domingo, 9 de junho de 2013

A IRRADIAÇÃO DO CORAÇÃO

Nota do blogue: Agradeço ao Fabrício pela transcrição.
Padre Júlio Maria de Lombaerde


Há em física uma lei que diz que todos os corpos irradiam calor. Não poderíamos aplicar esta lei aos corações, e dizer que todo coração irradia bondade? Há, sem dúvida, corações frios, indiferentes, mas a estes falta qualquer coisa. Incompletos são também os corações que se tornaram glaciais pelo vício, pela indiferença ou pelo ódio; falta-lhes uma chama; e um coração sem chama, sem aspirações, sem ideal sobrenatural não é um coração humano, não passa de um coração material, rígido pelo instinto.

Mas vós, que desejais instruir-vos na escola de Nazaré, tendes um coração que sente, que aspira, que tem o seu ideal. E neste ideal há sempre qualquer aspiração como esta: - Eu quereria ser bom... eu não sou o bastante... a minha bondade não se irradia bastante.
Oh sim, é verdade. Se nós fossemos melhores do que somos, haveria em toda parte e sobretudo em nossas almas mais paz, mais alegria, mais daquilo que chamamos felicidade.
Que paz, que alegria, que felicidade, reinava na Sagrada Família! Porque? Porque lá todos eram bons!
Não poderíamos dizer que a maior parte dos nossos sofrimentos, dos nossos pequenos desacordos provém da nossa falta de bondade?
Não é para ensinar-nos este preceito de bondade que Aquele que é a Felicidade quer que esta simples palavra Bom – que o designa, faça que seja amado por todos – que, mais do que qualquer outro atributo atrai tudo a si, não possa jamais despertar a ideia da menor imperfeição?
Ele não quer ser chamado senão o bom Deus, e todos não o chamam senão assim.
O nome universal de Deus, diz Bossuet, o seu nome popular, o que sai do coração da criança e do velho, do homem e da mulher, do sábio e do ignorante, é esta denominação familiar e sublime: o bom Deus.
Esta palavra o bom Deus encerra tudo.
Ele é bom: logo, Ele é compassivo, indulgente, misericordioso, generoso.
E se é esse o seu característico, e o primeiro resultante da sua essência que é “caridade”, não deve ser também este o característico da sua Família?
Sim, sim, a Sagrada Família é a caridade: logo, é a bondade.
Quando alguém se apresentava em Nazaré, era recebido com este sorriso que lhe dava a entender que era bem-vindo.
Era sempre com o sorriso nos lábios, que a Santíssima Virgem os recebia, os convidava a descansar, que José lhes mostrava o seu trabalho, lhes falava de Deus e da Cidade Santa. Era também com o sorriso nos lábios, que Jesus (mui modestamente, como sabem fazer as crianças bem educadas) vinha cumprimenta-los, perguntando se não podia presta-lhes qualquer serviço.
E tudo isso se fazia sem esforço, de um modo tão natural, que se via logo ser tudo sincero.
Como então poderia a casa da Sagrada Família deixar de ser o refúgio de todas as almas desejosas de um pouco de consolação e alento?
Os pobres sentiam-se ali como em sua própria casa. Eram tão atenciosos para com eles. Além disso, uma atmosfera saturada de bondade envolvia aquele recinto sagrado.
Os doentes e todos os que sofriam eram mais do que hospedes. Jesus era sempre tão bom para com todas as misérias.
Os próprios ricos sentiam um bem estar que não encontravam em outra parte porque lá eram amados, não por causa das suas riquezas, mas como filhos dum mesmo Pai.
A este acolhimento benévolo, juntava-se uma simpatia visível e sincera. Quando uma alma desalentada, abatida, irritada, se lhes apresentava em casa, sabiam descobrir o que nele havia ainda de bom e, através dos erros, das quedas, das asperezas, como a gota de óleo que perpassa através da fendas mais imperceptíveis, as suas palavras animadoras penetravam, alentavam e faziam renascer a confiança e o amor.
E este pobre coração que se julgava abandonado, perdido, levantava-se e dilatava-se, dizendo consigo mesma: “Oh eu ainda não posso!”
Oh quem nos poderia mostrar o cortejo de almas abatidas, desesperadas, que passaram pela pequenina casa de Nazaré e ali encontraram o olhar de Jesus, de Maria e de José, e neste olhar acharam a paz e a felicidade que haviam perdido!
Se os santos exerciam tal ministério junto às almas, poderíamos crer que o Santo dos santos, que a Rainha dos Santos, que o maior de todos os santos se tenham contentado com a santificação própria, sem difundirem em torno de si as riquezas das virtudes e sem darem livre curso à irradiação do seu coração?
Seria injuriá-los!
***
A bondade, na prática da vida, tem um terceiro caráter.
Dizem que há poucos homens que possam dispensar louvores.
Ah! Não este louvor que lisonjeia por lisonjear: este é pernicioso; mas aquele louvor que aprecia com poucas palavras, que mostra o bem que fazemos, que incita nossos esforços, que nos é dirigido, não com ar protetor, mas com uma benevolente amizade; em outros termos, aquele que é um encorajamento, um estímulo para o bem.
A Sagrada Família excedia-se nesta arte de salientar o bem que havia nos outros, de aprová-lo e de estimular as pessoas a que aumentassem sempre.
Ela fechava os olhos sobre as faltas alheias, não procurando senão salientar o mérito daqueles que se julgavam inúteis para o bem.
Grande foi o número daqueles em que este louvor fez despertar a coragem adormecida. Fazer crer aos outros, não que eles são perfeitos, mas que estão em via de o serem, é forçá-los de certo modo a que o sejam realmente.
Não é a baixa adulação que exagera, ou atribui um mérito que não existe, mas a caridade suave, que encobre com o manto da misericórdia as fraquezas do próximo e vê somente o que nele há de bom. E louvá-lo por causa deste bem real, não é dar-lhe coragem para desenvolvê-lo e para extinguir o que não quadra com o que se louva?
Sim, este louvor amável e verdadeiro é uma expansão do coração caridoso, faz bem àquele que o dá e àquele que o recebe: a um ele ensina a fazer um bom juízo do próximo e ao outro mostra o que lhe falta ainda, para que se esforce por tornar-se o que dizemos que ele é.
Oh! Como estas insignificâncias abrem o coração, dissipam preconceitos, extinguem rancores profundos e permitem conselhos que teriam irritado!
Meu Deus, sede bendito por terdes posto na convivência de certa almas que compreendem isso, almas cuja bondade comunicativa nos fazem entrever algo de vossa bondade, e que nos permitem dizer o que São Francisco de Sales dizia de São Vicente de Paulo: - Meu Deus, como deveis ser bom, se Vicente é tão bom!
Ser bom é bem a aspiração de todas as almas grandes, pois, sentem elas que, quanto melhores forem, mais se aproximarão de Deus e mais se assemelharão a Ele. Sentem que não chegarão a serem boas, senão depois de terem domado o seu egoísmo, a sua preguiça e a sua sensualidade; tendências tão tenazes e tão entranhadas. E para dominá-las, empenham-se numa luta contínua.
As almas pequenas não suspeitam os combates a sustentar para a aquisição da bondade e a prática das virtudes de que ela se compõe.
Possa a bondade de Jesus, de Maria e de José irradiar-se sobre nós e fazer-nos compreender que bondade é sinônimo de heroísmo e de virtude.
A bondade é atraente: é preciso, pois, que ela apresente sempre um semblante franco e moderado e um sorriso simples mas cordial.
É preciso que ela tenha sempre nos lábios uma palavra acolhedora, e que o seu aspecto proporcione certo bem estar na consciência.
A bondade é indulgente: necessário é, pois, que ela tenha o coração cheio de desculpas para mitigar os erros alheios, piedade para nunca repelir os culpados, perdão para esquecer as injustiças e as penas que outros lhe fizeram.
A bondade é compassiva: importa, pois, que esteja sempre preparada a ouvir os que sofrem, a chorar com os que choram e a partilhar as tristezas dos que estão acabrunhados.
A bondade é engenhosa: por isso deve adivinhar o que possa agradar, dissimular os erros, e repará-los na ocasião, suportar os defeitos dos que a cercam, suportar as manias dos que lhe são superiores.
A bondade é docemente alegre: cumpre que ela o saiba para não desanimar, para se interessar, para afastar das almas, dos corações e dos espíritos estas tristezas sem motivo, que as tornariam infelizes e paralisariam os seus esforços para o bem.
A bondade de Jesus e Maria e José era tudo isso e o era a um grau heroico! Os seus corações difundiam a bondade como o fogo difunde o calor.
Como, pois, não sermos iluminados, aquecidos, quando deles nos aproximamos, como não sermos penetrados deles?
Ó Família santa, Jesus, Maria, José, fazei que, como vós, sejamos bons, bastante bons, muito bons!
RESOLUÇÃO: A exemplo da Sagrada Família, experimentemos ser bons, bons para todos; e façamos irradiar esta bondade em nosso rosto, em nosso sorriso e em nossas palavras.

EXEMPLO
Santa Demetriades
Foi a Sagrada Família quem desfraldou no mundo o estandarte da virgindade, sob o qual se abrigavam desde então tantos cristãos. Mencionamos umas destas almas heroicas!
Filha do cônsul Olibrius, de admirável beleza, única herdeira de imensa fortuna, a jovem Demetriades era, como diz São Jerônimo, a primeira no mundo romano. Podendo aspirar às mais felizes uniões, ela não queria outro esposo que o Rei do céu. Demetriades não cessava de suplicar a Deus, com lágrimas nos olhos, que fizesse com que os seus pais aquiescessem ao seu ardente desejo.
Ora, chegando o tempo de fazer conhecer a sua generosa resolução, a jovem foi ter um dia com Juliana, sua mãe e Proba, sua avó. Pôs-se de joelhos e suplicou-lhes que não se opusessem à resolução que tomara de se entregar totalmente a Deus.
Proba e Juliana não tinham outro desejo que ver a filha consagrar-se a Jesus Cristo. Estas mulheres admiráveis, dotadas do verdadeiro espírito do Evangelho, apressaram-se em levantar a jovem, que ainda tremia, receando ter-lhes causado algum sofrimento. Abraçam-na ternamente, cobrem-na de beijos, inundam-na com lágrimas, dizendo-lhe: “Sê bendita, minha filha, pois vais tornar a nossa nobre família mais nobre ainda pela glória da virgindade!” e este dia foi para esta casa a festa mais terna e mais cheia de alegria.
De fato, nada faz descer tão abundante benção sobre as famílias como estas santas aspirações de castidade.

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