segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

São Boaventura e o Sagrado Coração de Jesus


"Achei o Coração do meu Senhor, do meu irmão, do meu amigo, o Coração do meu dulcíssimo Jesus. E não hei de adorá-lo? Sim e a ele hei de endereçar minhas súplicas. Mais ainda o Vosso Coração é meu: como os olhos da minha cabeça são meus, assim também o Coração da minha cabeça espiritual a mim pertence, é meu, é tudo meu. E assim como eu achei o Vosso Coração ó Jesus amável, que é também o meu, assim também eu Vos suplicarei ó meu Deus. Aceitai, ó meu Senhor, as minhas orações neste santuário de Vossa liberalidade. Melhor ainda, dignai-Vos fazer-me entrar neste Vosso Coração".

(São Boaventura, citado no livro: Eu Reinarei, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus no seu desenvolvimento histórico, pelo Pe. Fernando Piazza, da ordem de São Camillo, obra traduzida pelo Dr.Alberto Saladino Figueira de Aguiar; impresso nas "Escolas profissionais do Lyceu Coração de Jesus", ano de 1932)

Gregorian Chant - "Dies Irae"

Gregorian Chant - "Dies Irae"


domingo, 30 de janeiro de 2011

Donzelas cristãs guardiãs: Guardar com que disposições

DONZELAS CRISTAS:
VÓS E VOSSAS RESPONSABILIDADES


GUARDAR COM QUE DISPOSIÇÕES

Cada ofício pede determinadas qualidade, um  temperamento profissional. Uma função, para ser bem desempenhada, exige qualidades, aptidões, convicções. Que qualidade devem ter as guardiãs, como tais?

Os pescadores não são fazendeiros. Os carmelitas não são soldados de infantaria. Que é preciso para se  ser um bom pescador e um bom fazendeiro? uma boa carmelita e um soldado de infantaria? Que é preciso para ser uma guardiã? Uma jovem que saiba e queira montar guarda?

Primeiramente, deve-se crer no valor do que se guarda

Sem isso, de que vale montar guarda: de que serve o zelo para que nada se perca?

Para tudo - orar, esperar, agir, suportar - é necessário crer.

Se a vocês está confiada a guarda da fé, do pudor, do amor, do nobre ideal, deveis crer em que tudo isso merece ser guardado.

Impõe-se essa elementar convicção. É o que vos está faltando? achais que sem fé, sem recato, sem amor, sem ideal, pode o mundo viver, subir, e não atolar no lodo? Então, tratai de ir embora; não sois aptas, nem para vigiar nem para defender. O primeiro que apareça não tardará  surpreender vossa vigilância; o primeiro cansaço vos fará adormecer junto à trincheira; sonolenta, indiferente e covarde, deixareis que o rebanho se disperse, que o lobo devore, que o ladrão roube.

Pergunto eu agora: como vos achais para não acreditardes no valor das únicas realidades que perduram? onde adquiristes essa dúvida? que lâmpada vos iluminou para julgardes? Se não acreditais no valor que têm para o mundo fé, pudor e amor, então também não acreditais no valor que tudo isso tem para vós mesmas. Então é porque perdestes todas, ou estais a pique de as perder.

Então, em lugar disso, no que ou em quem acreditais vós? Em coisa alguma? Compreendo. Mas sofro com ouvir tal confissão.

Tal ceticismo desabusado não é vosso, senhorinhas! Não deve ser vosso. Crede, crede, crede uma vez mais que a fé merece se ande de luzes acesas na tempestade; que o pudor vale bem que o rosto das virgens se conserve aureolado e velado: que o amor vale bem se grite muito alto e se vivam muito suavemente suas doçuras, suas belezas, seu divino heroísmo; que o ideal, enfim, exige que as jovens, tal como nas cavalgadas, façam flutuar seu lábaro bem lá em cima, nos céus, para que os olhos humanos contemplem, admirem e sonhem.

Crede no que deveis guardar para bem o guardar.

Em segundo lugar, para serdes boas guardiãs, deveis acreditar na necessidade de o serdes, vocês, não as outras, vocês, mais do que as outras

Se assim não fosse, não tardaríeis a libertardes-vos do encargo, embora reconhecendo o valor do tesouro e vos sentireis tranquilas com vossa consciência, uma vez que outros se encarregariam de vossa segurança.

Eis a tentação de muitos: passar a senha aos vizinhos... Declarar-se indigno ou incapaz, para não ter trabalho. E ir-se embora calmamente, talvez dormir, uma vez que outros, mais adaptados, estão montando guarda.

Mas se os outros - porque não? - dissessem a mesma coisa, fizessem a mesma coisa, aonde se iriam buscar as sentinelas da trincheira cristã? quem levaria o estandarte, bem acima das multidões tíbias?

É a vós, jovens, que compete vigiar.

Dir-me-eis, talvez: "a nós... a nós... Mas porque a nós? porque só a nós? porque a nós? porque só a nós?  porque principalmente a nós?..."

E eu tratarei de responder: "Não só a vós, não! sobretudo a vós, sim! Indiscutivelmente a vós!"

Porque?

Será que tendes assim tanto medo de vosso privilégio? Fazeis assim tanta questão de serdes inúteis ou relegadas para uma plana inferior, a ponto de isso vos espantar ou incomodar quando se disser: "principalmente vós"? Ora, ficai sabendo que estas coisas não são ditas para vos lisonjearem, para vos fazerdes vaidosas, para excitarem em vós uma altaneria que já tem muita propensão para crescer loucamente. Estas coisas vos são ditas para que as conheçais. E deveis conhecê-las, porque são verdadeiras, e a verdade, em si mesma e em sua missão, não temos o direito de a ignorar nem de a esquecer.

E porque principalmente vós?

Porque sobretudo vós, minhas jovens, providencialmente, tendes sensíveis as antenas da alma, observais os menores sintomas, estremeceis aos mais insignificantes ruídos, vibrais ao menor apelo.

Porque estais à altura de apreciar o valor do que precisa ser guardado, porque ainda não o perdestes.

Não sois surdas aos apelos, não sois cegas para as manchas que enodoam a alma até há pouco pura. Não estais fechadas ao ideal, se ele é magnífico, nem à divina angústia de que tão nobremente sofre quem não está de todo endurecido.

Porque vós? Porque, se não fordes vós, quem há de ser então? Sois ou não sois o último refúgio? a grande esperança? E se a Igreja, num dia de aflição, ou de iminente derrota, der a ordem:

"VAMOS! DE PRONTIDÃO!"

a quem se há de dirigir? e quem é que há de marchar para o sacrifício? Vede bem: sois vós. Espero vos sentires felizes em serdes vós. E não penso que cedais covardemente a outros a honra de prestar o supremo testemunho de fervente amor e de irrestrito devotamento.

Soi vós.
Se não guardais, quem guardará?

As senhoras idosas? Elas já o fizeram, em seu tempo... Não o farão mais, a terra não tardará a guardá-las.

Os homens? Têm menos angústia que vós outras. O semblante de sua alma mais endurecido pelo sol e pelo vento; quase não sonham mais; é com dificuldade que vibram, absorvidos que se acham pelas ocupações terrenas. Adivinham menos. Estão cansados, e a guarda das trincheiras assenta melhor em sua idade e em seu coração do que a guarda religiosa do seu coração e do seu pudor.

As mães? Sim, elas já vos guardam. E isso já representa tanta coisa! Mas elas vos guardam para que vocês também possam guardar o resto.

Os moços? Sim, é possível, mas eles só montarão guarda aos seus postos de vigília e de batalha se vocês forem dignas de os guardar.

Vós...

Se não montardes guarda, quem o fará?

E quem vos há de substituir? Ninguém. Fazê-lo tão bem como vocês? Ninguém.

Não protesteis. Não sacudeis o jugo. Não murmureis: "esta carga está pesada". Não aspireis a liberdade das pessoas a quem nada se pede porque nada têm a dar. Dizei antes: "É magnifício!". Dizei: "tanto melhor!".

E, tomando vosso título de guardiãs como a mais alta nobreza com que Deus vos possa honrar, aceitai-o generosamente; levai-o corajamente convosco.

Com o coração dentro de vocês, esse coração que é moço, e tendo diante de vós o futuro, que é longo, sede as guardiãs que Deus quer. Não vos lastimeis porque a Igreja, tendo que escolher, não o faça entre os operários de meia idade ou do declinar da existência, mas vos escolha a vós outras, que estais na manhã da vida, que tendes o ardor e a esperança.

Vós, que sois jovens, enfim, e, só porque o sois, as verdadeiras guardiãs indicadas de tudo  o que deves ser vigiado, de tudo quanto reclama um olhar como o de vossos olhos e um frémito de religiosa ternura o de vossos corações.

Em terceiro lugar, para serdes boas guardiãs, urge vos creias capazes de vigiar, e, se tudo não se salvar, já é alguma coisa que ao menos nem tudo se deixe perder

Esse terrível "que adianta?" acaba matando tudo. proferido uma vez, que há a fazer? Parece que nada mais há a fazer.

Não se semeia senão na esperança de colher. Se o granizo tem que destruir tudo, porque plantar a vinha?

Mas, jovens minhas, será que o trabalho de cada uma de vocês é nulo e não passa de loucura pretender montar guarda àquilo que parece estar destinado a ser arrebatado?... Só porque o oceano devasta certas praias, isso é razão para deixar de construir sólidas defesas, com enormes blocos de granito?

Compreende-se: apesar de toda a nossa boa vontade, o mal existe; sementinhas há que a tempestade arrebata, como há cordeiros brancos raptados do rebanho. Que prova isso, afinal? que o pastor não vale nada? ou que somos ingênuos em plantar?

Isso provaria precisamente o contrário.

Digamo-lo despachadamente, em nome da experiência, da verdade, do poder da graça:

Se cada guardiã guardasse generosamente, de todo o coração, uma grande parte do tesouro seria salvo. Se numa paróquia dez ou vinte moças se guardassem a si mesmas e nelas guardassem para outras a fé, o pudor, o amor e o ideal, essas augustas realidades continuaram, não humilhadas como vencidas, mas vigorosas e triunfantes.

Isso é coisa que salta aos olhos, onde quer que se experimente. Deixar que tudo corra à vontade, sob pretexto de que a corrente é rápida e impetuosa, isso não passa de vulgar covardia. Se em qualquer incêndio só pode ser salvo um armário, salva-se o armário. Ora, senhorinhas, nós bem que podemos salvar mais que um armário. Jamais admitirei que uma paróquia morra se as jovens não o quiserem, e com ela morra uma parte da beleza moral e religiosa do mundo.

Quando se vê o que fazem certas criaturas, perguntamo-nos onde outras se arrogam o direito de pensar que nada podem fazer. Sempre tenho receio de que duvidar do resultado é um processo cândido, ou astuto, de nos furtarmos ao esforço de o alcançar.

E como é então que as menos generosas são quase sempre as mais desabusadas? Certamente pela mesma razão porque muitas vezes os menos laboriosos são os mais fatigados, e as que trazem os pés menos machucados se queixam mais amargamente da extensão das caminhadas.

Duvidar do resultado é o mesmo que duvidar de Deus, neste caso. E tal dúvida poderá certamente impedir que venhais a ser belas guardiãs. Não tendes desculpa de não o haver sido. Há quem se refugie à sombra dessa dúvida, julgando-se aí sem segurança, para nada ter que empreender. Mas tal refúgio, contra as exigências do dever, é tão enganador como uma asa de avestruz contra as balas do caçador e como um pano de tenda de campanha contra um "210" austríaco.

Enfim, para serdes boas guardiãs, deveis ter e pedir essas qualidades de alma que convêm a semelhante mister.

Para logo, faz-se necessária uma prudência atenta que pressinta o perigo, que, tendo-o pressentido, saiba defender-se dele. Há algumas surpresas fatais.

A inteligência está em prendê-las, não para afrontá-las, mas para as evitar.

Quem não é prudente, como poderá guardar intacto um pudor tão facilmente comprometido? uma fé tão facilmente seduzida pela mentira, se esta é fascinante, ou pelo vício, se este é dissimulado? São muitos os caos em que a verdadeira virtude não consiste em enfrentar a luta arregaçando as mangas, mas simplesmente em não nos expormos, em não nos abrigarmos sob a capa do temor, e até em não permitirmos ao mal uma entrada furtiva por janela entreaberta e até um simples olhar para os castos segredos do foro íntimo.

Para já, uma energia que dê impressão de dureza e de brutalidade. Onde não basta a imprudência, cabe à força agir. Uma guardiã que tem zelo pelo seu caro tesouro vezes há em que se enfurece como uma leoa ameaçada. Não receia um "não" categórico, um gesto sem piedade, um protesto indigno, ou uma resposta decisiva a qualquer miserável ataque. Uma verdadeira guardiã nem sempre faz aflorar aos lábios sorrisos graciosos. De repente, torna-se grave e pálida. Indigna-se. Não deixa que nos aproximemos dela. Oferece o espinho para salvar a rosa. Faz-se ouriço, ameaçando ferir, para não se tornar pássaro cativo de mãos quentes que talvez o mantém.

As verdadeiras cristãs, senhorinhas, as virgens cristãs, essas incomparáveis guardiãs apresentam-se às vezes, em sua amável beleza, puras e suaves, e o mundo jamais viu tão divino sorriso. Mas outras vezes, nas horas solenes, em que o perigo é grave, em que a fé a conservar reclama uma coragem heróica, os lírios brancos tornam-as carvalhos, as débeis crianças erguem-se como rochedos, e o mais indómito legionário romano mais facilmente se deixa levar do que essas terríveis e magníficas crianças, imobilizadas em seu trágico pudor.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Há guardar e guardar)

PS: Grifos meus.

sábado, 29 de janeiro de 2011

AS BELEZAS DE MARIA: CONCLUSÃO

AS BELEZAS DE MARIA


CONCLUSÃO

Ó doce e admirável Mãe, é por uma prece e com os joelhos em terra que deveria terminar esta parte das nossas considerações.

Que maravilhas não encontrei eu estudando a Vossa beleza!

De que íntimas e deslumbrantes consolações não foi  inundada a minha alma, ao contato de Vossa alma tão santa, tão pura e tão divinamente bela!

Que chama senti abrasar-me o coração ao sentir o contato do Vosso coração, obra-prima de amor e de ternura.

Com que anelo se elevou todo o meu ser até Vós, ao contemplar Vossos conhecimentos e indizível encanto de Vosso semblante.

Até aqui eu Vos havia admirado; aqui começo então a amar-Vos. Sob o Vosso olhar compreendo a vaidade das belezas perecíveis, indignas das minhas atenções e do meu coração. Procurei a beleza e a descobri; ela fulgura em torno de Vós, como a luz brilha em torno do Seu foco.

Fazei, ó Mãe amantíssima, que só a Vossa beleza me cative e atraia a minha ternura e o meu afeto.

Que outra conclusão se poderia tirar da contemplação de tantas maravilhas?...

O homem não se deixa guiar senão pelo encanto da beleza. Os próprios contemplativos, os homens de coração generoso, fixam sobretudo a beleza. A razão é que Deus deixou subsistir em nós uma como imagem que Adão pode entrever outrora no paraíso terrestre...

No coração trazemos uma ferida insanável, porque não pode ser curada aqui na terra. Precisamos da beleza, não, porém, dessa beleza vulgar, que não passa de colorido ou brilho que uma criatura mortal possui, mas trata-se de uma beleza que subsiste para sempre.

Precisamos da beleza da alma, da beleza do coração e do espírito, da própria beleza fisionômica, embora santificada e transfigurada pela graça e pelo amor.

Eis por que Deus nos deu Maria, para que por Ela e nEla nos fosse permitido satisfazer este anelo do nosso coração.

Um semblante agradável, traços simpáticos, modos amáveis nos atraem e cativam. Ora, tudo isso temos em Maria, e o temos de um modo inefável.

A doce Virgem se nos oferece com todo o esplendor de Sua virginal pureza e com todo o atrativo de Sua alma iluminada, junto a todo o ardor de Seu coração abrasado.

Ela se nos oferece  bela e como a mais amante e mais amável das criaturas, não para nos seduzir, mas para nos conduzir; não para excitar a nossa concupiscência, mas para a extinguir e dominar, cativando deste modo o nosso coração e embelezando-o pela Sua própria beleza, para oferecê-lo a Deus com as Suas mãos tão puras e tão doces, pois o Altíssimo Lhe permite haurir a Seu bel prazer dos Seus tesouros e da Sua misericórdia.

Reflitamos muitas vezes sobre a beleza de Maria e a Sua grandeza enlevará o nosso coração, torná-lo-á fixo e insensível a toda outra beleza.

Ouçamos ainda uma história que se relaciona com o assunto. É narrada pelo P. Silvano Razzi e confirmada por Santo Afonso de Ligório. (Glorias de Maria: A Assunção)

"Tendo ouvido falar sobre a beleza de Maria, um religioso que muito A amava desejava ardentemente vê-lA pelo menos uma vez. Pediu-Lhe humildemente esta graça e a bondosa Mãe mandou-lhe um anjo para que lhe disesse que seria satisfeito o seu pedido, com esta condição, porém, que, depois de tê-lA visto, ficaria cego.

Por essa causa apareceu-lhe a bem-aventurada Virgem um dia. E ele, para não perder os dois olhos, quis a princípio contemplá-lA com um só olho. Mas, em breve, encantado pela grande beleza de Maria, abriu o outro olho para contemplá-lA melhor, e, neste momento, desapareceu a Mãe de Deus.

Desde este dia, não continuando mais a ver a Sua amável Rainha, ele ficou tão aflito, que não parava mais de chorar, não por ter perdido um dos seus olhos, mas por não ter podido ver a Santíssima Virgem com os dois olhos.

Por isso, suplicou-Lhe que se lhe mostrasse novamente outra vez, consentindo de boa vontade perder ainda o olho que ficara: "Ó Maria, Lhe dizia ele, serei feliz e contentar-me-ei se ficar cego por uma razão tão sublime, pois amarei então somente a Vós e a Vossa beleza".

Enfim, Maria quis consolá-lo novamente e lhe apareceu pela segunda vez. Mas, como esta boa Mãe não faz mal a ninguém, em vez de privá-lo inteiramente da vista restituiu-lhe o olho que antes ele havia perdido".
E vós, ó filho, mui piedoso de Maria, não tendo talvez a felicidade de contemplar com os olhos corporais a fisionomia de Vossa doce Mãe, contemplai-A ao menos e muitas vezes com os olhos de Vossa alma.

E a Sua imagem bendita sobrepairará ante o vosso espírito e vossa imaginação, como um ideal, com um farrol, para guiar-nos na senda do dever, da dedicação e do amor.

Sim, ó Virgem imaculada, subi cada vez mais alto nos espíritos e nos corações, a fim de que todos Vos contemplem e Vos admirem.

Elevai-vos sempre mais, para que todos Vos percebam e para que possam as Vossas mãos espargir em número maior e mais eficaz as graças de perdão e de misericórdia.

E se, deste modo, já A contemplamos aqui na terra, contemplá-lA-emos lá no céu, na plentitude de Sua glória, na perfeição de Sua beleza moral e física, com todo o atrativo que pode ser exercido por uma criatura de escol, no auge do poder, da grandeza e da beleza.

Vê-lA-emos no esplendor incomparável que Lhe comunica a Sua beleza sem par, e a Sua divina maternidade.

Vê-lA-emos com o coração a palpitar de alegrias desconhecidas na terra, com todo o Seu ser beatificado pela possessão íntima do Seu Bem-Amado.

Vê-lA-emos mais bela do que já a anteviu Isaías, quando o véu do futuro foi elevado ante o seu olhar profético; mais radiante do que a contemplou o apóstolo de Patmos; mais divina do que apareceu durante a Sua vida terrestre; do que a contemplou aquele bispo (Nota de rodapé: São Dionísio Areopagita) que veio vê-lA a Jerusalém e foi como que impelido a cair de joelhos ante aquela que lhe apareceu a encarnação dos esplendores da divindade.

Vê-lA-emos mil vezes mais perfeita do que A representam os artistas em suas telas.

Cansados de corrigir continuamente as suas pinturas, desesperando a bem dizer de realizar perfeitamente o seu ideal, eles põem a cabeça entre as mãos, respondendo ao entusiasmo da multidão maravilhada: "Ah! que diríeis vós, se A vísseis como a vejo!"

Sim, ó nobres gênios, vós A contemplastes belíssima em vossos sonhos, esta visão vos servia de inspiração e guia.

Mas esta imagem nada mais é que o resultado de vossa criação humana. E que diríeis, se A vísseis tal qual A veremos um dia, obra-prima viva, em que tão pródiga e afetuosíssima se manifesta a sabedoria de Deus!...

Contemplá-lA-emos mais radiosa e sorridente do que Se mostrou aos olhos ainda demais terrestres de Bernadete.

Entretanto, era bela a Virgem imaculada, tendo no olhar um amor indizível, nos lábios um sorriso virginal a iluminá-los, tornando-A uma inefável aurora, de suaves esplendores. Bela, com a Sua túnica de lirial alvura que eclipsava o anil celeste do mais belo dia; tão bela que um dos raios caídos sobre a vidente bastou para transformar a humilde camponesa, e o reflexo da Sua beleza, iluminando a fronte de Bernadete, fazia passar através da multidão de espectadores uma aspiração de ideal, suspendia a respiração em milhares de peitos e fazia com que a mãe da vidente dissesse, entre soluços, que não mais reconhecia a sua filha.

Oh! como era bela a Virgem e, entretanto, no céu, não devemos mais atender à fraqueza de nossos órgãos então deificados, a Virgem nos aparecerá mais radiosa ainda na grandiosa luz da eternidade, porque nossas faculdades será dotadas de energias divinas, estando já a gozar da glória.

E nos aproximaremos dEla, como dEla aqui na terra se aproximava Bernadete.

E o Seu olhar amado envolver-nos-á de virginal e maternal amor.

A Sua bendita voz encantará os nossos ouvidos (P.Anizan: Para Ela). O Seu coração haverá de aquecer-nos com o Seu amor e o Seu esplendor há de deslumbrar-nos e encantar-nos por toda a eternidade.

Ó Maria, bela e doce Virgem Maria, fazei que não vivamos mais senão em Vós e para Vós.

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.
PS 2: Ver o este especial completo AQUI

São Francisco de Sales

São Francisco de Sales
29 de janeiro



"Estando morto Nosso Senhor, diz São Francisco de Sales, mas de uma morte de amor, pendente da Cruz, Ele mesmo quis que o Seu costado fosse aberto para mostrar-nos que estava verdadeiramente morto, e que a Sua morte era causada tão somente por Seu grande amor por nós; e que assim também fossêmos nós obrigados a amá-lO. E para dar-nos a entender que era o amor e não os tormentos que tiraram a vida, na hora em que expira, diz, com voz alta, forme e sonora: 'Pai, em Vossas mãos entrego Meu espírito', como se não devesse logo morrer. É por isso que um dos soldados deu uma lançada sobre o Coração, para verificar se realmente Ele já estava morto, e, aberto o Seu costado, se verificou a morte causada pela doença do Seu Coração, isto é, pelo amor. E mostrando Seu Coração aberto, quer Jesus atrair as almas a Si e obrigá-las a corresponder o Seu amor com o amor".

(Oeuvres de Saint François de Sales. Edition complète - Anecy T. IX. pg. 80, citado no livro Eu Reinarei, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus no seu desenvolvimento histórico, pelo Pe. Fernando Piazza, da ordem de São Camillo, obra traduzida pelo Dr.Alberto Saladino Figueira de Aguiar; impresso nas "Escolas profissionais do Lyceu Coração de Jesus", ano de 1932 )

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

GRAUS DE SIMPLICIDADE

A SIMPLICIDADE
SEGUNDO
O EVANGELHO
Instruções às senhoras e às jovens
(Por Monsenhor de Gibergues)

SEGUNDO  CAPÍTULO


GRAUS DE SIMPLICIDADE

Existem graus de simplicidade, a simplicidade será tanto mais elevada e perfeita quando:

- mais atual for a intenção;- mais pura for esta intenção.

De início, a simplicidade exige que excluamos inteiramente de nossa intenção tudo que seja contrário a vontade divina, e sobretudo, incompatível com a posse de Deus - nosso último fim: em síntese, tudo que é denominado pela teologia como pecado, mortal ou venial.

Depois, exige que, em se tratando de fins permitidos ou mesmo ordenados por Deus, mas secundários, não nos apeguemos a eles como se fossem fins últimos; não nos inclinemos para um bem terrestre, mesmo legítimo, com desejo e amor tão intensos que nos façam preferi-lo ao bem eterno.

Feitas estas ressalvas, a simplicidade nos permite agir visando a objetivos inferiores e secundários, quando legítimos. Por exemplo: testemunhar respeito e carinho a nossos pais, reconhecimento a nossos benfeitores, compaixão aos que sofrem.

Permite-nos agir para melhorar a saúde, para nos sairmos bem num exame, para progredir numa carreira, para obter lucros lícitos. Tudo isto, portanto, é permitido, frequentemente louvável, e algumas vezes até mandado.

Todas essas intenções estão dentro da ordem, pois se ajuntam à vontade de Deus. Se tivermos o cuidado de as oferecer a Deus, quando as realizamos, é ainda a Ele que procuramos.

Logo, devemos ter a firme vontade de excluir tudo o que desagrada a Deus, procurando apenas como fim secundário aquilo que Ele nos permite ou ordena, e somente a Ele nos prendendo como a um fim último. Por outras palavras, se, em estado de graça, aceitamos generosamente todas as obrigações da vida cristã, com o sincero desejo de tudo oferecer a Deus, atingimos a pureza de intenção. Praticamos, então, a simplicidade, desde que nossa alma permaneça nesse estado e nessa atitude, muito embora nem sempre pensemos nisso de maneira atual.

"O viajante, que está no bom caminho, diz São Tomás, não tem, de modo algum, necessidade de pensar a cada passo aonde quer chegar; da mesma sorte, a alma que possui a vontade formal e constante de alcançar a Deus não precisa renovar essa intenção em cada ato".

No dizer dos teólogos, enquanto a primeira intenção não for retratada, permanece virtualmente, isto é, pela sua virtude e pela própria força, perpassa em todas as nossas ações, penetra-as e comunica-lhes valor. Mediante a intenção resoluta e perseverante, a alma orienta-se para o seu fim; vai a Deus, da mesma maneira que os rios, seguindo seu curso, lançam-se no mar.

Se, em todas as coisas, decidirmos agir para Deus, se não retratarmos essa vontade inicial, se ela tiver alguma influência sobre os nossos atos, mesmo que disso não tenhamos uma consciência atual, caminhamos na ordem, aproximamo-nos de nosso fim último, trabalhamos para Deus: e já adquirimos, ao menos, em certo grau, a simplicidade e a pureza de intenção.

Todavia, se, agindo, pensamos constantemente em Deus para oferecer-Lhe nossos atos, se reanimamos sempre nosso coração o desejo de agradar-lO de amá-lO, se renovamos atualmente a vontade de tudo Lhe atribuir, é evidente que a força e a intensidade de nossa intenção aumentam, e cresce na medida o valor moral das nossas ações. Quanto mais nossas intenções forem atuais e intensas, tanto mais santas serão nossas ações, pois são inspiradas por maior simplicidade.

***

Assim, os motivos, que entram na intenção radical de agir para Deus têm, intrisecamente, um valor muito desigual, que é transmitido à intenção e ao ato.

Destarte, podereis desejar a obtenção de bens temporais legítimos e, para consegui-los, dar esmolas, fazer orações e penitências.

Esta intenção é boa quando acompanhada de verdadeira submissão à vontade de Deus. Mas é de todas a menos perfeita porque seu objetivo não ultrapassa os planos terrestres. Estais ainda no primeiro grau da simplicidade, pois, embora legítimo, tal motivo é o menos elevado de todos.

A ação pode ser determinada pelo temor dos castigos de Deus. Se esse temor fosse apenas servil, tudo inutilizaria: se o pecado fosse evitado tão só pelo medo do castigo, a ponto de desejardes que a punição não existisse para poderdes pecar à vontade, tal intenção seria má e condenável.

Mas, se o temor é filial, se achardes justo que Deus castigue o pecado, se o evitardes com o receio de perder a graça de Deus, a intenção é boa, louvável e recomendada pela Escritura.

Vosso motivo já é superior ao precedente: não são mais os bens temporais que estareis cobiçando, mas sim a perda dos bens espirituais que estareis perdendo.

Se olhardes, porém, os bens espirituais em si próprios, com o desejo de alcançar recompensa prometida; se disserdes como o Salmista: "Meu Deus! inclinei meu coração a praticar sempre as Vossas leis por causa da recompensa" (Salmo CXVIII, 112), vossa intenção eleva-se e torna-se melhor. Entretanto, já é muito alta e muito santa, uma vez que é o próprio Deus o salário prometido aos justos, de acordo com a promessa feita a Abrãao: "... Eu serei tua recompensa, grande acima de tudo." (Gênesis, XV, 1)

Enfim, as vossas ações podem ser diretamente orientadas para Deus. De todas as intenções é esta, evidentemente, a mais perfeita. Esta intenção pode ser concebida e formulada de dois modos diferentes.

Podereis, antes de tudo, vos propor agradar a Deus e merecer, assim, Suas graças e complacências. Certamente, agir deste modo já é amar a Deus; amá-lO mesmo muito e preferi-lO a tudo mais.

Entretanto, ainda existe uma intenção, mais elevada e pura, porque existe um amor perfeito. Podemos amar a Deus por Ele só, sem nenhuma contemplação pessoal, sem qualquer egoísmo. Podemos nos esquecer a nós mesmos, "perder a alma", como diz o Evangelho, para ver unicamente a Deus.

Não se trata de suprimir a virtude da esperança em favor da caridade: incidiríamos, assim, em erro condenado pela Igreja. Devemos desejar a Deus, procurá-lO, esperá-lO: e realmente, tenha ou não consciência dessa verdade, a alma quanto mais espera, mais ama.

Quando, porém, a alma se enamora profundamente de Deus, chega a um ponto em que apenas a Ele vê. Esquece-se de tudo que Deus lhe dá, para nada mais considerar senão a Ele. Ama a Deus por amá-lO; serve-O por servi-lO, sem dar importância à alegria ou aos bens que assim possa encontrar.

"Sem dúvida, este ato de amor pertence à alma que o realiza, diz Monsenhor Gay (Instructions pour tes personnes du monde, T. II, ch. V. Pureté d'intention); mas neste ato, ela não mais desempenha papel algum: Deus aí é tudo. Deus aí reina só."

Foi assim que os santos amaram a Deus. E foi porque O amaram a esse ponto que se tornaram santos. São esses impulsos desinteressados, esse divino esquecimento, essa renúncia total de si próprio, esses arroubos do coração e esses transportes de puro amor que se encontram a todo momento na vida e nas obras dos santos.

Já Davi exclamava: "Que desejarei eu, sobre a terra e no céu, senão a Vós, ó meu Deus?" (Salmo LXXII, 25)

São Bernardo escreveu: "O puro amor não é mercenário; não tira sua força da esperança; contenta-se em amar". (Sermão 83, sobre o Cântico)

São Tomás não pedia a Deus outra recompensa além do "próprio Deus".

São João da Cruz chegava a ponto de dizer: "Aquele que ama verdadeiramente a Deus não O amaria menos, e nada menos faria para Ele, se, admitindo o impossível, Deus pudesse ignorar esse amor e esses atos ou não lhes desse valor algum". (Sentenças)

E alhures: "É particularidade do perfeito amor nunca preocupar-se consigo, nada querer ou reservar para si, nada arrogar-se, mas tudo dar àquele a quem ama". (Explicação do Cântico, estrofe 32).

Tal foi habitualmente, o amor de Maria; o olhar de Deus nunca encontrou no coração da Virgem incomparável o menor vestígio de interesse ou de complacência pessoal.

Tal foi acima de tudo, o amor de Jesus pelo Pai. "O Cristo, disse São Paulo, não buscou o que a Ele próprio satisfazia" (Ep. Romanos, XV, 3), mas visava sempre a vontade divina da qual nunca se apartava, podendo afirmar com toda a verdade: "... Faço sempre o que agrada ao Pai." (São João, VII, 29).

***

Por conseguinte, há graus de simplicidade e de pureza de intenção, como há graus no amor.

Quanto mais pura e atual for a intenção, isto é, quanto mais direta e fortemente se dirigir a Deus, desvencilhada de qualquer outro motivo; mais puro e perfeito se tornará o amor, mais santa e meritória será a obra realizada. A perfeita simplicidade, a perfeita pureza de intenção, constitui na verdade o amor mais perfeito, o puro amor.

"A simplicidade é como a água, tanto melhor, quanto mais límpida, menos composta, mais pura... A tão adorável simplicidade é filha da inocência e irmã da caridade". (São Francisco de Sales)

(A simplicidade segundo o Evangelho, instruções às senhoras e às jovens, pelo Monsenhor Gibergues, traduzido do francês por Rachel de Castro e Aida do Val, editora Atlântica, RJ, ano de 1945, continua com o post: A pomba e as exortações da Escritura)

PS: Negritos e sublinhados meus e itálicos do autor.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tölzer Knabenchor - J. S. Bach - Jesu, meine Freude excerpts

Tölzer Knabenchor - J. S. Bach 
Jesu, meine Freude excerpts


O esforço pessoal de redenção

O esforço pessoal de redenção


Para este mundo dilacerado por tantas calamidades e cenário comum de paixões contrárias, o cristão traz seu ideal e luta por realizá-lo. Traz seu ideal, mas o mundo não parece disposto a acolhê-lo. Como Maria e José ao chegarem em Belém o cristão tem a impressão de que tampouco há lugar para ele. E às vezes é assaltado pela tentação de evadir-se e deixar os outros homens nas suas lutas inglórias, para retirar-se e viver na contemplação das verdades eternas.

E apesar disso, Deus o colocou neste mundo para que ele "o cultive e o conserve".

Esse trabalho se oferece ao cristão durante toda a vida: na vida privada, familiar, profissional, cívica, enfim, em todos os instantes de sua existência. A cada passo deve agir, ou reagir como cristão num mundo que não o é.

Deve redimir-se e redimir-se o mundo. Depois do pecado original somente o esforço doloroso sobre si mesmo permite ao homem livrar-se do mal e marchar para Cristo. Em todas as épocas da história da Igreja, ou da humanidade, foi, como é, necessário o mesmo esforço de cada um dos homens. E o esforço redentor; sem a redenção não há cristianismo. Se Cristo redimiu a humanidade com o Seu sangue, resta a cada homem aceitar que lhe seja aplicado o resgate do Calvário; e seu assentimento torna-se efetivo pelo sacrifício pessoal que é uma extensão do sacrifício de Cristo.

Fala-se muito em nossos dias de estabelecer uma ordem social cristã, para que os homens se rejam por instituições inspiradas nos preceitos do evangelho. Realmente, isto é o que todos nós desejamos.

Nada mais justo que considerar esta ordem social cristã como a meta para a qual tendemos. Porém seria uma ilusão pensar que virá o dia em que a vida cristã decorrerá inevitavelmente das instituições estabelecidas.

Jamais se viu uma sociedade tal que nela florescesse naturalmente a vida cristã pelo simples jogo das leis e dos costumes, ou pelo respeito que lhes é tributado. E aquele que confiou demasiadamente em uma religião tradicional (de práticas convencionais e quiçá rotineiras) jamais pode resistir a abalos muito rudes. Nunca foi bastante aplicar a um dado dado uma fórmula prevista, para que o resultado obtido fosse perfeito.

"Meu reino não é deste mundo". Não devemos esperar que o reino terreno chegue um dia a ser a réplica do Reino dos céus, que a fraqueza atraia as honras ou que a humanidade ganhe riquezas.

Nos primeiros séculos, alguns cristãos imaginaram um reino temporal em que Jesus Cristo, durante um milênio, governaria o universo habitado. Desde muito, porém, ninguém pensa já em ver realizado semelhante sonho. Mas quiçá acariciemos a esperança e ver um dia surgir uma era de cristandade, em que os valores religiosos serão reconhecidos autênticamente e praticados com facilidade.

Querer que se estabeleça uma ordem mais cristã é, sem dúvida alguma, uma excelente empresa, mas com a condição de que não pensemos que chegará um dia em que o cristão - decidido a realizar o evangelho - não terá mais que observar sem grande trabalho as normas estabelecidas.

Quero dizer com isto que o cristão sempre deve estar em guarda contra a tendência que aflige a todo o homem e à sociedade, de cair pelo próprio peso na mediocridade. Enquanto que, para fazer o mal, basta que nos deixemos levar, o bem exige sempre um esforço. Não podemos dormir sobre nossos triunfos, declarando como os judeus: "nosso pai é Abraão". (João 8, 39)

Além disso, as condições de vida são sempre novas para cada homem e para cada geração. Elas nos obrigam a aplicar os princípios eternos do cristianismo em terrenos ainda não explorados. Os cristãos do século XVII não conheceram nem as sociedades anônimas, nem o sistema atual de empréstimos bancários, nem a democracia, nem o facísmo, nem o comunismo. Portanto não podemos contentar-nos em imitar suas atitudes; não podemos fugir ao esforço pessoal.

Ainda imaginando uma ordem mais favorável ao florescimento das virtudes cristãs, o reino de Jesus Cristo, mesmo assim, nunca será deste mundo, "e aqueles que o queiram conquistar deverão no futuro como no passado, fazer violência".

Ao tempo de São João Batista, os judeus, possuidores do reino, eram "o povo escolhido". João Batista, e mais tarde Jesus, desenganaram-nos. Cristo não reconhece como Seus discípulos aos que se contentam em pertencer oficialmente a uma sociedade escolhida, e em repetir: "Senhor, Senhor". Pelo contrário, "os que fazem a vontade do Pai", "os que fazem violência", os que colaboram na redenção, só esses alcançarão o Reino eterno.

O ensinamento de Cristo é sempre atual e sempre verdadeiro: "Quem quer ser Meu discípulo, renuncie-se a si mesmo". Não serão excluídos, na lista das bem-aventuranças, aqueles que forem perseguidos por amor à justiça, e sempre se verificará a palavra de São Paulo: "Quem quer viver santamente em Cristo sofrerá perseguições".

(Cristãos no mundo, pelo padre E.Roche S.J, tradução de Jovany de Sampaio, editora mensageiro da fé, ano de 1948)

PS: Grifos meus.

São Bernardo - Devoto do Sagrado Coração de Jesus

São Bernardo
Devoto do Sagrado Coração de Jesus



São Bernardo (1091 - 1153) considerado com razão como dos mais ternos devotos do Sagrado Coração, fala deste Coração no seu discurso nº 61, no qual comenta as palavras dos cantares: a minha pomba nas aberturas da pedra. "Outro, diz ele, pelas aberturas da pedra, entende as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, e com razão: porque Jesus Cristo é a pedra... E onde senão nas chagas do Salvador poderão gozar tranquilidade segura o fraco e o enfermo?... O que poderei ver nestas chagas, senão a misericórdia do Senhor? o ferro transpassou Sua alma e chegou a Seu Coração, para que saiba compadecer-Se das nossas enfermidades. As chagas do corpo nos manifestam o segredo do Coração, nos descobrem o grande mistério do amor".

(Nota de rodapé: Até pouco anos era atribuído à São Bernardo o tratado da Paixão ou da Vida mística do Sagrado Coração de Jesus para as lições do segundo noturno. Nas edições do Oficio divino mais recentes, essas lições são atribuídas à São Boaventura, o Verdadeiro autor do tratado).

Entre as obras do Santo Doutor, existe uma composição em versos, na qual ele considera e saúda com terno afeto a chaga do costado, o peito e o Coração de Jesus. A composição não é de São Bernardo: remonta ao século XIII e pode considerar-se como um conjunto da idade média com referência a este precioso assunto.

Reproduzimos algumas estrofes.


A FERIDA DO COSTADO

Salve latus Salvatoris
In quo latet mel dulcioris
In quo patet vis amoris
Ex quo scatet fons cruoris
Qui corda lavat sordida.
Salve mitis apertura
De qua manat vena pura
Porta patens et profunda
Super rosam rubicunda
Medela salutifera

Te saúdo ó costado Salvador
Onde mel dulcíssimo se esconde,
Onde amor ardentíssimo se mostra
Onde uma fonte de sangue brota
Que lava a mancha dos corações.
Te saudo ó mansa abertura
Da qual rebenta água límpida
Porta aberta e profunda
Mais vermelha do que a rosa
Remédio Salutar

AO PEITO

Salve salus mea Deus
Jesu, dulcis amor meus
Salve pectus reverendum
Cum timore constringedum
Amoris domicilium
Jesu dulcis, pastor pie
Filü Dei et Mariae
Largo fonte tui Cordis
Foeditatem meae sordis
Benigne Pater dilue

Te saúdo Deus salvação minha
Jesus doce amor meu
Te saudo peito venerando
Ao qual me encosto com temor
Asilo da caridade
Jesus doce, é bom Pastor
Filho de Deus e de Maria
Na abundante fonte do Teu Coração
Lava ó Pai amoroso
A sordicies das minhas iniquidades.

AO CORAÇÃO

Summi Regis Cor aveto
Te saluto corde laeto
Te complecti me delectat
Et cor meum affectat
Ut ad te laquar animes
Viva cordis voce clamo
Dulce Corte namque amo:
Ad cor meum inclinare,
Ut se possit applicare
Devoto tibi pectore
Da cor Cordi sociari;
Tecum Jesu, vulnerari;
Nam cor cordi similatur
Si cor meum perforatur
Sagittis improperu

Salve ó Coração do Rei Supremo.
Te saúdo com o coração cheio de alegria
Apertar-te a meu peito é a minha felicidade
É este meu grande desejo
Infundi-me coragem para que te fale
Clamo a ti com viva voz do coração
Porque te amo ó Coração doce:
Inclina-te ao meu coração
De maneira que possa unir-me a ti
Devoto, coração a Coração
Dá-me a graça que meu coração ao Teu seja unido
E conTigo Jesus seja ferido;
Porque o coração será semelhante ao coração
Se meu coração for transpassado
Pelas setas dos ultrajes.

(Eu Reinarei, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus no seu desenvolvimento histórico, pelo Pe. Fernando Piazza, da ordem de São Camillo, obra traduzida pelo Dr.Alberto Saladino Figueira de Aguiar; impresso nas "Escolas profissionais do Lyceu Coração de Jesus", ano de 1932)

VII - O SORRISO DE MARIA

AS BELEZAS DE MARIA
III PARTE


VII - O SORRISO DE MARIA

Esta lembrança de Maria não pode deixar de nos cativar os corações e elevá-los ao céu. Mas, para tornar ainda mais doce e atraente esta lembrança, imaginemos a Virgem a esboçar este suave sorriso, que afasta toda timidez e nos dá a impressão de estarmos tratando com uma mãe, com a mais amante das mães.

A este respeito recordamos aqui um episódio das aparições de Lourdes. Trata-se do sr. conde de Bruissard, convertido pelo sorriso da Virgem.

Deixemo-lo narrar o fato. (A grinalda de Maria)

"Estava eu em Cauterets, conta-nos ele, no momento em que se falava tanto das aparições. Não acreditava mais nestas aparições do que na existência de Deus. Era um libertino e, mais do que isto, era um ateu.

Tendo lido em um dos nossos jornais que Bernadete tivera uma aparição, no dia 16 de julho, e que a Virgem lhe sorria, resolvi ir a Lourdes, por curiosidade, e tomar a menina em uma flagrante mentira.

Dirigi-me à casa dos Soubirous, e lá encontrei Bernadete no limiar da habitação, consertando um par de meias pretas. A mim Bernadete pareceu bastante vulgar. Entretanto, o seu aspecto sofredor tinha uma certa doçura.

A meu pedido ela me contou as suas aparições com uma simplicidade e segurança que me impressionaram. Enfim, disse-lhe eu, como é que esta bela Senhora sorria?...

A jovem pastora olhou-me com certo espanto e, após um momento de silêncio, assim falou:

- Oh! senhor, para reproduzir esse sorriso, seria preciso ir até ao céu.

- E não poderíeis vós reproduzi-lo para mim? Sou um incrédulo, e não creio em vossas aparições.

O semblante da jovem anuviou-se, e tomou uma expressão severa:

- Então, o sr. julga-me uma mentirosa?

Senti-me desarmado. Não, Bernadete não era mentirosa, e quase que me pus de joelhos a perdir-lhe perdão.

- Já que sois um pecador, respondeu ela, eis qual foi o sorriso da Virgem.

Lentamente, a jovem elevou-se, juntou as mãos e esboçou um sorriso celestial que jamais eu vi em lábios mortais. Sua fisionomia iluminara-se de um reflexo perturbador.

Ela ainda sorria, com os olhos elevados ao céu, e eu estava de joelhos aos seus pés, certo de ter admirado no semblante da vidente o sorriso da Santíssima Virgem.

Desde então conservo comigo no íntimo da alma esta lembrança divina que me enxugou muitas lágrimas. Perdi minha mulher e minhas duas filhas, e me parece não estar só no mundo: Vivo com o sorriso da Virgem".
"Viver com o sorriso da Virgem!" - Talvez nunca tenhas pensado nesta prática, piedoso filho de nossa Mãe!

E, entretanto, que fonte de pensamento sublimes e luminosos!

Muitas vezes sentimo-nos inclinados à tristeza; nossos ombros curvam-se quase sempre ao peso do acabrunhamento ou do desgosto. Contemplai então o sorriso da Virgem!

Este sorriso é a confiança, é o abandono, é o amor, irradiando sobre a nossa alma e envolvendo-a como que em uma atmosfera de paz e de tranquilidade.

Ó terna Mãe, doravante o Vosso sorriso ilumine a minha vida e presida às minhas alegrias como às minhas lágrimas, santificando as primeiras e enxugando as segundas.

Possa ele, ainda, preservar-me do mal, excitar-me à virtude, guiar-me durante a vida e tranquilizar-me na hora da morte, pois é sob este sorriso suave que quero viver e morrer.

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Donzelas cristãs: Deve-se guardar no mundo a fé

DONZELAS CRISTÃS:
VOCÊS E VOSSAS RESPONSABILIDADES


Deve-se guardar no mundo a fé

A fé! A verdadeira fé! Porque, incapaz de passar sem ela, não a tendo verdadeira, o mundo a substitui pela fé frágil e falsa, tristemente magnífica ou vergonhosamente monstruosa, com que encanta sua miséria ou enche o vazio de suas desoladas amarguras.

Que é a vida sem fé? que sentido passam a ter as coisas? que alcance as dores? que resultado o esforço? que causa merece nos prendamos a ela? que ideal impõe nos sacrifiquemos por ela?

Sem fé, só resta ao mundo inclinar sua pesada cabeça para o solo, túmulo de todas as coisas.

Guardar a fé é guardar a alma, e, se não há alma, que é então que haverá? A carne viva e a poeira morta. Com isso, que é que se pode fazer da vida? Bem o sabemos. Sabemo-lo demais. Como é vil e triste!

O país imenso, vossas pequenas paróquias, vossas humildes casas, vossas famílias, vossas ternuras, vossos corações, tudo tem necessidade essencial de fé.

Está aí? que fique! Vai-se embora? que volte! Partiu há muito: para onde? trazei-a de novo.

Guardando a fé no mundo, salvais o próprio mundo. E, mesmo que ele desconheça o serviço prestado, isso não é razão para que não lho prestemos, muito ao contrário. Mesmo que, em troca do benefício prestado, vos repila, vos esmague, vos martirize, pouco importa. Guardastes, porque na verdade nada tem mais duração que aquilo por que se sofre.

Praticamente, guardai para a igreja de pedra essas pessoas que vêem sentar-se à sombra religiosa de seu mistério. Guardai para a Sagrada Mesa as almas que nela recebem o Deus vivo. Guardai para a missa os fiéis que a compreendem. Guardai para o catecismo as criancinhas que o aprendem; para a escola cristã os meninos que a frequentam; para o patronato os jovens que a ele se dedicam.

Guardai para o altar as mais belas flores de vossos jardins. Guardai para os cânticos sacros vossas mais quentes melodias, e se vossas vozes, nas tardes do domingo, estiverem fatigadas, seja isso em honra de Jesus Cristo e não por se haverem esganiçado em outros lugares.

A tudo isso se chama guardar a fé.

Deve-se guardar ou restituir ao mundo o pudor

Com Jesus Cristo veio ele ao mundo. Com ele iria embora, se Cristo também fosse.

Uma pequena infelicidade, pensarão alguns. Um grande benefício, dirão outros. E eu direi, de minha parte: "Infelicidade sem nome! Irreparável perda! Diadema caído da fronte real da humanidade".

Pensei em tudo o que o mundo teve de aprender para que o pudor entrasse em sua alma e aureolasse misteriosamente seu semblante.

O pudor quer dizer que a humanidade tem o senso arguto do bem e do mal, a consciência clara de um decadência sempre ameaçadora, o comovido sonho de uma beleza moral sempre exposta. Significa o medo de manchar o que é virginal, e expor o que é frágil, de desperdiçar o que é tesouro oculto. Conhece o sentido de um beijo e o seu valor; o poder de um olhar e o seu perigo. Teme, espanta-se, tem medo; sente súbitos rubores, sustos, constrangimentos e timidez. E em tudo isso revela que o ser não foi manchado, que faz questão de preservar a divina imagem reconhecida nele. É uma fraqueza, e essa fraqueza é uma grande força. É um encanto tal que aqueles mesmos que o insultam não podem deixar de o reconhecer.

As patrícias de Roma não foram dotadas dessa  fraqueza nem desse encanto, que começou a irradiar discretamente nos lábios e nos olhos das virgens cristãs.

E agora? Agora... Tudo se encarniça contra ele. Como se manchasse, fingem purificar os semblantes juvenis  que tinge. As que ainda o possuem quase se envergonham dele e as que o não têm ridicularizam-no.

Acometidos de audácia, de imprudência, de leituras desenfreadas, de convivências fáceis, de intimidades; perturbadoras, os semblantes despiram-se da trêmula reserva. O pudor desaparece.

Dir-se-á: Que mal há nisso se a pureza fica?

Sim, sim, eu compreendo. Pudor não é pureza. E, no entanto, como poderão viver muito tempo uma sem a outra? Quando uma vida moça perde seu pudor e sua pureza, por onde anda? por onde andará daqui a pouco? qual das duas, aliás, é a primeira a desperdir-se? A flor que perdeu seu supremo o perfume e suas delicadas cores será ainda uma flor?

Guardai para o mundo o pudor, minhas jovens, mesmo que ele não compreenda; mesmo que ele não queira. É preciso. Não tenhais vergonha de ter vergonha; não tenhais medo de ter medo. Cobri com vossas mãos o ninho em que se agitam tantas esperanças ameaçadas. A sombra de vossas pálpebras, por detrás de vossos lábios deliciosamente fechados, protegei as augustas realidades do coração, contende os queridos segredos. Que seja velado o tabernáculo vivo, como é nos altares. Porque Deus está lá. Não O abandoneis.

Deve-se guardar para o mundo o verdadeiro amor

Neste particular, o mundo vos despacha sem cerimônia, por achar que não tem lições a receber. Ama ardentemente e desesperadamente. Diz que ama; julga amar. Pensa ser o único a amar e que seus inimigos do amor precisamente aqueles que o encaram de um modo diferente de todos.

Mas o mundo realmente não está perdendo o amor? não está a pique de o desfigurar, de o desnaturar de o matar?

Se amar é gozar, então o mundo ama. Se amar é, acima de tudo, dar-se, tornar o amado feliz e belo, chegar na doação até ao sacrifício, o mundo não ama, absolutamente não ama.

E todo o problema consiste nisso.

O amor - prazer, egoísmo elegante ou brutal, não tem necessidade de ser guardado para o mundo. Pois o mundo o guarda demais. Esse amor mantém-se sozinho, no triunfo dos instintos desabridos, sobre as ruínas do ideal moral e do dever. Vive- ou morre- dos seus prazeres; esgota-se para o satisfazer. Multiplica-se terrivelmente. É o deus das vidas sem Deus. Para uma parte da humanidade, só ele existe.

E é precisamente isso o mais triste de tudo. Porque as vítimas aqui na terra são inúmeras e o drama acaba no nada das revoltas amargas ou do desespero.

Mas o outro amor, humilde e generoso, sorridente e bom, que dá e que se dá, fiel, profundo, ardente e calmo, o amor que faz com que se morra e com que não se mate, com que se encontre plenitude, e conduz os dois até Deus, esse amor está faltando ao mundo. É necessário devolver-lho.; Guardar-lho.

Guardá-lo em cada um dos vossos corações. O amor nada é fora daqueles que amam. E, se o amor-prazer, o amor-pecado reina, é porque há inúmeros seres que, praticando-o, o fazem viver.

Em cada um de vossos corações, jovens minhas.

Segundo vosso amor, amará parcialmente o mundo.

Que pensais dele? como o sonhais? Eis uma solene resposta, que empenha o essencial da vida.

Como amigas, como filhas, como noivas, que idéia do amor realizais vós?

E que idéia realizareis como esposas e como mães? A maior parte já tem a resposta escrita na carne do coração. Todas vós amais, de um ou de outro modo, mais ou menos. Com que amor? com que coração no amor?

Sois cristãs no amor? ou sois pagãs?

Certamente que não é livre a escolha. Menos ainda o será se se forem a considerar as conseqüências do futuro e se se pensar que para amanhã o nobre amor não tem esperança de viver, a menos que hoje o que bate em vossos peitos juvenis seja uma generosa e pura ternura em lugar de perturbação dos egoísmos que têm fome e das sensualidades que têm desejos.

Deve-se guardar o ideal

E que mais ainda deve ser guardado?

Um nobre ideal? Perfeitamente. Assim convém quando se é moço e, sendo-se moço, quando se alimenta esperança e sonho.

Causam-me medo, fazem-me penas as moças que não são jovens. Há-as com a idade que terão aos oitenta anos. Se foi uma provação prematura que as feriu, a maldade humana que as agrediu, comove sua maturidade precoce. E essa maturidade, feita de experiência e de dor, não as torna inaptas para a nobre missão. Muito ao contrário.

Mas as que aos vinte anos não são jovens porque se acham corrompidas, porque coisa alguma as faz vibrar, cujos sonhos, aos ventos que passam, não tremulam mais que uma velha bandeira molhada ou amarrada ao mastro, a que respeito terão essas direito? Que esperar delas? Ideal já não têm mais, ou então trata-se de um ideal imobilizado sob um saco de moedas, atolado na lama. Não são ricas de qualquer promessa; nada guardam de reserva para o futuro. Nada conservam que valha a pena ficar.

Pensais que o mundo não tem necessidade de que se mantenha em seu céu um ideal? Essas grandes idéias, pelas quais aqui no mundo se realiza tudo o que há de belo, não devem estar escritas nos céus do pensamento e ativas nas profundezas das consciências?

Esta idéia, por exemplo, de que a vida mais alta é a vida posta ao serviço de alguma nobre causa; essa outra de que o sacrifício está acima do prazer; e uma terceira, ainda, de que o menor bem feito a uma alma merece que nos privemos de tudo para o realizar; e ainda uma outra, de que dar Deus a um ser é dar-lhe tudo; e ainda, de que a vida é antes de mais nada uma tremenda responsabilidade diante de nós mesmos e dos demais, e de que só há um modo perfeito de não a estragar: santificá-la; e ainda, de que mais vale sofrer do que pecar, comer honestamente o pão seco do que deliciar-se desonestamente num belo jantar?

Todas essas ídéias, e outras mais, cujo conjunto constitui o grande dever e cujo desfile pelas alturas constitui o ideal cristão, todas essas idéias não as devemos nós guardar? E, para as guardar, tê-las? E tê-las minhas jovens, aos vinte anos, sob pena de nunca mais as ter?

Guardai o desejo das alturas, a necessidade profunda do ar puro, o amor das claridades íntimas.

Guardai vossos lábios intactos, vossos corações vivos e castos, vossas mãos prudentes e generosas.

Guardai a chama dos vossos olhos, mas abrigada como as mãos protegem a lâmpada, sob pálpebras vigilantes que sabem baixar-se.

Guardai vosso sorriso, que pode ser culposa sedução e talvez, também, uma bondade, um auxílio, uma divina caridade dada aos infelizes.

Guardai a facilidade, que tendes, de vos emocionardes, a tendência para  a admiração, a facilidade para o entusiasmo. Guardai-os, e, se se der que a vida os esfrie, não os esfrieis antes dela.

Guardai aquilo que ironicamente se chama "ilusões de jovens apóstolas", que podem muito bem não passar de forma natural do otimismo cristão quando se tem apenas vinte anos.

Guardai vossa confiança nos resultados do esforço.
Guardai vossas amigas e que elas vos guardem.

E, acima de tudo, ao fundo de um grande amor inalteravelmente jovem, guardai a Cristo que, não tenhais dúvida, Vos guardarás também.

E agora ficais sabendo o que é preciso guardar.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Guardar com que disposições?)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Prelude BWV 1006a (J. S. Bach)

J.S.BACH
(Prelude BWV 1006a)

VI- ELA ERA MUITO BELA

A BELEZA DE MARIA
PARTE III


VI- ELA ERA MUITO BELA

Para terminar o quadro que os santos padres traçaram da divina Virgem, citemos um artigo de revistas sobre a beleza da Virgem de Lourdes. (Dom. J.B.Vuillemin)

Estas linhas tão deliciosamente inspiradas acabarão de gravar em nós a imagem da mais bela e da mais suave das criaturas, única digna, no meio da humanidade de cativar e possuir os corações.

"Ela, a Imaculada, era verdadeiramente bela, vestida com Seu traje branco, mais branco que a neve das montanhas, quando o sol vem acariciá-lA com seus raios - ornada com um véu de igual brancura, que deixava apenas perceber os cabelos, cobria as espáduas e descia, para trás, até à orla do vestido.

"Ela, a celeste Senhora, era verdadeiramente bela, com a fronte brilhante de serenidade, o rosto cheio de graça e de juventude, com Seu rosário de contas imaculadas e corrente de ouro suspensa ao braço direito, e duas brilhantes rosas sobre Seus pés nus, velados quase inteiramente pelas pregas graciosas do vestido.

"Ela era verdadeiramente bela; entretanto, nem trazia anel, nem bracelete, nem colar, nenhum desses adereços, desde muito tempo tão caros à vaidade humana.

"Seu único enfeite era o terço. Sua beleza era uma beleza virginal, angélica, divina beleza vinda de Deus e levando a Deus.

"Ela era verdadeiramente bela, pois a vidente entrava em êxtase desde que a aparição se mostrava a seus olhares.

"O mundo material não existia mais para Bernadete. Sua alma extasiada era mergulhada na contemplação. Sorrisos inefáveis iluminavam Seu rosto, transportes de alegria celeste faziam-na estremecer toda" (J. B. Estrade).

A menina de tal modo ficava estranha ao mundo visível que a chama do círio podia passar entre os seus dedos sem causar-lhe a menor impressão.

"Ela era verdadeiramente bela, bela de uma beleza como nunca se viu, dizia Bernadete; bela, penso, como se é belo no céu, dizia ainda.

Quando se procuravam na terra pontos de comparação ou quando lhe citavam senhoras notáveis pela distinção e nobreza de traços, ela respondia quase com acento de piedade: Elas nada são diante dEla, tão considerável lhe parecia a distância.

Um dia, interrogada por uma de suas companheiras sobre a beleza da aparição, ela não pode responder, a princípio, senão por uma espécie de êxtase, depois, levada a falar, acabou por dizer: "Para se fazer uma idéia precisaria ir ao céu".

Um artista tinha sido escolhido para fazer a estátua de Nossa Senhora de Lourdes. Interroga minunciosamente Bernadete e lhe faz reproduzir a pose, o movimento, os gestos da santa Virgem que arrebataram tantas almas e fizeram derramar tantas lágrimas. Terminada a entrevista, ele não pode se impedir de exclamar: "Os dados, fornecidos por Bernadete são de um ideal tão puro e tão elevado, que bastam para demonstrar que viu uma beleza do céu".

O artista foi-se embora, penetrado da grandeza de sua missão; escolhe um bloco do mais belo mármore de Carraca, e com sua piedade e seu talento, começa a realizar o ideal que trouxera de Lourdes. Quando terminou a estátua, foi apresentá-la a Bernadete: "Ah! é bela, mas não é Ela! A diferença é como a da terra ao céu!"

Tinha razão, mas o artista estava vencido de antemão, pois preciso lhe era reproduzir com meios emprestados à natureza uma beleza acima da natureza.

Até ao seu último suspiro ficou impressa na alma de Bernadete a imagem de Maria Imaculada.

Alguns dias antes de sua morte, foi introduzida na enfermaria uma criança de seis ou sete anos.

- Minha Irmã, diz a criança, é certo que vistes a Santíssima Virgem?
- Sim, responde com voz baixa e enferma.
- E era muito bonita? perguntou ainda a criança.
- Muito bela, responde vivamente Bernadete, e tão bela era que, "quando alguém a viu uma vez, deseja morrer, para ir vê-lA de novo!"

Morrer para vê-lA ainda de novo! - Oh! que doce palavra.

Talvez não possamos ter a felicidade de aplicá-la a nós, mas ao menos podemos aspirar a morrer para vê-lA outra vez.

Possa a fisionomia da augusta e imaculada Virgem gravar-se indelévelmente em nosso coração, como um ideal e como um centro de atração que não permita desviarem-se as nossas atenções e se fixarem sobre as criaturas, que delas só se apoderariam para as profanar e perder.

Maria, toda amante, e, deveria dizer, toda sorridente, será assim um raio de luz em nossas trevas, um bálsamo par as nossas chagas, um repouso em nossas fadigas e um estímulo à virtude.

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

UM CORAÇÃO ANGUSTIADO

UM CORAÇÃO ANGUSTIADO



Um coração angustiado
bate no peito do Crucificado
buscando uma só alma que O console
uma só lágrima que O repare.

Na solidão que é deixado no Tabernáculo,
Na frieza dos indiferentes;
Na covardia dos filhos de Sua Igreja...
Aí mora a Sua agonia.

Um coração angustiado
cercado por ponteagudos espinhos
não mais dolorosos que as traições
de Seus melhores amigos.

Lá no alto do Calvário
uma lágrima de Sangue santo rolou
do peito que se partiu em chamas
do mais puro amor.

E aos Seus pés o Apóstolo Amado,
o escolhido do Coração de Jesus
dá-nos junto à Maria Dolorosa
a mistura de Calor e Luz.

Um coração angustiado...
Almas amantes, consolai-O...
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