sexta-feira, 14 de junho de 2013

Exercícios Espirituais para Crianças - Pecado (Final)

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.
Fr. Manuel Sancho, 
Exercícios Espirituais para Crianças
1955

PARTE PRIMEIRA
A conversão da vida do pecado à vida da graça
(Vida Purgativa. — 1.ª semana)


7. — O pecado é de duas maneiras: mortal e venial. Que será pecado mortal? Diz o catecismo que “é uma infração da lei de Deus em matéria grave”. Uma pessoa que diz uma blasfêmia contra Deus comete um pecado grave, porque viola o primeiro mandamento em matéria grave.

E que é pecado venial? É violar a lei de Deus em matéria leve, ou, violando-a em matéria grave, não o fazer com plena advertência ou consentimento, como acontece aos semi-dormidos.

Quem prega uma mentira que não causa dano ao próximo comete um pecado venial, porque viola o oitavo mandamento em matéria leve. Mas quem roubar uma boa soma de dinheiro cometerá um pecado mortal, por violar em matéria grave o sétimo mandamento, que manda não furtar; porém, roubando uma quantia pequenina cometerá um pecado venial, por ser leve a matéria do furto. Faltar à missa inteira ou a parte considerável dela nos dias de festa de guarda, será pecado mortal; faltar voluntariamente somente ao introito e à epístola será pecado venial.

Creio que tereis entendido esta matéria.

8. — Perguntará talvez algum de vós: Mas será possível que o pecado seja coisa assim tão grave? Afinal de contas é uma ação humana. — Sim, é uma ação humana, mas que traz consigo uma injúria a Deus, e neste sentido pode-se dizer que é um mal infinito, porque com ele se,ofende a um Deus infinito, visto a injúria crescer com a dignidade da pessoa injuriada. Se um menino falta a outro menino da sua condição, isso é um pecadinho de pouca monta; mas, se falta a um cavalheiro digno, a injúria já é muito maior; e, se falta ao rei, então é uma ofensa muito grave. Que será, pois, ofender a Deus por um pecado mortal? Ponderai bem, no pecado, esta diferença entre o ofendido e o ofensor. O pecador, aquele que ofende, é um homem, uma criança, uma mísera criatura feita por Deus; o ofendido é esse mesmo Deus criador daquele que o ofende, sapientíssimo, santíssimo, infinito nas Suas perfeições. E que foi que Deus fez ao pecador? Só bem. E como o pecador Lhe paga? Com o pecado. Será que Deus não o advertiu de quão terrivelmente ele O ofende pecando? Advertiu-o sim, e ele o sabe pelo catecismo, por seus mestres, pelo sacerdote, como eu vo-lo ensino agora, e pela própria consciência. E Deus pode matá-lo no momento de pecar? Pode. E lançá-lo no inferno? Sim, imediatamente. Como, pois, esse homem, esse menino, se atreve a pecar? Devem estar loucos. Com razão a Sagrada Escritura chama loucos os pecadores.

Havia um rei magnífico que só fazia bem aos seus súditos. Um dia, indo pela cidade, encontrou-se com um menino farrapento, atirado na sarjeta, e, compadecido dele, fez que o lavassem e o vestissem com as vestes do Príncipe; levou-o consigo para o palácio, adotou-o como filho, e o Príncipe, filho do rei, amou-o como irmão. Assim amimado, o menino da sarjeta cresceu no meio da abundância e da graça do rei, pois deste só favores recebia. Mas um dia ele esbofeteou o Príncipe, que tanto o amava, e, se não o matou, foi por não ter podido. Irado, o rei disse: “Queimem-no numa fogueira”. E assim teria sido feito, se o príncipe não houvesse intercedido por aquele miserável.

Escutai a aplicação desta parábola. O rei, quer dizer, Deus, tira o homem da sarjeta deste mundo, do pecado original; a Igreja lava-o na pia batismal, veste-o com a veste da graça; Deus leva-o para o seu palácio, para a Igreja. O Príncipe, Jesus Cristo, acolhe-o como irmão; ele cresce no seio da Igreja no meio da abundância de graças pelos sacramentos... E o grande ingrato peca, o que quer dizer esbofetear a Jesus Cristo e crucificá-lO de novo. Ante essa ofensa, que à consideração se oferece desmedida, pela grandeza de Deus ofendido e pela vileza do ofensor, o Rei, Deus, condena-o às chamas do inferno. Intercede por ele o Príncipe, Jesus Cristo, e o pecador, arrependido, recupera a graça de Deus ofendido. Esta é, meus filhos, a história de todos os dias.

Este exemplo que vos ponho diante dos olhos para excitar a vossa imaginação e para que pausadamente lhe mediteis a aplicação, far-vos-á vislumbrar e sentir a horribilidade do pecado mortal. É um mal tão terrível que, para lhe apagar as consequências, o próprio Deus teve de Se encarnar e de padecer e morrer por nós. Só assim o homem pecador pôde saldar a conta infinita que, pelo pecado, havia contraído com Deus.

Sendo este o único mal verdadeiro que se nos opõe para a consecução do nosso fim último, segue-se que devemos aborrecê-lo e evitá-lo sobretudo. O resto é insignificante em comparação com o pecado, e devemos evitá-lo na medida em que nos leva ao pecado e devemos procurá-lo na medida em que nos afasta do pecado. Eis aqui o único mal que deveis evitar: o pecado.

Estais lembrados do automóvel em que fazíamos uma viagem ao sítio ameno? Pois bem: de repente, quando ele melhor vai subindo, seguindo as curvas da estrada, topa com um tronco atravessado que o impede de prosseguir. Os viajantes, e com eles o motorista, descem do auto e examinam-lhe todo o complicado mecanismo; um aperta um parafuso, outro enche mais os pneumáticos, outro põe mais gasolina no depósito: fazem tudo, menos tirar o pau. O auto quer prosseguir, tropeça no tronco, e torna a parar, e eles voltam a examiná-lo detidamente, peça por peça: em tirar o tronco ninguém pensa. Que diríeis de toda essa gente? Que são uns refinados tolos, pois não tiram o único obstáculo verdadeiro, o tronco que os impede de seguir seu caminho.

Da mesma maneira, os que, em vez de tirarem o pecado, único obstáculo verdadeiro que os impede de se achegarem de Deus, se entretém em outras ninharias deste mundo, como estão longe de alcançar a verdadeira felicidade! Como estão longe de Deus, fim único da alma! Não percais, pois, totalmente o vosso tempo em brincar ou em fazer bulha; pensai amiúde em Deus, procurai servi-lO, e para isto tirai o único obstáculo verdadeiro, que é o pecado. Desterrai de vossas almas a inveja, a preguiça, os pecados feios, a vingança, e, para conseguir isto, começai por limpar vossas almas desses obstáculos por meio de uma confissão, e este será o primeiro passo para começardes a servir a Deus. Depois, limpas já as vossas almas por este sacramento, podereis andar e mesmo correr pelo caminho que a Deus conduz, como o auto seguiria veloz o seu caminho se tirassem o tronco atravessado na estrada.

Preparai-vos, pois, meus filhos, para fa­zer uma boa confissão. Mas disto trataremos em breve.

Agora, recorrei à Virgem Maria, para que vos ajude nos vossos propósitos, e dizei-lhe: “Mãe nossa, somos crianças inconstantes e fracas: supri, Vós, Senhora, aos nossos defeitos. Estamos certos de que, com o Vosso auxílio, começaremos a caminhar desde já pela trilha da salvação”. Ficai certos de que Ela vos ouvirá, e reforçará nos vossos corações estes primeiros propósitos.

Pedi-lho comigo de joelhos, rezando-lhe três Ave-Marias.

Continuará com o capítulo: Inimigos da alma...
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