quarta-feira, 31 de março de 2010

Belíssima Hora Santa de abril

HORA SANTA DE ABRIL
Amigos do Sagrado Coração


(Padre Mateo Crawley-Boevey)

Louvado seja o Divino Coração, por quem temos alcançado a salvação: a Ele glória e honra, pelos séculos dos séculos! Assim seja.

Senhor e Amigo, Jesus adorável: eis aqui Vossos irmãos, que Vos buscam…; Vossos íntimos chamam esta noite, com insistência, às portas do Sacrário, desejosos de falar-Vos sem testemunhas, longes da multidão… Querem conversar conVosco a sós…; têm mais de uma confidência para fazer-Vos…

Vos rogam, pois, que lhes permitais falar conVosco, com a doce intimidade de João, com o abandono e a confiança de Lázaro, de Marta e de Maria, com a sinceridade de Nicodemos…

Abrí-nos, Jesus, Abrí-nos de par em par as portas do céu de Vosso Coração…

Abrí-nos…, pois, bem sabeis, Jesus, que é a sede ardente de amar-Vos e de fazer-Vos amar, que nos arrasta irresistível até Vossos pés… E Vós que tudo sabeis, sabeis já, que não viemos pedir-Vos que nos façais desfrutar dos resplendores nem das delicias do Tabor… Não viemos pedir-Vos que Vos apresenteis a nós como aos três apóstolos predestinados na Transfiguração de uma majestade de glória, oh, não!...

Outra ambição nos traz e é que reveleis, nesta Hora Santa, as belezas de imolação e de agonia, as profundidades da dor de Vosso Coração adorável no patíbulo da Cruz e no calabouço em que morais, oh Deus Sacramentado!... Ansiamos, Jesus amado, penetrar nos secretos de Vosso amor sofredor e crucificado… Desejam-no ardentemente os Vossos amigos, pois queremos nos abrasar nas chamas de uma caridade mais forte que a morte…

Abrí-nos, Jesus, abrí-nos a ferida de Vosso lado… Vede que somos os filhos de Maria; somos, pois, Vossos irmãos pequeninos, os cumulados de Vossas graças. Desejamos tanto desabafar-nos conVosco, falando-Vos no idioma que Vós mesmo ensinastes a Vossos amigos íntimos, quando os chamastes a altas vozes, desde Belém e o Calvário, e, séculos mais tarde, desde o altar de Paray-le-Monial!...

Não tardeis em abrir-nos, Jesus, não nos deixeis por mais tempo nos umbrais do Sacrário de Vosso doce Coração… Vede que se faz tarde e que anoitece… Vede como as criaturas se afanam por nos dissipar…, e com que empenho as dores pretendem nos abater…, e o inferno perturbar nossa paz e nos arrebatar de Vossos braços.

Lembrai-Vos, Jesus adorável, que Vós mesmo nos convidastes a esta Hora Santa, quando a pedistes a Margarida Maria… Recordai, oh Rei de amor!, que, segundo Vossos próprios desígnios, é esta a hora de Graça por excelência, já que nela oferecestes confiar Vossos segredos, em retorno das confidência de Vossos consoladores e amigos…; confidências recíprocas que lavrarão a eterna intimidade entre Vosso Coração e os nossos…

De joelhos, pois, Senhor, e assustados, não de temor, senão de felicidade e de amor, Vos adoramos, com os Pastores e os Reis…

Oh!, mais ainda que eles, Vos adoramos em união com a Rainha Imaculada e em seu coração de Virgem-Mãe… E para suprir nossa indigência, nos aproximamos do Sacrário, com os divinos ardores de Madalena, no dia venturoso em que a perdoastes…, com a fé de Vossos discípulos no dia de Vossa Ascensão gloriosa, e com a caridade de vossos apóstolos na hora de Pentecostes… Com todos eles Vos adoramos, prostrados ao chão, oh Rei Irmão, oh Salvador-Amigo, oh Deus de misericórdia!, no Santo dos Santos do solitário Tabernáculo…

E já que nossos lábios apenas sabem balbuciar uma oração, e posto que nossos pobres corações são tão incapazes de amar deveras e de expressar seu amor, encarregamos com filial confiança à Rainha do Amor que Ela Vos fale por nós, seus filhos e Vossos amigos…

Mas conhecendo Vossa infinita bondade e Vossa condescendência, Vos rogamos, Jesus, com imensa confiança e com profunda humildade, que faleis sobretudo Vós nesta Hora Santa… Muito mais que falar, viemos escutar-Vos. Sabedoria incriada!... Jesus, Verbo Divino, Palavra eterna do Pai, vibreis, ressoeis uma vez mais nesta terra de trevas… Falai, pronunciando aquelas palavras que embriagam na eternidade das eternidades a Vossos Santos… Falai, Jesus, nos confiando aquelas palavras de vida que conservou em seu Coração a Virgem-Mãe e que recolheram Vossos apóstolos para a redenção do mundo…

Sim, falai-nos, Mestre, já que somente Vós tendes palavras de vida eterna… Jesus, Amor dos amores, falai aos amigos que Vos escutam de joelhos ardentemente desejosos, comovidos…

(E agora escutemo-lO com um grande recolhimento…Ouçamo-lO como se O víssemos com nossos próprios olhos, aí nesta Hóstia Divina… Apresentemos-Lhe a homenagem de uma adoração fervorosa, num ato de fé ardoroso em Sua Presença real, e ao adorá-lO assim, ofereçamos-Lhe, sobretudo, uma homenagem do coração, isto é, todos nosso amor, em espírito de solene reparação).

(Pausa)

Breve consideração. Já que não nos é dado suprimir na terra a raça dos traidores e dos carrascos, proponhamo-nos a multiplicar, ao menos, a raça bendita dos amigos fiéis do Senhor crucificado, a falange esforçada daqueles que, afrontando todos os perigos e todos os opróbrios, Lhe seguiram até ao Calvário

Quão poucas vezes meditamos na misteriosa e cruel angústia do Getsêmani, agonia mais cruel por certo que a da Cruz… Vê por que ao lado do patíbulo, tinto de sangue, de pé, está Maria, a Mãe do Senhor injustiçado. Mãe incomparável e única!... E perto dela, a invencível, a fidelíssima Madalena, banhada em prantos… A dois passos está João, o apóstolo amado, e com ele uns poucos, um rebanho reduzido de amigos leais… Ah!... Entretanto, não foi assim no Getsemani…

A solidão mais angustiosa oprimiu aí e despedaçou o Coração do Divino Agonizante… Separou com predileção aos três favorecidos do Tabor, para que Lhe consolem… mas estes, vencidos pela fadiga, mais forte que seu amor, dormem… Oh, sim!, dormem, e entretanto, a uns poucos passos seu Mestre, abandonado… sozinho, luta na convulsões de uma horrenda agonia… Jesus só e desamparado, sustendo o peso esmagador, mortal, da aflição que provoca a visão espantável de todos os crimes da terra… Oh, dor! Se os amigos do Senhor dormem, pois são fracos no amor, não o fazem seus inimigos, zelosos e resolutos em seu ódio…

Desta vez a presa ansiada não escapará de suas mãos sacrílegas, e para que essa mesma noite o Rei divino caia prisioneiro em suas redes, velam animados, capitaneados e encorajados pelo único apóstolo que não dorme… Judas!

Por isso a hora de guarda desta Hora Santa deve ser uma reparação de imenso amor por parte dos amigos fiéis… Ofereçamos-Lhe como um solene desagravo por tantos amigos desleais, tíbios, apáticos…, por tantos que se dizem amigos, que deveriam sê-lo, mas que em vez de amar, vivem de temor e de transações de covardia… São tantos os mesquinho no amor e que estão longes, mui longes daquela medida de amor com que eles foram amados…

Não nos enganemos; a culpa que mais lastima o Coração do Salvador é a que parte, como dardo de fogo, de um coração amigo… Quão poucos são os verdadeiros amigos do Senhor, os que o conhecem deveras, os que deveras o amam, em paga e em retorno do dom gratuito, da amizade divina que Ele lhes brinda!...

Freqüentemente são os filhos de sua própria casa os que mais Lhe ferem… Cabalmente por isso, em reparação deste grande pecado, agrupemo-nos nesta Hora Santa em companhia da Rainha Dolorosa, de São João e de Margarida Maria, estreitemo-nos ao redor de Jesus Agonizante para recolher com santa emoção, comovidos nos mais fundo da alma, suas queixas amorosas, seus suaves censuras e também suas petições e desejos… Que aquela sede queimante que brotou de seus lábios moribundos, reclamando nosso amor ressoe em nossas almas, as comova e nos resolva a apagar sua sede ardente com a nossa devoradora, imensa…

(E agora, para ouvir sua voz divina, que tudo cale, que tudo desapareça, tudo, menos Jesus… Bebei ansiosos suas palavras).

(Muito lento e com devoção)


Voz de Jesus. Faz já tanto tempo, tanto, que vivo entre vós e todavia não Me conheceis… Sabeis, amigos mui queridos, que uma infinita tristeza oprimia Minha alma e que uma angústia de morte oprime Meu Divino Coração… Os confio a vós, tão fiéis, ouçam-Me: A amargura de minhas amarguras a provoca aquela constante infidelidade, aquele desconhecimento tão corrente, aquela inconcebível mesquinhez dos que Eu elegi e amei como amigos de Meu Sagrado Coração… onde estão?... Que se têm feito Meus verdadeiros e íntimos amigos?...

Como no Getsêmani, quando se aproxima a hora das trevas e do combate, olho ao Meu redor… chamo… estendo a mão… e me encontro quase sempre abandonado e sozinho… Ai… quão poucos são em todo tempo aqueles que se resolvem por amor a velar comigo na hora de agonia!...

Quando Meus amigos se encontram na costa do Calvário, Eu prevejo seu clamor e seus gemidos suplicantes. Eu mesmo Me adianto e Me ofereço a eles como o amável… Mas quando os traidores vociferam contra mim, quando Me oprimem sob o peso da cruz, se chamo em Meu socorro aos amigos… ai!, estes não Me ouvem… Meus amigos dormem…

Será verdade então, filhos Meus, que o ódio de Meus adversários é mais animado e forte que a caridade de Meus amigos?... Que tristeza para Meu Coração ver constantemente que enquanto os Meus descansam tranqüilos, os cruéis preparam afanosos os açoites, os cravos, a coroa de espinhos… a Cruz!...

Tanto zelo da parte deste para incrementar obstinadamente o exército, já tão numeroso, dos que Me abandonam…, tanta abnegação e desprendimento de sua parte ao pagar com largueza as covardias e traições, a gritaria da blasfêmia social e o ultraje legado da autoridade humana contra mim…

E, entretanto, Meus amigos dormem… descansam, calam!

Poderia chamar em Meu socorro legiões de anjos, e o Pai enviar-mas-ia; mas não… na hora das agonias e tristezas. Quero ter muito perto, ao meu lado, amigos capazes de amar chorando…, corações como o Meu, corações de irmãos que compartilham as dores que por eles sofro… Na hora do Getsemani os aguardo a vós, os amigos… Ai, não queirais abandonar-Me então!... rodeai-Me com amor ardente, fidelíssimo… Oferecei-Me o coração como um apoio para Meu Coração agonizante… Minha alma está triste, triste até à morte… Desfaleço e morro porque não Me sinto amado pelos Meus…

(Breve silêncio)

As almas. Esse lamento nos parte a alma… Escutai-nos, Jesus!... Sabemos que o que Vós afirmais é sempre a verdade e toda a verdade… Mas já que os que estamos ante este altar somos os amigos íntimos que viemos para consolar-Vos e para reparar, falai-nos, Senhor, com absoluta liberdade… Pedimo-Vos, Vos rogamos que formuleis por inteiro Vossa justa acusação… Não temais, Jesus, o lastimar-nos, dizei-nos sem reticência quais são as faltas que mais Vos ferem da parte dos vossos…, explicai-nos aquela amargura que enche Vosso adorável Coração, pois queremos compartilhá-la e adoçá-la…

Falai, Jesus, falai abertamente a Vossos amigos verdadeiros!

Voz de Jesus. Filhinhos! Oh, sim, filhinhos amadíssimos! Quero descobrir-vos em toda intimidade todo o segredo de Minha infinita tristeza… Mas, prometei-Me que, ao escutar Minhas queixas e reprovações, longe de separar-vos com temor insensato de meu lado, buscareis, pelo contrário, uma intimidade maior com vosso Amigo do Sacrário… Prometei-Me que daqui por diante acudireis com mais confiança ao Meu Coração em busca do único remédio para todas as vossas fraquezas.

Ao ouvir-Me, doce e bom, recordai que aqui, neste trono de graça, sou o Juiz de verdade e mansidão, a fim de ser amanhã, nos umbrais de vossa eternidade, um Salvador benigno e o Juiz amigo… Ouçam-Me:

Quereis saber que faltas são aquelas que mais me ferem?...

Falta de generosidade e de gratidão

Antes de tudo, a mesquinhez no amor de Meus amigos, a falta de generosidade!... Tenho fome… Não tendes algo para Me dar de comer, filhinhos Meus?... Não tendes porque se preocupar em Me comprar pão, como os apóstolos em Samaria, oh, não!... O pão que desejo ardentemente é vosso amor… Tenho fome de vós… Mas quero e exijo que esse dom de vós mesmos seja total, sem divisões… Dai-vos a Mim, dai-vos sem reservas… Tenho fome, não de um vosso olhar, não de um sorriso, nem de uma palavra…, tenho fome de vossas almas.

Quero que estas Me pertençam como Eu vos pertenço… Em troca de Meu Coração Divino, quero os vossos e os Quero somente para Mim… Tenho-vos dado tanto… oh, tanto!..., E em retorno, que Me haveis dado vós?... Por que esse prurido de medir-Me sempre vosso amor, já tão limitado e pobre?... Quão distante Minha sorte é a das Minhas criaturas!... Para elas vossas preferências…, para elas tudo!... Daí que Eu vosso Senhor ocupe com freqüência no banquete de vossa vida o posto do servidor, do pobre e do mendigo…

Quanto tempo faz, almas queridas, que aguardo o obséquio do dom total de vós, Meus amigos, dom ao qual tenho pleno direito e somente Eu!... E depois de esperar longos meses, ainda largos anos, recebo com freqüência, não esse dom total senão… a migalha pobrezinha que cai da mesa, o que sobra das criaturas, sempre atendidas, agasalhadas…

Os anjos se assombram ao ver que aceito essa migalha, porque Me fala de vós, mas… ao levá-la aos Meus lábios, explode de pena o coração, choram Meus olhos… Quanto tempo faz que peço e aguardo que se Me dê um lugar, e o primeiro, em vossas almas e em vossos lares!... Ai!... As criaturas mais afortunadas que Vosso Deus ocupam já esse posto de honra… e Eu devo resignar-Me a um posto secundário… Se soubésseis como sinto que Minha Pessoa divina molesta, estorva…, que se Me tolera por temor, a Mim, um Deus de amor!...

E a Mim me tendes chamando e esperando um turno que tarde ou nunca chega… Mas porque somente Eu os amo, com amor verdadeiro, Me sinto então no umbral de vossas portas, e com paciência volto a chamar a golpes redobrados, e sigo aguardando com doçura inalterável, porque sou Jesus, a Misericórdia infinita, inesgotável… E entretanto que Eu possa dar-Me a vossas almas, no banquete que Vos tenho preparado de toda a eternidade, vivo das migalhas que me jogam tantos que se chamam Meus amigos…

Não é, porventura, uma migalha de vossa vida, por exemplo, os breves instantes, os poucos momentos que distraís dos negócios e das criaturas para mos dar a Mim?... E dizer que, em troca desses segundos, Vos estou preparando uma eternidade de séculos, um sem-fim de glória!...

(Pausa)
Quereríeis uma prova manifesta, consoladores Meus, dessa falta de amor generoso da parte de Meus amigos?... Ei-la aquí: sua pouca gratidão!... Não se paga, assim, por certo, com essa vil moeda aos benfeitores da terra… Para estes, por natural nobreza, por delicadeza de educação ou de sentimentos, para eles, a efusão expressiva de vossa ação de graças… Enquanto a Mim, o Benfeitor de vossos benfeitores, não me conto sempre nessa categoria…, e fico eliminado!... Quantos leprosos de alma, sarados por milagre, e que não agradecem, quantos!...

Dizei-Me, filhos de Meu Coração, é justo tratar assim a um Deus que vos há cumulado com mil liberalidades e ternuras, que vos há prodigado a torrentes luzes divinas e consolos inefáveis, que vos há perdoado, que quer seguir vos perdoando? Que foi daquelas solenes promessas de eterna gratidão que Me fizestes cada vez que imploráveis com pressa novas graças – que digo? – prodígios de misericórdia?...
Ah, sim! Mais de uma vez vos tornais a Mim em busca de milagres. Sabei-o, Quero outorgar-vos, mas vos reservo para os amigos generosos, que Me dão tudo… Reservo-os para aqueles que Me arrebatam com a doce violência de sua imensa gratidão…

Mas quero perdoar ainda esse pecado vosso…, eis aqui a hora propícia do verdadeiro arrependimento, da reparação cumprida e da grande misericórdia… Protestai-Me, pois, agora mesmo que, daqui por diante, Me amareis todos como amigos verdadeiros; isto é, com nobreza de gratidão e com generosidade a toda prova…

Não temais a quem não vos chama e os aguardo senão para vos perdoar e ademais vos enriquecer… Tenho fome de amor, fome do pão de vossos corações… Vo-lo dai ao Deus de caridade, que se goza com o título de Irmão e de amigo Vosso…

(Aqui pode cantar-se o “Magníficat” em ação de graças ao Sagrado Coração, ou qualquer outro hino em sua honra).

As almas. Mestre mui amado, se no cálice de Vosso coração houvesse todavia a amargura de outra queixa contra nós, dai-no-la a beber agora mesmo, Jesus, que para isso viemos… Oh!, sim, essas reprovações suavísimas desafogam Vossa alma, Jesus…; ao brotar como fogo de Vossos lábios, queimam também com divinos ardores e fortificam nossas almas frias e enfermas… Falai-nos, pois, Senhor, e cura nossas chagas, nos mostrando a Vossa do lado…

Falta de confiança

Voz de Jesus. Rebanhinho dos Meus amores, subi mais e aproximai-vos de Meu peito ferido para vos confiar em toda intimidade a vós, os prediletos, outra pena, pena mui funda; a falta de confiança da parte dos Meus amigos!... Estes não me amam com o abandono de simplicidade e de paz que tanto aspiro… Dir-se-ia que desconfiam, que receiam deste Senhor de Caridade…

Não crêem o bastante, oh, não!, em Meu imenso amor… Temem-Me, estremecem e se afastam… Que dor a Minha, ao não sentir-Me realmente amado, havendo sido para esses filhos rebeldes um Deus de caridade e de perdão!...

Que mais poderia fazer todavia para curar esse mal de desconfiança, que faz estragos horrorosos na vinha rica e eleita, no campo de Meus amigos prediletos?... Como Me dói ver que não se atrevem a Me considerar, nem ao menos a Me tratar como amigo!... Ai! Por quê?... Em vão lhes repito a afirmação do Evangelho quando disse aos Meus apóstolos:

Não temais, sou Eu… Vós sois deveras meus amigos…”. Tudo em vão, pois, tais almas se empenham em resistir a esse chamamento de ternura, e com um sentimento de temor que Eu não aceito, não se atrevem a tomar para si esse título que é Minha glória… não querem, não se atrevem a saborear o néctar delicioso de uma amizade que Eu mesmo lhes ofereço… Falta algo, porventura, à obra de Meu amor para inspirar a tais alma a confiança, que reclamo?... alma querida, mas desconfiada, ouvi-Me:

Tenho deixado por vós, faz século, o manto de majestade que haveria podido justamente vos aterrar…, e contudo seguís tremendo e temendo…!
Ponde os olhos em Meu berço na manjedoura…; olhai-Me nela, pobre, manso e pequeno, menor que vós mesmos, para apresentar-Me como Vosso Irmão e vos atrair aos Meus braços… E, contudo, seguís tremendo e temendo…!

Vinde, penetrai comigo no casebre humilde de Nazaré: meditai essa vida, simples como a vossa, e muito mais, todavia… Dizei-Me: Que encontrais nessa vida de obscuridade, de simplicidade e de trabalho, que espanta?... Que?... E contudo, seguís tremendo e temendo!

Será, talvez, o esplendor de Minha vida pública que vos atemorizais?... Por quê?

Olhai, pelo contrário, como ao falar, ao estender os braços, ao chamar, as multidões Me seguem… Olhai como os pequeninos e os enfermos, os mendigos e os pecadores e todos os desdenhados, todos os leprosos morais, acodem, se precipitam até Mim e se disputam a honra e a dita de estar a Meu lado… E vós, alma querida?...

Bem sabeis que sou o mesmo Jesus, e contudo, seguís tremendo e temendo!...

Se tomasse em conta vossa desconfiança, não me atreveria, por certo, a vos convidar com Zaqueu, com Simão e Levi, e em união com tantos outros publicanos e pecadores, ao banquete de Minha divina misericordia…; pois talvez por temor me fizesses uma desfeita, rechaçando o amoroso convite… Esqueceis então que vim para salvar tudo o que havia perecido: os que jaziam no abismo…, os cadáveres dos espíritos…., o desfeito da sociedade…, os leprosos de coração? Esquecestes?... Credes vós ser um desses desventurados? Deveis por isso mesmo acudir apressadamente… E, contudo, seguís tremendo e temendo!...

Que! Esqueceu, por ventura, as maravilhas de Meu amor e Minha ternura, realizadas na última Ceia?... Não vos recordais já de Minhas últimas palavras de esperança e de perdão, no Calvário, nas que leguei à Minha Mãe, que é a vossa, o supremo testamento de Minha caridade?... Oh, sim. Vós conheceis, alma querida, este ditoso testamento. E contudo… seguis tremendo e temendo!...

E, enfim, aqui Me tens na Hóstia mais aniquilado ainda que em meu berço; mais pobre que em Nazaré, mais doce, se é possível, mais paciente, terno e misericordioso que em Samaria, Cafarnaum e Galiléia… -- credes nisso?... --, mais Salvador, se cabe, que na mesma Cruz!... Aqui, na Sagrada Eucaristia, sou mais que nunca um Deus-Amor, e contudo… seguís tremendo e temendo!....

Dizei-Me, pois, oh!, dizei-me, alma mui amada, o que mais devo fazer para dissipar vossos temores, para provocar e alentar a confiança imensa que exijo daqueles a quem chamo de Meus amigos?... Esta deve ser a prova por excelência de vosso amor! Pensai que a virtude que salva é esta Caridade…

Em Meu Divino Coração esta virtude toma o nome de misericórdia, e no coração de Meus verdadeiros amigos, se chama virtude de confiança e abandono.

Ah! Sem que vós me declareis, porque Eu sei ler nas almas, leio em vós a razão aparente deste temor; antes que mo digas, vo-lo direi Eu mesmo: são os pecados de vossa vida passada!...
Pobrezinha, empalideceis somente em nomeá-los, e suas recordações vos torturam excessivamente, diminuindo o Meu amor… Vossos pecados?... Confiai-os a Meu Coração, e não duvideis que já estais perdoada… O que necessitais, em vez de tanto temor, é crer, mas crer com fé imensa em Meu amor… e amar…

Vinde, aproximai-vos, atirai-vos no abismo de ternura de meu amante Coração; não temais. Que!... Argüis todavia que sois miserável?... Eu o sei melhor que vós, e por isso dispões de Minha paciência, que não se cansa; de Minha bondade, que não se esgota…

Aludís também a vossa grande debilidade?... Bem sei quão grande é esta, mas por que vos esqueceis que dispões de Minha onipotência, de Minha graça, com as quais podeis tudo?... Quereis todavia – o vejo – justificar vossos temores excessivos com o princípio de Minha justiça?... Ah! mas não vos esqueçais nunca que esta será terrível, inexorável, somente para aqueles que, rechaçando o amor e a misericórdia, não se confiaram em Mim…

Aproveitai, alma querida; aproveitai com usura a graça da hora presente, hora bendita, de luz, de força e de piedade… Sabei que vossos pecados que passaram, Eu joguei no abismo de um eterno esquecimento…; já não são…; os aniquilei… Oh, fazei-Me a honra e dai-Me o imenso prazer de crer com fé sem limites que sou Jesus…; isto é, Salvador!...

(Pausa)

Voz das almas. Estamos confundidos, Senhor Jesus, ao considerar a verdade tão amarga e triste dessas reprovações, por não haver correspondido ao título incomparável de amigos de Vosso Divino Coração… Quantas e quantas vezes ao nos estender, Vós, Jesus, os braços, ao nos brindar Vosso adorável Coração, nós retiramos os nossos, cedendo a temores que Vos ferem, negando-Vos aquela expansão de dulcíssima confiança a que somente Vós tendes direitos soberano!... Perdoa, Senhor, uma vez e para sempre; perdoa essa desconfiança, que não é senão falta de fé em Vosso amor e o desconhecimento da lei de Vossa misericórdia…

E em testemunho tão sincero como eloqüente de nosso arrependimento, dignai-vos escutar uma prece que regozijará o Coração do Amigo incomparável que Vós sois:

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de nossos pecados.

(Todos)

Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de nossas ingratidões.
Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de nossas debilidades.
Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de nossas trevas.
Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de nossas tentações.
Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de nossa pobreza moral.
Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de abuso de tantas bondades.
Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de nossas grandes covardias..
Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Jesus amado, não somente apesar, senão por causa de tantas recaídas.
Cremos com fé imensa em Vosso amor.

Sim, Jesus misericordioso e dulcíssimo, para Vos provar daqui por diante quanto cremos em Vosso amor, cuja medida ultrapassa infinitamente nossa miséria, por grande que esta seja, Vos prometemos com toda a alma jogar-nos em Vossos braços e acudir a Vosso Coração com confiança ilimitada…

Cada vez que sintamos o aguilhão de um remorso saudável…, iremos a Vós… Voaremos à ferida do lado, em vez de retrair-nos e separar-nos com uma distância que desconhece e ofende Vossa Bondade… Que mais desejais?... Que mais reclamais, Senhor, de Vossos amigos?... Falai, Deus de amor!....

Falta de intimidade

Voz de Jesus. Sim, amigos e irmão; oh!, sim, quero mais, todavia…, não somente um amor grande, senão uma amizade íntima e estreita entre nós… Não temais, pois não sois vós que Me elegestes como o Amigo íntimo, senão Eu, Jesus… Não sois vós quem, por pretensão inaceitável, pedis um título de glória imerecida, não… Sereis Meu íntimos por condescendência Minha… Sou Eu quem se inclina até vós… Eu, quem vos roga que aceiteis a doce intimidade de Meu Divino Coração.

Desde esta Hora Santa as distâncias que poderiam nos separar ficam, pois, suprimidas por Minha vontade… Mas o que vos espanta, filhinhos Meus, como uma novidade, com esta linguagem?... Meditai o que Minha Eucaristia vos há exortado sempre… Considerai com que abandono e com que perfeita intimidade, suprimidas todas as distâncias, Me entrego na Hóstia Santa a vós… Penetrai no mistério augusto do altar…; vede como Minha Sabedoria, em perfeito acordo com Minha infinita misericórdia, há salvado para sempre e cumulado o abismo insondável que nos separava.

Se, pois, Eu mesmo cumulei tal abismo, conhecendo a fundo vossa ruindade e miséria…; se, não obstante vossa indignidade e vossos pecados, mantenho Meu direito de chamá-los Meus amigos íntimos e os faço uma obrigação de descansar confiados na paz e amizade de meu adorável Coração… com que direito recusaríeis este título que é Minha glória e voltaríeis a abrir em nós um abismo de distância?...

Pretenderíeis acaso dar-Me a Mim, vosso Irmão-Salvador, vosso Deus e Mestre, uma lição de justiça austera ou de sabedoria?... Por que não há de obter Meu Coração amantíssimo a doce intimidade com que tratais todos a uma mãe, a uma irmão, a um amigo íntimo?... Eles terão, porventura, esse privilégio, e não Eu, vosso Jesus?... Haveis esquecido que sou um Amo zeloso de Meus direitos?... Como!... Daríeis vossa intimidade a eles e a recusaria ao Amigo divino dos pobres, dos débeis, dos pequenos e os pecadores?...

Não sabeis, por acaso, que todos estes foram sempre os primeiros convidados ao banquete de Minha intimidade e de Minha ternuras?... Não termineis esta Hora Santa sem fazer-Me esta grande promessa… Se soubésseis com quais ânsias do Coração aguarda este Deus que não quer escravos entre vós, senão amigos que lhe sirvam com amor e que se dêem a Ele nas expansões da confiança…, na intimidade do abandono!... Prometei-mo, filhinhos Meus!...

(Sim, prometamos-Lhe num momento de oração e de silêncio… Digamos-Lhe com o coração nos lábios que, na realidade, seremos Seus amigos, seus íntimos, já que Ele assim o pede… Prometamos-Lhe uma amizade que Lhe abandone o coração sem reservas, que se dê com uma confiança ilimitada, com um perfeito abandono…).

(E agora como manifestação solene desta promessa íntima, digamos cinco vezes, em honra das cinco chagas do Senhor Cruficicado, três jaculatórias simples, mas belíssimas, em seu significado… Ao ouvi-las palpitará de júbilo o Coração do Rei Prisioneiro do Sacrário).

(Todos em voz alta)
(Cinco vezes)

Amamo-Vos, Jesus, porque sois Jesus!
Coração de Jesus, em Vós confiamos!
Cremos, Jesus em Vosso amor!


Falta de sacrifício

Voz de Jesus. Acudí, amigos, vinde vós os preferidos, os cumulados com mercês singulares, vinde e vede se há uma dor semelhante à Minha dor… Há séculos que subo por amor vosso à costa do Calvário… ai!, E quão raras vezes encontro nesse caminho de amargura ao Cireneu-amigo que Me alivie o peso da Cruz!... Onde estão?... Que têm feito na hora da tribulação os que Me protestavam seu amor? Quando multiplico milagrosamente os pães é imensa a multidão que me segue…

Na apoteóse do Domingo de Ramos estão reunidos todos, oh, sim!, todos Meus discípulos

Quando rasgo o véu e mostro o esplendor de Minha divindade no Tabor… ah!... não dormem então Meus amigos… Estes me são fiéis, se mostram animados na Ceia!...

Mas onde estão… por que emudecem, no Getsêmani?... onde estão… por que desapareceram no Pretório e no caminho do Calvário?... Pedís um posto de honra, o direito a sentardes de um lado e de outro do Meu trono no Reino dos Céus, quereis uma virtude fácil e uma piedade acomodatícia… Ah!... Tudo isso me prova que não amais com um amor fundo e verdadeiro, com amor de Cruz e sacrificio…

Quantas e quantas vezes recebo prostestos e promessas que não são senão entusiasmos artificiais, fruto de um amor de fantasia caprichosa, inconstante, e não daquele amor forte como a morte que espero com direito dos Meus!... Ah, quantas vezes estes, os melhores do rebanho, temem com pavor a Cruz e receiam de Mim, o Deus Crucificado!...

Quantas vezes, ao apresentar-Me a eles como o Homem-Deus das dores, tal como Me apresentou Pilatos…, quantas vezes, ao propor com doçura a Meus amigos a glória de cubri-los com a púrpura divina de Meu sangue e Minhas dores… ai!, Me encontro abandonado por eles!... E ficaria sozinho, inteiramente sozinho, se não fosse pela companhia fidelíssima de Minha Mãe, de João e de de Madalena!...

Dizei-Me, consoladores Meus, não quereis unir-vos com amor de sacrificio a esse rebanho pequenino, mas esforçado e resoluto, que Me seguiu até ao Calvário? Teríeis também vós o valor de abandonar-Me na via Dolorosa?... Dai-Me o consolo de que vós, os íntimos, compreendeis que Eu nunca sou mais doce e terno, nunca mais amante nem mais Jesus que, quando confiando em vós, vos entrego o tesouro de minha Cruz e de minhas lágrimas, tesouro vosso e meu… E agora, contestai-Me: Senti-Vos dignos de comer de Meu pão e beber de Meu cálice?... Aguardo a resposta.

(Sem vacilação, e pondo em vossa voz as vibrações de um coração leal e a prova de sacrificios, contestemos-Lhe que sim, que pode contar com estes amigos como com outros tanto Cireneus… Prometamos-Lhe seguir-Lhe até o Gólgota com a fidelidade com que Lhe seguiremos um dia ao Tabor eterno que Seu Coração nos reserva).

As almas. Sim, Jesus: com Vossa graça podemos e desejamos beber de vosso cálice… E por isto, Senhor Crucificado, Vos adoramos com adoração mais rendida e amorosa na transfiguração sangrenta de vossa Cruz… por isso cantamos agora a gloriosa ignomínia e a glória dolorosa de reproduzir em nós os estigmas de Vossa Paixão sacrosasanta… Bem sabemos que isso é indispensavel, Jesus, para seguir-Vos de perto… e por isso, pensando desde agora em nossos pesares e preocupações de familia…, nos possíveis reveses de fortuna…, nas cruéis e constantes decepções da vida, Vos dizemos todos, Senhor, pondo o coração nos lábios:

Quando Vós permitirdes ou mandardes, Jesus, que nos crucifiquem a enfermidade e as dores do corpo; Vos amaremos ainda mais, Senhor…

(Todos)

Vos amaremos ainda mais, Senhor, Hosana ao Rei do Calvário!

Quando Vós permitirdes ou mandardes, Jesus, que nos torturem as angústias, os tédios e as grandes tristezas; Vos amaremos ainda mais, Senhor…

Vos amaremos ainda mais, Senhor, Hosana ao Rei do Calvário!

Quando Vós permitirdes ou mandardes, Jesus, que nos assediem penas muito profundas, penas secretas, e que então nos sintamos abandonados e sozinhos; Vos amaremos ainda mais, Senhor.

Vos amaremos ainda mais, Senhor, Hosana ao Rei do Calvário!

Quando Vós permitirdes ou mandardes, Jesus, que nos lacerem a alma, penas de família e aqueles espinhos que redimem aos mesmos que no-las fazem sofrer; Vos amaremos ainda mais, Senhor.

Vos amaremos ainda mais, Senhor, Hosana ao Rei do Calvário!

Quando Vós permitirdes ou mandardes, Jesus, que a tormenta rompa laços mui fortes ou que nos desenganem os melhores amigos; Vos amaremos ainda mais, Senhor.

Vos amaremos ainda mais, Senhor, Hosana ao Rei do Calvário!

Quando Vós permitirdes ou mandardes, Jesus, que nos fustigue e purifique o rigor da justiça, sempre boa e misericordiosa; Vos amaremos ainda mais, Senhor.

Vos amaremos ainda mais, Senhor, Hosana ao Rei do Calvário!

Quando Vós permitirdes ou mandardes, Jesus, que o vendaval lance por terra nossos projetos e quanto nos faça beber o cálice amargo da injustita humana; Vos amaremos ainda mais, Senhor..

Vos amaremos ainda mais, Senhor, Hosana ao Rei do Calvário!

(Pausa)

Nos aproximamos já do final da Hora Santa. Oh! Aproveitemos os instantes que ainda nos restam, aproximemo-nos de Jesus sem temor, nosso posto é o de João na Última Ceia… Não percamos nem uma gota do cálice de Vosso Coração, que nos oferece fogo divino e luz do céu.

Falta de zelo

Voz de Jesus. Me abraso, amigos queridos, oh!, Me abraso em uma sede ardente, devoradora, que poderíeis apagar com um zelo ardente e imenso por Minha glória…

Recordai e ponderai os tesouros impagáveis que vos tenho confiado com largueza inesgotável… E onde estão, amigos Meus, os interesses desse capital sagrado?... Onde estão os interesses sacrossantos de Minha glória?... Quereríeis saldar a conta e cancelar a dívida de amor que Me deveis?... Pois então à obra todos… Oh, dai-me almas, muitas, muitas almas!

Quereríeis com vontade generosa reparar os crimes de tantos desditosos e, ao mesmo tempo, reparar vossos próprios pecados?... Pois então, com denodo de caridade, trabalhai em extender e afiançar o reinado de Meu amor…

Tendes verdadeiro interesse de amor, em que Meu Coração seja ainda mais vosso… Quereríeis estreitar o laço de nossa amizade, obrigando-Me assim a enriquecê-los com uma nova e maior efusão de graça e de misericordia?... Pois convertei-vos todos sem demora nos apóstolos de fogo de Meu Sagrado Coração…

Dai-Me almas, infinitas almas em retorno do amor imenso e gratuito que predestinou as vossas… Não penetrareis, não meditareis o bastante os desejos veementes que tem meu Coração de servir-se de vós, os amigos, para distribuir seus tesouros… Prometei-Me nesta Hora Santa que sereis daqui por diante os dóceis instrumentos de que Eu me valha para atrair, com força irrestitível, as almas, as famílias e a sociedade inteira a Meu Divino Coração…

Se alegardes vossa incapacidade para desempenhar uma missão de tanta glória, voltai os olhos ao campo dos inimigos e confundidos… Tomai exemplo do zelo que o ódio lhes inspira… Ah, eles jamais alegam incapacidade, jamais!... Como!... Se encontram-se eles capazes e dispostos para preprarar-Me um Calvário, vós não o estais para converter esse Calvário em um Tabor?...

Se soubésseis tão só o oceanos de favores que reservo aos apóstolos zelosos de Meu Sagrado Coração! Sabei-o: todos seus tesouros infinitos de onipotência e de ternura vos pertencem, todos… Vinde, pois, acudi apressados, fazei-os vossos e distribui-os entre os pobres e famintos, dai-os com largueza aos ignorantes, aos cegos, a tantos infelizes que nunca receberam o que recebestes vós, que jamais souberam, que jamais ouviram o que estais aprendendo agora de minha boca… Não sabem eles quão bom Sou, porque Sou Jesus!... Ide dizê-los… Recordai que esses mal-aventurados são filhos Meus; são pois, irmãos vossos… Oh! Tende-Me piedade na Pessoa desses vossos irmãos que estão a ponto de perecer…

O que? Quereis acaso que, não estando inflamado seu zelo, socorra a outros que compreendam melhor os segredos e os interesses de Minha glória?... O tempo é curto, pois é chegada já a hora solene de Minha grande misericordia… a hora prometida, do triunfo e do Reinado Social de Meu Divino Coração na onipotência de Seu amor… Sim, o prometi Eu mesmo e farei honra cumprindo a Minha palavra… O mundo, com suas afirmações, com suas palavras vazias, passará, mas Minhas palavras e promessas não passarão jamais… Eu sou a Fidelidade mesma. Eu sou o Rei do Amor

Tenho sede de ser amado. Tomai, pois, do fogo aberto de Meu peito as centelhas de apostolado e ide, todos, ide convictos a conquistar o mundo, incendiando-o em Minha caridade… Semeai! Oh! Semeai a doutrina tão pouco comprendida de Meu amor… semeai este fogo…

Tenho sede de ser amado; amai-Me, Meus amigos, com amor apaixonado, amai-Me com amor imenso e consigais que muitos outros Me amem também como Eu os tenho amado. Ouvi-Me, amigos, reparadores e apóstolos; vos confio Meu Coração, vos dou com seus tesouros e sua glória; sabei que Quero reinar pela onipotência de Meu amor…

(Respondamos a tão irresistível convite com uma última oração, dita com o fogo que Jesus acaba de colocar no coração de seus amigos, os que desde hoje serão apostolos zelosos de Seu Sagrado Coração)

Oração Final. Rei de amor e de misericordia, Jesus amado, apoiando-nos nas promessas que Vós mesmo fizestes a Margarida Maria, em favor das almas consagradas a Vosso Coração, Vos suplicamos nesta hora decisiva que confirmeis o Reinado de Vosso Coração adorável. Dignai-Vos, Senhor, interessar mais e mais nesta causa de Vossa glória os ministros de Vosso altar e todos os Vossos apóstolos…

Como poderíamos, Jesús, chamarmo-nos Vossos amigos e ignorarmos Vossa glória?... Vos pedimos, pois, Senhor, em especial uma privilegiada benção para a Cruzada que Vos entroniza nos lares, que prega Vossa Realeza social e íntima, obra que, com a benção de Vossa Igreja, tem conquistado tantas almas, devolvendo-as a Vosso amável Coração… Fazei que esta obra seja em toda parte o grão de mostrada, transformado em árvore gigante e frutuosa, em cuja sombra se abrigam, em todas os lugares da terra, milhares de famílias que nos sofrimentos e alegrias entoem ao Coração do Rei-Amigo um hino de eterno amor…

Abençoai, Jesus, com especial ternura este apostolado, afim de que ele realize plenamente os pedidos que Vós mesmo fizestes em Paray-le-Monial; abençoai-o abundantemente, Jesús, para que Vos force ditosamente a cumprir conosco, Vossos apóstolos, aquelas Vossas palavras tão consoladoras: “Eu Quero reinar por Meu Sagrado Coração, e eu reinarei!”

Abençoai este apostolado com graças de fecundidade, Jesus amado, e fazei que os depositários da autoridade na Igreja bendigam e propaguem esta Cruzada, já que por ela abençoareis especialmente as almas consagradas que promovem o Reinado de Vosso amor.

Senhor, Vossa glória é nossa única glória; Vossos interesses, nosso únicos interesses; Vosso amor, nosso amor supremo, pois segundo Vossa grande misericórdia, Vosso Coração é centro, coração e vida nossa!

E para reforçar nossa humilde petição, Vos suplicamos pela Virgem Imaculada, Rainha dos lares consagrados; por Margarida Maria, Vossa confidente e discípula tão amada; e pelas orações, sacrificios e zelo ardente de Vossos apóstolos, que Vos digneis realizar, Senhor, em nós e por nós, as incomparáveis promessas de Vosso Sagrado Coração… Reconhecemos que somos pobrezinhos, mas mesmo assim, dignai aceitar-nos como instrumentos de boa vontade no cumprimento dos desígnios de vosso amor misericordioso.

Vos prometemos, em troca, Mestre adorável, ser, por todos os meios que estiverem a nosso alcance e em toda ocasião e lugar, os Apóstolos da Cruzada que prega como uma redenção, neste momento sombrio, Vossa Realeza Social: oh, Jesús, a Realeza de Vosso Divino Coração, que pede reinar pelo amor!

Obrigado, Senhor Jesus! Oh, obrigado pela vocação de glória imerecida ao constituir-nos, apesar de nossa pobreza, dispensadores do amor e da glória de Vosso Coração Misericordioso!...

Pai-Nosso e Ave Maria pelas intenções particulares dos presentes.

Pai-Nosso e Ave Maria pelos agonizantes e pecadores.

Pai-Nosso e Ave Maria pedindo o Reinado do Sagrado Coração mediante a Comunhão freqüente e diária, a Hora Santa e a Cruzada de Entronização do Rei divino nos lares, sociedades e nações.

(Cinco vezes)

Coração Divino de Jesús, venha a nós o Vosso Reino!

(Aclamações - Duas vezes e em voz alta)

Cremos, Jesus, no triunfo da Cruz.
Cremos, Jesus, no triunfo de Vossa Eucaristía.
Cremos, Jesus, no triunfo de Vossa Igreja.
Cremos, Jesus, no triunfo de Vosso Sagrado Coração.
Reinai Senhor, apesar de Satanás.

(Cinco vezes)

Coração de Jesus, venha a nós o Vosso Reino!

Fórmula de consagração individual ao Sagrado Coração de Jesus,
composta por Santa Margarida Maria

Eu N. Vos dou e consagro, ó Sagrado Coração de Jesus Cristo, minha pessoa e minha vida, minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte de meu ser senão para Vos honrar, amar e glorificar.

É esta minha vontade irrevogável: ser todo Vosso e tudo fazer por Vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto Vos possa desagradar. Tomo-Vos, pois, ó Sagrado Coração, por único objeto de meu amor, protetor de minha vida, segurança de minha salvação, remédio de minha fragilidade e de minha inconstância, reparador de todas as imperfeições de minha vida e meu asilo seguro na hora da morte.

Sede, ó coração de bondade, minha justificação diante de Deus, Vosso Pai, para que desvie de mim sua justa cólera. Ò coração de amor! Deposito toda a minha confiança em Vós, pois tudo temo de minha malícia e de minha fraqueza, mas tudo espero de Vossa bondade!

Extingui em mim tudo o que possa desagradar-Vos, ou se oponha à Vossa vontade. Seja o Vosso puro amor tão profundamente impresso em meu coração, que jamais possa eu esquecer-vos, nem separar-me de Vós. Suplico, por Vosso infinito amor, que meu nome seja escrito em Vosso coração, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer como Vosso escravo. Amém.
 
(Grifos meus)

terça-feira, 30 de março de 2010

Golpe profundo (Matrimônio)

Golpe profundo


O primeiro e mais profundo golpe no matrimônio nos tempos modernos foi vibrado pelo Protestantismo. Os "reformadores" do século XVI negaram-lhe qualquer caráter religioso e sacramental. Lutero renovou os erros dos gnósticos e albigenses, ensinando que o matrimônio é tão imoral como o adultério e a fornicação.

Mas, incoerente e desabrido, dizia que a concupiscência da carne é invencível - e concluia, contraditório e inconsequente, pela obrigatoriedade do matrimônio e pelo absurdo da virgindade e do celibato. Para tirar-se do impasse, afirmava que Deus não impunha aos homens as desordens do matrimônio.

Uma verdadeira seara de erros perigosíssimos.

a) O matrimônio não é religioso, mas profano. Eis a primeira e mais terrível "profanação" do matrimônio. Calvino chegou a dizer que o matrimônio é tão sagrado como o trabalho do campo... Daí nascerão todas as demais profanações, como de sua fonte.

b) As teorias da "necessidade fisiológica", da nocividade da continência, etc., hoje tão correntes e perniciosas, estão em Lutero.

c) A equiparação da vida conjugal com as desordens extra-conjugais, ensinada por ele, levaria os costumes às facilidades atuais.

O resto é conseqüência.

Os evolucionistas ensinaram que a constituição da família veio tardia, por imposição da sociedade, no desejo de organizar-se. Negavam assim ao matrimônio caráter religioso, tanto quanto os "reformadores", e punham o matrimônio às mãos dos homens, à sua mercê, como obra deles, por eles criada e afeiçoada, por eles também, decerto, desmontável e reformável!

Os próprios comunistas, declarando o matrimônio uma invenção burguesa e artificial, nada acrescentavam. E só inovaram nos processos de nivelamento com as uniões livres - nivelamento que Lutero teoricamente ensinara e que os evolucionistas insinuavam, mas sem coragem de realizar.

Sacudindo o jugo divino e fazendo-se árbitros dos destinos humanos, os Estados (preparando a hipertrofia totalitária), arrogaram-se o direito de fazer casamentos! Assim, não somente desconheciam o caráter sagrado do matrimônio, mas o negavam, considerando nulo e inexistente o verdadeiro matrimônio, dando força legal apenas ao chamado "casamento civil".

Se podiam fazer, podiam também desfazer: veio o divórcio!

A propaganda

A dignidade do matrimônio, seus fins, seu caráter religioso, seu vínculo indissolúvel, sua própria necessidade estão padecendo uma espécie de guerra total.

Livros e folhetos - desde a publicação ligeira, de pura divulgação popular, ao livro sedizente científico - andam de mão em mão. Editores se especializam na infeliz empreitada. A idéia central é sempre substituir o conceito de matrimônio como instituição divina e natural, por um conceito inteiramente humano, que deixa o casamento nas mãos dos homens como coisa sua e a seu bel-prazer.

Ou fazer tábua rasa de tudo o que não seja o amor - palavra com que romances e folhetins denominam a paixão impura, para assim soltar mais facilmente as rédeas do instinto. Desde que se amem, é tudo permitido!

Recrudesceu, desde há tempos, a campanha neomaltusiana. Uma enxurrada de livros mal orientados justifica e ensina o mais desabrido anticoncepcionismo, alimentando o egoísmo dos cônjuges, abrindo caminho à infidelidade de esposas, derrubando a barreira que ainda protegia certas virgindades condescendentes...

... Na mesma esteira navegam os divorcistas. Seus argumentos refutados nas escolas e nos seminários, em livro de alto saber, grande tomo e muito preço, andam na mão do povo, quebrando resistência, fazendo corrente, firmando convicções, preparando ruínas.

Muito mais difundidos e eficazes vêm outros meios de propaganda antimatrimonial.

O cinema martela sem cessar os temas amorosos, num amoralismo absoluto, com desprezo da organização doméstica em favor da mais desenfreada liberdade de costumes. Não admira que os temas sejam divórcios, adultérios e amor livre, quando os "astros" e as "estrelas" outra vida não vivem, na realidade.

Os teatros, as emissoras radiofônicas, as revistas descem às raias do incrível, na desmoralização do casamento e da fidelidade conjugal, na glorificação do amor livre, no culto da pornografia e da obscenidade.
E é dever ver como são preferidas as peças mais desabridas, os programas mais incovenientes, os "artistas" mais audaciosos, as sessões mais apimentadas. As anedotas correm de boca em boca, as piadas reventam gargalhadas soezes, as facécias se firmam em modismos de falar. É a aceitação inconsciente pela opinião pública.

Os erros, difundindo-se, criam uma mentalidade de vício e dissolução. O daltonismo moral chega a tais deformações que o vício passa a ser aceito, defendido e louvado, enquanto a virtude passa a ser mal vista e ridicularizada.

E os homens vão cedendo à pressão da propaganda. Relaxa-se a resistência moral, condescendem os tribunais, modelam-se novas leis à feição das capitulações, a sociedade inteira se acomoda...

Só a Igreja resiste! E Ela só! Porque mesmo os católicos vão capitulando. Sem formação, sem doutrina, sem resistências morais porque sem prática e sem Sacramentos, são vítimas igualmente fáceis dos erros correntes.

"Esses erros extremamente perniciosos - reconhece a Encíclica Casti Connubii - e esses costumes depravados começaram a difundir-se mesmo entre os fiéis, e tendem a insinuar-se insensível e cada vez mais profundamente".

(Excertos do livro: Noivos e esposos - Pe. Álvaro Negromonte)

PS: Grifos meus

A criança colérica - Como educá-la?

Nota: A parte final desse texto já havia sido publicada no blogue com o título: O domínio de si. Apresentaremos no post a seguir o texto inteiro.

A criança colérica
Como educá-la?


Cada temperamento tem seus aspectos positivos e negativos. Ser pronto nas reações, sobretudo quando a segurança, a independência, os gostos profundos são feridos, é positivo, desde que o homem tenha sido habituado a servir-se de seus dons com moderação.

A cólera é um elemento de defesa, que Ribot liga ao instinto de conservação: toma a ofensiva contra ameaças. Ai dos homens, quando não sabem mais indignar-se! Ai dos que perderam a capcidade de encolerizar-se em face das injustiças, das violências, das tiranias! Ai dos que se desfibram, se acomodam, se submetem ao injusto, ao criminosos!

Desgraçada educação, a que pretendesse tirar às crianças a reação ante o mal, a capacidade de encolerizar-se ante a violação do direito e da moral.

A cólera é, às vezes, a única forma de defesa. Em face de um "perigo", a criança que não sabe ainda falar se manifesta pela cólera: grita, chora, estrebucha para não ir com pessoa estranha, para rejeitar o que não lhe apetece, ou para se livrar do que lhe mete medo.

O seu mal são os excessos: na forma, na freqüência, na duração.

Infantilismo

Os que, não sendo crianças ainda se encolerizam com facilidade, chorando, gritando, esperneando, batendo-se, mordendo-se, quebrando objetos, fazendo "cenas", horrorizando a família e perturbando os vizinhos, podem ter outras causas de sua cólera, mas a primeira impressão que deixam é de infantilismo: apesar da idade, do tamanho e do resto, conservam reações infantis. Têm atitudes de crianças.

Dão com isto palpável demonstração de fraqueza moral. Intelectualmente, quando lhes faltam argumentos ns discussões, exasperam-se e gritam, procurando no excesso de voz o que lhes falta em razões. Se algo desejam e não alcançam, rebentam em explosões, para o conseguirem.

Há outras causas

Supõe-se sempre a predisposição para a cólera, a fim de que as causas que apontaremos  produzam os seus acessos.

Saúde

As hepatites, as colites, mau funcionamento do sistema digestivo e eliminatório, como também a fadiga e, ainda mais, o esgotamento inclinam os coléricos a suas crises. Juntemo-lhes as nevropatias, histerias e as predisposições epileptóides, cada qual mais séria.

Essas descargas furiosas - Sêneca as comparou com uma loucura passageira - obedecem às vezes a uma freqüência cíclica, aparecendo ou intensificando-se em épocas certas.

A pessoa se apresenta então mais agitada, loquaz, instável, passando rapidamente de alegria à zanga, inspirando cautelas porque a família sabe que está "nos seus azeites".

Emotividade

Há crianças (e adultos) demasiado sensíveis a impressões em si completamente inofensivas. Não compreendem (não podem ou não querem compreender?) que sejam castigadas sozinhas: por que elas e as outras não? E não aceitam que só elas cometeram a falta. Ou "estouram" porque a mãe as manda deixar os brinquedos, porque é hora de estudar, almoçar, ou dormir.

Outras se mostram hipersensíveis ao que lhes pareça humilhação: zombarias, brincadeiras impertinentes, etc., sobretudo partidas de pessoas que lhes são antipáticas. Contrariadas (ninguém percebe por quê), explodem!

Nem sempre essa emotividade é propriamente mórbida, mas acionada pelos freqüentes acessos de cólera, e, cultivada pelo sujeito, assume aspecto de morbidez.

Angústias

Os que vão recalcando decepções, desgostos, frustrações podem chegar a um estado de saturação, no qual terão maior facilidade de rebentar em cóleras.

Vítimas de injustiças repetidas e ostensivas, fraudadas em tantas promessas  que lhes fizeram e não cumpriram, entram algumas crianças em angústias terríveis -  as demonstram em acessos de cólera, que nem sempre atingem diretamente aqueles que elas desejariam atingir.

Caráter

A cólera pode ser usada (como todas as armas) corajosa ou covardemente, em combate franco ou astucioso.

A criança (ou não-criança...) deseja dizer ou fazer certas coisas, e não tem a devida coragem, em estado normal; mas no "acesso" diz e faz, realizando-se, satisfazendo-se. É simples manifestação de fraqueza. Como quem bebe para ter coragem... Outras vezes, é astúcia: por meio de suas cenas de cólera consegue o que de outro modo não conseguiria.

Erro de educação

Nem queremos extirpar a cólera (para não formar desfibrados), nem permitiremos que ela própria forme infantilizados. É isto, porém, que muitos pais não percebem, embora a criança perceba...

Com suas cenas de cólera, ela alcança o que deseja da mãe, dos irmãos, das empregadas. Basta-lhe, às vezes, uma simples demora em ser atendida. Foi assim desde pequenina. Habituou-se. Gostou. É a sua arma definitiva, o seu "abre-te, Sésamo".

Nunca lhe resistiram, nem procuraram corrigi-la. Garantida pelo erro dos educadores, foi-se firmando. Tornou-se hábito. A emotividade supersensível e cultivada, agrava-se em repetidas crises, confinando com a histeria. E hoje, escolar ou adolescente, eis aí o colérico!

Como curá-lo?

Fazemos indicações genéricas, mas lembramos que cada caso exige terapia especial.

No terreno somático

Se o caso é de saúde, cuidemos dela:

- alimentação conveniente, exercício físico, ar livre, boa aeração em casa;
- trabalho moderado, para evitar fadiga e esgotamento; repouso suficiente, sono regular com hora certa para deitar e levantar;
- ambiente calmo, evitando-se tudo o que possa excitar (ver o capítulo sobre o agitado);
- e, quando necessário, o médico e os remédios.

Manter a calma

O grande remédio é a calma do educador. Pequenina que seja, a criança "entende" a nossa serenidade, e não se autoriza com a nossa irritação. Mantendo a serenidade, pode o educador observar bem a criança e refletir nas medidas a tomar, conforme o caso.

Irritando-se, ensina o que deve corrigir, impossibilita o entendimento, perde a autoridade e, às vezes, também a medida.

E a energia

Seja essa calma plena de energia.

- Deixe a criança fazer a sua cena, até cansar-se e...repousar por si.

- Mostre-se desinteressada - realmente desinteressada, não fingidamente. A indiferença é indicadíssima. Quando a criança vê que nem a olham, nem procuram saber se já se acalmou, entrega-se com facilidade.

- Não ceda. Cedendo, a criança percebe que este é o caminho para vencer. Não cedendo, ela compreende que não vale a pena... Seja paciente, mas inflexível: não ceda! É preciso que a criança compreenda que não é este o caminho a alcançar o que deseja. Mesmo que seu desejo seja razoável, se o modo é a explosão de cólera, - mais uma vez - não ceda!

Esperar a crise passar

Não adiantam conselhos, carinhos, promessas, argumentos, durante a crise. No estado em que se encontra, a criança perde a capacidade de compreender. As maneiras comuns de denominar esses momentos são muito expressivas: "Louco de raiva", "Feito louco", etc. Se lhe formos falar com carinhos, pensa que a tememos; se com conselhos, acendem-se ainda mais; se com promessas, crêem próximas a vitória; se com rigor, pomos lenha à fogueira.

Depois, bem depois, tudo calmo e... esquecido, então fale: argumente, aconselhe, mostre que assim, longe de conseguir, dificulta os desejos.

Não temer o colérico

É preciso mostrar que não teme as crises de cólera. Não as provoque o educador, mas não as tema.

Não as provoque:
- não negue sem causa o que a criança deseja: é errado negar agora, e ceder depois, porque ela insistiu ou ameaçou "cena";
- não exija o que não é necessário: a autoridade deve poupar-se, e poupar a submissão infantil.

Não as tema:
- além da indiferença quando o acesso for manso;
- use energia, quando a criança se põe a destruir seja o que for;
- prive-a do que ela destruiu (se isso não lhe faz falta essencial), ou a faça pagar de sua mesada;
- castigue-a, quando ela bater em alguém, nas crises.

Quando estas forem "estudadas", enfrente-as:
- se são armadas pela fraqueza, logo cedem;
- se são preparadas pela astúcia, batem em retirada.

Evitar as crises

Procure evitar as crises. Observe as circunstâncias em que elas costumam aparecer. E procure, então, com maior cuidado, afastar o que as deflagra: brincadeiras, zombarias, desagrados...

O domínio de si

Toda a educação é encaminhada para dar ao educando o domínio de si: ou não é educação. Desde pequenina, seja a criança orientada para o governo de suas forças inferiores, para o domínio da vontade sobre os impulsos, para o exercício da paciência, para a aceitação das demoras, recusas e privações, para o controle de reações muito vivas, para saber dizer "não" aos estímulos anti-sociais, para a compreensão de medidas desagradáveis.

Nós que cremos em Deus, que temos as lições da Sagrada Escritura, e sobretudo nós cristãos não temamos apelar para o espírito de mortificação, ensinado por Cristo como necessário a seus discípulos: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me".(Mt. 16,24), praticado e inculcado por São Paulo - "Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que não venha a ser condenado eu que preguei aos outros". (I Cor 9,27) - encarecido em mil passos dos Livros Santos.

Será proveitoso lembrar que o espírito de sacrifício (clicar) se ensina às crianças, mas não se lhes impõe. Impô-lo é vê-lo rejeitado e abominado. Mas sugeri-lo e formá-lo é indispensável ao educador cristão.

A educação não pretende eliminar os impulsos, apagar os instintos, extinguir as energias naturais. Ela não quer fazer insensíveis e abúlicos. Pelo contrário: quer formar homens, homens de verdade, que vivem no esplendor de suas energias, mas sabem hierarquizá-las, submetendo-as à vontade esclarecida e enérgica.

O homem verdadeiro sente os seus impulsos, mas sabe dominá-los.
Isto se ensina às crianças, de modo prático e vital; não se lhes impõe.

Enganam-se os que pensam ser possível, por golpes de força, "quebrar a castanha" das crianças "emproadas". É mais fácil quebrar toda a personalidade, fazendo um desafibrado. Ou fazer canalizar noutra direção as energias barradas, levando o educando a caminhos indesejados.

Na verdade, o educando é que se deve dominar. E o trabalho dos educadores é ajudá-lo nesta tarefa essencial da formação.

No caso em questão, importa conter as explosões de coléra, e não as reações em face do que é injusto, imoral, agressivo. A capacidade de encolerizar-se fica, sendo, porém, moderada, civilizada, canalizada por modos e para fins construtivos. Todos sabem que os temperamentos ditos coléricos são ricos de energia, solidez, tenacidade, e que, bem educados, dão execelentes empreendedores e líderes.

(Excertos do livro: Corrija o seu filho - Mons. Álvaro Negromonte)

PS: Grifos meus.

A dor aperfeiçoa as almas, como um escultor tornando-as mais belas

 A dor aperfeiçoa as almas,
como um escultor tornando-as mais belas


Ah! Mãe de todas a mais aflita!
Ó Maria, a Vós é imposto assistir Jesus moribundo,
mas não vos é facultado procurar-Lhe alívio algum.

Maria ouve o Filho dizer que tem sede,
sem que Lhe seja permitido dar-Lhe um pouco de água para dessedentá-Lo.
Pode dizer-lhe apenas, conforme as palavras de São Vicente Ferrer:
"Meu Filho, tenho tão somente a água de minhas lágrimas."
(Santo Afonso Maria de Ligório)


Detenhamo-nos um momento neste vértice: ele é luminoso. A dor não fere, pois, somente aqueles que se esquecem de Deus neste pobre mundo, nem os que aqui se corrompem. Os justos também sofrem; os bons também têm mágoas. Eles sofrem para se tornarem mais justos; têm provações que os tornam melhores. Discutamos sem pressa esta questão. Iluminados pela triste, porém, penetrante luz da dor, vamos começar a compreender a vida.

Quando se saberá que o homem é o seu próprio escultor; que Deus o colocou na terra no estado de gérmen, precisamente para que ele se criasse; para que desse mármore frio e informe, sem individualidade, personalidade nem beleza, o homem tirasse uma estátua viva? Mas, principalmente, quando se saberá que, neste trabalho, Deus lhe deu a dor como auxiliar?

Ó homem, não eras belo, grande nem santo; e o és agora. Porque? Porque sofreste.

Vede como nascem os homens. Todos no estado de gérmen. Alguns disformes; os melhores apresentam um fundo estéril e seco, uma seiva áspera. A criança é impiedosa, disse um grande observador. O jovem revela pouca sentimentalidade; a sua vivacidade natural, o seu entusiasmo não vem do coração; e nas suas palavras imperiosas, nos gestos de desdém, ele manifesta a ausência de bondade.

O seu coração não nasceu ainda, diz-se então. Tem graça, espírito, imaginação, ciência; no entanto, não fala bem. Que lhe falta? A dor, que ele não conheceu ainda.

O tempo, as provações, os sofrimentos submissamente suportados são elementos indispensáveis para que o coração adquira doçura e a alma a sua elevação, a sua beleza moral.

Certas cordas, e são precisamente as mais belas, só vibram no homem quando as lágrimas as umedecem. E é por isso que a dor é tão abundante. A onda que vem, não espera que a vaga precedente tenha passado. Dores do espírito, dores do coração, moléstias e sofrimentos de todas a espécie, a inextinguível amargura corre indefinitidamente e envolve a vida inteira.

Porque? pergunta o homem, atônito.
Porque se esvai continuamente a felicidade?
Porque a dor jamais finda?

Porque? Para que nos aperfeiçoemos para que nos cinzele o lento e delicado trabalho do buril.

A uns são aplicados esses grandes golpes da dor, semelhantes às possantes marteladas com que Michelangelo tirou do bloco de mármore a estátua de Moisés. Outros só têm esse contato contínuo, minucioso, penetrante e delicado do torno que dá a um diamante a sua beleza, o seu brilho, o seu fogo. Mas tanto em um quanto nos outros, em todas as almas, a mesma operação inteligente da dor as auxilia nas aspirações da beleza perfeita.

A dor cabe, portanto, uma pesada e incessante tarefa; não vos surpreenda, pois, a sua freqüência. Ela se aplica com insistência nos vossos pontos frágeis. Sois fraco; cumpre que ela vos torne forte; sois forte; convêm que ela vos torne fraco.

Eis uma pessoa cujo coração é afetuoso; a dor vem feri-la, para proporcionar-lhe no sacrifício e no esquecimento de si mesma um amor que não seja muito humano, porém nobre, elevado, ativo e perseverante. Eis outra cujo caráter é firme e generoso, mas cuja personalidade se expande exageradamente; a dor acode em seu auxílio.

Cumpre, certamente, que as lágrimas venham vivificar essa sensibilidade que se extingue ou esse amor que se dissipa. Almas tão altivas, tão pessoais, que vos deleitais na contemplação do vosso "eu", espere a dor; ela vos forçará a amar. E vós, corações amorosos, esperai-a também, receiosamente. Ela só permitirá que a vossa sensibilidade se torne generosidade e virtude.

Nós nos compreendemos, seguramente bastante o trabalho inteligente da dor; adoraríamos a mão invisível e terna que dirige o buril, se tivéssemos essa nítida percepção.

Quando não nos lisonjeamos e contemplamos calmamente a nossa alma, causa-nos surpresa a maneira justa e precisa pela qual a dor nos feriu.

E não somente ela desperta a alma com inteligência, revelando-lhe as lacunas, as sombras, os vícios, dando-lhes qualidades que lhe faltam; como também, muitas vezes, o seu cinzel se aplica nos pontos em que mais virentemente florescem as virtudes. Porque?

A fim de as fortalecer e aumentá-las, a fim de as desembaraçar de todo e qualquer obstáculo ao seu desenvolvimento. Sois paciente e bom; sereis assaltado por toda a sorte de enfados; sois generoso, vivereis entre egoístas. A vossa mais alta virtude será justamente a menos conhecida; a vossa mais bela qualidade procurará debalde a sua aplicação.

Apraz-vos a vida íntima da família, é possível que toda a vossa existência se passe sem a companheira desejada, ou talvez a percas pouco depois do vosso casamento. A vossa alma acariciava todos os sonhos da paternidade; nunca tereis filhos. Se tendes na alma um ponto sensível, é exatamente ali que a dor aplicará o seu buril; e embora a ninguém o tenhas revelado, a dor achará esse lugar. E si, por acaso, vós mesmo não conhecieis esse ponto, a dor vo-lo mostrará.

Compreendeis, portanto, que a dor é apenas um instrumento manejado por Alguém que conhece a vossa alma.

Quero indicar-vos outras provas disso.
Já notastes com que arte a dor se proporciona ás almas?

Sobe e desce, eleva-se ou abaixa-se com elas; faz-se delicada ou grosseira, conforme for necessário. Não sois sensiveis ás dores delicadas da alma; Deus vos enviará as duras fadigas do corpo. Não sentis as nobres preocupações da honra; Deus vos dará as penas vulgares da fortuna. Não vos magoam os santos sofrimentos do coração; Deus vos sugerirá as inquietações do espírito: não erra nunca o seu alvo, porquanto, se não puder atingir-vos a alma, ferirá o vosso corpo.

Vede, no entanto, como a dor se espiritualiza á medida que as almas se desprendem da terra.

Quem descreverá jamais sofrimentos sutis, incompreendidos pela multidão, reservados ao homem de gênio, ao poeta, aos espíritos superiores?

Como seria narrado ao martírio invisível e sublime que Deus opera no coração das mães, no enlevado coração das virgens e sos santos?

A vida é um crisol em que as almas se formam para o Céu; e nesse crisol elas são sempre afagadas pela chama que convêm á sua natureza. Vós que compreendeis o mistério da dor e aspirais á elevação e á santidade, deixai que o sofrimento vos torture.

Quem dirige o buril que vos fere, sabe melhor do que vós onde e como é necessário aplicá-lo.

Isto me conduz a outro ponto de vista ainda mais digno da nossa atenção, e do nosso interesse, tantos são os aspectos multiplos que se nos apresentam.

A dor supre o amor.
(Excertos do livro: A Dor - Monsenhor Bougaud)

PS: Grifos meus.

A coqueteira

Nota: Apresentamos um texto completo do Pe. José Baeteman (sobre a vaidade no vestuário), texto que em outra publicação, havíamos transcrito apenas algumas partes. 

A coqueteira


Outro perigo do mundo consiste em levar aquelas que lhe querem agradar a se ataviarem com um luxo de vestuário extravagante, e a caírem na coqueteria, ou garridice, que é um desejo extremado de agradar pelo abuso dos enfeites. As jovens das classes mais modestas não estão isentas desta miséria!

O grande Fénelon temia muito este perigo para as jovens; por isso, no seu livro sobre a Educação, escreve:

"Nada temais tanto como a vaidade nas meninas: elas nascem com um desejo violento de agradar... aspiram à beleza e a todas as graças exteriores, são apaixonadas pelos adornos. Um chapéu, uma ponta de fita, um cacho de cabelo mais alto ou mais baixo, a escolha de uma cor, são para elas outros tantos negócios importantes."

E esse defeito não se acha só numa certa sociedade, encontra-se mesmo entre as que fazem profissão de vida séria. Toda mulher é naturalmente coquete, ou faceira, andaria errada negando-o.

"A maioria das mulheres, diz Luís Veuillot, ficam na terra entre a graça e o pecado, que as disputam e que elas talvez sonhem conciliar. Na missa pela manhã, no baile à noite; querendo agradar e temendo agradar demais, sentindo este receio pela manhã mais do que à noite; mas dispostas, à noite, a arriscar-se a agradar demasiado do que a resolver-se, pela manha, a não agradar absolutamente; mui fácil e mui sinceramente tocadas de arrependimento, quando percebem que agradaram demais, porém de um arrependimento que não é sem doçura e sem um pouco de vontade de recomeçar."

Aí está, pois, uma verdade que poderá desagradar, talvez, mas que é preciso ter a coragem de afirmar. Santo Ambrósio já dizia às mulheres do seu tempo: "Vede essas matronas que pintam o rosto porque receiam não agradar. Querem corrigir a natureza, e por isso mesmo se julgam e se condenam. Porquanto, ó mulher, que juiz mais sincero da tua fealdade teremos nós do que tu mesma que receias mostrar-te tal qual és? Se és bela, porque te disfarças? Se és feia, porque mentires aos olhos, no desejo de pareceres o que não é?"

Não se pode deixar de experimentar um profundo sentimento de tristeza pensando em que as moças passam uma porção considerável da sua existência em futilidades coquetes. Pode-se-ia crer que a cor de um vestido, a forma de um chapéu, um laço de fita se tornem negócio capital para uma cristã?

E no entanto ... Sem dúvida, deve ela pensar num cuidado razoável do seu vestuário, numa certa elegância mesmo. S.Francisco de Sales quer que a sua Filotéia seja "a mais bem vestida, cntanto que seja a menos pomposa e a menos afetada". Mas, quando uma moça é verdadeiramente coquete, esse terrível defeito estraga-lhe as mais belas qualidades e tira-lhe a sensatez, a modéstia e toda a seriedade que deveria ter a sua existência.

Vejamos as tristes conseqüências da coqueteira:

a) Prejudica a seriedade da vida.

Desde que o coração está cheio dessas bagatelas, dessas futilidades, toma-lhes emprestado qualquer coisa que o torna também fútil e vazio. Aos poucos a alma assume a feição das coisas que fazem objeto dos seus pensamentos habituais.

Que será da seriedade, do espírito cristão, que é um espirito de sacrificio, numa jovem constantemente ocupada com a sua "toilette"? Esses espírito extingue-se numa inevitável moleza, conseqüência do enfraquecimento do senso moral.

b) Faz perder um tempo considerável.

"Tempo é dinheiro", dizem. É mais do que isso, pois é a moeda com que se compra o céu. Quanto tempo perdido no penteado, no vestuário, no enfeite de um corpo tornado um ídolo! Desperdiçar-se-ão nisso horas inteiras, e, quando Deus vier solicitar alguns minutos para a oração, a jovem coquete exclamará: Como? rezar? ir à Missa? ora! não tenho tempo!

c) Leva a despesas loucas.

Que luxo na nossa sociedade atual! Passa por ela como que um sopro que dá vertigem! Quanto dinheiro disperdiçado no vestuário, nos enfeites! Para ter uma jóia, um vestido, uma dessas mil frivolidades com que a vaidade lhe exorna a orgulhosa pessoa, a moça não recuará ante nenhuma despesa!

Por isso, quando a esses corações roídos pelo desejo de agradar e de se fazer notar, alguém vier estender a mão em favor das obras de caridade, colherá uma resposta azeda, egoísta e cruel; a coquete não recusará nada ao seu corpo, mas aos pobres, às almas que se perdem... ora!... os tempos estão tão bicudos! Pior do que isso! Muitas vezes, para satisfazer o seu pendor, uma coquete não hesitará em arruinar a família. Em casa, será o flagelo do marido, e, porque não dizer? também dos filhos; ela nunca se julgará com meios para educar filhos, tem um trapo de pano em lugar do coração.

d) É uma tolice e uma aberração.

No fundo a coqueteira tem por fim único procurar agradar. Por mais que a pessoa não o confesse a si, isto é verdade mesmo assim. Ora, como agradar aos outros senão por meio de qualidades amáveis? E essas qualidades a pessoa as tem ou não as tem. Se as tem, não há necessidade dos socorros da arte para que elas produzam seu efeito. Se não as tem, procurará então fingi-las. Neste caso a coqueteira não passa de uma mentira vulgar.

Há mais. A arte não pode dar as qualidades morais, que, em última análise, são as únicas duradouras, as únicas amáveis, as únicas que impressionam. Saberá imitar a natureza; mas então que outra coisa fará senão vos emprestar uma máscara?

Não há nada que valha o natural e a simplicidade. Suponde uma bela flor... cercai-a de fitas, derramai-lhe na corota perfumes capitosos; ficará ela mais atraente? Não! e nada mais tereis feito do que estragar uma belíssima obra de Deus!

e) Ela faz rir de si.

Sim, na frente far-vos-á a esmola de um sorriso, de um cumprimento lisonjeiro e mendaz; mas por detrás as pessoas sensatas vos apontarão com o dedo, rir-se-ão de vós, desferir-vos-ão epitetos que feriam de morte a vossa vaidade de pudésseis ouvi-los.

f) Leva com frequência ao desregramento.

Ela é que, com a preguiça, é a provedora habitual dessa podridão social a que se chama "demi-monde". Rola naturalmente para essa ignomínia quando a paixão da "toilette" chega (e chega depressa) a dominar o cuidado da virtude e da honra.

g) Sede franca e, de boa fé, ide ao fundo das coisas.

Porque quererdes fazer "toilette" senão para atrair os olhares? Porque quererdes atrair os olhares senão para agradar, para vos fazerdes admirar, digamos o termo ... para seduzir? Coqueteria, astúcia e sedução, eis aí, confessado ou não, o fim de todo vestuário muito rebuscado.

Se ainda só se tratasse de agradar o noivo desejado, talvez se vos pudesse desculpar. Mas quem deveras ama, quase não usa de tais meios, e muitas vezes a coqueteira, se tende a inflamar outrem, não se preocupa lá muito com as conseqüências. A pessoa é coquete não para outrem, mas para si; quer ser notada, lisonjeada, adulada, e aqui se trata apenas das mais honestas! Essa coqueteira que força o sentimento depois de realizar o enfeite, é a mais culpada de todas.

Mas então a gente terá de mal amanhar-se como um macaco, e de se fazer carrancuda, amuada, insuportável?... Não, não se vos diz isto, e, depois, mesmo assim acharíeis meios de ser coquetes! Não se trata absolutamente de mau gosto.

Não notais que as excentricidades da moda, o requinte nos vestuários, afeiam muito mais do que embelezam as que a elas se submetem? Ficai sendo, pois, aquilo que sois, e vesti-vos com simplicidade. O vestido, que deveria lembrar-vos a queda original, não deve tornar-se uma armadilha, a mais sapiente das astúcias, a mais pérfida das coqueterias a mais vulgar das seduções.

(Excertos do livro: Formação da donzela - Pe. Baeteman)

PS: grifos meus
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