sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - Exame de Conciência

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955

PARTE PRIMEIRA
A conversão da vida do pecado à vida da graça
(Vida Purgativa. — 1.ª semana)


O EXAME DE CONSCIÊNCIA

1. O que entendemos aqui por exame de consciência. — 2. Necessidade de examinar amiúde a consciência. — 3. O exame de consciência complemento da oração mental. — 4. Modo de fazê-lo. — 5. Exame particular. — 6. Resumo da doutrina do exame e da meditação. — 7. Ligação dos exercícios da primeira semana com os seguintes.

1. — Ao tratar da confissão, já vos falei do exame de consciência; mas agora não trato desse exame necessário para a confissão, senão de um exame de consciência de todos os dias, para se corrigir dos defeitos ordinários, sobretudo do defeito dominante, e neste caso ele se chama exame particular.

Este exame de todos os dias costuma ser de pecados ou defeitos veniais, porquanto, se fosse de mortais, seria necessária quanto antes a confissão sacramental. Claro está que tanto o exame quotidiano como o que precede a confissão são das nossas faltas, e, neste sentido, são iguais, diferenciando-se tão somente em ter o quotidiano por fim imediato a correção das faltas, e o outro, por fim imediato, fazer uma boa confissão, e por fim mediato também a correção das faltas.

Luís é um pequeno muito estudioso que cursa o primeiro ano ginasial. Tem um programa onde estão as perguntas da lição de cada dia, e que lhe serve para examinar-se a si mesmo antes de dar a lição diária. Graças a esse programa ele aprende muito bem a matéria. Chega ao fim do curso e, com esse mesmo programa, examina-se a si mesmo sobre todas as lições, depois apresenta-se à banca examinadora, e o presidente, que é o juiz do exame, dá-lhe uma distinção bem merecida.

Assim sucede com o menino que pratica o    exame todos os dias. Mediante este, como Luís com o seu programa, ele sabe se vai bem ou mal na virtude, e vai-se corrigindo dos seus defeitos. Chega o dia da confissão, e os mesmos defeitos que notou cada dia ele os submete ao tribunal da penitência, como o outro se submetia à banca examinadora, e o confessor, que forma o tribunal como re­presentante de Jesus Cristo, absolve-o, como o outro dá a Luís a distinção.

2. — Como vos suponho com grandes desejos de vos corrigirdes, depois de haverdes meditado estes dias nas verdades que expliquei, de ser preciso a todo custo lutar contra os pecados e defeitos, não há meio mais seguro para isso do que o exame quotidiano. Este exame refreia a vontade acostumada a maus costumes, porque não há coisa que retraia de obrar mal como o ter que dar conta diária destas misérias.

Joãozinho é muito guloso: quando vê uma compoteira de doce, as mãos já lhe vão atrás dela, para meter nela ao menos o dedo; mas pensa em que sua mamãe lhe há de pedir conta, e então não se atreve, e suspira e se contenta com delamber-se.

Quando um menino tem vontade de não cair num defeito que comete a cada momento, se faz exame quotidiano, o pensar que lhe hão de pedir contas dessa queda, como Joãozinho pensava na conta que lhe haviam de pedir, sem dúvida o ajudará muito a vencer-se.

Nos jardins bem cuidados costumam crescer entre as flores cardos e ervas más. Que faz o jardineiro? Vai extirpando-as e arrancando-as cada dia com o seu sacho. Mas para extirpá-las, olha com cuidado onde elas se arraigam, para não suceder que, distribuindo sachadas a torto e a direito, arranque cravinas, nardos e violetas, em vez de cardos, abrolhos e grama que sugam a substância dessas florinhas.
Esta inspeção do jardineiro é o exame quotidiano, e o desarraigar plantas más é a correção dos defeitos, graças à inspeção diá­ria de um bom exame.

3. — O exame de consciência quotidiano é complemento da oração mental. Já vos disse que o fim da oração mental são os propósitos. Mas acontece que, ainda quando saísseis da oração com fervores de santidade, com a dissipação que trazem consigo os estudos, as aulas, a rua, depressa se evaporam aqueles espíritos, e a má raiz da nossa natureza, sempre inclinada ao mal, quer fazer das suas. Claro está que, para perseverar nos bons propósitos, serve o exercitar-se na presença de Deus; mas, se por desgraça se cai, faz falta o exame: a custo se pode conseguir aquilo que se desconhece. Já vedes como o exame é complemento da oração mental.

4. — Descendo à prática deste exame, pode-se fazê-lo duas vezes ao dia: ao meio-dia e à noite. Com quatro minutos cada vez, tendes o bastante. Se não podeis fazê-lo duas vezes ao dia, por vos parecer carga pesada, suprimi o da noite.

Antes de comerdes, quando ouvirdes o barulho dos pratos, a arrumação das cadeiras e da mesa, retirai-vos um pouquinho a um canto. Se mamãe vos perguntar: “Aonde vais?”, respondei-lhe: “Vou fazer o meu exame”, e ela sorrirá, e talvez interiormente vos acompanhe, pois também tem a sua consciência.

Bem: eis que já vos estais examinando. Este exame tem cinco atos. Também a mão tem cinco dedos. Para vos lembrardes daqueles, ponde-a aberta diante dos olhos.

Primeiro ato é o primeiro dedo da mão, o polegar, que é o mais gordo. Fareis um ato de amor de Deus pelos benefícios recebidos, ato grande, gordo como o dedo polegar.

Segundo ato, o dedo indicador. Para que serve o indicador? Para indicar, para mostrar uma coisa. Assim o indicador vos diz: “Olha os pecados que tens”. Direis pois: “Meu Deus, indicai-me o que fiz este dia ou esta manhã”.

Terceiro ato, dedo médio, ápice da mão. A ele se dirigem os outros dedos, como por degraus: ele é o cume, o fim da mão. O fim do exame qual é? Examinar-se. O terceiro ato será, pois, examinar-se por muito pouco tempo.

Quarto ato, dedo anular ou dedo cordial. É o dedo do coração. Terei dor de coração pelas minhas misérias, e, se não cometi nenhuma, darei por isso a Deus as graças mais cordiais.

Quinto ato, o dedo mínimo. Farei propósito a respeito das coisas mais miúdas, por exemplo: se me distraio dos meus estudos e fico a brincar de cavalinhos quando passo por tal rua, farei propósito de não passar por ela.

Isto quanto ao ato de fazer o exame. Mas advirto-vos que muito pouco lograreis com o exame se vos não esmerardes em tomar-vos conta durante o dia, sem que ninguém o entenda, das faltas de que vos examinais.

Explicar-me-ei.

Laura é uma menina irascível em demasia, e propôs corrigir-se deste defeito, que tanto faz sofrer sua Mamãe do céu, a Virgem Maria. Ela faz um exame das vezes em que responde com enfado, e das vezes em que interiormente e com vontade se domina; mas nada adianta. Consulta o seu diretor, e este dá um remédio muito bom: “Cada vez que voluntariamente te enfadares, entra dentro de ti, põe a mão no coração dissimuladamente, e dize: “Tende piedade de mim, meu Deus. Esta hora que segue não me enfadarei”. Laura torna a cair, porém menos vezes. Ao examinar-se ao meio-dia, torna a propor o mesmo; ajuda-se na execução do propósito com o conselho do diretor. Pouco a pouco tem conseguido extirpar do seu coração aquela erva má que afogava em germe as outras virtudes. Fazei vós outras o que esta menina faz, e o vosso exame quotidiano surtirá efeitos maravilhosos.

5. — Isto que vos hei explicado do exame refere-se tanto a todos os defeitos que se cometem cada dia, como aos defeitos que se cometem contra tal virtude particular. Ora, quando alguém se examina previamente de tal defeito particular, por exemplo de não mentir, o exame se chamará particular.

Falando dos propósitos da oração, eu vos disse não deverem eles ser muito gerais, dizendo-se por exemplo: “Não vou mais cometer nenhuma falta; vou ser bem santo”, porque destes propósitos o diabo se ri; mas deveis propor uma virtude só, e ainda por partes. Assim conseguireis corrigir-vos pouco a pouco de todos os vossos defeitos. O Evangelho traz a este propósito uma parábola muito significativa. Diz que um pai mandou o filho trabalhar no campo. Mas o filho encontrou o campo tão inculto, que se assustou de tamanho trabalho e se deitou a dormir em vez de trabalhar. Disse-lhe o pai: “Não deves fazer assim, meu filho, porém trabalhar o campo pouco a pouco; cada dia desbrava um pedacinho, e faze-o assim todos os dias”. O filho seguiu o conselho e, dentro em pouco, o campo estava limpo de ervas más.

Vós haveis de fazer como o jovem da pará­bola. O campo inculto é a vossa alma, cheia de ervas más, de misérias. O Pai é Deus, que vos manda limpeis das ervas más o campo de vossa alma. Mas são tantas! direis, e direis a verdade, porque talvez sejais embusteiros, iracundos, gulosos, desobedientes e outra porção de misérias que assemelham vossa alma a um campo cheio de abrolhos e espinhos e sarças e cambroeiras, um verdadeiro matagal. Já vos vejo de sacho em mão, dispostos a extirpar tanta peste, mas vos assusta a tarefa. Quanto trabalho! E vos sentis tentados a jogar fora o sacho e a vos deitardes para dormir à sesta. Pois não, senhor; é preciso resolver-vos, e, com bons desejos e com a graça de Deus que vos anima e vos dá forças, empreenderdes a tarefa, pois o leão não é tão feroz como o pintam, nem aquele trabalho impossível, tanto mais tendo tão soberana ajuda de custa. Começai a trabalhar só um pedacinho... E já estamos em dúvida sobre qual há de ser esse pedacinho, ou sobre o que é que ides extirpar em primeiro lugar de vossa alma.

Aqui convém que com seriedade vos ponhais a considerar qual o vício que vos domina, para fazerdes o exame particular.

Talvez vos queixeis de que vos fatiga tan­to apelo que eu vos faço para considerar, refletir, examinar... Compreendo em parte a vossa queixa, pois não me escapa que a vossa vida olha ao interior, parece transbordar da taça e derramar-se espumosa e fervilhante... Venham exemplos, contos, comparações, tão em conformidade com esse natural vosso... Sim, compreendo-o, mas só em parte; pois bem vos sabeis concentrar para tramar algum malfeito de execução difícil, e sabeis calcular e pensar e dispor tão bem as coisas, que estas às vezes deixam confusas as pessoas grandes. Pois, se às vezes meditais isso para vosso mal, refleti sobre vós mesmos para vosso bem. Com o que, vamos ao defeito que vos convém corrigir pelo vosso exame particular.

Assim como todos nós temos por fora a nossa fisionomia particular, assim também, e ainda mais, a temos por dentro. Uns têm nariz de papagaio, outros arrebitado; uns o têm pequenino, a modo de verruga, outros, superlativo. O mesmo digamos dos olhos, orelhas e demais aditivos do rosto. Assim também, há quem seja iracundo e brigão, ou preguiçoso, ou porco, ou, se mulher, vaidosa e ciumenta. Dos vossos defeitos, qual é aquele que, se não o tivésseis, tirar os outros seria coisa tola, de pouca monta? Pois este defeito, que é o principal que tendes, e que é como causa de todos os outros, este é que haveis de extirpar pelo exame particular.

Algumas vezes tereis ouvido vossa mamãe dizer:

— Sim, se minha filha não fosse tão desobediente, seria uma pérola.

Este será o defeito de que vos devereis corrigir pelo exame particular, a desobediência. Outra mamãe dirá:
— Minha filha, esses teus ciúmes hão de me matar.

Remédio ao lado: corrigir os ciúmes e a inveja pelo exame particular.

Ordinariamente, as crianças, apesar destas indústrias para se conhecerem a si mesmas, costumam equivocar-se bastante. O melhor será consultar o diretor espiritual, e ele resolverá as vossas dificuldades, e vos dirá de que defeito deveis fazer o exame particular, e de que maneira.

6. — Agora, fazendo um resumo da doutrina exposta nesta explicação e da oração mental, dir-vos-ei que estes dois meios, a oração e o exame, são excelentíssimos para tirar os pecados e os defeitos de cada dia. Tal é o fim principal da primeira semana, diremos, dos primeiros dias de Exercícios. Por isto coloco-os depois da confissão geral, que é pôr-se em caminho para se corrigir.

Com a meditação da manhã, inflamar-se-á o vosso coração para vos corrigirdes e santificardes; mas, como a princípio as quedas serão indubitáveis e frequentes, virá o sacho do exame particular, tirando defeito por defeito, vício por vício. Eventualmente, este exame servirá de preparação remota para a oração seguinte, trazendo-vos fervorosos. E estais vendo como se mancomunam e se ajudam maravilhosamente estes dois meios para a vossa correção. Porquanto, meus fi­lhos, as práticas da vida ascética, que é como se disséramos correção de vícios e aquisição de virtudes, são de tal natureza, que uma delas bem feita acarreta as outras, assim como, colhendo uma flor das muitas que formam uma grinalda, arrastais com a flor a grinalda inteira.

7. — Terminamos a primeira etapa destes Exercícios deixando-vos bem persuadidos de que o pecado é o único impedimento que pode privar-vos de ver a Deus, vosso fim último; e de que o pecado é um mal horrível o único mal verdadeiro.

Já limpa a vossa consciência pela confissão geral, resolvidos a jamais cometer pecado grave, e a tirar os leves pelo exame quotidiano, e a empreender nova vida de oração, vamos agora entrar na imitação de Cristo, praticando as virtudes que Ele praticou, trilhando o caminho que Ele quer que trilhemos.

Isto iremos meditando nas explicações que seguem. Das anteriores, e sobretudo da de hoje, só quero que tireis o firme propósito de corrigir os vossos defeitos, que é para que se destina o exame particular.
Pedi à Virgem que vos ilumine e vos dê grandes ânimos deste modo para empreenderdes o caminho da vossa santificação.

Para consegui-lo, rezai-lhe três Ave-Marias.
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