quinta-feira, 15 de abril de 2010

A teologia cristã explicada por uma feminista

Nota: Feminista francesa Elisabeth Badinter, conhecida por defender a igualdade dos sexos.

A teologia cristã explicada por uma feminista

 

Apesar da mensagem de amor e do discurso igualitário de Cristo, a teologia cristã, em virtude de suas raízes judaicas, teve sua cota de responsabilidade no reforço e na justificação da autoridade paterna e marital, invocando constantemente dois textos carregados de conseqüências para a história da mulher.

O primeiro deles é o Gênesis (Capítulos 2 e 3). Lembremos rapidamente os três atos do drama.

Primeiro ato: a criação do homem que, mal saído das mãos de Deus, dá nome a todas as espécies animais criadas antes dele. Vendo-o decepcionado por não encontrar entre elas uma companheira que lhe servisse, Deus o adormece, retira-lhe uma das costelas e forma em torno um tecido de carne. Assim nasceu a mulher. O homem disse: "Esta agora é osso dos meus ossos, e carne da minha carne: esta será chamada de varoa, porquanto do varão foi formada."

Segundo ato: a mulher, responsável pelo pecado, é a perda do homem. Conhecemos os discursos tentadores da serpente que prometia a Eva ser semelhante a Deus e ter o conhecimento do Bem e do Mal. Ela comeu o fruto e ofereceu-o a Adão, que não o recusou. Vendo a desobediência de suas criaturas, Deus pediu explicações a Adão, já responsável pelo casal. Este respondeu piedosamente: "A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore e comi." Nesse incidente, a audácia, a curiosidade e a vontade de poder estavam com a mulher.

Terceiro ato: as maldições. Todos sabemos de cor as duas primeiras, lançadas sobre Eva: "Multiplicarei grandemente a tua dor e a tua conceição; com dor parirás teus filhos." Talvez tenhamos esquecido a terceira, carregada de conseqüências durante dezenas de séculos: "E a tua paixão será para o teu marido, e ele te dominará." O conceito de paixão implica necessariamente as idéias de passividade, de submissão e de alienação que definem a futura condição feminina.

Adão, confirmado em seu papel de senhor, foi condenado apenas a trabalhar arduamente e a morrer como Eva...

Desse texto maior e primeiro da Bíblia decorrem umas tantas conseqüências para a imagem e a condição de Eva. Mais acessível às tentações da carne e da vaidade, ela tornou-se culpada, por suas fraquezas, da infelicidade do homem. Ela aparecerá, na melhor das hipóteses, como uma criatura fraca e frívola.


... O segundo texto que exerceu um importante papel histórico para a condição feminina foi o de São Paulo, a Epístola aos Efésios. (Epístola aos Efésios, 5, 23-24) O apóstolo expõe ali uma teoria da igualdade que modifica totalmente o pensamento de Jesus. Por certo, diz Paulo, o homem e a mulher têm os mesmos direitos e os mesmos deveres. Mas trata-se de uma igualdade entre pessoas que não são idênticas, o que não exclui uma hierarquia.

O homem deve ser o chefe do casal, pois foi criado em primeiro lugar e deu origem à mulher. É a ele, portanto, que cabe o poder de mandar. Embora São Paulo acrescente que as ordens do marido deverão ser temperadas pelo amor e o respeito que deve à sua mulher, embora reconheça nesta um poder de persuasão (simples poder da retórica), é ao marido que compete a decisão final. São Paulo resumiu as relações do casal numa fórmula famosa durante séculos:

"Vós, maridos, amai as vossas próprias mulheres, como também Cristo amou a Igreja... assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos."

Essa tão contraditória teoria da igualdade na hierarquia tinha, forçosamente, de levar à eliminação de um dos termos. A imagem do pai e do marido ocupando o lugar de Cristo suplantou a igualdade proclamada por esse mesmo Cristo. São Paulo foi quem a criou, ao recomendar:

"Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos como ao Senhor... Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor... obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo." (Id. Ibid., 5, 22; 6, 1 e 5)

O Pai, o Marido, tinha portanto uma delegação dos poderes de Deus. Mesmo temperado pela ternura, seu poder era absoluto, despótico. E São Paulo recomendava à esposa, como outrora Aristóteles, observar um comportamento adequado à sua inferioridade, isto é, de modéstia e silêncio.

Assim referendadas, as prescrições da moral eclesiástica ressaltam, até o século XVII, a subordinação da mulher ao marido. Nos escritos do grande pregador lionês Benedicti, podemos ler:

"Se a mulher quer apossar-se do governo da casa contra a vontade do marido, quando ele lhe proíbe isso por alguma boa razão, ela peca, pois nada deve fazer contra o marido, a quem está submetida pelo direito humano e divino."(La somme des péchés, 1584 , citado por J.- L. Flandrin em Familles, Paris, Hachette, 1976, p. 124 -125)

E mais adiante:

"A mulher orgulhosa de sua benevolência, de sua beleza, de seus bens, de sua herança, despreza o marido recusando-se a lhe obedecer... Ela resiste assim à sentença de Deus, que quer a mulher sujeita ao marido, que é mais nobre e mais excelente do que a mulher, dado que é a imagem de Deus, e a mulher é apenas a imagem do homem."

Não menos real, ainda que mais discreta, deve ter sido a luta entre pais e filhos, e particularmente entre o pai e o filho, para que se imponha como uma lei divina o quarto mandamento do Decálogo: "Pai e Mãe honrarás, para que vivas longamente." Lendo essa lei, não podemos deixar de nos surpreender com idéia de barganha que sugere e com a ameaça indireta que encerra.

Era preciso que esse respeito — não falemos do amor — fosse bem pouco natural para que fosse necessário prescrevê-lo como lei! Era preciso também que fosse difícil honrar os pais para que nos prometessem em troca a recompensa suprema: a longa vida. Ou a punição exemplar em caso de não observância: a morte.

Os doutores da Igreja, que conheciam muito bem as relações reais entre pais e filhos (Lendo os manuais do sacramento da Confissão, não nos podemos deixar de surpreender com o grande número de questões relacionadas com o ódio e o desejo de morte entre pais e filhos) não insistiram nesse terrível assunto.

Contentaram-se em justificar a autoridade paterna repetindo que o Pai era responsável perante Deus pelos seus filhos, e que era preciso dar-lhe os meios de assumir tal responsabilidade. Legitimaram, por outro lado, a autoridade do marido, reforçando a teoria filosófica da desigualdade feminina.

(Texto extraído do livro: Um amor conquistado: O mito do amor materno, de Elisabeth Badinter)

PS: Grifos meus.
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