quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cristo-Rei

Nota do blogue: Acompanhar esse Especial AQUI.
Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

Cristo-Rei

1. — O homem-rei.
2. — Cristo Rei.
3. — O cristão-rei.

1 — Christus vincit: Cristo triunfa. —Jesus Cristo ressuscitado, venceu o pecado, o sofrimento, a morte, e triunfa dos Seus inimigos.

2—Christus regnat: Cristo reina. —Jesus Cristo reina pela Cruz. A Sua Cruz domina o mundo. O glorioso exército dos Seus Apóstolos missionários maneja uma arma sempre invencível— a arma do Evangelho — arvora uma bandeira sempre triunfante — a bandeira da Cruz.

3 — Christus imperat: Cristo impera. — Cristo continua a dar as Suas ordens ao mundo.

O seu órgão transmissor é a Sua Igreja a quem disse na pessoa dos Seus Apóstolos: «Assim como meu Pai me enviou assim eu vos envio com o tríplice poder divino: poder de governo, poder de ensino e poder de santificação».

Noção de realeza

Para termos uma noção exata de realeza devemos considerá-la primeiramente como uma função, depois como uma autoridade e, finalmente, como uma dignidade.

I. — Função da realeza

Em toda a sociedade humana, verdadeiramente organizada para um bem ao mesmo tempo superior a cada um dos membros e comum a todos, deve haver, sob pena de morte para o organismo inteiro, alguém com uma função unificadora e ordenadora das energias sociais para o bem comum. É esta precisamente a função real. Rex significa ser condutor, e Regere, conduzir.

Pouco importa a maneira como assenta sobre a pessoa a investidura real: hereditariedade, eleição ou aclamação popular. Pouco importa o modo como o poder é exercido, monárquico, oligárquico ou mesmo democrático. Sob todos estes modos diversos a função real permanece sempre. É de origem divina como a própria sociedade. O rei deve procurar o bem comum.

II. —Autoridade da realeza

A função real é a base da segunda prerrogativa: a autoridade. Isto não quer dizer que a autoridade venha da função ou ainda dos súbditos que designaram o chefe.

Ser investido da função é receber de Deus a autoridade, princípio de governo. A autoridade é de essência divina. Ora é precisamente o poder de fazer leis, de fazê-las observar, em nome de Deus, para realizar o bem comum, que se exige a função real.

Querer exercer a autoridade, sem ter em vista, o bem comum, ou ir mesmo contra este, é tirania.

III. — Dignidade da realeza

Da função e da autoridade real resulta uma terceira prerrogativa: a dignidade real. Da mesma maneira que a autoridade exige a obediência, a dignidade exige o respeito dos súbditos.

1. — O homem-rei

I — A realeza original do homem

Deus, consultando a Sabedoria do Filho e o Amor do Espírito Santo, disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança e domine sobre a terra inteira.

1.º O homem é, pois, rei da criação porque é a imagem de Deus. — Deus, criando o homem dotou-o de uma alma com as faculdades de inteligência e de vontade, e assim em certo modo, conhece e ama como Deus. Eleva-se por isto mesmo até ao infinito, acima de todos os seres que povoam a terra e os Céus. É já por este título o rei da criação.

2.º O homem é rei da criação porque é a semelhança de Deus. — Deus, pela graça santificante, elevou o homem ao estado sobrenatural tornou um ser divino, e, por isso, senhor das prerrogativas divinas entre as quais, um direito divino de divina realeza sobre o mundo.

3.º O homem é rei da criação porque o próprio Deus o constituiu rei. — Deus, depois de criar Adão e Eva abençoou esse par e disse: «Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra, dominai sobre a terra inteira e sobre tudo o que nela existe». (Genes. 1, 2.6-31).

Em que consistia esta realeza? Consistia na subordinação de todas as criaturas ao homem e na prestação de serviços segundo a sua natureza e aptidões. O homem poderá dizer justamente como o herói de Cornélio: «Eu sou Senhor de mim mesmo como do universo».

Tal é a magnífica realeza de que o homem havia sido investido.

II — A perda da realeza original

O homem pecando quis subtrair-se ao império de Deus e ser mesmo usurpador, mas ficou sendo um rei destronado e cativo.

— As criaturas não reconheceram jamais nele a autoridade de Deus porque ele foi o primeiro a desconhecê-la; revoltaram-se até contra ele, recusando-lhe os seus serviços. Só pela força é que poderá dominá-las: «Comerás o pão com o suor do teu rosto».

— Perde o privilégio de Filho de Deus por adoção. Deus não tem mais, na sua presença, um filho, mas um rebelde.

— O homem não tem sequer o cetro da sua própria natureza. A carne revoltar-se contra o espírito e o espírito contra Deus. Só Deus podia remediar tão grande decadência, colocando, de novo, na fronte da sua criatura, a coroa que ela calcara aos pés, e na mão o cetro que ela voluntariamente quebrou.

2. — Cristo-Rei

Deus quis restaurar a Sua obra dando-lhe um rei. Esse rei é o seu próprio Filho encarnado na natureza humana.
A preparação, a afirmação e a realização mística da realeza de Cristo encontram-se, como em três etapas nos círculos litúrgicos — Natal, Páscoa e Pentecostes.

I — Preparação da realeza de Cristo

Ciclo do Natal. — A liturgia do Advento recorda-nos, nas suas quatro semanas, os quatro mil anos de espera pelo Messias e, durante este tempo, recordamos, evocamos as aspirações dos Patriarcas, Profetas e os desejos do povo de Deus pelo seu Libertador, Salvador, e Rei porque descendia da estirpe real de David: «O Senhor Deus lhe dará o trono de David, diz o Arcanjo a Maria, e o seu reino não terá fim». (Luc. I, 3).

A liturgia do Natal diz-nos que o Rei que devia vir, veio realmente, e convida-nos a adorá-lO: «Vinde, adoremo-lo».

A liturgia da Epifania fala-nos da Estrela que brilhou com todo o esplendor para mostrar aos Magos onde havia nascido o Rei dos Reis e diz que eles Lhe ofereceram os seus presentes: ouro, reconhecendo-O como Rei, incenso, porque vêem n’Ele um Deus, e mirra, porque O reconhecem como homem.

II — Afirmação da realeza de Cristo

Ciclo da Páscoa. —Na Quaresma e Semana Santa comemora-se à Paixão e Morte de Jesus. Todavia, através das suas humilhações sobressai a Sua realeza.

No tribunal de Pilatos, onde teve um julga­mento infame, Jesus declara que é rei: «Na verdade eu sou Rei.» No Calvário, onde teve uma morte afrontosa, a inscrição da Cruz proclama que Ele foi crucificado porque se dizia Rei: e o bom ladrão faz um ato de fé na sua realeza; «Lembrai-vos de mim quando chegardes ao vosso reino» E a santa Igreja suplica à árvore da Cruz que se transforme num trono. «Árvore augusta, verga os ramos, e, aos membros do Rei dos Céus, oferece um leito mais suave.» As Suas humilhações são a garantia da Sua glória. Era preciso, diz Ele aos discípulos de Emaús, que Cristo sofresse todas estas coisas para que assim entrasse na Sua glória.

A Sua Ressurreição é a vitória sobre Seus inimigos.

A Sua Ascensão ao Céu é o Seu triunfo com­pleto.

Jesus é Rei pela Sua dignidade, pela Sua autoridade e pela Sua função. Em Cristo é a dignidade que está em primeiro lugar, e dela dimana a Sua autoridade e função de Rei.

1.º Dignidade da realeza de Cristo. — A dignidade está em primeiro lugar porque não é, como nos homens, uma dignidade acidental, mas essencial, vem da sua natureza humano-divina e da união hipostática. A Encíclica Quas primas exprime esta doutrina citando as palavras de são Cirilo de Alexandria: «Cristo tem autoridade suprema sobre toda a criatura, não pela força ou por qualquer outro meio, mas pela sua própria essência e por natureza».

Eis o ponto capital.

2.º Autoridade da realeza de Cristo. — Vejamos os títulos da realeza de Cristo sobre todas as criaturas.

— Jesus Cristo é Rei como Filho de Deus.

Desde toda a eternidade, seu Pai deu-lhe em «herança os povos e em partilhas o universo inteiro.» E reina pela Sua onipotência sobre todo o universo.

— Jesus Cristo é Rei como Homem. — Desde o momento da Encarnação em que a natureza humana se uniu à natureza divina na Pessoa do Verbo, a humanidade de Jesus Cristo ficou com domínio soberano e com direito de reinar sobre todas as criaturas: ditar-lhes leis, exigir a Sua observância e, punir no caso de desobediência.

— Jesus Cristo é Rei como Redentor. — Estávamos sujeitos à escravidão do demônio, a pior das escravidões, porém, Jesus resgata-nos, não com ouro ou prata, mas pela sua Paixão e morte na Cruz. — E eis que as Suas lágrimas se convertem em pedras preciosas, — a Sua coroa de espinhos em coroa de glória, a Sua Cruz num trono cintilante, a Sua Ressurreição sela a vitória sobre a morte, a Sua Ascensão eleva-O para um trono acima de toda a criatura angélica e humana. E assim, por título de conquista e de triunfo, tem direito a reinar sobre todas as criaturas.

III—Função da realeza de Cristo

Jesus Cristo exerce a Sua realeza de harmonia com a natureza do Seu reino.

O reino de Jesus Cristo tem as seguintes características:

Reino espiritual. — Jesus Cristo afirma diante de Pilatos que o Seu reino não é deste mundo. A Sua realeza é espiritual, visa primeiramente não o bem temporal dos súbditos, mas o bem espiritual; quer mesmo que o bem temporal, fim imediato das soberanias terrenas, seja considerado não como fim último, mas como meio intermediário e útil para alcançar os bens eternos. — A realeza de Cristo é ainda espiritual porque os meios de que se serve para exercer a sua ação são espirituais ou espiri­tualizados.

Reino de verdade. — Ele diz falando de Si mesmo: «Eu sou a verdade; eu não nasci e não vim ao mundo senão para dar testemunho da verdade, para a fazer triunfar sobre a terra; todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. (Jo. XVIII, 37).

Reino de vida. — Este diz ainda: «eu vim para que os homens tenham vida e uma vida abundante:» Sofre, agoniza e morre para que os homens tenham a vida eterna.

Reino de santidade — A encarnação aproximou-O de nós, a Redenção elevou nos até Ele pela santidade que nos comunicou e que fez de nós membros do seu Corpo místico.

Reino de graça. — Pelos méritos da Sua Paixão e Morte recebemos o Espírito Santo com a abundância dos Seus dons. «Dessa plenitude todos nós recebemos».

Reino de amor. — A realeza de Cristo é uma realeza de amor porque o amor é o termo de tudo em Cristo. É para o amor que tendem todas as leis de Cristo-Rei; é ao amor mais perfeito que tendem os conselhos evangélicos. E é no Céu, que é o reino de Cristo, onde o amor atinge a plenitude da perfeição. A realeza de Cristo é uma realeza de amor porque n’Ele o amor não é somente o termo mas ainda o meio. Jesus Cristo quis-nos conquistar para Ele pelo amor. Manifesta o Seu amor na Encarnação, na Sua vida oculta, na Sua vida pública, na Sua doutrina, nos Seus milagres, na instituição da Eucaristia, na Sua divina misericórdia para com os pecadores, na Sua Paixão e Morte.

Reino de justiça. — Neste mundo exerce pouco o Seu poder coercivo. Expulsa os vendilhões do templo, anatematiza os fariseus, anuncia a ruína de Jerusalém; exercerá sobretudo a Sua justiça no dia das sanções definitivas. No dia de juízo final anuncia-se como um rei que julga toda a consciência e toda a vida. (Mat. XXV, 40).

Reino de paz. — O primeiro elemento da paz é a posse de um bem desejado. Deus promete esta paz aos homens de boa vontade. A boa vontade é a que é conforme com a vontade de Deus, que é expressa sobretudo na Sua lei. «Vivem em grande paz aqueles que amam a vossa lei.»

O segundo elemento da paz é a posse tranquila do bem desejado. Deus dá esta tranquilidade àqueles que lhe são sempre fiéis. «Bem-aventurado o servo bom e fiel».

O terceiro elemento da paz é a posse total do bem desejado. Esta paz e felicidade reserva-a Deus para aqueles que o amam e amarão por toda a eternidade. «Quem a Deus tem nada lhe falta, só Deus lhe basta».
«É a paz de Cristo no reino de Cristo».

Reino universal. — «Foram-lhe dados, em herança, os povos e em partilha o universo inteiro». — «Todos os reis da terra o hão-de adorar e todas as nações lhe estarão sujeitas.» Todo o poder terreno lhe deve, pois, ser submisso e governar segundo os seus princípios divinos. Toda a neutralidade, que pretende ignorá-lo, desconhecê-lo, é uma ofensa, todo o laicismo, que pretende combatê-lo, é um crime.

Reino eterno. — O seu reino, dizemos no Credo, não terá fim. «O seu domínio, diz o profeta Daniel, é um domínio eterno, que não terá fim, o seu reino não acabará jamais.» No dia da Ascensão tomou posse do seu reino eterno.

«Ao rei imortal dos séculos todo o louvor e toda a glória».

IV — Realização mística da realeza de Cristo na Igreja

Ciclo do Pentecostes. — A liturgia desde a Festa de Pentecostes até à Festa de Cristo-Rei, comemora a realeza de Cristo, na Sua Igreja, pelo Seu Espírito. Por exemplo, as parábolas, reproduzidas nos Evangelhos dominicais, significam a ação do Espírito no reino das almas, pela Sua graça.
Jesus Cristo, depois da Sua Ascensão ao Céu, envia o Espírito Santo à Sua Igreja que é o seu reino na terra.

Consideremos o dia soleníssimo do Pentecostes e contemplemos esse fenômeno divino, vibrando intensamente, clamando admiravelmente, e enchendo inteiramente o fundo da alma. Repleti sunt omnes.

Nunca houve acontecimento sobrenatural que produzisse efeitos mais extraordinários!

Estando os Apóstolos e Maria Santíssima reunidos no Cenáculo, o Espírito Santo desceu sobre eles. «De repente produziu-se, vindo do Céu, um ruído, como de um vento impetuoso que encheu toda a casa onde estavam sentados. Viram aparecer então línguas separadas umas das outras que eram como fogo e pousavam sobre cada um deles; e todos foram cheios do Espírito Santo.» (Act. II, 1-4).

Factus est repente de coelo sonus, tanquam advenientis spiritus vehementis: de repente produziu-se, vindo do Céu, um ruído, como que de vento impetuoso.

— Primeiramente o vento! O vento corre, voa, e, como mensageiro misterioso, lança por toda a parte, espalha ao longe e ao largo, o pólen e o aroma das flores. Bela imagem da ação do Espírito Santo que trás nas suas asas robustas, a vida da graça que se faz sentir nas almas logo que lha comunica.

Apparuerunt despertitae linguae.—Viram aparecer então línguas separadas.

Depois a língua! A língua é o símbolo mais expressivo e mais brilhante da palavra: da palavra que é a límpida voz do espírito, da palavra que é tão leve como o ar e que leva às mais longínquas regiões a semente das doutrinas como o vento leva a semente das plantas. A vida divina foi também manifestada à terra no mais belo dos emblemas; no sinal frisantíssimo das línguas: viram-se aparecer então línguas separadas.

Linguae tanquam ignis. Como línguas de fogo e pousaram uma sobre cada um deles.

E, por fim, o fogo! Deus noster ignis consumens est. O nosso Deus, diz São Paulo, é como o fogo. O fogo é o elemento mais ativo e mais universal da criação. O fogo ilumina, aquece, depura, aviventa e fecunda! Semelhante é a Sua ação nas almas. Sob os Seus influxos a alma ilumina-se, o coração inflama-se, a fantasia depura-se, a vida aperfeiçoa-se e torna-se abundante em frutos preciosíssimos de virtude.

Continuará...
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