domingo, 7 de julho de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - O Filho Pródigo (Primeira Parte)

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955

PARTE PRIMEIRA
A conversão da vida do pecado à vida da graça
(Vida Purgativa. — 1.ª semana)


O FILHO PRÓDIGO
(Motivos para se excitar à dor dos pecados)

1. A Parábola, segundo o Evangelho. — 2. Explicação da parábola. — 3. Aplicação da parábola. — 4. Um pródigo convertido em santo.

1. — “Um homem tinha dois filhos. E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte da herança que me corresponde. E o pai repartiu com eles a herança. E ao cabo de não muitos dias o filho mais moço, recolhendo todas as suas coisas, foi-se para uma terra longínqua, e ali malbaratou a sua herança vivendo licenciosamente. Quando havia gasto tudo, houve naquela terra uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. E se foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o enviou às suas pas­tagens para guardar porcos.

E ele desejava encher o ventre com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhas dava. Entrando, pois, em si, disse: A quantos jornaleiros do meu pai sobra pão! E eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, irei a meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de me chamar teu filho; recebe-me como um dos teus operários.

E levantou-se e veio a seu pai.

E, quando ainda estava longe, seu pai o viu, e comoveu-se de misericórdia, e, correndo para ele, lançou-se-lhe ao pescoço e beijou-o.

E disse-lhe o filho: Pai, pequei contra o céu e diante de ti. Já não sou digno de me chamar teu filho...

Mas o pai disse aos criados: Depressa! trazei a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe na mão um anel, e calçado nos pés, e trazei o novilho cevado e matai-o, e comamos e façamos festa, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.

E o filho mais velho estava no campo, e, quando, ao voltar, aproximou-se de casa, ou­viu o concerto e os coros. E chamou um dos criados e perguntou-lhe  o que  era aquilo.

E este lhe disse: É que teu irmão veio, e teu pai matou o novilho cevado, por tê-lo reavido são.

E o irmão aborreceu-se e não queria entrar.

Saiu então seu pai e pôs-se a rogá-lo. Mas ele replicou e disse a seu pai: Há tantos anos que aqui estou-te servindo, nunca faltei ao teu mandado; e nunca me deste um cabrito para merendar com meus amigos. Em compensação, quando veio este teu filho que esbanjou a tua herança com meretrizes, mataste o novilho cevado.

Mas o pai lhe disse: Filho, tu sempre estiveste comigo, e tudo o que é meu é teu; mas agora era preciso celebrar um banquete e alegrarmo-nos porque este teu irmão estava morto e viveu; estava perdido e foi achado. (Lc 15, 11-32).

2. — Esta parábola que vos contei, disse-a o bom Jesus para significar-nos a Sua grande misericórdia. O Pai de família é Deus, o filho pródigo é o pecador que foge da casa paterna, que abandona a graça divina e se vai para terras longínquas, ai! para terras onde a amargura e o tédio têm a sua morada. Ali o filho pródigo, aquele jovem que era feliz na casa de seu pai, está agora num bosque tenebroso, apascentando animais imundos. E ali, sozinho, abandonado, faminto, pensa na abundância de sua casa. À noite, quando dormem na herdade, o filho pródigo está deitado junto à pocilga, num canto. O ambiente é fétido. O filho pródigo não dorme: por fora, imundícies e grunhidos: por dentro, as outras imundícies e grunhidos da sua consciência não o deixam dormir. Ele pensa em sua casa; lembra-se de que, junto a seu pai amoroso, no recesso do lar paterno, se aquecia nas longas vi­gílias de inverno.

A estas horas, — diz ele — enquanto eu padeço neste desamparo, meu pai está no lar com meu irmão. Que tranquilidade ali se goza! Que bem-estar! Que alegria!

Um grunhido mais forte de um porco e uma picada da consciência fazem-no quei­xar-se amargamente, com um desses gemi­dos que não têm consolo. E ele torna a pen­sar e a sofrer, e entre os pesadelos passa a noite.

No dia seguinte, quando desponta no Oriente o bendito sol dos céus, derramando alegria, o filho pródigo sai da herdade derramando lágrimas. Chega ao carvalhal. Os porcos fartam-se de bolotas e rebolcam-se na lama. O filho pródigo inveja-os. Ao menos eles gozam! Ele sofre fome e procura saciar-se com bolotas, mas nem assim se sacia. Para mitigar a sua sede abrasadora, tem de beber da água lodosa em que os porcos se espojam. Como é digno de compaixão aquele desgraçado!

Assim se passam vários dias, até que, num deles, o moço diz assim: Meu pai é muito bom. Estou certo de que ele agora está pensando em mim; estou certo de que ele me perdoará o ter saído de casa, e me receberá, de braços abertos.

Levanta-se, nem sequer olha para seus companheiros os porcos, e, cheio de resolu­ção e de esperança, diz: Levantar-me-ei e irei para a casa de meu pai.

Sobe montes, desce ladeiras, cruza barrancos... há sarças pelos caminhos, ensanguentam-se-lhe os pés... Não importa: a esperança do perdão e o amor a seu pai impelem-no para adiante. Ele já vê sua casa, uma casinha branca cercada de árvores, abraçada por uma grande vinha. Mas quem é aquele velho venerando que vem ao seu encontro?

Filho! — ouve o pródigo dizer uma voz. Oh! é seu pai! É seu pai que vem, é seu pai que se adianta para lhe perdoar, porque um pai sempre perdoa.

No meio do caminho abraçam-se pai e filho. O filho quer prostrar-se em terra e beijar os pés ao autor de seus dias. O pai não consente.

Não, filho, —   diz-lhe ele. — Não no chão, mas em meus braços.

O pai chora de alegria; o filho, de arrependimento. O pai entra em casa louco de contentamento, manda que todos se alegrem com ele; manda matar um cevado e toda sorte de aves; há magno festim; retumba a casa com a festa...

O filho mais velho tem sua inveja. O pai lhe diz: Filho, tu sempre me foste fiel. Não vês que teu irmão se havia perdido e o achamos? havia morrido e ressuscitou? Anda, alegra-te.

O filho mais velho reconhece que seu pai tem razão, e esquece os seus rancores e alegra-se como todos, e levantam-se até o céu os brindes e a algazarra.

3. — Belo espetáculo, na verdade, este do perdão do pai ao filho. Sem dúvida o vosso coração estremece de compaixão ao ver o filho pródigo abandonado e tristíssimo entre os porcos, mas logo vos alegrais quando seu pai o abraça e lhe perdoa com perdão amplíssimo. Pois é isto o que Deus faz com o pecador arrependido.

Quando o homem peca, quando a criança peca gravemente, diz a Deus: “Não quero estar contigo, não quero estar em tua casa”. E, como o filho pródigo, lá se vai da casa paterna. Que ingratidão! E vai-se com os bens naturais que deve a Deus seu Pai: vai com os sentidos, com as forças corporais, com a saúde talvez, empregando tudo em ofender àquele mesmo que tudo isso lhe deu.

Para longínquas e estranhas terras vai-se o pecador, terras distantes de Deus, estranhas à felicidade verdadeira que ele busca em ânsias, terras onde mora a tristeza e o tédio. Naquelas terras do pecado, o pecador pródigo dissipa e perde os bens que Deus seu Pai lhe deu; perde tudo, os auxílios da graça, os sacramentos, a paz, a alegria, não raro a saúde, e, cheio de, angústia, esfarrapado, mendigando pelas portas das criaturas que lhe dêem uma migalha de felicidade, umas bolotas, comida de porcos, ai! nem isso encontra! Triste escravo do demônio que é o dono dos porcos, serve-o por um pedaço de pão duro fementido, amolecido, para ele poder tragá-lo, com suas lágrimas. Desgraçado pródigo! Infeliz pecador! Como o demônio te paga mal os teus serviços!

Talvez algum de vós já tenha sido esse filho pródigo. Deus lhe terá dado a Sua graça, e ele a terá perdido torpemente por um pecado de desonestidade, por uma conversa, por faltar voluntariamente a um preceito da Igreja. Perdida a graça, que é como jogar os bens recebidos do Pai celestial, ele se vai para a terra do diabo, e ali, sem rezar, guardando os porcos dos seus maus apetites, sente finalmente os estímulos da intranquilidade da má consciência. Alguma vez, na soledade da habitação, ouve uma voz interior que lhe diz: Por que deixaste a casa de teu Pai? Por que perdeste e dissipaste, os bens da graça e das virtudes? Por que não te portas bem? Que seria de ti, infeliz, se agora morresses?

Quando assim se vê premido de angústias e de temores, o pecador pensa na casa de Deus seu Pai, e diz: Por que o abandonei? Por um punhado de lentilhas, por uma sombra de deleite, para seguir meu capricho. Perdão, meu Deus, perdão, meu Pai. Levantar-me-ei e irei para a casa de meu Pai, que é minha, e que em má hora abandonei para seguir este péssimo caminho.

Então o pecador, o menino mau, a menina viciosa, faz um propósito íntimo e verdadeiro de aproximar-se da casa de seu Pai pela confissão sacramental: — Levantar-me-ei — diz e irei a Deus, meu Pai, por meio do confessor.

O Pai, que é Deus Nosso Senhor, lá da casa que o filho abandonou, olhava cada dia o caminho por onde ele tinha ido, a ver se ele voltava, e de longe viu-o vir. Então o Pai não vacila, não diz: “Esperarei que ele o mereça, far-me-ei rogar, quero que ele me peça cem vezes perdão antes de eu lho conceder”. Não. Assim que avista o filho, o pecador que volta, por maior pecador que ele tenha sido, o pai corre-lhe ao encontro, e, ele ainda não acabou de lhe pedir perdão, já Ele lho concedeu, abraçando-o e dando-lhe mil ósculos de paz.

Meus filhos, nesta cena terníssima considerai a misericórdia do bom Jesus. Com que carinhos Ele recebe o filho, em vez de açoitá-lo como ele merecia! Com que presentes o obsequia na mesa, na comunhão, dando-lhe, não já um terneiro e doces finíssimos, porém o seu próprio corpo! Como se esquece dos pecados de seu filho arrependido! Nenhuma censura, nenhuma queixa: só abraçá-lo e beijá-lo e dizer-lhe: “Meu filho!”. Oh, meu Jesus! que misericórdia tão nova é essa? Em que parte do mundo a encontrastes? Que homem a ensina ou a pratica? Ah, não! Na terra não se encontra tanta grandeza; do céu ela desceu, e tais excessos de perdão tem feito, que seria uma loucura insigne se não fosse um amor infinito. Sim, meus filhos, assim Deus perdoa, assim é a sua misericórdia... infinita, quer dizer, sem limite; infinita, quer dizer, sem se lembrar das maiores ofensas; infinita, quer dizer, sem excetuar ninguém; infinita, quer dizer, loucura de amor. Se o vosso coraçãozinho não estremeceu de amor considerando esta cena do filho pródigo, sem dúvida foi porque não meditastes a parábola; e se vossa alma ainda abrigava algum temor para não recorrer a Deus indo ao confessor, ao ouvirdes tais finezas e extremos da misericórdia divina, desde já recorrereis a ela, desde já vos lançareis nos braços de Jesus Cristo, que para isso os tem abertos na cruz.

Se tendes alguma coisa que vos aflija a consciência, recorrei ao confessor e pedi a Jesus que vos dê uma centelhazinha do seu amor, e de dor por haverdes ofendido a quem tanto vos ama, prometendo-lhe para o futuro emenda da vida antiga, e começando desde agora a viver uma vida nova fundada em Cristo.
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