terça-feira, 6 de abril de 2010

"A subida do Calvário"

"A subida do Calvário"
Padre Louis Perroy


PREFÁCIO
(Padre Leonel Franca, S.J.)

Para a humanidade remida a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo não tem apenas o interesse de um fato histórico para sempre desaparecido no passado irrevogável; é uma realidade sublime que continua a palpitar na vida espiritual das almas.

O Sacrifício do Gólgota é o grande ato religioso que, em nome da humanidade prevaricadora, ofereceu o Salvador à majestade infinita de Deus. Só pela Cruz podem elevar-se, aceitas, até o Seu trono as homenagens do nosso amor e da nossa gratidão, os nossos arrependimentos e as nossas súplicas; só pela Cruz descem até nós, com o perdão da Sua misericórdia, todos os benefícios da Sua bondade.

Nesta permuta entre a plenitude divina e a indigência criada resume-se toda a nossa vida religiosa, de que o Calvário é o centro necessário. As nossas almas hoje vivem tanto daquele Sangue divino que ainda continua a oferecer-se nos nossos altares, quanto as de João ou Madalena que, com os seus olhos, O viram correr das Chagas benditas do Redentor.

É por isso que sobre a simples meditação do sofrimento de Cristo se projeta algo da eficácia intrínseca do Seu Sangue redentor. À claridade da Cruz ilumina-se o grande problema da dor, trama necessária de que se entretece toda a existência humana. O sofrer tem um significado e as lágrimas um valor inestimável. Bem-aventurados os que choram, porque a dor eleva, purifica, expia, associa-nos numa comunhão inefável à missão redentora de Jesus. E quando a inteligência, iluminada pela graça, penetra estas razões superiores do sofrimento, o coração sofre com mais dignidade, com mais resignação, com mais amor.

A convicção da fecundidade divina das nossas lágrimas é o bálsamo mais eficaz para uma alma ferida. A dor que nos pode aproximar do Infinito Bem será sempre, na feliz expressão de um grande convertido moderno, uma dor bendita, “la bonne souffrance” (François Coppée).

Entre os autores recentes que escreveram sobre este assunto inesgotável, poucos o fizeram com tanta felicidade como o Padre Louis Perroy. Conhecimento visual dos lugares santos em que se desenrolaram as grandes cenas da Paixão, familiaridade com as fontes e documentos que permitem uma reconstrução histórica exata, experiência profunda do coração humano concorrem harmoniosamente para dar ao seu livro um interesse raro. Nestas páginas em que a simplicidade do Evangelho, a fineza da psicologia, a unção da piedade tão espontaneamente se completam, inúmeras almas, nas suas agonias interiores, encontraram luz, força e consolo.

Com o intuito de ampliar, entre os nossos leitores, o raio desta influência benfazeja, teve o sr. Luiz Leal Ferreira a idéia inspirada de nos oferecer uma cuidadosa tradução do livro do Pe. Perroy. Foi uma ação boa, destas que têm por alma a caridade cristã. Em recompensa, todos a quem beneficiar a sua leitura lhe ficarão devendo gratidão e amizade. Amigo e benfeitor nosso é quem nos estende a mão para ajudar-nos a bem sofrer. Numa terra devastada pelo pecado todo homem deverá subir o seu Calvário. Subi-lo com o Cristo e à imitação do Cristo é a única via de redenção eficaz.

INTRODUÇÃO
Mors mea, vita tua” – “A minha morte restitui-te a vida”.
(Inscrição gravada sob o grande Crucifixo da Catedral de Ancona)

Fora da cidade de Jerusalém, ao noroeste, pertinho das muralhas, erguiam-se defronte um do outro dois cabeços rochosos, dois montículos de quatro a cinco metros de altura, separados por estreito valado de vinte e cinco metros de largura aproximadamente, coberto de oliveiras, de figueiras e de jardins. O montículo mais próximo do baluarte rematava num cume em forma de crânio arredondado, nu, bravio; era aí que se executavam os condenados à morte. Chamava-se a esse cume desolado o Calvário; pertencia à cidade.

Em frente mesmo desse Calvário, o montículo que emergia dos jardins e das árvores, do outro lado do valado, havia, talhado numa rocha viva dos flancos, um túmulo composto, consoante o uso, dum átrio no fundo do qual se abria um vão muito baixo que dava para uma pequena câmara sepulcral, ocupada na metade da largura por um banco rochoso onde se depunha o corpo amortalhado e aromatizado; pertencia este túmulo, bem como os jardins contíguos, a um certo José de Arimatéia.

Foi nesse espaço estreito, no meio desses jardins, perto daquelas muralhas de Jerusalém onde se abria a Porta Judiciária, foi naquele cimo nu, arredondado como um crânio, foi nesse sepulcro, que em três dias se verificaram os dois maiores acontecimentos que jamais se poderão desenrolar na humanidade: a Morte e a Ressurreição do Cristo.

Na vida do Filho do Homem tudo deve confinar com esses dois cimos sagrados. Muito havia que Deus, cuja Providência se estende da minúcia ao conjunto, preparara esse cenário de um drama sangrento e glorioso. Aqueles dois bruscos lances de rochas no meio da planície, de há muito os olhava Deus como o lugar terrível e bendito onde haveria de esquecer, ante o Sangue que devia inundar o primeiro e a glória que devia resplandecer do segundo, todo o Seu furor, as longas iniqüidades dos homens e as funestas conseqüências da desobediência de Adão.

Nos seus passeios ao redor da cidade, nas caminhadas por aquela planície, Jesus, rodeado dos discípulos, devia ter muitas vezes passado perto daquela rocha selvagem do Gólgota. Com que olhar devia fixá-la? “Eu vo-lo digo: tudo quanto os profetas anunciaram vai cumprir-se. O Filho do Homem será traído, entregue aos gentios, cuspido, flagelado e crucificado”. E os olhos se lhe pousavam sobre o cimo do Calvário; mas “ressuscitará ao terceiro dia”, e através das árvores que o circundavam com o seu pálido emaranhado de folhagens de oliveiras, divisava o túmulo, a pedra vitoriosamente abatida e Ele a surgir na luz esplendida das auroras.

Per Crucem ad Lucem: era pela Cruz que Ele devia chegar à glória.

O Calvário permanecerá, pois, para Ele, durante a vida mortal, como o ponto culminante de toda a Sua existência. Nascera para subi-lo, e subi-lo como Vítima. Porque Jesus é antes tudo Vítima Expiatória: Ele o sabe, Ele o sente, Ele o quis, e Seu Pai O encara primeiramente como tal.
É o primeiro papel do Cristo, a Sua primeira razão de ser: satisfazer a Justiça de Deus, reparar o ultraje feito a Deus, salvar a honra de Deus; quase se poderia dizer que a salvação dos homens vem depois; além do que, o Pai bem entende primeiramente de satisfazer a Sua Justiça tremenda, e Jesus terá de “pagar inteirinha a dívida sem remissão e sem misericórdia” (Bossuet, Segundo Sermão sobre a Paixão).

Durante mais de 4000 anos preparar-se-á esta suprema expiação. Como nessas tempestades que se formam lentamente, em que há primeiro nuvens sombrias, clarões aterradores e regougos longínquos, as cóleras divinas se amontoam de século em século através da humanidade culpada.

Por vezes o braço de Deus sai como um relâmpago e traça a grandes traços, bruscos e rápidos, um esboço do Seu furor. Conta Ele acabar mais tarde: a príncipio são simples bosquejos trágicos ou sangrentos até nos animais. Assim a vaca avermelhada que imolavam pelo povo no Monte das Oliveiras, em frente ao Templo; assim aquele bode impuro de testa carregada de borlas e fitas vermelhas – o vermelho era a cor do pecado – que enxotavam para o deserto através do Vale do Cedron, porque estava coberto das iniquidades de todos. Assim ainda aquele cordeiro que degolam todas as tardes no Templo pelas três horas.

Depois, o desígnio firma-se sobre homens; assim Isaac, o filho único, querido, em quem repousam as longas esperanças de seu pai; levam-no à montanha, e esta montanha é tão perto do Calvário!... É a rocha de Moriah, onde devia edificar-se o Templo. Ele próprio carrega a lenha do sacrifício, e é o pai quem o vai imolar: que lúgubre quadro!

É ainda Jó, caindo do pleno poderio à miséria de um monturo, à porta da sua cidade ou de sua casa!
Jonas, que atiram ao mar, de quem os homens se desvencilham como de um peso que atiça a cólera divina...
E no meio dessas figuras trágicas são exclamações que parece indicarem uma cólera opressiva.
Maledictus a Deo est qui pendet in lingno (Deut 21, 23): maldito o que pende da cruz!
Ó Deus! Que querem dizer estes enigmas?

Vimo-lo, vimo-lo, exclama súbito e mais abertamente Isaías, é um leproso, um desamparado, um abandonado, não se lhe pode olhar, é um verme da terra, um fustigado de Deus (Isaías 53, 4).

E este clamor gela de espanto quantos o ouvem.
Afinal, cumpriram-se os tempos: eis a Vítima real e esperada. O Cristo nasceu!
Que cioso cuidado põe Deus em conservá-lo antes que suba ao Calvário! Há a preparação remota: é como um envolvimento progressivo da Justiça irritada.

Nasce Ele: uma manjedoura de animais Lhe serve de berço; uma gruta fria, durante a noite, é-Lhe o primeiro teto; depois o exílio, a perseguição, o olvido; depois o trabalho necessário para comer o pão quotidiano. O suor da oficina, o penoso labor do carpinteiro. E depois são os outros e esfalfantes labores do apostolado.
Tudo é já instrumento de vingança nas mãos de Deus: a poeira das estradas, as tempestades do lago, a fome, a sede no deserto de Jericó durante quarenta dias, a fadiga no poço de Jacó. Há, sim, milagres que esplendem: são as flores com que Deus coroa a Vítima.
Eis aqui com efeito o derradeiro triunfo: passeiam regiamente essa Vítima de Bethfagé a Jerusalém, onde Ela entra pela Porta Dourada: Hosannah Filio David!

Então está tudo pronto para a rude ascensão do Calvário.

Instrumentos do suplício: desde os de primeira escolha, como Judas, Herodes, Caifás e Pilatos, até os de baixo estofo, como a mão de um criado, o escarro de um soldado.

Torturas do Coração: pulverização da honra, esmagamento do ser humano, nada é esquecido; todas as criaturas são convocadas para aí trabalharem, cada uma à sua hora.

Por fim, é a última, a áspera subida do Gólgota.

E por sobre aquele cume, o meigo, o sangrento semblante do Senhor, a erguer olhos súplices para o alto e podendo dizer com a certeza de ser atendido:

Pater, dimitte illis.

Meu Deus, perdoai-lhes. Eis todo o drama da Paixão.

Eu vou seguir, ó Jesus, passo a passo a Vossa esteira sangrenta até esse alto cimo. Quero tocar cada um dos instrumentos de suplício que Vós a ele encaminharam.

Quero pesar cada uma das torturas que Vos trituraram o Coração; e, quando, chegado ao termo dessa estrada real e dolorosa, eu vir inclinar-se sobre mim o semblante do Senhor, levarei estampada essa doce e essa sangrenta imagem.

Marcada deste cunho divino, a minha vida se transmudará, eu não olharei mais a terra, subirei mais alto que o Calvário... lá onde os Vossos olhos moribundos procuravam e achavam a glória satisfeita do Pai.
Deus, respice in faciem Christi tui (Sl 43, 10). Respice in me et miserere mei (Sl 24, 16).

Meu Deus, olhai primeiro o semblante do Senhor, Vosso Cristo... e depois, olhai mais abaixo e dignai-Vos compadecer-Vos de mim. Assim seja.

+++

(Belissimo texto recebido por e-mail - mantive os grifos)
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