domingo, 10 de fevereiro de 2013

3.ª Coluna – Oração em família

(As colunas de tua casa pelo Vigário José Sommer, 1938)


Em todas as famílias era um hábito respeitado. Onde é que praticam ainda hoje?
A forte coluna está fendida e frequentemente já derrubada.
Que espetáculo era para o céu e a terra ver outrora a mãe, de manhã muito cedo, juntar para a oração as mãos do filhinho menor!
Pintores e escultores daí hauriam sempre novos motivos para sua arte. E como era tocante quando, através das janelas fechadas das casas de campo, pelas estradas da aldeia, resoavam as vozes claras dos pequeninos, unidas em coro harmonioso às vozes de tenor e baixo dos adultos e velhos, na oração da noite.
Uma boa parte da vida católica do povo e da família perdeu-se juntamente com a oração em comum. Desprezaram-na levianamente, como aos valiosos cofres e móveis do tempo antigo.
Peças cheias de poesia e valor!
Quem sente mais esta perda do que o cura de almas e o sacerdote?
Quando dantes o padre se chegava aos pequeninos, que consolo isso lhe dava! Como cálices desabrochados de flores, descerrados para o bem e para as coisas divinas, iam radiantes ao seu encontro! Eram boa terra da parábola do Evangelho, que dá fruto cento por um.
Que sucede hoje frequentemente?
- A palavra do sacerdote já não acha muitas vezes lugar nos corações infantis, ressoa sem eco, como se fôra proferida no vácuo. A culpa é do lar paterno. Já não é mais a doce paragem da fé. Invadiu-o espírito do mundo, que não pensa senão em causas fúteis e desatinadas, quando não pecaminosas.
Que importa a alma? - Por isso pai e mãe já não rezam mais em comum com os filhos a oração da manhã e a da noite. E, entretanto é tão imensamente importante para a vida e o caráter das crianças! Quem quer o bem dos filhos, deve voltar ao hábito antigo, ao velho costume cristão: a oração em comum aos pés da cruz, principalmente de manhã e à noite.
É a moldura que orla o quadro da tarefa diária.
Se a moldura é bonita e boa, realça também o quadro, que só assim adquire o devido valor e impressiona sempre melhor.
A esse respeito deve-se notar uma coisa: para uma boa oração da manhã é preciso antes de tudo a boa intenção. O principal não são as palavras. Não é necessária ser logo uma oração de 13 ou 40 horas.
Em minha opinião, pode-se dizer enérgica e sumariamente, como aquele velho granadeiro diante do leito: - "Senhor, aqui estou!" - contanto que essa prece parta do coração e seja efetivamente uma boa intenção. O pensamento: "Tudo para glória de Deus", a intenção de servir a Deus com o trabalho diário, é decisivo. Dá ao trabalho de cada dia, com a moldura acima, ao mesmo tempo um áureo brilho e valor. Nos tempos antigos se falava de um maravilhoso bastão, que transformava em puro ouro tudo em que tocava. Histórias da carochinha!
- Entretanto aqui se torna verdade, fazei a boa intenção de manhã e tudo o que fizerdes, comer e beber, o repouso e o trabalho, tudo se tornará uma oração. Tudo se faz então a serviço de Deus. Adquire direito à recompensa eterna, contanto somente que seja realizado em estado de graça.
À noite seja o cerne das orações diante da imagem do Crucificado uma verdadeira contrição por amor de Deus e o bom propósito. Isto fecha a moldura e é ao mesmo tempo o melhor meio de apagar todas as faltas e manchas do quadro e da moldura. Se de fato a morte nós surpreendesse realmente durante a noite, não careceríamos temê-la, pois nos encontraria em estado de graça santificante. A perfeita contrição, o pensamento "Sinto meu querido Salvador, ter-Vos tornado duro o presépio e pesada cruz.- Por preço algum mais um novo pecado grave!" este pensamento na oração da noite nos restitui a paz espiritual perdida e põe-nos nas mãos uma chave de ouro do céu. - Estaríamos salvos para a eternidade, se morrêssemos repentinamente.
Demais justamente a oração da noite em comum tem um encanto especial. O dia passou. Como o jovem viajante fatigado, que chegando à meta, atira por terra o fardel, contente de ter achado um lugarzinho de repouso, assim pais e filhos põem seus cuidados e fadigas aos pés do Crucificado, Ele, que por amor de nós carregou o peso da cruz, queria livrar-nos dessa penosa carga e animou-nos a entregar-lhe tudo:
"Lança ao Senhor todos os teus cuidados!" Ele quer carregá-los. À sombra da cruz é tão bom descansar, sobretudo quando o dia está quente ou tempestuoso.
Mas também não se deve omitir a oração antes e depois da refeição.
Em parte alguma se manifesta mais a nobreza da alma espiritual, a realeza do homem sobre a matéria, sua primazia sobre as demais criaturas, que na oração antes e depois das refeições.
Lá está um pobre britador sentado no caminho, sobre um monte de pedras, para o almoço. O filho traz-lhe ao posto de trabalho a singela refeição, numa marmita, antes de comer, o operário tira o gorro, faz em silêncio o sinal da santa cruz e reza como no lar, a oração para antes da refeição.
Não é como se nesse momento sagrado um diadema invisível cingisse a fronte do homem, como se toda a criatura irracional escutasse respeitosa as palavras que ele dirige por elas ao Altíssimo, em agradecimento e súplica?
Acho que o pobre britador em prece revela mais realeza e soberania que o rico em seu palácio, de coroa e cetro, mas - que não ora. - Servir a Deus é reinar! Aqui esta palavra se torna pura verdade, pois a grandeza moral e a verdadeira natureza predominante do espírito sobre tudo quanto é corporal se manifestam na oração antes e depois das refeições. - É um novo laço também que aí se ata entre pais e filhos. Do Pai celeste passa o olhar grato da criança para aqueles que aqui na terra lhe foram intermediários de todo o bem. Vê as mãos calosas do pai, que se juntam cheias de gratidão ao céu e sente o seu próprio dever de gratidão para com o pai e mãe.
Achei um homem na vida, que não queria rezar, nem deixava os filhos rezarem; deviam e queriam ser-lhes apenas pensionistas. De gratidão nenhum vestígio.
“Aqui com estes braços”, dizia o homem, “tenho de ganhar meu pão, Deus nada nos dá”. Eis que um dia, porém, lhe quebraram o braço direito, quando voltava à noite do trabalho, quando visitei mais tarde, ele reconhecera a sua culpa. Contrito confessou-me: “Deus é quem nos dá tudo! Agora reconheço que depende da benção divina!” 
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