solitário Tabernáculo, sinto oprimido o coração ao ver o esquecimento em que Vos têm relegado tantos dos redimidos. Mas já que com tanta condescendência permites que nesta Hora Santa uma de Vossas lágrimas às que verteu Vosso benigno Coração, rogo-Vos, Jesus, por aqueles que não rogam..., louvo-Vos por tantos que Vos amaldiçoam, e com todo o ardor de minha alma Vos clamo e Vos adoro em todos os sacrários da terra... Aceita, Senhor, o grito de expiação que um pesar sincero arranca de nossas almas afligidas... Elas vos pedem piedade... Por meus pecados, pelos de meus pais, irmãos e amigos.

(Todos, em voz alta)

Piedade, oh Divino Coração!

Pelas infidelidades e sacrilégios.

Piedade, oh Divino Coração!

Pelas blasfêmias e profanações dos dias santos.

Piedade, oh Divino Coração!

Pela libertinagem e os escândalos públicos.

Piedade, oh Divino Coração!

Pelos corruptores da juventude.

Piedade, oh Divino Coração!

Pela desobediência sistemática à santa Igreja.

Piedade, oh Divino Coração!

Pelos crimes dos lares, pelas faltas dos pais e dos filhos.

Piedade, oh Divino Coração!

Pelos atentados cometidos contra o Romano Pontífice.

Piedade, oh Divino Coração!

Pelos transtornadores da ordem pública social cristã.

Piedade, oh Divino Coração!

Pelo abuso de sacramentos e o ultraje a Vosso santo Tabernáculo.

Piedade, oh Divino Coração!

Pela covardia dos ataques da imprensa, pelos maquinadores de seitas tenebrosas.

Piedade, oh Divino Coração!

E, por fim, Jesus, pelos bons que vacilam... Pelos pecadores obstinados, que resistem a Vossa graça...

Piedade, oh Divino Coração!

(Pausa)

As doze promessas

Não nos basta, Senhor, Vossa misericórdia... Vossos interesses são os nossos, queremos Vosso Reinado... Pedimos, bom Jesus, que cumpras conosco as promessas que fizeste a Vossa confidente Margarida Maria em benefício das almas que Vos adoram na formosura indizível, na ternura inefável, no amor incompreensível de Vosso Sagrado Coração. Por isso Vos pedimos com Vossa santa Igreja, suplicamos-Vos pela Virgem Mãe, exigimos-Vos pela honra inviolável de Vosso nome, que estabeleças já, que apresses o reinado de Vosso amante Coração.

(Todos, em voz alta)

Venha a nos o reinado de Vosso amante Coração.

. Jesus, reine logo, antes que Satanás e o mundo arrebatem as consciências e profanem em Vossa ausência todos os estados da vida...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. Jesus, triunfe nos lares, reine neles pela paz inalterável, aos que Vos receberam com hosanas...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. Não demores, Mestre muito amado, porque muitos destes padecem aflições e amarguras que só Vós prometeste remediar...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

4ª. Vem..., porque és forte..., Vós, o Deus das batalhas da vida... Vem, mostrando-nos Vosso peito ferido como esperança celestial na hora da morte...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

5ª. Seja Vós o sucesso prometido em nossos trabalhos, só Vós a inspiração e recompensa de todas as empresas.

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. E Vossos prediletos, quer dizer, os pecadores, não esqueças que para eles, sobretudo, revelaste as ternuras incansáveis de Vosso amor.

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

7ª. ... São tantos os mornos, Mestre, tantos os indiferentes a quem deves inflamar com esta admirável devoção!

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. “Aqui está a vida”, disseste-nos, mostrando-nos Vosso peito atravessado... Permite, pois, que aí bebamos o fervor, a santidade, a que aspiramos...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

9ª. Vossa imagem, a pedido Vosso, foi entronizada em muitas casas... Em nome delas Vos suplico sigas sendo, em todas, o Soberano muito amado...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

10ª. Põe palavras de fogo, persuasões irresistíveis, vencedoras, naqueles sacerdotes que Vos amam e que Vos pregam como São João, Vosso Apóstolo amado...

Venha a nos o reinado de Vosso amante Coração.

11ª. E a quantos ensinem esta devoção sublime, a quantos publiquem vossa inefáveis maravilhas, reserva-lhes, Jesus, uma fibra vizinha àquela em que tens gravado o nome de Vossa Mãe...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

12ª. E, por fim, Senhor Jesus, dá-nos o céu de Vosso Coração enquanto compartilhamos Vossa agonia na Hora Santa, por esta hora de consolo e pela Comunhão das primeiras sextas-feiras; cumpre conosco Vossa promessa infalível... Pedimos-Vos que na hora decisiva da morte...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

(Pedi-lhe que cumpra suas promessas de vitória, que reine nas almas e na sociedade).

(Pausa)

No seio de meu lar, bom Jesus, há penas muito fundas e secretas... Se Vós reinasses entre os meus com toda a intensidade de amor que Vós mereces, ah! Não haveria em minha casa tantos e tão amargos pesares!... Vem, vem! Amigo de Betania, pois em minha família há alguém que está enfermo e Vós o amas... Quando Vós estás, as mesmas penas são suaves, e a Vosso lado, os espinhos têm bálsamo de paz... Vem, pois, e não tardeis, amigo de Betania... Apressa-Vos, porque meu lar está ferido com a ausência de seres queridos que faltam nele: pai, mãe e irmãos, todos crescemos junto ao pé da Cruz...

Ah! E depois essa mesma Cruz, por vontade do Céu, foi-nos separando do ninho santo do lar... Tem piedade desses amados ausentes, que trabalham e lutam longe da família, e talvez também longe de Vosso altar... E venha logo a nosso lado, Jesus, Amigo doce de Betania!

(Nomeai os seres queridos do lar, os pródigos por quem vos interessam).

(Breve pausa)

Mestre, Irmão, Amigo da alma, Jesus querido, tem misericórdia também dos meus que morreram, daqueles que foram à eternidade em seguimento Vosso... Dormem em paz porque Vos amaram, e porque Vós és infinito em caridade... Mas, ao ir-se..., Deixaram-nos sombras e tristezas na alma..., Espinhos e uma tumba no caminho... Ah! Mas bem sei eu que em Vosso Coração amabilíssimo não pode ter separações; nele, onde está a vida, desaparece a horrível morte... Por isso Vos peço paz sobre suas tumbas, e aos que ficamos gemendo neste vale de lágrimas, dá-nos a resignação que levanta, o desapego da terra e o amor do sofrimento, que nos una inseparavelmente a Vós...

(Nomeai a vossos mortos tão queridos, inesquecíveis).

(Pausa)

Não fechais ainda a preciosa ferida de Vosso lado: tenho que Vos pedir, em especial, pelos que sofrem, por aqueles, Senhor Jesus, que Vos procuram com olhos cansados de chorar..., Por tantos a quem a desgraça, os duelos, as decepções, a pobreza, as doenças ou suas próprias fraquezas feriram de morte... Nazareno amabilíssimo, Vós sabes, por amarguíssima experiência, quão pulsantes são os espinhos do caminho... Consola, pois, aos atribulados...Tem piedade dos que sofrem...

(Pedi-lhe força de consolo nas tribulações)

De mim não Vos falei, porque me confiei sem reservas a Vosso Divino Coração... Vós, que tanto me amas e que és o único em compreender-me, não quererás seguramente esquecer-me. Oh, Jesus: escuta minha última prece, unida sempre à agonia de Vosso Coração Sacramentado!... Inclina-Vos e atende-me benigno...

(Cortado e lento)

Quando os anjos de Vosso Santuário Vos louvarem na Hóstia Sacrossanta... E eu me encontrar na agonia..., Seus louvores são os meus..., Lembra-Vos do pobre servo de Vosso Divino Coração... Quando as almas justas da terra Vos clamam acendidas em amor... E eu me encontre na agonia... Seus trabalhos e suas lágrimas são as minhas..., Lembra-Vos do pródigo, resgatado por Vosso Sagrado Coração.

Quando Vossos sacerdotes, as virgens do templo e Vossos apóstolos vos aclamarem Soberano, pregarem-Vos às almas e Vos entronizarem nos povos... E eu me encontre na agonia..., seu zelo e seus ardores são os meus..., Lembra-Vos do apóstolo de Vosso Divino Coração.

Quando a Igreja orar e gemer ante o altar, para redimir conVosco o mundo..., E eu me encontre na agonia..., seu sacrifício e sua prece serão os meus..., Lembra-Vos do amigo de Vosso Sagrado Coração.

Quando, na Hora Santa, Vossas almas amadas, amando e reparando, fizerem Vos esquecer abandonos, sacrilégios e traições..., E eu me encontre na agonia..., seus colóquios contigo e seus consolos são os meus..., lembrar-Vos deste altar e desta vítima de Vosso Divino Coração.

Quando Vossa divina Mãe Vos adorar na Sagrada Eucaristia e repare aí os crimes infinitos da Terra..., E eu me encontre na agonia..., Suas adorações serão as minhas..., lembra-Vos do filho de Vosso Sagrado Coração.

Oh, sim! Lembra-Vos desta criatura miserável, que Vós tanto amaste... Recorda que lhe exigiste que se esquecesse de si mesma por Vosso amor... Mas não, Senhor; esquece-me se queres, com a condição que me deixes esquecido para sempre na chama formosa de Vosso amante Coração... Ah! e cuida, Jesus, do meu coração; desprende-o de tudo afeto terreno..., Vela por esta alma, encadeada deliciosamente a Vosso Sacrário, e alimenta nela o fogo santo em que Vos abrasas... Oh, abrasa-me, Senhor Jesus..., Acende-me em Vossa caridade, pois almejo amar-Vos até a paixão, até a insensatez, até o delírio, com amor mais forte do que a morte!...

(Pausa)

(Cortado)

Que tenho eu, Senhor Jesus, que Vósnão me tenhas dado? Despoja-me de tudo, de Vossos próprios dons; mas abisma-me na fogueira de Vosso ardente Coração. O que sei eu, que Vós não me tenhas ensinado?... Esqueça eu a ciência sombria da terra e da vida, e em mudança, conheça melhor a Vós, oh, amável Coração!...Que valho eu, se não estou a Vosso lado? O que mereço eu, se a Vós não estou unido?...Une-me, pois, a Vós, com vínculo que seja eterno... Renuncio a todas as delícias de Vosso amor, com tal de possuir perfeitamente este outro Paraíso, o de Vosso terno Coração... E nele sepulta, oh, sim, os erros que contra Vós cometi..., E castiga, e vinga-Vos de todos eles ferindo com dardo de acendida caridade ao que tanto Vos ofendeu.

E se Vos neguei... Deixa-me reconhecer-vos na Eucaristia em que Vós vives...; Se Vos ofendi, deixa-me servir-Vos em eterna escravidão de amor eterno, porque é mais morte do que vida a que não se consome em amar e em fazer amar Vosso esquecido, Vosso amoroso, Vosso divino Coração. Venha a nós Vosso reino!

(Padre Nosso e Ave-Maria pelas intenções particulares dos presentes; Padre Nosso e Ave Maria pelos agonizantes e pecadores; Padre Nosso e Ave-Maria pedindo o reinado do Sagrado Coração mediante a Comunhão freqüente e diária, a Hora Santa e a Cruzada da Entronização do Rei Divino em lares, sociedades e nações).

(Cinco vezes)

Coração Divino de Jesus venha a nos Vosso reino!

Fórmula de consagração individual ao Sagrado Coração de Jesus,
composta por Santa Margarida Maria

Eu N. vos dou e consagro, ó Sagrado Coração de Jesus Cristo, minha pessoa e minha vida, minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte de meu ser senão para Vos honrar, amar e glorificar.

É esta minha vontade irrevogável: ser todo Vosso e tudo fazer por Vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto Vos possa desagradar. Tomo-Vos, pois, ó Sagrado Coração, por único objeto de meu amor, protetor de minha vida, segurança de minha salvação, remédio de minha fragilidade e de minha inconstância, reparador de todas as imperfeições de minha vida e meu asilo seguro na hora da morte.

Sede, ó coração de bondade, minha justificação diante de Deus, Vosso Pai, para que desvie de mim Sua justa cólera. Ó coração de amor! Deposito toda a minha confiança em Vós, pois tudo temo de minha malícia e de minha fraqueza, mas tudo espero de Vossa bondade!

Extingui em mim tudo o que possa desagradar-Vos, ou se oponha à Vossa vontade. Seja o Vosso puro amor tão profundamente impresso em meu coração, que jamais possa eu esquecer-Vos, nem separar-me de Vós. Suplico, por Vosso infinito amor, que meu nome seja escrito em Vosso coração, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer como Vosso escravo. Amém.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Santíssimo Sacramento, a vida da Igreja - VI - A Exposição

SANTÍSSIMO SACRAMENTO
A VIDA DA IGREJA
 
 
VI - Exposição
 
O quinto mistério do Santíssimo Sacramento é a Exposição, prova de solicitude maternal que a Igreja pode conceder a seus filhos. Luiz da Ponte diz que a vista do Santíssimo Sacramento levantemos os olhos humildemente no momento da elevação na missa e imitemos a Zaqueu que, oculto entre os galhos do sicômoro, esforçava-se por distinguir os traços do Salvador, quando este passava.
 
Que tesouro, portanto, para o espírito de adoração, quando, durante longas horas de tranquilidade, a Igreja o expõe a nossas adorações, para satisfazer o ardor do nosso amor! Creio que foi Lanzi quem deu três métodos de devoção na exposição para os que preferem seguir um método previamente traçado.
 
O primeiro consiste em considerar Jesus colocado sobre o Seu trono como a serpente de bronze levantada por Moisés no deserto e sobre a qual bastava voltar os olhares para ficar-se curado das feridas mortais causadas pelos reptes venenosos; com efeito, é esse um dos tipos mais belos e mais notáveis de Nosso Senhor, em Sua missão de Redentor. Todos fomos mordidos pela serpente infernal; sofremos as conseqüências das feridas, e é para Ele que devemos voltar os olhares; e um olhar basta para operar a cura.
 
Podemos também contemplá-lO sobre o Seu trono, onde está exaltado, e adorar nEle o chefe da Criação, conforme a passagem do Apocalipse:
 
"O Amem, testemunho fiel e fidedigno, que é o começo da criação de Deus".
 
Aproximemo-nos dEle, como se fossemos acompanhados por todas as Suas criaturas, apresentamo-nos para receber a bênção e deixemos os corações darem-se livre curso a alegria que sentimos de sermos Suas criaturas com efeito, vai ali para nós, se o sabemos apreciar, a maior das honras e o mais precioso dos nossos direitos.
 
Enfim, como já o disse, podemos considerá-lO como nosso Juiz, comparando a amável e silenciosa majestade da Hóstia com a glória fulgurante que cercará o filho de Deus no dia solene do Julgamento; e previnamo-nos contra o terror, que a severidade do Juiz inspira, reconciliando-nos agora com a doçura do Sacramento.
 
(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus, pelo Pe. Frederick William Faber, continua com o postO Viático)
 
PS: Grifos meus.

A ilusão da misericórdia sem conversão

A ilusão da misericórdia sem conversão
(Santo Afonso Maria de Ligório)


"Pode ser que haja, no meio de vós, meus irmãos, alguém que se encontre com a alma carregada de pecados e que -- longe de pensar em se livrar deles pela confissão e penitência -- não cessa de cometer novos pecados, se sobrecarregando ainda mais. Este, certamente, abusa da misericórdia divina; pois, a que fim nosso Deus tão bom deixa que este pecador viva senão para que ele se converta e, por conseqüência, escape da desgraça de perder sua alma?

"Ele merece as severas censuras que o Apóstolo dirigiu ao povo judeu impenitente: 'Porventura desprezas as riquezas da bondade, da paciência e da longanimidade de Deus? Ignoras que Sua bondade te convida à penitência? Mas que na tua dureza e coração impenitente, acumulas para ti um tesouro de ira no Dia da Ira e da manifestação do justo juízo de Deus' (Rom II 4,5).

"Eu quero vos afastar, meus irmãos, desse funesto abuso, e vos preservar da desgraça de cair na morte eterna do inferno. A esse propósito, chamo vossa atenção para a seguinte verdade: Quando uma alma abusa da misericórdia divina, a misericórdia divina está bem próxima de a abandonar...

"Santo Agostinho observa que, para enganar os homens, o demônio emprega ora o desespero, ora a confiança.

Após o pecado, o demônio nos mostra o rigor da justiça de Deus para que desconfiemos de Sua misericórdia. Entretanto, antes do pecado, o demônio nos coloca diante dos olhos a grande misericórdia de Deus, a fim de que o receio dos castigos, devidos ao pecado, não nos impeça de satisfazer nossas paixões...

"Essa misericórdia sobre a qual vós contais para poder pecar, dizei-me, quem vo-la prometeu? Não Deus, certamente, mas o demônio, obstinado em vos perder. Cuidado!, diz São João Crisóstomo, de dar ouvidos a este monstro infernal que vos promete a misericórdia celeste...
"'Deus é cheio de misericórdia, eu pecarei e em seguida confessar-me-ei'. Eis aí a ilusão, ou antes, a armadilha que o demônio usa para arrastar tantas almas ao inferno!...

"Nosso Senhor, aparecendo um dia a Santa Brígida, queixou-Se: 'Eu sou justo e misericordioso, mas os pecadores não querem ver senão minha misericórdia' (Ego sum justos et misericors; peccatores tantum misericordem me existimant - Rev. 1. I. c. 5). Não duvideis, diz São Basílio, que Deus é misericordioso, mas saibamos que Ele é também justo, e estejamos bem atentos para não considerar apenas uma metade de Deus. Uma vez que Deus é justo, é impossível que os ingratos escapem do castigo.... Misericórdia! Misericórdia! Sim, mas para aquele que teme a Deus, e não para aquele que abusa da paciência divina!".

(Sermons de S. Alphonse de Liguori, Analyses, commentaires, exposé du système de sa prédication, par le R.P. Basile Braeckman, de la Congrégation du T. S. Rédempteur, Tome Second. Jules de Meester-Imprimeur-Éditeur, Roulers, pp. 55-60, apud Revista Catolicismo, número 572, agosto/1998, página 37).

PS: recebido por e-mail, mantenho os grifos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Educação sobrenatural - Parte VII

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL


PARTE VII- A GRAÇA E OS ÚLTIMOS FINS

A GRAÇA

É possível fazer compreender à criança alguma coisa do mistério tão profundo da graça?
"Perguntai-lhe, por exemplo, se antes quereria morrer do que renunciar a Jesus Cristo; ela responderá: Sim. Acrescentai:

- Ora! tu deixarias lá cortar a cabeça, para ir para o paraíso!
- Sim.

Até aí a criança acredita que terá bastante coragem para o fazer. Mas vós que quereis fazer-lhe sentir que não se pode nada sem a graça, não adiantareis nada, se lhe disserdes simplesmente que tem necessidade da graça para ser fiel; ela não entende essas palavras e, se a acostumardes a dizê-las sem as compreender, nada tereis alcançado. Que fareis, pois? Contai-lhe a história de São Pedro; recordai-lhe o que ele disse num tom presunçoso? 'Se for preciso morrer, eu Vos seguirei; quando todos os outros Vos deixarem, eu nunca Vos abandonarei'. Depois descrevei-lhe a sua queda: negou três vezes Jesus Cristo; uma criada meteu-lhe medo. Dizei por que permitiu Deus que ele fosse tão fraco; depois servi-vos de comparação duma criança ou dum doente, que não poderiam caminhar sós, e fazei-lhe compreender que temos necessidade de que Deus nos leve, tornareis sensível o mistério da graça."
(Fenelon)

OS ÚLTIMOS FINS

Que é que a criancinha pode saber dos últimos fins?
Pode saber que a alma não morre; que no momento a que se chama a morte, ela comparece diante de Deus, que julga, a recompensa ou a pune.

"As crianças vêem morrer alguém; sabem que se enterra; dizei-lhes:
- Este morto está no túmulo?
- Sim.
- Não está, então, no paraíso? [se buscou e alcançou a santidade na terra]
- Perdão: está.
- Como está no túmulo e no paraíso ao mesmo tempo?
- É a sua alma que está no paraíso; é o sei corpo que se enterra.
- Então a sua alma não é o corpo?
- Não.
- A alma não está morta?
- Não, viverá sempre no céu.

Acrescentai:

- E queres também salvar-te?
- Quero.
- Mas que é a salvação?
- É ir a alma para o paraíso quando morre.
- E a morte o que é?
- É a alma deixar o corpo e o corpo transformar-se em pó."
(Fenelon)

Que é preciso fazer para dar às crianças uma idéia da felicidade e da desgraça eterna?
É preciso empregar comparações.

"Comparai por exemplo, uma gota de orvalho com toda a água da garrafa que têm diante dos olhos; depois com toda a água dum rio, que elas conhecem bem; e enfim, com toda a água do mar... Compreenderão muito bem, asseguro-vos. Continuai em seguida o vosso raciocínio, servindo-vos sempre de comparações familiares, tiradas dos objetos que tendes à vista.

- Vedes bem, então, lhes direis, que a felicidade que se desfruta no mundo não é verdadeira felicidade, pois que depressa acaba. Divertiste-te muito em agosto [nas férias] ? Mas esse prazer agora passou, ao passo que no céu a felicidade dura sempre.

- Tu sofrestes muito outro dia, meu Paulino, quando o doutor incentou o abcesso que tinhas na face. Dói-te ainda? Não, não é verdade? As dores deste mundo não são, pois, grande coisa, porque não duram sempre: no inferno, pelo contrário, seremos sempre desgraçados. Devemos evitar, acima de tudo, a desgraça que não acaba.

Por conseqüência, é preciso ir para o céu a todo o custo, e são bem loucos aqueles que desobedecem gravemente neste mundo aos mandamentos do bom Deus, pois que pagarão um pequeno momento de prazer com um castigo eterno".
(Charruau, Às mães, p. 122-123)

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: O meio principal desta instrução: o catecismo)

domingo, 26 de setembro de 2010

Santíssimo Sacramento, a vida da Igreja - V - Tabernáculo

SANTÍSSIMO SACRAMENTO
A VIDA DA IGREJA
 
V- Tabernáculo 

 
 
O Tabernáculo é o quarto mistério do Santíssimo Sacramento. Como é admirável a vida de paciência e de silêncio que Jesus leva nesta prisão do Seu amor!
 
Tudo quanto toca a Nosso Senhor é marcado com o selo da duração. Não é um relâmpago que brilha e se apaga, não cortando a escuridão da noite senão para aumentar-lhe o horror. Não é uma visita que passou antes que lhe reconhecêssemos as feições. Tal como os Apóstolos O viram, mantendo-Se pacificamente entre eles em todo o esplendor da Sua ressurreição, quando lhes disse: "Tocai-me e vede-me", assim permanece Ele hoje entre nós no Santíssimo Sacramento, afim de que aprendamos a conhecê-lO, a vencer a agitação que nos possui, quando em Sua presença, a recobrarmo-nos da nossa surpresa, e, se for possível, a nos familiarizar com Aquele que deve ser nosso hóspede durante todo o curso da nossa vida.
 
Ali, podemos vir expor os nossos pesares, os nossos cuidados, as nossas necessidades todas as horas do dia, quando a igreja está silenciosa e deserta. Somos livres de escolher o nosso tempo, e a duração das nossas visitas pode variar segunda as exigências do nosso amor.
 
Há na simples e silenciosa proximidade do Santíssimo Sacramento uma unção e um poder que nenhuma palavra poderia exprimir. Os membros das comunidades Religiosas acostumados a repousar sob o mesmo teto que o Santíssimo Sacramento conhecem este sentimento de melancolia misturado com ansiedade, esta penosa sensação de uma ansiedade sempre insatisfeita que os não deixa quando afastados da sua piedosa moradia. Este movimento febril que sentem na Sexta-Feira Santa, procede do sentimento de estar o Santíssimo Sacramento ausente da casa.
 
Há de necessidade haver tantos modos de frequentar o Santíssimo Sacramento quantas são as almas humanas existentes. Uns vêm para ouvir; outros, para falar; estes para se confessar a Ele, com a um Diretor; aqueles para fazer exame de consciência perante Ele, como Juiz; outros para Lhe render homenagem, como a um Rei; outros estudam nEle o doutor e o profeta; outros, ainda, vêm-Lhe pedir asilo, como a Seu Criador. Há os que sentem alegria em meditar sobre a Sua Divindade, sobre a Sua Santa Humanidade ou sobre os mistérios da estação. Há os que vêm para adorá-lO, cada dia sob um título diferente: como Deus, como Pai, como Irmão, como Pastor, como chefe da Igreja e assim por diante.
 
Há, enfim, os que vêm, quer para adorar, quer para estar junto a Ele; quer para implorar favores, quer para Lhe render graças, quer para Lhe pedir consolações; mas todos O visitam com amor e para com todos que O vêm visitar Ele é fonte de graças celestes, fonte fecunda, donde decorre uma multidão de bens, dos quais a criação toda junta não nos poderia conferir um só.
 
(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus, pelo Pe. Frederick William Faber, continua com o postA Exposição)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Santíssimo Sacramento, a vida da Igreja - A Bênção

SANTÍSSIMO SACRAMENTO
A VIDA DA IGREJA
 
IV- A Bênção
 
 
A Bênção é de algum modo o sacrifício da tarde, pois que geralmente é dada depois da hora do meio dia. Dir-se-ia que o sentimento e o instinto da devoção católica consagrariam de boa vontade ao Santíssimo Sacramento a segunda parte do dia, como haviam consagrado a primeira a Missa, como se não pudessem esperar pacientemente de uma manhã a outra, sem fazer alguma manifestação ou algum uso da Presença Sacramental de Jesus; ou, pelo menos, como se não pudessem, sem Ele, observar as Suas próprias testas, as de Sua Mãe, dos Seus anjos e dos Seus Santos.
 
Além disso, com desejo de corresponder a piedosa solicitude da multidão dos crentes, a Igreja Católica parece autorizar as diversas maneiras de honrar o SS. Sacramento com uma fertilidade que está sempre  na razão dos ultrajes e das blasfêmias que a perversidade, a heresia e a ignorância prodigalizam no mundo a cada mistério de amor. São Filipe viu um dia na Hóstia, durante a Exposição do Sacramento, Nosso Senhor dando a bênção a multidão prostrada a Seus pés, como se tal fosse a atitude natural e a ocupação ordinária da Sua bondade na divina Eucaristia.
 
Seria difícil achar palavras para exprimir, em toda a sua grandeza e realidade, as graças que o nosso doce Salvador espalha sobre nós na Bênção. Caem elas, não só sobre os cuidados e os pesares, sobre as turbações e tentações, as faltas e as imperfeições, que vimos depor a Seus pés; mas iluminam todos os refolhos da nossa alma, onde se ocultam as fraquezas que ignoramos, nos esclarecem a respeito da nossa posição presente, cujo perigo não suspeitávamos; exercem também Sua salutar influência sobre os espíritos malignos que nos cercam, ferindo-os de estupidez e de inércia, e sobre o nosso Anjo da Guarda, recompensando-lhe os seus cuidados caridosos, comunicando-lhe luzes e vigor novos para ajudar a preencher a sua piedosa missão.
 
Devemos também lembrar-nos que a graça da Bênção não consiste somente nos sentimentos da fé e amor que suscita em nossa alma, por maior que seja aliás tal benefício, mas que ela emana de Jesus Cristo, e que é a um tempo sólida, poderosa e substancial, dotada da faculdade de purificar e criar, porque participa da realidade do próprio Santíssimo Sacramento. Tudo quanto se refere a este mistério entra, sob véus sagrados, no santuário desta augusta realidade e reveste-se assim de uma vida à parte, que se não assemellha a nenhum outro objeto de devoção. É nesta realidade que reside a força atraente do Santíssimo Sacramento.
 
Não cabe agora encetar uma dissertação sobre as diversas práticas que os Santos recomendaram quanto a Bênção. Cada um seguirá neste particular a sua própria inclinação devota. Todavia, eis o que se pode dizer: Os Evangelhos mencionam três sortes de Bênção emanando de Nosso Senhor e podemos referir a uma ou outra destas três classes todas as bênçãos do Santíssimo Sacramento que recebemos.
 
Uma vez, abençoa os pequenos, as crianças, como é dito no décimo capítulo de São Marcos, e podemos em espírito prostrar-nos sob a Sua mão sacramental estendida para nos abençoar, como se fossemos, nós também, crianças; e digamo-Lhe o nosso vivo desejo de nos ver aumentada esta simplicidade infantil que tantos encantos tinha aos Seus olhos.
 
Além disso, lemos que no dia da Ascenção ao separar-se dos Apóstolos, Ele elevou as mãos ao céu e os abençoou e logo a Sua dor foi seguida de grande alegria e Sua timidez de um zelo intrépido em favor da salvação das almas: há instantes, em que, em face de certos deveres, desejaríamos sentir estas inestimáveis graças de zelo e alegria revividas em nossas almas tristes e languescentes.
 
Enfim, há a bênção do Juízo Final, que será pronunciada, como Ele próprio o disse, nestes termos: "Vinde, ó abençoados de Meu Pai; entrai no reino que Vos foi preparado desde antes da criação do mundo". Podemos unir-nos a esta bênção para implorar a graça da perseverança, o mais doce dos dons de Jesus, pois que nos vem unicamente d'Ele.
 
Há pessoas que são de tal modo oprimidas pelo pensamento da extensão das suas culpas e da variedade infinita dos dons do Senhor, que se contentam de curvar a cabeça e, cada vez que soa o sino, de repetir esta súplica de um santo do deserto: "Sicut scit et vis, Domine! Sabeis o que melhor nos convém e seja feita a Vossa vontade"; e depois, lembrando-se de que somos abençoados pela substância que Jesus recebeu de Maria, acrescentam estas palavras do ofício: "Et innumerabilis honestas cum ea! e toda a espécie de pureza com ela, como se estas suas orações jaculatórias contivessem tudo quanto os fiéis tem que dizer e tudo quanto quereriam neste momento depor aos pés do Redentor.
 
(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus, pelo Pe. Frederick William Faber, continua com o postO Tabernáculo)
 
PS: Grifos meus.

VIII. PEDRO

VIII. PEDRO


Dois sentimentos precipuamente se devem formar em nós à medida que se nos desenvolve aos olhos a dolorosa Paixão de Jesus.

A humildade primeiramente: se assim se trata a lenha verde, que se há de fazer da lenha seca? Esta comparação não nos deveria abandonar. Em seguida a confiança: os meus pecados já estão lavados; a parte mais pesada da expiação está feita, eu só tenho que me aplicar o preço deste Sangue, sei onde e como. Finalmente, cumpre ajuntar esse pensamento de consolação, amarga sem dúvida, porém real: como ocupei a atenção de Jesus durante os Seus padecimentos! Como devo ter estado presente à Sua agonia do Coração, às Suas torturas do Corpo! E então, por uma conseqüência natural, acrescentaremos: como deve Ele estar agora presente a todas as minhas dores!

De fato, não há doravante sofrimento algum da nossa vida que não possamos vir embeber no oceano da Paixão. A onda das nossas dores encontrará aí uma onda semelhante: o sangue tocará o Sangue. Fasciculus myrrhae inter ubera mea commorabitur (Ct 1, 2). A lembrança da Paixão cá está no meu seio, como um ramalhete espinhoso e agreste; é só inclinar-me para lhe respirar o eterno odor. Inclinemo-nos amiúde, ocasião não nos há de faltar.

É de todos estes sentimentos, diversa e freqüentemente amalgamados, que nascerá o amor.

Enquanto Jesus se vai abandonado e desolado, convém que esse amor O acompanhe, fiel e condolente. Porque Ele se vai; desta vez está tudo bem acabado, os dois grupos se distanciam mais e mais um do outro: os soldados com Jesus amarrado tornam a subir as encostas do Ophel, e os Apóstolos embrenharam-se pelo vale, do lado de Siloé e das atrás gargantas da Geena.

Que solidão cruel para o Salvador, no séquito compacto e grosseiro que O cerca, que silencio no Coração em meio ao tumulto dos guardas... Já não tem um amigo. É a solidão angustiosa do Coração. Experimentamo-la algumas vezes durante a vida, freqüentes vezes na velhice. Outra há, porém, que nos assustará mais, é a de nos encontrarmos sós diante de Deus, à nossa chegada ao desconhecido do além. Onde refugiar-me? Por quem chamar? Por que amigo? Que socorro? Tudo se desvaneceu, tudo se escoou, tudo passou; ó minha alma, faze de teu Juiz um amigo enquanto ainda é tempo; depois será tarde demais.

Entretanto, Pedro, que fugiu como os outros, enche-se de remorsos. Torna atrás, não esqueceu os seus protestos solenes e os seus múltiplos juramentos: “Ainda quando todos Vos abandonassem, eu, eu não Vos abandonarei”. Premido por este aguilhão retrocede. O cortejo já vai longe, segue-o ele a passos prudentes, dissimulando-se, ora avançando e ora recuando. Que ver como acabará tudo aquilo.

É um misto de curiosidade e de respeito humano que o faz voltar. Há amor sem dúvida, mas já não está em primeiro lugar. Ora, o amor que não domina, cedo é dominado. Em Pedro é uma chama que já se entibia; a voz de uma criada extingui-la-á de vez. Ai está amiúde de que se compõem as nossas fidelidades: a uma mecha que ainda fumega! Deus bem que se quer contentar com ela, contanto que lha consintamos reacender; mas nós Lhe disputamos ainda essa centelha mortiça.

Esta lamentável história de Pedro é bem simples. A queda está no termo do declive como fatal, inevitável. É a história de todas as ocasiões em que nos enleia a nossa presunção.

Pedro chegou com outro discípulo até à porta. Este outro faz sinal à porteira, que ele conhecia, para mandar entrar aquele; Pedro entra.

– É então um dos discípulos dEle? Pergunta curiosamente a mulher.

A pergunta era natural. Pedro responde pressurosamente, a fim de afastar desde logo qualquer suspeita:

– Não, não.

E passa.

Disse ele essa palavra sem lhe prestar grande atenção; aliás, a seus olhos não tem aquilo conseqüência: uma porteira!... Preocupado com o seu intento, mistura-se aos soldados; o outro discípulo, conhecido do Sumo Sacerdote, entrou mais a dentro na sala.

No átrio onde se agruparam os soldados, conversa-se em derredor da fogueira. Conta-se o que se passa e as peripécias da prisão de Jesus. Uns vão, outros vem. Pedro aquece-se indiferente, escutando, sem dizer palavra. Os soldados todos se conhecem entre si: reparam, pois, no estranho.

– Será um dos discípulos dEle? Dizem; e depois, diretamente a Pedro:

– És discípulo dEle?

– Ó homem, não sou.

A conversa se reata de contínuo a esta segunda mentira. Pedro viu nesta apenas um expediente para alcançar o seu fim: não percebe que desce. Uma hora decorre.

No entanto, acabam de esbofetear Jesus; Pedro ouve tudo, está ao corrente, as zombarias recrudescem após esse ultraje, ri-se aquela gente ruidosamente da bofetada dada e recebida. A porteira atarefada vem, sempre curiosa, rondar em torno ao fogo, atraída sem dúvida por aquela algazarra. Reconhece Pedro.

– Eh! Diz ela; aqui está um que era discípulo dEle. E poderia acrescentar: Pediram-me que o deixasse entrar.

– Tu estavas mesmo com Jesus de Nazaré? Pergunta diretamente a Pedro.

– Não, mulher, em verdade não sabes o que estás dizendo; eu, discípulo dEle?! Não vejo o que queiras dizer.

Era já demais, em verdade, Pedro, que mente com sempre maior descaro, sente que não poderá sustentar por muito tempo aquele papel. Retira-se, era prudente, e dirige-se para a porta, como para sair. O galo começava a cantar: poderiam ser duas horas da manhã. A mulher percebeu o movimento do apóstolo: ela adivinha, penetra-lhe a fraqueza.

– Pois não; diz aos soldados, ele bem que era discípulo.

Os soldados então interpelam Pedro:

– Oh! Sim! És dos dEle; não és galileu? Basta te ouvir falar para te reconhecer o sotaque. E além disto, acrescenta vitoriosamente um outro, eu te vi no horto, eu.

Ante esta dupla prova esmagadora, Pedro não pode prosseguir no seu sistema de negação. Tornar atrás, confessar que mentiu, não o pode tão pouco. Irrita-se então, começa a vomitar algumas imprecações que são mera explosão da sua cólera; depois, das imprecações passa às blasfêmias, e acaba por estas palavras:

Eu nem sequer conheço esse homem de quem me falais! – Oh! Pedro!

Pela segunda vez o galo cantou.

Nesse momento Jesus saía da sala para ir rematar dolorosamente a Sua noite no meio da criadagem e dos soldados. Passava a um canto do pátio; virou-se para Pedro e olhou-o.
A alma do apóstolo transtornou-se: ele sai, chora, não cessará mais de chorar.

Assim, uma palavra de Jesus não pôde penetrar o coração de Judas, – Amigo, que vindes fazer? – mas um olhar faz fundir-se o coração de Pedro. É o único consolo, aliás bem amargo, do Mestre, em meio àquela noite acerba, e quão caro é comprado!

Paremos um instante. Contemplemos Pedro a fugir na noite, sem saber aonde vai, com a alma liquefeita, coando-lhe pelos olhos; os soluços a estrangularem-lhe a garganta, e ele a repetir maquinalmente, – pois é o grito fatal de todo remorso que revolve incessantemente o dardo que feriu de morte – Eu nem sequer conheço esse homem de quem falais!... E contemplemos também Jesus na sala baixa, coberto com o molambo que Lhe lançaram no Rosto, de olhos cerrados, cheios de lágrimas, a repetir também, – pois é o grito supremo da dor curvada sobre as próprias feridas – Eu nem sequer conheço esse homem de quem me falais. Aí está com que os ocupar um e outro: Pedro todo o resto da vida, Jesus até à morte.

Porque foi que Pedro caiu? Foi simplesmente porque se expôs à ocasião? Não, ele se devia a si mesmo, devia a Jesus Cristo o ir expor-se. Há perigos que devemos afrontar sob pena de covardia.

Será que ele não amava a Jesus Cristo?

Ardentemente. Palavras nunca lhe faltaram para dizer do seu amor. E por que foi então que os atos não seguiram as palavras?

O amor de Pedro por Deus não ia até o desprezo de si mesmo, porque ele não se conhecia bastante. Se ele soubesse o de que era capaz, nunca teria entrado no átrio.

Nós nos cremos sempre melhores e mais fortes do que somos: então nos desculpamos hipocritamente e nos expomos temerariamente. Raramente o pecador peca por malícia absoluta: a prova é que se desculpa sempre aos próprios olhos e muitas vezes aos olhos dos outros.

Há razões, circunstancias atenuantes, Pedro tem seu fim a demandar: quer ver o desfecho; quem lho poderia censurar? Mas esquece que é fraco, que teve medo ainda há pouco, como os outros. Não há dúvida que voltou, e isto o encoraja aos próprios olhos, voltou sozinho, e isto já o faz talvez preferir-se secretamente aos outros: ele se ignora.

Bem sabe que está no meio dos inimigos de Jesus; será preciso astuciar, tergiversar, sim; daí a mentir é um passo, talvez; porém a trair e renegar, nunca – pensa ele. Fá-lo, entretanto, como por um secreto encantamento do mal que o fascina, que o empolga e o arrasta. Poderia ele supor que havia, dormitantes em seu coração, ao lado de tantas palavras de amor, tão horríveis blasfêmias e uma negação tão vergonhosa?
Pedro ignorava a sua própria essência. Pedro se tinha também por mais forte, e foi por isto que se expôs temerariamente.

Todo pecador que se põe em face de uma tentação age do mesmo modo. ‘Eu sou livre, sei o limite do meu dever, posso puxar as rédeas quando quiser e a tempo. Beberei só uma gota do cálice sedutor’... Desgraçado de quem não sabe ou se esqueceu que não se põem impunemente os lábios à taça, e que a gota que embriaga está muito perto da que dessedenta. Há no mal entrevisto, há nos sentidos acalentados, apelos imperiosos aos quais se torna tão difícil resistir quanto aos que em nós despertam a sede e a fome.

Ficar nos umbrais de uma tentação é já entrar. Entrá-la é sucumbir. Vigiai, orai, para não entrardes na tentação, diz o Mestre. É, conseqüentemente, a porta que cumpre vigiar. Meu Pai, não nos deixeis entrar na tentação, afastai-nos mesmo desse veneno estonteador e pérfido: é o último grito da oração do Senhor.

Assim o pecador se desculpa, assim se ignora. Ai! Tal é a nossa ignorância de nós mesmo, que não só o homem se desculpa para fazer o mal, como também se desculpa ainda depois de o haver feito.

A consciência acusa-o, ele reconhece a culpa, mas contende ainda. Diz que não podia resistir, – mas, e aquelas rédeas que devia puxar a tempo? – que bem começara a lutar, mas viu-se metido em declives fatais; que ademais o combate se porfiou, e que contra a sua vontade ferida chegavam sempre novas tropas... Finalmente, imagina, a luta já não era igual; se foi vencido, é que foi invadido; a força nada pode contra o número.

Pobre pecador, está na situação trágica do desgraçado atirado ao vácuo, mas que um instinto supremo suspende ainda por um instante a um beiral, sobre o abismo: vê ele o apoio a que se agarra vergar pouco a pouco e ceder lentamente. Tornar a subir não pode; e, no momento em que tudo lhe vai falhar, fecha os olhos e cai bradando: Fatalidade!

Este último grito acusa-o, porque, se ele sabia ser o abismo do vício tão fatal, por que se atirar dentro? Mas se faz de conta que não sabe, e arrisca-se, é arrastado. Eis aí o nosso maior mal. Pedro tinha esta ignorância e esta presunção.

As suas belas qualidades alimentavam-lhe no fundo um certo fogo secreto de estima pessoal, e este amor de si acabaria, num dado momento, sufocando o amor a Deus.

Pedro ignorava a sua essência. Quem de nós conhece a sua? É porque a sabe Deus e a penetra que nos manda certas provações ou permite quedas afim de nos melhor abrir os olhos sobre nós mesmos.

Quem tiver um profundo desprezo de si fará grandes coisas. Quando a gente não mais se ama, como é mister que o coração aja e se mexa, bate este forçosamente por Deus.

Jesus queria que Pedro fizesse grandes coisas, e que só amasse a Ele e a Sua Igreja. Permitiu então essa queda deplorável que devia rasgar o véu estendido sobre o coração do apóstolo, tirar-lhe toda estima de si próprio, mostrar-lhe a sua essência – pois é só pela essência que valemos –, desgostá-lo para sempre de todo amor próprio, afim de que ele pudesse dizer sinceramente um dia e por três vezes:

– Senhor, Vós que conheceis tudo, Vós bem sabeis agora que eu Vos amo.

(Capítulo VIII da 2ª parte do livro “A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Educação sobrenatural - Parte VI

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL


PARTE VI - A ALMA

É fácil dar às crianças uma idéia da alma?
Não o dissimulemos: é missão árdua.

"A verdade mais difícil de fazer compreender é a de que temos uma alma mais preciosa que o nosso corpo". (Fénelon)

Como se deve proceder?
É Fenelon que no-lo diz: Eis o que preconiza no seu tratado Da educação das filhas, uma obra prima, que, na nossa opinião, está muito esquecida.

Dizei o vosso filho que já sabe discorrer:

- É a tua alma que come?
Se responder mal, não lhe ralheis; mas dizei-lhe suavemente que a alma não come. É o corpo, dir-lhe-eis, que come; é o corpo que é semelhante aos animais. Os animais têm espírito? Têm entendimento?
- Não, responderá a criança.
- Mas eles comem, continuareis, embora não tenham espírito. Vê bem que não é o espírito que come. É o corpo que toma os alimentos para se nutrir; é ele que caminha, é ele que dorme.
- E a alma que faz?
- Raciocina; conhece todo o mundo; gosta de certas coisas; há outras para que ela olha com aversão. Acrescentai, em ar de brincadeira:
- Vês esta mesa?
- Sim.
-Então conhecê-la?
-Sim.
-Vês bem que não é feita como esta cadeira; sabes bem que ela é madeira e que não é como o lar, que é pedra?
- Sim, responderá a criança.
Não vedes mais longe sem ter reconhecido, no tom da sua voz e nos seus olhos, que estas verdades tão simples a impressionaram. Depois dizei-lhes:
- Mas esta mesa conhece-te?
Vereis que a criança se põe a rir, como que a zombar desta pergunta. Não importa; acrescentai:
- Quem gosta mais de ti, esta mesa ou esta cadeira?
Continuará a rir. Prossegui.
- E a janela porta-se bem?
Depois procurando ir mais longe:
- E esta boneca responde-te, quando lhe falas?
- Não.
- Porquê? Ela não tem espírito?
- Não, não tem.
-Então não é como tu: porque tu conhecê-la, e ela não te conhece. Mas depois de tua morte, quando estiveres debaixo da terra, não serás como esta boneca?
- Sim.
- Não sentirás mais nada?
- Não.
- Não conhecerás mais ninguém?
- Não.
- A tua alma estará no céu? [Se alcançar a santidade]
- Sim.
- Não verás aí Deus?
- É verdade.
- E a alma da boneca onde está?

Vereis que a criança, sorrindo vos responderá, ou pelo menos vos dará a entender que a boneca não tem alma.
(Fenelon, A educação das filhas, cap. VI)

Pode dar-se à criança uma idéia da espiritualidade da alma?
"Eu creio que o meio melhor e mais simples de fazer conceber esta espiritualidade de Deus e da alma é fazer-lhe notar a diferença que há entre um homem morto e um homem vivo. Num só existe o corpo; no outro, o corpo está junto do espírito. Em seguida, é preciso mostrar-lhe que o que raciocina é bem mais perfeito do que o que só tem figura e movimento".
(Fenelon, ob. cit. cap. VI)

Como se pode ensinar às crianças a imortalidade da alma?
É ainda Fénelon que no-lo vai dizer:

"Fazei em seguida notar, por diversos exemplos, que nenhum corpo perece: separa-se somente: por exemplo, as partes da madeira queimada caem em cinza ou evolam-se em fumo. Portanto acrescentareis, se aquilo que não é em si mesmo senão cinza, incapaz de conhecer ou de pensar, nunca perece, com muito mais forte razão a nossa alma, que conhece e que pensa, nunca deixará de existir. O corpo pode morrer, isto é, pode deixar a alma e ficar em cinza; mas a alma viverá, porque pensará sempre."

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: A graça)

PS: Grifos meus.

domingo, 19 de setembro de 2010

Santíssimo Sacramento, a vida da Igreja - III Parte

SANTÍSSIMO SACRAMENTO
A VIDA DA IGREJA


III PARTE - COMUNHÃO

A Comunhão é o segundo dos mistérios do Santíssimo Sacramento. Com toda a razão, os teólogos afirmam que a maior homenagem que possa ser prestada ao Criador está em O receber e dEle se nutrir neste mistério formidável. Quando por isso refletimos que a comunhão é para os homens na ordem espiritual o que é o alimento na ordem temporal, compreendemos facilmente o império que ele de continuo exerce sobre toda a raça humana.

Se percorremos a vida de um Santo onde o autor tenha se estendido em longos e minuciosos detalhes, ficaremos por vezes estupefatos em presença do que foi necessário para terminar o edifício desta santidade. Foi-lhe preciso atravessar verdadeiros oceanos de tentações e vencer inúmeros obstáculos acumulados. Por quantos cruéis momentos de abandono, por quantos penosos labores, por quantas espantosas mortificações, por quantas provas de toda casta houve que passar para atingir este ponto culminante! E parece que não seria ele o santo que realmente é, se uma destas provas lhe tivesse sido poupada!

Pois bem! uma só comunhão encerra em si bastantes graças para fazer-nos santos; bastaria, para a consecução deste resultado, bebesse copiosamente nesta fonte inesgotável!

A misericórdia de Deus, que nos tirou do nada e nos deu o livre arbítrio, por isso mesmo nos expôs ao risco de perdemo-nos eternamente; risco, porém, que o homem não se arreceia de correr, com a esperança de alcançar a Visão Beatífica de Deus. Este risco implica inalterável perseverança no meio dos cuidados, pesares, calamidades, trabalhos, decepções e descontentamentos de toda a sorte. Todavia, tivemos um grande privilégio, um benefício digno de Deus, qual o de ser-nos permitido correr tal risco na eventualidade de uma só comunhão.

Recolhamos todos os atos humanos, que se têm realizado neste mundo; e se os resumíssemos em um só que encerrasse tudo quanto há de nobre, de generoso, de heróico, de amável e de tocante em cada um deles e se o puséssemos ao lado do que faz o homem pelo ato de receber a Santa Comunhão, seria ele menos que nada, a sombra de uma sombra. A Comunhão é mais brilhante que todas as glórias reunidas, mais profunda que todas as ciências juntas, mais magnífica que todas as pompas de realeza.

Mas tão fracos meios de avaliar a sublime dignidade da Comunhão não se assemelham as folhas da floresta, aos grãos de areia das praias e a todas estas comparações pueris, por meio das quais nos esforçamos por dar a um menino uma idéia da eternidade, idéia que, aliás, somos incapazes, como ele, de compreender? Não devemos, tão pouco, entre pensamentos mais elevados e exclusivamente espirituais, não devemos esquecer de meditar com santo terror sobre os juízos temporais que Deus pronuncia contra os profanadores do Santíssimo Sacramento.

O Espírito Santo ordenou a São Paulo revelasse a Igreja que, em razão das comunhões sacrílegas, muitos fiéis haviam sido flagelados por cruéis moléstias e alguns até pela morte temporal. Dir-se-ia que a indignação divina, que nos tempos antigos se interpunha para proteger a arca do Senhor, se preme agora em volta do adorável Sacramento dos nossos altares. Durand, no seu Rationale, nos ensina que na época da Páscoa as mortes súbitas se reproduziam de tal modo em Roma, que este fenômeno abalou a atenção pública, tanto mais quanto nenhuma razão aparente, dado o curso ordinário das coisas, parecia justificar tão considerável recrudescêndia nas proximidades de uma festa móbil.

Enfim, o papa recebeu a luz do alto, pela qual foi levado a concluir que este aumento de mortandade era infringida as numerosas comunhões sacrílegas cometidas por aqueles que estavam preenchendo o seu dever pascal. Em consequência, mandou acrescentar ao hino pascal a seguinte estrofe:

Quaesumus, Auctor omnium,
In hoc, paschali gaudio,
Ab omni mortis impetu
Tuum defende populum

Dignai-Vos, Autor de todas as coisas,
no meio da Festa da Páscoa,
de preservar o Vosso Povo
de todos os assaltos da morte.

Corrigidos os hinos, a estrofe foi substituída pela seguinte:

Ut sis perenne mentibus
Paschale, Jesu, gaudium,
A morte dira criminum
Vitae renatos libera.

Para perpetuar em nossas almas
a alegria que lhes trazeis nesta solenidade,
dignai-Vos, ó Jesus livrar da morte do pecado
os que ora renasceram para a vida.

(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus, pelo Pe. Frederick William Faber, continua com o post: A Bênção)

PS: Grifos meus.

PS: Grifos meus

Santíssimo Sacramento, a vida da Igreja - II Parte

SANTÍSSIMO SACRAMENTO
A VIDA DA IGREJA

 
II PARTE - SACRIFÍCIO DA MISSA
 
Primeiro e antes de todos os outros, o adorável sacrifício da Missa, onde Deus é ao mesmo tempo a vítima, o padre e a majestade a quem a homenagem é oferecida. É um verdadeiro sacrifício expiatório, em favor dos vivos e dos mortos; não é uma vã sombra do sacrifício da cruz; é o mesmo sacrifício, renovado e continuado em seus mistérios não sangrentos. É infinito em si mesmo; só a nossa devoção ou nosso fervor, maior ou menor, pode impor-lhe limites.
 
Se contemplarmos a criação de Deus, veremos que ela contraiu com Deus quatro dívidas infinitas, incapazes de serem saldadas. Deve a Deus louvores infinitos, por causa das perfeições infinitas do Criador; uma expiação infinita, por causa dos pecados da criatura; ações de graça infinitas, por causa das misericórdias abundantes do Senhor; enfim, súplicas infinitas, por causa das necessidades sem fim da natureza humana. O mesmo coração imaculado de Maria, reunido ao vasto império da santidade Angélica, sendo tudo elevado a milésima potência, não poderia satisfazer a uma só destas obrigações. Mas o Sacrifício da Missa os solve todas um milhão de vezes cada dia, e muito além do que é devido.
 
O Santo Sacrifício é o canal, pelo qual todas as graças são concedidas a terra. Jamais o amor teve graça que não lhe fosse concedida senão em razão da Missa. Inúmeras calamidades temporais foram afastadas mediante este divino Sacrifício. Do altar, onde é ele oferecido, sobe continuamente para a Majestade da Santíssima Trindade um suave incenso de adoração, de intercessão, de ação de graças, de satisfação e de suplicação; e estas piedosas preces, formuladas pela palavra imperfeita do homem, possuem um valor igual ao valor infinito do Deus Increado!
 
Poderíamos multiplicar as palavras sem por isso dizer mais. Cada coisa, como o demonstra Santo Tomás, que é dita ou feita na Missa, é em si um mistério celeste e, como todas as outras coisas deste mundo, possui um Anjo, cujo nome omnipotente e glória fulgurante não nos são revelados; este Anjo leva a oblação ao trono do Omnipotente.
 
O Sacrifício, prosseguindo em seu curso, desenrola a nossos olhos toda a história da Paixão do Salvador, mostra-nos a ressurreição de uma alma resgatada e nos retrata a sorte e os destinos do corpo místico de Jesus Cristo. Numa palavra, a terra vive, move-se e acha sua existência no sacrifício da Missa. Não há bem sobre a terra, do qual não seja este sacrifício a causa e origem. A Missa é a única barreira oposta as incursões devastadoras do Inferno.
 
Não há alívio para os sofrimentos do purgatório que dela não proceda, como um bálsamo salutar, do seu cálice abundante; aumento de glória nos céus, que não seja devido ao Santo Sacrifício; não há novo hóspede da Jerusalém celeste, do qual a adorável Vítima não tenha sido o guia para são e salvo ir aonde o espera uma paz eterna.
 
(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus, pelo Pe. Frederick William Faber, edição de 1929)

PS: Grifos meus

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Educação sobrenatural - V parte

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
PARTE V - JESUS CRISTO


Que lugar se deve dar a Jesus Cristo na instrução religiosa?
O primeiro.

O grande Apóstolo gloriava-se de não saber, de não pregar senão Jesus, e Jesus Crucificado.

"Jesus Cristo é o alicerce do edifício, é a pedra angular; não há nenhum outro nome debaixo do sol pelo qual possamos ser salvos. Jesus Cristo é o Deus homem, Deus visível; Deus posto ao nosso lado e aproximado de nós. Não se conhece Deus, se não se conhece Jesus Cristo, Seu Filho: ninguém chega ao Pai senão por mim, disse Ele... Jesus Cristo é a manifestação viva, autêntica de todas as perfeições de Deus. Todos aqueles, diz Pascoal, que procuram um Deus sem Jesus Cristo, não encontram nenhuma luz que os satisfaça ou que lhes seja verdadeiramente útil; porque, ou não chegam a conhecer Deus, ou se chegam, é inútil; porque nunca podem comunicar com Ele sem medianeiro... Jesus Cristo era ontem, será amanhã e em todos os séculos. Prometido, figurado, profetizado, esperado, eis toda a história do antigo mundo. Pregado, crido, amado, servido, recebido, continuado, eis toda a história do mundo moderno. Visto, contemplado, possuído na Sua natureza divina e na Sua natureza humana, eis toda a felicidade da vida eterna... Jesus Cristo é o grande objeto da piedade cristã. A Igreja é o Seu corpo e Ele é a Sua alma, só vive por Ele".
(Pichenot)

É, pois, a este ensinamento que os pais devem sempre conduzir os seus filhos, se os querem interessar e instruir duma maneira segura e verdadeiramente cristã.

Como se podem instruir as crianças no que elas devem saber sobre Jesus Cristo?
Colocando-as diante do presépio e diante da cruz.

- Em frente do presépio, elas adivinham, amam e adoram o mistério do Menino Jesus, que lhes parece um irmão: é o mistério da Encarnação. Em face do presépio, pela narração das circunstâncias do nascimento, a mãe pode instruir os seus filhos no amor de Deus, tocar-lhes o coração, despertar-lhes a vontade, levá-las a corrigirem-se e tornarem-se melhores para dar prazer ao Menino Jesus, que tanto os amou. Sugerir-lhes-á algumas práticas da devoção ao seu alcance: beijar com respeito o Menino Jesus do presépio; pedir-Lhe a Sua bênção; repartir com Ele.

"Ouvi contar que uma criancinha que estava habituada a fazer assim, não tendo mais que uma fatia de pão com doce, diz alegremente: Menino Jesus, eu ofereço-Vos metade. (Fazia-o, sem dúvida, tanto mais voluntariamente quanto é certo que podia comê-la inteira). Mas parecia-lhe que o Menino Jesus, comovido, quis centuplicar aquilo que Lhe era oferecido: fez ouvir a Sua voz - pelo menos a criança julgou  que Ele Lhe dizia:

- E eu convido-te para ceares amanhã comigo, na morada de Meu Pai.

A boa criança contou alegremente o convite que tinha recebido; os pais ficaram vivamente inquietos. E, no dia seguinte, o anjinho voava para o céu; tomava lugar na ceia da glória, como diz Bossuet".

(Pichenot)

Em frente do presépio, a mãe dirá a seus filhos que o Menino Jesus fazia bem a Sua oração, que era obediente; que não mentia; que não se encolerizava; que não conhecia a gulodice, nem a preguiça, etc.

- Em frente da Cruz, as crianças adivinham, amam e adoram o mistério do mesmo Jesus que sofre com as "maldades" delas; obtém o seu perdão e faz por elas a devida penitência: é o mistério da Redenção.

Em frente da Cruz, a mãe dirá aos seus filhos que Jesus os amou até a morte mais ignominiosa, a morte na Cruz; que os amou sem lhes dever nada e sem ter nada a ganhar; que os amou pessoalmente a cada um deles como se fosse só.

Ah! que livro! que espetáculo o da Cruz! Fala a todos os olhos, fala a todos os corações; impressiona sempre as crianças, inflama nelas o fogo sagrado da caridade.

(Catecismo da Educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: A alma)

PS: Grifos meus. 
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