terça-feira, 30 de novembro de 2010

Gravuras de cada Sacramento e suas explicações

GRAVURAS DE CADA SACRAMENTO E SUAS EXPLICAÇÕES
(Retiradas do Catecismo Ilustrado de 1910)

BATISMO


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA


EUCARISTIA


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA


CONFIRMAÇÃO


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA


PENITÊNCIA


EXPLICÇÃO DA GRAVURA


EXTREMA-UNÇÃO


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA


ORDEM


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA


MATRIMÔNIO


EXPLICAÇÃO DA GRAVURA

COMO SE VICIAM OS FILHOS

COMO SE VICIAM OS FILHOS


Aqui vai, minhas senhoras, um plano de educação que meditamos muito e respeitosamente submetemos à apreciação das mães de família. Seguindo pontualmente as regras que aqui vão e que aliás são de uso corrente, chegareis, com certeza, a fazer dos vossos filhos crianças viciadas, insuportáveis e infelizes, na mais genuína acepção da palavra:

- Dai sempre aos vossos filhos tudo o que lhes aprouver pedir, principalmente quando o exigimos aos gritos, sapateando. Ireis assim desenvolvendo neles a teima, a birra a que certos imbecis chamam: uma vontade firme.

- Não percais ocasião de demonstrar-lhes que estais em completo desacordo na família, no que diz respeito à educação. A mãe terá o cuidado de representar-lhe  o pai como um tirano cheio e ridículos caprichos, um déspota, um simples instrumento de castigo. A seu turno, o pai não lhes falará da mãe senão como um ser indiscutivelmente inferior e sem autoridade alguma. Assim os filhos terão para com seus pais todos os sentimentos, menos o de respeito e amor.

- Vá lá que lhes deis alguns princípios de moral e religião, mas nunca lhes deixeis perceber que tendes esses princípios em alguma conta ou que lhes ligais qualquer importância, na vida prática. Mandai-os, se quiserdes, à igreja, mas nunca lá ponhais o pé; dizei-lhes que não mintam; mas pregai em sua presença, as maiores mentiras; fareis deles assim uns refinados hipócritas.

- Tomai sempre os filhos para testemunhas e quiçá juízes das vossas contendas e desavenças em casa. Asseguro-vos que não encontrareis juízes mais implacáveis, mais tarde.

- Não percais ocasião de inculcar na criança o mais alto conceito de si própria; extasiai-vos diante de sua "prodigiosa" inteligência, de suas respostas, embora atrevidas; fazei que se convença de sua superioridade sobre todos os que o cercam, sem excluir os próprios pais. Tereis mais tarde um modelo acabado de pedante, ambicioso e soberbo.

- Deixai-os ler tudo quanto lhes cair nas mãos. Nesse sentido não há nada como os folhetins de jornais baratos, para perverter a alma de uma criança.

7º- O pai levará sempre consigo o filhinho à taberna; lá aprenderá desde cedo "as boas maneiras", os ditos ousados e muitas outras coisa "edificantes e instrutivas" que aqui não cabem.

- A mãe irá desde cedo inculcando às filhas o gosto pelo luxo, pelos enfeites,  realçando-lhes a formosura e granjeando-lhes admiradores. É preciso que um menina, desde os primeiros anos, conheça "a fundo", já antes de saber ler, todo o vocabulário das costureiras e modistas, para que possa chegar, mais tarde, a ser objeto venal à procura de compradores.

- Cuidem os pais que às crianças nunca lhes falte dinheiro e com fartura, mas não procurem indagar como o gastam; acostumar-se-ão assim a gastar, compenetrados desta máxima: "sem dinheiro não pode haver alegria". O "proveito" será deles e vosso também.

10º- Nos castigos é preciso que haja discrição. Se os filhos vos pregarem alguma mentira ou vos faltarem ao respeito, fechai os olhos e tapai os ouvidos ou ride-vos se a saída tiver graça; mas, se quebrarem um copo ou um prato, ainda que seja por descuido, então castigai-os sem dó nem piedade, para que se não convencendo de que, neste mundo, não há falta grave, senão quando traz algum prejuízo material.

11º- Por fim, recomendo-vos que não tenhais compaixão com os mestres e superiores de qualquer categoria; criticai-os, mas sempre em presença dos filhos. Com as vossas recriminações exageradas e injustas, ireis desenvolvendo nas crianças a terrível mania da crítica, tão em voga hoje em dia e de tanto "proveito" para os que se alistam entre os vadios, insubmissos e descontentes.

Que vos parece, minhas senhoras, destes princípios? Sabe Deus se os não tendes posto em prática até aqui.

(As desavenças no lar, causas e remédios, J. Nysten, Centro da boa imprensa, 1927, com imprimatur)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Oração a São José para obter a retidão de intenções

Oração a São José para obter a retidão de intenções


Ó glorioso São José, que foste abençoado pelo Senhor com a beatitude prometida aos puros corações, já que durante vossa vida terrena compartilhastes a vida de Jesus e Maria e vivestes em Sua presença visível. Dignai-vos interceder por mim ante vosso amado Filho e vossa Santíssima Esposa. Pedi-Lhes que me ajudem, para que minha consciência seja reta e veraz, e que meu coração seja puro.

Livrai-me da duplicidade e da malícia. Enchei meu coração de esperança para que nunca se dilate desnecessariamente nos meus pesares. Peço-vos com fé simples e ardente que eu possa servir a Deus e ao próximo com um coração generoso.

Desta maneira, como vós, deleitar-me no profundo gozo e na paz da presença misericórdiosa de Deus. Amém.

(Oração extraída do livro: "Ide a José!", Plinio Maria Solimeo, Editora Artpress)

Três letras

Três letras


Se refletirmos intimamente, o problema que mutuamente levantam o noivo e a noiva com a palavra "queres?", é profundamente inquietante. O coração deveria estremecer. Com as três letras do "sim", duas vidas humanas ficam ligadas até à morte, até à eternidade. É grande o sacrifício da entrega! Cada um deles lança o seu coração, com tudo o que possui de peculiar e pessoal, na fornalha do amor do outro, e dessa união nasce um novo metal, o amor conjugal, coroado pelo sacrifício.

... Quando se pronuncia o "sim", juntam-se as duas almas numa só, com uma rapidez e firmeza maior que a que poderia ter a união de dois corpos. Como diz o provérbio húngaro: "Duas almas e um pensamento e um só latejo".

Há no matrimônio três bens que, segundo Santo Agostinho, o tornam intimamente valioso: a fidelidade, os filhos e o sacramento. A fidelidade contrói um muro sagrado para que o olhar e os impulsos do coração não possa, seguir outro homem ou outra mulher. O filho exige que seja recebido com amor, educado com diligência e instruído na fé. O sacramento é o guardião da indissolubilidade, já que o vínculo matrimonial foi constituído perante Deus.

A beleza e a fortuna não são, porém, bens essenciais ao matrimônio, "porque a beleza passa e os encantos se desvanecem", e porque "as casas e os reinos são dados pelos pais, mas uma mulher prudente só é dada por Deus". O patriarca Isaac teve o cuidado de procurar na sua futura esposa, não beleza e riqueza mas virtude e prudência. O mais importante no matrimônio é a fé! Muito expressivamente dizia, uma vez, um velho sacerdote: "Quando os rapazes procuram uma mulher, só procuram o tesouro do seu coração e depois de o encontrarem lançam-se avidamente em busca do tesouro material. Ao princípio, perguntam se a rapariga tem bom coração, mas depois só se interessam pelos seus bens".

O matrimônio como todas as coisas do mundo, foi corrompido pelo pecado e já deixou de ser a união de dois corações até à morte. A cupidez e a infidelidade dos homens quebraram o precioso cálice de Deus. No entanto, com a vinda de Cristo Nosso Senhor, o matrimônio foi restituído à sua primitiva beleza e não foi apenas restaurado tal como antes era: Cristo elevou-o até Si e o colocou junto do Seu coração redentor, ao fazer dele um sacramento. Desde então, o matrimônio está imerso no mistério de Cristo e ele próprio se tornou um mistério sagrado, já que os esposos devem amar-se mutuamente tal como Cristo amou a Sua Igreja, até dar por ela a última gota do Seu sangue. E também a mulher deve obedecer e estar submetida ao marido, como a Igreja o está a Cristo.

(A mãe, pelo Cardeal Mindszenty, editora Aster, LDA; Lisboa, 3ª Edição; Título original húngaro: Az Édezanya, versão da edição alemã: Die Mutter, tradução de Rui de Sant'elmo)

V- PALAVRA

V- PALAVRA


Sitio
"Tenho sede"
(Joan. XIX, 28)

Entre os tormentos, que afligiam os supliciados de cruz, era a sede um dos mais terríveis. As chagas, expostas ao contato do ar, inflamavam-se, rapidamente, provocando uma febre violenta que ocasionava sede intensíssima, intolerável. E Jesus experimentava em toda a sua crueldade.

"Esta sede justificava-a de sobejo o horrível trabalho do Seu corpo e do Seu espírito. Tudo devia acender-lha: o sangue derramado em borbotões, as lágrimas correntes, os suores estranhos de Getsêmani, a noite de vigília, a incrível flagelação e, principalmente, aquele desamparo interior de Deus, cuja justiça implacável O abrasava mais ainda do que a febre, que a crucifixão Lhe inflamava nas veias". (Perroy - La Montée du Calvaire - Pág. 325)

A sede, que Lhe queimava as entranhas, era tal que a língua havia aderido ao véu palatino, verificando-se o que profetizara o salmista: Adhaesit lingua mea faucibus meis (Psalm. XXI, 15.) Estas palavras, parece, traduzem o máximo do horror da sede, que possa suportar uma criatura humana.

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É verdadeiramente digno de reparo que Jesus, que suportara sem uma palavra de queixa e de lamento todos os martírios da Paixão, haja se queixado da sede... Esse particular não escapou aos comentadores das Escrituras, que o explicam cabalmente. No próprio Evangelho de São João encontramos a razão primária desse lamento do Salvador: "Para que se consumasse a Escritura, disse: - Tenho sede". Ut consummaretur Scriptura dixit: Sitio. (Joan. XIX, 28).

Foi para cumprir o que os patriarcas e profetas, videntes da Antiga Aliança, haviam pronunciado, que Jesus, no cimo do Calvário, Se queixou da sede horrível, que Lhe abrasava e consumia as entranhas. As palavras de São João, o discípulo amado do Mestre, no-lo fazem entender, de modo claro e insofismável.

Outra razão ainda descobrem os comentadores da narrativa da Paixão e Morte de Jesus. Dizem alguns exegetas que o Divino Salvador assim procedeu para dar lugar a um novo tormento, cumprindo-se à risca as palavras do real profeta: "Em minha sede deram-me a beber vinagre." (Psalm. XLVIII, 2) A caridade infinita do Redentor não Lhe permitia escapar a um sequer dos tormentos, que Lhe estavam reservados. Por isso proferiu aquelas palavras, que dariam lugar a um novo sofrimento.

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"O eterno dessedentador, que tantas vezes matou a sede alheia e que deixa no mundo uma fonte de vida que não secará jamais - onde os cansados encontram a força; os corrompidos, a juventude; e os inquietos, a paz - sofreu sempre de uma insatisfeita sede de amor. Mesmo agora, no ardor dilacerante da febre, a Sua sede não é de água, mas de uma palavra de misericórsia, na mendonha opressão de Seu desconsolado abandono". (Giovanni Papini - História de Christo - Pág. 524)

Naquela hora tremenda, não era somente a sede material que torturava Jesus. Além dessa, que não era pequena, havia outra, a sede espiritual, o desejo intenso e infinito de salvar todas as almas de todos os homens. O grande doutor da Igreja santo Agostinho comentando essa passagem do Evangelho, escreveu estas palavras:

"Oh! meu Deus, que bebida desejava o Vosso sangue derramado e dessecado? Pedirieis água fresca e límpida das fontes para extinguir o ardor da febre, que abrasava todos os Vossos membros? Ah! sem estardes livre desta sede ardente, quão mais elevados eram os Vossos desejos! tinheis sede da nossa salvação, da nossa felicidade, do nosso amor; tinheis sede de ver consumada esta laboriosa Redenção, empreendida havia trinta e três anos e que tocava o seu termo..." Essa era a sede que mais atormentava o divino agonizante do Calvário.

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Naqueles momentos, via Jesus em espírito, a multidão inumerável dos condenados, dos réprobros, daqueles para os quais a Redenção seria inútil. E podia perguntar-se a Si mesmo qual seria o proveito de tanto sangue derramado, de tantos tormentos suportados... E bem poderia renovar a interrogação do Profeta-Rei: Quae utilitas in sanguine meo? (Psalm. XXIX, 10)

Aos olhos de Jesus moribundo desfilavam, em sinistra procissão, todos os pecadores do mundo, todos os inimigos de Sua Igreja; sofistas, heresiarcas, perseguidores e sacrílegos. Espíritos enfatuados, cheios de falsa ciência, que, nos tempos antigos e nos dias contemporâneos, procuram lançar a confusão no mundo das idéias, a fim de que não resplandeça o sol da verdade, Jesus os viu, do cimo do Calvário.

Homens cheios de orgulho, aferrados às próprias opiniões, que preferem o erro por própria conta à submissão ao magistério infalível da Igreja. São os hereges, que, dilacerando o túnica do Mestre, promoveram a cisão e o desmembramento no seio do rebanho de Jesus Cristo... Dessas almas também tinha sede o supliciado do Gólgota.

Césares poderosos e imperadores absolutos, que juraram apagar o nome cristão;  todos os potentados da terra, de Augusto, de Roma, aos déspotas do México, da Espanha e da Rússia, que fizeram e ainda fazem, em plena civilização do século XX, jorrar em torrentes o sangue generosos dos confessores da fé - todos esses estiveram presentes durante a agonia do Senhor... Os sacrilégios, que conspurcam os sacramentos, os profanadores, que violam lugares e pessoas sagradas, aumentavam a sede misteriosa de Jesus...

E Ele tinha ante os olhos todos os pecados e todos os desmandos dos indivíduos, em particular, das famílias e da sociedade em geral. O casamento civil, instituído em oposição ao sacramento da Nova Aliança; o divórcio, que vem separar o que Deus mesmo uniu; o amor livre, que é o supremo desbragamento das paixões humanas; os atentados cometidos contra a lei da propagação da nossa espécie; os desmandos e a licenciosidade dos teatros, dos cinemas, das praias de banho, das modas indecorosas, das danças lascivas e toda a orgia das metrópoles antigas e modernas, que tanto e tanto ofendem a Deus - tudo isso confrangia o coração amoroso de Jesus, que experimentava dor infinita por não poder evitar a perda eterna de tantas almas!... E podia perguntar-se a Si próprio: Qual o proveito de tantos sofrimentos, de tantas dores?

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Jesus veio à terra trazer a luz da verdade para iluminar a vida das inteligências, e a justiça, para ordenar a vida da sociedade. E, após os dezenove séculos de existência do cristianismo, nós nos encontramos ainda tão distanciados dos ideais de perfeição evangélica. Quando olhamos, superficialmente embora, para a vida da humanidade, quando percorremos a história dos séculos passados, somos forçados a reconhecer que, infelizmente, estamos muito afastados da verdade, na vida intelectual, e da justiça, na vida social!

O mundo moderno procura a verdade. Parece que a intelectualidade contemporânea repete a célebre interrogação do Pôncio Pilatos, no Pretório: "Que é a verdade?" Quis est veritas? (Joan. XVIII, 38)

O mundo procura a verdade e não a encontra, porque não a procura com as disposições necessárias. Procura-a, displicentemente, como a procurava o proconsul romano. Por isso não a encontra nem a merece encontrar. A sociedade contemporânea acha-se empenhada em luta tremendas e cheia de rivalidades profundas, que a ameaçam de destruição e de morte. A questão social e as competições entre as classes tocam aos extremos e o anarquismo desfralda aos quatro ventos a sua bandeira negra, encharcada de sangue. Daí crimes que assombram o mundo, atentados que envergonham a civilização, como a tragédia, recentemente, desenrolada em Marselha. (Alusão ao atentado de que foi vítima o rei Alexandre, da Iugoslávia)

Falta ao mundo contemporâneo o senso da justiça social, que deve presidir as relações entre servos e senhores, patrões e operários, pobres e ricos - o capital e o trabalho. De uma parte, vemos o proletarismo, nem sempre justo em suas reivindicações, nem sempre resignado às condições de sua sorte... De outra, as classes abastadas não se compenetram da função social da propriedade privada, para auferir sempre maiores lucros e acumular maiores fortunas, mesmo à custa da vida e do sangue dos desprotegidos da sorte....

Extorsões e injustiças concentram ódios, que explodem em revoluções, que semeiam a dor, a morte e o luto.

Nunca a humanidade ostentou maiores conquistas nas ciências, maiores progressos nas artes e nas letras, do que nos tempos presentes. Mas debaixo dessas aparências deslumbradoras, há crises e misérias de toda a sorte. Há crise na filosofia, cujas teorias se contradizem; há crise na política, onde se revezam ditaduras e revoluções, desacreditando os sistemas do governo; há crise na vida econômica, financeira, que se demonstra na exigência da superprodução e da falta de trabalho. Tudo isso porque a sociedade pretende viver sem Cristo e até mesmo contra Cristo - sem Deus e contra Deus.

Toda a série infinda dos males sem conta de nossa sociedade torturava a alma de Jesus crucificado, aumentando-Lhe a sede devoradora, que então experimentava.

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É mister que as almas cristãs compreendam que foram os seus próprios pecados, que tornaram mais intensa a sede de Jesus e mais dolorosa e mais cruéis os tormentos do Redentor do mundo. É mister que os corações amantes do supremo regenerador dos filhos do pecado se voltem para a Vítima da justiça divina, procurando saciar a sede infinita que Jesus sente de almas...

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Senhor Jesus, pelo tormento indizível da sede que experimentastes na hora da Vossa morte, dissedentai as nossas almas, dando-nos a beber a água da vida, a água da salvação, para que não tenhamos mais sede por toda a eternidade. Qui biberit ex aqua, quam ego dabo ei, non sitiet in aeternum. (Joan. IV, 13)

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, editora ABC limitada, coleção Cristo Redentor, ano de 1937)

domingo, 28 de novembro de 2010

Solidão de Jesus no estábulo

Nota do blogue: Chegou o tempo do Advento..., aos que ainda não conhecem este livro de Santo Afonso Maria de Ligório, deixo link para download, o mesmo contém lindas meditações preparatórias para o Natal.

Vem, Senhor Jesus!


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MEDITAÇÃO IX
SOLIDÃO DE JESUS NO ESTÁBULO


Jesus, ao nascer, escolheu-se para ermitagem e oratório o estábulo de Belém; quis nascer fora da cidade, numa caverna solitária, para inspirar-nos o amor da solidão e do silêncio. Entremos nessa gruta, lá só acharemos solidão e silêncio: Jesus conserva-se silencioso na manjedoura; Maria e José O adoram e contemplam em silêncio. Foi revelado à Irmã Margarida do SS. Sacramento, carmelita descalça, apelidada a Esposa do Menino Jesus, que tudo o que se passou na gruta de Belém, mesmo a visita dos pastores e a adoração dos Santos Reis Magos se fez em silêncio.

O silêncio das outras crianças provém da sua impotência; o de Jesus Cristo foi uma virtude. Jesus Menino não fala; mas em Seu silêncio, que não diz Ele? Oh! felizes os que se entretém silenciosamente com Jesus, Maria e José nessa santa solidão do presépio! Os pastores lá passaram poucos instantes e saíram inflamados de amor para com Deus louvando-O e ben-dizendo-O. Oh! feliz a alma que se retira à solidão de Belém para contemplar a divina misericórdia e o amor que um Deus teve e tem aos homens! Eu a levarei à solidão e falarei a seu coração. Lá o divino Infante lhe falará não aos ouvidos mas ao coração, e a convidará a amar um Deus que tão ternamente a ama.

Ao ver a pobreza desse encantador ermitãozinho que fica na gruta gelada, sem lume, tendo apenas uma manjedoura por berço e um pouco de palha por leito; ao ouvir os vagidos e ao ver as lágrimas desse Menino, a inocência mesma; ao refletir que é o seu Deus, como poderia pensar em outra coisa senão em amá-lO? O estábulo de Belém, eis a doce ermida para a alma que tem fé.

Imitemos a Maria e José que, inflamados de amor, contemplam o adorável Filho de Deus revestido de carne e sujeito às misérias desta vida, o Sábio por excelência tornado criança sem palavra, o Grande feito pequeno, o Altíssimo tão rebaixado, o Riquíssimo feito tão pobre, o Todo-poderoso feito fraco. Numa palavra, vejamos a Majestade divina oculta sob a forma duma criancinha, desprezada e abandonada por todos, fazendo e sofrendo tudo para se tornar amável aos homens, e peça-mos-Lhe a graça de sermos admitidos nessa santa solidão; detenhamo-nos lá, lá fiquemos e de lá não saiamos mais. “Ó bela solidão, exclama S. Jerônimo, na qual Deus fala e conversa com as almas que ama”, não como um soberano, mas como um amigo, como um irmão, como um esposo! Oh! que paraíso, entreter-se a sós com Jesus Menino na humilde gruta de Belém!

Afetos e Súplicas

Meu caro Salvador, sois o Rei do céu, o Rei dos reis, o Filho de Deus; como pois Vos vejo nesse estábulo abandonado de todos? junto de Vós só vejo José e Vossa santa Mãe. Desejo juntar-me a eles para Vos fazer companhia; não me repilais. Sou indigno disso; mas considerando-Vos parece-me ouvir no fundo do meu coração uma doce voz que me chama... Sim, venho a Vós, ó querido Infante! deixo tudo para ficar a sós conVosco durante toda a minha vida, ó divino Solitário, único amor de minha alma! Insensato que fui no passado, quando Vos abandonei, meu Jesus, e Vos deixei só, para mendigar das criaturas prazeres miseráveis e envenenados; mas agora, aclarado pela Vossa graça, não tenho outro desejo senão de viver solitário conVosco, que quereis viver solitário neste mundo.

Ah! quem me dará assas como as da pomba, e voarei ao lugar do meu repouso. Quem me dará a força de sair deste mundo, onde tantas vezes encontrei a minha ruína, de fugir, e de ficar sempre convosco, que sois a alegria do paraíso e o verdadeiro amigo da minha alma? Senhor, prendei-me a Vossos pés, a fim que me não afaste mais de Vós, e tenha a felicidade de Vos fazer sempre companhia.

Pelos méritos de Vossa solidão na gruta de Belém, concedei-me um contínuo recolhimento interior, fazei que minha alma se torne como uma cela solitária, onde, unicamente atento em entreter-me conVosco, eu Vos submeta todos os meus pensamentos e todas as minhas ações, Vos consagre todos os meus afetos, e Vos ame sem cessar, suspirando pelo momento de sair da prisão do meu corpo para ir amar-Vos face a face no céu. Amo-Vos, Bondade infinita, e espero amar-Vos sempre no tempo e na eternidade.

Ó Maria, que tudo podeis, pedi a Jesus me prenda com as cadeias de meu amor, e não permitais me suceda perder novamente a Sua graça.
 
(Encarnação, nascimento e infância de Nosso Senhor por Santo Afonso)

sábado, 27 de novembro de 2010

VI- O AMOR DE MÃE

A BELEZA DE MARIA
II PARTE

"Não posso mais sustentar o braço de Meu Filho,
Ele está demais pesado".

VI- O AMOR DE MÃE

Precedentemente provamos que Maria é nossa Mãe e dissemos também que mais além teríamos as conseqüências que provém deste título. Chegou o momento de perscrutar todas as riquezas e consolações deste suave título que damos a Maria: Maria é "nossa Mãe".

"Ser mãe" é não somente ter dado a vida a alguém, mas também é amá-lo com este amor terno e apaixonado que não conhece espaço nem tempo, e que não se deixa jamais abater... Ele espera e perdoa sempre... Eis a mãe, e eis também Maria!...

Maria nos ama, porque é Mãe de Deus. Mas Ela nos ama também porque é nossa Mãe, e conserva sempre o Seu coração de mãe, mesmo para os culpados. Uma mãe não deixa de esperar a volta de seu filho enquanto este filho vive. Chorará ela os desvarios deste ser querido, permanecerá desconsolada, mas sem fechar o seu coração e sem desesperar jamais. "Ele vive, diz consigo a mãe, e pode ainda voltar: um dia ele virá lançar-se nos braços de sua mãe e então será completo o nosso amor!"

Como o pai do filho pródigo, ela jamais fecha o coração, e não se importa com a hora tardia da volta, seja qual for o estado em que o pecado deixar o filho pródigo, pois a mãe conserva sempre para o culpado um sorriso de ternura e uma palavra de perdão. Uma mãe não se cansa de empenhar-se junto ao seu filho, culpado, nada poupando para reconduzi-lo: exorta, repreende, ameaça e pune mesmo com pesar.

Seu coração descobre indústrias que se não encontra senão em um coração de mãe, e, quando tudo está esgotado, recorre à sua última arma, e mais eficaz de todas: - as lágrimas.

Ó Maria, quantas vezes tenho eu resistido à Vossa ação, a todos os esforços de Vosso amor e talvez às Vossas próprias lágrimas. E como um dia em La Salette Ela me apareceu sentada, tendo a cabeça entre as mãos, olhar velado e em Sua imensa desolação redizendo a palavra que ouviram os pequenos pastores do Definado: "Não posso mais sustentar o braço de Meu Filho, Ele está demais pesado".

Demais pesado: por meus pecados, por minhas ingratidões e minhas resistências culpadas.

Ó Maria, intercedei ainda! Sustentai o braço de Jesus... eu volto, eu me entrego! Reconduzi-me à força, se preciso for! Fazei que longe de Jesus e de Vós eu encontre tantas amarguras, tantas decepções, tantos aborrecimentos, tanto abandono, que não goze mais paz e felicidade senão junto a Vós.

Uma mãe não se cansa nunca de se empenhar junto àqueles que lhe podem reconduzir o seu filho. Deus é aquele que reconduzir a alma culpada, e Maria, que tanto se aproxima de Deus, suplica-Lhe sem cessar que não se impaciente, que não castigue logo, que nos dê a graça do arrependimento. Pobre alma pecadora, no momento em que quiseste cometer o pecado, que contra ti deveria excitar a cólera de Deus, Maria estava junto à Cruz e dizia a Jesus, com lágrimas: "Meu Filho, perdoai-lhe, ela não sabe o que faz!"

E o Salvador te perdoou em consideração à Sua Mãe. Tornaste a participar de Sua amizade, de Sua intimidade, e hoje podes ser amiga do Coração de Jesus. E quando um filho dócil permanece sempre ao lado de sua mãe, de certo modo vive sob suas asas e perto de seu coração, quem poderá dizer as relações de intimidade que se estabelecem entre o coração da mãe e o coração do filho?

Tanto na calma do silêncio como pelas palavras se estabelece entre eles a misteriosa comunicação de pensamentos e sentimentos. Um gesto, um olhar, um sorriso é uma ordem que o amor sente, interpreta e executa. É a vida de dois seres em um só coração, ou, mais exatamente, a vida de dois corações em uma só alma. E tal se dá em nossas relações com Maria. Elas constituem como que uma vida nova que os autores espirituais tão justamente chamaram: "a vida de união com Maria".

E quem poderá dizer tudo o que esta vida contém de consolador, eficaz e heróico?

Viver unido a Maria, ter continuamente o olhar virginal fixo sobre nós, cercar-se desta atmosfera de modéstia, de bondade, de prece que emana da Virgem como emanam do sol a luz e calor, que vida, que plenitude de vida!...

A vida, por vezes, parece dura. Dores inconsoláveis, lutos irreparáveis encerram uma existência em um como sudário fúnebre que fecha o coração a todas as alegres expansões, isola a alma de todas as alegres expansões, isola a alma de todos os festins da felicidade.

É que no meio da peregrinação da vida falta um coração, um olhar, um sorriso de mãe.

Oh! como Deus conhecia o coração do homem, quando, com a Sua palavra toda amante, dizia à humanidade desconsolada, na pessoa do discípulo amado: "Eis a vossa mãe!". Uma mãe! É necessário uma mãe!

Ó meu Deus, dai a todos uma mãe, e quando desaparecer desta terra aquela que nos deu a vida, fazei que lá no céu os nossos olhares encontrem, com mais amor ainda, aquela que nos deu a vida sobrenatural e que tanto mais é nossa mãe, quanto mais urgente forem as nossas necessidades e mais profundas as nossas dores.

Se soubéssemos viver essa vida de intimidade com nossa celestial mãe, como vive aqui na terra a criancinha com a sua mãe, como seria mais intensa e mais sólida a nossa vida espiritual e mais rápido e fácil o nosso progresso!

Entre estes íntimos do coração de Maria devem-se colocar em primeira linha as almas religiosas, que são as amigas da Virgem, Suas amigas de coração. "Nosso Senhor dizia aos Seus apóstolos: Não vos chamarei mais servos, mas meus amigos; e um dos santos padres, arrebatado de admiração, ao ler esta palavra, exclama: 'Pode-se imaginar algo de mais glorioso e mais sublime do que ser chamado e ser em verdade amigo de Jesus Cristo?..."

Eis que a compassiva Mãe do Salvador Se digna também chamar-nos Seus amigos, a nós, sobretudo, que vivemos na intimidade de Jesus e consagramos toda a nossa vida ao Seu santo serviço. Ela procede para nós como a mais delicada, a mais fiel, a mais terna das amigas.

Assistência, consolações, socorros, atenções delicadas, previdências afetuosoas, indulgência sempre segura, mesmo após nossas ingratidões perpétuas, liberalidade, quando correspondemos à Sua doce amizade; e tudo isso Ela nos dá, como prova de ternura, e isto é um inestimável tesouro.

Ó Maria! quem seria capaz de conhecer os recursos incomparáveis que Vosso coração reserva às almas consagradas ao Vosso Filho? Jamais deixareis de ser-Lhes companheira assídua durante toda a vida.

Vós as sustentais, se estão acabrunhadas pela fadiga; se elas se extraviam, Vós as guiais; Vós as consolais, se elas estão na tristeza; Vós as fortificais, se estão abatidas; Vós as defendeis, se são acusadas.

Não há sequer um só benefício cujo princípio é a amizade, que não recebêssemos de Vós com uma bondade, graça e constância que a amizade mais santa jamais conhecerá entre os homens. (R.P.Girand: Vida de união com Maria)

Como, pois permaceremos nós insensíveis à lembrança de tantas ternuras?

O amor exige o amor, o coração chama o coração...

Seja, pois, o nosso coração todo de Maria! Sejamos os Seus filhos dóceis, generosos; sejamos sobretudo os Seus íntimos; sejamos os amigos de Seu coração; vivamos da vida de união com esta Mãe admirável.

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

DA VIDA CONFORME AOS PRECEITOS DA FÉ

DA VIDA CONFORME AOS PRECEITOS DA FÉ


Para se salvar não basta que se tenha por certo o que ensina a fé, é preciso também conformar o nosso modo de viver aos preceitos da fé. Pico de Mirândola escreve: Certamente é uma grande loucura não querer crer no Evangelho, porém é ainda maior loucura crer no Evangelho e viver-se como se não se cresse nele. (Ep. ad Nep.). Os incrédulos procedem em verdade mui desarrazoadamente fechando os olhos para não verem o precipício para o qual se dirigem; porém muito maior é a insensatez dos fiéis que, percebendo o precipício, nele se lançam de olhos abertos. "Ó meus irmãos, exclama São Tiago (2,14), que adianta se alguém diz ter a fé e não tem as obras? Talvez a fé só o poderá salvar?"

Muitos cristãos crêem que há um Deus justo, que os há de julgar; que um céu ou um inferno eterno os espera, e, contudo, vivem como se não houvesse nem um Deus, nem um juízo, nem um céu, nem um inferno. Muitos crêem que o divino Salvador nasceu por seu amor em um estábulo, que viveu 30 anos em uma pobre casinha, adquirindo o sustento com o trabalho de Suas mãos; e que, finalmente, morreu em uma cruz, consumido de dores, e, apesar de tudo isso, não O amam; chegam mesmo a ofendê-lO com inúmeros pecados. A estes todos São Bernardo dirige a seguinte recomendação (In Cant. 24,8): "Mostrai por vossas obras que tendes fé".

O Cristão deve mostrar por sua vida virtuosa que tem fé. Os pecadores que conhecem as verdades da fé, mas não vivem conforme seus preceitos, o muito que têm é uma fé mui fraca, pois se cressem firmemente que a graça de Deus é o sumo bem, e o pecado, que nela rouba, o sumo mal, mudariam necessariamente de vida. São Bernardo diz que quem confessa a Deus com a boca e O nega com suas ações, consagra sua língua a Jesus Cristo e entrega a sua alma ao demônio. Segundo São Tiago (2,17), a fé que não se externa em obras é uma fé morta. Quando em um homem não se nota mais nenhuma ação vital: não se move mais, não fala mais, não respira, nesse caso não se lhe dá mais o nome de vivo, mas de morto. Da mesma forma deve ser considerada morta a fé que não produz mais obras da vida terrena.

Há muitos cristãos que de boa vontade abraçam os ensinos da fé que ficam na alçada do entendimento, mas não querem de forma alguma aceitas as verdades que se relacionam com a vontade. E, afinal, são estas tão certas como aquelas, já que todas elas nos são propostas pelo mesmo Evangelho. Assim como cremos no dogma da SS.Trindade, da encarnação, do Verbo divino e outros mistérios, devemos também aceitar os princípios estabelecidos por Jesus Cristo para as nossas ações. São Paulo escreveu a seus discípulos: 'Examinai a vós mesmos para conhecerdes se tendes fé". (2 Cor. 13,2) O divino Salvador disse uma vez: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mt. 5,3). Ora, quem não se resigna com sua pobreza e queixa-se das disposições da providência, não pode propriamente ser chamado de "fiel", "crente", pois quem crê de coração não procura sua riqueza e felicidade nos miseráveis bens deste mundo, mas exclusivamente na graça de Deus e na vida eterna.

Quando ofereceram a São Clemente Romano ouro, prata, pedras preciosas para que renegasse a Cristo, deu o santo um grande suspiro e deplorou amargamente o quererem roubar-lhe seu Deus por um preço tão miserável. - o divino Salvador disse igualmente: "Bem-aventurados os pacíficos Bem-aventurados os que choram. Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça". Isso quer dizer: bem-aventurados os que perdoam as injúrias. Bem-aventurados os que pacientemente suportam as enfermidades, perdas de bens e outras adversidades. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por fugirem do pecado ou procurarem a glória de Deus. Ora, quem julga que se desonra perdoando, que só cuida em levar uma vida agradável, não se abnegando em matéria alguma, quem lastima os que renunciam às alegrias terrenas e crucificam sua carne, quem por respeito humano deixa os exercícios de piedade, negligência aos SS.Sacramentos, distraíndo-se com a vida de teatros e bailes, - não pode arrogar-se o nome de cristão.

2) É aqui o lugar de corrigir uma opinião falsa. Muitos pensam que uma vida segundo os preceitos da fé é uma vida triste e privada de toda a alegria. O demônio lhes pinta a nossa santa religião como uma tirania que impõe a seus filhos toda a espécie de penas e fadigas, obrigando-os continuamente à abnegação de seus desejos. Não negamos que a vida conforme a prescrição da fé oferece poucos atrativos aos que querem obedecer unicamente a seus apetites sensuais. "Os que são de Cristo, crucificam sua carne com seus vícios e concupiscência", diz o Apóstolo (Gál. 5,24).

A lei de Jesus Cristo exige combatamos nossas inclinações, amemos nossos inimigos, mortifiquemos nosso corpo, suportemos com paciência as adversidades e ponhamos toda a nossa esperança na vida futura. Por isso, porém, não é triste a vida do verdadeiro cristão. A religião de Jesus Cristo convida-nos, por assim dizer, dizendo: "Vinde e uni-vos a mim; conduzir-vos-ei por um caminho que, considerado com os olhos corporais, parece áspero, mas que se tornará delicioso e agradável a todo aquele que tem boa vontade." Buscai alegrias e delícias? Pois bem! Dizei-me antes que alegria preferis, a que apenas libada desaparece, deixando o coração repleto de amargura, ou a que vos pode saciar e satisfazer por toda a eternidade? Buscai honras? Entendido! Mas, que preferis? uma honra vã, que se esvai como a fumaça, ou uma honra verdadeira, que vos glorificará uma vez à vista de todo o mundo? Perguntai aos que levam uma vida conforme às máximas do Evangelho, se a renúncia aos bens deste mundo os entristece! Visitai o santo eremita Paulo, em sua gruta, São Francisco de Assis, no monte Alverne, Santa Maria Madalena de Pazzi em seu claustro, e perguntai-lhes se acham falta das alegrias terrenas. A uma voz vos responderão: Não, de forma alguma; só queremos a Deus e nada mais.

Se alguém afirmar que a vida conforme aos preceitos da fé é, apesar de tudo, penosa e contrária à natureza, respondo-lhe: Realmente ela é contrária à natureza, mas à natureza corrompida; ela é de fato penosa, mas só para os que se abandonam às próprias forças. Quem confia em Deus e a Ele recorre, acha fácil e agradável a observância da lei de Jesus: "Provai e vede quão suave é o Senhor", diz o salmista (Sl 33,9), e o próprio Jesus: "Meu jugo é suave e minha carga leve". (Mt. 11,30)

Prouvera a Deus que saboreassem uma vez a doçura de uma vida conforme aos ensinamentos da fé os que recuam diante de suas supostas dificuldades e tristezas: indubitavelmente mudariam de opinião e tê-la-iam em grande apreço.

(Escola da Perfeição Cristã para seculares e religiosos, Pe. Saint Omer, C.SS.R, obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, pelo Pe. José Lopes, C.SS.R, IV- Edição, Editora Vozes, 1955)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Avisos práticos para o exercício de uma fé viva

Avisos práticos para o exercício de uma fé viva

(Belíssima gravura, clique nela para ampliá-la)

Quando vires uma imagem do crucificado, dize: É, pois verdade, meu Deus, que morrestes por amor de mim. Quando vires uma ovelha levada ao matadouro, recorda-te, com São Francisco, do inocente Jesus, conduzido da mesma forma à morte.

Quando vires cordas, espinhos, cravos, põe diante dos olhos tudo o que Jesus sofreu durante Sua paixão. Quando vires serras, martelos, machados, plainas, considera como Jesus, em Sua mocidade, trabalhava como carpinteiro na oficina de Nazaré. Quando vires uma gruta, manjedoura ou palha, pondera como o Menino Jesus, por amor de ti, nasceu em uma gruta e foi colocado em uma manjedoura, sobre palhas.

Quando atravessares uma região deserta, lembra-te dos desertos que atravessou o Menino Jesus em Sua fuga para o Egito. Quando vires altares, cálices, paramentos sagrados, ou, nos campos, as espigas de trigo e os cachos de uva, reflete no grande amor que nos mostrou Jesus, instituindo o SS.Sacramento do altar. Quando contemplares o céu estrelado, pensa que uma vez possuirás a Deus, nessas regiões, se O amares aqui na terra.

Quando te alegrares com a vida de jardins recamados de flores, de paisagens magníficas, ou de soberbas praias do mar, pensa que Deus preparou para os que O amam delícias muito maiores. Quando vires o mar bonançoso ou irado, vê nele a imagem de uma alma que se acha no estado de graça ou desgraça de Deus.

Quando ouvires roncar o trovão e tremeres de pavor, representate como os ímpios tremerão uma vez, ao escutarem os trovões da justiça divina. Quando vires um criminoso tremer diante de um juiz, pensa no terror que se apoderará do pecador, ao aparecer diante de Jesus Cristo. Quando vires uma daquelas fornalhas em que o bronze mais duro se torna líquido pela veemência do fogo, pondera que por teus pecados merecerias ser queimado eternamente nas chamas do inferno.

Quando encontrares uma árvore seca, representa-te o triste estado de uma alma que vive separada de Deus e que para mais nada serve que para ser consumida pelo fogo do inferno. Quando vires um soberbo túmulo, dize contigo: Se este homem estiver condenado, que lhe aproveita esse magnífico mausoléu?

Quando vires um relógio, como sempre caminha sem voltar para traz, pensa que tua vida se aproxima cada vez mais do termo.Quando encontrares um cortejo fúnebre, pondera que um dia também serás assim levado para o túmulo. Quando te achares em teu quarto, ou te deitares, pensa que Jesus Cristo, talvez nesse mesmo lugar, te há de julgar um dia.

(Escola da Perfeição Cristã para seculares e religiosos, Pe. Saint Omer, C.SS.R, obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, pelo Pe. José Lopes, C.SS.R, IV- Edição, Editora Vozes, 1955)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Ao Sagrado Coração de Jesus

Ao Sagrado Coração de Jesus


Assim na terra
Como no céus,
Vinde, cristãos,
Louvar a Deus,
Vinde adorar,
Cheios d'amor,
O Deus da paz,
Nosso Senhor.

Jesus amante,
Jesus bondoso,
Senhor potente,
Pai amoroso,
A Vossos pés venho,
Se Vós me deixas,
Apresentar humildes queixas.

Peito divino,
Onde se inflama
Da caridade
A doce chama,
Por que a detens
Lá encerrada,
Sem estar a terra
Nela abrasada?

Mandai um raio,
Que venha logo
Incendiá-la
Naquele fogo:
Pois vês o mundo,
Que adere firme
À impiedade
E se deprimi.

Coração doce,
Manso e clemente,
De santidade
Rica nascente,
Possam meus olhos,
Deus de bondade,
Ver-Vos e gozar-Vos
Na eternidade.

Só Vós me podes,
Onipotente,
Refrigerar
A calma ardente:
No seio Vosso,
Jesus, Senhor,
Expirar quero
Cheio d'amor!

(A Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910, versão do Espanhol por Manuel Moreira Aranha Furtado de Mendonça, Cônego honorário da Sé de Lamego, 3ª Edição, com Breve de Sua Santidade Leão XIII)

O LUXO

O LUXO


Esse luxo desenfreado que por aí campeia, veio ocupar o lugar que o bom senso havia reservado à modéstia cristã; veio abrir as portas à miséria, à desordem, às contínuas desavenças na família, abalando-lhe assim a tranquilidade em seus alicerces. O luxo sobrepõe-se a qualquer consideração, a todas as conveniências, no afã irrefletido de agradar, de sobressair e de chamar a atenção pública sobre si. Por toda parte procura admiradores à ostentação da vaidade.

O luxo é cruel, grosseiro, invejoso, sensual e, por um nada, se melindra. Suas vítimas são geralmente afáveis com os estranhos e insuportáveis com os de casa; em público, chamam a atenção e acabam provocando o riso. O luxo enfraquece a vontade, arma competições, em tudo se intromete, tudo contamina e em toda parte deixa vestígios. Na mobília da casa, nos enfeites da sala, nas toilettes e festas, nos jantares, visitas, logo se reconhece a vaidade e ostentação.

Há um luxo próprio das mulheres, outro que é monopólio dos homens e há também um terceiro que pertence a ambos os sexos. Em todos os casos, porém, as vítimas do luxo de qualquer condição social, constroem sobre a areia movediça, enquanto que os que são modestos, edificam sobre terreno sólido. Os primeiros são imprevidentes, levianos, sem critério; os segundos não perdem de vista o futuro próprio e o dos filhos; uns, são verdadeiros demolidores da família, os outros, são a garantia sólida do lar.

Não conhecem os leitores essas casas, onde a despesa ultrapassa continuamente a receita? Conhecem-nas; porém, poucos sabem ou imaginam como isso acontece. O marido não bebe, não joga; em casa tudo é modesto, tudo parece correr na melhor ordem, os negócios marcham regularmente, as doenças são raras e, entretanto, as dívidas aumentam todos os dias e já não se sabe a quem atender primeiro, para evitar a falência.

Ora, examinemos o caso, um pouco mais detidamente. Reparem naquela mobília, nos vestidos da senhora e senhoritas, no número, na qualidade e no tempo que têm. Não esqueçam que naquela casa dão-se, de tempos a tempos, festinhas, aliás muito apreciadas; aparecem lá os melhores vinhos, as iguarias mais esquisitas, exatamente como na vivenda do senhor Barão X... ou da senhora condessa Y... Os cigarros mais finos têm lá excelente freguesia, entre os numerosos convidados que não se fartam de elogiar a generosidade e o bom gosto dos donos da casa.

Outras vezes, a boa educação exige, pensam eles, que se retribuam, com igual fausto, as finezas com que foram distinguidos por certas famílias muito mais abastadas. E será para admirar que um lar assim, venha, mais cedo ou mais tarde, a dar com os burros n'água? O caso é bastante comum, entre famílias remediadas, quando se deixam ir à mercê do luxo. Enchem-se de orgulho como as rãs da fábula, e acabam na mais completa miséria e humilhação.

Às vezes, basta um dos cônjuges atacado da mania do luxo para, com suas prodigalidades e despesas inúteis, dar cabo da família. Se forem ambos, não terão de quem se queixar, mas também os filhos não terão motivos de andarem ufanos com os autores dos seus dias; quando menos, os filhos de pais perdulários ressentem-se do mesmo defeito.

Uma senhora que havia desperdiçado a rica herança que recebera, caiu em extrema miséria; o filho dava-lhe uma mesada; mas, como não bastasse, ela escreveu-lhe neste termos: "Meu rico filho, os credores reduziram-me à extrema miséria; pelo amor de Deus, vem em auxílio de tua mãe". A resposta foi a seguinte: "Mamãe eu estou nas mesmas condições, o que não permite ao querido filho ir em auxílio de sua mãezinha".

Ora, se um dos cônjuges, com suas levianas prodigalidades e desperdícios, tiver arruinado a família, claro está que o outro se há de queixar, fazendo-lhe as mais justificadas recriminações. E como essas queixas são geralmente proferidas com asperezas e sem a devida compostura, as conseqüências não podem deixar de ser funestas, agravando ainda mais a situação do casal. A pessoa dada ao luxo entende que não deve ficas atrás de ninguém, no vestir, nos enfeites e na apresentação social; portanto, se as rendas não derem para isso, procurará meios de fazer cortes, dê por onde der.

Quantas vezes a caridade para com os pobres é sacrificada ao ídolo do luxo! Quando tanto se desperdiça no mobiliário da casa e no vestir, tantos excessos se fazem com a mesa, que admira que haja tantos indigentes dormindo ao relento? Vejam como aquela outra família, que dispõe apenas do salário do seu chefe, vive com relativo conforto, paga regularmente  os aluguéis e as contas do armazém, e ainda consegue economizar todos os meses alguma coisa que vai levar à caixa dos depósitos populares. É que ali se evitam as despesas inúteis, e o ornato mais recomendável da esposa e das filhas, é aquela simplicidade e modéstia que lhes dá tanta graça. Ninguém pensa em divertir-se à custa do necessário; ninguém se preocupa com o que vestem ou fazem os demais, e todos estão bem convencidos de que as mais ricas jóias de uma família sensata, são os filhos sadios, fortes e asseados; todos sabem, por experiência própria, quanto custa ganhar uma nota de cinco mil réis; enfim, há muito se traz bem sabido que, os belos discursos tendentes a melhorar as condições da classe operária, nada adiantarão, se se não aprender a poupar e a suprimir despesas inúteis.

E porque será que aquela outra família, dispondo dos mesmos recursos, vive sempre sobrecarregada de dívidas?

A razão é muito simples.

O chefe de família quer divertir-se; a mulher e as filhas pretendem vestir como nunca deveriam, enquanto seus nomes figurassem na lista negra dos devedores que não pagam. Elogiai a um homem a mulher, porque veste com elegância e apurado bom gosto e ele vos responderá, com uma ponta de azedume: "É verdade, mas também me custa os olhos da cara". Esta expressão diz tudo.

Quando o marido diz ou insinua apenas que precisa de um par de calças ou de um sobretudo, a senhora concorda prontamente e vai além, aconselhando-o a que mande confeccionar um fato, para a próxima festa. Mas não mete prego com estopa; e com aquela condescendência aparentemente tão generosa, julga-se logo autorizada a encomendar à costureira novo vestido talhado pelo último figurino. E nem se julga sequer na obrigação de consultar o marido, porque, pensa ela, uma fineza com outra se paga. No dia aprazado para a festa, é que o pobre marido vai verificar que a cara metade, abusando da sua condescendência, deu-se ao luxo de mais um vestido, cuja nota, vinda da modista, lhe vai servir a ele de presente de ano bom.

Assim é.

Há senhoras que, sem se darem ao trabalho de consultar o marido, fazem compras mais ou menos avultadas, com o fim de chamarem a atenção sobre a formosura de que se julgam dotadas; o marido, negociante ou simples empregado, que se avenha depois, para pagar a encomenda. Se for alguma ninharia, vá lá; mas, quando a despesa for de molde a compreender as finanças da família, não há que admirar se o marido, justamente indignado, explodir em recriminações e ameaças muito desagradáveis para ambos. Daí, rixas e contendas sem fim, graças ao luxo imprudente e leviano da mulher. E ainda bem, se com isso se corrigir, tornando-se mais precavida e zelando melhor pelos interesses e pela tranquilidade do lar.

Quantas casas comerciais tiveram de fechar as portas, quantos proprietários arruinados ou impossibilitados de continuar o negócio, por causa dos gastos das senhoras que querem comprar o que não podem! Quantas famílias condenadas a viverem na indigência e na miséria mais humilhante, por motivo das continuas festas e recepções suntuosas, as viagens de recreio, as quais além das despesas que ocasionam, privam um estabelecimento da presença ativa do seu chefe, por tempo mais ou menos longo; por causa dos mimos oferecidos em diversas circunstâncias, em troca de outros recebidos. Quantas casas cheias de presentes sem nenhuma utilidade prática; quantas famílias decaídas, que quiseram distinguir-se pelo luxo e acabam distinguindo-se também pela falta do necessário.

Verdadeiros escravos da vaidade ridícula, julgam-se na obrigação estrita de retribuir todos os presentes, sem outro critério mais que a pretensão de não quererem ser menos do que os outros. Hão de pagar todas as visitas recebidas; hão de ostentar um luxo que lhes permita continuar as relações com famílias ricas, nas quais, entretanto, a ostentação não vai nunca além das próprias posses.

Tais famílias estão a dois passos da ruína completa; vivem em contínuas apreensões pelo dia de amanhã, com os credores a lhes baterem inutilmente à porta, fazendo dívidas aqui, para pagar ali, até que a falência as obrigue a um leilão forçado. E quantas vezes, o revólver, o veneno ou uns metros de corda, vêm resolver triste e desgraçadamente o problema, porque os culpados ou inocentes, não aprenderam a suportar a transformação repentina e humilhante a que os levou o luxo da vida passada!

O luxo, diz um autor, gera a sensualidade, a vã ostentação, leva à miséria por brilhante caminhos, por onde só os loucos transitam.

(As desavenças no lar, causas e remédios, J. Nysten, Centro da boa imprensa, 1927, com imprimatur)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Educação sobrenatural - XII - A ressurreição da vida sobrenatural

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
XII- A RESSURREIÇÃO DA VIDA SOBRENATURAL


"Se o pecador se desvia da maldade que praticou...
fará viver a sua alma."
(Ezequiel, XVIII, 27)

Como se opera a ressureição da vida sobrenatural?
A ressurreição da vida sobrenatural opera-se normalmente pela  recepção do sacramento da Penitência.

Em que idade convém levar a criança à confissão?
"É impossível estabelecer uma regra uniforme. Certas crianças muito precoces têm a razão suficientemente desenvolvida par acometer um pecado grave, desde a idade de três ou quatro anos. É  uma exceção, de acordo; mas não é uma suposição quimérica. Conheci um menino de três anos e meio ou quatro, raivosamente invejoso da sua irmãzinha. Manifestava por ela o mais violento rancor.
- Ah! - dizia ele com uma entoação impossível de esquecer- um dia que a mamãe e a criada não estejam, levo-a a casa do senhor X... (este indivíduo morava no quarto andar) e de lá atiro-a pela janela. Que vos parece esta maneira de pensar tão precoce?"
(Charruau, Às mães, p.41, 42 e 44)

As criancinhas cometem facilmente pecados mortais?
Facilmente, não.

Mas, "muitos pais iludem-se e crêem facilmente que seus filhos são duma inocência absoluta, quando é certo que o pecado mortal, infelizmente, já feriu a sua alma. Poder-se-ia contar, a este propósito, mais duma história tristemente elucidativa".
(Charruau, Às mães, p. 41, 42 e 44)

Não há uma circunstância em que é preciso absolutamente fazer confessar a criança que manifesta vislumbres de razão?
Sim.
Quando há perigo de morte.

Não vale dizer que, se numa tão tenra idade a criança cometeu algum pecado grave, provalvemente já não se lembrará dele. Porque, seja embora gratuita esta suposição, a teologia ensina-nos que não é o esquecimento do pecado mortal que põe a alma em graça com Deus. É preciso, para isso, a contrição perfeita, com o desejo de se confessar, ou a absolvição com a contrição ao menos imperfeita. Então, mas só então, todos os pecados, mesmo aqueles que involuntariamente se esqueceram. são perdoados, e a alma recupera a graça perdida.

Como se deve preparar a criança para receber o sacramento da Penitência?
- É preciso primeiramente elevá-la a uma atmosfera sobrenatural.

- Em seguida facilitar a confissão dos pecados cometidos pelo exame de consciência e a confissão no padre confessor.
- Prepará-la também para a contrição.
- Inspirar-lhe sobretudo em horror profundo pelo sacrilégio.
- Familiarizá-la, enfim, com as fórmulas em uso na diocese onde se confessa.

Qual é o meio de elevar a criança a uma atmosfera sobrenatural?
1º- É fazer-lhe considerar o padre como representante de Nosso Senhor, cujo lugar ocupa, partilhando dos Seus poderes e comunicando o perdão.
- É dizer-lhe e fazer-lhe crer que, no momento da absolvição, é o próprio sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo que corre na sua alma para a purificar, santificar e divinizar.

Como se pode ajudar a criança a fazer o exame de consciência?
A mãe, de ordinário, conhece o seu filho a fundo: sabe o que ele tem feito, dito, pensado ou sentido muito melhor do que ele próprio o sabe. Pode, portanto, ensinar-lhe facilmente a ler a sua consciência. Para o conseguir, procederá por interrogações; assim despertará as lembranças, fixar-se-á a atenção e lhe dará o mérito, e quase que a alegria, de ele mesmo descobrir aquilo de que tem de arrepender-se.

Pode dar-se o caso de a criança negar de boa fé, apesar de culpada; a mãe insistirá, concretizará mais as perguntar, encaminhá-la-á, recordando ao pequeno aprendiz do exame de consciência algumas circunstância que acompanharam a culpa, e desta maneira obterá suavemente dos seus lábios uma palavra de confissão.

Que doce e consoladora tarefa para uma mãe!

No entanto, tenha cuidado em não abusar. Pode fazer tudo da primeira vez; da segunda, já um tanto menos; da terceira, menos ainda; e retirar-se-á pouco a pouco, até deixar à criança uma iniciativa cada vez maior, até que o santuário de sua alma esteja inteiramente fechado e ele possa preparar-se por si só.

"Há coisas que as mães devem fingir nunca saber, embora estejam ao corrente de tudo."
(Pichenot)

Como se deve inspirar à criança a confiança de que tem necessidade?
- Falar-lhe com convicção do segredo da confissão;
2º- habituá-la a um grande respeito pelo padre;
- penetrar a sua alma duma veneração profunda pelo confessor.

Que se pode dizer à criança, relativamente ao segredo da confissão?
- Que o padre não revelará a quem quer que seja aquilo que sabe pela confissão;
- se, por um impossível, o fizer, cometerá um grande crime, que o tornará merecedor do inferno;
3º- que ele antes quererá morrer do que violar um segredo tão grande e tão sagrado.

A história de São João Nepomoceno ilustra dum modo útil esta verdade essencial.

"Intimado por Wenceslai, imperador da Alemanhã e rei da Boémia, a revelar a confissão da imperatriz Joana, o santo bispo afrontou todas as ameaças do tirano e pagou com a vida a sua fidelidade ao sigilo sacramental. Alguns anos após a sua morte, abriram o seu túmulo. O corpo estava inteiramente decomposto, com exceção da língua, que foi encontrada fresca e intacta... Deus glorificava por esta maravilha o mártir da confissão."
(segundo Charruau, ob. cit., p. 46)

Como se pode criar na criança o respeito pelo padre?
- Pelo exemplo.

Que os pais não julguem, não critiquem, nem escarneçam os ministros de Deus. Que testemunhem, em toda a sua atitude, um verdadeiro culto pela sua pessoa e pelo seu ministério. Os inimigos da religião têm tentado todo o possível para rebaixar o padre: "No fim de contas, dizem eles, é um homem como qualquer outro". Os pais e as mães que repetissem essa frase teriam que censurar-se por haverem vibrado um golpe mortal no respeito, dentro da alma de seus filhos; tornar-se-iam, sem o querer, cúmplices dos sectários e dos franco-mações.

- Pela contristada repressão de toda a falta.

Encontrávamos-nos um dia com uma família, falávamos com a mãe de questões de educação e emitíamos esta idéia muito verdadeira, infelizmente: que as crianças bem educadas são muito raras. Uma rapariga de quinze anos, orgulhosa como um pavão, porque tinha sido adulada, amimada e estragada, saía e entrava na sala onde nos encontrávamos. Não podendo ficar indiferente à nossa reflexão, que a feria pela sua flagrante verdade, segredou ao ouvido da mãe:

- E ele (ele éramos nós) teria sido bem educado?

A mãe limitou-se a responder, com ar sorridente:

- Ah! sua má!

E a prova de que a sua desaprovação era meramente negativa, é que nos repetiu, sem mesmo sentir a necessidade de se desculpar, a graça da filha, que nós não tínhamos ouvido. (Autêntico). Era, de fato, uma insolência completamente atentatória do respeito que se deve inspirar às crianças pelo padre.

- Por certas manifestações exteriores.

Antigamente, à passagem do padre, as crianças ajoelhavam-se para receber a sua bênção. Se não se pode ou se quer restabelecer esta piedosa prática, habituem-se pelo menos as crianças a saudar o padre e, quando o ministro e Deus visitar a família, que a mãe lhe peça a bênção para os seus filhinhos, e que estes a recebam de joelhos, com as mãos postas.

A veneração acrescenta alguma coisa ao respeito?
Faz subir a alma um degrau no caminho sobrenatural, onde o respeito a tinha já colocado: dá-lhe um sentimento de religiosa afeição; prepara para todas as docilidades. Felizes as crianças educadas na estima desta virtude! temos conhecido algumas desse número!

- Foi o snr. abade que o disse, observavam elas. E isto era sagrado!
- Foi o meu confessor que me aconselhou! E isto era indiscutível!

Oh! as maravilhas que nós operaríamos! As belas almas que nós formaríamos. Os sólidos alicerces de salvação que lançaríamos! As consolações que nós gozaríamos!

Qual é o fruto natural deste respeito e desta veneração?
É a confiança.

A confiança é necessária?
É um meio de salvação, absolutamente necessário em certas circunstâncias. Porque, enfim, um grande número de crianças cairão, quando crescerem, em pecado mortal; deverão então recorrer ao padre, ministro do sacramento da Penitência, para serem perdoadas. A confissão será fácil, se for inspirada pela confiança; seria que se impossível, se não tivesse, pelo menos, o respeito como ponde de apoio.

A confiança é geralmente praticada?
Não.

Menos ainda que o respeito e a veneração, que ela exige sempre, mas que não acompanha necessariamente. Mesmo as crianças relativamente bem educadas sabem bem o que é esta virtude: e, quando se quer fazer-lha compreender, quando se quer levá-las a praticá-las, sente-se que para a abertura da alma há um obstáculo, uma pedra, que faz pensar naquela de que as santas mulheres diziam: "Quem nos levantará a pedra do túmulo?"

Sim, há aí uma pedra; e, quando conseguimos derrubá-la, a libertação da alma é acompanhada duma tal explosão de alegria que nós reconhecemos a necessidade natural da confiança e, consequentemente, a deformação e má educação da alma que a não pratica. - Que infelicidade não me haverem educado nesta confiança! - exclamava uma jovem no dia em que, por fim, compreendeu a doçura, as vantagens e a necessidade desta virtude.

Qual é o complemento desta confiança?
É, da parte da criança e de seus pais, a submissão às direções espirituais do seu padre confessor. Só ele é juiz: deve ser um juiz escutado. Quantas vezes nos tem sucedido pedir a uma criança que venha confessar-se todas as semanas, e obter uma resposta como esta: - A mamãe disse que bastava confessar-me de quinze em quinze dias.

Não! não! não!

Como se pode preparar a criança para a contrição?
- A criança, de ordinário, não pensa nisso. É preciso, nesse caso, pensar por ela.

- A criança corre o risco de fazer uma idéia falsa da contrição: é preciso, pois, instruí-la bem. "Um menino respondia um dia, no catecismo, que a contrição perfeita é aquela que é séria, e a contrição imperfeita é a que não é séria". (Charruau, Ás mães, p. 47). Vê-se que perigos uma semelhante instrução religiosa pode fazer correr à vida sobrenatural e à salvação da alma.

- A criança expõe-se a não tornar sobrenatural o seu arrependimento; é preciso ajudá-la a fazer com o seu coração e com a sua fé a tríplice peregrinação clássica: ao calvário, ao céu e ao inferno...

Que é preciso que a criança saiba com respeito à comunhão sacrílega?
É preciso falar-lhe de modo que se lhe inspire um horror profundo por este grande pecado. E, não obstante, fazer-lhe notar que, se tiver tido a infelicidade de imitar Judas no seu crime, não deveria segui-lo na desesperação, mas confessar-se quanto antes, para alcançar a graça de Deus. Será oportuno avisá-la de que o padre nunca se admirará das confissões que lhe fazem, porque conhece o coração humano e, como Nosso Senhor, está cheio de ternura e compaixão para com os pobres pecadores.

Quais são as regras e as fórmulas às quais é preciso habituar a criança?
Mgr. Pichenot não desdenha entrar nalgumas particularidades:

"As crianças tiram as luvas, põem-se de joelhos, fazem o sinal da cruz e dizem: 'Abençoai-me, meu Padre, porque eu pequei'. Meu Padre! esta palavra abre o coração, dá a confiança, e transporta a alma a outro mundo. Recomendai-lhe que diga o Confiteor em português (Nota de rodapé: No original diz em francês) e corretamente, o que é muito raro. Que digam: 'eu pecador me confesso' e não 'eu confesso' a 'Deus Todo Poderoso' e não 'a Deus o Pai todo poderoso'; porque eles não se devem confessar à primeira primeira pessoa da Santíssima Trindade somente, mas a todas três ao mesmo tempo. E depois, dizendo: 'o Pai todo poderoso, criador do céu e da terra' e ei-los perdidos! 'E a vós meu Padre', estas palavras são essenciais para distinguir esta oração, no confessionário, da que se diz nos exercícios da noite e da manhã. Não se trata aqui precisamente da confissão a Deus, mas da confissão do padre: 'E a vos meu Padre, que pequei muitas vezes" habituai-as a não dizerem - o que é uma falta e um contra senso 'e a vos, meu Padre, que rogueis por mim'. Que façam pausa em chegando às palavras 'por minha culpa'; porque é no meio do Confiteor que se deve fazer a confissão e dizer os pecados. Quando tenham dito tudo e respondido às perguntas do confessor, que terminem por estas palavras: 'Acuso-me também de todos os pecados de que me não recordo e de todos os pecados de minha vida passada; de tudo peço perdão a Deus, e a vós, meu Padre, a penitência e a absolvição, se me julgais digno dela'. E devem acabar o Confiteor, batendo no peito e dizendo: 'Por minha culpa'..."

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: Os frutos da vida sobrenatural)

PS: Grifos meus.
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