quarta-feira, 14 de abril de 2010

Donzela cristã: Inimigos que podeis encontrar.

Donzela cristã:
Inimigos que podeis encontrar.


"Ó mundo enganador, eu te aborreço a ti e a teus seguidores.
Jamais me hão de enxergar debaixo do teu jugo;
para sempre reconheço a tua insensatez
e digo adeus a tuas vaidades..."
(Filotéia, São Francisco de Sales)


I - No Mundo

1º - Que é o mundo

O mundo é o conjunto daqueles que não conhecem a Deus, que não O servem, não O amam, que O perseguem mesmo, e que, de olhos cravados na terra, não pensam no Céu. Para eles, só os bens deste mundo têm algum valor; os outros, os do além, não entram em linha de conta.

A divisa deles é aquela que os nossos santos Livros emprestam aos ímpios: "Coroemo-nos de rosas, bebamos, comamos, riamos, dancemos, porque amanhã morreremos."

E, coerentes com seus princípios, vivem eles à maneira dos animais, afagando o próprio corpo, de que fazem um ídolo, sem jamais levantarem os olhos para o Céu, nem pensarem na própria alma.

Não somente não pensam em Deus, mas O perseguem, a Ele e aos que Lhe são fiéis. A luta contra Deus é dirigida por empresários de prazeres, por certos mestres da moda, por todos os que lisonjeiam e divinizam as paixões mais brutais. Para eles o cristão é um inimigo, porque a sua vida austera e pura torna-se um espetáculo perturbador que os constrange e os condena. Para eles, Deus é um intruso, um pensamento inoportuno; a Sua presença choca como a de um hóspede desagradável que se impõe sem ter sido convidado. Suportam-no, mas o detestam!

Além da luta contra Deus, vê-se nele a luta contra os homens, um egoísmo requintado que faz que cada um abra o seu caminho como pode, com risco de semear à volta de si a dor e a ruína.

E esse meio, que forçosamente é o vosso, é cheio para vós de inimigos pérfidos. "Passeando num jardim, diz o P. Monsabré, aproximei-me de uma flor para colhê-la. Uma vespa regalava-se no fundo da corola. Mas... como sucedeu isso? Não sei, não a vi, não a toquei. E, no entanto, quando retirei a mão, estava picado. Eis aí o mundo! É cheio de insetos malfazejos."

E o perigo, para vós, consiste justamente em que esses "insetos malfazejos" estão disfarçados em graciosos personagens que vêm a vós com o sorriso nos lábios, oferecendo-vos veneno oculto por baixo de flores.

Na vossa idade, acredita-se pouco nos perigos do mundo; ficais com ar de espanto quando vos falam de inimigos. E no entanto o inimigo existe, e é preciso conhecê-lo bem para não ser vítima dele. Ele se chama o mundo e encarna-se numa multidão de personagens que juraram a perda de vossa alma.

Forte da vossa inexperiência, não credes nos perigos que vos espreitam. Tomai cuidado! Quando se é jovem, pode-se facilmente deixar-se deslumbrar, é a história da mariposa atraída pela chama... deixa nesta as asas.

Escutai os conselhos de um grande orador:

"Amais porventura o mundo, as suas festas ruidosas e mesmo familiares, onde a pessoa pode fazer-se valer por uma 'toilete' elegante, por essas vantagens que são o ornato de um salão?

Mas o mundo, este não vos ama, ou, se vos ama, é como se ama um instrumento de música, uma flor de camarim, uma veste de núpcias. Quando já não tendes idade para lhe divertir as festas, ele nem sequer se dá o trabalho de desvencilhar-se de vós como se faz com as rosas murchas; voltar-vos-á o rosto com piedade e passará a outras, que do mesmo modo desprezará. É tudo o que ele é e tudo o que ele pode. Não vos metais, pois, com ele, porque, se ele não dá coisa alguma, tira e desperdiça tudo o que lhe trazem. Não há virtude que fique intacta na alma de uma mulher mundana." (Tissier).

Tomai cuidado, menina! não vos deixeis atrair pelo mundo! Teríeis duríssimas ilusões! Ele se parece com esses objetos que, vistos de longe, enganam os olhos e seduzem a imaginação, mas que perdem todos os seus encantos mal nos aproximamos deles e os tocamos! Não vos deixeis fascinar por essas miragens enganadoras, o despertar seria terrivelmente doloroso!

2º -  O que o mundo promete sem pode dar

a) A Verdade. - A nossa inteligência reclama-a, precisa dela, tem dela uma sede inextinguível. Há almas fúteis e levianas que, à feição de Pilatos depois de perguntar: "Que é a verdade?", voltam as costas sem sequer esperarem pela resposta. O mundo promete-a, mas não a dá, porque não a tem e não a pode ter.

Nós queremos saber de onde vimos, para onde vamos e o que somos. São questões angustiantes que atormentam o espírito do homem quando ele quer refletir. A tudo isso o mundo só responde com gracejos insulsos, com bravatas que soam falso, e com teorias que rebentam no ar como bolhas de sabão.

Eis, porém, que no fundo de vossa alma uma voz calma e doce se faz ouvir em meio ao silêncio e vos diz: "A verdade sou eu!" Só um Deus pode falar assim. E esse Deus dá à criança do catecismo uma soma de verdade que o maior sábio jamais obterá só pelos seus esforços.

b) A Liberdade. - Por mais que a apregoe pelas paredes, o mundo que a oferece não a dará. E, no entanto, é realmente essa uma das mais belas promessas que ele faz ao coração, à alma, aos sentidos: "Vem a mim, serás livre, livre de pensar, de agir, de ler, de conhecer, de ver, de amar, livre de fazer tudo o que quiseres!" E a pobre alminha voa à conquista desse fantasma que foge sempre e que acaba por atraí-la a um abismo em que ela tomba! Aí, ao invés de liberdade, grilhões é que ela achará.

Na sua liturgia a Igreja tem esta bela palavra: "Servir a Deus é reinar." Pode-se revirar esta proposição e dizer que reinar no mundo é ser escravo. Se Deus se mostrasse aos nossos olhos tão exigente como o mundo, tão inflexível nas leis que nos impõem tão severo em seus castigos, a piedade seria um fardo insuportável!...

Eis aí a liberdade que o mundo dá às suas tristes vítimas, a liberdade de carregar grilhões!...

c) Felicidade. - Quem de nós não tem sede de felicidade? O nosso coração é um faminto, e, na juventude, arrastado por solicitações que o encantam, ele se lançará perdidamente pela trilha onde espera achar seu pábulo.

A felicidade? perguntai ao mundano se jamais a encontrou no seu caminho... Uns a procuram no dinheiro! Porém, quanto mais se tem, tanto mais se quer ter. Sofre-se para adquiri-lo, sofre-se para conservá-lo, e sempre se receia perdê-lo!

Outros buscam-na loucamente no prazer. Pobres infelizes! pesares, remorsos, lágrimas é que eles colherão!

Ó donzela que o mundo atrai, por mais que apareças, que brilhes, que agrades, que eclipses as outras; por mais que colhas todos os prazeres que a tua imaginação te faz crer tão doces e que se esvaem mal a gente se aproxima deles, acharás espinhos sob as rosas, e às vezes... lama!

Se queres a felicidade, vive lá onde Deus te colocou; a tua felicidade não está senão no dever, e na paz dada por uma boa consciência. Fora daí, talvez aches alguns instantes de prazer, mas não serás feliz.

Como canta um poeta cristão:

O pauvre ami, crois-moi, l'on n'est pas heureux
Lorsqu'on foule à ses pieds marbre et tapis joyeux;
Quand on a diamants, bijoux d'or, cachemires,
Esprit, grâce, fraîcheur, affections, sourires,
Sympathiques regards, autant qu'on en voudra...
Et qu'au fond de son coeur on sent que Dieu s'en va!...

Ó pobre amigo, crê-me, ninguém é feliz
Só por pisar o mármore e o alegre tapir!
Só por ter ricas jóias, roupas de valor,
Espírito e graça e sorrisos e frescor,
Simpáticos olhares, quantos desejar...
E dentro em o coração sentir Deus se afastar!...

Pascal também exprime isso com a sua lógica profunda:

"Os estóicos dizem: Entrai dentro de vós, lá é que está o repouso! e isso não é verdade. Os outros dirão: Saí para fora, buscai a felicidade divertindo-vos! e isso não é verdade. A felicidade não está nem em nós nem fora de nós está em Deus!"

Sim, só Deus vos dará a felicidade, o mundo só vos reserva decepções e remorsos. Pode ele oferecer-vos o prazer, mas não a felicidade. A felicidade é cristã, o prazer não o é!

3º - O mundo consoante Jesus Cristo

Que foi que Jesus Cristo pensou do mundo? A sua doutrina a este respeito iluminará a questão. Ora, há um fato inegável que lança sobre este ponto uma claridade deslumbrante.

Jesus desceu à terra. Se tivesse querido, poderia ter nascido nos degraus de um trono. Mas nasceu numa manjedoura de animais. Logo, se Ele não quis saber da riqueza, é que a riqueza nada é.

Poderia ter escolhido para mãe uma princesa, uma rainha. Mas, ao contrário, escolheu uma pobre menina desconhecida. Logo, as honras nada são, já que Ele as desdenhou.

Poderia ter vivido nos prazeres e nas alegrias do mundo. Mas nasce na humilhação, passa trinta anos de sua vida na oficina de um carpinteiro, morre como um escravo, como um celerado, numa Cruz. Logo, os prazeres e as alegrias do mundo nada são, pois Ele os repeliu.

Ora, riquezas, honrarias, prazeres em graus diversos e sob diverdas formas, são tudo o que o mundo estima e tudo o que promete. Concluo: ou o mundo me engana, ou então Deus é quem está no erro!...

Jesus disse:

- Ai do mundo por causa dos seus escândalos!
- Eu não rogo pelo mundo!

Palavras terríveis! Ele rogou pelos seus algozes, mas não quis rogar pelo mundo! Amaldiçoa-o!...
Há, pois, uma oposição completa entre Jesus Cristo e o mundo. As suas duas doutrinas se combatem.

- Jesus diz: Bem-aventurados os pobres!
O mundo: Bem-aventurados os ricos!
- Jesus: Bem-aventurados os mansos!
O mundo: Bem-aventurados os violentos!
- Jesus: Perdoa aos que te fazem mal!
O mundo: Vinga-te!
- Jesus: Bem-aventurados os que choram!
O mundo: Bem-aventurados os que riem!
- Jesus diz: Bem-aventurados os misericordiosos!
O mundo: Bem-aventurados os fortes, os poderosos, os que se fazem temer!
- Jesus diz: Sede puros!
O mundo: Ceva as tuas paixões!
- Jesus diz: Sê pacífico!
O mundo: Domina os outros, impõe tuas idéias, tuas razões, a todos e contra todos.

O mundo contradiz Jesus Cristo; é o Anticristo! Forçoso é, pois, escolher. Não se pode servir a dois senhores. Não se pode dividir o próprio coração entre duas doutrinas tão diametralmente opostas. Mas por que vos convidarmos a escolher? Já o fizestes. Lembrai-vos das promessas do vosso batismo, renovadas no dia da primeira comunhão: "Renuncio a Satnás, às suas obras, às suas pompas, e ligo-me a Jesus para sempre." É um juramento. Sereis perjura?

4º - A corrente do mundo

Apesar de tudo quanto sabemos do mundo, vemos famílias reputadas cristãs deixar-se levar pela corrente que arrasta, pela vaga que passa, a ponto de quase não as sabermos distinguir dessas outras famílias em que o mundo reina como senhor. É de fazer dó!

Umas como as outras têm os seus saraus, os seus bailes, os seus jornais e revistas cuja leviandade se ostenta com imprudência: vê-se nelas o mesmo luxo turbulento, quadros e objetos de arte pouquíssimos modestos...

É o caso de nos perguntarmos se realmente não estamos sonhando, e se esses "cristãos" degenerados conservaram alguma coisa da moral evangélica! Tereis de lutar contra essa invasão e, no vosso meio, reagir positivamente contra os que procuram servir a dois senhores ao mesmo tempo.

E depois tomai bem tento convosco!
Meditai estas reflexões de um escritor judicioso:

"Essa juventude que a casta e doce vida do lar doméstico não retém, não aprecia mais a encatadora intimidade dos seus. Lançada em breve no meio do turbilhão, já não a distinguireis da juventude mundana. É o mesmo temperamento doentio, nervoso, superexcitado por não sei que febre de emoções factícias e frívolas. O pecado atrai-a, ela lhe persegue a visão, o relato, senão o gozo. Aventura-se afoitamente até às fronteiras do mal, e, confiante demais na sua força, encontra-se com o vício no terreno, doravante comum, de todos os prazeres.

O luxo, o enfeite fascinam-na e embriagam-na; todas as suas preocupações são para futilidades, indignas de um cristão. Essa juventude ainda a vemos vir à igrejas, porém aí não reza quase; vemo-la aproximar-se dos sacramentos, mas por uma espécie de rotina e de formalidade religiosa. Na sua atitude geral ela esquece e ofende o espírito do cristianismo. Poderia ser a melhor e mais edificante juventude; porém, mesmo não querendo confessar-se mundana, o é; pretendendo-se cristã, já não o é mais. Eis a verdade."

... Menina, tomai cuidado com o mundo, porque, segundo o testemunho de Santa Teresa, "é impossível estar entre tantos animais venenosos sem ser mordido!"

(Excertos do livro: Formação da donzela, do Pe. J. Baeteman)

PS: Grifos meus
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