domingo, 21 de julho de 2013

Conselhos sobre vocação (para meninos de 12 a 18 anos) - Parte 19

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

CONSELHOS SOBRE A VOCAÇÃO

Padre J. Guibert
(Superior do Seminário do Instituto Católico de Paris)
edição de 1937


1.      Conservar o coração.

92. — O coração precisa ainda de mais vigilância do que o espírito. Encontram-se certas vocações que experimentam poucos assaltos do lado do espírito; mas não há nenhuma que não sofra grandes provações do lado do coração. Conservar o coração significa conservar a pureza. Quanto mais cara for a santa virtude para vós, tanto mais zeloso sereis para preservar vosso coração de toda mancha.

Precisareis que alguém vos explique o que é para vós a virtude da pureza? Não é ela a condição mesma de vossa vocação? Se não quiserdes dedicá-la a Deus, se não estiverdes com a resolução de guardá-la intacta durante toda a vida, se não puderdes conter-vos, não entreis em religião, não façais voto de castidade perfeita: no mundo em que vivereis, vossos sentidos não serão acorrentados de modo tão rigoroso, o estado do matrimônio será remédio à concupiscência. Mas estai com vontade de deixar o mundo, custe o que custar querei pronunciar e observar os votos sagrados de religião sede então perfeitamente resolvido a guardar a mais estrita, a mais completa castidade de atos e de desejos.

Esta angélica pureza, a honra e o ornamento dos padres e dos religiosos, é uma pérola preciosa que levamos em um vaso de lodo. Com a menor facilidade ela toca o vaso e perde o brilho, razão pela qual não se conserva senão à custa dos cuidados mais vigilantes. Prometer a castidade por um voto e depois acreditar que esta virtude se conserva sozinha, é expôr-se a perdê-la; uma vez prometida, precisa ser guardada com a mais constante solicitude.

93. — Mas que fazer para conservar o coração ao abrigo de qualquer mancha? Abster-se, ao mesmo tempo, dos atos que o sujem e dos atos que o enfraqueçam.

É o pecado de impureza que suja o coração. Este desgraçado pecado pode consistir tanto em atos interiores como em atos exteriores. O hábito de pensar com gosto em más imaginações ou de tolerar desejos carnais, mata a alma do mesmo modo que o hábito de procurar criminosas satisfações no exterior.

Não acrediteis que sereis isento de tentações. As almas mais puras são tentadas: com muito maior razão, se já pecastes, haveis de ser violentamente batido pelas tempestades das baixas paixões. O que é preciso obter, mesmo ao preço dos maiores esforços, custem o que custarem, a primeira vitória a ganhar contra vós mesmos, não é de não experimentar a tentação, mas é de não sucumbir à tentação. — Para conseguir este resultado, revelai tudo a vosso confessor: dizei-lhe todos os casos duvidosos para que não fiqueis com a consciência ansiosa; dizei-lhe mesmo as tentações às quais não sucumbistes. Auxiliado por ele, amparado pela graça de Deus, fortificado por uma energia maior na vontade, chegareis ao ponto de não pecar mais. À medida que se aumentar o tempo de vossa fidelidade, crescerá também a facilidade da vitória. No começo, três meses passados sem pecado serão um princípio de virtude: em breve, um ano sem culpa vos dará a esperança da perseverança; depois de muitos anos de vida pura, podereis acreditar que o coração não será mais atacado.

94. — Tudo isto debaixo de uma condição importante: é que preservareis vosso coração de tudo quanto o enfraquece. Não há virtude, por mais forte e provada que seja, que possa resistir com os imprudentes. «Aquele que se expõe ao perigo, há de perecer.» Ora, enfraquecer o coração é arrojá-lo no perigo.

Que coisa enfraquece o coração? — Qualquer prazer sensual. A mortificação o fortalece e conserva; o prazer sensual o debilita e desarma.

Não falo aqui de todos os prazeres; porque o homem não pode viver neste mundo sem gozar de algum modo. Mas o religioso que consagrou o coração a Deus, não deve aceitar senão os gozos elevados e recusar todos os prazeres baixos. Notai que não entendo aqui os gozos vergonhosos que são já por si mesmos verdadeiros pecados: falo de gozos inofensivos em si mesmos, mas que criam um perigo real para um coração dedicado á pureza perfeita. Eis alguns exemplos.

Nada é mais necessário do que beber e comer.

As privações neste ponto não trazem muita vantagem para a virtude: porque poderiam tornar alguém incapaz de trabalhar sem garanti-los de tentação alguma. Mas um organismo alimentado com demasiada abundância e delicadeza torna-se depressa um escravo revoltado cujas paixões se reprimem com extrema dificuldade. Tomar apenas uma alimentação moderada, abster-se de qualquer licor e bebida alcoólica ou excitante, eis, não há dúvida, excelentes meios para conservar a virtude em segurança.

95. — Do mesmo modo, o sono é indispensável: a não ser que haja uma disposição particular, aprovada pelos Superiores, as vigílias prolongadas devem ser proibidas ao religioso. Mas igualmente o sono deve ser moderado: o levantar pronto de manhã, a luta contra qualquer sono durante o dia, a virilidade no porte, mesmo na vida privada, eis ainda excelentes meios para conservar a alma ativa e disposta para lutar contra a tentação.

96. — Os prazeres da vista contam entre os mais perigosos atrativos do mal: por estas janelas da alma, a tentação penetra com extrema rapidez. Quem quiser preservar seu coração, deve conservar vistas modestas, porque é sobretudo pelas vistas que o coração se cativa. Se tiverdes cuidado de vossa virtude, não deixareis as vistas demorar-se em quadros pouco decentes, em pessoas de sexo diferente: não procurareis na leitura de livros apaixonados, como os romances, um perigoso alimento para vossa imaginação.

97. — Enfim, a própria amizade, tão nobre em si mesma, tão elogiada pelo Espírito Santo na Sagrada Escritura e pelos maiores Doutores da Igreja, tem uma contrafação de que ninguém se pode preservar com bastante cautela. Tal contrafação tem igualmente o nome de amizade; afim de não ser confundida com a verdadeira e virtuosa amizade, recebe muitas vezes o nome de amizade particular. É apaixonada, inquieta e agitada, baseia-se nas feições exteriores da fisionomia ou no timbre da voz, procura as satisfações sensuais das conversas íntimas, dos olhares lânguidos, dos apertos de mão. É um flagelo para as almas que devasta e para as comunidades que divide e escandaliza. Nenhum gozo é mais pernicioso; se não der a morte, depõe na alma os germens mais mortíferos. Não vos admireis de experimentar os primeiros indícios de tão grande mal: é coisa demasiado humana para serdes totalmente isento dela. Mas renunciai sem hesitar a todas as relações que teriam para vós este caráter de sensualidade.

Graças a esta vigilância, vosso coração não ficará ressequido, mas apenas bem conservado. Podereis ter o coração na mão para extrair dele tesouros de dedicação; ao mesmo tempo tereis a mão no coração para que nada vo-lo arrebate.
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