terça-feira, 25 de junho de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - A Morte (Primeira Parte)

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955

PARTE PRIMEIRA
A conversão da vida do pecado à vida da graça
(Vida Purgativa. — 1.ª semana)


A MORTE

1. A morte é certíssima e é castigo do pecado — 2. É término dos prazeres da vida. — 3. — O que é a morte. — 4. O temor das contas. 5. Propriedades da morte. — 6. O juízo particular que segue a morte.

1. — Terrível mal é o pecado: creio que já haveis meditado profundamente esta verdade. Uma das consequências do pecado original é a morte. Se Adão e Eva não houvessem pecado, teriam vivido, por graça, imortais; pecaram comendo do fruto proibido, e ficaram sujeitos a morrer, e todos os seus descendentes a morrer do mesmo modo que eles. Quanta gente tem morrido desde o princípio do mundo! E quanta ainda há de morrer! Se pudéssemos reunir todos os corpos mortos, que montão de cadáveres não cobriria a face da terra! Oh! pecado, que terrível mal és, já que tal mortandade produzes!

Ninguém escapará de morrer: eu, vós, todos nós havemos de morrer. Um dia chegará em que se dirá a cada um de vós: “Conheces, fulaninho? Pois olha, já morreu. É esse que vai passando por aí no ataúde, levam-no a enterrar”. Muitas vezes tereis visto pela rua um ataúde num coche puxado por uns cavalos negros. O corpo morto que há dentro do ataúde é um homem, uma mulher, uma menina, que andava e conversava como vós. A cada um de vós acontecerá o mesmo. Entre as quatro tábuas do ataúde pregar-vos-ão bem pregados; levar-vos-ão ao cemitério, enterrar-vos-ão na cova e... acabou-se tudo. Tudo? Ah, não! Terá acabado este mundo, mas terá começado a eternidade.

— Como é triste isto que o Padre nos diz! direis vós. — Sim, é triste, mas necessário que suceda e proveitoso de considerar-se. Menino teimoso e preguiçoso, pecadorzinho precoce, tua vida se acabará; menina vaidosa, teus vestidos, esses trapinhos que tanto amas, tuas tolas vaidades se acabarão, porque tu também acabarás, pela morte. Mal inevitável: todos nós havemos de morrer!

2. — Uma das considerações que a morte sugere e que vos acabo de apontar é que, com ela, se perde tudo da vida. Há meninos e meninas insaciáveis: aqueles querem todos os brinquedos, bolas, arcos, cavalos, espadas, espingardas...; estas querem bonecas de todos os estilos, grandes, pequenas, louras, rosadas, pianinhos, uma minúscula bateria de cozinha. . . Tudo é pouco, e, se no Natal não os recebem, choram e batem com o pé. Por quê? Não sabeis que tendes de deixar tudo com a morte? Bem sabem desta verdade vossos pais, e por isso não satisfazem todas as vossas ambiçõezinhas, e costumam dar-vos de preferência coisas úteis, em vez dessas frioleiras. Oh, meus filhos! ambicionai as riquezas que nunca morrem, ambicionai as virtudes que vivem eternamente e que entrarão convosco no céu; mais desprezai as coisas deste mundo, que haveis de perder com a morte.

Havia, uma vez, uma menina que estava morrendo. O seu rostinho, antes fresco e rosado como um botão de flor, estava murcho e pálido pela agonia que agitava aquele peitinho inocente, pois era inocente e pura como um anjo a pobre menina. A mamãe trazia-lhe ora um cachipô bonito, ora uma boneca linda, ora um livro com gravuras. A menina movia brandamente a cabecinha, dizendo “não, não” a cada brinquedo que a mamãe desolada lhe trazia.

Que queres, minha vida? — dizia-lhe o papai, que sentia uma dessas grandes do­res que são vulgares porque passam sem­pre, mas que são tremendas porque perdemos aquilo que mais amamos.

Que queres, meu coração? — dizia-lhe a mamãe, que se matava por alegrar os últimos momentos daquele pedaço de suas entranhas.

A menina, que já recebera o viático e só pensava no seu amado Jesus, olhou para o céu e disse apontando-o com o dedinho, enquanto sorria: — Lá, lá!

— E por que não me levas contigo? — disse a mamãe, beijando-a num último beijo, como se nele lhe desse a alma.

A menina cerrou os olhos, e sua alma voou rápida, bela, aos céus... Os anjos fizeram música quando ela entrava. Os papais, na terra, choravam sem consolo...

Comove-vos esta cena? Eu quisera que todos vós morrêsseis assim. Aquela menina, que era como uma pomba inocente, que aborrecia o pecado, que amava entranhadamente a Jesus Cristo, desprezava as coisas da terra que ia perder com a morte: não queria brinquedos, queria só o céu. Por isso dizia levantando o dedinho:

— Lá, lá!

3. — Que é a morte? É o findar desta vida, da vida deste mundo. A vossa bela vida de brinquedos, de risos, de corridas..., vida de algazarra e de bulha, de risos e de alegria, e também de choros de vez em quando, acaba-se no momento da morte. Vede um menino morto. O cadáver ali está triste, hirto, imóvel como uma pedra. Não vive, não sente; nem goza nem sofre... Antes brincava, agitava-se, pulava como um cabritinho; agora está quieto como um tronco. Antes gritava e cantava; agora está mudo. Acabou-se para ele tudo o que era deste mundo. Mas a morte não é só acabamento desta vida efêmera; é começo da eterna. Esta vida é um ponto, comparada com a eterna, e o prelúdio de anos infinitos. A morte é, pois, a fronteira dos anos eternos; a linha divisória entre esta vida, que passa como um sonho, e a vida eterna, que dura para sempre.

Mas notai que esta vida eterna é de duas maneiras: inferno eterno, ou céu eterno. Porquanto os que morrem em pecado mortal vão para o inferno para sempre; e os que morrem em graça de Deus vão para o céu, para sempre. Terrível alternativa: ao céu para sempre, ou ao inferno para sempre! Oh! como é tremendo o momento da morte, quando se joga num instante a salvação eterna ou o inferno eterno!

Paulina está fazendo exercícios. É uma menina já taludinha, um pouquinho vaidosa e apegada às coisas deste mundo. Ao ouvir esta meditação da morte, e que tudo finda com esta, ela mira o seu rosto, que se lhe antolha bonito: as mãos belamente cuidadas, o cabelo frisado... A morte há de destruir tudo isso. E ela se considera dentro do sepulcro, toda vermes e podridão; depois pó, um esqueleto enfim, um esqueleto horrível de se olhar, num leito de pó e de vermes mortos... Hedionda, sozinha, escura... Paulina cobre o rosto com as mãos. — Eu? eu? hei de ser isso? — pergunta-se ela a si mesma.

Sim, tu, — responde-lhe uma voz interior, a voz de Deus que lhe repercute na alma, — tu, que és pus e pó; porque escrito está: “És pó e em pó te hás de tornar”. Ai! a vaidade da pobre Paulina desaparece; as suas ilusões, pétalas murchas de uma rosa, caem ao chão desfolhadas... e ela pensa na eternidade. Depois, mais doces pensamentos a agitam. Por ser ela boa e amar a Jesus, Jesus aguarda-a do outro lado da morte: até o juízo final, só a sua alma; depois, alma e corpo juntos, gozando de Deus para sempre. Com estes pensamentos ela procura mudar de vida e entregar-se a Jesus Cristo.

Continuará...
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