sábado, 16 de fevereiro de 2013

II. Os defeitos que nascem do orgulho

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.

A Vida Espiritual explicada e comentada 
Adolph Tanquerey




            Os principais são a presunção, a ambição e a vanglória.

            827. 1.º- A presunção é o desejo e a esperança desordenada de querer fazer coisas além das próprias forças. Nasce de ter o homem opinião demasiado subida de si mesmo, das suas faculdades naturais da sua ciência, forças, virtudes.

            a) Sob o aspecto intelectual, crê-se o presunçoso capaz de discutir e resolver os mais intrincados problemas, as questões mais árduas ou ao menos, de empreender estudos em desproporção com os seus talentos. - Persuade-se facilmente que tem muita discrição e sabedoria, e, em vez de saber duvidar, decide com entono as questões mais controversas.
            b) Sob o aspecto moral, imagina que tem bastante luz para se guiar e que não há grande utilidade em consultar um diretor. - Persuade-se que, apesar das faltas passadas, não tem que temer recaídas, e lança-se imprudentemente nas ocasiões de pecado, em que sucumbe; daí desânimos e despeitos que são muitas vezes causa de novas quedas.
            c) Sob o aspecto espiritual, é mais que medíocre o seu gosto das virtudes ocultas e crucificantes, prefere as virtudes brilhantes; e, em vez de construir sobre o fundamento sólido da humildade, afaga sonhos de grandeza de alma, força de caráter, magnanimidade, zelo apostólico, triunfos imaginários com que a fantasia doira o futuro. Logo, porém, às primeiras tentações graves se percebe quão fraca e vacilante é ainda a vontade. Às vezes chegam-se até a menosprezar as orações comuns e as que se acoimam de pequenas práticas de piedade; tem aspirações talvez a graças extraordinárias, quem ainda está nos princípios da vida espiritual.

            828. 2.° Esta presunção, junta ao orgulho, gera a ambição, isto é, o amor desordenado das honras, das dignidades, da autoridade sobre os outros. Como presume demasiado das próprias forças e se julga superior aos demais, quer o ambicioso dominá-los, governá-los, impor-lhes as suas próprias idéias.
            A desordem da ambição pode-se manifestar de três maneiras, diz Santo Tomás[1]:

            1) buscando as honras que se não merecem e ultrapassam os nossos meios;
            2) buscando-as para si, para a própria glória, e não para a glória de Deus;
            3) parando no gozo das honras por si mesmas, sem as fazer servir ao bem dos outros, em contrário da ordem estabelecida por Deus, que exige que os superiores trabalhem pelo bem dos inferiores.
            Esta ambição estende-se a todos os campos:

       1) ao campo político, em que o ambicioso aspira a governar os outros, e muitas vezes à custa de quantas baixezas, de quantos compromissos, de quantas covardias que cometem, para obterem os votos dos eleitores;
          2) ao campo intelectual, procurando com obstinação impôr aos outros as próprias idéias, até mesmo nas questões livremente controvertidas;
         3) à vida civil, buscando com avidez os primeiros lugares, as funções de mais brilho, as homenagens da multidão;
        4) e até mesmo a vida eclesiástica; pois, como diz Bossuet, “quantas precauções se houveram de tomar, para impedir nas eleições, até mesmo eclesiásticas e religiosas, a ambição, as intrigas, os enredos, as solicitações secretas, as promessas e os manejos mais criminosos, os pactos simoníacos e os outros desmandos tão comuns nesta matéria, e Deus sabe se com tudo isso se terá conseguido pouco mais que encobrir ou paliar esses vícios, longe de se haverem inteiramente desarraigado”. E, como nota São Gregório, não passam assim as coisas, até mesmo entre os membros do clero, que querem ser chamados doutores e procuram avidamente os primeiros lugares e os cumprimentos? É, pois, mais comum do que se poderia julgar à primeira vista este defeito, que se relaciona também com a vaidade.

            829. 3.° A vaidade é o amor desordenado da estima dos outros.
            Distingue-se do orgulho, que se compraz na sua própria excelência. Mas geralmente a vaidade deriva do orgulho: quem se estima a si mesmo de maneira excessiva, deseja naturalmente ser estimado dos outros.

            830. A) Malícia da vaidade. Há um desejo de ser estimado que não é desordem: desejar que as nossas qualidades, naturais ou sobrenaturais, sejam reconhecidas, para Deus ser por elas glorificado e a nossa influência para o bem ser por esse modo aumentada, em si não é pecado. A ordem pede, efetivamente, que o bem seja estimado, contando que se reconheça que Deus é o autor de todo o bem e que só Ele deve Ser por isso louvado e engrandecido. Quando muito, pode-se dizer que é arriscado demorar o pensamento em desejos desses, porque se corre perigo
de desejar a estima dos outros para fins egoístas.
            A desordem consiste, pois, em querer ser estimado por si mesmo sem referir essa honra a Deus, que em nós pôs tudo quanto há de bom: ou em querer ser estimado por coisas vãs que não merecem louvor; ou enfim em procurar a estima daqueles, cujo critério não tem valor, dos mundanos, por exemplo, que não apreciam senão as coisas vãs.
            Ninguém descreveu melhor este defeito que São Francisco de Sales: “Chamamos vã a glória que nos atribuímos, ou por coisa que não existe em nós, ou por coisa que está em nós, mas não é nossa, ou por coisa que está em nós e é nossa, mas que não merece que dela nos gloriemos. A nobreza da raça, o favor dos grandes, a honra popular, são coisas que não estão em nós, senão em nossos predecessores ou na estima de outrem. Há quem todo se envaideça e pavoneie, por se ver em cima dum bom cavalo, por levar um penacho no chapéu, por estar vestido suntuosamente, mas quem não vê esta loucura? É que, se há glória nessas coisas, essa glória é para o cavalo, para a ave ou para o alfaiate... Outros miram-se e remiram-se, por terem o bigode frisado, a barba bem penteada, os cabelos anelados, mãos muito finas, por saberem dançar, tocar, cantar; mas não será de ânimo vil, querer encarecer o seu valor e acrescentar a reputação com coisas tão frívolas e ridículas? Outros, por um pouco de ciência, querem ser honrados e respeitados do mundo, como se cada qual tivesse obrigação de ir à escola a casa deles e tê-los por mestres; é por isso que os chamam pedantes. Outros narcisam-se extasiados na própria formosura e crêem que toda a gente os galanteia. Tudo isto é extremamente vão, insensato e impertinente, e a glória que se toma de tão fracos motivos chama-se vã, louca e frívola”.

            831. B) Defeitos que derivam da vaidade. A vaidade produz vários defeitos, que são como a sua manifestação exterior; em particular a jactância, a ostentação e a hipocrisia.
            I) A jactância é o hábito de falar de si ou do que pode reverter em seu favor, no intuito de se fazer estimar. Há alguns que falam de si mesmos, de sua família, de seus triunfos com uma candura que faz sorrir aos que escuta; outros têm uma habilidade rara para fazerem deslizar a conversa para um assunto em que possam brilhar; outros ainda falam timidamente dos seus defeitos com a esperança secreta de que os desculparão, pondo em relevo as suas boas qualidades.
            2) A ostentação consiste em atrair sobre si a atenção por certas maneiras de proceder, pelo fausto que alardeia, pelas singularidades que dão o que falar.
            3) A hipocrisia toma os exteriores ou as aparências da virtude, ocultando sob essa máscara vícios secretos muito reais.



[1] Sum. Theol., II-II, q. 131 a.1.
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