quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - A Oração (Parte II)

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955

PARTE PRIMEIRA
A conversão da vida do pecado à vida da graça
(Vida Purgativa. — 1.ª semana)


A outra condição para que a oração surta o  seu efeito é orar com perseverança; orar muito, orar sempre. Deus gosta de que O cansemos. Não Lhe parece bem que lhe digamos quatro palavras, e adeus.

Havia um menino que nem exteriormente rezava em todo o correr do dia. Só antes de se deitar é que se punha de joelhos, dizia uma oraçãozinha que durava um minuto escasso, e deitava-se.

Escuta, — dizia-lhe um companheiro, por que é que rezas tão pouco tempo?

Não gosto de cansar ninguém, — replicava ele.

Não, meus filhos, Deus não se cansa de nos ouvir. Ao contrário: não deseja outra coisa. Todavia, como eu conheço a mobilidade da vossa imaginação de crianças, não vos aconselharia longas orações, mas, antes, curtas e frequentes, que se chamam jaculatórias. Quando pedirdes alguma coisa, pedi-o com simplicidade e muitas vezes. Ao ouvirdes soar a hora de relógio, pedi à Virgem o que desejais para vossa alma. “Senhora, fazei que eu seja estudioso, puro, obediente”. Se saís de casa: “Senhora, ajudai-me”. Se ides ao colégio: “Meu Deus, dai-me tal coisa”. Assim, com perseverança, alcançareis o que desejais.

Os pequenos, e do mesmo modo as pequenas, conhecem o fraco dos avós: sabem que estes são duas vezes pais e que se abrandam facilmente. Sabem-no de sobra!

Pepita tem uma avó que é como todas as avós, velhinha e babadinha pela neta. Pois bem: a neta deseja uma boneca grande que, quando movida, olha de soslaio com seus olhões azuis, e além disto estira a língua com muita graça. Viu-a Pepita numa vitrina e marcou-a para sua. Ela já tem duas bonecas, e seus papais não farão uma despesa inútil para lhe comprar uma terceira. Mas a avozinha, oh! a avozinha! como é boa a avozinha!

Pepita encontra-a fazendo “crochet”.

— Vovozinha, quer comprar para mim uma boneca?
— Já tens duas, minha filha.
Pepita se cala. Vai para o colégio. Na volta vai dar na avozinha um beijo mais prolongado do que nos outros dias e, depois do beijo, diz:
— Vovozinha, quer comprar para mim a boneca?
Mutismos da avozinha. As agulhas do “crochet” fazem seu ruído típico, zombando de Pepita. A menina dá uma volta pela casa e torna a procurar a avozinha.
— Vovozinha, quer comprar para mim a boneca?
A avozinha olha sorrindo para a neta e, com a cabeça, diz-lhe que não. Pepita ajoelha-se diante dela, põe-lhe os bracinhos no colo e diz-lhe:
— É que a boneca que eu lhe peço, vovó, lha assim, e estira a língua assim. — E ela faz o que diz com tanta graça, que a avó põe-se a rir, levanta a neta, beija-a estrepitosamente e lhe diz:
— Eu te compro a boneca, marotinha.
Estais vendo, meus filhos, como, à força de ser rogada, a avozinha cede? E pensais que Deus vos amará menos? Pedi-Lhe, tornai a pedir-Lhe, que Ele também cederá como a avozinha, e afinal vos dará o que lhe pe­dirdes.

Aquele caso que o Evangelho conta a este propósito é muito significativo. “Se um de vós — diz Jesus Cristo — tiver um amigo e for a ele à meia-noite e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, porque acaba de chegar de viagem um amigo meu e não tenho nada para lhe dar; e o outro, lá de dentro, responder dizendo: Não me incomodes; a porta já está fechada... não posso levantar-me para te dar os pães; se o primeiro perseverar batendo à porta, digo-vos que, ainda quando o outro não se le­vantasse para lhe dar os pães por ser seu ami­go, pela importunação dele certamente se levantaria e lhe daria quantos pães ele pre­cisasse.

“E eu vos digo: Pedi e recebereis; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe, quem busca acha, e a quem bate se lhe abrirá” (Lc 10, 5-10).

Este caso invoca-o o bom Jesus para nos significar que, se a um amigo se concede o que ele pede com insistência, para que ele não seja importuno, melhor nos concederá Deus o que lhe pedirmos se com insistên­cia lho pedirmos. Por isso Jesus diz: “Pedi, e recebereis”.

Recapitulemos. Três são as condições da oração, a saber: pedir com humildade, com confiança e com perseverança. Pedindo assim, podemos concluir que quem ora se salva.

2. — Já vos disse que há duas maneiras de orar: com a boca e com o coração. Isto não quer dizer que, quando se ora com a boca não se ore com o coração, porque com o coração é preciso orar sempre, tanto quando se ora pronunciando palavras, o que é a ora­ção vocal, como quando não se pronunciam palavras, o que é a oração mental. Numa palavra, é preciso rezar com atenção e com devoção.

Vós outros conheceis o fonógrafo ou gra­mofone. É um aparelho com uma trombeta ou buzina grande, embora também os haja sem trombeta, o qual canta como por um funil, toca uma coisa que parece orquestra, mas uma orquestra singular, e prega e fala. Como vedes, é um prodígio esse aparelho. Também reza, se convém. Pois bem: assim rezam certos meninos, como o fonógrafo, ou como um papagaio beato que eu conheci e que rezava o Bendito, a oração de Santo Antônio, as ladainhas e várias outras orações. Rezava — é claro — sem devoção nem atenção, porque não sabia o que dizia.

Do mesmo modo rezam certos pequenos. Cantarolam uma espécie de toadas, distraídos, e cantam o Pão Nosso, a Santa Maria e o “ora pro nobis” como se dissessem: “Como é comprido isto! Quando acabará?”. Outras vezes estropiam palavras de tal maneira, que parecem ter pressa de proferi-las quanto antes, e elas lhe tropeçam na boca ao saírem, e saem mancas e mutiladas. Isso não é rezar: isso é zombar de Deus. Assim seria preferível não rezar. Como há de Deus ouvir a quem reza assim? Como há de cumprir as três condições da oração quem desse modo pede a Deus as coisas?

Uma vez um menino foi ver o rei e solicitar dele favores de que grandemente necessitava.

O menino apresenta-se ao Monarca, que o recebe muito bem, como que lhe dizendo: “Pede-me por essa boca”. Mas o menino estava entretido olhando uns micos que havia pintados nos tapetes, e pediu ao rei o que tinha de lhe pedir, mas distraído e de carretilha, assim: — “Necessito tal coisa, dê-me Sua Majestade tal outra”, pedindo-lhe muito depressa, olhando para os micos e bocejando.

Em vez de lhe dar o que ele pedia, o rei chamou um porteiro e lhe disse:

Põe para fora da minha presença este menino ousado. Terá ele pensado que eu sou algum pau, quando assim me insulta na minha presença?

Tende cuidado de que Deus não vos diga algo semelhante quando fordes ao templo para conversar, para vos distrairdes, para rezar às carreiras, engrolando palavras e frases. Rezai com devoção e atenção. Mais vale um só Padre-Nosso bem dito do que cem ditos sem atenção e de corrida. A oração não consiste em rezar muito e mal: é melhor rezar pouco e bem.

Entre as muitas orações vocais que vos ensinarem, não há nenhuma como o Padre-Nosso. É a oração por excelência, porque é a oração que Jesus Cristo nos ensinou. Quando Seus discípulos lhe perguntaram como deviam orar, Ele lhes respondeu:— Orareis assim, — e disse-lhes o Padre-Nosso.

A Ave-Maria e a Salve-Rainha são as orações mais excelentes à Mãe de Deus. Com estas orações e o Credo, com algumas outras que o catecismo traz, e com as orações litúrgicas que a Igreja propõe, tendes pronta a vossa bagagem de rezas para mirardes ao céu pelo caminho da vida.
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