terça-feira, 20 de abril de 2010

As ocasiões perigosas - Teatro (Parte final)

Perigos do Mundo
As ocasiões perigosas - Teatro
(Parte final)


Teatro

Geralmente é imoral

Mesmo quando ele não fosse (e o é com freqüência) o acionamento de uma tese contrário aos princípios de uma santa moralidade, ainda quando não se achasse nele senão a pintura viva de costumes condenáveis, o jogo dramático das paixões humanas mais arrastadoras, nem por isso o teatro deixaria de ser um divertimento dos mais perigosos para uma jovem cuidosa de não criar de propósito, para a honestidade de sua vida, perigos e inextricáveis dificuldades.

As máximas mais falsas são nele correntemente aplaudidas, as paixões mais baixas são exaltadas, todas as desordens são pintadas e todas as fraquezas desculpadas. Nele ridiculariza-se por vezes a virtude ou procura-se torná-la odiosa; em compensação, o vício muitas vezes é coberto de flores. As instituições mais santas, os deveres mais sagrados da família e da sociedade são nele tratados com uma leviandade voluntária e um escandaloso desprezo. Como não haveriam tais espetáculos de ser condenados pela moral?

É uma ocasião de pecado

Tudo o que nele se vê e tudo o que nele se ouve é de natureza a leval ao mal. Os assuntos que nele se tratam são, muitas vezes, arriscados, os costumes que nele se vêem, a sociedade que nele se acotovela, aqueles cenários, aquelas luzes, aquela música, aqueles relatos apaixonados, aqueles enredos amorosos, tudo isso produz na imaginação de um jovem, no seu organismo sensível e nervoso, uma superexitação que cedo triunfará da sua consciência.

Não se pode ir ao teatro sem voltar dele com a mente perturbada, a vontade enervada, e os sentidos cheios de impressões molestas. Como poderia uma virtude, mesmo sólida, resistir a isso longo tempo?

"Não é verdade que o teatro fala a todos os sentidos ao mesmo tempo, fazendo-os solidários uns dos outros, afagando-os, exaltando-os, embriagando-os por todos os artifícios, arrancando-os a todo controle de pensamento refletido, exasperdo a nossa impressionabilidade pela luz, pelo ruído, pela atmosfera superaquecida e pelo contágio da multidão?"
(Eymieu)

E isso não é um perigo, um grande perigo? Esses sentidos que deveis acalmar, dominar, subjulgar, coisa às vezes difícil, iríeis, de pleno gosto e sem necessidade conduzi-los a semelhante embriaguez?

O que dele pensaram os próprios autores

Alexandre Dumas, autor de tantas peças de teatro, declara: "O teatro só imoral pode ser, nele se vêem e se dizem coisas que as jovens não devem nem olhar nem ouvir. Uma mãe prudente nunca deve ir a ele, e ainda menos a ele levar uma filha."

Jean-Jacques Rousseau, esse pensador tristemente célebre, escreveu: "A gente se arrepia à simples idéia dos horrores com que se enfeita a cena francesa. Sustento-o, e tomo por testemunha o espanto dos leitores; as matanças dos gladiadores eram menos bárbaras. Nelas fazia-se correr o sangue, é verdade, mas não se manchava a imaginação com crimes que fazem fremir."

Corneille inquietava-se muito com a responsabilidade que faziam pesar sobre ele as suas obras dramáticas, e no entanto soube dar nas suas tragédias admiráveis lições de grandeza de alma.

Racine teve os mesmos remorsos.
Quinault fez penitência severíssimas para redimir o mal que podia ter produzido pelas suas óperas.
Loulli morria sobre a cinza, gemendo à lembrança das suas composições musicais.

E no entanto todos esses autores não tinham tido uma musa desavergonhada! Essas inquietações e esses pesares dos mestres da cena dizem-nos muito sobre os perigos que nesta se encontram.

Por que o teatro é tão perigoso

Aqui deixemos falar o grande Bossuet:

"O amor, esse amor profano, culpado, é o fundo de todas as ficções teatrais! Torcei-o a vosso talante, dourai-o à vossa fantasia, é sempre a concupiscência da carne! o espetáculo empolga os olhos: os discursos, os cantos apaixonados penetram o coração pelos ouvidos. Às vezes a corrupção vem em grandes ondas; às vezes insinua-se como que gota a gota, e, no fim nem por isso se fica menos submerso, tem-se o mal no sangue antes que ele se declare pela febre. Debilitando-nos pouco a pouco, colocamo-nos num perigo evidente de cair, e essa grande debilitação já é um começo de queda. Tudo nele é perigoso. Acham-se nele insinuações imperceptíveis, sentimentos fracos e viciosos; nele se dá uma secreta isca a essa íntima disposição que amolenta a alma e abre o coração a todo o sensível; não se sabe bem o que se quer, mas afinal quer-se viver da vida dos sentidos."
(Máximas e Reflexões sobre a Comédia)

Todos os dias dizeis na vossa oração:

"E não nos deixeis cair em tentação", e de gosto vos iríeis lançar nela por vós mesmas? Tanto valeria dizer a Deus: Meu Deus, vou-me atirar ao fogo, fazei que ele não me queime! Ora, não se zomba assim de Deus.

Digam o que disserem, o teatro não é um lugar de reunião favorável para a donzela. Com efeito, faz perder o gosto da vida séria e faz sentir desgosto pelo recesso familiar, simples demais. No dia seguinte ao em que uma donzela tiver ido ao teatro, podeis estar mais ou menos certo de que ela bocejará à mesa, e de que não será só de fadiga. A peça e os personagens da peça dançar-lhe-ão diante dos olhos.

Aquele herói, aquele príncipe encantador que já lhe aprazia tanto no romance, quando a sua imaginação o vestia como melhor podia, eis que ela o viu sob a luz dos lustres, na seda e no cetim, com cabelos cacheados como nunca e com uma tez tão viva que ao pé dele as rosas empalideceriam. E ele falou, e sorriu, e, se é verdade que ela talvez não tenha vontade de tornar a encontrar o próprio ator, assaz verossímil é amar de bom grado alguém que se pareça com ele.

É preciso, também, dizer uma palavra do Cinema, visto como, nos nossos dias, é este o maior agente de vulgarização, de instrução pela imagem, de distração, e de desmoralização também!

De todos os divertimentos oferecidos ao povo, o Cinema é certamente um dos que mais fascinam! É a distração popular por excelência; as pessoas nele se precipitam todos os dias com uma espécie de frenesi!

A sucessão de suas cenas animadas, as imagens que passam sob os olhos dos espectadores permitem-lhes facilmente dar o impulso à imaginação. Esta chega, às vezes, até à sugestão, que (como vimos) pode induzir até à imitação.

A crônica dos tribunais aí está para no-lo dizer. Não nos devemos, pois, admirar-se, mesmo com filmes em si mesmos irrepreensíveis, o cinema muitas vezes realiza uma verdadeira obra de desmoralização. Servindo de ilustração viva a uma quantidade de romances nem sempre bons, o Cinema não pode deixar de influir de maneira nefasta na formação moral da juventude.

A ele se pode atribuir a baixa evidente do nível moral que se traduz pelos progressos crescentes de uma lamentável indiferença por tudo o que diz respeito ao dever, á consciência e à religião.

O Cinema poderia ser uma escola de moral. Há filmes que revolvem o que na alma há de mais nobre e de mais belo, e tem havido filmes realmente bons, moralizadors, alguns até de orientação católica.

Mas o resto?... o Cinema de todos os dias!...
Menina, tomai cuidado com o filme envenenador!

(Excertos do livro: Formação da donzela, do Pe. J. Baeteman)

PS: Grifos meus