sexta-feira, 9 de abril de 2010

Deplorável ilusão

Deplorável ilusão

É um fenômeno da psicologia humana o exagero em questões afetiva. Tendo de amar seus filhos, não escapam as mães a esse fato. Ter uma bondade indulgente, paciente, inesgotável para com os filhos, é exigência de toda afeição verdadeira e profunda.

Mas a semelhança bondade não exclui a clarividência. Facilmente o amor materno converte a bondade em fraqueza, que desculpa o indesculpável e o prejudicial. Nem é raro ver-se uma mãe, num feroz egoísmo, sacrificar tudo e todos pelo filho.

Dizem as mães: somos assim porque queremos ver nossos filhos felizes. Poupamos a eles todo sofrimento e toda tristeza, porque terão tudo isso de sobra no correr da vida. Justamente isso é uma grande ilusão, leitora. Hoje querem as mães poupar os filhos pequenos padecimentos e diárias renúncias, para depois lhes multiplicarem os sofrimentos que fazem o quinhão da vida para todos.

Suprimindo as duras e pequeninas dolorosas realidades na vida infantil, formam um meio fictício e irreal para a criança. Ninguém aprova o jardineiro que, tendo de plantar uma árvore para ser sacudida pelas tempestades, a cria primeiramente dentro de uma estufa.

A criança acostuma-se a uma vida calma, acariciada, aveludada. Renúncia, contrariedade, dor - tudo lhe é terra desconhecida. De repente a vida muda os bastidores, de repente pega "do filhinho da mãezinha" e atira-o na torrente das lutas e abnegações. Teremos então um naufrágo. Cada espinho que mais ferir os pés desta criança, dela arrancará uma praga, uma revolta e, quem sabe, uma maldição para a mãe.

O mais certo, leitora atenta, é acostumar os filhos de Eva ao pranto e à renúncia de desterrados. Ir acostumando-os, desde pequenos, para não estranharem mais tarde o inevitável. Desterra de tua casa, mãe cristã, esse amor míope e obcecado.

O que é mais fácil para teu filho: sofrer a teu lado, num progressivo noviciado, confortado pelo bom exemplo da mãe, ou ser surprendido longe de ti pela via-sacra da vida?

Não se logra a vida da infância, sem comprometê-la para o futuro. Além disso, os princípios cristãos protestam energicamente contra semelhante moleza. O cristão há de ser um penitente e na penitência há de ser educado, porque dentro dela tem de viver. Que imenso mal causa à alma da criança a mãe sem compreensão dessa lei, sem amor a esse remédio!

Não há dúvida, leitora, contrariar uma criança, aturar suas queixas e lágrimas até ao dia em que se convence de que tudo isso nada lhe adianta, não é agradável. É bem mais cômodo contentar-lhe as exigências... para ter o sossego. Outra vez vem a nosso encontro o egoísmo materno.

(Excertos do livro: As três chamas do lar, do Pe. Geraldo Pires de Souza)

PS: Grifos meus
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