terça-feira, 18 de junho de 2013

Graça santificante - (Quarta parte)

Nota do blogue: Acompanhar esse Especial AQUI.
Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

3 — Seus efeitos nas potências

1.º A natureza de um ser é a raiz das propriedades diversas aptas para produzir efeitos em harmonia com o fim desse ser. — A adaptação das propriedades a tal fim determinado forma a potência ou faculdade. Esta adaptação é obra d'Aquele que, com toda a sabedoria, criou a nossa natureza. — Enfim, o sujeito que aplica a potência à produção do seu ato é a pessoa.

2.º Daqui se conclui que na execução de um ato entram três elementos em ação: —A natureza como princípio remoto de operações — principium quo remotum, — as potências ou faculdades como princípio próximo — principium quo proximum, e a pessoa como princípio operador — principium quod.

Na ordem sobrenatural a graça dá origem a três elementos necessários à vida sobrenatural.

Pela participação na natureza divina recebemos um princípio inteiramente novo de operações — o de poder conhecer e amar a Deus como Ele se conhece e ama a Si mesmo. É a nossa nova natureza, a nossa natureza sobre­natural.

Pela justificação revestimo-nos de uma nova personalidade, uma personalidade sobrenatural, denominada pelo Espírito Santo, o justo.

Vejamos agora como a graça dá origem às potências sobrenaturais.

Potências sobrenaturais

Que potências sobrenaturais nos dá a graça santificante?—Propriamente falando, a graça não nos dá novas potências distintas das que possuímos naturalmente.

A nossa alma é dotada de duas faculdades: a inteligência e a vontade; a graça não lhes acrescenta uma terceira faculdade. — O nosso corpo animado é dotado de quatro sentidos ou faculdades internas — imaginação, memória sensitiva, instinto, senso comum; — e de cinco sentidos ou faculdades externas — vista, ouvido, olfato, gosto e tato; a graça não acrescenta uma quinta ou sexta faculdade.

Que faz a graça? — Sobrenaturaliza as faculdades já existentes a saber: a inteligência e a vontade de maneira que se tornem aptas para produzir atos sobrenaturais. Estas duas faculdades, com efeito, de sua natureza «natural» são-nos dadas para nos pormos em contato e apreendermos a verdade e o bem existentes nas criaturas. Ora, na ordem sobrenatural, a operação destas duas faculdades é para nos pormos em contato e apreendermos a verdade e o bem em Deus, isto é, Deus mesmo revelando-se e comunicando-se a nós. É preciso, pois, que estas faculdades naturais recebam um acréscimo de potência, uma sobrenaturalização que lhes permita produzir os atos já mencionados. É precisamente o efeito que produz a graça santificante nas faculdades espirituais, dá-lhes virtudes especiais em harmonia com o fim a atingir; a saber: as virtudes teologais, as virtudes morais infusas e os dons do Espírito Santo.

Como é que as virtudes sobrenaturalizam as faculdades? — Vejamos como as virtudes sobrenaturalizam as faculdades.

1. — Virtudes teologais

A fé une-nos a Deus, suprema verdade, e ajuda-nos a ver é apreciar tudo à sua luz divina. — A esperança une-nos Aquele que é a fonte dá nossa felicidade — a caridade eleva-nos até Deus sumamente bom em si mesmo.

2. — Virtudes morais

As virtudes morais que têm por objeto um bem honesto distinto de Deus e por motivo a própria honestidade desse objeto, favorecem e perpetuam essa união com Deus, regulando tão bem as nossas ações que, não obstante os obstáculos que se encontram dentro e fora de nós, tendem sem cessar para Deus. — Assim é que a Prudência nos leva a escolher os melhores meios para o nosso fim sobrenatural.

A justiça fazendo-nos dar ao próximo o que é devido, santifica as nossas relações com os nossos irmãos de tal forma que nos aproxima de Deus. — A fortaleza arma-nos contra a provação e a luta, faz-nos levar com paciência os sofrimentos e empreender, com santo arrojo, os mais árduos trabalhos para promover a glória de Deus. E como o prazer ilícito nos afastaria disso, a temperança modera em nós a ânsia de prazer e subordina-o à lei do dever.

3. — Dons do Espírito Santo

Os dons do Espírito Santo são sete energias ou propriedades sobrenaturais que se acrescentam a cada uma das sete virtudes — três teologais e quatro morais — para tornar o justo dócil à inspiração e à moção do Espírito Santo.

4. — Necessidade dos dons

O homem justo, diz Leão XIII, que vive da vida da graça e opera por meio das virtudes que nele desempenham o papel de faculdades, necessita igualmente dos sete dons do Espírito Santo.

Deus criou-nos para o conhecermos, amarmos e servirmos. Por isso, temos necessidade dos dons do Espírito Santo:

1.º Para conhecer a Deus perfeitamente.

Que pensaríamos de um filho que soubesse simplesmente o nome de seu pai, mas que ignorasse quem ele era, o que fazia, as suas ordens e os seus desejos? Seria uma coisa bem triste! Não conhecer o pai seria como se o não tivesse.

No mundo divino não somos também desgraçados? Que sabemos do nosso Pai do Céu? Quase nada. Por nós mesmos pouco o poderemos conhecer.

Para apreciar o que Ele é, precisamos de ter a Sua sabedoria. Para adivinhar o Seu verdadeiro pensamento precisamos de ter a Sua inteligência. Para compreender o que Ele faz, precisamos de ter a Sua ciência e o Seu próprio conselho para adivinhar os Seus desejos.

Em suma, para bem conhecermos Deus preci­samos de ter o Seu espírito.

2.º Para amar a Deus perfeitamente

— Não basta que um filho conheça seu pai; deve amá-lo de todo o coração. Muitos prometeram com juramento amar a Deus durante toda a sua vida e, todavia, têm faltado à sua promessa, insultam o Rei do Céu, crucificam em si mesmos Jesus Cristo, desonram a Igreja e renegam a sua fé. Nem oração, nem missa, nem comunhão.

É preciso que o Espírito Santo encha esses corações de temor, de maneira que estejam antes dispostos a morrer do que a pecar. É preciso receber o dom da piedade para terem sempre pelo Pai celeste um afeto filial, indo ao templo e frequentando os sacramentos.

Devido ao dom de piedade amamos a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e com todas as nossas forças. E assim pode­mos repetir com o Apóstolo: «Nada poderá separar-me da caridade do meu Deus que está em Cristo Jesus; porque na verdade não sou eu que vivo é Jesus Cristo que vive em mim.»

3.º Para servir a Deus perfeitamente. 

— Quem conhece e ama a Deus de todo o coração, procura cumprir a sua Lei; Ele mesmo diz: «Se alguém me ama observa os meus mandamentos.» Porém, para cumprir a Lei de Deus, temos necessidade do dom da fortaleza para vencermos os inimigos: o mundo, demônio e carne, que nos desviam do serviço de Deus.

E assim tudo podemos n'Aquele que nos conforta.

5. — Sapiência

O dom da sapiência aperfeiçoa a virtude da caridade fazendo-nos saborear a Deus e as coisas divinas por um conhecimento experimental.

Pela concupiscência o homem só tem gosto pelas coisas da terra e acha tudo amargo na religião. O Espírito Santo dá-nos pois um paladar espiritual para saborearmos todas as coisas divinas.

Este dom dá-nos um conhecimento experimental. Não é melhor diz são Boaventura, experimentar a doença do mal do que saber que ele é doce? Assim a Sabedoria que nos dá um conhecimento saboroso de Deus é superior a todos os outros dons que no-lo fazem simplesmente conhecer. Os filhos dos reis acostumados, nos seus palácios, a alimentar-se de manjares delicados não invejam aos pobres a sua comida grosseira; como nós mesmos não invejamos aos animais a alimentação que lhe é própria. Assim as almas que possuem o dom da Sabedoria experimentam tanta doçura e gosto no serviço de Deus, que vivem inteiramente desapegados das vaidades do mundo.

« Afeiçoai-vos às coisas que são lá de cima e não às que estão sobre a terra». (Colos. III, 2).

6. — Entendimento

O Entendimento é um dom que, sob a ação dominadora do Espírito Santo, aperfeiçoa a virtude da fé, dando-nos uma intuição penetrante das verdades reveladas sem contudo nos descobrir o seu mistério.

Fé viva. A fé faz-nos acreditar firmemente por causa da autoridade divina. O dom do entendimento dá-nos uma certa percepção dessas verdades, com este dom a alma devota descobre em Deus belezas admiráveis, nos mistérios encantos maravilhosos e na religião atrativos inefáveis e na Providência divina desígnios sublimes. Por isso, diz são Paulo; «Deus nos tem revelado estas coisas, pelo seu Espírito que penetra tudo até às profundezas de Deus.»

Afetos piedosos. — Eu creio que Jesus Cristo morreu por mim; todavia a Sua paixão e morte são, para mim, um drama como que saído da imaginação de um romancista. Pelo contrário, um são Francisco de Assis experimentava uma tal ternura por Jesus Crucificado que não podia olhar para o Crucifixo sem derramar abundantes lágrimas.

Eu daria a minha vida para confirmar a presença real de Jesus na Eucaristia, mas, a minha atitude diante de Jesus Sacramentado dá testemunho da minha fé? Estou distraído, enfadado e numa atitude exterior pouco respeitosa; ao passo que muitos cristãos adoram Jesus Sacramentado com os sentimentos do mais profundo respeito.

Nós, numa palavra, pertencemos à mesma Igreja que os santos, temos a mesma crença e a mesma educação que eles tiveram, ouvimos muitas pregações, lemos muito e ficamos sempre na mesma ignorância ou indiferença a respeito do que ouvimos ou- lemos, as passo que a fé, as verdades da religião arrebatavam os santos. Como explicar isto? É que as verdades da religião depositadas em nós pela graça e pela educação, só nos esclarecem e comovem, segundo o grau de claridade do dom do Entendimento.

Horror ao pecado. - Nós pecamos e tornamos o pecar e, todavia, ficamos tranquilos, sem repugnância pela ofensa feita a Deus e o estrago causado às nossas almas. Se tivéssemos o dom do Entendimento conheceríamos a majestade, a bondade de Deus, a importância da salvação e não consentiríamos, sequer, um pecado venial.

Esclarecida pelo dom de Entendimento, dizia santa Maria Madalena de Pazzi: Eu morro sem poder compreender que se possa cometer um pecado mortal. E santa Tereza de Jesus dizia que achava impossível que se pudesse cometer um pecado venial.

7. — Conselho

O dom do conselho aperfeiçoa a virtude da prudência fazendo-nos julgar pronta e seguramente, por uma espécie de intuição sobrenatural, o que convém fazer, sobretudo nos casos difíceis em ordem à salvação, isto é, o que se deve dizer e calar, fazer e evitar.

Os que não têm o dom do conselho são cegos nos seus projetos, inconsiderados nas suas palavras, precipitados nas suas ações e imprudentes na sua conduta. Os principais obstáculos a este dom são: A presunção. O presunçoso confia em si e crê que não tem necessidade da direção de outrem. — A precipitação que não dá tempo de examinar os prós e os contras e invocar as luzes do Espírito Santo. — Enfim, a lentidão. Desde que uma resolução é tomada, segundo as luzes do Espírito Santo, é preciso dar lhe cumprimento porque as circunstâncias mudam e as ocasiões perdem-se.

Peçamos ao Espírito Santo que nos preserve destes três defeitos.

8. — Fortaleza

A fortaleza é um dom que dá à vontade uma energia que lhe permite fazer ou sofrer alegre e intrepidamente grandes coisas. Este dom torna-nos aptos para operar e sofrer.

1.º Operar, isto é, empreender sem hesitação as coisas mais árduas: por exemplo, permanecer humilde nos meio das honras como são Luiz; guardar castidade no meio dos encontros mais escabrosos, como são Tomás de Aquino; calcar aos pés o respeito humano como são João Crisóstomo. 2.º Sofrer. Não se requer menos fortaleza para suportar longos e dolorosas enfermidades ou martírio.

9. — Ciência

A. ciência é um dom que, sob a ação iluminadora do Espírito Santo, aperfeiçoa a virtude da fé, fazendo-nos conhecer as coisas criadas nas suas relações com Deus.

As criaturas na sua origem vêm de Deus que as criou e conserva; na sua natureza são imagens ou reflexos de Deus. A natureza inteira é um espelho onde se refletem as perfeições divinas, um grande livro onde lemos os prodígios do poder, sabedoria e bondade de Deus; no seu fim, o dom da ciência diz-nos que as criaturas são como degraus para subirmos ao Criador.

Há três graus no dom da ciência. O primeiro é necessário para nos salvarmos e consiste em reconhecer que não podem ser o nosso último fim; devemos apenas utilizá-las para nos aproximarmos de Deus. O segundo grau é próprio das almas que caminham para a perfeição, e consiste em um grande desapego e moderação relativamente ao uso das criaturas. O terceiro grau é próprio das almas perfeitas e consiste no espírito de abnegação levado até à prática heróica. Por isso, dizia são Paulo: «Eu avalio todas as coisas como lixo quando penso em Jesus Cristo que pretendo ganhar.» (Filip. III, 8).

10. — Piedade

O dom da piedade aperfeiçoa a virtude da religião, anexa da justiça, produzindo, em nossos corações, um afeto filial para com Deus e uma terna devoção para com as pessoas ou coisas divinas, para nos fazer cumprir com fervor os nossos deveres religiosos.

1.º Para com Deus. — Este dom cultiva em nós um tríplice sentimento para com Deus: 1. ° Respeito filial que nos leva a adorá-lo como Pai muito amado; então os exercícios de piedade são-nos sempre agradáveis; — 2.° Um amor terno e generoso, que nos leva a sacrificar-nos por Deus e pela sua glória, não é pois uma piedade sentimental que só procura emoções consoladoras, uma piedade egoísta que só leva a cuidar de si, quando era necessário trabalhar pela salvação dos outros; — 3.° Uma obediência afetuosa, porque vemos nos mandamentos e conselhos a expressão paternal da vontade de Deus sobre nós.  
    
2.º Para com as pessoas e coisas divinas. Estes mesmos sentimentos levam-nos a amar as pessoas e coisas divinas que participam do ser divino e das suas perfeições.

Assim servimos a Igreja Militante com o nosso zelo e dedicação; aliviamos a Igreja Purgante com os nossos sufrágios e sacrifícios e honra­mos a Igreja Triunfante com os nossos lou­vores.

11. — Temor de Deus

O temor é um dom que, em conexão com a esperança, inclina a vontade ao respeito filial para com Deus. Afasta-nos do pecado, enquanto lhe desagrada e nos faz esperar no poder do seu auxílio.

Compreende três atos: 1.° Um vivo sentimento da grandeza de Deus, e, por conseguinte, um extremo horror pelos mais leves pecados que ofendem a sua infinita majestade;—2.° Uma viva contrição das menores faltas cometidas por haverem ofendido um Deus infinitamente bom; — 3.° Um cuidado vigilante de evitar todas as ocasiões de pecado.
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