terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Igreja e seus mandamentos (Segundo Mandamento)

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.

A Igreja e seus mandamentos
por
Monsenhor Henrique Magalhães
Editora Vozes, 1946

SEGUNDO MANDAMENTO
29 de Novembro de 1940

            O 2.° Mandamento da Igreja é: Confessar-se ao menos uma vez cada ano. Examinemo-lo resumidamente, como de costume.
            O cânon 906, do Código de Direito Canônico, prescreve: "Todo o fiel de ambos os sexos, tendo chegado à idade de discrição, isto é, ao uso da razão, é obrigado a confessar fielmente os seus pecados, ao menos uma vez no ano". E o cânon seguinte, 907, diz: "Não satisfaz ao preceito da confissão dos pecados, quem faz uma confissão sacrílega ou voluntariamente nula".
            Tratando especialmente do sacramento da Penitência ou Confissão, terei ocasião de provar a sua instituição divina. Agora basta lembrar o que se lê no capítulo 20.°, versículos 22 e 23 do Evangelho de São João. Jesus, depois de ressuscitado, diz aos Seus apóstolos: "Recebei o Espírito Santo; aqueles a quem perdoardes os pecados, tais pecados lhes serão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, tais pecados lhes serão retidos".
            Por estas palavras se vê claramente não só a instituição divina do Sacramento, mas, e com a mesma clareza, a sua instituição em forma de tribunal. Se há ocasiões em que os pecados podem ser perdoados e ocasiões em que o não podem ser, é indispensável a declaração franca e sincera das próprias faltas, a alguém que decida se elas devem ou não ser perdoadas. É, portanto, evidente a insensatez da frase: eu me confesso diretamente a Deus...
            O Concílio de Trento anatematiza quem disser que a Penitência não é um Sacramento instituído por Jesus Cristo, para perdoar os pecados cometidos depois do Batismo. E o Concílio Florentino, no Decreto aos armênios, ensina: O quarto Sacramento é a Penitência.
            Quem admite a Bíblia Sagrada como livro inspirado, e base da fé, precisa fazer uma dificílima ginástica intelectual para negar a existência da Confissão!
            A prática universal deste Sacramento é outra prova da sua instituição divina. Combatido, insultado, caluniado... difícil, ordinariamente falando, porque exige um grande ato de humildade... mesmo assim e apesar de tudo e de todos os seus inimigos, o quarto Sacramento é praticado em todo o mundo universo, por milhões de crentes!
            Tenho diante dos olhos um recorte do famoso diário católico francês "La Croix", já bem antigo - de 15 de Outubro de 1936. A propósito da catástrofe do navio explorador "Pourquoi-Pas?", em que pereceu o grande sábio dr. Charcot, aquele jornal recebeu a seguinte comunicação: Na véspera de sua partida para o cruzeiro, da qual não deveria mais voltar, Charcot entra na Igreja de Saint-Servan-sur-Mer, e encontra um dos coadjutores que lhe diz afetuosamente: "Então, meu comandante, tudo pronto; partis amanhã? Tudo pronto, não, - respondeu o sábio. - Tudo estará pronto, depois que me ouvirdes em confissão e me derdes a Santa Comunhão." Instantes depois, o dr. Charcot se ajoelhava no confessionário.
            Em toda parte, cidades, vilas e aldeias, gente ilustrada, e gente rude, pobres e ricos, ajoelham-se aos pés do sacerdote católico e confessam os seus pecados. Eis o fato incontestável, pois foi de ontem, é de hoje e será de amanhã. A prática da confissão era comum nos primitivos tempos do cristianismo, não havendo necessidade de lembrar aos fiéis a sua obrigação a respeito de um ato que é um dos mais belos traços da misericórdia de Deus, para com os pobres pecadores. Época de fervor, animada pelos ecos suavíssimos da pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelas admiráveis lições dos apóstolos, todos se esmerava em praticar, de modo mais perfeito, a doutrina cristã.
            Vieram depois tempos piores. O fervor decresceu e arrefeceu simultaneamente a prática da religião. Havia fiéis que passavam anos e anos sem cumprir o dever indeclinável de fazer a confissão de seus pecados.
            A vista de tão deplorável decadência, a Igreja, guarda do depósito sagrado da verdadeira Fé, no ano de 1215, reunido o IV Concílio de Latrão, decretou: "Todo fiel, chegado ao uso da razão, tem obrigação de confessar todos os seus pecados, secretamente, ao próprio sacerdote, ao menos uma vez no ano". - O texto desse cânon, o 22.°, diz: omnia "solus" sua peccata confiteatur. O Concílio estabelecia severa pena para os relapsos: Durante a vida, proibição de entrar na Igreja: depois da morte, privação da sepultura eclesiástica. Este rigor foi posteriormente mitigado. E os termos do Direito Canônico em vigor são os que já vos citei há pouco.
            Não há tempo determinado para o cumprimento do preceito da confissão, de sorte que, à letra, contanto que esteja dentro do período de um ano, está cumprida a obrigação. Na praxe, porém, a confissão anual é feita no período marcado para a Comunhão Pascal. Assim o católico cumpre simultaneamente os dois mandamentos, confessando-se e recebendo a sagrada Comunhão. Coisa aliás muito razoável, pois neste tempo se realizam as grandes comemorações da Redenção da Humanidade; e foi derramando Seu precioso sangue por nosso amor, que Jesus Cristo nos granjeou o perdão dos pecados. E o mérito desse Sangue Redentor nos é aplicado pela Sacramento da Penitência. 
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