quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - A Oração (Parte I)

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955

PARTE PRIMEIRA
A conversão da vida do pecado à vida da graça
(Vida Purgativa. — 1.ª semana)


A ORAÇÃO
1. A oração em geral. — 2. Sua necessidade, condições para a sua eficácia. — 3. A oração vocal. — 4. A oração mental ou meditação. — 5. Método clássico de oração mental. — 6. Outros métodos de oração mental.

1. — Era uma vez um soldado que se chamava Jorge. Ninguém havia ensinado religião ao pobrezinho, mas ele era bom apesar de tudo, e, seguindo as inspirações da sua consciência, que nunca faltam, rezava à sua maneira. Chamava a Deus “Senhor” e tratava-o de “Vossenhoria”, como ao coronel. Antes de se deitar, perfilava-se militarmente, olhava para o céu e dizia:

Senhor, aqui está Jorge; Senhor, lembra-te de Jorge. Boa noite, Senhor. — E deitava-se, e dormia como um anjo.

Vós outros direis:- “Como era tolo esse soldado! Nem sequer sabia o Padre-Nosso, que os meninos mais pequenos da escola sabem!” Mas asseguro-vos que ele não era tão tolo como parecia. Não sabia o Padre-Nosso, porque ninguém lho havia ensinado; mas sabia rezar, porque o que ele dizia dizia-o de coração, com simplicidade de criança, e esperando ser favorecido por Deus, que são as condições de uma boa oração.

Por aqui vereis que coisa fácil é orar, e que néscias desculpas invocam os que acham difícil a oração.

Que será, pois, a oração? É a comunicação com Deus, seja falando-lhe com palavras, o que se chama oração vocal ou reza, seja falando-lhe interiormente, o que se chama oração mental ou meditação. E isto é difícil? Vamos a ver: se eu agora vos dissesse que falásseis com Deus dizendo-Lhe: “Meu Deus, tende piedade de mim”; ou que dissésseis: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”; ou que invocásseis a Virgem Maria ou São José; acharíeis isso difícil? Não há coisa mais fácil. Até mesmo a oração mental a julgais difícil? Nada disso: mais adiante, no fim desta explicação, vereis que não é.

Esta facilidade de orar vem do fato de que Deus enche tudo e penetra no mais íntimo de nossa alma. Por esta razão, mesmo sem falar, só com querê-lO, nós nos pomos em comunicação íntima com Deus e fazemos oração. Oh! que facilidade Deus pôs numa coisa tão necessária!

2. — Porque deveis saber que a oração é tão necessária que não o pode ser mais. Por ela Deus nos comunica Suas graças, e pela graça nós nos salvamos; de modo que, sem oração, não nos podemos salvar. Nos sacramentos há orações; a dor necessária para se converter é oração; as virtudes vêm de oração, a perseverança consegue-se pela oração. Podemos, pois, dizer terminantemente: “Aquele que, podendo, não ora, condena-se”.

Deus é naturalmente dadivoso: está cheio de infinitas riquezas, e quer cumular-nos delas; mas quer que lhas peçamos. Muito pouca graça teria um rei que fosse atirando do seu carro triunfal punhados de ouro às multidões, se estas não fizessem caso desse ouro e, em vez de esperá-lo com mãos ávidas, o pisassem, e olhassem para o rei com indiferença. O mesmo sucederia com Deus se nós não Lhe pedíssemos que nos mandasse os Seus dons. Por isso Jesus Cristo, no Evangelho, diz a cada momento que oremos sem nos cansarmos, que oremos incessantemente, que oremos com perseverança, até cansarmos a Deus com as nossas queixas. Mas isto que estou dizendo já entra nas condições da oração, de que agora penso em vos falar.

A primeira condição da oração é a humil­dade, é pedir reconhecendo a nossa miséria e o nosso nada. Quando um pobre pecador pede assim uma graça, Deus sente as entra­nhas enternecidas, e lhe concede não uma, porém mil graças.

Já vistes como é que os cachorrinhos pedem perdão? Algumas vezes o cão faz uma velhacaria, desobedece, come alguma guloseima. De chicote na mão, o dono chama-o. O cão aproxima-se todo medroso, arrastando-se, de rabo e orelhas caídas, murmurando fracamente, como se dissesse: “Perdão!”. E, com essas humildes cachorrices, desarma o coração e o braço do amo. Pois se um animal sabe fazer isto para conseguir o perdão, que não conseguirá o pecador que, humilde, pede a Deus perdão? Que não conseguirá o justo que, com humildade, pede o dom do céu?

Estais lembrados daquele caso do Evan­gelho que fala do publicano e do fariseu? Dizia Jesus: “Dois homens subiram ao tem­plo para orar: um fariseu e outro publicano. O fariseu estava em pé e orava no seu interior desta maneira: Graças te dou, ó Deus, por não ser como os outros homens, ladrões, injustos, maus; por não ser como este publicano. .. Mas o publicano, de longe, num recanto, não ousava erguer a vista ao céu, mas batia no peito e dizia: Meu Deus, mostra-te propício aos meus pecados. Digo-vos que este, e não aquele, desceu justificado para sua casa, porque quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 18, 9-14).

Como vedes pela parábola, ao pobre publicano que com humildade se confessava miserável e pecador, Deus ouve e lhe concede o que ele pede; mas ao outro, fariseu, com toda a sua prosopopéia e meneios com que entra no templo, e com aquelas filaterias ou tiras de pergaminho que traz na fronte, nas quais estão escritas máximas da Escritura, como que dizendo: “Olhai como as observo bem!” e com todo o seu ar de homem de Deus que rescende a santidade, àquele fariseu soberbo que parece fazer um favor a Deus entrando no templo para orar, como hoje em dia pensa fazer certa gente, a esse Deus não ouve, antes, indignado, repele-o da sua presença.

Quando, pois, fordes orar, confessai-vos pecadores e dizei a Deus como o publicano do Evangelho: “Tende misericórdia de mim, meu Deus, que sou um pecador”. Estou certo de que, vendo-vos tão humildes, Deus vos concederá o que pedirdes. Confessai-vos pecadores e vis na Sua presença, e não somente o confesseis, mas crede-o, e ficai convencidos de que sois uns miseráveis, necessitados portanto do auxílio da graça, tão necessitados que, sem ela, não podereis dar um só passo no caminho do céu.

A outra condição que deve ter a oração para ser eficaz é que se ore com absoluta confiança em alcançar o que se pede, se o que se pede nos convém para a nossa salvação. Porque muitas vezes pedimos coisas que não nos convêm. “Senhor, dai-nos dinheiro; Senhor, dai-nos saúde; Senhor, não deixeis morrer fulano; Senhor, fazei que eu ache a bola que perdi”. Sabemos se porventura convém para o nosso espírito tudo isso que pedimos? Não seria melhor para a nossa salvação estarmos doentes, não encontrarmos um objeto que nos convém, sermos pobres? Muitas vezes Nosso Senhor se rirá de ver as tolices que Lhe pedimos. Pedi-Lhe humildade, pureza, desejos de perfeição, alegria espiritual, vereis como Ele vos concede tudo isso. Há meninos pedinchões e meninas impertinentes que só sabem pedir a tua mamãe bagatelas ou coisas que não lhes convêm. “Mamãe, quero pão”. E a mamãe lhes dá pão que é bom. Meia hora antes de jantar, ele volta a pedir: “Mamãe, dê-me pão. — Não, meu filho, do contrário não terás vontade de jantar. — Mamãe, dê-me pão”. Afinal a mamãe se enfada, e dá ao pedinchão um repelão a modo de vermouth antes de jantar. Se depois o menino se queixa de que sua mamãe não lhe quer dar o que ele pede, fará muito mal, pois a mamãe bem sabe o que convém e o que não convém ao menino.

Assim faz Deus. Por mais que Lhe peçamos, Ele não nos dará o que Lhe pedimos se não nos convier; mas, se nos convier, Ele no-lo dará no caso de com fé e confiança lho pedirmos.
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