sábado, 20 de março de 2010

A consciência e a donzela cristã

A consciência e a donzela cristã


O que é a consciência?

Diz Padre Gratry:

"Essa força que no fundo de nossa alma nos ordena o bem e, por um impulso irresistível, nos impele para a justiça e para a verdade; essa força clarividente que quebranta e reprime o nosso coração; essa força casta e pura que nos retém em face do mal, nos trava e nos detém; essa força irritada que se levanta e não quer mais calar-se quando o mal é cometido, que vibra e berra sob o próprio esforço tentado para abafá-la. Essa força é a voz de Deus que nos propõe a todo instante a questão de moral e a sua prova!"

Noutros termos, a consciência é o olho de Deus na alma do homem, é o eco da voz de Deus que nos fala pela nossa razão.

É um testemunho a quem nada escapa, que tudo vê, que ouve tudo, que prescruta tudo e que se lembra. É um juiz que não podemos corromper, que fica sendo espectador dos nossos atos para registrá-los e levá-los um dia ao tribunal de Deus.

Enfim, é um executor de justiça (Santa Catarrina de Sena cham-lhe o "cão de guarda" da alma) a que se não pode escapar. A consciência em nós é soberana, calma, invencível, incorruptível; quando ela diz: "Bem fizeste", a doçura consoladora da sua aprovação basta; ela anima ou consola. Mas, se é calcada aos pés, se a vontade demasiado fraca desobedece num momento de covardia ou de surpresa, ela então se ergue, implacável vingadora, algoz terrível que tortura e não perdoa.

A sua tortura chama-se o remorso.

Quando no deserto o leão dilacera a presa, farto e contente dorme. Quando um ser humano, sobretudo um cristão, pratica uma ação má, vela, tem medo, não dorme mais. Se quiser abafar essa voz interior, não o poderá; para isso teria que se abafar a si mesmo.

E não é tudo. Se se estuda a consciência do ponto de vista do papel que ela desempenha na vida, pode-se ainda dizer dela que é um avisador, um freio e um estimulante.

Com efeito, ela adverte dos perigos que a alma pode correr. Muitas vezes, uma voz misteriosa se lhe faz ouvir, que lhe diz: Toma cuidado! É a voz da consciência que vela. Ademais, ela retém nos declives fatais. Há horas de vertigem em que tudo parece soçobrar, em que a fascinação atrai com violência tal, que todo o ser desembesta... faz-se negro na alma... uma cabeçada, e pronto! Mas a gente sente então como que um freio que aperta, que tenta reagir e que nos detém à borda do abismo. É ainda a consciência.

Enfim, ela impele ao bem, e estimula pelas suas aprovações tão doces ou pelas suas censuras ardentes. É nisso, igualmente, quanto é precioso o seu concurso!

Seus três vereditos.

Ela fala, pois, porque, em última análise, ela é que manda à vontade. E pode dizer três coisas:

a) Faze isso, é bom - Quando ela fala e aponta o caminho, fica-se tranqüilo; esse caminho, que é o do dever, conduz sempre a Deus, ao mérito, à recompensa.

b) Não faça isso, é mau! - Passar além é pecar, é tornar-se culpado, transgredindo a lei. E essa lei da consciência é a que deve ser obedecida antes de todas as outras.

c) Faze o que quiseres. - Sucede, com efeito, achar-se a gente às vezes em presença de duas coisas igualmente lícitas, de dois caminhos igualmente bons ou julgados tais. Neste caso, a regra é escolher com toda liberdade. Mas uma verdadeira cristã o fará sempre de maneira que lhe parecer mais digna de Deus...

Seus três castigos.

Quando não se obedece à consciência, a esse instinto divino, a essa voz celeste que canta e proclama em nós a lei de Deus, ela tem três modos de punir e de castigar: a perturbação, o remorso, e o silêncio.

A perturbação é esse mal-estar que acompanha a falta, que faz a gente temer, ter medo.
O remorso é o olho implacável que persehuia Caim até ao túmulo.

"Na escuridão das noites como sob os raios do claro sol do meio-dia, nas vossas ocupações absorventes como no meio dos vossos sonhos, o remorso ergue-se diante de vós, exprobrando- vos os vossos desfalecimentos e as vossas covardias. A sua espada fria e cortante fura-vos ferozmente o coração e fá-lo aturar torturas de agonia. Visão e palavra de Deus após o crime, ele é inevitável e terrível! Esse castigo vos perseguirá por toda parte, e essa voz da consciência não a fareis calar. Tentai cloroformizar essa divina paciente servindo-lhe a mentira em pequena dose, a fim de vos aproveitardes do seu sono! Essa filha de Deus em nós tem vida dura, e não a matareis."
(Padre Vuillermet)

O que é ainda mais terrível que o remorso é o silêncio. O primeiro é uma graça, é um apelo, um socorro, uma punição misericordiosa. Mas o silêncio de Deus! o silêncio da consciência... uma lira quebrada que não ressoa mais, que não vibra mais! Tremei, se nunca ouvis mais ecoar em vós, doce ou terrível, a voz de Deus! porquanto, como disse o .Padre Monsabré:

"Deus nunca se retira de nós, nós é que nos retiramos Dele. Ele não se vai embora quando nós o esquecemos ou quando lhe declaramos guerra; fica, olhando-nos fazer as nossas tolices. Mas às vezes Ele se cala e se abstém, e eis o que é terrível."

Como formar a consciência.

Para formá-la, é preciso dar-lhe idéias fortes e idéias claras.

As idéias são convicções. Sem elas nada é sólido, nada é duradouro. Reduzida a fórmula vagas, e um curto sentimentalismo religioso que nada tem de profundo nem de estável, a lei acaba por fundir-se, nas lutas da vida, como a neve ao sol.

As idéias claras não são menos necessárias. Eu sou a Verdade, disse o Mestre, e a Verdade vos libertará. Antes de tudo, pois, no que concerne ao proceder, é preciso ver verdadeiro, é preciso ver claro. A verdade não admite certos entrajes que a desfiguram, repele o que é inexato, exagerado, vago, mesquinho, todo erro que germina numa consciência mal formada e que faz ver o pecado onde ele não está, e que o nega ou o atenua quando fora mister assinalá-lo bem.

Oh! quantas consciências deturpadas, errôneas, falsificadas, hesitantes, porque nal esclarecidas, porque falhas princípios ou fazendo-lhes mal a aplicação! Cumpre que, aos olhos da vossa, o bem e o mal sejam nitidamente determinados; do contrário a vontade tateia e não sabe para onde se dirigir. À vossa alma, à vossa consciência, proporcionai, pois, a clara luz da verdade.

Para que a vossa consciência seja bem formada, eis o que é preciso fazer:

a) Instruí-la.

"Aprendamos primeiro a pensar, dizia Pascal; é o fundamento da moral." É mister, pois, habituar-se a pensar sãmente sobre as coisas da consciência, conhecê-la, saber como ela age, o que é que a faz progredir, o que é que a ajuda, o que é que a prejudica ou poderia obscurecê-la; ter sobre a Fé, sobre a nossa responsabilidade, sobre toda a nossa vida moral, as luzes de uma santa doutrina.

Sendo a consciência "a ciência do coração", mister se torna possuir essa ciência, e para isto não é lógico instruir-se sobre ela? A cada instante na vida apresentam-se "casos de consciência" que devemos saber resolver.

Sem dúvida, às vezes podem-se pedir luzes aos depositários da verdade divina; porém as mais das vezes é necessário saber achar em si mesmo uma resposta clara a essas questões que se propõem com urgência.

Além dos princípios primordiais e naturais impressos no coração, há os preceitos positivos e os conselhos.

A vossa consciência deve ser justa e certa, isto é, conforme a todas as leis que podem atingi-la; enfim, deve ser capaz de vos dizer, sem receio de enganar-se: isto é permitido, isto é proibido. Mas, para instruí-la e formá-la, não bastaria vos contentardes com a pequena bagagem dada pela educação na família; precisais também escutar a explicação da palavra de Deus e, se puderdes, afeiçoar-vos à leitura de certos livros próprios para esclarecer a consciência e para dar ao juízo uma base sólida.

b) Segui-la sempre quando é reta.

Tudo o que é segundo a consciência é pecado, diz São Paulo. Interrogai-a, pois, como convém, e fazei-a reinar sobre a vossa vida; seja ela para vós uma luz que ilumine aos vossas dúvidas, uma força nos dias da luta, e uma consolação quando o dever exigir sacrifícios penosos.

Respeita-a; escutai-a; segui-a ...

Ó jovem cristã, tende sempre, no céu da vossa alma, as esplêndidas claridades dessa aurora; andai constantemente à luz benéfica que a consciência projetará sobre vosso caminho, mostrando-vos o dever.

Um soldado, no início da guerra, depois de se confessar, lá se ia alegremente para o "front". Como alguém lhe desejasse uma alegre volta, ele respondeu com um sorriso: "Voltar?... Oh! não me incomodo com isso, agora que tenho a consciência tranquila!"

Vós também, tende sempre a consciência tranqüila, é a única felicidade segura neste mundo, e a melhor preparação para os dias duradouros do outro.

(Excertos do livro: Formação da donzela -  Pe. José Baeteman)


PS: Grifos meus.
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