quinta-feira, 18 de abril de 2013

A alegria: 8.ª Coluna


As colunas de tua casa
um plano para a felicidade da família
pelo 

            A ALEGRIA nunca deve propriamente sair de casa, pois é como a delicada flagrância, que paira sobre montes e vales, feita da luz do sol e do aroma das flores. A alegria é a luz do sol na menor das choupanas. Tudo brilha à sua luz. Casa sem alegria pode-se chamar “prisão”. Com a alegria tudo respira liberdade e luz, flagrância e força.

"Da árvore da vida a força sacrossanta,
Doce prazer de dar e bondade que encanta.
Tudo aceita animosa e a tudo renuncia,
Sente-se forte e livre e feliz a alegria!"
(R. Bern.)

             Pode acaso a alegria faltar em casa? — Não deve ser como na Igreja, onde os tons jubilosos não se desvanecem — de todo, nem sequer no dia de Finados e na Sexta-feira da Paixão? — Mesmo por entre lágrimas ela sabe cantar ainda o jubiloso Benedictus e o exultante Magnificat.
            Houve uma vez um tempo e não está muito longe, em que a alegria fixara residência no círculo da família.
            Ela acompanhava ao trabalho cada um dos membros da família, com eles se sentava à mesa e no meio deles permanecia, quando à noite voltavam do trabalho e conversavam à luz do candeeiro.
            Era este a sua hora como um eixo harmonioso do dia e tanto mais belo e harmonioso, quanto mais árduo e penoso fora o trabalho do dia.
            Como isso elevava o espírito de família e o sentimento da união familiar!
          Como moços e velhos aguardavam ansiosos aquelas noites em que se reunia a família em torno da mesa e sobretudo nos domingos e dias santos, que eram sempre dias de festa de sol para a família!
            Acima de tudo estava nesses dias certamente o culto divino.
         Da vida de Hermam von Mallinckrodt sabe-se que toda a família assistia junta ao ofício divino da paróquia.
           Na volta para a casa, conversavam pais e filhos regularmente sobre as idéias do sermão de domingo e depois era uma alegria geral até que à noite uma leitura comum de qualquer livro religioso encerrava o dia.
          Assim o faziam nos tempos antigos milhares de famílias católicas
          A alegria, o espírito familiar prendiam ao lar moços e velhos. O centro— o sol, em torno do qual tudo se movia, o imã que tudo atraia a si, era a mãe. Dela emanava sobre todas as coisas uma luz áurea, de modo que o marido e os filhos esqueciam a taverna e os amigos e as filhas em parte alguma gostavam tanto de estar como no lar, junto da mãe.

         A cerimônia de certas festas e acontecimentos domésticos tornava mais profundo o doce encanto do lar paterno: — batizado, comunhão das crianças, aniversários, festa onomástica, especialmente da mãe, eram dias luminosos e alegres no decorrer do ano.
        Festas da Igreja, como Páscoa, Pentecostes, Advento, com seus maravilhosos cânticos, o mês de Maria, S. João, Santo Antônio e S. Pedro e, sobretudo a bela e querida festa de Natal não eram menos o ponto de partida, de muitas alegrias domésticas. Como florzinhas no campo, brotavam por toda a parte e por moços e velhos eram colhidas com prazer.
     Além disso, havia sempre ocasião para enriquecer-nos de conhecimentos e pôr em prática habilidadezinhas. As flores e plantas do mato e do campo tornavam-se-nos familiares e mesmo para o mundo das estrelas o dedo materno dirigia as nossas vistas. Explicava-nos o percurso dos planetas e muitas constelações da abobada celeste nos indicava, contando também em partes as lendas populares a respeito. Certamente o ensino materno não provinha de ciência e cálculo astronômico, ela nada sabia de análise espectral e dos métodos delicados para exame dos corpos celestes; mas nós lhe devemos, ao lado dos primeiros conhecimentos de astronomia, a predileção pelo céu estrelado e, o que é de mais valor, aquela liberdade de espírito que se afasta da fria e ímpia divinização da natureza, prostando-nos ao contrário em adoração diante do poder criador de Deus, que em parte alguma se mostra mais brilhante que nas maravilhas da noite e no curso dos astros.
         Tudo isso acabou? Definitiva e irremediavelmente? — É verdade que a indústria, a vida de ganância moderna, o espírito do materialismo, que com ela se insinuou, feriu profundamente a vida familiar. A horrível carência de moradias aumentou a miséria. — A alegria quer espaço, tempo e sol e também um lugar para o recreio das crianças. Em escuras alcovas e estreitais mansardas, em casernas sem ar e sem luz tem de desvanecer-se. — Mais ainda, porém, que tudo nos prejudicou a moderna avidez de prazeres. Sobretudo a mocidade é arrebatada ao lar pelos divertimentos. Há muito que a distração e o recreio não vêm mais, como repouso necessário, após o trabalho, mas para muitos são o alvo e o fim do trabalho. Para poder gozar o mais possível, trabalham, esforçam-se durante a semana e sacrificam por fim a alegria e a felicidade da família.
        Os “estabelecimentos de diversões”, gente interessada no negócio, providenciam para que não se tenha descanso.
        Sempre novas sensações açoitam os nervos, embriagam os homens, para que “se inebriem do desejo imoderado do gozo e no gozo de novo se consumam de desejos veementes”. As reuniões de sociedades e a fúria dos esportes fazem o resto para que o espírito de família não medre mais e a felicidade familiar se despedace.
        Se carece haver associações, jamais entretanto devem tornar-se coveiros da vida de família. Acaso são nossas associações católicas sempre isentas desta censura? — Em lugar de todos os preparativos “de um sucesso extraordinário”, despertai em vossos consórcios o senso da verdadeira alegria, ajudai-os a conseguir a verdadeira formação do caráter da alma, num tempo sem espiritualidade como o atual.  Isso seria proveitoso à vida de família. Pois afinal é na verdade um sacrificiozinho de renúncia e domínio sobre si mesmo, um único cigarro que não se fuma, um ordenado que se põe intacto sobre a mesa familiar; tem mais valor que uma dúzia inteira de festas estrondosas, vale também mais que uma bola de futebol atirada, à altura de uma torre e um canal atravessado a nado. Como os homens são caprichosos! Procuramos alegria como a mariposa busca a luz! Somente muitas vezes a procuramos onde ela não se acha: nos prazeres pagos da cidade, nos lugares enfumaçados, perfumados, para onde nos atraem os cartazes berrantes e a música estridente do jazz-band. Quem quer alegrias reais, tem de sair dos muros da cidade e da super-cultura e voltar ao doce caminho do lar, ao seio livre da natureza criada por Deus e da família, pois do contrário anda errado e não as encontra.
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