segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Saúde da futura mãe

O campo das vidas

O Deus que semeou as estrelas no céu, espalha, ainda hoje, as vidas em campos abençoados. Pois é campo o corpo da jovem cristã. Dele nascerá a seara das vidas com seus altos destinos e suas riquíssimas reservas. Segue-se disso que o seu bem-estar, a sua força vital há de merecer cuidados especiais por parte da futura esposa... Em uma moça que ao casamento se destina tudo tem de contribuir para a grandeza do título de esposa e de mãe. Para a grandeza e para a plenitude indispensável. É o casamento a oficina da vida e supõe na esposa robustez de saúde, reservas físicas, por cuja conservação e aumento ela fica responsável. As leis da vida têm suas austeridades; a lei do amor, de par com as alegrias, enumera rigores. Mais de uma vez a obediência a elas leva ao heroísmo...

Há severas realidades incluídas no plano divino do casamento. Não há fugir delas. Oram isto exige a centralização das forças para a entrega de si mesmo com as lágrimas e suores, com o sangue e as agonias. Leve, portanto, a moça uma boa saúde para o lar.
Infelizmente é grande a legião de moças doentes por causa de abusos e desleixos. Não nos referimos às pobrezinhas que nasceram fracas e na vida se arrastam padecendo.

Pensamos naquelas que enfileiram noites a noites de bailes, que se vestem e se mexem procurando constipação e gripes, que passam fome porque desejam emagrecer por elegância. Os nervos vão-se abalando, a neurastemia acentua-se, a cabeça anda tonta e por um nada estão essas senhoritas desmaiando. Não toleram sem crispações nervosas nem um dia de chuva ou um transtorno que demanche qualquer festa esperada com ansiedade.

Hoje em dia fala-se muito em cultura física para melhorar a raça. O exercício de ginástica é realmente necessário para as futuras dispensadoras da vida. Nós o aconselhamos, contanto que seja  feito com método e, sobretudo, não procure exibições públicas de plásticas gregas, desenvolturas que espantam o recato, e graça de gestos que tiram a graça de gestos morais.

Intensa é hoje a propaganda em favor da cultura física, do atletismo feminino. O esporte procura arregimentar em equipes nossas alunas de Estados Normais, a alta sociedade local, etc. Em parte é isso uma reação contra certa negligência na formação física da mulher, contra a falta de higiene na longa vida sedentária a que ficou condenada a aluna. Por isso é muito razoável que em casa cultive toda moça o exercício corporal, seguindo um método adequado... Mas não se iluda. O que se requer na futura mãe é a saúde e não a força muscular, o extraordinário desenvolvimento da musculatura, coisa que fica bem no homem e por ele pode ser adquirida sem risco de lesões perigosas. O esporte pode facilmente acrretar lesões nas esposas de amanhã.

E nunca podemos nos esquecer que a graça, o encanto, a harmonia doce e calma, ao lado do recato virtuoso, são indispensáveis até nos exercícios corporais da ginástica feminina. Reunir moças num clube de ginástica é espô-las a um meio algo duvidoso, quando não declaradamente pernicioso. O dano moral é bem maior que o aproveitamento físico. Com a tal desculpa de ginástica, de cultura física, vai a menina pegando a doença moderna do "garçonismo". O galicismo significa: modos de rapaz. Raspam o cabelo à "I'homme", assobiam, fumam, refesteladas num sofá, falam como estudantes ou soldados...

A moça que adota os modos de rapazes quebra a lei da harmonia entre os gestos e as formas e, fatalmente, torna-se incorreta. Se não fora a cegueira da época, veria o irritante efeito que produz, sob o simples prisma da estética moral, física e natural.

Compara-as a notas desafinadas numa harmonia, a linhas rompidas num quadro, a proporções falhas numa estátua. Como tudo isso, elas repugnam, incomodam, irritam a quantos têm ainda o senso real das leis misteriosas da harmonia. Rotas essas leis do seu ser harmonioso, é fácil ser a moça afastada de sua missão e da sua finalidade. O coração perde a fragrância toda feminina para entregar-se a camaradagens cujos limites dificilmente combinam com as normas da moral.
(Na escolha do futuro - Pe. Geraldo Pires de Sousa - 1946)

PS: grifos meus

sábado, 29 de agosto de 2009

Ó morte amorosamente vital! Ó amor vitalmente mortal!

"Morte a mais nobre de todas, e devida por conseguinte à mais nobre vida que já houve entre as criaturas, morte da qual os próprios anjos desejariam morrer, se de morte fossem capazes.

 
A fênix, como dizem, estando muito envelhecida, ajunta no alto de uma montanha uma quantidade de madeiras aromáticas sobre as quais, como sobre seu leito de honra, vai findar os seus dias; porque, quando o sol no forte do meio-dia deita seus raios mais ardentes, essa ave toda única, para contribuir para o ardor do sol com um acréscimo de ação, não o cessa de bater as asas sobre a sua fogueira até que a tenha feito fogo, e, ardendo com ela, consome-se e morre entre as suas chamas olorosas.

Assim, também, a Virgem Mãe, tendo reunido em seu espírito, por uma vida e contínua memória, todos os mistérios mais amáveis da vida e morte de seu Filho, e recebendo sempre diretamente, por entre isso, as mais ardentes inspirações que seu Filho, Sol de justiça, lançasse sobre os humanos no mais forte do meio-dia da sua caridade, e depois, ademais, fazendo também de seu lado um perpétuo movimento de contemplação, afinal o fogo sagrado do divino amor consumiu-a toda como um holocausto de suavidade, de sorte que ela morreu disso, sendo sua alma toda arroubada e transportada nos braços de dileção de seu Filho.

Ó morte amorosamente vital! Ó amor vitalmente mortal!

Vários amantes sagrados estiveram presentes à morte do Salvador, entre os quais os que tiveram mais amor tiveram mais dor ; porém a doce Mãe, que mais do que todos amava, mas do que todos foi transpassada pela espada de dor ( Lc 2,35). A dor do Filho foi então uma espada cortante que passou através do coração da mãe, visto que aquele coração de mãe estava colado, junto e unido a seu Filho com uma união tão perfeita, que nada podia ferir um sem ferir também vivamente o outro.
 
Ora, sendo assim ferido de amor, aquele peito materno não somente não procurou a cura da sua ferida, porém amou a sua ferida mais do que toda cura, guardando caramente as setas de dor que recebera, por causa do amor que lhas desferira no coração, e desejando contínuamente morrer delas, já que morrera seu Filho, que, como diz toda a Escritura sagrada e todos os doutores, morreu entre as chamas da caridade, holocausto perfeito por todos os pecados do mundo."

(Tratado do amor de Deus - São Francisco de Sales - Livro sétimo - Capítulo XIII - Que a sacratíssima Virgem Mãe de Deus morreu de amor a seu Filho - pág. 384)
PS: Grifos meus

Estima pela pureza

Forçosa é a guerra à tirania das nossas paixões, em nossa peregrinação pela terra. É lei tanto de ordem e de subordinação laboriosa, como também de harmonia e de unidade, de liberdade e de paz.
As aparências austeras de obrigação ocultam, porém, sua encantadora e sublime beleza à uma mocidade que, loucamente prodiga de si, sacrifica ao prazer sua integridade moral, e que hesita arruínar em outros o que ela não soube respeitar em si mesma.
Uma depravação mais consciente e mais requintada na malícia, acrescenta a calúnia à tentação: a lei da castidade é impossível. É , se quizerem, o patrimônio de seres fracos.
***
Fraco o homem que nutre ambições celestiais; forte o incapaz de uma coragem que o levanta acima do sensualismo animal?
Fraco o que disputa às inteligencias puras o prêmio da nobreza; forte, o que se avilta?
Fraco o magnanismo que por amor de Deus e dos seus semelhantes se esquece de si; forte, o egoísta que só se preocupa de vis prazeres?
Fraco o cavaleiro do direito; forte, o escravo de desejos desordenados?
Fraco aqueles cujas energias vitais enriquecerão a sociedade dos homens; forte, o esgotado, o gasto pelo vício?
Fraco, o homem, que sabe guardar os seus sagrados juramentos; forte, o cínico ou hipócrita que viola seus compromissos?
Fraco o vitorioso; forte, o vencido?
***
E contudo, por toda a parte, encontra aplausos a absurda calúnia. Os preconceitos do mundo a embalam; médicos, em nome de uma suposta ciência corroboram-na com seus maus conselhos; uma vasta e poderosa imprensa a difunde e patrocina; e um código de uma certa moral, em voga, formula para o homem, para a mulher, para o celibatário, para o esposo, para o nacional e para o estrangeiro, regras que são outros tantos desafios à honestidade. Diante dessa insolência, a virtude, tímida e retraída, resígna-se por vezes a envergonhar- se e até mesmo a capitular!

É mister, pois despertar a estima pela pureza.
É necessário excitar e estimular o brio em quem a possue.


Convêm igualmente, já que a conservamos em fragilíssimo vaso, ensinar a arte de a defender e de preservá-la de choques fatais.
E como o homem é curável, e como um triunfo pode vingar cabalmente uma derrota, é necessário reanimar a coragem dos abatidos e hesitantes e incitar à desforra, os irresolutos e humilhados.

A Castidade é um heroísmo.

O benefício que se realiza pela conservação da pureza, entre os jovens, é de ordem eminentemente social. Tanto e mais que a saúde física importa à sociedade a saúde moral dos seus membros.
Convém-lhe para o presente, e convém-lhe para o futuro. Assegura-lhe uma prosperidade superior à abundancia material.

Há ainda mais.

Quando o Cristianismo penetrou na Cidade Eterna - Roma, outrora tão corrompida, a austeridade da cruz, a severidade dos princípios religiosos, a grandeza moral dos fíéis convertiam à fé as multidões. Do mesmo modo, para os nossos contemporâneos, que vivem afastados da Igreja pelo nascimento ou pela educação, mas cujas nobres aspirações se afastam com desgosto de um néopaganismo cupido e luxurioso não será certamente menos salutar o admirar este espetáculo reconfortante de uma juventude trazendo na fronte o candor de uma pureza triunfante, e, no coração, a chama de um amor pronto a qualquer sacrifício.

(Prefácio do livro - A Grande Guerra - do Padre J.Hoornaert - edição 1928, escrito pelo Padre A. Vermeersch.)
PS: grifos meus

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ligações de amizade

Um amigo fiel, diz o Espírito Santo, é um tesouro inestimável, mas é preciso saber escolhê-lo entre mil, e prová-lo antes de a ele se confiar.
Existe uma amizade de glória, que desaparece na hora da humilhação. Outra, de interesse, que se transforma em inimizade e revela os defeitos do amigo. Outra ainda de prazer, que se esquiva ante a necessidade.
A amizade do cristão deve ser prudente na escolha e fiel no afeto.
***
1º - Prudente na escolha - Um amigo fiel é raro; um falso amigo, muito perigoso. É na própria religião que convém escolher, tanto quanto possível, esse amigo fiel. A simpatia, a espiritualidade, a unidade de espírito e de coração, no amor de Jesus Esucarístia, tornará essa amizade mais doce e mais santa.
2º - Fiel no afeto - Nada é tão delicado quanto o coração do amigo. É mister saber dar ao amigo provas de confiança e de estima; defender-lhe a honra como a sua própria; zelar o seu bem com interesse; ajudá-lo no dia da adversidade. Mas é mister sobretudo advertí-lo caridosamente de seus defeitos - pois nisso consiste a verdadeira prova de amizade; sustentá-lo na prática do bem; fortificá-lo contra os perigos que sua alma possa correr; finalmente, assisti-lo cristãmente se vier a morrer.

( A Divina Eucaristia - São Pedro Julião Eymand - Volume V )

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Perigo de exaltação religiosa na adolescência


Em conseqüência da necessidade que tem o adolescente de julgar que por si mesmo e de libertar-se dos cueiros da infância, vão-se manifestar, segundo os temperamentos e a influência do meio, duas atitudes contraditórias. Em alguns, sobretudo, talvez, nas meninas, os sentimentos religiosos vão tomar um impulso até a exaltação. Virão a confundir, facilmente, as manifestações de sua sensiblidade com o sentimento religioso. Se não forem bem esclarecidas, imaginarão terem perdido a Fé por não experimentarem sentimento, isto é, sensações durante suas orações e práticas religiosas. Convém lembrar-lhes que a verdadeira vida de piedade reside na vontade e não na sensibilidade e que, para perseverar na Fé, é preciso realizar atos e não se contentar com sentir emoções.

Tovadia, essa é também a idade dos sonhos de perfeição e de heroísmo. As almas generosas, sobretudo, as que receberam uma forte educação cristã durante a infância procurarão imitar os santos e facilmente chegarão a crer que são chamadas a uma vocação excepcional. É preciso, ao contrário, servir-se dessa tendência dos adolescentes, para confirmá-los em seus desejos de perfeição, velando, ao mesmo tempo, para impedí-los de desviarem-se. O tempo e as exigências da vida não tardarão em repor o problema da vocação dentro do limite do real e do possível.
(Pequeno Tratado de Pedagogia - Cônego Jean Viollet - págs. 170 e 171)

PS: grifos meus

Modéstia e santidade


A grande guerra

"Quando toca o meio-dia, Bernadette ajoelha-se para rezar o Angelus, depois tira a tampa da cestinha e vai estendendo o toucinho sobre o pão de centeio...a tarde ficava parecendo longa, Bernadette esgaravata o chão a cata de pedrinhas. Logo que conseguiu juntar um bom montezinho delas, sai à procura de um local plano para aí construir um altarzinho à Virgem: trabalho de paciência, pois falta o cimento. Mas Bernadette é habilidosa. Uma cruz feita de dois gravetos encima-lhe a construção. Só falta encontrar flores para orná-la. Puxa então do bolso o terço, que vai desfiando conta após conta diante do altarzinho mal seguro.
É assim que durante seus dias de solidão vai procurando uma companheira divina com quem possa comunicar seus pensamentos infantis."

(A humilde Santa Bernadette - Colette Yves)

Modéstia e santidade







A arte de punir


- Há dois excessos a evitar em matéria de educação: o que consiste em jamais intervir- o “deixar-passar”- ou a política dos olhos fechados: “Faze o que te agrada e deixa-me em paz”, política de demissão que pode culminar em conseqüência catastróficas; ou então, o excesso que consiste em intervir a cada instante por bagatelas. A verdade, como sempre, está no meio-termo. A criança precisa de ajuda do adulto e mesmo, quando é pequena, essa ajuda pode consistir numa espécie de adestramento incessante: a lembrança de uma dor (palmada ou ralho) relativa a um gesto ou a uma atitude repreensível.

- Uma advertência para ser eficaz, deve ser breve e rara. Se assumir o ar de cena, de gritos intervalados ou superagudos, perde todo o efeito.
- Por pouco se observe num jardim, num trem ou num lar, uma mãe com o filho, é de espantar o número por vezes ilógicas e injustificadas que chovem sobre os pobres pequenos:
Henrique, não corras mais, vais sentir muito calor...”.
E cinco minutos depois:
Não fiques aí plantado como uma árvore vai brincar... Não te chegues tão perto da água... Cuidado com os sapatos, vai sujá-los!... Vais ainda desobedecer-me como sempre... Que foi que te disse Henrique?... É terrível ter crianças como esta! Não há nada a fazer contigo, não serves para nada!”
E ainda quando a pobre mãe, inconsciente do alcance de suas palavras, não acrescenta: “Vê-se bem que tens o gênio de teu pai!”

- Quando se tem de repreender uma criança é melhor (a menos que o erro seja público) fazê-lo em particular e em voz baixa.

- O que é preciso evitar a todo custo quando se faz uma observação a uma criança, é compará-la a uma outra: “Olha como o teu irmão é bonzinho... - Ah, se fosses sempre como o Jaimezinho”, etc. Não há nada pior do que isso para criar entre a criança e o modelo proposto ciúmes e até mesmo inimizades implacáveis.

- Nunca ressuscitar, a propósito de um acidente qualquer, todas as velhas mágoas. Uma vez perdoada, a falta passada não deve ser mais lembrada. Voltar a ela é mostrar que nada foi esquecido e que se tem sempre em reserva uma certa história humilhante prestes a ser contada de novo. Há nisso algo capaz de desencorajar para sempre uma criança em seus esforços.

- Não há nada mais falso e mais cruel para a própria criança do que essa errônea sensibilidade que consiste em inclinar-se diante dos caprichos e faltas, sob o pretexto de que se trata apenas de uma criança. É claro que não se cogita de brutalizá-la; mas, erigir em princípio ser preciso “não impor às crianças qualquer sofrimento, mesmo leve”, é um absurdo que levará a criança a se tornar o nosso próprio tirano.

- A criança é uma anarquia de tendências. Não é de espantar que subitamente surja uma tendência perversa. Desconfiemos das perfeições prematuras. É papel do educador intervir por vezes energicamente para associar no espírito e mesmo na carne da criança a idéia de uma dor física à transgressão de uma interdição.

- A punição, para ser educativa, isto é, para formar a consciência, deve sempre ser dosada, ou melhor, adaptada à idade da criança, ao seu caráter, ao seu temperamento, bem como às circunstâncias de falta. O mau jeito é uma coisa, a maldade, outra. Uma coisa é uma irreflexão, outra uma falta de respeito.

- É um erro castigar uma criança por um mal-feito do que não havia adivinhado o caráter repreensível. Antes de punir, convém verificar se a criança sabia da proibição.

- O educador deve se apagar o mais possível, a fim de eliminar qualquer aspecto de luta ou de vingança pessoal, e fazer sentir ao culpado que ele é a causa primeira dos aborrecimentos que lhe caírem sobre os ombros.

- É preciso não punir tudo. Há pecadilho que devemos às vezes fingir que não vemos. Sobretudo se não têm conseqüências morais ou sociais. Mas, quando se proíbe uma coisa, que seja para todos os dias, enquanto não mudarem as circunstâncias.

(A arte de educar as crianças de hoje – Pe. G.Courtois)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mulher e os trabalhos intelectuais

3ª CONFERÊNCIA 


Mulier sensata et tacita, non est immutatio eruditae animae. 
Uma mulher sensata gosta do silêncio: nada é comparável a uma mulher instruída. 
(Eccles., XXVI, 18) 

Senhoras. 

Parece-me que me não distancio do nosso programa, pedindo hoje o meu texto a um outro livro da Sagrada Escritura, que completa o dos Provérbios, sobre as qualidades da mulher forte; e tanto mais, quanto, sendo constante o sopro inspirador da Bíblia, se pode dizer, com verdade, que só se cita um autor. 

Um dos principais deveres da mulher é o cuidado do seu interior, o governo do lar, e tudo quanto se relaciona à economia doméstica. A mãe de S. Gregório Naziano, é sob este ponto de vista um admirável modelo, porque praticava perfeitamente, diz este santo doutor, os conselhos contidos no livro dos Provérbios, fazendo de tal modo prosperar os negócios domésticos, que dir-se-ia não dispor de tempo para tratar das coisas do céu, quando, no entanto, era tão piedosa que parecia estranha a todas as dependências do lar. Estas duas obrigações não se prejudicavam uma à outra, antes pelo contrário reciprocamente se fortificavam e aperfeiçoavam. 

Na passada conferência tratamos especialmente do trabalho manual, dos cuidados no lar e da atividade que a mulher deve desenvolver nele para vigiar tudo, e sustentar todas as coisas em uma ordem admirável, e fixamos as grandes vantagens destas ocupações diferentes, vantagens para a conservação da virtude e da saúde, vantagens para fugir à ociosidade, e, muitas vezes, a uma grande desordem em todos os serviços e interesses. 

Não dissimulei também as objeções que me podiam ser feitas. - Quereis rebaixar a mulher, convertendo-a em um simples instrumento de casa, condenando-a a vigilância da sua cozinha?... Isto não é esquecer o que a mulher pode ter de grande, de nobre na inteligência e no coração? Não é calcar aos pés todos os germes intelectuais, que se acham no espírito das mulheres e que, a final de contas, embora diferentes, nem por isso deviam de valer tanto como aqueles de que os homens se orgulham e vangloriam? 

Neste mundo, senhoras, em qualquer parte se encontra o estreito de Messina: desculpai a comparação geográfica, que só vem para melhor vos fazer compreender a minha idéia. 

Entre a Calábria e Sicília há um estreito de cerca de três léguas de largo: dois mares, cada um deles em sentido inverso, estabelecem ali fortíssimas correntes. Para atravessá-lo pelo centro é necessário que o piloto haja grande perícia. Pois bem, o estreito de Messina representa magnificamente a maior parte das questões humanas: isto é, exagerações e correntes extremas de cada lado. Passar no centro nem sempre é fácil, e tanto mais, quanto das duas margens opostas partem muitas vezes balas ardentes, isto é, cóleras e contradições, mais ou menos violentas. 

Assim, senhoras, na questão que nos ocupa, se recomenda às mulheres que tratem seriamente do seu interior, os partidários da emancipação intelectual e moral delas apresentam-se completamente armados, e exclamam: - Quereis atoleimar a mulher? - A exageração pode vir também da dose da bebida intelectual, da medida na aplicação, da direção dos estudos e das suas conseqüências práticas; pois, como muito bem disse Fenelon: “Tudo está perdido se a mulher para cuidar do seu espírito se desgosta dos cuidados domésticos.”[1] E realmente as mulheres estão tanto mais expostas - permiti ainda esta confidência ao arcebispo de Cambray - “quanto correm o risco de tocarem os extremos em tudo.”[2]

A linha do centro é a linha da sabedoria, diziam os antigos, e essa a que desejo aconselhar-vos neste instante. 

Pode e deve a mulher ocupar-se de estudos, em leituras, na poesia, na literatura, nas artes, na música? 

Seria difícil responder a interrogação, posta, assim, de um modo geral. Há mulheres que evidentemente não podem entregar-se a esta espécie de estudos, umas porque lhes falece o tempo, outras porque a natureza lhes recusou a devida capacidade. Assim, o bom senso, cria-nos o dever de eliminarmos logo certa categoria de mulheres, cuja prática sabedoria, mais ainda que as teorias abstratas deve determinar o número. 

Mas que resposta dar às que dispõem de tempo, e tem em maior ou menor grau a capacidade necessária? 

Antes de entrarmos no estreito e perigoso atalho de uma resposta clara e precisa, será conveniente fixarmos três condições essenciais, que deverão sempre acompanhar o estudo na vida das mulheres. A direção do lar não deverá nunca sofrer, e os negócios da família serão sempre regulados; o estudo não deve prejudicar os deveres principais, e no dia em que eles lhe colocar um obstáculo seria condenado, não em si, mas sim pelo excesso. Se a Providência vos reservou maior liberdade, se, por exemplo, não sois casadas, se não tendes filhos, se sois viúvas, se o trem de vossa casa não é considerável, dai então mais algum tempo à vossa cultura intelectual, e isto será bom; mas uma segunda condição:- consultareis a medida do vosso espírito e não excedereis a dose que ele pode tomar. 

Todo o espírito tem os seus limites e a sua energia, como cada vaso tem a sua grandeza e a sua força de resistência. 

Tentaríeis debalde lançar em um pequeno frasco o licor que encerra uma garrafa, nem fazer passar ondas de vapor, em temperatura elevada, em um tubo de mínimo diâmetro e muito frágil. Consultai igualmente a força do vosso espírito, segundo o conselho de Horácio:- “Experimentai, dizia ele, e vede o que podem os vossos ombros.” Se uma gota é bastante, tomai uma gota só; a ciência sobe ao cérebro como o vinho e embriaga, e produz vertigens. Desgraçadamente, entre os homens como entre as mulheres, o orgulho cega a muitos, sob este ponto de vista. Muitas vezes os espíritos, ao passo que são mais fracos e mais acanhados, têm-se como mais capazes, semelhando os indivíduos cujo cérebro quanto mais susceptível, tanto mais se crê em estado de afrontar impunemente os perigos de um licor pérfido. Meditai, pois, sobre este ponto, altamente essencial para vós; vai nele o vosso bom senso, e algumas vezes a vossa virtude, pois a cabeça uma vez partida, ninguém sabe o que será do coração. 

Há dose em tudo! Muitas vezes o vício não é mais que a infração desta grande regra. A dose! A sabedoria na combinação dos elementos físicos e morais. Se esta máxima se observasse bem, em toda a parte veríamos a ordem tomando lugar à desordem, e renovar-se o prodígio de que reza o poeta: 

Aos accentos d’Amphião as pedras se moviam 
E de Thebas no muro em ordem se mettiam. 

A terceira condição, que me parece indispensável, é a modéstia, é a tímida reserva, é o que Fenelon chamava “o pudor da ciência”.[3] Tal pudor vos dirá o que deveis ignorar; ele vos ensinará a evitar nas conversações o modo afetado, e o ar sentencioso, que mais tem contribuído talvez para desconsiderar o estudo na vida das mulheres. Em vós, até a ciência deve ser simples, graciosa, flexível, cheia de amenidade e de modéstia. 

Depois de postas estas três condições de medida, de tempo e de reserva, para regulamento dos estudos, temos mais liberdade para expormos a verdadeira doutrina, e não devereis esquecer que tais condições são pressupostas nos conselhos que vos vamos dar. 

Podem convenientemente, e devem as mulheres ocupar-se de questões importantes, intelectuais, fora dos seus deveres de família? 

M. de Tocqueville, na sua correspondência, faz uma excelente descrição da vida íntima, e eu recomendo-a às pessoas que são inimigas do estudo e do desenvolvimento intelectual entre as mulheres. 

“O nosso excelente amigo... pede-te o meu parecer a respeito de M.elle... Eis o que sei dela e o que dela penso. É filha de um homem de espírito muito egoísta e de uma devota muito acanhada e tola... Tem, creio, quando muito dezesseis ou dezessete anos. É uma encantadora menina quanto ao físico, mas julgo-a uma nulidade completa e muito chata. 

Tímida, bondosa, doce e limitada: - eis o retrato que, pelo menos, me ficou dela no espírito. Não creio que ali haja, até ao presente, alguma coisa com que fazer mais do que uma mulher estritamente honesta, e não conheço nela ponto que indique menos lados maiores. É, como te disse, muito formosa; gosta de luxo no meio da simplicidade suficientemente estúpida da vida que leva, e manifestou em verdes anos a arte de tirar o partido das menores coisas, das menores ninharias para se adornar e adornar as irmãs. Nunca ouvi atribuir-lhe senão esta capacidade, a qual reunida à pouca extensão do seu espírito, ameaça convertê-la em um pequeno ser muito lindo e muito insignificante. A chateza do espírito é a atmosfera de toda aquela casa... Grandes virtudes burguesas, envoltas em idéias infinitamente pequenas.”[4] *

Este esboçosinho foi como que dirigido aos que pretendiam fazer da chateza uma boa qualidade da mulher, e uma virtude da ignorância e da tolice. Nós não consideramos nunca a pessoa de que M. de Tocqueville nos deixou o retrato, como o modelo da mulher cristã. **

Por outro lado achamos um escolho oposto, que assinalava Madame de Maintenon: - “As mulheres, dizia ela, e talvez com alguma exageração, só sabem metade, e o pouco que sabem torna-as geralmente altivas, desdenhosas, questionadoras, e cheias de desgosto pelas coisas sólidas."[5]

O poeta latino também pedia um larzinho, um teto singelo e sem fumo, uma fonte d’água límpida, a selva do prado e uma mulher que não fosse muito sábia, non doctissima conjux.[6] Fenelon temia, sobretudo, as mulheres muito lidas em teologia e aprovando completamente o verdadeiro e sólido conhecimento da religião, desconfiava da arrogância doutoral que estava em voga nessa época: - "Gosto mais, dizia ele, que a mulher se instrua nas contas que lhe dá o seu criado, do que nas disputas de teologia sobre a graça."[7]

Eu creio senhoras, que é fácil evitar todos os excessos. Uma mulher, depois de ter cumprido todos os outros deveres, pode muito bem ocupar-se com as ciências elementares, com a literatura, com a filosofia até; e aperfeiçoar-se em todos estes contatos cheios de encantos e de luz. As ciências têm diferentes regiões e se nem sempre se chega ao seu cume, pode-se ao menos subir um pouco a encosta para o gozo de um admirável panorama. Nada há tão belo como a filosofia cristã quando é convenientemente apresentada. 

Tendes o coração triste? 

Depois da oração não conheço melhor remédio para tal sofrimento do que algumas horas de leituras nos escritores, cuja nobreza de sentimento e sublimidade de estilo vos transportam às regiões serenas, onde se esquecem os homens e as coisas mundanas. Muitas vezes, em um sonho do espírito, no momento em que é sufocante a atmosfera que nos cerca, diz-se: - Meu Deus! Se eu pudesse refugiar-me em uma alta montanha, descansar ali alguns dias e permanecer sozinho na vossa presença, diante do sol e dos esplendores da natureza, que felicidade não seria a minha! Que vida e que alegria para o corpo e para a alma! 

Para que sonhar assim?

Vós podeis encontrar a desejada felicidade sem que deis um passo fora do vosso gabinete. A leitura e a meditação criam asas: o espírito subtrai-se à matéria, e sobe, e voa, e equilibra-se sobre as montanhas intelectuais, em cuja altura se encontra a paz e a serenidade. 

O estudo tem grandes vantagens: - Eleva o espírito; influi secretamente na mulher fazendo com que ela não viva no meio das ninharias, como diz M. de Tocqueville, e fazendo com que não conserve mais a pequena personalidade que se envolve em pensamentos infinitamente mesquinhos. 

A alma engrandece-se ao contato das idéias; o estudo da literatura dá-lhe um tom gracioso, torna-a flexível e comunica-lhe, simultaneamente, a finura e a firmeza; a poesia inflama-a e inspira-lhe alentos divinos; a música põe-lhe a alma em equilíbrio e dá-lhe o sentido da harmonia em tudo. A cultura das belas artes desenvolve-lhe o sentimento do belo e ao pensamento, horizontes completamente desconhecidos. 

Suponde uma bela alma, uma inteligência distinta em uma organização de mulher, desse-lhe uma educação dirigida sob estes princípios, faça-se com que as Musas e as Graças se congreguem para lhe formarem o espírito e fazerem desabrochá-la no meio de uma doce harmonia de faculdades, consegui que ela conserve sempre, como guardas da sua casa, a virtude e a sabedoria, e eu ousarei apresentar tal criatura como o ideal que eu gostaria de sonhar de uma mulher cristã. Bom seria imitar esse ideal, mesmo de longe. 

A mulher desenvolvida deste modo será o ornamento de sua casa; saberá falar à cozinheira e entender-se com ela a respeito das minudências de um excelente jantar; mas ao subir ao salão, ainda melhor saberá sustentar uma conversação, sem gastar o seu espírito em volta dos objetos de toilette, reservando-o para entretenimentos sérios e interessantes, semeados de notas tão sólidas quanto delicadas. Chego mesmo a não 
excluir o latim dessa educação completa, e se alguém me censurasse pelas muitas concessões à mulher sábia eu invocaria duas autoridades cuja competência ninguém contestará - a de Fenelon e a de Madame Swetchine. Citarei esta última: - “O vosso latim - escreve ela a uma das suas amigas - causa-me, pelo menos, tanto prazer como o resto. A língua da fé não devia ser excluída de nenhuma educação religiosa, e muito menos da que se dá na vossa idade em que se aprende ainda tudo quanto se deseja. O pedantismo não está no que se sabe, está em querer mostrar o que se não sabe”. [8]

Uma mulher formada deste modo não aborrecerá o seu marido, e entre as qualidades do sexo frágil não ponho na última linha a de não enfadarem as mulheres os seus maridos. Ora de todas as fontes do aborrecimento eu não conheço nenhuma, sobretudo para um marido que não fez voto de paciência, mais abundante e perene do que uma virtude acanhada e muito tola, para repetir a frase de M. de Tocqueville. A tolice, sobretudo quando se tem o talento desgraçado de dobrá-la com piedade mal compreendida, têm o privilégio de estragar todas as coisas, mesmo as melhores. Insisto neste assunto porque é essencialíssimo sob o ponto de vista da paz de vossas famílias e da virtude de vossos maridos. 

As qualidades físicas, quando subsistem só têm uma influência temporária e que facilmente se gasta. Depois da virtude nada conheço mais próprio para conservardes a estima e o coração de vossos maridos que a qualidade de um espírito culto, delicado, apanhando em todas as coisas o ponto de vista elevado, amável, gracioso e divino.

Para se conseguir isto não é absolutamente necessário ser um gênio; neste caso seria difícil acreditar com que facilidade esta maneira de encarar as coisas se desenvolve naturalmente, instintivamente, nas naturezas em que a virtude e uma instrução conveniente se dão as mãos para caminharem conjuntamente. É como solo constituído de terra, pela qual os jardineiros têm grande veneração: - as flores brotam nele espontaneamente. O número de mulheres que perderam o coração, e, mais tarde a virtude de seus maridos, aborrecendo-os, é talvez, muito considerável. Vejo, porém, que parecendo dar-vos somente conselhos literários, tive também o pensamento e o desejo de atingir outro alvo, e realmente, dou-vos conselhos religiosos. 

O estudo tem ainda uma grande vantagem para a mulher: o produzir-lhe o desgosto pelas coisas inúteis e frívolas, e por conversações em que quase todas as virtudes cristãs são mais ou menos comprometidas; ele liga-a ao lar e liberta-a de uma multidão de perigos. Como é boa, ao calor do lar, a leitura de um livro interessante, que fale de Deus, da alma e dos deveres da vida! Deste modo facilmente se esquecem os humanos e os contatos com eles são tão difíceis e, muitas vezes, tão penosos! 

“Quando os vivos me aborrecem - dizia o cardeal Cheverus - converso com os mortos.” 

Bem-aventurados mortos! Que deixastes o vosso alento nos livros! Vós valeis mais, ordinariamente que os autores de carne e osso. Perdestes as pontas e as arestas se as tínheis; ficou de vós o espírito encantador, o espírito graciosamente misturado de doce gravidade. 

Vós sois como o licor dos nossos arrabaldes, que depois de limpo de quanto tinha de duro, de espesso e de grosseiro nos resíduos da cepa, toma uma forma substancial, que quase dá o espírito sem a matéria. - Como eu gosto de conversar convosco! Tendes ainda uma outra preciosa qualidade: - Não sois susceptíveis; quando sois abandonados, mesmo injustamente, por capricho ou por frivolidade, não vos zangais; e quando alguém vos interpela tornais-vos tão graciosos como antes. Nunca tão longe foi a complacência e a condescendência que esquece e perdoa. 

Dizia o autor da Imitação de Cristo, que, depois de uma conversação com homens, entrava menos homem em casa. Vós, deixando certas conversações mundanas não vos tendes sentido menos mulher, menos sérias, menos amáveis em casa, menos aplicadas aos vossos deveres? Não vos acháveis mais levianas, mais gastadoras, mais afeiçoadas ao brilhantismo e às superficialidades, mais vaidosas e repletas do imoderado desejo de agradar? 

Se em vez destes entretenimentos inúteis e, muitas vezes perigosos, vos tivesses, durante um quarto de hora, durante meia hora, entregado à leitura, à meditação, teríeis como que sentido palpitar em vós a vida da mulher nobre, dedicada, de sentimentos exquisitos e palavras perfumosas; de virtude, a vida da mulher forte, da mulher cristã. Um autor pagão empenha as mulheres em lerem as obras dos filósofos e os tratados de ciência. Assim - diz ele - não pensarão nunca nas danças, nas frivolidades, porque terão a alma repleta das grandes idéias que encerram os livros dos nossos célebres escritores, e estarão sob a influência de um encanto espiritual. (Plutarco, Preceitos conjugais). 

Eu recomendando-vos a cultura das letras não vos empenho em que estudeis do mesmo que os homens. O vosso espírito, como o vosso corpo, é mais franzino, tem mais flexibilidade, tem as formas mais graciosas, tem alguma coisa de mais fino do que os homens, e falo, pelo menos, em geral, porque é necessário contar sempre com as exceções. Dir-se-ia que a vossa inteligência tem o olfato mais delicado; vedes mais facilmente as malhas mais desligadas das coisas, e quando tem menos profundidade, é ordinariamente mais pronta, vê de um lance e como que por intuição. Ali, onde o homem raciocina, vós pressentis, o que fazia dizer aos germanos, que tínheis na alma alguma coisa de profético: - Inesse sanctum aliquid et providum putant.[9] Outra qualidade - e quantos defeitos a par dela! -: o vosso espírito, se não tendes cuidado, caminha sempre conduzido pelo coração; quando amais alguma pessoa tudo deve ser excelente nela, à primeira vista, e todos os que vos contradisserem neste ponto, não devem, por certo, ter senso comum. Se, sobretudo, está em jogo uma pequenina paixão do coração, quando adotais uma coisa, um projeto, uma determinação, tal coisa, tal projeto e tal determinação, devem ser – sem que haja necessidade de exame – o que há de mais perfeito no mundo, e desgraçado do que ousasse fazer-vos uma objeção! 

É este, senhoras, o lado a vigiar na direção do vosso espírito, porque a verdade acima de tudo, como base dos nossos juízos, a verdade antes do nosso amor próprio, antes das nossas preferências exclusivas, antes das mil paixões que são os ventos do espírito! O defeito que assinalo é tanto mais importante para vigiar, quanto mais é talvez uma das causas principais da versatilidade que não é absolutamente estranha à natureza da mulher. 

Indicando-vos, pois, estas boas qualidades, misturadas de defeitos que dependem da natureza do vosso espírito, dou-vos, ao mesmo tempo, regras para a escolha e método dos vossos estudos. Num jardim, cada flor tem uma posição diferente; no jardim da ciência e das letras desenvolvei- vos segundo a natureza do vosso espírito e a espécie de fruto que deveis produzir. Se Deus vos criou mimosas violetas, não tenteis imitar o arbusto; se sois o lírio deslumbrante pela alvura, não aspireis ao tronco gigantesco do carvalho vetusto; estudai proporcionalmente às vossas aptidões, à natureza da vossa vocação, ao caráter do vosso espírito, e não procureis tornar-vos sábias à maneira dos homens: na criação, cada ser conserva a sua cambiante refletindo a luz do sol. Assim colhereis as rosas da ciência sem lhe tocardes os espinhos, e, sobretudo, os espinhos envenenados que derramam no sangue da alma um suco pestífero, que não é fácil extinguir completamente.

Clemente de Alexandria menciona em uma das suas obras, as mulheres gregas que se deram à literatura, a ciência e à filosofia. O princípio do capítulo tem uma significação muito especial para o assunto que nos ocupa. Quer este padre provar que as mulheres, como os homens são capazes de chegar à perfeição, e parece desejar que se entreguem ao estudo para encherem o quadro da vida perfeita: - “As filhas de Diodoro - diz ele - faziam prodígios na dialética... Várias mulheres seguiam os cursos de Plantão; as lições de Aspásia não foram inúteis a Sócrates, não contando as que brilharam na poesia e na pintura".[10] Disto tira ele a seguinte conclusão: “O estudo da filosofia é, pois, tanto um dever para as mulheres como para os homens, se bem que estes pela sua superioridade ocupam o primeiro lugar”.[11] – e sabe – se que os antigos e particularmente Clemente de Alexandria, entendiam por estudo da filosofia, o estudo de todas as ciências e a prática de todas as virtudes. Nós também lemos nas atas de Santa Catarina [de Alexandria] que ela conhecia toda a literatura sagrada e profana, e ela própria o declarou perante os seus algozes:- “Eu exercitei-me - disse ela - em todas as partes da retórica, da filosofia, da geometria e outras ciências”.[12]

Santa Mônica é ainda um admirável modelo, digno de vos ser citado, sobre este assunto; comprazia-se em discutir com Santo Agostinho e os seus amigos os elevados problemas da filosofia, arcem philosophiae, e fazia-o com uma largueza de vistas e uma elevação de idéias que espantavam os assistentes. Uma vez entrou no aposento de seu filho, no momento em que se tratavam profundas questões, e indagou do assunto da conversação. 

Santo Agostinho pediu ao secretário para que a elucidasse. "Então! - exclama a santa - nunca vistes mulheres tomarem parte nesta espécie de discussões!" - "Eu desprezo o juízo dos orgulhosos e dos tolos - replica o santo - certificai-vos, minha mãe, que vários indivíduos ficarão encantados sabendo que estudais filosofia comigo, e mais satisfeitos do que se nos entregássemos a outra qualquer ocupação séria ou recreativa, pois entre os antigos as mulheres dedicavam-se à filosofia, e a vossa, particularmente, agrada-me muito..." 

Santo Agostinho continua e mostra a sua mãe quanto havia de forte, de elevado e de filosófico no seu caráter. A santa interrompe-o dizendo-lhe que nunca ele mentira tanto e com tanta amabilidade.[13] Em outra discussão semelhante, Santa Mônica animou-se tão calorosamente, e tal impressão produziu a sua palavra, que nós esquecemos - diz Santo Agostinho - que ela era uma mulher, parecendo estarmos algum filósofo ilustre: Ut obliti penitus sexus ejus, magnum aliquem virum considerare nobiscum crederemum.[14]

Mas nada há tão belo e tão sublime como o colóquio de Santo Agostinho com Santa Mônica à beira-mar, no porto d’Ostia. Alguns dias depois o santo devia perder aquela que ele amava com tanta ternura; aquilo era, pois, e sem que o pensassem, um como canto de cisne moribundo. Estavam sós, apoiados em uma janela, contemplando a imensidade. "Conversávamos - diz Santo Agostinho - com inefável doçura, e esquecendo o passado e devorando o futuro, falávamos dos magníficos destinos que nos esperam... Levados por um novo elo de amor para o Ser infinito o nosso coração transpôs o espaço e o firmamento suspenso sobre nossas cabeças: ele procurava a sabedoria incriada... Falávamos assim; de súbito, erguidos pelo amor, pareceu-nos termos tocado, por um vôo do coração, na eterna sabedoria, objeto de nossos suspiros; deixamos-lhes as primícias de nossa alma, e regressamos á terra, onde se ouve o ruído da voz. Mas o que é a palavra humana? Que tem ela de semelhante, ó meu Deus, á vossa palavra infinita?”[15]

Este magnífico diálogo, entre Santo Agostinho e sua mãe é acompanhado de considerações elevadíssimas sobre o tempo e a eternidade, sobre a criação e as suas relações com o Ser infinito. Isto é uma das melhores provas de que as mulheres podem ter lugar na escola de uma grande e bela filosofia, e de que até o êxtase de tal ciência pode ser conhecido delas, o êxtase, a hora dos júbilos serenos e profundos, em que a alma é arrancada a si própria e parece entrever o face a face, de que fala S. Paulo. 

Eu, senhoras, deveria, talvez, antes de terminar, dizer-vos alguma coisa sobre as leituras, mas não teria tempo de tratar convenientemente tal assunto; mas é provável que em qualquer dia das nossas reuniões mensais o possa fazer. Oxalá que hoje tivesse seguido convenientemente o centro do estreito de Messina, sem exageração para um ou para outro lado! Não é minha intenção fazer-vos mulheres sábias, no sentido ridículo da palavra, desejo, sim, que alcanceis o que eleva a inteligência e enobrece o coração. A alma da mulher é da mesma origem que a do homem e também tem necessidade de luz. Não deve estiolar-se esta planta divina, antes é forçoso que produza os seus frutos, que se são diferentes dos que se colhem no jardim do homem, nem por isso são sem valor ***, uma vez que cheguem à conveniente maturação. 

Uma sábia distribuição de luz na alma da mulher nunca lhe fará mal: põe as idéias no verdadeiro lugar, que é a única coisa que, muitas vezes, falta a certas cabeças, retifica o juízo, fortifica a vontade e dá ao andar, no caminho da vida, um passo mais digno e mais firme. Oxalá que possais, depois de fiado o linho e a lã, por vossas mãos engenhosas, tornar-vos igualmente hábeis em seguirdes uma conversação e uma questão séria, em meditardes um livro, cujo principal assunto seja uma idéia nobre e grande. Juntai a isto o que Fenelon chamou o pudor da ciência nas mulheres, e então merecereis que se vos apliquem as palavras na Bíblia, que tomei para texto: 

Mulier sensata et tácita, non est immutatio eruditae animae.[16]
Uma mulher sensata gosta do silêncio: nada é comparável a uma mulher instruída. 

[1] Conselhos sobre a educação 
[2] Educação das meninas 
[3] Educação das meninas 
[4] Correspondência.t 11 

* Ao pesquisar sobre Tocqueville foi possível verificar que ele foi um francês liberal do séc. XIX. Não acreditamos que o texto esteja perdido pelo fato de Mons. Landriot citá-lo, pois o uso (mesmo distorcido) que faz da citação permanece dentro do senso comum e do catolicismo. 
** Neste ponto, a tradução que temos em mãos acrescenta a seguinte frase: "O Deus que adoramos é o Deus da ciência, e se os ignorantes entram no reino do céu isso não é regra." Essa frase ficou fora de contexto, pois como sabemos a ignorância que fecha as portas do Céu é a dos princípios religiosos e isso até os mais "simples" podem aprender. Portanto ao retirarmos a frase ajudamos o autor do texto a não provocar equívocos nos seus leitores. 
[5] Entret. Sobre a educação 
[6] Marcial, Epig 
[7] Conselhos sobre a educação 
[8] Carta t.11 
[9] Tácito, Costumes dos germanos 
[10] Stromat., 1. IV, cap. 19 
[11] Ibidem. 
[12] V.Surius 
[13] De ordine,1.I 
[14] De beata vita, c.10 
[15] Confissões, 1.IX, c.10 
*** A tradução diz: "não são menos excelentes". Ousamos fazer aqui uma pequena alteração, pois a obra intelectual de uma mulher não há de ser igual à do homem. 
[16] Eccles, XXVI, 18

domingo, 23 de agosto de 2009

Menino Jesus envolto em panos

Representai-vos Maria que, tendo dado à luz seu divino Filho, o toma respeitosamente em seus braços e, depois de adorá-lo como seu Deus, o envolve em panos. Assim atesta o Evangelho, e a Santa Igreja o repete em seus cânticos:

Membra pannis involuta
Virgo Mater alligat.


Vede a Jesus Menino que, obediente, oferece suas mãozinhas, estende seus pézinhos e se deixa envolver. Considerai como cada vez que sua Mãe o apertava assim nos paninhos, o santo Menino pensava nas cordas com que seria ligado um dia no jardim das Oliveiras, depois atado a uma coluna, e nos cravos que deviam prendê-lo na cruz; e como, assim pensando, Ele sofria voluntariamente aqueles laços a fim de livrar nossas almas das cadeias do inferno.

Jesus, estreitamente apertado nos paninhos, dirige-se a nós e convida a nos unirmos estreitamente a Ele pelos doces vínculos do amor; e voltando-se a seu Pai eterno, diz-lhe: Meu Pai, os homens abusaram de sua liberdade e, revoltando-se contra vós, tornaram-se escravos do pecado; para expiar a sua desobediência consinto em ser ligado e apertado nestes panos. Nesse estado, faço-vos o sacrifício de minha liberdade, a fim de que o homem seja libertado da escravidão do demônio. Aceito estes panos; são-me caros, e tanto mais caros porque representam as cordas com as quais me ofereço a ser um dia atado e conduzido à morte para a salvação dos homens.

Os seus vínculos, os de Jesus, são ligadura salutar para curar as chagas de nossa alma. — Meu Jesus, quisestes pois ser ligado em paninhos por amor de mim. Ó divina caridade, direi com S. Lourenço Justiniano, só tu pudeste fazer meu Deus meu prisioneiro. — E eu, Senhor, recusaria ainda deixar-me unir a vós por vosso santo amor? teria ainda a triste coragem de romper vossas doces e amáveis cadeias, e isso, para tornar-me escravo do inferno? Meu Jesus, estais ligado no presépio por meu amor; quero permanecer sempre preso a vós.

S. Maria Madalena de Pazzi dizia que esses panos significam para nós a firme resolução de nos unirmos a Deus pelos laços do amor e de nos desapegarmos de tudo que não é Deus. Para esse mesmo fim, como é evidente, e para ver as almas diletas enlaçadas pelos vínculos de seu amor, é que nosso amantíssimo Jesus quis ficar nos altares como ligado e preso sob as espécies do Santíssimo Sacramento.

(Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo - Sto. Afonso de Maria Ligório, págs.183 e 184)

"Salvação dos filhos, proveito dos pais" (São Jerônimo)


"A maior desgraça dum povo é não receber a educação que merece." (René Bazin)

Pode separar-se impunemente a ação do pai com a da mãe?
- Não; mil vezes não; a mãe representa o amor; o pai, a autoridade; e os dois participam dessa clarividência que é "a companheira da força e do amor, e que eternamente os ilumina." (Mons Dupanloup - Da educação t.II, p. 134)
Eis a razão por que se não podem separar e devem presidir conjuntamente à educação de seus filhos.

"Como é falha de coração e de vida a educação em que a mãe não toma parte! E quanta hesitação e fraqueza na educação de que o pai anda arredio!" (Mons Dupanloup - Da educação t.II, p. 134)

O pai e a mãe desempenham missões diferentes?
- Certamente; e as missões de um e de outro estão em relação com o caráter e com a função particular de cada um. Mas todos os esforços tentados para o bem a desempenharem devem harmonizar-se, concertar-se, conjugar-se, e tender ao mesmo fim: - a formação do homem e do eleito.

Mas, se é verdade que, para ministrar a educação, o pai e a mãe devem ter um só espírito, um só coração e um só vontade, não poderemos dizer que é a mãe que, na prática, incumbe a maior parte da tarefa?
- Sim; e pode-se afirmar, sem medo de errar, que a mãe ocupa o primeiro lugar na hierarquia dos educadores.

Porque pertence a mãe o primeiro lugar na hierarquia dos educadores?
Por três razões:
Porque vive mais com os filhos;
Porque é mais clarividente;
Porque ama com mais dedicação.

Mas é sempre verdade que a mãe vive, "mais" que ninguém "com seus filhos"?
- Infelizmente, não; e isto por diversas razões, em regra, é esta a lei da natureza, e as circunstâncias favorecem, de ordinário, a sua realização.

É junto da mãe que o filho passa a maior parte do tempo, nos primeiros anos.

É também verdade que a mãe é, geralmente, mais "clarividente" nas questões da educação?
- É; e da mãe se pode dizer que tem o instinto da educação; esta vantagem deve-a à própria missão que Deus lhe confiou. Foi a ela, como outrora a filha de Faraó à mãe de Moisés, que Deus disse: "Tomai este menino e cria-o para mim".

E, como Deus não emprega as suas criaturas nem opera por seu intermédio sem lhes comunicar uma centelha dos seus atributos divinos, teve de dar aos pais, especialmente à mãe, um raio de sabedoria, de inteligência e de clarividência.

E não será "o amor da mãe" um título ainda mais precioso do importante papel que lhe é distribuído na educação?
- Incontestavelmente, e por duas razões principais:

Porque amar a criança e fazer-se amar por ela será sempre o grande segredo da educação.(F.Kieffer, A autoridade, p.126)
A educação é o amor. (Lachelier)
A educação deve ser uma benevolência e uma bondade permanentes. (Pestalozzi)

Porque a educação, que exige muitos e penosos sacrifícios, supõe, no educador, um amor profundo, devotado e desinteressado.
Ora não há ninguém como a mãe que possua as ternuras e os heroísmos deste amor.
E, por conseqüência, não se lhe pode contestar o lugar que ocupa na hierarquia dos educadores.

Que se infere do que acabamos de dizer acerca do papel da mãe na educação?
- Resulta que a criança será, geralmente, aquilo que a mãe tiver feito dela.
Do cuidado das mães depende a primeira educação dos homens.

"Nada nos aproxima mais de Deus do que a memória duma santa mãe."(Ozanam, cartas, I, p.225)

"O mérito da mulher, escrevia J. de Maistre a sua filha, está em governar a sua casa, tornar o marido feliz, consolá-lo dar-lhe coragem e educar os filhos, isto é, fazer homens; é este o parto feliz, que não foi amaldiçoado como o outro."(Cartas e opúsculos, t.I, p.190)

Quais são os deveres particulares dum pai?
- Os deveres particulares do pai estão em harmonia com a natureza da sua inteligência, com a sua autoridade de chefe, com o espírito de decisão e energia que, em geral, o caracteriza.

1º - A inteligência do pai, é ordinariamente, a mais firme, mais equilibrada, mais segura: pertence-lhe, por conseguinte, formar o pensamento dos filhos e até das filhas.
2º - A sua autoridade de chefe de família exige, para o bom desempenho, um caráter digo e sério, cheio de força e também de suavidade: pertence-lhe, conseqüentemente, formar a virilidade dos filhos, com palavras autorizadas e com o exemplo duma vida de dever e de honra.
3º - O pai, em virtude da sua posição na família, é o juiz, em última instância, das decisões a tomar, e o agente inicial e principal da sua execução. Compete-lhe, portanto, formar a vontade dos filhos, dando-lhes a luz, o arrojo, a energia e a constância que lhes são necessárias.

(Catecismo da educação - Abade René Bethéem)

Está armado (a) contra o orgulho?

Ninguém pode considerar-se suficientemente armado contra o orgulho e, já que não é possível exterminá-lo nesta vida, é preciso ao menos servir-se avidamente de todos os meios para enfraquecê-lo e neutralizar-lhe as investidas. Ora, dentre estes meios, um dos mais eficazes é justamente fornecido pelas nossas faltas. À semelhança da mandíbula dessecada de uma mula, que se transformou nas mãos de Sansão num engenho de morte contra os filisteus, os nossos pecados, por mais hediondos que sejam, podem também tranformar-se numa maça poderosa contra o orgulho, e converter-se assim em instrumento da nossa salvação e santificação.

Com efeito, se o orgulho é uma estima e um amor desordenado da nossa pretensa excelência, a humildade, diz São Francisco de Sales, é o "verdadeiro conhecimento e o reconhecimento voluntário da nossa miséria" (Filotéia, III,6). E que há de mais apropriado para nos dar esse verdadeiro conhecimento do que a consideração dos nossos pecados? São eles, realmente, na engenhosa expressão do P. Álvarez, como outras janelas pelas quais penetra uma luz mais abundante sobre as nossas misérias.
Mais eficazes do que as humilhações que nos vêm dos acontecimentos ou dos homens, as nossas quedas convencem-nos da fragilidade das nossas forças puramente humanas. E diz, nosso santo, "este reconhecimento do nosso nada não nos deve intranqüilizar, mas tornar-nos mansos, humildes e pequenos diante de Deus". (XIV,236)
"Conheces bem o estado da tua alma? Pois bendize a Deus por te dar esse conhecimento e não te lamentes tanto. És muito feliz por saber que não és senão a própria miséria".(VI,48 Colóquio III. da firmeza)." "Devemos confessar a verdade: somos umas pobres criaturas que, sem a ajuda de Deus, não podem fazer bem coisa alguma".(XII, 203)

"- Eu vos digo que, se fordes humilde, sereis fiel.
"- Mas chegarei a ser humilde?
"- Sim, se quiserdes sê-lo.
"- Mas eu quero.
"- Pois então já o sois.
"- Mas eu vejo que não sou.
"- Tanto melhor, pois isso serve para que o sejais com mais certeza"
(XIX,300. Carta a uma superiora carmelita)

" As nossas limitações à hora de levarmos adiante os nossos assuntos, tanto interiores como exteriores, são um motivo eficaz de humildade produz e alimenta a generosidade".(XVIII,266. Carta a uma superiora)

Com efeito, como confiar em nós mesmos e julgar-nos de algum valor quando caímos de bruços ao primeiro sopro da tentação, quando vemos os nossos melhores propósitos desvanecerem-se como uma faísca, como a estopa atirada às chamas?(Is.1,31)?

Como o orgulho perde a sua força quando uma queda nos mostra a realidade da nossa miséria, e como então a humildade lança facilmente raízes na verdade! É como se ouvíssemos uma voz bradar: Sejam retos os vossos juízos! (Sl 57,1); Fostes pesados na balança e viu-se que não tínheis o peso necessário (Dn 5,27); Pensáveis ser mais, e eis que sois menos.(Ag 1,9)

(A arte de aproveitar as própria faltas - Joseph Tissot- págs.53 a 55)

sábado, 22 de agosto de 2009

"Eu preciso tanto de uma mãe!"

"Eu preciso tanto de uma mãe!"

Um dia conta-nos um vigário dos subúrbios de Paris, notei uma ovelha estranha misturada ao rebanho do meu catecismo. Aquela figurinha pálida e apoucada, que se insinuara na ponta do último banco, não me era totalmente desconhecida; minha memória lembrou-me logo que o intruso era filho do contramestre da fábrica, homem de opiniões violentas e exaltadas, orador de clube, inimigo de padres, etc. Aliás, o pequeno parecia deslocado no santo lugar.

Olhava para todos os lados e tinha uma atitude constrangida na extremidade do seu banco. Não aparentei reparar na presença dele, mas, após acabar de interrogar os meus meninos, fui a ele e fi-lo levantar. Ele segurava um gorro na mão e olhava-me com grandes olhos tristes. As suas roupas belas e bem feitas careciam de frescor. Ao vê-las, adivinhava-se que não as preparava um mãe.

- Vais à escola, - disse-lhe eu, - já ouviste falar de Deus Nosso Senhor? - Silêncio, gesto vago e indiferente.
- Da Santíssima Virgem? - O pequeno levantou a fronte e subitamente o semblante se lhe animou.
- Ouvi, - disse-me ele baixinho, misteriosamente. - Ouvi dizer que os meninos do catecismo têm uma Mãe, a SS.Virgem. Foi por isso que eu vim... - E grossas lágrimas rolaram-lhe pelas faces, enquanto ele acrescentava: " Eu preciso tanto de uma mãe!"

Esse grito comoveu-me. Assim que meus alunos saíram, voltei ao pequeno estranho, e lhe disse: " Vem cá, vou-te levar à tua Mãe." - Ele deitou-me um olhar profundo. " Aquela que substituirá tua mãe", continuei. E conduzi-o ao branco altar que as Filhas de Maria ornamentam com desvelo piedoso. Quando o menino avistou a bela imagem coroada do diadema de ouro, rodeada de flores e iluminada pelo reflexo dos vitrais, exclamou de mão postas: " Ah! lá está ela! Como é bela!

O Sr. acha que ela quererá me tomar por seu filho? olhe, ela tem outro nos braços. Talvez não precise de mim; e eu, se o Sr. soubesse! Preciso muito de uma mãe...ainda mais depois que estou doente..." - e estás doente, meu filho? - Ele tocou o lado esquerdo. - Tenho uma dor aqui, não grande, mas não posso brincar ou correr como os outros, então o médico proibiu que eu fosse á escola. Sou infeliz sozinho em casa. Papai me quer muito bem, mas está sempre fora de casa. Disseram-me que os meninos que vêm aqui acham uma mãe muito boa e toda-poderosa, eu então fugi e vim cá.

Eis aí mais um dos vossos benefícios, ó boa Mãe, pensei eu.
Obrigado por me terdes trazido esta cara alminha, que pereceria na ignorância, e cuja voz, talvez em breve, se misturará aos concertos dos anjos.

E ele repetia inquieto: "O Sr. acha que a santa Virgem quererá saber de mim? - Sem dúvida, meu amigo, mas é preciso fazer como os meninos que aqui vêm, e aprenderes o teu catecismo."

Pus-lhe um catecismo nas mãos, e ele disse: " Obrigado, Sr., não deixo de o ler."

Leu-o, aprendeu-o, mas a morte fazia lentamente a sua obra. Pouco tempo depois de fazer a primeira comunhão, ele morreu como um santo, e foi encontrar-se com sua Mãe no céu.

(Relatos de Pe. J. Baeteman)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Modelo de esposa cristã


Santa Rita de Cássia - rogai por nós!

Que infelizes seremos se nossa esperança se limitar à vida presente!
Rita havia-se entregado ao seu esposo Fernando com todo o afeto de seu inocente coração, porque via nele o homem que a Providência lhe destinara. Fernando julgava-se feliz por haver unido sua sorte a uma mulher que, adornada de tão singulares prendas, havia de ser o anjo tutelar de sua casa, e para ele fonte de felicidade.

Mas ai! quão inconstante é a condição humana! Não passou muito tempo, e o esposo de Rita começou a mostrar o caracter iracundo que o dominava. Quando falava era com enfado e com palavras ásperas, às vezes grosseiras. Nada lhe agradava; de tudo se enfastiava e aborrecia. Não era amigo e companheiro de Rita antes o verdugo de sua mansidão, e provação perpétua de sua paciência, permitindo-o assim o Senhor para continua mortificação de sua serva.

O silêncio, a humildade e a paciência eram a resposta de Rita aos maus tratos, às injurias e desprezos de Fernando. Nada omitia para agradar ao marido, despendendo toda sua amorosa solicitude para servi-lo, adivinhando suas necessidades, interpretando seus gostos e evitando o menor motivo de queixa. Sempre disposta a fazer a vontade do esposo, até onde lhe permitisse chegar a condescendência cristã, não empreendia coisa alguma sem o beneplácito dele, chegando ao ponto de não sair de casa, nem para os ofícios divinos, sem prévia licença do esposo. Mas nada bastava para contentar o ânimo iracundo e displicente de Fernando.

Oh! que esplêndida, e com que auréola de santidade aparece Rita, a mártir esposa!

Havendo aprendido a praticar desde criança, na escola do divino Mestre, a mais fiel obediência e abnegação de si mesma, sem dificuldade submetia-se às exigências do bárbaro marido, carregando resignada a pesada cruz do matrimônio: e esse estado, que para muitas esposas é manancial abundante de brigas, discordas e pecados, para Rita foi ocasião de praticar excelentes virtudes.

Os dias que contava de matrimônio não haviam sido senão de luta continua entre a soberba e a humildade, entra o desabrimento e a mansidão, entre o despotismo e a docilidade; numa palavra, entre o vicio e a virtude; luta medonha capaz de fazer sucumbir o valor mais esforçado, se não estivesse protegido por uma paciência invencível e um coração moldado no amor de Deus e do próximo.

A esposa mártir, cada dia mais firme em sua fé e levando sua paciência até o heroísmo, multiplicava a oração e penitências, rogando ao Senhor que se apiedasse de seu esposo: e Deus, que muitas vezes pelas súplicas de uma fiel esposa tem abrandado a dureza do marido infiel e trocado seu coração rebelde, quis consolar sua serva Rita, fazendo do esposo, de leão furioso que era, um manso cordeiro.

Admirado Fernando da paciência e mansidão de Rita foi aos poucos moderando suas tirânicas exigências, a ira e as palavras injuriosas com que freqüentemente a maltratava, acabando por reconhecer-se culpado, desagravando ao Senhor das ofensas passadas e procurando agradar a sua esposa.

(...) Odiava a murmuração e fugia dela como de doença contagiosa; e se alguma indiscreta amiga ou vizinha fazia alguma referência aos maus tratos de seu marido, logo mostrava Rita sinais de desagrado,e com palavras repassadas de doçura desviava a conversa para outro assunto. Por este e outros motivos, todos viam nela a esposa cheia de virtude e o modelo perfeito da esposa cristã.

(Capítulo IX. Virtudes heróicas de Rita no matrimônio - Pe. José R. Cabezas)
PS: grifos meus

Modéstia ao assistir a Santa Missa

Recolhimento, modéstia e silêncio

Era opinião de São João Crisóstomo, opinião aprovada e confirmada por Gregório, no quarto de seus Diálogos, que, no momento em que o padre celebra a Missa, os céus se abrem, e multidões de Anjos descem do Paraíso para assistir ao santo Sacrifício. São Nilo abade, discípulo do mesmo São Crisóstomo, afirma que via, quando este santo doutor celebrava, uma grande multidão daqueles espíritos celestes assistindo os ministros sagrados em suas augustas funções.

Eis o meio mais adequado para assistir com fruto à Santa Missa:

Consiste em irdes à Igreja como se fôsseis ao Calvário, e de vos comportardes, diante do altar, como o faríeis diante do trono de DEUS, em companhia dos Santos Anjos. Vede, por conseguinte, que modéstia, que respeito, que recolhimento são necessários para receber o fruto e as graças que DEUS costuma conceder àqueles que honram, com sua piedosa atitude, mistérios tão santos. Entre os hebreus, enquanto se celebravam os sacrifícios da antiga Lei, nos quais se ofereciam apenas touros, cordeiros e outros animais, era coisa digna de admiração ver com quanto recolhimento, modéstia e silêncio o povo todo acompanhava. E, se bem que o número de assistentes fosse incalculável, além dos setecentos ministros que sacrificavam, parecia, no entanto, que o templo estava vazio, pois não se ouvia o menor ruído, nem um sopro.

Ora, se havia tanto respeito e veneração por esses sacrifícios que afinal, não eram mais que uma sombra e figura do nosso, que silêncio, que atenção, que devoção não merece a Santa Missa, na qual o próprio Cordeiro Imaculado, o Verbo de DEUS, se imola por nós?!
Bem o compreendia Santo Ambrósio. No testemunho de Cesário, quando ele celebrava a Santa Missa, após o Evangelho virava-se para o povo e o exortava a um piedoso recolhimento e impunha a todos guardar o mais rigoroso silêncio, não só proibindo a menor palavra, mas ainda abstendo-se de tossir ou fazer qualquer ruído. E era obedecido. Quem quer que assistisse à Santa Missa do santo Bispo, sentia-se tomado de profundo respeito e comovido até ao fundo da alma, tirando assim grande proveito e acréscimo de graças.
(As excelências da Santa Missa - Leonardo de Porto Maurício, págs. 41 e 42)

Inveja: " A sarna da alma"


A caridade proíbe a INVEJA

O que a caracteriza é um amor-próprio violento que aspira a ter tudo em detrimento dos outros; um egoísmo que não quer repartir com ninguém ; um desejo ardente de ser amado de maneira exclusiva; um sofrimento secreto à vista da felicidade de outrem, ou uma alegria maligna com as suas desditas, enfim uma paixão imoderada das distinções, das preferências e das atenções.

Um crítico pretendeu que todas as mulheres são mais ou menos invejosas. Sem dúvida é exagerado. Porém, mesmo assim, cumpre tomar cuidado com certos movimentos instintivos que poderiam surdir das profundezas da má natureza. Parecem bastante raras as almas femininas que não trazem em si o germe odioso deste vício. Um grande coração deve elevar-se acima das vilanias de uma paixão tão mesquinha e tão degradante.

Para conceber mais vivo horror dela, examinai as devastações que ela causa, assim na alma que ela tiraniza como mas outras a quem persegue.

Suas devastações

- A invejosa não tem mais nem alegria nem prazer: dir-se-ia que um véu fúnebre a circunda; ela sofre com a sua própria desgraça e com a felicidade dos outros.
- A invejosa julga sempre ver ironia no olhar das pessoas, a quem detesta; escuta incessantemente, para surpreender palavras malévolas nos lábios de outrem. Vigia as amigas para ver se o afeto delas é sincero; não tolera provas de benevolência cuja melhor parte não seja para ela.
- A invejosa sofre uma verdadeira tortura moral, que não lhe traz nada...a não ser novos sofrimentos. As outras paixões têm uma certa satisfação momentânea; a inveja é um fogo devorador que arde e rói o coração e não proporciona nenhum gozo.
- A invejosa sente que se rebaixa pelo seu vício; mas se cegará a ponto de jamais querer confessá-lo, e mesmo de censurá-lo seriamente a si mesma! Para se curar, medite ela, pois estas palavras de La Bruyère: "A inveja, que muitas vezes, não passa de indigência de espírito, denota muito mais a pobreza do coração."

A inveja, enfim, é malvada e facilmente se torna feroz. As mentiras mais odiosas não a fazem recuar; a sua alegria é ver sofrer e fazer sofrer os outros. Não se pode compará-la melhor do que ao demônio, cuja inveja para com os homens vai até ao ódio.

E não acrediteis que esse vício odioso não seja gravíssimo:

"Ele se oculta sob o manto da zombaria, da mentira, de um interesse hipócrita, de conselhos falazes, de indiscrições comprometedoras, de perguntas insidiosas, de exageros tolos, de ingerências culpadas, de informações superfíciais ou notóriamente falsificadas, e de muitas outras maldades que se penetram com um sorriso ou com um suspiro, agitando o leque, às vezes mesmo entre duas dezenas de terço." (Henri Lassere)

Por que se deve combatê-la?

1) Ela transtorna o coração: O nosso coração foi criado por Deus para amar o bem e odiar o mal. Ora, a inveja odeia o bem do próximo e aplaude o mal. É o contrário da ordem estabelecida por Deus!
2) Transtorna a inteligência e o juízo: A pessoa invejosa não sabe ver coisa alguma sob a luz requerida; desarrazoa, e mostra-se sempre má quando se trata de julgar quem não tem as suas simpatias. Acusa primeiro as ações; se alguém as justificar, achará ela sempre alguma coisa a redizer, como aquela raposa que achava as uvas "verdes demais"!
3) Transtorna a alma: A invejosa tem em si como que uma serpente que a devora. É por isso que Job chama esse pecado "a podridão dos ossos"!
4) Transtorna o céu: Foi por inveja que Lúcifer, tendo tido a revelação do mistério da Encarnação, recusou submeter-se ao Homem-Deus e exclamou: Não obedecerei!
5) Transtorna a terra: Por invejar a felicidade de nossos primeiros pais foi que o demônio veio tentá-los! Por causa da sua inveja foi que "a morte entrou na terra"!

Preserve-vos Deus para todo o sempre deste vício, menina de coração bom e puro!

São João Crisóstomo cognomina-o de "a sarna da alma"... Sabeis que a representam sob os traços de uma mulher idosa, de olhos lívidos, de rosto pálido e emagrecido, arrimando-se a um bordão espinhoso, enquanto se vê uma serpente devorar-lhe o coração. Basta dizer-vos isto, para vo-la fazer detestar!
Aliás, bem sabeis como vós mesma a detestais nos outros!

(A formação da donzela - Pe. Baeteman, págs. 129 a 131)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...