terça-feira, 30 de julho de 2013

O Papel da Autoridade na Família

Fonte: Maria Rosa Mulher

Por Marian T. Horvat
Traduzido por Andrea Patrícia


Pensando que ele está fazendo um bem, o pai cria um vácuo de autoridade

Se você tivesse que escolher a principal característica necessária a um pai de família, qual seria?
Alguns podem dizer que nós precisamos de homens católicos de oração, o que certamente é bastante verdadeiro. Outros grupos católicos convidam o homem a servir como chefe da família bem literalmente, servindo a esposa e filhos. Certamente a paternidade demanda autossacrifício e serviço, mas a ênfase nesse papel de serviço segue o ensino moderno do Vaticano II, que marido e mulher desempenhem papéis iguais e complementares no casamento. Um grande erro, em minha opinião, tem sido ignorar a ênfase tradicional e a importância do papel da autoridade que o marido e pai deve exercer na família.
Receosos de parecerem autoritários ou distantes da sua prole, muitos jovens pais tentam ser um “bom camarada” para seus filhos e filhas. Jogando e brincando e fazendo da vida um jogo, eles ensinam não apenas que a vida não é séria, mas que essa autoridade é frívola. O pai, em vez e mostrar o ar sério de autoridade que uma criança precisa para ser calma, estável e segura sobre o seu lugar na vida, ele mesmo toma o ar de uma criança grande, vestindo-se, falando, interagindo como um jovem, mesmo quando ele está longe disso. Ele é o Garotão, seu filho é o Garotinho, e sua esposa fica com o papel de Mãe de todos.

Nisso há uma desordem inerente. A esposa tem dificuldade de achar o marido para obedecer e respeitar. As crianças começam a pensar em si mesmas como iguais aos seus pais. A harmonia e o equilíbrio do lar são perturbados, porque falta a autoridade paterna. Nós vemos os resultados desastrosos dessa síndrome à nossa volta em toda parte atualmente.

Num livro sobre a família escrito em 1910, Monsenhor Henri Delassus, um grande contrarrevolucionário que lutou contra o Modernismo na Igreja e na sociedade, declarou que o princípio vital para a família sadia é a autoridade do pai. (1) Em meu livro, Restoring the Family, eu traduzi o capítulo intitulado “A Autoridade do Pai, A Piedade da Mãe, O Respeito aos Ancestrais”.

Pareceu que vale muito a pena, nesse Dia dos Pais, reproduzir as palavras proféticas do Mons. Henri Delassus, de que nada é mais urgente na família do que restaurar a autoridade paterna. Eu ofereço esse trecho de sua obra como um presente aos pais católicos que buscam a firme sabedoria católica do passado para construir um sadio futuro católico.

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A Autoridade do Pai
Por Monsenhor Henri Delassus

Uma extensa família na qual o pai desfrutou de uma 
dignidade e autoridade verdadeiramente soberanas.

Em Atenas e em Roma, a autoridade do pai era absoluta. Em sua própria casa, ele era um rei. Ele tinha um poder e dignidade verdadeiramente soberanos, e seu poder se estendia mesmo ao poder de vida e morte.
Na França Católica, o pai nunca teve esse direito, mas ele ainda era o primeiro juiz de seus filhos. Até o século XVIII, ele conservou o direito de privar um indigno filho de sua liberdade, mesmo se esse último fosse maior de idade e casado, e o próprio rei colocava o seu poder à disposição do pai buscando justiça.
Isso era o que acontecia quando um pai pedia ao soberano uma lettre de cachet (carta selada), solicitando a assistência do poder real contra um filho quando este último fosse causa de desonra para a família. O rei podia então mandá-lo para a prisão do Estado. Esse costume era reconhecido em toda parte, mesmo pelos receptores das ditas lettres de cachet.
A autoridade paterna era considerada essencialmente superior a todas as outras, e, por essa razão, profundamente respeitada. “O príncipe dá ordens aos seus súditos”, diz Jean Bodin, “o mestre aos seus discípulos, o capitão aos seus soldados... Mas a nenhum desses a natureza deu tanta autoridade quanto ao pai, que é a verdadeira imagem do soberano Deus, o Pai universal de todas as coisas”.
De fato, as crianças devem pensar em seus pais como imagens de Deus na terra. Frequentemente se encontra pensamentos como os seguintes, de Stephen Pasquier:
“Nós devemos considerar nossos pais como deuses na terra, que nos foram dados não somente para nos transmitir a vida e conservá-la, mas também para nos santificar por suas sábias instruções”.

Escrevendo a uma de suas sobrinhas, São Francisco de Sales afirmou: “Observe como você encontra em seu pai uma imagem do Pai Eterno. Por essa razão nós devemos honrar e reverenciar aquele através do qual aprouve a Deus nos dar a vida”.
Uma autoridade com tal caráter religioso deve inspirar respeito e tornar fácil a obediência, estimulando devoção à família e mantendo a harmonia entre os filhos. Ao longo do século XVIII, entretanto, a autoridade paterna foi deteriorada por causa dos novos costumes igualitários, e a Convenção Nacional terminou por destruí-la quase completamente. (2)
Desde a época em que os homens foram imbuídos como o espírito de Rousseau – isto é, homens que queriam ver o indivíduo, não a família, como um elemento básico da sociedade - assumindo o poder legislativo, eles se esforçaram para decretar leis para abolir a autoridade do pai sobre seus filhos maiores de 21 anos e enfraquecê-la sobre os mais novos. “A imperiosa voz da razão”, proclamou Cambacérès, um famoso legislador revolucionário, “deve ser ouvida. O poder paternal não existe mais. Um homem não deve ter poder direto sobre outro, mesmo que ele seja seu próprio filho”.

O Socialismo, por sua vez, solicitou consagrar essas propostas na lei. Em seu livro Le socialisme intégral, Benoît Malon disse:
“O que deve acontecer é abolir completamente a autoridade do pai e seu poder quase régio na família. De fato, a igualdade só será perfeita se isso for alcançado. Os filhos não têm tanto valor quanto os pais? Com que direitos esses últimos comandam os primeiros? Chega de obediência! Chega de desigualdade!”.
Hoje, o pai se encontra diante de seus filhos numa situação similar daquela de um soberano privado de quaisquer meios de reprimir a rebelião dos súditos. A literatura e a mídia reforçam tais leis, trabalhando contra os adultos e anciãos com afirmações que a razão desmente. Mesmo as escolas, através do conhecimento transmitido ordenado aos fatos materiais, persuadem as crianças de que elas têm uma verdadeira superioridade sobre seus pais, e estes são muitas vezes ignorantes de tal aprendizado.
Dessa forma, a autoridade paterna é apenas uma sombra do que foi antes da Revolução Francesa. Tocqueville aplaudiu essa mudança:
“Eu acho que ao passo em que as leis e costumes tornam-se mais democráticos, as relações dos pais com seus filhos irão se tornar mais íntimas e afetuosas. Como a lei e a autoridade se manifestam menos, a confiança e a afeição vão aumentar. E enquanto seja verdade que os laços sociais irão enfraquecer, os laços naturais irão ficar mais fortes”.
Os fatos contradizem tais predições, que, ademais, a razão não pode aceitar. Hoje, todos deploram a ruptura dos laços familiares e suas consequências: a perda do respeito e obediência dos filhos com relação aos seus pais, a emancipação daqueles, a extrema corrupção dos costumes, e finalmente, a decadência geral das pessoas.
Nas classes superiores as aparências podem ser melhor mantidas (3), mas a realidade não é melhor. Estimulada pela doutrina igualitária da época, a juventude se revolta frequentemente contra a disciplina do lar. Mais e mais sua preocupação principal é desfrutar a vida em ociosidade e licenciosidade, dissipando a riqueza reservada para eles pelo trabalho de seus antepassados.
É, portanto, de premente urgência restaurar a autoridade paterna. Ninguém tem um título mais legítimo. Nada é mais necessário.
O poder paterno é aquele que, na ordem natural, revela mais claramente sua instituição divina. Está mesmo acima do poder do rei, que se limita a dirigir uma sociedade em que não se pode reclamar direitos com base na natureza. A autoridade atribuída ao pai, entretanto, é consequência legítima de sua dignidade natural: aquela de continuar o trabalho da criação, dando vida e novos seres dotados de consciência moral e capazes de serem elevados no conhecimento e amor de Deus.



A autoridade paterna exercida apropriadamente proporciona 
serenidade e ordem para a família e a sociedade

Investida com tão alta legitimidade, essa autoridade impõe-se a si mesma pela necessidade de assegurar a existência dos filhos, que são impotentes para conservar a si mesmos. Impõe-se pelo amor paternal em si, a mais duradoura e menos egoísta das afeições humanas, porque os pais percebem que, sem tal autoridade, seria impossível educar crianças que foram manchadas com o pecado original. Finalmente, Impõe-se pelo serviço que presta a sociedade, transmitindo através da educação o tesouro das verdades morais e experiências acumuladas através dos séculos.

Assim, a autoridade paterna foi sempre e em toda parte – exceto entre nós atualmente - considerada a pedra fundamental da ordem social, necessária a todos os povos em todas as épocas como um dos invariáveis elementos da constituição social.

Escrevendo sobre os excelentes estudos de Le Play sobre o que compõe o corpo social, Charles de Ribbe chegou a esta conclusão demonstrada absolutamente pela experiência: se as sociedades são a imagem das famílias que a compõem, as famílias são, por sua vez, aquelas nas quais a autoridade paterna é exercida. Ele disse:

“Se nós retornarmos a autoridade ao pai, nós iremos restaurar o ministério de Deus na ordem temporal… quanto mais o tempo passa, mais nós nos tornamos conscientes de que é necessário retornar à família sua autonomia. É impossível constituir bons governos com homens cedendo ao erro. No triste estado no qual nos achamos, a salvação só pode vir daquela autoridade única, a qual, por virtude da lei natural, permanece devotada aos seus subordinados. Apenas a autoridade paterna pode realizar aquilo que é superior à força de qualquer autoridade pública.
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Notas:

1. Henri Delassus, L'esprit familial dans la maison, dans la cité et dans l’Etat (Lille: Société Saint Augustin, Desclée de Brouwer, 1910, apud José Narciso Pinto Soares, Espírito de família, Collection Talent de Bien Faire, Barcelos: Companhia Editora do Minho, n.d.). Monsenhor Delassus foi um polemista implacável e defensor da Igreja contra o avanço do Modernismo durante os pontificados de Pio IX, Leão XIII, São Pio X e Bento XV. Uma de suas obras mais conhecidas é La conjuration anti-chrétienne.

2. O autor está se referindo aqui a legislação que roubou da família a sua independência ao substituir a autoridade do pai pela do Estado. Por exemplo, Delassus lamenta a perda dos pais em educar seus filhos: “Hoje a família depende tanto do Estado que o pai não tem nem mesmo a liberdade de educar seus filhos como sua consciência e tradições familiares indicam que ele faça. O Estado tem tirado seus filhos dele, com o objetivo legalmente proclamado de transformar essas crianças em homens sem Deus, e consequentemente, homens sem moral. (Ibid., cap. 7).

3. Mons. Delassus estava escrevendo essas palavras no início do século XX. Hoje, pode ser afirmado sem hesitação que um colapso generalizado da autoridade dos pais é vivido por todas as classes, não apenas na França, mas em todos os países da Civilização Ocidental, incluindo os Estados Unidos. Charles de Ribbe, La société provençale à la fin du Moyen Age (Paris, 1897).


Original aqui.
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