segunda-feira, 24 de junho de 2013

Graça atual - Primeira parte

Nota do blogue: Acompanhar esse Especial AQUI.
Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950

2 — Graça atual

Que é a graça atual?

É um auxílio intrínseco, sobrenatural, transitório pelo qual Deus excita, move e sustenta as nossas faculdades para produzir atos sobrenaturais.

1.º Auxílio.—Auxílio quer dizer um apoio, uma ajuda dada ou prestada a alguém para conseguir um efeito impossível ou difícil de produzir por si mesmo. A noção do auxílio supõe, pois, na pessoa ou coisa que recebe o auxílio, potências de ação. É o que se dá com a graça atual.

2.º Auxílio intrínseco. — O auxílio pode exercer a sua influência ou imediatamente ou mediatamente sobre as faculdades. Por exemplo: Uma pessoa vê mal, tem má vista, deseja um auxílio para ver melhor; se o auxílio empregado opera imediatamente sobre os nervos ópticos para lhe dar uma potência visual mais considerável, este auxílio é chamado intrínseco porque penetra intus, na potência de ação; se o auxílio consiste em pôr lunetas diante dos olhos, este auxílio, não operando imediatamente sobre o princípio visual, é chamado extrínseco porque fica extra, fora da potência. A graça atual, propriamente dita, é um socorro intrínseco porque opera imediatamente sobre as nossas faculdades.


Chamam-se também, na linguagem vulgar, graças atuais, a estes auxílios extrínsecos: como a pregação, o bom exemplo, uma provação; mas, na linguagem teológica, são graças atuais impropriamente ditas.

3.º Auxílio intrínseco sobrenatural. — É chamado sobrenatural, não precisamente porque é dado por Deus, porque, mesmo na ordem natural, recebemos tudo de Deus, mas porque é gratuitamente dado por Deus, além do que nos é devido por natureza, e é ordenado a operações de ordem sobrenatural.

4.º Auxílio intrínseco sobrenatural transitório. — Este qualificativo transitório distingue perfeitamente a graça atual da graça santificante, que é, como temos dito, uma qualidade, de sua natureza, permanente.

5.º Auxílio pelo qual Deus excita, move e sustenta as nossas faculdades para as levar a produzir atos sobrenaturais. — Falando da graça santificante, dissemos que um dos seus efeitos era dar-nos faculdades aptas para produzir atos sobrenaturais; mas estas faculdades para passarem de potência a ato devem ser excitadas, movidas, sustentadas. Quem lhes dá esta moção? A graça atual.

1 —Modo da ação da graça atual

Relativamente ao modo ou maneira como são concedidas, há graças interiores e graças exte­riores.

1.º Graças interiores. — Estas são comunicadas diretamente pelo próprio Deus. Fisicamente, acrescentando forças novas às nossas faculdades demasiado fracas para o bem por si mesmas; tal a mãe que tem o filho nos braços e o ajuda, não somente com a voz senão também com o gesto, a dar alguns passos para a frente.

Quais são as faculdades sobre as quais opera a graça atual? São a inteligência e a vontade. Esse socorro divino, que nos chega em tempo oportuno, é luz para a inteligência e estímulo para a vontade; são os bons pensamentos, afetos piedosos, impulsos generosos que nos movem para o bem. Moralmente, a graça influi em nós pela persuasão, pelos atrativos, à maneira de uma mãe que para ajudar o filho a andar, suavemente o chama e atrai prometendo-lhe uma recompensa.

2.º Graças exteriores. — São os meios que Deus dispõe em redor de nós para incitar-nos ao bem: educação cristã, exortações, leituras piedosas, bons exemplos.

Relativamente ao modo como influem no ato, há a graça antecedente e a adjuvante ou concomitante conforme antecede o nosso livre consentimento ou o acompanha na realização do ato. Assim, por exemplo, vem-me o pensamento de fazer um ato de amor de Deus, sem que eu tenha feito coisa alguma para o suscitar, é a graça antecedente; se o recebo bem e me esforço por produzir esse ato de amor, faço-o com o auxílio da graça adjuvante ou concomitante.

Para bem compreendermos o que é a graça vejamos um quadro da vida de santo André Corsino.

Santo André Corsino era filho de uma ilustre família de Florença. Sua mãe inspirou-lhe desde a mais tenra idade o santo temor e amor de Deus.

Era dotado de um caráter excelente, mas tão vivo, tão inclinado a todo o gênero de passatempos, que nem os bons exemplos de seus pais, nem os prudentes conselhos dos mestres foram bastante para que se conservasse bom. Tornou-se mau e muito contribuiu para isso a companhia de outros jovens da sua idade, uns levianos, outros dissolutos. Na desolação em que a mergulhava a vida dissoluta e incorrigível do filho, a piedosa mãe pedia muito à Santíssima Virgem que protegesse o seu filho por cuja intercessão o havia obtido de Deus e ao serviço do qual o consagrara desde o seu nascimento.

Não ficou sem fruto uma confiança tão grande na Santíssima Virgem.

Um dia, em que André se dispunha a sair para certa diversão, notou que sua mãe se estava desfazendo em lágrimas. Em parte por ternura e em parte por curiosidade perguntou-lhe o motivo do seu pranto!

Choro, meu filho, respondeu a virtuosa mãe, por ver realizado um sonho que tive no dia anterior ao teu nascimento. Imaginei ter dado à luz um pequeno lobo; mas não ocultarei que também vi este lobo convertido em manso cordeiro quando entrava na igreja dos Padres Carmelitas. Ditosa, pois, seria a tua pobre mãe, se, antes de morrer, visse o lobo convertido em cordeiro.

Estas palavras acompanhadas de uma torrente de lágrimas calaram profundamente no coração do jovem. Fez-lhe grande impressão aquele sonho, porém, maior ainda a realidade.

À graça vindo em seu auxílio, acabou a obra da conversão.

Consolai-vos, minha boa mãe, disse ele, que não se perderam as vossas orações nem as vossas lágrimas. Perdoai-me todas as tristezas que vos tenho causado pela minha má vida, e obtendo-me pela vossas orações o perdão dos meus pecados. No dia seguinte foi ao convento dos Carmelitas, e depois de haver orado, junto do altar da Santíssima Virgem, ei-lo suplicante aos pés do superior dos Carmelitas pedindo-lhe humildemente que o admitisse na sua ordem.

Desde então teve uma vida exemplar, e como santo o veneramos nos altares.

Consideremos um pouco os dons que Nosso Senhor concedeu a santo André Corsino.

1.º Primeiramente deu-lhe a vida; conservou-lha. Deu-lhe saúde, forças, talento e dinheiro. Tudo isto são favores de Deus. Estes dons são o que o Catecismo chama graças ? Não; a graça é uma coisa muito melhor que estes dons naturais.

2.º Deu-lhe Deus também bons pais que, por sua vez, lhe deram a educação, a instrução. A educação, a instrução, são graças? São graças exteriores. Estas graças podem não chegar à alma. E também pode acontecer que se apaguem na alma essas luzes e inspirações divinas. Assim sucedeu a André.

Recordemos, porém, agora, o que sucedeu quando sua mãe lhe contou o sonho.

Parecia que despertava de outro sonho ! Compreendeu bem a ingratidão, a rebeldia, a dureza para com sua mãe, durante doze anos. Compreendeu também as ofensas que tinha feito a Deus; compreendeu, finalmente, que caminhava a passos de gigante para o inferno, se não mudasse de vida e comoveu-se tanto o seu coração, que se decidiu a mudar de conduta.

Essa luz que Deus fez brilhar no seu entendimento, essa impressão que produziu no seu coração, aquela mudança que se operou nele, de maneira que de perverso se fez santo, são graças interiores, porque chegam à alma, às suas potências, ao entendimento e à vontade.

A graça é propriamente um dom interior que Deus nos concede para nossa salvação.

2 —Cooperação com a graça atual

1— Deus dá a todos as graças necessárias

Deus dá nos a graça atual sempre que dela precisamos ou a pedimos com as devidas disposições. A Sagrada Escritura ensina que Deus «quer salvar todos os homens». (Tim. II, 4); logo dá as graças suficientes de salvação. Se muitos não conseguirem a salvação, será por negligência ou má vontade. Deus nos deu a liberdade e a respeita, para depois, nos recompensar, se correspondermos à sua graça e castigar-nos, se resistirmos. É certo, pois, que:

1.º os justos, têm graça suficiente para perseverar; «Deus não quer que sejamos tentados acima das nossas forças.» (I Cor. X, 13).

2.º Os pecadores, endurecidos embora, podem converter-se: «Deus não quer a morte do ímpio, quer a sua conversão.» (Ezeq. III, 11). Os próprios infiéis, podem salvar-se: têm a lei natural e, se a observarem. Deus recompensará esta fidelidade; 4.° Também as crianças que morrem sem baptismo não são privadas da graça suficiente à salvação. Se a não possuírem, é o resultado de ocorrências que não dependem diretamente da vontade de Deus.

2 — Todos devem cooperar com a graça

São Paulo exorta-nos a não receber em vão a graça de Deus. «Ora sendo nós cooperadores de Cristo vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus». (II Cor. VI, 1).


Devemos cooperar com a graça para que esta frutifique em nós. A terra sem a água nada produz; mas a água sem boa terra também não pode dar fruto algum. Da mesma maneira, a vontade não pode quase nada sem a graça, mas a graça não pode nada sem a vontade.

Para cooperarmos com a graça devemos ter as seguintes disposições:

1.º Humildade profunda que faz ter a convicção de que, sem Deus, nada podemos. A nossa atitude perante Deus deve ser a de um pobre estendendo a sua mão descarnada a um rico, a do fraco solicitando a ajuda do forte, a do servo  recomendando-se ao seu senhor.

2.º Confiança inabalável, que nos faz orar com fervor e perseverança e esperar de Deus todas as graças necessárias, e nos faz crer que com a graça de Deus tudo podemos.

3.º Fidelidade vigilante, de maneira a não deixar perder nenhuma graça; fidelidade pronta, de maneira a corresponder imediatamente às inspirações divinas; fidelidade corajosa, não esperando graças fáceis e cômodas que fariam de nós santos sem custo e sem trabalho; nem graças invencíveis, que venceriam todas as nossas paixões sem combate da nossa parte.

Cooperando assim com a graça, ela será o verdadeiro fermento que fará levedar toda a nossa alma e fará dela o pão delicioso que Deus recolherá na arca eterna.

3- Excelência da graça

A graça é um dos bens mais preciosos, e é o tesouro da Trindade Santíssima e o tesouro do homem.

1.º A graça é o tesouro do Pai. — Para que criou Deus o mundo? Por causa do homem, para proveito do homem. Para que formou tão maravilhosamente o corpo do homem? Por causa da alma, para habitação da alma. Para que criou a alma à sua imagem e semelhança? Por causa da graça, para a adornar da graça santificante. A graça santificante é a coroa de todas as obras de Deus.

2.º A graça é o tesouro do Filho. — Para que veio o Verbo divino ao mundo, se fez homem, sofreu e morreu? Para que instituiu os sacramentos, especialmente a Eucaristia? Ele mesmo diz: «Eu vim para que os homens tenham vida e uma vida abundante — a vida da graça » (Jo. X, 10. A graça é o tesouro do Filho.

3.º A graça é o tesouro do Espírito. — O Espírito Santo conserva, neste mundo, muitas vezes hostil, a sua Igreja una, santa, católica e apostólica. Para quê? Para santificar as almas com a sua graça. A graça é o tesouro do Espírito Santo. Quando o número dos justos estiver completo e os pecadores deixarem de se converter, então acabará o mundo porque Deus fez tudo por causa dos seus eleitos e a graça santificante é a coroa de todas as suas obras.

4.º A graça é o tesouro do homem. — Consideremos a vida do mau rico e do pobre Lázaro.

Havia, diz o Evangelho, um homem rico, vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, banqueteava-se lautamente, gozava de todas as delícias e era estimado de toda a gente. Ser rico, gozar de todos os prazeres, ser estimado, aos olhos dos mundanos, é uma vida ideal! Todavia, esse homem era um desgraçado. Desgraçado porquê? Porque lhe faltava a graça de Deus. Morreu e foi sepultado no inferno.

— Havia também um homem chamado Lázaro. Era pobre, doente, da cabeça aos pés era uma chaga verminosa, e era desprezado de todos, só os cães é que tinham compaixão dele enquanto lhe iam lamber as feridas. Ser pobre, doente, desprezado de todos, aos olhos dos mundanos, é uma vida desgraçada! Todavia, Lázaro era um homem feliz. Feliz porquê? Porque tinha a graça de Deus. Morreu e foi gozar uma felicidade perfeita e eterna no seio de Abraão.

A graça, e só ela, é o tesouro do homem.

4. — Meios de aquisição da graça

Os meios para aquisição da graça são de duas qualidades: meio impetrativo e meios produtivos.

1.º Meio impetrativo da graça: A oração.

O meio normal, para alcançarmos todas as graças, é a oração. Nosso Senhor disse claramente: «Em verdade vos digo, se vós pedirdes a meu Pai alguma coisa, em meu nome, Ele vo-la dará.» (Jo. XVI, 23).

2.º Meios produtivos da graça: Os sacramentos.— Sacramento é um sinal sensível instituído por Jesus Cristo para significar e produzir a graça. Os sacramentos são sete porque também são sete as principais necessidades espirituais que correspondem aos sete atos principais da vida natural que é a imagem da sobrenatural. O homem nasce, cresce, tem necessidade de alimento, de remédio se está doente, de assistência particular nas enfermidades graves, de superiores que o dirijam, depois que o eduquem e provejam à sua necessidade na infância. Do mesmo modo, para a vida sobrenatural o homem nasce pelo batismo; cresce e fortifica-se pelo crisma; encontra o alimento sobrenatural na Eucaristia, o remédio eficaz contra o pecado na penitência, o conforto nas doenças em virtude da Extrema-Unção; é dirigido e governado pelos legítimos superiores em virtude da ordem; tem santificada a união, pela qual constitui família, no matrimônio.

Para que os sacramentos sejam, para nós, fontes abundantes de graça devemos recebê-los com as devidas disposições e frequentemente.

Reflexões e resoluções. — Agora com os olhos da minha alma fixos em Jesus Crucificado, faço reflexões sobre o valor infinito da graça divina, e tomo a resolução de pedir a Deus a graça que me é necessária para a minha santificação e salvação e de a aumentar constantemente pela oração, boas obras e bom uso dos sacramentos.


Maria Santíssima, minha boa Mãe, ajudai-me a ser fiel a estas resoluções. Assim seja.
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