quinta-feira, 11 de abril de 2013

Amor do próximo - Segunda Parte

Nota do blogue: Acompanhar esse Especial AQUI.
Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

III — Qualidades do amor do próximo

            O amor para com o próximo deve ser:
           
1— Amor sobrenatural

            Deve ser sobrenatural em razão do motivo, isto é, devemos ver Deus no nosso próximo e fazer-lhe todo o bem como se fosse feito a Deus. Ele mesmo diz: «O que fizerdes ao mais pequeno e miserável é o mesmo que fazê-lo a mim.» Devemos amar-nos em Deus. Deve ser sobre­natural em razão do fim, isto é, devemos dar ao nosso próximo os auxílios espirituais e os bens materiais que ajudam a alcançar os bens espirituais. Devemos, pois, transmitir pela pala­vra e pelo exemplo, a virtude e a piedade.
            Dois discípulos iam para Emaús e, entre os dois, Jesus segue viagem, toma parte nas suas conversas e as suas palavras iluminavam os seus espíritos e inflamavam os seus corações. Ora são Francisco de Sales observa a propó­sito: É preciso ligar os nossos afetos com a cadeia do puro e santo amor de Jesus.
            A amizade, exclamava outrora Santo Agos­tinho, não é verdadeira amizade, ó meu Deus, senão quando nos estreitais nos Vossos laços. Esta amizade vem de Deus e encaminha para Deus, é, como o próprio Deus, profunda, íntima e eterna.
            Contra este amor sobrenatural há o amor diabólico. Na verdade, quando as pessoas que se amam fazem o que é ofensa a Deus, essa amizade vem do demônio e conduz ao inferno onde se converte em eterno ódio.
            Portanto, se nos pedissem que fizéssemos uma ação má, um pecado, por afeto a uma pessoa, deveríamos responder como aquele jovem grego a quem pediram que fizesse um falso juramento a favor de um amigo: Não sou seu amigo senão enquanto conservar a amizade de Deus.
            A verdadeira amizade só pode existir entre pessoas que a têm a Deus.
            «A amizade não pode ser sincera, dizia Cícero, senão entre os bons.»

2 — Amor universal

            Só poderia deixar de amar o meu irmão quando ele deixasse de ser Cristo para mim. Ora esta identidade é permanente. Só os condenados do inferno não têm nada de Cristo. Só esses é que não podem ser objeto do meu amor. De resto, todos, ainda os maiores pecadores, têm direito ao benefício do Mihi fecistis.

3— Amor generoso

            O meu irmão é outro Jesus Cristo, ora esta identidade coloca-o acima de mim, deve preva­lecer a mim. Portanto, devo sacrificar-me por ele. Eis a razão de ser, necessária e suficiente, da minha dedicação e da minha humilhação prática diante do meu irmão.


4— Amor afetivo

            A caridade deve ter as suas raízes no coração. Falando da caridade diz o Apóstolo São Paulo: «Ainda que eu distribuísse todos os meus bens no sustento dos pobres, se não tiver caridade nada disto me aproveita.» (I Cor. XIII, 3). Estas palavras mostram que há um amor sem obras de amor, e também obras de amor sem amor, muitos cobrem-se com o manto da caridade sem a terem no coração.
            O orgulhoso cobre-se com este manto. E não admira. O demônio como príncipe de todos os soberbos e príncipe deste mundo quer oferecer os seus bens a um pobre, a Jesus, contanto que ele se prostre por terra e o adore.
            Para conseguirmos que se inclinem diante de nós, que nos honrem e que nos venerem não há melhor meio do que revestirmo-nos com o manto da caridade.
            O voluptuoso, na variedade das suas diver­sões, organiza um baile. E eis um manto de baile convertido num manto de caridade.
            Criam-se obras de assistência.
            Apesar de tantos donativos, de tantas festas e obras de beneficência, o exército da pobreza está sempre descontente. É que os pobres conhecem perfeitamente que não é o verdadeiro amor, mas o egoísmo disfarçado que vai até eles. Recebem a esmola, mas odeiam o doador porque ele não cumpre como deve o dever social cuja fórmula não é: «tu darás ao teu próximo, mas sim: tu amarás o teu próximo.» Como Deus, o homem diz ao homem: «Não é a tua esmola que eu quero, quero a ti mesmo».
            A questão social não pode ser resolvida pelo manto do amor, mas somente pela mão e cora­ção do amor.
            Sigamos, pois, a recomendação de São Paulo: «Quem der esmola, dê-a com toda a simplicidade do seu coração.» (Rom. XII, 8).

5— Amor eletivo

            É São João que recomenda esta qualidade do amor do próximo. «Não amemos simplesmente em palavras, mas com ações.» (1 Jo. III, 48).
            1. ° Falar do próximo a Deus. — É esta uma importante ação caritativa que podemos prestar ao nosso próximo.
            Antes de falar ao homem, mesmo em nome de Deus, antes de operar no homem para fins divinos, é conveniente, é necessário falar do homem a Deus, agir sobre Deus em proveito do homem. É o que se faz — orando. Devemos pedir a Deus que, por caridade nos faça minis­tros do Seu poder, a fim de fazermos bem às almas, como recomenda São Paulo: — «Re­comendo-te, pois, antes de tudo que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens.» (I Tim. II, I).
            Eu oro sempre pelas pessoas que me rodeiam, dizia o General Gordon, e isto dá-me uma força e influência maravilhosas.
            2. ° Falar ao próximo de Deus. — Entre as várias missões que o Pai celeste deu a Seu Filho, deu-Lhe também esta: «Fala e não te cales.» (At. XVIII, 9). Efetivamente, o Salvador não encontra nenhum aflito para o qual não tenha uma palavra de consolação, nenhum tímido para o qual não tenha uma palavra de alento, nenhum perseguido para o qual não tenha uma palavra de defesa, nenhum suplicante para o qual não tenha uma palavra de promessa. Já na Cruz, ainda tem para um homem uma palavra maravilhosa de amor: «Hoje mesmo estarás comigo no paraíso.»
            Encontramo-nos, a cada momento, com pes­soas aflitas, irritadas, perseguidas, humilhadas, a quem deveríamos, pois, dirigir uma palavra bondosa e, não obstante, calamo-nos. Porque somos tão avaros de palavras? Talvez seja devido à nossa reserva natural, ao nosso egoísmo e indolência. Convém notar que não há nada no mundo que custe menos e que possa ter mais valor. Uma palavra bondosa e caritativa desfaz equívocos, reconcilia pessoas desde há muito desavindas, instrui as crianças, converte os pecadores, preserva os justos e santifica a todos. Deus deu ao homem a palavra como um eco do Céu e uma força criadora. — Deus falou e todas as coisas foram criadas. — O homem fala e, ao império da sua palavra, tudo se ilumina, transforma e diviniza. É para o discípulo como para o Mestre que foi dito: « Fala e não guardes silêncio. Fala por amor a Deus e ao próximo.»
           
3. ° Fazer bem ao próximo. Ouçamos: A voz da humanidade sofredora.— A huma­nidade sofredora pode dizer como uma mater dolorosa: «A minha dor é imensa como o mar.» Há tanta gente sem pão, sem vestuário, sem abrigo e sem saúde. Há tantas vidas a consu­mirem-se na miséria. Ora, das profundezas destas misérias eleva-se uma voz a gritar por socorro, a reclamar atos de amor. — A voz do nosso coração. A força do amor obriga-nos a fazer bem. «Caritas urget.» O amor é sempre muito operativo em quem o tem. — A voz de Deus. Além da voz da miséria, da voz do nosso coração há a voz de Deus que não cessa de nos mostrar, com ameaça, a obrigação de amar o próximo e amá-lo praticamente.
            «Meus filhinhos, amemos não só de palavra e com a língua, mas com as obras e em ver­dade.» (Jo III, 18). Só amando assim é que podeis evitar a minha maldição no juízo final. (Mat. XXV, 41, 43).
            Edificação mútua. Que é um cristão? É uma luz. «Vós sois luz, exclama São Paulo, luz no Senhor.» (Efes. V, 8).
            Que é um cristão? É uma força. A natureza dá-nos potências; a graça cria em nós virtudes, estas virtudes, que são forças, resumem-se todas numa só que São Paulo chama «a força ou a virtude de Cristo.» (II Cor. XII, 9).
              Que é o cristão? É uma flor: um Deus em flor, dizem, muitas vezes, os Padres. O Verbo é a flor do Pai que exala todo o seu perfume. O Verbo vem a nós, entra em nós; como Ele é Filho de Deus, Ele nos faz filhos de Deus; a unção que O sagra, sagra-nos também, a fim de exalarmos, como diz São Paulo, o perfume de Cristo. (II Cor. II, 13).  Ora, quem não sabe que, naturalmente, toda a luz irradia, toda a força exerce a sua ação e todo o perfume se faz sentir ao longe.
            O cristão, em toda a parte, deve manifestar que é um outro Jesus Cristo.
            E uma grande caridade, é um grande dever edificar o próximo.
           O divino Mestre assim o declara quando diz: «Que a vossa luz brilhe diante dos homens a fim de que vendo as vossas boas obras glori­fiquem o Pai celeste.» (Mat. V, 16). E o Apóstolo São Paulo recomenda: «Faça-se tudo para edificação comum.» (1 Cor. XIV, 26). A nossa caridade para com a alma do próximo tem por fim: — excitar a piedade dos bons para darem mais glória a Deus; —fortalecer os fracos, de maneira que não se vejam sós; despertar remorsos na alma dos culpados; converter os pecadores. Ora o bom exemplo é, para atingir estes fins: 1.° O meio mais geral: pode ser empregado por todos em todas as condições da sua vida; 2.º o meio mais fácil: nada há a acrescentar às ações para o dar; nada a fazer senão ver, para o rece­ber; 3.° o meio mais seguro: a instrução pode desagradar, o conselho pode exasperar, a correção pode revoltar, o bom exemplo não pode causar nenhuma impressão desagradável; 4.º o meio eficaz: o meio mais seguro para conquistar as almas para Deus, diz São Gregório Magno, é atraí-las pelo exemplo.
            Tenhamos, pois, em conta esta recomenda­ção do Espírito Santo no Eclesiástico: «Cada um, por ordem de Deus, deve cuidar do seu próximo, deve ter a caridade de o esclarecer, conduzir e fortificar com o seu exemplo.»
            Auxílio mútuo. «Suportai o fardo uns dos outros», diz nosso Senhor. Este convite é a mais bela vocação! Exorta-nos a sermos médicos que curam as feridas, aliviam os que sofrem e salvam os que morrem; exorta-nos a sermos sacerdotes que acalmam as dores da alma, ouvem as confissões, esclarecem as dúvidas, evitam o pecado; exorta-nos a asse­melharmo-nos com o próprio Deus. Deus é, em primeiro lugar, aquele que atende à humani­dade que em todas as línguas grita por socorro. Sejamos colaboradores de Deus fazendo o pos­sível para diminuir a miséria no mundo. Pronto socorro é a divisa e a vocação dos filhos de Deus.
            O quadro que vou apresentar foi pintado por Benouville na sua admirável tela — os jovens cristãos entrando no anfiteatro. Estão aí, em graça e na força da adolescência. A mão de um pega na mão de outro. De olhos puros contemplam o Céu. A multidão apinha-se para presenciar o espetáculo de os ver morrer. Olhai é mais que um quadro, é um espelho.
            O anfiteatro é o mundo; o combate é a vida;
          O martírio é o dever. Os jovens amigos, que se dão as mãos para irem juntos para o Céu, somos nós.
            Feliz aquele que encontrou um verdadeiro amigo, — encontrou a felicidade suprema.
            Correção mútua. Se o vosso irmão cometer uma falta, diz o Senhor, corrige-o entre ti e ele, e se ele te ouvir, que felicidade a tua em teres ganho o teu irmão! Quem pode fazer isto melhor do que nós e quem o fará se nós o não fizermos?

            6 — Amor ordenado

            Ordem a observar no exercício do amor do próximo. — Este amor deve ser regulado segundo as pessoas, — a natureza das suas necessidades,—e os bens que lhes são neces­sários.
            Prática desta ordem:

            1.° Regras gerais:— 1.° Relativamente às pessoas. Depois de Deus, devemos amar-nos a nós mesmos, mais que a todos os outros, pois que Jesus Cristo dando-nos o amor de nós mesmos como medida do amor do próximo, mostra-nos que é lícito este amor para conosco mesmos. Em seguida devemos amar nossos pais, parentes, amigos, superiores e concidadãos católicos.
            2.° Relativamente aos bens. Deve-mos amar: os bens espirituais: a alma; — os bens do corpo: a vida; — os bens do espírito: a reputação, a honra; — os bens da fortuna.
            3.° Relativamente às necessidades. A neces­sidade pode ser: Extrema, quando se está num perigo iminente e inevitável de perder a alma ou a vida;—grave, quando só dificilmente se pode evitar o perigo para a alma ou para a vida; comum, quando facilmente se pode esca­par ao perigo.
           4.° Regras particulares : — 1.° Em igual­dade de circunstâncias devemos preferir a nossa alma a tudo; mas podemos preferir a vida do próximo. — 2.° Numa necessidade extrema, devemos preferir o pai à mãe; a mãe à esposa; a esposa aos filhos; os filhos aos irmãos. Numa necessidade grave: o esposo ou esposa deve preferir-se a todos, mesmo aos amigos e superiores, à não ser que destes dependa a salvação da Pátria.

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